domingo, 13 de maio de 2018

Homilia do Pe. Fantico Borges, CM – da Ascensão do Senhor – Ano B




Homilia do Pe. Fantico Borges, CM –  da Ascensão do Senhor – Ano B

Nossa humanidade que em Cristo está no céu!
                                                                           
Hoje é um dia no qual se mesclam a alegria pela consumação da glorificação do Senhor Jesus e  a tristeza ao vê-lo partir. Mas a sua ascensão já é a nossa vitória. Ao celebrar a Ascensão do Senhor, celebramos também – como dizia São Leão Magno num sermão – a exaltação da nossa pobre natureza humana em Cristo: ele sobe aos céus com a nossa carne, com um coração de carne, com sentimentos humanos, em fim, ele nos leva aos céus. Santo Agostinho exortava: “hoje o Senhor nosso, Jesus Cristo, subiu aos céus, suba também o nosso coração com ele”. Nesta celebração sentimos o amor de Deus mais profundo no ato de nos levar para dentro da Trindade. Agora podemos que não somos sem teto, sem lar, sem colo. Nossa morada é o céu. A eterna morada de Deus que já experimentamos aqui na vida da Igreja, nos tempos de pedras dedicados à oração e o louvor.
Nós fomos feitos por Deus e para Deus, levamos dentro de nós essa marca de eternidade que nos faz desejar a felicidade. Cada ser humano tem dentro de si uma espécie de saudade do paraíso, um desejo de ser feliz para sempre, uma ânsia de eternidade que faz sentir certa náusea de viver para sempre numa situação incompleta e cheia de perigos. Aquela frase de Santo Agostinho, “Fizeste-nos, Senhor, para ti e o nosso coração está inquieto enquanto não descansar em ti”, continua atual. A pessoa humana, por mais que queira fugir de Deus, não descansará enquanto não se deixar seduzir pelo Senhor, já que em cada efêmera felicidade está buscando a Deus, ainda que às apalpadelas.
Você já desejou, de verdade, ver Deus? Nós falamos de Deus, cremos nele, o adoramos, mas é preciso também desejar vê-lo. Como é o rosto do Pai? Como é a humanidade glorificada de Cristo? Como é a personalidade do Espírito Santo? O que é Deus? Quem é Deus? “Ninguém jamais viu Deus. O Filho único, que está no seio do Pai, foi quem o revelou” (Jo 1,18). Ambas as afirmações estão perfeitamente combinadas na nossa vida cristã: nós não vimos a Deus, mas nós o conhecemos em Cristo. E, no entanto, desejamos ver como é Deus, como é cada uma das três Pessoas da Santíssima Trindade; também queremos dar um abraço em Nossa Senhora e agradecer pessoalmente ao nosso anjo da guarda por tudo, enfim, nós desejamos o céu.
Hoje é um dia para desejar a vida eterna, para querer ver o Senhor, contemplar seu resplendor e desfrutar do seu repouso. O desejo do paraíso, a busca pela vida eterna somente é possível se cremos em Cristo, pois quem crer já está salvo. E os sinais que nos acompanharão os fiéis em Cristo é o poder sobre o mal, o demônio, as trevas. Ambicionar a Jesus Cristo, o Paraíso, e a vida eterna é dá  testemunho de seu poder eterno. Isso sim que é uma santa ambição! Todo cristão é um ambicioso, santamente ambicioso pela graça divina.
Precisamos que a nossa ambição santa aumente e que desejemos o céu não somente para nós, mas também para todos os nossos amigos e até para os inimigos. Um cristão sem zelo apostólico é um cristão estéril. Assim como não se pode entender que um peixe não possa nadar, a não ser que esteja morto, assim também não se pode entender que um cristão não seja apostólico, proselitista (no bom sentido da palavra), a não ser que esteja morto. Não podemos perder a audácia, o desejo de ganhar a todos para Cristo. No mesmo sermão citado anteriormente, São Leão Magno dizia que “a fé, aumentada pela ascensão do Senhor e fortalecida com o dom do Espírito Santo, não pode temer diante das cadeias, da prisão, do desterro, da fome, do fogo, das feras nem das torturas dos cruéis perseguidores. Homens e mulheres, crianças e frágeis donzelas lutaram em todo o mundo por essa fé até o derramamento do sangue. Esta fé afugenta os demônios, afasta as enfermidades, ressuscita os mortos”.
Peçamos a Deus que aumente a nossa fé e, consequentemente, a nossa audácia apostólica, que irá ao encontro não somente daquelas pessoas que ainda não são católicas, mas também dos mesmos católicos. Há muitos que estão afastados da Igreja, com uma fé raquítica, sem vigor apostólico. É preciso ajudá-los! Nessa Semana de Oração pela Unidade dos cristãos peçamos a Deus que se acabem as divisões, que todos tenhamos um único desejo: amar a Deus e estender o seu reino por todo o mundo, cada um no ambiente em que se encontra.
Aprendamos com nossas mães que mesmo tendo muitos filhos sabem amar a todos com o mesmo amor, que cuida com mais atenção os mais frágeis sem diminuir o afeto pelo mais forte. Que sabe dar sem nada receber, faz sem nada pedir, que doa sem nada esperar. Neste dia das mães, dia de Nossa Senhora de Fátima agradeçamos a Deus que nos deu Maria Santíssima como mãe de todos: pobres, ricos, brancos, negros, órfãos e afortunados.   Que ninguém se sinta só neste dia das mães.

Pe. Fantico Borges, CM  



domingo, 29 de abril de 2018

Homilia do Pe. Fantico Borges, CM – V Domingo de Páscoa Ano B


Homilia do Pe. Fantico Borges, CM – V Domingo de Páscoa Ano B

Eu sou a videira, sem mim nada podeis fazer!

Na liturgia de hoje Jesus afirma que ele é a videira e nós os ramos. Ora, um ramos separado da arvore não produz nada. Secará e sera queimado como galho seco e infrutífero. A mesma coisa é o cristão se não tiver bem unido a Cristo nada pode fazer. É importante lembrar que o antigo Israel sempre se considerou a vinha do Senhor. No Evangelho (Jo 15,1-8), quando Jesus afirma: “Eu sou a videira verdadeira”. Essas palavras, numa ceia de despedida, representam o seu “Testamento”. Jesus proclama que ele é videira verdadeira plantada pelo próprio Deus, diferente do antigo Israel que não produziu os frutos esperados, Jesus diz que quem permanecer nele dará muito fruto.
Jesus se apresenta como a “videira verdadeira”, capaz de produzir frutos que Israel não produziu. Ele é o tronco e nós somos os ramos! O ramo que não der frutos é cortado e lançado ao fogo. O ramo que dá frutos é podado para que dê mais frutos. Jesus convida os apóstolos a permanecerem n’Ele:” permanecei em Mim, como Eu em vós”. Como o tronco da videira transmite a vida aos ramos e os ramos são vivificados quando permanecem ligados ao tronco, assim se dá com Cristo e os cristãos. Os ramos assim ligados ao tronco é que produzem fruto. Para produzir frutos, os ramos precisam de seiva da videira e da poda.
Na patrística Orígenes destaca a necessidade de correção que todo ser humano precisa. Para ele se estamos enxertados em Cristo, será necessário que o Pai nos pode, ele que é o agricultor.  É interessante que o agricultou quando deseja que a planta produza mais frutos e melhores a qualidade da semente ele poda a arvores, ou seja, corta os galhos que sugam as forças da planta sem nada produzir. A planta no tempo da poda sofre, mas depois ela cresce vicejante e dar frutos abundantemente. No campo da fé muitas vezes precisamos de disciplina e correções. Na hora da correção sofremos e nos sentimos até injustiçados, mas geralmente a correção fraterna dará muitos frutos positivos no tempo certo. Uma coisa que precisamos trabalhar em nós é a paciência divina, a longanimidade eterna que sabe esperar com prontidão o tempo da colheita.  
Na fala de Jesus fica claro que  o cristão precisa da seiva da videira, que é Cristo, pois “sem Ele nada podeis fazer”. É interessante notar que o texto fala oito vezes em “permanecer em Cristo” e sete vezes em “dar frutos”. Se não permanecermos unidos a Cristo, recebendo essa seiva, nos tornaremos ramos secos e estéreis, que serão cortados e lançados ao fogo.
Os nossos trabalhos pastorais não serão eficazes se não houver a seiva dessa videira e o contato com Jesus, através da Oração, meditação, leitura orate da palavra. Só unidos ao tronco podem viver e frutificar os ramos; do mesmo modo, só permanecendo unido a Cristo pode o cristão viver na graça e no amor e produzir frutos de santidade. Isto manifesta a impossibilidade do homem em tudo o que se relaciona com a vida sobrenatural e a necessidade da sua total dependência de Cristo; mas manifesta também a vontade positiva de Cristo de fazer com que o homem viva a sua própria vida com Ele.
Quem não está unido a Cristo por meio da graça terá, o mesmo destino que as varas secas: o fogo. Diz Santo Agostinho:”os ramos da videira são do mais desprezível se não estão unidos ao tronco; e do mais nobre se o estão(…) Se se cortam não servem de nada nem para o vinhateiro nem para o carpinteiro. Para os ramos há duas opções: ou a videira ou o fogo: para não irem para o fogo, que estejam unidos à videira” (Santo Agostinho: Tr. Sobre São João, 81, 3-4).
Estejamos atentos! O Senhor nos faz um apelo: “produzir frutos…”. Porém impõe uma condição: “permanecer unido a Ele”. Para isso precisa: gastar tempo com Ele! Nenhum trabalho, mesmo pastoral, justifica o abandono do encontro pessoal com Cristo, na Oração. Jesus nos adverte:”sem mim nada podeis fazer”. Devemos antes falar com Deus… para depois falar de Deus… Alimentar a nossa espiritualidade com esta “seiva divina”, que é a graça de Deus, na escuta da Palavra, na pratica sacramental… Dizia São João Paulo II:”A oração é para mim a primeira tarefa, como o primeiro anúncio; é a primeira condição de meu serviço à igreja e ao mundo”. São Francisco de Assis ensinava que “do homem que não reza não se pode esperar nenhum bom fruto”. Nossa sede de Deus será a força para nossa sede em conquistar novos filhos (ramos) para vinha de Senhor. A vida de união com Cristo transcende necessariamente o âmbito individual do cristão para se projetar em benefícios dos outros: daí brota a fecundidade apostólica, já que o apostolado, seja ele de que tipo for, consiste numa superabundância da vida interior.
Essa união com Cristo, a videira verdadeira, será sempre abundante quando mais nos envolvermos todo com ela. É preciso passar de fé conceitualistas que sabe quem é Deus com termos altíssimos para uma fé encarnada que se encontra com Deus nas situações reais da vida das pessoas, especialmente os pobres e excluídos, da religião, da economia e da vida social.  Como dizia São Vicente amemos a Deus não somente com palavras , mas atitudes. 

Pe. Fantico Borges, CM

sábado, 14 de abril de 2018

Homilia do Pe. Fantico Borges, CM – III Domingo da Páscoa – Ano B.


Homilia do Pe. Fantico Borges, CM – III Domingo da Páscoa – Ano B.

Vós sereis minhas testemunhas!

O evangelho deste domingo continua a meditação do episódio dos discípulos de Émaus. Quando eles ainda estão conversando sobre o que tinha acontecido com eles no caminho, Jesus aparece e lhes deseja a paz; ele continua a explicar-lhes sem interromper o argumento: “Isto é o que vos dizia quando ainda estava convosco: era necessário que se cumprisse tudo o que de mim está escrito na Lei de Moisés, nos profetas e nos salmos” (Lc 24,44). Os discípulos ainda não tinham entendido a escritura, porque desejavam um messias aos padrões dos desejos humanos e não a partir dos planos de Deus.
Observemos que a pregação de Pedro alude para uma consciência da Lei e dos Profetas. A comunidade quer deixar bem claro que Jesus rejeitado pelos chefes dos judeus e mestres da Lei é o mesmo que as profecias anunciavam. O discurso dos Apóstolos é duro. Vos Matastes, vos rejeitastes e pedistes a liberdade a um assassino e a condenação de Jesus. Mas Deus o ressuscitou e o libertou tornando-O Guia Supremo. Agora, arrependei-vos e convertei-vos para serdes perdoado pelo Cristo e batizado em seu nome. Ora, a proposta dos apóstolos é uma mudança de mentalidade a fim de viver uma vida nova, segundo o mandamento novo.  
Para essa vida nova o critério é viver segundo o mandamento de Deus. Quem diz que ama a Deus e não guarda seus mandamentos é mentiroso. Qual é esse mandamento? Jesus resumiu toda lei e preceitos em Amor a Deus e amor ao próximo. Ora, esse amor foi experimentado de modo real na cruz e assumido como expressão de entrega e confiança. A cruz revela com toda a força, até onde Deus é capaz de ir por nós: ele é capaz de se entregar, de dar sua vida por nós! No seu Filho o Pai nos entrega tudo de precioso que ele tem! No Filho feito homem de dores, humilhado e derrotado, nós podemos compreender o quanto somos amados por Deus, o quanto ele nos leva a sério, o quanto é capaz de descer para nos procurar! Contemplemos a cruz e sejamos gratos a Deus que se entrega assim!
O Filho, entregue ao Pai com toda a confiança e todo o abandono, o Filho, feito homem de dores, agora é glorificado pelo Pai e colocado no mais alto da glória. Deus jamais abandona os que a ele se confiam. Podemos imaginar o Senhor Jesus dizendo as palavras do Salmo de hoje: “Eu tranqüilo vou deitar-me e na paz logo adormeço, pois só vós, ó Senhor Deus, dais segurança à minha vida!” O nosso Salvador adormeceu no sono da morte certo que o Pai o despertaria para a vida da glória! Sim, o Pai é Fidelidade, o Pai é Amor! Mas, é também fidelidade e amor para conosco. Efetivamente, tudo quanto aconteceu com o Filho na cruz foi por nós, para nossa salvação, para que o nosso pecado, a nossa situação de miséria, encontrasse expiação. Eis como a Palavra de Deus deste hoje insiste nisso: “Se alguém pecar, temos junto do Pai um Defensor: Jesus Cristo, o Justo. Ele é a vítima de expiação pelos nossos pecados, e não só pelos nossos, mas também pelos do mundo inteiro”. E o próprio Jesus afirma no Evangelho que “no seu nome serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações”. Meus caros em Cristo, na cruz e ressurreição do Senhor, Deus, amorosamente nos concedeu o perdão dos pecados!
Então, que temos de fazer para corresponder a tanto amor, a tão grande graça? Três coisas: primeira: crer em Jesus, o Enviado do Pai, que por nós morreu e ressuscitou: “Convertei-vos para que os vossos pecados sejam perdoados!” Quem crer em Jesus, quem diante dele reconhecer-se pecador e o acolher como o Salvador e nele colocar a vida, nele encontrará o perdão que vem pela cruz e a ressurreição. Segunda coisa: viver na Palavra do Senhor: “Para saber se o conhecemos, vejamos se guardamos os seus mandamentos. Naquele que guarda a sua palavra, o amor de Deus é plenamente realizado”. A fé, caríssimos, não é um sentimento nem uma teoria. Nossa fé em Jesus morto e ressuscitado deve levar a um compromisso sério e radical com o Senhor na nossa vida concreta. Quem não guarda os mandamentos, não crê! Quem não crê, fecha-se para a salvação! Terceira coisa: testemunhar Jesus morto e ressuscitado: “Vós matastes o Autor da vida, mas Deus o ressuscitou dos mortos. Disso nós somos testemunhas!” E Jesus diz: “Vós sereis testemunhas de tudo isso!” Caros meus, nós não conhecemos Jesus de um modo teórico. Nós o experimentamos na força da sua Palavra e na graça dos seus sacramentos, sobretudo na participação na Eucaristia. Jesus, para nós, não é um fantasma! “Por que estais preocupados tendes dúvidas no coração? Vede minhas mãos e meus pés: sou eu mesmo!” Sim, meus caros, quantas vezes tocamos Jesus, sentimo-lo vivo, caminhando conosco! Tenhamos, então a coragem de nele crer, de nele viver e dele dar testemunho onde quer que estejamos e onde quer que vivamos. Jesus não é um fantasma! Jesus está vivo! Jesus é Senhor! E sua paz,  sua vitória e seu perdão são provas de sua presença sempre conosco.  

Pe. Fantico Borges, CM

domingo, 1 de abril de 2018

Homilia do Pe. Fantico Borges, CM – Domingo de Páscoa Ano B.


Homilia do Pe. Fantico Borges, CM – Domingo de Páscoa Ano B.

Cristo está vivo Ele ressuscitou!

“A glória de Deus é o homem vivo e a vida do homem consiste em ver a Deus”. Com estas palavras Santo Irineu de Lyon faz refletir sobre a realidade da solenidade pascal: Cristo está vivo, o Senhor ressuscitou aleluia!
A essência do Cristianismo é que Jesus é revelador do Pai. Em Cristo Deus alcança a máxima expressão de revelação como Deus e Senhor, Pai Criador e Deus Libertador. Cristo fala não somente com palavras, mas com todo o seu ser. Tudo o que ele é, é revelação do Pai. Então é na ressurreição que o conceito de revelação alcança toda a sua plenitude. Deus em Cristo revela-se o senhor da vida!
Hoje, neste domingo de Páscoa, o Cristo glorioso manifesta de maneira excelente o seu ser e, desse modo, nos está revelando plenamente o poder do Pai nele e o quanto ele pode no Pai. Cristo se manifesta e a sua auto-manifestação é, para nós, e ao mesmo tempo revelação de Deus numa plenitude sem precedentes. Por outro lado, é também revelação da humanidade glorificada em Jesus na sua novidade mais radical.
A Liturgia Pascal lembra, na primeira leitura, um dos mais comoventes discursos de Pedro sobre a Ressurreição de Jesus: “Deus O ressuscitou no terceiro dia, concedendo-lhe manifestar-se… às testemunhas que Deus havia escolhido: a nós que comemos e bebemos com Jesus, depois que ressuscitou dos mortos” (At 10,40-41). Surge nestas palavras a vibrante emoção do chefe dos Apóstolos pelos grandes acontecimentos de que foi testemunha, pela intimidade com Cristo ressuscitado, sentando-se à mesma mesa, comendo e bebendo com Ele.
A Ressurreição é a grande luz para todo o mundo: “Eu sou a luz” (Jo 8,10), dissera Jesus; luz para o mundo, para cada época da história, para cada sociedade, para cada homem. A ressurreição que revela o Pai misericordioso e amante da vida, tornado-se uma lâmpada de Deus que rompe as trevas da consciência humana pervertida.
No evangelho (Jo 20,1-9) vemos que a Boa Nova da Ressurreição provocou, num primeiro momento, um temor e espanto tão fortes, que as mulheres “saíram e fugiram do túmulo… e não disseram nada a ninguém, porque tinham medo”. Entre elas, porém encontrava-se Maria Madalena que viu a pedra retirada do túmulo e correu a dar a notícia a Pedro e ao discípulo amado: “Tiraram o Senhor do túmulo, e não sabemos onde O colocaram” (Jo 20,2). “Os dois saem correndo para o sepulcro e, entrando no túmulo, observaram as faixas que estavam no chão e o lençol…” (Jo 20,6-7). “Ele viu e acreditou” (Jo 20,8).  Primeiro é emocionante a narrativa da cena. Aqueles dois discípulos correndo até o túmulo em meio a lagrimas de tristeza pela morte do Senhor e da alegria do túmulo vazio. Mas está cena ainda transmite outra mensagem: o respeito do discípulo mais jovem com Pedro. Ele chega primeiro, mas não entra. Espera Pedro porque é Simão quem devia ver primeiro e dar o parecer de autoridade. Os dois entram e ao ver acreditam. Acreditar é o primeiro ato de fé da igreja nascente em Cristo Ressuscitado, originado pela solicitude de uma mulher e pelos sinais do lençol, das faixas de linho, no sepulcro vazio. Se se tratasse de um roubo, quem se teria preocupado em despir o cadáver e colocar o lençol com tanto cuidado? Deus serve-se de coisas bem simples para iluminar os discípulos que “ainda não tinham entendido a Escritura, segunda a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos” (Jo 20,9), nem compreendiam ainda o que o próprio Jesus tinha predito acerca da Sua ressurreição. Que emoção tiveram os discípulos! Crer é um ato de confiança e amor. Quem ama corre rápido para encontrar o amado. Não perde tempo, quer ficar  mais tempo possível com o amado.
A partir deste momento os discípulos estavam mais confiantes. Ainda haveria de  acontecer outras manifestações da ressurreição, mas tudo começava ali em ver e acreditar. A ressurreição é uma realidade, porém, Deus quer livremente ser amado e adorado. Para muitos a pedra ainda está fechando a porta do túmulo, outros ainda procuram entre os mortos aquele que está vivo.
Por isso, a pergunta é pertinente: o que significa ressuscitar em Cristo? Viver a vida nova do Mestre. São Paulo nos ajuda a responder isso. “Se, portanto, ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às coisas lá de cima...”  Isto significa que devemos realizar as tarefas humanas pensando nas realidade do céu. Viver a vida nova do Ressuscitado é seguir os passos de Jesus, ou seja, amar os irmãos e irmãs com justiça, paz e solidariedade. Fazer o bem sem esperar nada em troca, viver na gratuidade e generosidade presentes sempre na vida de Jesus. Peçamos ao Cristo nossa luz, revelador do Pai das misericórdias que nos ilumine a consciência de filhos de Deus e coerdeiro da vida divina, para agirmos como ressuscitados.

Pe. Fantico Borges, CM


sábado, 31 de março de 2018

Homilia do Pe. Fantico Borges, CM – Solene Vigília Pascoal Ano B.


Homilia do Pe. Fantico Borges, CM – Solene Vigília Pascoal   Ano B.

Cristo Ressuscitou Aleluia venceu a morte por Amor!

Irmãos, esta Noite é santa! Toda lágrima, nela, é enxugada; todo pecado, nela, é perdoado; toda morte, nela, é vencida! Irmãos, nosso Jesus ressuscitou, nosso Jesus foi constituído Senhor e Salvador. Nosso Senhor Jesus abriu-nos um caminho novo; deu-nos um novo rumo na vida, uma nova esperança, uma invencível certeza! Nesta Noite, a Morte perdeu a guerra, nesta Noite, o Filho de Deus, na sua humanidade igual a nossa, venceu a Morte, arrombou o pântano infernal e abriu-nos o caminho para o Pai! Esta é a Noite mais feliz da história humana: é a Noite da Páscoa; Páscoa de Cristo, nossa Páscoa! “Eis agora a Páscoa, nossa festa, em que o real Cordeiro se imolou: marcando nossas portas, nossas almas, com seu divino sangue nos salvou! Ó Noite de alegria verdadeira, que prostra o Faraó e ergue os hebreus, que une de novo ao céu a terra inteira, pondo na treva humana a luz de Deus!
Nosso povo com uma fé simples canta nesta noite: Cristo ressuscitou Aleluia venceu a morte com amor! Este canto retrata o sentido da Pascoa: Cristo venceu a morte, por sua morte a morte vi seu fim. Já brilhou para nós a salvação: oh morte onde está tua vitória? Quem poderá fazer frente àqueles que foram redimidos com tão precioso dom? Não foi mais o sangue de um cabrito, mas o próprio Filho Unigênito, Aquele Era, que É, o Alfa e Ômega, Primogênito dentre os mortes, o Vivente, foi ele quem nos reconciliou com Deus. Ele é o pontífice que nos une ao divino Pai das Misericórdias, o Eterno Sacerdote. A ele a honra, a glória, o louvor pelos séculos dos séculos.
Esta é a vigília das vigílias, a noite que assistiu a libertação da morte e de todo pecado no qual os filhos de Deus eram subjugados. Ela assistiu emocionada a ressurreição de Jesus, o Cristo. Hoje é uma Noite estupenda. Não há outra, como esta; não poderá haver neste mundo! Esta Noite santíssima resume e encerra em si, como num ventre fecundo, todas as outras noites. Recordando a pascoa antiga, em que os filhos de Israel foram libertados das mãos do Faraó rei do Egito, o povo da nova e eterna aliança vive em lagrimas e gritos jubilosos a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte. Esta libertação não atingiu apenas o antigo Israel, mas a todos que esperam no Senhor Jesus. Por sua morte a morte viu seu fim, no sangue derramado do Cristo a vida renasceu. Não temeremos mais a morte e a dor, pois Jesus de Nazaré está vivo, ele Ressuscitou!
Vede: hoje, nesta Noite, quando tudo era trevas, Deus disse: “Faça-se a luz!” e a luz se fez (cf. Gn 1,3)! Hoje, quando Isaac estava para entrar na noite da morte, pois nosso Pai Abraão tinha decidido sacrificá-lo a Deus, a luz brilhou e o Senhor disse: “Abraão, não estendas a mão contra o teu filho!” E Isaac viu a luz da vida (cf. Gn 22,12)! Ainda hoje, nesta Noite, Deus, com braço estendido, fez o seu povo atravessar o Mar Vermelho e deixar a escravidão de Faraó, no Egito (cf. Ex 14,1-31). Foi também hoje, nesta noite bendita – nesta mesma Noite! –, que o Pai, derramou seu Espírito Santo sobre o nosso Senhor Jesus que estava morto e o arrancou das trevas da morte, fazendo-o passar para a luz da plenitude da vida. Finalmente, numa noite como esta, num hoje como hoje, no meio da noite deste mundo, em plena escuridão da história, o Pai enviará o Cristo ressuscitado, pleno de glória, e brilhará, no meio da noite deste mundo, o dia eterno, da glória eterna, na plenitude do Reino! E já não haverá mais noite e o Cordeiro imolado e ressuscitado será nosso sol, nosso dia eterno (cf. Ap 22,5)!
             Irmãos amados, todas estas noites que se transformam em dia de luz fulgurante, se resumem e estão presentes misteriosamente nesta Noite de Páscoa! Porque nesta Noite Cristo ressuscitou, todas as noites da história da salvação e todas as noites deste mundo, e todas as noites da nossa vida e do nosso coração, são transformadas em Dia pleno, Dia triunfante, Dia resplendente de glória! Oh noite de alegria verdadeira, que enche o céu e a terra com a glória de Deus.
Todavia, muitos ainda estão procurando pelo morto na sepultura. Ainda desconfiam de sua ressurreição. Talvez penseim que o mundo de violência, fome, guerra e injustiças tenha vencido o Deus da vida. Mas eles se enganam! Deus ressuscitou e está vivo em cada coração que O aceita e segue seus passos. Ele está presente em cada gesto de amor, fraternidade, paz e justiça. Ele vive em cada Eucaristia celebrada, em cada membro batizado que abraça a fé. Cristo venceu o maligno tentador que aprisionava o coração humano. Não temeremos mais a morte porque em Cristo somos mais que vencedores. Mas porque ainda existem tantos sinais de morte? A resposta está em cada um de nós. Jesus está vivo, porém,  espera que cada um de nós O aceite como seu Senhor e guia. Ele não quer forçar pelo poder, nem pela violência; ele deseja que livremente o homem O aceite com seu Deus e Senhor.
Irmãos, Cristo ressuscitou! O sepulcro está vazio! Irmãos, Cristo, nosso Caminho, abriu-nos o caminho da vida! Vivamos a vida nova, porque agora nossa vida tem rumo, sentido e plenitude: na treva humana brilhou em Cristo a luz de Deus! Feliz Páscoa, Cristo ressuscitou, Aleluia!

Pe. Fantico Borges, CM

sexta-feira, 30 de março de 2018

Homília do Pe. Fantico Borges, CM – Sexta-feira da paixão do Senhor.


Homília do Pe. Fantico Borges, CM – Sexta-feira da paixão do Senhor.

Adoremos a Santa Cruz de nosso Senhor Jesus Cristo.  

A liturgia desta sexta-feira Santa é rica e dramática em todas as suas expressões. Uma das pessoas da Santíssima trindade morreu por sua criatura. Deus-Filho morreu por nós pecadores. Por nossa culpa, por nossos pecados Deus experimentou a morte. Nossa desobediência fez cair sobre Deus Filho a mortalidade que sobreveio por consequência de nossos pecados.
Deus que nos criou para seu amor, para vivermos em relação de justiça e santidade com ele, não permitiu que ficássemos abandonados, entregue ao poder do maligno. Por isso, Jesus se encarnou e demonstrou quem é o homem diante de Deus e o que o pecado provocou no ser humano. Na narrativa da Paixão, escutamos pela boca de Pilatos, após o flagelo que Jesus enfrentou com os guardas romanos, a expressão emblemática: “Et Homo”, ou seja, eis o homem! Este homem flagelado, chagado, feridos, cuspidos, esbofeteados, ensanguentado, sem aparência humano, sem beleza alguma é a imagem real do homem decaído! É assim que ficamos depois do pecado original. Esta imagem é o resultado do pecado na pessoa humano. O fruto do pecado é a desconfiguração do homem como Imago Dei. O pecado tornou o ser humano sem aparência divina, chagado em sua alma, sem referência com seu artífice. E mesmo assim aos gritos o povo exclama: Crucifica-o! Crucifica-o! Veja como o pecado nos cega! Ficamos insensíveis diante da dor alheia. A crueldade que levou Jesus a cruz é a mesma que continua levando muitos de nossos irmãos e irmãs à morte. Hoje não tem mais a cruz de madeira, mas a violência das drogas, das armas, da corrupção política, econômica e social. O pecado ainda nos pesa na alma.  
Diferentemente do maligno que não quer nosso bem Deus continua a nos amar. O Senhor nunca desiste de nós. Mesmo que para isso Ele tenha que enfrentar a humilhação da Cruz e o escândalo da morte. Neste sentido, Jesus é o modelo perfeito de homem que na obediência incondicional a Deus realiza em tudo a vontade divina. Assim Jesus é a mais plena imagem do ser humano pensado por Deus.
A Paixão de Cristo é o ápice da manifestação da paixão de Deus pela humanidade. Deus morre na Cruz pela humanidade pecadora. Oh doce lenho que sobre si sustem o Amado de nossa alma. Que mistério glorioso: um Deus que se esvazia para fazer viver a sua criatura.
O Filho eterno, o Filho que viveu sempre na intimidade do Pai, o Filho infinitamente amado pelo Pai, aprendeu no seu caminho neste mundo, aprendeu a descobrir, cada dia, a vontade do seu Pai e a ela obedecer! Mais ainda: esta obediência lhe custou lágrimas, fê-lo sofrer! Toda a existência do Senhor Jesus foi uma total dedicação ao Pai, uma absoluta entrega, no dia a dia, nas pequenas coisas... Jesus foi procurando e descobrindo a vontade do Pai nos acontecimentos, nas pessoas, nas Escrituras... e, pouco a pouco, foi percebendo que esta vontade ia levá-lo à cruz. E ele, nosso Salvador, “com forte clamor e lágrimas”, foi se entregando, se esvaziando, se abandonando... É impressionante pensarmos, mas toda a vida do Filho de Deus neste mundo foi uma busca pobre e obediente da vontade do Pai, entre clamor e lágrimas.
A agonia no Horto já exprime sua situação dramática: “Abba! Ó Pai! Tudo é possível para ti: afasta de mim este cálice; porém não o que eu quero, mas o que tu queres!” (Mc 14,36). Para o Senhor, como para nós, a vontade do Pai tantas vezes pareceu enigmática, e ele teve que discerni-la e descobri-la entre trevas densas e dolorosas! Mas, ao fim, como é comovente a entrega total do Cristo: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito!” (Lc 23,46).
Como não ficar extasiado com esse homem-Deus que ensinou como homem o que devemos fazer para alcançarmos a Deus.  Adorar a cruz é encontrar em Cristo um caminho seguro para nossa salvação. Seguir os passos do senhor e fazer em tudo a vontade de Deus. Peçamos a Jesus que nos que caminhe conosco nesta via-cruzes da vida em jamais duvidar do Poder da justiça divina que nunca nos desampara. Bendita e louvada seja a paixão do Redentor, que por nós sofreu o martírio, morreu por nosso amor!

Pe. Fantico Borges, CM

sábado, 24 de março de 2018

Homilia do Pe. Fantico Borges, CM – Domingo de Ramos – Ano B


Homilia do Pe. Fantico Borges, CM   – Domingo de Ramos – Ano B

A glória de Jesus é fidelidade na Paixão

Com a solene procissão de Ramos e a Paixão de Jesus Cristo a Igreja abre a Semana Santa. O tempo mais intenso na fé da comunidade cristã. No Evangelho (Mc 15, 1-39) vemos que o cortejo organizou-se rapidamente. Jesus faz a sua entrada em Jerusalém, como Messias, montado num burrinho, conforme havia sido profetizado muitos séculos antes (Zac. 9,9). Jesus aceita a homenagem, e quando os fariseus, que também conheciam as profecias, tentaram sufocar aquelas manifestações de fé e alegria, o Senhor disse-lhes: “Eu vos digo, se eles se calarem, as pedras gritarão.” (Lc 19, 40).
Novamente encontramos Jesus quer também entrar triunfante na vida dos homens e mulheres de hoje, não ornado num altar de ouro, nem sentado num trono de riqueza, mas numa montaria humilde, com a simplicidade de um Deus que se fez homem e assumiu nossas dores; que pelo seu sofrimento já não tinha nem aspecto humano.
O senhor carregou sobre seus ombros a cruz que pesava sobre nossas cabeças. Ele preferiu sofrer para não ver sua criação perdida. Por isso, “quem ama os preceitos do Senhor, sujeita com cravos a própria carne, sabendo que, quando seu homem velho estiver com Cristo crucificado na cruz, destruirá a luxúria da carne. Sujeita-a, pois, com cravos e terás destruindo os incentivos ao pecado. Existe um cravo espiritual capaz de sujeitar essa tua carne ao patíbulo da cruz do senhor. Que o temor do Senhor e de seus juízos crucifique esta carne, reduzindo-a à servidão. Porque se essa carne rejeita os cravos do temor do Senhor, indiscutivelmente terá de ouvir: ‘ meu sopro não durará para sempre no homem, visto que é carne.’ Portanto, a menos que esta carne seja cravada à cruz, e se lhe sujeite com os cravos do temor do Senhor nosso, o sopro de Deus não perdurará no homem”  (Santo Ambrósio, comentário ao salmo 118).
No quadro da Paixão de Cristo é preciso vislumbrar nossas paixões diárias. Ninguém nasceu para sofrer, mas a dor nos fez crescer e enxergar o mundo com um olhar mais humilde, simples e limitado. Na Carta Apostólica Salvifici Doloris, o Papa São João Paulo II exortava para a descoberta do sentido salvífico do sofrimento. “O sofrimento humano atingiu o seu vértice na paixão de Cristo; e, ao mesmo tempo, revestiu-se de uma dimensão completamente nova e entrou numa ordem nova: ele foi associado ao amor, àquele amor que cria o bem, tirando-o mesmo do mal, tirando-o por meio do sofrimento, tal como o bem supremo da Redenção do mundo foi tirado na Cruz de Cristo e nela encontra perenemente o seu princípio”. Sempre será um mistério para todos nós tirar do eminente fracasso de uma cruz, uma palavra de Deus para nos animar a caminhar. Carecemos muito de uma visão teológica de nossas vidas. Às vezes, os afazeres da vida contemporânea, a correria diária não deixa tempo para ler o que Deus quis dizer nos acontecimentos dos nossos dias. É preciso parar e olhar a Cruz de Cristo e dizer por Ele sofreu? Porque é também tenho que sofre? O silêncio da Cruz não é ausência de respostar, mas do silêncio da Cruz nasce da vitória.

Novamente Jesus quer fazer-se presente em nós através das circunstâncias do viver humano. Naquele cortejo triunfal, quando Jesus vê a cidade de Jerusalém, chora! Jesus vê como Jerusalém se afunda no pecado, na ignorância e na cegueira. O Senhor vê como virão outros dias que já não serão como estes, um dia de alegria e de salvação, mas de desgraça e ruína. Poucos anos depois a cidade será arrasada. Jesus chora a impenitência de Jerusalém. Como são eloquentes estas lágrimas de Cristo. O Concílio Vaticano II, GS nº 22, diz: “De certo modo, o próprio Filho de Deus se uniu a cada homem pela sua Encarnação. Trabalhou com mãos humanas, pensou com mente humana, amou com coração de homem. Nascido de Maria Virgem fez-se verdadeiramente um de nós, igual a nós em tudo menos no pecado. Cordeiro inocente, mereceu-nos a vida derramando livremente o seu sangue, e n’Ele o próprio Deus nos reconciliou consigo e entre nós mesmos e nos arrancou da escravidão do demônio e do pecado, e assim cada um de nós pode dizer com o Apóstolo: “Ele me amou e se entregou por mim (Gal. 2,20)”.
A história de cada homem é a história da contínua solicitude de Deus para com ele. Cada homem é objeto da predileção do Senhor. Jesus tentou tudo com Jerusalém, e a cidade não quis abrir as portas à misericórdia. É o profundo mistério da liberdade humana, que tem a triste possibilidade de rejeitar a graça divina. Como é que estamos correspondendo às inúmeras instâncias do Espírito Santo para que sejamos santos no meio das nossas tarefas, no nosso ambiente? Quantas vezes em cada dia dizemos sim a Deus e não ao egoísmo à preguiça, a tudo o que significa falta de amor, mesmo em pormenores insignificantes? A entrada triunfal de Jesus foi bastante efêmera para muitos. Os ramos verdes murcharam rapidamente. O hosana entusiástico transformou-se, cinco dias mais tarde, num grito furioso: Crucifica-o! Por que foi tão brusca a mudança, por que tanta inconsistência? São Bernardo comenta: “Como eram diferentes umas vozes e outras! Fora, fora, crucifica-o e bendito o que vem em nome do Senhor, Hosana nas alturas! Como são diferentes as vozes que agora o aclamam Rei de Israel e dentro de poucos dias dirão: Não temos outro rei além de César! Como são diferentes os ramos verdes e a Cruz, as flores e os espinhos! Àquele a quem antes estendiam as próprias vestes, dali a pouco o despojam das suas e lançam a sorte sobres elas.”
Essas cenas da liturgia da palavra de hoje da entrada triunfal de Jesus em Jerusalém e dos gritos enlouquecidos da multidão pedindo sua crucificação pede-nos coerência e perseverança, aprofundamento da nossa fidelidade, para que os nossos propósitos não sejam luz que brilha momentaneamente e logo se apaga. Dentro do nosso coração, há profundos contrastes: somos capazes do melhor gesto para alguns e do pior para outros. Se queremos ter em nós a vida divina, triunfar com Cristo, temos de ser constantes e matar pela penitência o que nos afasta de Deus e nos impede de acompanhar o Senhor até a Cruz.
Que esta semana santa que iniciamos seja repleta de reflexões e desejo de conversão. Peça a Deus que esta semana santa de 2018 seja diferente. Renuncie os passeios, as redes de balanço, as casas de praias, as piscinas refrescantes, aos banquetes regados a vinhos e peixe. Estes dias, e especialmente na sexta, são dias de rezar com Cristo sua Paixão, que é nossa também. Participe de todos os atos do tríduo pascal em sua Paróquia ou comunidade. Deus te livre que na hora da agonia de Jesus você esteja numa rede ou numa cama dormindo, ou bebendo aquele vinho. Deus te livre dessa infâmia. Nosso Senhor te espera na sua Paixão!

Pe. Fantico Borges, CM




Homilia do Pe. Fantico Borges, CM – da Ascensão do Senhor – Ano B

Homilia do Pe. Fantico Borges, CM –   da Ascensão do Senhor – Ano B Nossa humanidade que em Cristo está no céu!                 ...