domingo, 24 de setembro de 2017

HOMILIA DO XXV DOMINGO DO TEMPO COMUM ANO A

HOMILIA DO XXV DOMINGO DO TEMPO COMUM ANO A

OS SALÁRIO DO OPERÁRIO FIEL É A VIDA ETERNA

Na meditação deste domingo, novamente, o Senhor, falando em parábolas, anuncia ao povo a salvação. O caminho salvador é uma graça que Deus abre a todas as pessoas, mesmo aquelas chamadas nas últimas horas. Essa referencia final, com muita certeza, faz-se aos convertidos que vinham das diásporas e fora da palestina, no qual podemos nos incluir. A mensagem de Jesus é um convite a todos os povos de todos os tempos. No reino de Deus ninguém fica de fora. Todos encontram um espaço. Urge estar a disposição do convite de Cristo. Pelo modo como o Senhor nos ama, o ser humano jamais poderá compreender as atitudes divinas, sem a predisposição em abrir-se àquele que chama.  
Torna-se um grande perigo querer reduzir Deus à medida de nossos pensamentos, ou mesmo, condicionar o comportamento do Altíssimo às nossas categorias de justiça e de bondade. Deus está muito acima do homem, muito mais do que está o céu acima da terra (Is 55,9); por isso, muitas vezes os projetos da sua providência são incompreensíveis à inteligência humana, que os deve aceitar com humildade, sem pretender julgá-los. Quantas vezes ficamos aquém das maravilhas que Deus nos preparou! Quantas vezes os nossos planos se revelam tão estreitos!
Com a parábola de hoje no Evangelho o Senhor não deseja dar-nos uma lição de moral salarial ou profissional, mas sublinhar que, no mundo da Graça, tudo é um puro dom, mesmo o que parece ser um direito que nos assiste pelas nossas boas obras. A salvação não é algo conquistado pelo tamanho do esforço, mas pela intensidade com que se lança ao trabalho de Deus. A murmuração, a cobrança e exigência da salvação pelos obras revelam um coração interesseiro e sem Deus, pois Deus ama quem dar com alegria e gratuitamente, porque foi assim que ele fez e quer que façamos. Por isso, que fomos chamados a diferentes horas para trabalhar na vinha do Senhor, só temos motivos de agradecimento. A chamada, em si mesma, já é uma honra. “Não há ninguém, afirma São Bernardo, que, por pouco que reflita, não encontre em si mesmo poderosos motivos que o obriguem a mostrar-se agradecido a Deus.
Seja qual for o tempo de nossa conversão Deus sempre nos acolhe. No Evangelho de Mateus estes homens encontrados pelo patrão (Deus Uno e Trino), já no final do dia, queriam trabalhar, mas ninguém o contratou. Eram ociosos por falta de Senhor que os contratassem. Jesus passou no mundo chamando a todos a ingressarem na vinha do Senhor. Instara-se o tempo kairótico da graça do Senhor; um convite escatológico ao reinado de Deus, que age por misericórdia. Segundo Santo Efrém, o Senhor “ensinou que, seja qual for o momento de sua conversão, todo homem é acolhido...” (Diatessaron, 15, 15-17). Fica evidente que Jesus desde o início do seu ministério pastoral sempre procurou convidar todos a seguir o caminho do Reino, ou seja, “ saiu de madrugada para contratar trabalhadores”; saiu também até na undécima  hora, a fim de ninguém ficar sem trabalho, nem usassem a desculpa  de que não foram chamados.   
É importante notarmos, neste momento, o apelo que faz o profeta Isaías ao Israel desviado: “Abandone o ímpio seu caminho, e o homem injusto, suas maquinações; volte para o Senhor, que terá piedade dele” (Is 55,7). Ora, desde primeiro instante da profecia de Israel o Senhor apresenta-se com misericordioso, sempre pronto a acolher. Esse convite de Deus, através do oráculo, manifesta a sede que Deus tem do ser humano. Quer chamar todos os seus filhos e reuni-los novamente: “quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha recolhe os seus pintinhos debaixo das suas asas, e não o quiseste!” (Mt 23, 37). A recusa de muitos é causa de dor no coração de Jesus, que veio para que todos tenham vida. O apelo de Deus se renova em cada eucaristia celebrada, pois, Ele passa chamando os operários ao Reino: Não fecheis teu coração, ouvi hoje a voz de Deus. Entente ó filhos que Deus não estipula um tempo para a conversão, mas sempre estar atento ao nosso movimento de procura divina. E quando nos encontra oferece-nos tudo de si.
Ao contrario das atitudes divinas são aquelas humanas atitudes desordenadas, que visão a satisfação pessoal, a retribuição meritória. Os operários das primeiras horas reclamam da bondade do patrão que os iguala aos que trabalharam menos. A queixa gira em torno do valor da graça alcançada. Dirá Santo Agostinho: “o que significa esse gesto de pagar a diária começando pelos últimos? Não lemos  em outra passagem do Evangelho que todos receberão simultaneamente a recompensa?” Ora, a moeda de prata aqui se chamaria na teologia a vida eterna. Se todos receberão o denario ao mesmo tempo, como entender o que aqui se diz sobre o primeiro receberão a diária, os contratados ao entardecer, e, por último, os do amanhecer? Santo Agostinho alude nestes termos: “ No que se refere a retribuição, todos seremos iguais: os últimos como os primeiros, e os primeiros como os últimos, pois aquele denario é a vida eterna, e na vida eterna todos são iguais.”  Tanto Abel, Abraão, Moises, os profetas, os Santos, como nós, receberemos o salário divino.  Mesmo que aja diversidade de méritos e brilhem diversamente os eleitos, mas no que se refere à vida todos serão iguais. É por isso que Deus fez entrar na vida eterna o ladrão que no suplicio da cruz se arrependeu. Não é o ladrão um operário da undécima hora? Claro que sim! Como eu, como você somos trabalhadores do entardecer.  
Como já citei acima não podemos nem devemos enquadrar Deus nos nossos planos humanos finitos e imperfeitos. Deus é mais; seus caminhos são infinitamente maiores e melhores que nos nossos. Sendo assim, tenhamos cuidado para não sentar Deus no banco dos réus e julgá-lo injustamente. O melhor que podemos fazer quando não entendermos os projetos de Deus é ser-lhe dóceis acreditando que ele sabe mais e faz melhor do que nós. Por mais evidente que seja, é preciso que nos lembremos disso para que, inconscientemente, não tomemos o lugar de Deus.
Cabe, portanto, pensar que todo nosso esforço ainda será pouco para comparar-se com a gradíssima graça dada por Deus a nós. Como afirma Efrém, “somos contratados para um trabalho proporcionado às nossas forças, porém nos propõe um salário muito acima do que o nosso trabalho merece...” aquilo que damos a Deus é muito pouco e inferior a sua dignidade. Por isso, não nos cabe reprovar a bondade de Deus que deseja salvar os últimos em primeiro. Deus se oferece livre e gratuitamente, e nisso mostra a sua paixão e compaixão por todos.

Pe. Fantico Borges, CM


domingo, 17 de setembro de 2017

Homilia do Pe. Fantico - XXIV domingo comum ano A

Homilia do Pe. Fantico - XXIV domingo comum ano A

O perdão caminho de mão dupla. 

Hoje a palavra de Deus nos leva a refletir sobre o PERDÃO. Nesta liturgia dominical o Senhor se coloca como modelo perfeito de perdão divino. Deus exige do pecador, apenas, um gesto de misericórdia para com o outro. Diz o Senhor no livro do Eclesiástico: “Quem se vingar  encontrará a vingança do Senhor, que pedirá severas contas dos seus pecados. Perdoa a injustiça cometida por teu próximo: assim quando orares, teus pecados serão perdoados. Se alguém guarda raiva contra o outro, como poderá pedir a Deus a cura para si? Senão tem compaixão do seu semelhante, como poderá pedir que Deus tenha misericórdia de seus pecados?” (Eclo 28, 1-4.) Quem deseja a misericórdia para si deve se reconciliar com seus irmãos. A proposta de Jesus pressupõe uma radicalidade infinita: perdoa não apenas sete vezes mais sim setenta vezes sete. Para o santo Padre o Papa Francisco a atitude do perdão está implícita no Pai-nosso: arrepender-se com sinceridade dos próprios pecados, sabendo que Deus perdoa sempre. O papa alude que tudo parte de nós. Quando nos apresentamos para pedir perdão temos consciências dos nossos atos e a necessária busca de reconciliação com Deus e os irmãos.
Há uma diferença grande entre o pecado e a desculpa. Perdão é algo que envolve todo ser de quem perdoa e é perdoado. “Pedir perdão é diferente de pedir desculpa. Eu errei? Mas me desculpe, errei… Pequei! Não tem nada a ver uma coisa com outra. O pecado não é um simples erro. O pecado é idolatria, é adorar o ídolo, o ídolo do orgulho, da vaidade, do dinheiro, do eu mesmo, do bem-estar… Tantos ídolos que nós temos. E, por isso, Azarias, no antigo testamento, não pede desculpas, pede perdão”.  O perdão deve ser pedido com sinceridade, com o coração, e de coração deve ser doado a quem cometeu um deslize. Como o patrão da parábola contada por Jesus, que perdoa um grande débito movido pela compaixão diante das súplicas de um dos seus servos. E não como aquele mesmo servo faz com outro servo, tratando-o sem piedade e mandando-o à cadeia, mesmo que a dívida fosse irrisória. A dinâmica do perdão – recordou o Papa – é aquela ensinada por Jesus no “Pai-Nosso”.

A pergunta de Pedro é a procura sobre a essência de Deus como perdão-misericórdia. Em outras palavras se pergunta até onde Deus pode dar o perdão. Pensando que o perdão é uma prerrogativa de Deus; e Pedro, vivia, num mundo, em que a concepção judaica limitava o perdão aos justos, essa questão gira sobre a proposta de salvação, na qual Jesus anunciava, ou seja, um Deus que não impõe limites ao perdão. Sempre é hora de perdoar.  Jesus revela um caminho de Reconciliação, onde todos estão incluídos: pobres, ricos, pecadores, publicados e justos.  
Jesus ao propor a resposta para Pedro alude o caminho da reconciliação: ter a mesma atitude de Deus para com o pecado alheio. Santo Agostinho, pensando no pecado de Judas, escreveu: “se ele tivesse orado em nome de Cristo teria pedido perdão, se tivesse pedido perdão teria esperança, se tivesse esperança teria esperado na misericórdia e não teria se enforcado desesperadamente”.  Pedro que também pecou acreditou no poder da esperança que salva e alcançou a graça da reconciliação. Não temos motivo para desesperar-nos.  O pensamento de São Máximo de Turim é irrefutável: “se o ladrão obteve a graça do paraíso, por que o cristão não há de obter o perdão?”. Sendo assim, confiemos sempre na misericórdia do Senhor, façamos um propósito de mudança de vida, confessemos os nossos pecados.
Santo Tomás de Aquino na suma teológica diz que a cegueira da mente não é pecado, mas a insensatez ou o embotamento da alma, de não querer mudar de vida, isso sim leva a morte. Comecemos novamente! Perdoando os nossos semelhantes, quantas vezes for preciso, estaremos imitando o próprio Deus e essa semelhança nas ações atrairá maiores graças para as nossas futuras decisões.
O perdão constrói as relações de amizade e todas as relações sociais. Quanto há compreensão e perdão entre amigos, essa amizade perdurará apesar dos pesares. Os nossos amigos são pessoas como nós, com virtudes e defeitos; se nós, porém, não compreendermos que eles nem sempre se comportarão virtuosamente é sinal de que ainda não somos bons amigos. Até Deus permite que nós erremos, deixa que pequemos, isto é, Deus respeita até o mau uso da nossa liberdade e… continua nos amando, nos perdoando. Nós não podemos sufocar as pessoas sendo intransigentes e insuportáveis; ao contrário, devemos compreender quem está no erro sem minimizar as exigências da doutrina e da moral cristã.
Por fim diz santo Agostinho: “Perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido; digamo-lo com um coração sincero e façamos o que dizemos. É um compromisso que fazemos com Deus, um pacto e um agrado. O Senhor teu Deus te diz: Perdoa e eu perdoo. Não perdoaste? Tu te voltas contra ti mesmo, não eu”. S.56,9,13


Pe. Fantico Borges,CM

sábado, 9 de setembro de 2017

Homilia do Pe. Fantico – XXIII domingo do tempo comum ano A

Homilia do Pe. Fantico – XXIII domingo do tempo comum ano A

Corrigir sim, mas com caridade!

A liturgia da Palavra deste domingo traz o tema da correção fraterna, muito importantes à vida cristã. Corrigir é o eixo no qual se sustenta a mensagem de Jesus sobre o Pai das misericórdias que sempre busca ajudar o ser humano a alcançar a perfeição. Cristo veio corrigir o que estava desordenado, recapitular o horizonte da esperança de Israel, que havia perdido o rumo de Deus: corrigir as distorções da relação entre Deus e ser humano e entre os irmãos uns com os outros. 
No cristianismo, a correção fraterna sempre foi o um bem admirado, ainda que, frequentemente, pouco compreendido e, talvez, praticado com escassez. Jesus propõe, com uma dinâmica judaica do seu tempo, o modo como corrigir partir do amor divino. À pessoa que é corrigida, o Senhor lhe dirige essas palavras:  “aquele que ama a correção ama a ciência, mas o que a detesta é um insensato” (Prov 12,1).   Quem ama a correção sempre encontra forma de crescer e nunca ficará vazio.
Às vezes me pergunto: queremos que os outros nos ajudem? Desejamos que os nossos irmãos nos corrijam? Temos essa sensatez de quem é consciente de que sozinho não podemos chegar à meta da santidade e de que, portanto, necessitamos da ajuda dos irmãos na fé? São Cirilo dizia que “a repreensão que melhora os humildes costuma ser intolerável aos soberbos”. Todo processo de mudança nasce do desejo de deixar-se corrigir pelos outros. Mas como fazer a correção ser fraterna?
Em Mt 18,15-20, Jesus fala aos seus discípulos sobre a liberdade espiritual necessária para restaurar a boa convivência e a amizade entre as pessoas. Jesus alude que não se trata simplesmente de um procedimento social ou de uma reconciliação da boca para fora, mas de uma atitude mística, nascida da comunhão com Deus. Corrigir é amar e deixar-se corrigir é fazer-se amor na esteia da santidade.
A partir do amor fraterno pode-se vislumbrar a paz como fruto do cristianismo real. A paz e a união devem prevalecer sempre; para tanto, a vigilância dos homens em relação a isso há de ser constante, e não menos incessante o desejo da correção fraterna: reorientar a partir do Agapé de Deus as relações humanas, eis uma chave para superar os conflitos hodiernos.
O modo como Jesus apresenta a correção fraterna aos discípulos – e podemos nos incluir entre eles – é bastante simples. Exige apenas um pouco de sensibilidade e delicadeza. Para alcançá-la, há três etapas possíveis. Na primeira, tentamos resolver a questão pessoalmente. É especial essa forma porque corrigir sem respeito é violentar o irmão. A correção sem caridade é agressão ao outro. Um segundo novel é contar com a ajuda de mediadores, que servirão de testemunhas da reconciliação. Neste caso, como na cultura judaica, apelava-se ao testemunho de outros para resolver a querela. Se ainda assim fracassem recorre-se aos representantes da Igreja. Neste caso, entra a função sacramental do sacerdote. Desta forma se recorre, antes, a todo tipo de tentativa para não se perder o irmão.
Temos a obrigação de repreender imediatamente nosso irmão para que, ao nos fazer o mal, ele não permaneça no pecado. Escreve São Jerônimo: “Não só temos o poder de perdoá-lo, mas somos obrigados a fazê-lo, pois nos foi ordenado perdoar os que nos ofenderam”. Aquele que pensa ser mais fácil esquecer a ofensa e deixar o pecador entregue ao seu próprio destino está bastante enganado. O que deve nos mover é o desejo de realizar em nosso irmão uma mudança de conduta que transforme sua vida. Recomenda Santo Agostinho: “Ainda que ele não seja considerado mais, pela Igreja, como um dos teus irmãos, nem por isso deixes de te preocupar com a sua salvação”.
      Como irmãos em Cristo, temos o dever de corrigir-nos e rezarmos uns pelos outros. Esta correção deverá ser feita sempre com amor, com discernimento, com caridade fraterna. São Bento, na sua Regra, dá uma recomendação singular, ao prescrever: “Socorrer na tribulação” (RB 4,18). Mas, a expressão latina usada por São Bento é “In tribulationem subvenire”. A palavra “subvenire” pode ser traduzida por “vir por baixo, vir de baixo”. Ou seja, socorrer sim, corrigir sim, mas com a humildade de quem vem por baixo para sustentar, amparar e ajudar, para salvar. Corrigir, sim, mas como Deus, que em Jesus, veio por baixo, na humildade de um presépio e na humilhação da cruz.



Pe. Fantico Borges, CM 

domingo, 3 de setembro de 2017

Homilia do Pe. Fantico – XXII domingo do Tempo comum ano A

Homilia do Pe. Fantico – XXII domingo do Tempo comum ano A

A Cruz de Jesus, caminho de salvação!

Neste, domingo da XXII semana do tempo comum, a palavra de Deus vem os mover o olhar para a Cruz de Jesus, como caminho a percorrer todos os que querem seguir os passos de Cristo. A vida hodierna com as técnicas modernas de busca do bem-estar social vem cada vez mais movendo os sentimentos hedonistas de fuga da dor e sofrimento, como formas de satisfação humana. A ousadia religiosa agora é alcançar a salvação sem passar pela experiência da kenosis, ou seja, deseja-se chegar a salvação de Jesus sem passar pela paixão e morte.
Quem busca um Cristo sem Cruz acaba, por fim, encontrando-se com uma cruz sem Cristo. Já nos ensinava no seu magistério o Papa São João Paulo II: “A Cruz é o livro vivo em que aprendemos definitivamente quem somos e como devemos atuar. Este livro está sempre aberto diante de nós”(Alocução, 01/04/1980). Neste sentido a fé permite-nos ver e experimentar que sem sacrifício não há amor, não há alegria verdadeira, a alma não se purifica, não encontramos a Deus. O caminho da santidade passa pela Cruz, e todo o apostolado fundamenta-se nela. A mortificação que é inerente a vida de Jesus de Nazaré incide sobremaneira na vida discipular dos seguidores do Caminho. Quem procura a Deus sem sacrifício, sem Cruz, não O encontrará. Para ressuscitar com Cristo, temos que acompanha-Lo no seu caminho para a Cruz: aceitando as contrariedades e tribulações com paz e serenidade; sendo generosos na mortificação voluntária, que nos faz entender o sentido transcendente da vida e reafirma o senhorio da alma sobre o corpo. Devemos ter em conta que a Cruz que anuncia Cristo é escândalo para uns e loucura e insensatez para outros (cf. 1 Cor 1,23).
A atitude do profeta Jeremias é aquela humana compreensão que a dor e o sofrimento são demais para suportar. Tantas vezes esquecemos que o sofrimento está condicionado à vida imerso na existência do ser que vive. Mas que existem dois modos de encarar o sofrimento: como condição natural do ser vivente, e como fruto dos atos. O sofrimento salvífico é aquele que voluntariamente aceitamos suportar, mesmo sem merecer, em amor a Cristo. O Papa São João Paulo escrevia: “O sofrimento deve servir à conversão, isto é, à reconciliação do bem no sujeito, que pode reconhecer a misericórdia divina este chamamento à penitência” (Salvifici doloris, 12). A partir do entendimento do sofrer por amor a Cristo, então, o amor divino torna-se fonte mais rica sobre o sentido do sofrimento, que sempre continua um mistério.
A atitude de Pedro reporta seu imenso carinho por Jesus, Simão procura afastá-Lo do caminho da Cruz, sem compreender ainda que ela será um grande bem para a humanidade e a suprema demonstração do amor de Deus por nós. Comenta São João Crisóstomo: ”Pedro raciocinava humanamente e concluía que tudo aquilo – a Paixão e a Morte – era indigno de Cristo e reprovável.” Aqui também podemos notar que nem os discípulos compreendiam qual o signo do Cruz para Jesus. A expectativa messiânica dos contemporâneos de Jesus rejeitavam todo e qualquer relação de fraqueza, por isso a atitude de Pedro em reprovar as palavras de Jesus. Pedro penava num rei dravídico que iria recuperar o esplendor de Israel. A resposta de Jesus é teológica, ou seja, remete ao entendimento de Deus: vai para longe satanás! Recordando as mesmas palavras ditas ao demônio na tentação do deserto. Ver-se clara a oposição entre o mundo e Deus; o céu e a terra; as coisas do alto e as debaixo. A incompatibilidade entre querer viver para esse mundo e querer buscar o Reino de Deus. Pedro, naquele momento, não chega a entender que, por vontade expressa de Deus, a Redenção se tem de fazer mediante a Cruz e que “não houve meio mais conveniente de salvar a nossa miséria” (Sto. Agostinho).
Tem pessoas que não conseguem sair deste mundo escravagista das coisas e necessidades; não conseguem avançar as águas profundas do seu ser, porque como galinhas vivem ciscando no terreiro da vida sem poder olhar ao azul celestial que consiste em  seu verdadeiro horizonte. Temos que lembrar a todos que não ponham o coração nas coisas da terra, que tudo é caduco, que envelhece e dura pouco. ”Todos envelhecerão como uma veste” (Hb 1,11).Somente a alma que luta por manter-se em Deus permanecerá numa juventude sempre maior até que chegue o encontro com o Senhor. Todas as outras coisas passam, e depressa.
Jesus recorda-nos hoje: ”Que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, se depois vier a perder a própria alma? O que poderá alguém dar em troca de sua vida?” (Mt 16,26). Antes, falou: ”Quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim vai encontrá-la.” Mas como entender esse dilema: somos do céu, buscamos ver Deus, chegar até ele, mas desejamos, e é humanamente cristão buscar cuidar-se para viver mais e melhor! Então o que pensar? Será que devemos realmente cair fora da corrente do mundo e renegar-nos como homens para sermos cristãos? Não, porque a renúncia que Jesus exige é, na realidade, a mais alta auto-realização, é a nossa verdadeira recuperação: porque perder a nós mesmos é o modo melhor para nos reencontrar: porque quem perde sua vida vai encontra-la. Aqui o Evangelho chama-nos ao retorno a casa paterna, ao coração de Deus. E somente estamos no coração de Deus quando toda nossa vida estiver nEle, com Ele e por Ele. somente quando nos oferecermos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, e assim não nos conformamos com o mundo mais transformamos nosso modo de ser e viver segundo a vontade de Deus.  

    Pe. Fantico Borges, CM

sábado, 26 de agosto de 2017

HOMILIA DO PE. FANTICO – XXI DOMINGO DO TEMPO COMUM ANO A.

HOMILIA DO PE. FANTICO – XXI DOMINGO DO TEMPO COMUM ANO A.
NA RESPOSTA DE FÉ DE PEDRO A IGREJA ESTÁ UNIDA A CRISTO!
A liturgia deste domingo traz aos nossos corações aquelas palavras de Jesus a Pedro: “Feliz de ti, Simão, filho de Jonas..” Oh que felicidade receber do próprio redentor essas suaves palavra! Mas, o contexto em que foram proferidas estava recheada de revelações. O Evangelho (Mt 16, 13-20) nos apresenta Jesus com os seus discípulos em Cesareia de Filipe. Enquanto caminham, Jesus pergunta aos Apóstolos: “Quem dizem os homens ser o Filho do homem?” E depois que eles apresentaram as várias opiniões que as pessoas tinham, Jesus pergunta-lhes diretamente: “E vós, quem dizeis que eu sou?”. Segunda São Leão Magno, “o senhor pergunta a todos os apóstolos o que os homens pensavam a seu respeito, porém, o que estava posto em revelo era o desejo de saber quem eles entendiam ser o Filho do Homem. A resposta como tal é início de uma fé madura e íntima. A resposta é tomada de teofania, e como na ordem do chamado Pedro toma a palavra e responde: “ Tu és o Cristo,   o Filho de Deus vivo”. A indagação se move da esfera social para teologal. Novamente São Leão magno faz lembrar que a declaração de Jesus acerca da revelação de Pedro faz parte da vontade absoluta de Deus em revelar-se aos homens pelo Filho Unigenito: “Como o Pai te manifestou a minha divindade, assim também te faço conhecida tua excelência”.
A vida de intimidade com Jesus exige uma visão pessoal acerca de sua identidade. Disse  São João Paulo II, em 1980: “Todos nós conhecemos esse momento em que já não basta falar de Jesus repetindo o que os outros disseram, em que já não basta referir uma opinião, mas é preciso dar testemunho, sentir-se comprometido pelo testemunho dado e depois ir até aos extremos das exigências desse compromisso. Os melhores amigos, seguidores, apóstolos de Cristo, foram sempre aqueles que perceberam um dia dentro de si a pergunta definitiva, incontornável, diante da qual todas as outras se tornam secundárias e derivadas: “Para você, quem sou Eu?”  Todo o futuro de uma vida “depende da nossa resposta nítida e sincera, sem retórica nem subterfúgios, que se possa dar a essa pergunta”. Neste sentido, a resposta de Pedro é a mesmo da Igreja na sua mais profunda intimidade.
Essa pergunta encontra particular ressonância no coração de Pedro, que, movido por uma graça especial, respondeu: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. Jesus chama-o bem-aventurado (Feliz és tu, Simão…) por essa resposta cheia de verdade, na qual confessou abertamente a divindade dAquele em cuja companhia andava há vários meses. Esse foi o momento escolhido por Cristo para comunicar ao seu Apóstolo que sobre ele recairia o Primado de toda a sua Igreja: “Por isso eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la…”. A confissão vem imbuída de uma grande missão. Graças à escuta de sua palavra e à cotidiana convivência,  Discípulo reconheceu o Messias porque a revelação do Pai encontrou nele abertura e acolhida. Quer dizer, descobre a verdade dos desígnios de Deus quem se deixa iluminar pela luz da fé. Com razão, reconhece o Documento de Aparecida: “A fé em Jesus como o Filho do Pai é a porta de entrada para a Vida.”  Como discípulos de Jesus, confessamos nossa fé com as palavras de Pedro: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” (DAp, 100).
Essa resposta convincente de fé nasce do conhecimento e da intimidade, profunda, com o Mestre. A busca por estar com o Senhor, aos seus pés, ouvindo e vendo seus milagres, prodígios e portentos. Conhecer, então, Jesus Cristo e saber sempre mais sobre sua pessoa, e obra, tem seu caminho pela leitura e meditação dos Evangelhos, e pelos encontros com Ele por meio da ação litúrgica, em particular, dos sacramentos.
“Tu és Pedro…”. Pedro será a rocha, o alicerce firme sobre o qual Cristo construirá a sua Igreja, de tal maneira que nenhum poder poderá derrubá-la. E foi o próprio Senhor que quis que ele se sentisse apoiado e protegido pela veneração, amor e oração de todos os cristãos. Se desejamos estar muito unidos a Cristo, devemos estar sim, em primeiro lugar, a quem faz as suas vezes aqui na terra: o Papa. O nosso amor pelo Romano Pontífice não é apenas um afeto humano, baseado na sua santidade, simpatia, etc. Quando vamos ver o Papa, escutar a sua palavra, fazemo-lo para ver e ouvir o Vigário de Cristo, o “doce Cristo na terra”, na expressão de Santa Catarina de Sena, seja ele quem for. O Romano Pontífice é o sucessor de Pedro; unidos a ele, estamos unidos a Cristo.
Aquele que detém “as chaves” não pode usar a sua autoridade para concretizar interesses pessoais; mas deve exercer o seu serviço como um pai que procura o bem dos seus filhos, com solicitude e dedicação. Define em que consiste o verdadeiro serviço “das chaves”, o serviço da autoridade: ser um pai para aqueles sobre quem se tem responsabilidade e procurar o bem de todos com solicitude, com amor, com justiça.  Nos tempos antigos, “administrador do palácio”, entre outras responsabilidades, administrava os bens do soberano, fixava o horário da abertura e do fechamento das portas do palácio e definia quais os visitantes a introduzir junto do soberano. Assim como na primeira leitura de hoje o Senhor entregou a administração para outro que cuide com amor na sua casa, da mesma forma, Jesus entrega a Pedro a administração da Igreja. Nas palavras de São Cipriano “A Pedro se dá a primazia para se crer uma a Igreja e a Cátedra de Jesus Cristo. Todos são pastores, porem todos de um só rebanho, que unânimes apascentam a todos”.    
O ministério de Pedro consiste em fazer com que a Igreja de Cristo não se perca por ideologias e culturas, mas conserve intacta a unidade que só em Cristo alcança seu apogeu. Por conseguinte, a missão de Pedro consiste em servir a unidade interior que provém da paz de Deus, a unidade de quantos, em Jesus Cristo, se tornaram irmãos e irmãs, ovelhas do mesmo rebanho.
Uma conclusão brota da profissão de fé de Pedro: “tu és o Filho do Deus vivo!” Simão sabia quem era Jesus porque criou com ela uma relação de proximidade, de discípulo e mestre. Esse mesma pergunta do Cristo ressoa ainda hoje: “ E vós, quem dizeis que eu sou?” Cada resposta revelará seu grau de intimidade à medida, que o discípulo se assemelhar com seu mestre. Por isso, que uma forma de observamos se nossa resposta é pueril ou nasce da intimidade vejamos como nos afeiçoamos ao Senhor.

Pe. Fantico Borges, CM 

sábado, 19 de agosto de 2017

Homilia do Pe. Fantico – da Assunção de Nossa Senhora

Homilia do Pe. Fantico – da Assunção de Nossa Senhora

Viva a Maria, esperança de Deus realizada!

Neste domingo a igreja no Brasil celebra a festa da solenidade da Assunção de Nossa Senhora. Festa essa celebrada dia 15 de agosto, mas que por razões pastorais foi transferida para este domingo; a fim de atrair mais fieis para esta solenidade da Mãe de Deus. Nosso desejo como fieis cristãos é conseguir do Senhor o que Maria, sinal glorioso da Igreja, já conseguiu. Esperamos estar completos, corpo e alma, com o Senhor. Ao contemplar a Mãe de Deus de maneira tão gloriosa no dia de hoje, os nossos corações se enchem de luz e de esperança.
Desde de S. João Damasceno e S. Germão de Constantinopla que pregavam abertamente a existência da incorruptibilidade do corpo de Nossa Senhora e assim se associa a não-corrupção da carne imaculada de Maria. A este respeito Afirma S. Jõao Damasceno “que ao comparar a assunção gloriosa da Mãe de Deus com as suas outras prerrogativas e privilégios, exclama com veemente eloqüência: "Convinha que aquela que no parto manteve ilibada virgindade conservasse o corpo incorrupto mesmo depois da morte. Convinha que aquela que trouxe no seio o Criador encarnado, habitasse entre os divinos tabernáculos. Convinha que morasse no tálamo celestial aquela que o Eterno Pai desposara. Convinha que aquela que viu o seu Filho na cruz, com o coração traspassado por uma espada de dor de que tinha sido imune no parto, contemplasse assentada à direita do Pai. Convinha que a Mãe de Deus possuísse o que era do Filho, e que fosse venerada por todas as criaturas como Mãe e Serva do mesmo Deus". A essa teoria deu-se o nome de Dormição de Nossa Senhora. A festa da Dormição de Nossa Senhora foi celebrada primeiramente em Jerusalém. Mas para os antigos, “dormição” não significava necessariamente ausência de morte. Defensor da Assunção de Nossa Senhora na Idade Média foi o assim chamado “Pseudo-Agostinho” (século IX). Baldo de Ubaldi, no século XV, também foi um grande defensor desta verdade de fé. Finalmente, o Papa Pio XII definiu solenemente o dogma da Assunção no dia 1 de novembro de 1950 através da Constituição “Munificentissimus Deus”. Inclusive o nome desta constituição deixa claro que se trata de uma graça de Deus “munificentissimus”, isto é, generosíssimo.  Uma graça tal que é um privilégio: Maria recebeu o privilégio de que nela fosse antecipado aquilo que acontecerá com todos os eleitos.
O Papa sentencia “que é dogma divinamente revelado: que a Imaculada Mãe de Deus e sempre Virgem Maria, ao término de sua vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória do céu”. É interessante que antes do Papa definir o quarto dogma sobre Nossa Senhora, ele recorde os outros três: Mãe de Deus, sempre Virgem (antes, durante e depois do parto), Imaculada. Pio XII não diz se Maria, antes de ser elevada ao céu, morreu ou não: isso continua como tema aberto à livre discussão teológica, isto é, pode-se defender uma ou outra coisa. O que todos devem reter como doutrina de fé solenemente definida é que ela, Nossa Senhora, foi elevada em corpo e alma aos céus, antecipadamente, como privilégio.
Quanto à morte de Nossa Senhora, parece muito mais acertado afirmar que ela realmente morreu e somente depois teria sido elevada aos céus. Por um lado, quando os antigos Padres falavam de “dormição” eles falavam também de morte. De fato, não é difícil encontrar textos na patrística que transmitam uma dormição de Jesus na Cruz referindo-se à sua morte real. Por outro lado, o desejo de imitar a Cristo que estava no coração de Nossa Senhora faz com que seja mais conveniente que ela imite o seu filho também nisso e se una, desta maneira, ao valor redentor do seu mistério de cruz.
Desta festa da Assunção de Nossa Senhora podemos tirar para nossa vida prática que ela  é sinal de esperança para nós. O Concílio Vaticano II afirmou: “Entretanto, a Mãe de Jesus, assim como, glorificada já em corpo e alma, é imagem e início da Igreja que se há de consumar no século futuro, assim também, na terra, brilha como sinal de esperança segura e de consolação, para o Povo de Deus ainda peregrinante, até que chegue o dia do Senhor (cfr. 2 Ped. 3,10)” (Constituição Dogmática sobre a Igreja, Lumen Gentium, nº 68).
Maria como pregoeira da Esperança escatológica de Jesus acena à meta anelada por cada um de nós. A esperança é virtude sobrenatural, teologal, uma disposição plantada pelo Senhor na nossa alma que nos une a ele através da vontade, do desejo. Esperamos em Deus e nos auxílios (graças) que ele nos concede para alcançá-lo. Temos a firme esperança de chegar ao céu, à bem-aventurança eterna. É nesse sentido que a Assunção de Maria nos anima a continuar com os olhares fixos na meta: uma como nós conseguiu aquilo que nós conseguiremos. O nosso caminho rumo ao céu já foi selado por uma da nossa raça. Assim como ela chegou lá por graça, também nós chegaremos.
A Festa de hoje não é somente da Virgem Maria. Primeiramente, ela glorifica o Cristo, Autor da nossa salvação, pois em Maria aparece a vitória sobre a morte, que Jesus nos conquistou. A liturgia hoje exclama: “Preservastes, ó Deus, da corrupção da morte aquela que gerou de modo inefável vosso próprio Filho feito homem, Autor de toda a vida”. Este senhorio de Cristo aparece hoje radiante na sua Mãe toda santa: em Maria, Cristo venceu a morte de Maria! Em segundo lugar, a festa de hoje é também festa da Igreja, de quem Maria é Mãe e figura. A liturgia canta: “Hoje, a Virgem Maria, Mãe de Deus, foi elevada à glória do céu. Aurora e esplendor da Igreja triunfante, ela é consolo e esperança para o vosso povo ainda em caminho”. Sim! A Mãe Igreja contempla a Mãe Maria e fica cheia de esperança, pois um dia, estará totalmente glorificada como ela, a Mãe de Jesus, já se encontra agora. Finalmente, a festa é de cada um de nós, pois já vemos em Nossa Senhora aquilo que, pela graça de Cristo, o Pai preparou para todos nós: que sejamos totalmente glorificados na glória luminosa do Espírito do Filho morto e ressuscitado. Aquilo que a Virgem já possui plenamente, nós possuiremos também: logo após a morte, na nossa alma; no fim dos tempos, também no nosso corpo!
Estejamos atentos! A festa hodierna recorda o nosso destino, a nossa dignidade e a dignidade do nosso corpo. O mundo atual, por um lado exalta o corpo nas academias, no culto da forma física, da moda e da beleza exterior; por outro lado, entrega o corpo à sensualidade, à imoralidade, à droga, ao álcool… É comum escutarmos que o que importa é o “espírito”, que a matéria, o corpo passa… Os cristãos não aceitam isso! Nosso corpo é templo do Espírito Santo, nosso corpo ressuscitará, nosso corpo é dimensão indispensável do nosso eu.

Assim entregues a oração roguemos a Mãe de Deus que derrame sobre nós seu manto de amor. Que ela seja nossa advogada diante da Misericórdia do Pai, Filho e Espírito Santo. Amém! 

sábado, 12 de agosto de 2017

Homilia do Pe. Fantico Borges – XIX domingo do tempo comum ano A.

Homilia do Pe. Fantico Borges – XIX domingo do tempo comum ano A.

Passar do medo ao temor

Neste domingo, o XIX do tempo comum, a liturgia da Palavra vem nos falar como Deus se revela a humanidade nas horas mais difíceis da vida. Muitas vezes não confiamos na simplicidade do agir de Nosso Senhor. Pensamos num Deus poderoso, ao molde mundano. Procuramo-lo nos grandes acontecimentos, em espetáculo grandioso. Mas ele vem simples, como uma brisa, um murmúrio que sopra.  A Escritura fala-nos de um Deus que é grande demais, misterioso demais, inesperado e surpreendente demais para que possamos enquadrá-lo na nossa lógica e no nosso modo de pensar.
Em muitas épocas, especialmente na modernidade e pos-modernidade, o ser humano quis enquadrar Deus entro de um esquema subjetivo e limitado. O resultado foi sempre a perda de referencial transcendente, restando o subjetivismo possessivo como imperativo no agir social.  Um tentação para o homem é achar que pode compreender o Senhor, enquadrar seu modo de agir e dirigir o mundo com a nossa pobre e limitada lógica… Mas, o Deus verdadeiro, o Deus que se revelou a Israel e mostrou plenamente o seu Rosto em Jesus Cristo, não é assim! Ele é mistério que se abre e deixar-se penetrar sem esvaziar seu núcleo.
Na primeira leitura deste domingo Elias após tentar fugir de Deus no deserto, encontra-se diante do convite do Senhor de encontra-Lo. Mas Javé deseja que Elias entenda de quem é a vitória, quem venceu os falsos deuses. Mostra-lhe na gruta que o poder divino se realiza livremente e somente a Ele pertence. Pensemos nesta cena em que Elias, em crise, fugindo de Jezabel, caminha para o Horeb; ele quer encontrar suas origens, as fontes da fé de Israel. Recordem que o Horeb é o mesmo monte Sinai, a Montanha de Deus. Elias tem razão: nos momentos de dúvida, de crise, de escuridão, é indispensável voltar às origens, às raízes de nossa fé; é indispensável recordar o momento e a ocasião do nosso primeiro encontro com o Senhor e nele reencontrar as forças, a inspiração e a coragem para continuar. Pois bem, Elias volta ao Horeb procurando Deus. Lembrem que no caminho ele chegou a desanimar e pedir a morte: “Agora basta, Senhor! Retira-me a vida, pois não sou melhor que meus pais!” (1Rs 19,4). No entanto, o Senhor o forçou a continuar o caminho: “Levanta-te e come, pois tens ainda um longo caminho” (1Rs 19,7). Pois bem, Elias caminhou, teimou em procurar o seu Deus, mesmo com o coração cansado e em trevas; assim, chegou ao Monte de Deus! Mas, também aí, no seu Monte, Deus surpreende Elias – Deus sempre nos surpreende! O Profeta espera o Senhor e o Senhor se revela, vai passar… Mas, não como Elias o esperava: não no vento impetuoso que força tudo e destrói tudo quanto encontra pela frente, não no terremoto que coloca tudo abaixo, não no fogo que tudo devora… Eis: três fenômenos que significam força, que causam temor, que fazem o homem abater-se… E o Senhor não estava aí. Elias teve de reconhecê-lo, de descobrir sua Presença no murmúrio da brisa suave! – Ah, Senhor! Como teus caminhos são imprevisíveis! Quem pode te reconhecer senão quem a ti se converte? Quem pode continuar contigo se pensar em dobrar-te à própria lógica e à própria medida? Tu és livre demais, grande demais, surpreendente demais! Não há Deus além de ti; tu, que convertes e educas o nosso coração!
A lição que fica de Elias é que precisamos olhar com os olhos espirituais, com o coração e a alma voltada para o céu. Sem um olhar atento, que só obtém-se na oração persistente, não se chegará ao profundo reconhecimento de Deus e a uma experiência verdadeiramente mística.   
Esta experiência mística de estar com Jesus e se alimentar de seu pão requer uma travessia nas sendas da mortificação. Sem atravessar o mar e ir para o outro lada não se alcança a salvação que constitui a visão beatifica.
Para alcançar tal meta Jesus ensina o caminho: mister subir ao monte e lá ficar horas rezando com Deus sós.   São João da Cruz já aludindo sobre essa subida diz: é preciso vencer as paixões, os desejos e as vontades. Eis a subida ao monte Carmelo. Também sobre esse tema ensina Santo Evágrio que a oração requer esforço e persistência. Orar é sair de si e entrar numa dimensão teológica onde o cronológico perde o sentido. Nesta ascensão ao monte de Deus tem-se muitas barreiras para lutar. O evangelho alude duas: o medo e a fraqueza da fé. Ensina Santo Tomas de Aquino que o medo é próprio dos vícios, e, portanto do demônio (Suma Teológica I, 6 ). Pelo medo o homem deixa de sonhar, estagna e morre. O medo aniquila a confiança e põe fim a missão. Daí Santo Tomás afirmar que o medo cega.  A outra barreira a ser transposta é a fraqueza de fé. A fé se torna fraca quando é negligenciada a oração. A fé não nasce da oração, mas se alimenta nela. A fé é um ato livre e confiante de lançar-se nas mãos de Deus. Porém, a fortaleza da fé não se nutre senão da oração. Bem lembra Orígenes no comentário ao Evangelho de Mateus, que Jesus não chama Pedro de incrédulo, mas de fraco na fé. Não é que Pedro fosse infiel, incrédulo, mas que sua fé ainda não tinha fortalecido ao ponto de não duvidar.
A dúvida paira os corações vacilantes e ausente de Deus. Por isso, reforça-se no evangelho a oração e a intimidade com Jesus. Diz Mateus que ao entrar na barca o mar acalmou e todos prostraram-se diante de Jesus e afirmaram: verdadeiramente tu és o Filho de Deus. Prostrar-se é o mesmo que rezar diante dele. No Evangelho de hoje Jesus vai rezar. Para que Jesus reza? Ele não é Deus? Jesus tem necessidade de rezar? Não! É para nos mostrar o caminho para encontrar Deus e reconhece-lo na suavidade da brisa do seu Espirito. Essa é a angustia de Paulo: seus coetâneos não reconheceram Jesus, Filho de Deus. Não subiram ao monte calvário e assim não enxergaram o Senhor da vida. Justo aqueles para os quais Jesus foi prometido.   
Não basta cumprir normas e preceitos rituais, não basta entregar os bens aos pobres, não basta colocar o corpo em chamas. Precisa estar aos pés do Mestre, subir a montanha com Ele, enfrentar as ondas revoltas da vida, encarar as provações ate chegar a cruz para com Ele nascer de novo. Só a oração constante, simples e piedosa pode transformar o medo em temor, a dúvida em fé comprovada.

Pe. Fantico Borges, CM   

terça-feira, 2 de maio de 2017

Homilia do Pe. Fantico Borges – III Domingo de Páscoa – Ano A


Homilia do Pe. Fantico Borges – III Domingo de Páscoa – Ano A

Cristo é o Caminho para o Pai e o cristão a seta que aponta para Cristo.

Na Liturgia deste domingo o Senhor nos diz: fica comigo meu filho! A expressão: Mane nobiscum, Domine foi o título daquela Carta Apostólica que São João Paulo II escreveu um ano antes de morrer. No centro do Evangelho de hoje exaspera o desejo dos discípulos de ficar com Jesus, pois Ele caminha ao seu lado e ensina as trilhas para o eterno Deus trino. No ícone desta relação dos discípulos de Emaús, o Senhor nos forma no conhecimento das escrituras, que culmina no partir do Pão, na eucaristia. E como disse o Papa São João Paulo II, a igreja nasce da eucaristia, tudo converge para o sacramento da sua Presença Real de Jesus Cristo.  
Fica conosco, Senhor! Que o Senhor permaneça conosco em pleno século XXI, porque nós queremos continuar servindo a Deus e a todas as pessoas. “Nós queremos servir a Igreja como ela deseja ser servida”, não conforme os nossos caprichos ou gostos pessoais. O Papa bento XVI  nos recordava também na já citada homilia como o Bem-aventurado João Paulo II soube descobrir as riquezas do Concilio Vaticano II, como ele se imergiu na doutrina conciliar e soube expressá-la de distintas maneiras. “O homem é o caminho da Igreja e Cristo é o caminho do homem”. Sem Cristo o homem se perde em vil caminhos errôneos. Sem a presença constante de Jesus a humanidade se desfigura na sua identidade de ser e passa a valor o que tem. Essa sociedade do descartável enche os nossos jovens de falsas esperanças que levam ao coas e a desordem cultural e intelectual. De homo sapiens tornar-se homo demens, ou seja, de pessoal sabias a pessoas doentias. É mister redescobrir o caminho de retorno para  Cristo! E como fazer? Qual a saída?
É preciso redescobrir essa realidade: a pessoa humana como caminho da Igreja para apresentarmos a cada ser humano o caminho que realmente é o seu, Cristo. Precisamos compreender as pessoas, amá-las, participar das suas alegrias e tristezas, entender o mundo no qual habitamos junto a elas, acompanhar as situações de pobreza e de riqueza, descobrir o poder da técnica e dos novos meios de comunicação. A vida cristã não é um jogo de palavras, nem se limita ao conjunto linguístico. O cristianismo é antes de tudo vida! Essa vida que se vive vivendo, isto é, no testemunho destemido de homens e mulheres que enfrentam a batalha diária de ser santos! Não é fácil e ninguém jamais, querendo enfeitar a verdade com relapsos comportamentos, não caiu em heresia. Porque no Evangelho de Jesus não cabem meias palavras.   Mas como percorrer esse caminho de testemunho sem vacilar?
Andar por um caminho que não se conhece é muito difícil! A Igreja, como entende que o homem é caminho para ela, se sabe e se declara “mestra de humanidade”: há dois mil anos a Igreja Católica tem acompanhado o ser humano, ela sim entende quem é a pessoa humana e sabe o que é melhor para ela. E nós temos que colocar todos os meios para que sejamos, na Igreja e como Igreja, mestres em humanidade. É preciso conhecer os nossos semelhantes através da simpatia e do amor, conduzidos pelo Espírito Santo, que nos faz apreciar retamente todas as coisas. O Senhor continua no meio de nós.
Cristo é o caminho do homem. Nós não podemos silenciar esta verdade. São João Paulo II nos ensinou a não ter medo de ser cristãos e de pregar o Evangelho. Ele nos ensinou a beleza da fé através da verdade e do amor. Jesus continua atraindo as pessoas desde a cruz. Jesus Cristo continua atual, a sua mensagem nunca passará de moda, ele está sempre presente no hoje da história universal e pessoal.

Pe. Fantico Borges




sábado, 21 de maio de 2016

Homilia do Padre Fantico Borges, CM – Santíssima Trindade – Ano C

Homilia do Padre Fantico Borges, CM – Santíssima Trindade – Ano C

Salve ó Santíssima Trindade!

Na liturgia deste domingo celebramos o Mistério da Santíssima Trindade. Mistério que escapa nossa mente, sem esconder-se de nós, infinito sem deixar-se ignorar. Assim afirmava, Santo Agostinho, que é difícil encontrar uma pessoa que, falando da Trindade, saiba do que esteja falando (Confissões XIII,II). Trata-se de uma tarefa – como foi revelado em sonho a Santo Agostinho – não menos impossível do que aquela de uma criança que tenta esvaziar o mar usando uma concha. A liturgia de hoje propõe a meditação sobre o mistério central de nossa fé: a Santíssima Trindade. Toda a vida da Igreja está impregnada por este Mistério. E quando falamos aqui de mistério, não pensemos no incompreensível, mais na realidade mais profunda que atinge o núcleo do nosso ser e do nosso agir.
É Cristo quem nos revela a intimidade do mistério trinitário e o convite para que participemos dele. “Ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Mt, 11, 27). Ele revelou-nos também a existência do Espírito Santo junto com o Pai e enviou-O à Igreja para que a santificasse até o fim dos tempos; e revelou-nos a perfeitíssima Unidade de vida entre as Pessoas divinas (Cf. Jo16, 12-15).
O mistério da Santíssima Trindade é o ponto de partida de toda a verdade revelada e a fonte de que procede a vida sobrenatural e para a qual nos encaminhamos: somos filhos do Pai, irmãos e co-herdeiros do Filho, santificados continuamente pelo Espírito Santo para nos assemelharmos cada vez mais a Deus. Por isso, a Santíssima Trindade habita na nossa alma como num templo. E São Paulo faz-nos saber que o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado (Cf. Rm 5, 5). E aí, na intimidade da alma, temos de nos acostumar a relacionar-nos com Deus Pai, com Deus Filho e com Deus Espírito Santo. Dizia Santa Catarina de Sena: “Vós, Trindade eterna, sois mar profundo, no qual quanto mais penetro, mais descubro, e quanto mais descubro, mais vos procuro”.
Imensa é a alegria por termos a presença da Santíssima Trindade na nossa alma! Esta alegria é destinada a todo cristão, chamado à santidade no meio dos seus afazeres profissionais e que deseja amar a Deus com todo o seu ser; se bem que, como diz Santa Teresa, “há muitas almas que permanecem rodando o castelo (da alma), no lugar onde montam guarda as sentinelas , e nada se lhes dá de penetrar nele. Não sabem o que existe em tão preciosa mansão, nem quem mora dentro dela”. Nessa “preciosa mansão”, na alma que resplandece pela graça, está Deus conosco: o Pai, o Filho e o Espírito Santo.
Por ser o mistério central da vida da Igreja, a Santíssima Trindade é continuamente invocada em toda a liturgia. Cremos, portanto, em um só Deus, um princípio sem princípio, incriado, ingênito, que não perece, imortal, eterno, ilimitado, inapreensível,  indefinível, onipotente, simples, não composto, incorpóreo, imóvel, impassível, imutável, inalterável, invisível, fonte de todo bem e de toda justiça, luz inteligível e nunca acendida; poder que não pode medir-se com medida alguma a não ser sua própria vontade, porque pode fazer tudo quanto quer.
É o Criador de todas as criaturas visíveis e invisíveis, de todas tem cuidado e providência, e as conserva; tem o poder sobre todas as coisas, as quais dirige e governa com um reino que não tem fim e é imortal; nada pode opor-se a ele, tudo preenche, nada pode abarcá-lo, mas, pelo contrário, ele abarca todas as coisas, as contém e zela por elas. Penetra todas as substâncias de maneira puríssima e em tudo repousa. Ele estabelece os principados e ordens, e encontra-se acima de toda ordem e principado, acima da substância, da vida, palavra e pensamento. Ele é a própria luz, a própria bondade, a própria vida, a própria essência já que não recebeu de outro nem o ser nem qualquer uma das suas propriedades, Ele é a fonte do ser de todos os seres, a vida dos viventes. Ele é Deus, nosso Deus, uno e santo, indivisível todo ser racional o adora, com uma só e mesma adoração que é do Pai, do Filho e do Espírito Santo. São três as pessoas, mas é a mesma natureza; por isso, o mesmo louvor.
Ó coisa admirável! Nós Cremos no Pai, no Filho e no Espírito Santo, nos quais fomos batizados. Porque assim ordenou Deus: batizai-os em nome do Pai, Filho e Espírito Santo. Assim, cremos num único Pai, princípio sem princípio e causa de tudo, incausado e ingênito; Criador de todas as coisas, eterno Pai do Eterno Filho de igual natureza do Pai, Filho Unigênito e Salvador, do qual procede o Santíssimo Espírito. Amém     



domingo, 15 de maio de 2016

Homilia de Pentecostes - Espírito Santo: Senhor e doador de vida!

Homilia de Pentecostes - Espírito Santo: Senhor e doador de vida!

Veni, Sancte Spiritus! – Vinde, Espírito Santo! “Sem a vossa força e favor clemente, nada há no homem que seja inocente”: são palavras da sequência de Pentecostes, composta por John Dunstable (1380-1453) e que foi provavelmente entoada na coroação do rei inglês Henry VI, em Paris, em 1431. Toda a Igreja clama: Vem, Espírito Santo! “Ó Deus (…) derramai por toda a extensão do mundo os dons do Espírito Santo, e realizai agora no coração dos fiéis as maravilhas que operastes no início da pregação do Evangelho” (oração coleta da Missa do dia de Pentecostes).
O bispo emérito de Roma, Papa Bento XVI, escrevia em sua última homilia de Pentecostes, que o Espírito Santo age desde do princípio primeiro como Espírito Criador e por último como Espírito Salvador. O Espírito Santo foi chamado alguma vez de “O Grande Desconhecido” (São Jose maria Escrivá, Caminho, 57). Isso me faz lembrar aquela passagem dos Atos dos Apóstolos na qual Paulo ao chegar a Éfeso, ao conversar com alguns discípulos lhes pergunta: “Recebestes o Espírito Santo, quando abraçastes a fé?” Respondem eles da seguinte maneira: “Mas nem sequer ouvimos dizer que existe um Espírito Santo” (At 19,2). Dá a impressão muitas vezes que alguns cristãos nem sabem se existe um Espírito Santo. Quem é o Espírito Santo? é a terceira Pessoa da Santíssima Trindade, é “o Senhor e Doador de Vida, que procede do Pai e do Filho, que com o Pai e o Filho recebe uma mesma adoração e glória e que falou pelos profetas”. O Espírito Santo é Deus, como o Pai é Deus e como o Filho é Deus. Ele é o Paráclito, o Consolador, enviado por Cristo para comunicar-nos a vida divina. É ele quem nos introduz no Mistério de Cristo, é ele quem nos dá a graça, as virtudes da fé e da esperança e da caridade, os dons e os frutos. Quem é o Espírito Santo? É aquele que mora em você, o doce hóspede da sua alma, foi ele quem o fez templo de Deus, filho de Deus, membro da Igreja, quem lhe deu a salvação, a justificação e a vida eterna. “Desde o nascimento da Igreja, é ele quem dá a todos os povos, o conhecimento do verdadeiro Deus; e une, numa só fé, a diversidade das raças e línguas” (prefácio de Pentecostes).
Não podemos ignorar o Espírito Santo e seu poder. Quando o Espírito Santo vem habitar em nós vem com o Pai e com o Filho.
Santa Teresa conta que, ao considerar certa vez a presença das Três divinas Pessoas na sua alma, “estava espantada de ver tanta majestade em coisa tão baixa como é a minha alma”, e então o Senhor disse-lhe: “Não é baixa, minha filha, pois está feita à minha imagem” (Santa Teresa, Contas de consciência, 41, 2). Nós fomos feitos à imagem e semelhança de Deus. Quis Deus que essa semelhança fosse semelhança mesmo e nos fez participar de sua natureza divina. É pelo Espírito Santo que nós participamos da natureza divina. “Como não dar graças a Deus pelos prodígios que o Espírito não cessou de realizar nestes dois milênios de vida cristã? O evento de graça do Pentecostes tem, com efeito, continuado a produzir os seus maravilhosos frutos, suscitando em toda a parte ardor apostólico, desejo de contemplação, empenho em amar e servir com total dedicação a Deus e aos irmãos. Ainda hoje o Espírito alimenta na Igreja gestos pequenos e grandes de perdão e de profecia, dá vida a carismas e dons sempre novos, que atestam a Sua ação incessante no coração dos homens” (João Paulo II, Homilia do Domingo de Pentecostes de 1998).
Pentecostes já era uma festa celebrada pelos judeus cinquenta dias depois da Páscoa. No começo era uma festa na qual se dava graças a Deus pela colheita da cevada e do trigo, era uma festa agrícola. Já no século I, porém, tornou-se a festa que celebrava a aliança (o dom da lei e a constituição do Povo de Deus). Cinquenta dias depois da Páscoa, os discípulos de Cristo recebem o Espírito Santo, a lei na nova aliança no sangue de Jesus. Também o Espírito Santo constitui a nova comunidade do Povo de Deus, a Igreja.
Nela, todos devem estar unidos em Cristo e na força do Espírito Santo. As línguas de Pentecostes significam essa unidade do Povo de Deus. Pentecostes é, então, o reverso de Babel (cf. Gn 11,1-9); em Babel, a dispersão, aqui, a unidade. O Espírito Santo, que é o amor do Pai e do Filho, é também amor entre nós. Lembremo-nos que é sempre o amor que une os corações. O amor, por ser conhecido propriamente somente pelos que se amam, é sempre muito discreto. Daí a discrição do Espírito Santo: sua missão é levar a Palavra de Jesus, ajudar a Igreja para que anuncie destemidamente a Palavra da salvação, Jesus Cristo. Isso condiz com o Espírito Santo que é amor, já que o autêntico amor sempre pensa mais no outro que em si mesmo.
O Paráclito santifica-a continuamente, como também santifica cada alma, através das inúmeras inspirações que se escondem em “todos os atrativos, movimentos, censuras e remorsos interiores, luzes e conhecimentos que Deus produz em nós, prevenindo o nosso coração com as suas bênçãos, pelo seu cuidado e amor paternal, a fim de nos despertar, mover, estimular para o amor celestial, para as boas resoluções, para tudo aquilo que, numa palavra, nos conduz à nossa vida eterna. A sua ação na alma é suave e aprazível; Ele vem salvar, curar, iluminar,” (São Francisco de Sales). “O Espírito Santo vem em socorro à nossa fraqueza”, diz S. Paulo (Rom. 8,26). Diz São João da Cruz que o Espírito Santo, com a sua chama está ferindo a alma, gastando e consumindo-lhe as imperfeições dos seus maus hábitos.
A Igreja precisa estar unida. Hoje terminamos a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos; findamos a semana, não a oração pela unidade dos cristãos. Todos nós, discípulos de Cristo, precisamos – é importante para nós e para a evangelização – viver bem unidos: uma só fé, os mesmos sacramentos, um só governo: o do Papa e o dos Bispos em comunhão com ele. A divisão é vergonhosa para nós. “Celebrai, pois, este dia como membros do único corpo de Cristo. E não o celebrareis em vão, se realmente sois aquilo que celebrais, isto é, se estais perfeitamente incorporados naquela Igreja que o Senhor enche do Espírito Santo e faz crescer progressivamente através do mundo inteiro. (…) Esta é a casa de Deus, edificada com pedras vivas. Nela o Eterno Pai gosta de morar; nela seus olhos jamais devem ser ofendidos pelo triste espetáculo da divisão entre seus filhos” (Dos Sermões de um Autor africano anônimo do séc.VI).
As línguas de fogo no dia de Pentecostes simbolizam a unidade da Igreja, ela falaria todas as línguas com a sua expansão; no entanto, essa que falaria todas as línguas encontra-se toda ali, unida. Essas línguas são de fogo. “O fogo simboliza a energia transformadora do Espírito Santo” (Cat. 696). Também ao Espírito Santo poderia aplicar-se o simbolismo da água, que significa “o nascimento e a fecundidade da vida dada no Espírito Santo” (Id.). Nós experimentamos a água e o fogo, ao mesmo tempo. Nascemos da água e do Espírito no nosso Batismo (cf. Jo 3,5), a partir daí o Espírito Santo começa uma ações muito especiais em nós que vai transformando-nos mais e mais. São Basílio fala-nos da importância de estar com o Espírito Santo, ou melhor, de que o Espírito Santo esteja em nós: “Por estarmos em comunhão com Ele, o Espírito Santo torna-nos espirituais, recoloca-nos no Paraíso, reconduz-nos ao Reino dos céus e à adoção filial, dá-nos a confiança de chamarmos Deus de Pai e de participarmos na graça de Cristo, de sermos chamados filhos da luz e de termos parte na vida eterna” (Liber de Sp. Sancto, 15,36, em Cat. 736).
Antes de Pentecostes, “Todos eles perseveravam unanimemente na oração, juntamente com as mulheres, entre elas Maria, mãe de Jesus” (At 1,14). Peçamos nós também, em união com toda a Igreja e com Maria, Mãe de Igreja: Vinde, Espírito Santo!



segunda-feira, 9 de maio de 2016



Homilia da Ascensão do Senhor – Ano C
O mistério da Ascensão
                                                                           
Hoje é um dia no qual se mesclam a alegria pela consumação da glorificação do Senhor Jesus, a tristeza ao vê-lo partir e a melancolia de uma espécie de sonho quase real. Ao celebrar a Ascensão do Senhor, celebramos também – como dizia São Leão Magno num sermão – a exaltação da nossa pobre natureza humana em Cristo: ele sobe aos céus com a nossa carne, com um coração de carne, com sentimentos humanos, em fim, ele nos leva aos céus. Santo Agostinho exortava: “hoje o Senhor nosso, Jesus Cristo, subiu aos céus, suba também o nosso coração com ele”.
Nós fomos feitos por Deus e para Deus, levamos dentro de nós essa marca de eternidade que nos faz desejar a felicidade. Cada ser humano tem dentro de si uma espécie de saudade do paraíso, um desejo de ser feliz para sempre, uma ânsia de eternidade que faz sentir certa náusea de viver para sempre numa situação incompleta e cheia de perigos. Aquela frase de Santo Agostinho, “Fizeste-nos, Senhor, para ti e o nosso coração está inquieto enquanto não descansar em ti”, continua atual. A pessoa humana, por mais que queira fugir de Deus, não descansará enquanto não se deixar seduzir pelo Senhor, já que em cada efêmera felicidade está buscando a Deus, ainda que as apalpadelas.
Você já desejou, de verdade, ver Deus? Nós falamos de Deus, cremos nele, o adoramos, é preciso também desejar vê-lo. Como é o rosto do Pai? Como é a humanidade glorificada de Cristo? Como é a personalidade do Espírito Santo? O que é Deus? Quem é Deus? “Ninguém jamais viu Deus. O Filho único, que está no seio do Pai, foi quem o revelou” (Jo 1,18). Ambas as afirmações estão perfeitamente combinadas na nossa vida cristã: nós não vimos a Deus, mas nós o conhecemos em Cristo. E, no entanto, desejamos ver como é Deus, como é cada uma das três Pessoas da Santíssima Trindade; também queremos dar um abraço em Nossa Senhora e agradecer pessoalmente ao nosso anjo da guarda por tudo, enfim, nós desejamos o céu.
Hoje é um dia para desejar a vida eterna. Pode-se ler num delicioso livro publicado pela Editora Quadrante, Reflexões espirituais, de Salvador Canals, a conversa de duas pessoas, umas das quais procurava convencer a outra de que a vida cristã é muito importante. O outro, contudo, se resistia. Depois, num momento de sinceridade, disse algo surpreendente: “Não posso viver como você diz por que sou muito ambicioso”. O seu interlocutor teve uma dessas respostas inteligentes e francas: “Olha, você tem diante um homem que é muito mais ambicioso que você (…) um homem que quer ser santo. A minha ambição é tão grande que não ambiciono nenhuma coisa dessa terra (…) Ambiciono a Jesus Cristo, o Paraíso, e a vida eterna”. Isso sim que é ambição! Todo cristão é um ambicioso, santamente ambicioso.
Precisamos que a nossa ambição santa aumente e que desejemos o céu não somente para nós, mas também para todos os nossos amigos. Um cristão sem zelo apostólico é um cristão estéril. Assim como não se pode entender que um peixe não possa nadar, a não ser que esteja morto, assim também não se pode entender que um cristão não seja apostólico, proselitista (no bom sentido da palavra), a não ser que esteja morto. Não podemos perder a audácia, o desejo de ganhar a todos para Cristo. No mesmo sermão citado anteriormente, São Leão Magno dizia que “a fé, aumentada pela ascensão do Senhor e fortalecida com o dom do Espírito Santo, não pode temer diante das cadeias, da prisão, do desterro, da fome, do fogo, das feras nem das torturas dos cruéis perseguidores. Homens e mulheres, crianças e frágeis donzelas lutaram em todo o mundo por essa fé até o derramamento do sangue. Esta fé afugenta os demônios, afasta as enfermidades, ressuscita os mortos”.
Peçamos a Deus que aumente a nossa fé e, consequentemente, a nossa audácia apostólica, que irá ao encontro não somente daquelas pessoas que ainda não são católicas, mas também dos mesmos católicos. Há muitos que estão afastados da Igreja, com uma fé raquítica, sem vigor apostólico. É preciso ajudá-los! Nessa Semana de Oração pela Unidade dos cristãos peçamos a Deus que se acabem as divisões, que todos tenhamos um único desejo: amar a Deus e estender o seu reino por todo o mundo, cada um no ambiente em que se encontra. É vergonhoso que tantas pessoas levem o sublime nome de “cristão” e estejam divididos por placas de igrejas e comunidade eclesiais. Que Deus nos conceda que todos sejamos um sob o cajado do Sucessor de Pedro, pois essa é a vontade de Deus para a sua Igreja.



sábado, 26 de março de 2016

Homilia da Vigília Pascal. Pe. Fantico Borges, CM

Vigília Pascal - Ano C

Ó noite de alegria verdadeira!

É uma Noite estupenda, esta Noite! Não há outra, como esta; não poderá haver neste mundo! Esta Noite santíssima, caríssimos, resume e encerra em si, como num ventre fecundo, outras noites.
Vede: hoje, nesta Noite, quando tudo era trevas, Deus disse: “Faça-se a luz!” e a luz se fez (cf. Gn 1,3)! Hoje, quando Isaac estava para entrar na noite da morte, pois nosso Pai Abraão tinha decidido sacrificá-lo a Deus, a luz brilhou e o Senhor disse: “Abraão, não estendas a mão contra o teu filho!” E Isaac viu a luz da vida (cf. Gn 22,12)! Ainda hoje, nesta Noite, Deus, com braço estendido, fez o seu povo atravessar o Mar Vermelho e deixar a escravidão de Faraó, no Egito (cf. Ex 14,1-31). Foi também hoje, nesta noite bendita – nesta mesma Noite! –, que o Pai, derramou seu Espírito Santo sobre o nosso Jesus que estava morto e o arrancou das trevas da morte, fazendo-o passar para a luz da plenitude da vida. Finalmente, numa noite como esta, num hoje como hoje, no meio da noite deste mundo, em plena escuridão da história, o Pai enviará o Cristo ressuscitado, pleno de glória, e brilhará, no meio da noite deste mundo, o Dia eterno, da glória eterna, na plenitude do Reino! E já não haverá mais noite e o Cordeiro imolado e ressuscitado será nosso sol, nosso dia eterno (cf. Ap 22,5)!
Irmãos amados, todas estas noites que se transformam em dia de luz fulgurante, se resumem e estão presentes misteriosamente nesta Noite de Páscoa! Porque nesta Noite Cristo ressuscitou, todas as noites da história da salvação e todas as noites deste mundo, e todas as noites da nossa vida e do nosso coração, são transformadas em Dia pleno, Dia triunfante, Dia resplendente de glória! Nem todas as palavras do mundo bastariam para exprimir o mistério desta Noite!
Irmãos, Irmãs, se correrdes ao túmulo do Crucificado, tereis uma surpresa: não o encontrareis lá! "Por que estais procurando entre os mortos Aquele que está vivo? Ele não está aqui. Ressuscitou!” Irmãos, crede: no meio desta Noite – só ela viu, só ela sabe a hora! – o nosso Jesus deixou a morte na qual havia entrado na Sexta-feira, e entrou na plenitude da vida do Pai! Irmãos, Irmãs, não procureis Jesus neste mundo: ele partiu, ele ressuscitou, ele está com o Pai, pleno de corpo e de alma! Ele, agora, é nosso eterno Intercessor, nosso Senhor, nosso Deus Vencedor! Mas, não fiqueis tristes, irmãos: ele, que se foi, não nos deixou. Deu-nos o seu Espírito Santo, Aquele mesmo no qual o Pai o ressuscitou. Vós, batizados em Cristo, recebestes o Espírito Santo de Cristo e, agora, tendes a vida do Cristo em vós, que irá crescendo até a vida eterna! No Espírito Santo de Cristo, tendes a vida do Senhor no pão e no vinho, presença real do Cristo morto e ressuscitado! Ele, que se foi, não nos deixou! Na potência do seu Espírito, continua agindo em nós e entre nós!
             Irmãos, esta Noite é santa! Toda lágrima, nela, é enxugada; todo pecado, nela, é perdoado; toda morte, nela, é vencida! Irmãos, nosso Jesus ressuscitou, nosso Jesus foi constituído Senhor, nosso Jesus abriu-nos um caminho novo; nosso Jesus deu-nos um novo rumo na vida, uma nova esperança , uma invencível certeza! Irmãos, nesta Noite, a Morte perdeu a guerra, nesta Noite, o Filho de Deus, na sua humanidade igual a nossa, venceu a Morte, arrombou o pântano infernal e abriu-nos o caminho para o Pai! Irmãos, esta é a Noite mais feliz da história humana: é a Noite da Páscoa; Páscoa de Cristo, nossa Páscoa! “Eis agora a Páscoa, nossa festa, em que o real Cordeiro se imolou: marcando nossas portas, nossas almas, com seu divino sangue nos salvou! Ó Noite de alegria verdadeira, que prostra o Faraó e ergue os hebreus, que une de novo ao céu a terra inteira, pondo na treva humana a luz de Deus!”

Irmãos, Cristo ressuscitou! Irmãs, o sepulcro está vazio! Irmãos, Cristo, nosso Caminho, abriu-nos o caminho da vida! Irmãs, vivamos vida nova, porque agora nossa vida tem rumo, sentido e plenitude: na treva humana brilhou em Cristo a luz de Deus! Feliz Páscoa, Irmãos! Cristo ressuscitou, Irmãs! Aleluia!

sexta-feira, 25 de março de 2016

Homília da Sexta-Feira Santa do Padre Fantico


Homília da Sexta-Feira Santa

A liturgia desta Sexta-feira Santa tem como ponto alto a cruz de Jesus. Diz São Leão Magno:  “Que a nossa inteligência, iluminada pelo Espírito da Verdade, acolha, com o coração puro e liberto, a glória da cruz que se irradia pelo céu e a terra”. O mesmo santo nos diz que a santa cruz “é fonte de todas as bênçãos e origem de todas as graças. Por ela, os que creem recebem na sua fraqueza a força; na humilhação, a glória; na morte, a vida”. Cantemos, nós também, a glória da Santa Cruz.
O centro, é portanto a mensagem que o Cristo, nossa páscoa foi imolado por nossos pecados. O Justo pelos injustos, o Santo pelos pecadores. O filho unigênito pelos filhos desobedientes. A sexta feira Santa revela o inefável amor de Deus pela criação. A obediência do Filho recompõe o que outrora nossa desobediência fizera perder: “Mesmo sendo Filho, aprendeu o que significa a obediência a Deus por aquilo que sofreu. Mas, na consumação de sua vida, tornou-se causa de salvação eterna para todos os que lhe obedecem”. Esta hodierna Liturgia é solene e dramática. Altar desnudo cruzes veladas na igreja, nenhum ornamento... Quase não há palavras para exprimir o estupendo mistério que se celebrará: o eterno Filho, Deus santo, vivo e verdadeiro, na tarde sacratíssima desta sexta-feira, por nós se entregou ao Pai, em total obediência, até à morte, e morte de cruz! Para contemplar o mistério celebrado, tomemos, então, com temor e tremor, as palavras da Epístola aos Hebreus, que apresenta-nos no inicio: “Mesmo sendo Filho, aprendeu o que significa a obediência a Deus por aquilo que sofreu”. Eis aqui uma realidade que jamais poderemos compreender totalmente! O Filho eterno, o Filho que vive sempre na intimidade do Pai, o Filho infinitamente amado pelo Pai, no seu caminho neste mundo, aprendeu a descobrir, cada dia, a vontade do seu Pai e a ela obedecer! Mais ainda: esta obediência lhe custou lágrimas, fê-lo sofrer!
Queres conhecer o poder do sangue de Cristo? Voltemos às figuras que o profetizaram e recordemos a narrativa do Antigo Testamento: Imolai, disse Moisés, um cordeiro de um ano e marcai as portas com o seu sangue (cf. Ex 12,6-7). Que dizes, Moisés? O sangue de um cordeiro tem poder para libertar o homem dotado de razão? É claro que não, responde ele, não porque é sangue, mas por ser figura do sangue do Senhor. Se agora o inimigo, ao invés do sangue simbólico aspergido nas portas, vir brilhar nos lábios dos fiéis, portas do templo dedicado a Cristo, o sangue verdadeiro, fugirá ainda mais para longe.  
Queres compreender mais profundamente o poder deste sangue? Repara de onde começou a correr e de que fonte brotou. Começou a brotar da própria cruz, e a sua origem foi o lado do Senhor. Estando Jesus já morto e ainda pregado na cruz, diz o evangelista, um soldado aproximou-se, feriu-lhe olado com uma lança, e imediatamente saiu água e sangue: a água,como símbolo do batismo; o sangue, como símbolo da eucaristia. O soldado, traspassando-lhe o lado, abriu uma brecha na parede do templo santo, e eu, encontrando um enorme tesouro, alegro-me por ter achado riquezas extraordinárias. Assim aconteceu com este cordeiro. Os judeus mataram um cordeiro e eu recebi o fruto do sacrifício.
De seu lado saiu sangue e água (Jo 19,34). Não quero, querido ouvinte, que trates com superficialidade o segredo de tão grande mistério. Falta-me ainda explicar-te outro significado místico e profundo. Disse que esta água e este sangue são símbolos do batismo e da eucaristia. Foi destes sacramentos que nasceu a santa Igreja, pelo banho da regeneração e pela renovação no Espírito Santo, isto é, pelo batismo e pela eucaristia que brotaram do lado de Cristo. Pois Cristo formou a Igreja de seu lado traspassado, assim como do lado de Adão foi formada Eva, sua esposa. Por esta razão, a Sagrada Escritura, falando do primeiro homem, usa a expressão osso dos meus ossos e carne da minha carne (Gn 2,23), que São Paulo refere, aludindo ao lado de Cristo. Pois assim como Deus formou a mulher do lado do homem, também Cristo, de seu lado, nos deu a água e o sangue para que surgisse a Igreja. E assim como Deus abriu o lado de Adão enquanto ele dormia, também Cristo nos deu a água e o sangue durante o sono de sua morte. Vede como Cristo se uniu à sua esposa, vede com que alimento nos sacia. Do mesmo alimento nos faz nascer e nos nutre. Assim como a mulher, impulsionada pelo amor natural, alimenta com o próprio leite e o próprio sangue o filho que deu à luz, também Cristo alimenta sempre com o seu sangue aqueles a quem deu o novo nascimento.