sábado, 13 de janeiro de 2018

Homilia do Pe. Fantico Borges, CM - II Domingo do Tempo Comum – Ano B

Homilia do Pe. Fantico Borges, CM - II Domingo do Tempo Comum – Ano B

 Eles permaneceram com o Senhor naquele dia!

Caros irmãos e irmãs, chegamos ao tempo comum depois de termos vivido às alegrias do natal de Jesus. Entramos hoje no Segundo Domingo chamado Comum: tempo em que encontramos os passos de Jesus rumo ao ápice de salvação que ele veio anunciar. Neste tempo penetramos no dia a dia da vida miúda, vivida na presença do Senhor que está sempre presente na sua Igreja na potência do seu Espírito Santo, dando vigor à Palavra e eficácia aos sacramentos.
Neste Missa Deus chama-nos, pois quer entrar na nossa vida e nos dirigir uma apelo apaixonado. Foi assim com jovem Samuel que se quer sabia reconhecer a sua voz; foi assim com os primeiros discípulos, traspassados pela palavra do Batista que, apresentando o Cordeiro de Deus, quase que forçava aqueles dois, André e Tiago, a seguirem Jesus. E lá vão eles: “Rabi, onde moras? Onde tens tua vida?” E Jesus os convida: “Vinde e ver! A este convide os discípulos descobrem a presença e chamado de Deus: eles foram e permaneceram com ele... Somente se tiverdes a coragem de virdes comigo, de comigo permanecerdes, podereis ver de verdade!” Santo Agostinho afirma nas confissões que nosso coração viverá sempre incompleto, e, portanto, inquieto enquanto não permanecer em Deus. Não é impressionante, quase que inacreditável, caríssimos, que Deus nos conheça pelo nome, que nos chame e nos queira parceiros de seu caminho de vida? Deus nos conhece; sabe bem quem somos. Conhece nossas virtudes e nossos pecados e assim mesmo ele nos chama, por amor, a permanecer com Ele. A pergunta do Senhor é íntima: “O que estais procurando?”. Aqueles homens não procuravam um teto, nem um emprego e muito mesmo um “guru” ilusionista que fornecesse uma estrada pronta. O que eles procuravam era o sentido de suas vidas, a salvação de suas almas. Vinde caríssimos, fiquemos com o Senhor e encontraremos aquilo que nosso coração procura aquilo que faz a vida feliz.
André e João “foram e ficaram com ele aquele dia” (Jo 1,39). Também a nós foi dado um dia para que permaneçamos com Jesus, o domingo. Nós, os cristãos, precisamos redescobrir o domingo como o kyriaké, Dies Domini, Dia do Senhor. Afirma São João Paulo II na Carta Apostolica Dies Domini: “O dia do Senhor — como foi definido o domingo, desde os tempos apostólicos — mereceu sempre, na história da Igreja, uma consideração privilegiada devido à sua estreita conexão com o próprio núcleo do mistério cristão. O domingo, de fato, recorda, no ritmo semanal do tempo, o dia da ressurreição de Cristo. É a Páscoa da semana, na qual se celebra a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte, o cumprimento n'Ele da primeira criação e o início da « nova criação » (cf. 2 Cor 5,17). É o dia da evocação adorante e grata do primeiro dia do mundo e, ao mesmo tempo, da prefiguração, vivida na esperança, do « último dia », quando Cristo vier na glória (cf. At 1,11; 1 Tes 4,13-17) e renovar todas as coisas (cf. Ap 21,5)”. O domingo mais que preceito, deve ser vivido como gaudete, ou seja, da alegria. O preceito de fato existe, pois a Igreja quis garantir um mínimo vital para o cristão: participar da Missa aos domingos e dias santos. A razão da lei da Igreja não é o preceito em si, mas esse mínimo vital que sustenta a existência humana em Deus. Os primeiros cristãos compreendiam bem essa realidade quando, por exemplo, quando se arriscavam nas catacumbas romanas, não obstante a truculência dos opositores do cristianismo. Os cristãos afirmavam aos seus torturadores: sine domínico non possumus, ou seja, não podemos ser, nem existir, nem viver sem a celebração da Eucaristia dominical.
O sábado, celebração da criação e do repouso de Deus, era figura da realidade que o domingo significa: a nova criação e o repouso eterno iniciado com a ressurreição do Senhor Jesus. O apóstolo Paulo deixou bem claro que os cristãos já não devem sentir-se vinculados ao sábado: “ninguém, pois, vos critique por causa de comida ou bebida, ou espécies de festas ou de luas novas ou de sábados. Tudo isto não é mais que sombra do que devia vir. A realidade é Cristo” (Cl 2,16-17). Santo Inácio de Antioquia (+110 d.C.) explicou aos cristãos de Magnésia a passagem do sábado para o domingo da seguinte maneira: “aqueles que viviam na antiga ordem das coisas chegaram à nova esperança, e não observam mais o sábado, mas o dia do Senhor, em que a nossa vida se levantou por meio dele e da sua morte” (Aos Magn., 9,1).
O domingo é o dia que nós entramos em comunhão com Jesus no mesmo desejo dos João e André de permanecer com o Senhor. A participação na eucaristia é referencial de nossa adesão ao Mistério Pascal da Paixão, Morte e Glorificação de Jesus Cristo. Quem falta à missa dominical comete um grave pecado porque despreza o mistério da redenção. Não podemos achar que uma breve ou mesmo uma longa oração em nossa casa substitui a missa dominical, festa e solenidade. Nenhuma oração é maior e mais expressão de louvor e adoração a Deus que a santa missa. São João Crisóstomo explicava aos cristãos do seu tempo: “não podes rezar em casa como na Igreja, onde se encontra o povo reunido, onde o grito é lançado a Deus de um só coração. Há ali algo mais, a união dos espíritos, a harmonia das almas, o vinculo da caridade, as orações dos presbíteros” (Incomprehens. 3,6).
Portanto, o convite de permanecer com o Senhor precisa ser levado a serio por muitos católicos que trocam a missa por futebol, festas, praias e outras coisas mais. É necessário escutar a voz do Senhor anunciada todos os domingos na liturgia da Palavra, reconhecer a urgência de conversão pelo momento penitencial e alimentar-se do corpo do Senhor para que unidos a Ele deixemo-nos guiar por sua vontade e não manchemos o Corpo Místico de Cristo, o qual todos batizados fazem parte com as imundícies, imoralidades, injustiças, roubos e tantos outros pecados. 

Pe. Fantico Borges, CM 

domingo, 7 de janeiro de 2018

Homilia da Solenidade da Epifania do Senhor – 2018

Vimos adorar o menino-Deus!

Hoje se celebra a Epifania do Senhor. O termo grego tem o significado de auto-comunicação, entrada poderosa no campo da notoriedade e referencia-se à chegada de um rei. Também o termo servia para manifestação de uma divindade ou de alguma intervenção prodigiosa divina. Já no campo da fé a epifania entra desde II século com o qual se comemorava a celebração da vinda do Senhor.
A epifania marca a fase final do ciclo natalino. Celebra a manifestação de Deus ao mundo, na figura dos reis magos que, representando o mundo inteiro, vão adorar o menino Jesus em Belém. A liturgia, neste sentido, retorna o tema da luz – luz que brilha não só para o povo oprimido de Israel – como manifesta a leitura de Isaias –, mas para todos os povos, segundo a visão do profetismo universalista que escreveu o final de Isaias. Jerusalém, restaurada depois do exilio da Babilônia, é vista como centro para o qual convergem as caravanas do mundo inteiro. Essa visão recebe um sentido pleno quando os magos vindos do oriente procuram o Messias nascido de Davi – nos arredores de Jerusalém, em Belém, cidade de Davi. E nesta visão São Paulo complementa que a vinda de Jesus não é benção apenas para Israel, mas também para todos, para os pagãos, os povos distantes.
Belém representa a comunidade-testemunho, não apenas o lugar oficial de Davi, lugar do império de Herodes. Ela é centro do mundo, não para si mesma, mas para quem  procura o agir de Deus. Não em Roma, nem em Jerusalém de Herodes, mas em Belém do presépio é que a estrela parou. Com isso Deus quer mostrar que a manifestação do reino não depende do poder humano, mas da força da graça de Deus. Diz São Leão Magno que quando os reis magos vieram adorar a Jesus, “eles não o viram expulsando a demônios, ressuscitando aos mortos, dando visão aos cegos, curando os aleijados, dando a faculdade de falar aos mudos, ou qualquer outro ato que revelava seu poder divino; mas viram a um menino que guardava silêncio, tranquilo, confiado aos cuidados de sua mãe” (São Leão Magno, Sermão sobre a Epifania).   
Ao significado dos três presentes que os reis levaram ao Menino Jesus: ouro, incenso e mirra, estão ali representados o significado da vida de Jesus no mundo.  Ao rei, o ouro; incenso a Deus deitado no presépio, mirra ao homem que morreria por nós.  Jesus é Deus, Homem e Rei. E, nessa sociedade que, entre outras coisas, coloca Deus em plano inferior Jesus quer reinar, deseja a adoração das suas criaturas, quer que os homens e as mulheres valorizem mais o ser humano como tal, que a pessoa humana não pise a própria dignidade. Por isso, quando vemos que homens envaidecidos pela sabedoria mundana, e apartados da fé de Jesus Cristo, são arrancados pelos pecados, da presença graça de Deus, e, por isso tratam mal seus semelhantes, só temos que pensar na necessidade de olhar para a estrela que guiou os magos e seguirmos o caminho do presépio, que nos levará à humilde cena do menino deitado no feno.   
Como os reis magos, tampouco nós iremos de mãos vazias ao encontro do Senhor; ao contrário, levaremos presentes ao Menino Jesus: a nossa adoração já que ele é Deus; as nossas reparações, que desejamos que estejam simbolizadas na mirra, àquele que morrerá pelos nossos pecados; levaremos ainda os propósitos de viver melhor como homens e como mulheres, como filhos e filhas de Deus, reconhecendo a alta dignidade que recebemos e à qual somos chamados. Alegramo-nos com “profunda alegria” (Mt 2,10) ao ver a estrela de Belém, isto é, ao ver esse Menino que iluminou a nossa vida e nos deu a missão de iluminar a dos outros, não com outra luz, mas com a sua. Efetivamente, com a vinda do Filho de Deus, todos, sem distinção, podem caminhar segundo Deus. Todos somos filhos de Deus, todos somos irmãos.
Nós, os cristãos, temos que manifestar aos outros o sentido das suas próprias vidas através da consciência e da vivência do autêntico sentido da existência. Todos precisam saber o porquê estão nesse mundo: para amar, adorar e glorificar a Deus, para receber os grandes presentes que o Senhor quis trazer-nos, para vivermos como irmãos. Nós fomos criados para a felicidade. Deus quer que sejamos felizes também aqui na terra e, depois, no céu… para sempre!
São Boaventura afirmava que a estrela que nos conduz a Jesus é triple: “a Sagrada Escritura, que temos que conhecê-la muito bem. A outra estrela é a aquela que sempre nos está facilitando andar pelas sendas de Deus fazendo-nos ver e acertar o caminho, esta estrela é a Mãe de Deus, Maria. A terceira estrela é interior, pessoal, e são as graças do Espírito Santo”.
E se quiséssemos considerar atentamente como possível, para todos os que se aproximam a Cristo pelo caminho da fé, aquela tríplice classe de dons, não descobriríamos que esta oferenda se realiza no coração de quantos retamente creem no Cristo? Retire efetivamente ouro do tesouro de seu coração quem reconhece a Cristo como rei no universo; oferece mirra quem crê que o unigênito de Deus assumiu uma verdadeira natureza humana; venera a Cristo com uma espécie de incenso quem confessa que ele em nada é diferente da majestade do Pai. Tudo isso munido de uma vida perpassada pelas ações de caridade, promoção da vida, arações contates, frequência a confissão e participação regular à eucaristia.


Pe. Fantico Borges, CM

sábado, 30 de dezembro de 2017

Homilia do Pe. Fantico Borges, CM – Missa da solenidade da Sagrada Família de Nazaré.

Homilia do Pe. Fantico Borges, CM – Solenidade da Sagrada Família de Nazaré.

“Sagrada Família de Nazaré minha casa vossa é!”

O Natal, sob muitos aspectos, é uma festa doméstica. Ela reúne a família, os irmãos distantes e, sobretudo, encanta as crianças com seus pais ao perceberem como estes valorizam, nesta ocasião, a variedade de símbolos. O clima de amor e confraternização perpassa a Solenidade do Nascimento do Senhor. Liturgicamente, a Igreja se detém no fato do Filho de Deus ter tido necessidade também de uma família que o acolhesse. Como homem, frágil e pequeno, precisou ser amado por um coração de mãe. Ele experimentou a dependência na submissão a seus pais. Ele vivenciou a contingência de crescer e aprender no interior de um lar e de uma cultura determinada. Eis o símbolo de Nazaré onde Jesus viveu e cresceu (Lc 2,39-40). O mistério inaudito da Encarnação se entrelaça, desta maneira, com a realidade da família, escola de amor e de fé, de inculturação e de sociabilidade.
Maria, a Virgem Mãe, acolhe na fé o mistério, fruto do seu ventre. São José também acolhe na Fé o mistério, adotando o Menino e recebendo a Mãe. Deste modo, assume a paternidade legal de Jesus, cumprindo com fidelidade sua altíssima e insubstituível missão: José, filho de Davi, não temas receber Maria, tua mulher, pois o que nela foi gerado vem do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho e tu o chamarás com o nome de Jesus, pois ele salvará o seu povo dos seus pecados (Mt 1,20-21). A esta missão cumprirá José com todo amor e empenho. No seio de uma família Jesus encontra a segurança necessária para crescer e se desenvolver até atingir a consciência humana de sua missão divina.
A oportunidade da festa da Sagrada Família, como decorrência do mistério do Natal que celebramos, nos proporciona apresentá-la como protótipo, exemplo e modelo para todas as famílias cristãs (cf. Familiaris Consortio, Conclusão; Redemptoris Custos, III, 21). Embora se constitui também um mistério especial pela natureza do amor e do matrimônio que uniam José e Maria; a presença inestimável do Filho de Deus, e a natureza das relações materno-paternais de Maria e de José para com Ele, esta Família é modelo nas virtudes teologais, a serem cultivadas por todas as famílias cristãs. O sentido de Deus, do sagrado e do mistério, norteava e unia a Família de Nazaré. Por isso, mesmo tendo vivido uma situação especial e única de um lar construído na castidade perfeita, a serviço da Encarnação, ela é a expressão mais nítida da vivência das virtudes familiares e teologais. Serve, então, de estímulo e de intercessão para todas as famílias que queiram vivenciar os valores evangélicos. A propósito, nos lembrava o Papa São João Paulo II: “Por misterioso desígnio de Deus, nela viveu o Filho de Deus escondido por muitos anos: é, pois, protótipo e exemplo de todas as famílias cristãs. E aquela Família, única no mundo, que passou uma existência anónima e silenciosa numa pequena localidade da Palestina; que foi provada pela pobreza, pela perseguição, pelo exílio; que glorificou a Deus de modo incomparavelmente alto e puro, não deixará de ajudar as famílias cristãs, ou melhor, todas as famílias do mundo, na fidelidade aos deveres quotidianos, no suportar as ânsias e as tribulações da vida, na generosa abertura às necessidades dos outros, no feliz cumprimento do plano de Deus a seu respeito” ( Conclusão da Familiaris Consortio).
Hoje, na medida em que avança a secularização do pensamento e do comportamento, mesmo a família cristã se priva, muitas vezes, da sua dimensão sagrada. Mal se dá conta que o amor de Deus em Cristo a uniu, mediante o Sacramento do Matrimônio, para ser sinal visível e terno de sua presença em todas as expressões da vida conjugal e familiar. Quanto mais difícil se torna a proposta cristã para família contemporânea, mais imperioso se faz anunciá-la como boa e alegre  notícia de salvação.
Há um evangelho para a família, aquele que supõe uma espiritualidade conjugal e familiar e uma ética própria, baseada na abertura da família aos apelos de Deus, do meio social e cultural e das necessidades de seus membros. O critério supremo da vida conjugal e familiar é o amor ou a caridade como veículo da perfeição (Cl 3,16). Neste sentido, a família cristã se instaura no mundo e na Igreja como escola de amor a Deus e ao próximo, casa das primeiras experiências de fé, lugar do acolhimento dos valores ético-cristãos, mediante o respeito aos mandamentos do Senhor, a oração e o diálogo entre as diferenças.
No livro do Eclesiástico apresentam-se os valores de uma família judaica, do cuidado com os pais e do respeito dos filhos. A família em Israel era tida como celular mantenedora dos valores tradicionais da sabedoria popular do Povo de Deus. Preservar a família era o mesmo que conservar e perpetuar a cultura do povo judeu. Por isso, para um judeu o valor da família é um bem inalienável. Honrar pai e mãe era encarado como preceitos de tradição divina. A lei mosaica era muito rígida neste aspecto. Daí as leituras de hoje fazerem tantas referências aos costumes familiares comuns a todo Israel. Infringir essas normas familiares era o mesmo que desobedecer ao ordenamento divino das relações humanas. 
Nestas mesmas linhas expostas acima são lidos também alguns preceitos gerais da vida cristã e alguns preceitos particulares da vida familiar cristã (Cl 3,12-21). Paulo propõe um itinerário de santidade para os eleitos de Deus, expresso pelas virtudes humanas no relacionamento mútuo: sentimentos de compaixão, bondade, humildade, mansidão, longanimidade (v.12); suportação e perdão recíproco, à semelhança do Senhor que perdoa (v.13); a caridade, como vínculo da perfeição (v.14); o cultivo interior da paz de Cristo para formar um só corpo e o agradecimento (v.15). Acrescenta elementos práticos, típicos das reuniões litúrgicas, que podem ser adaptados à família reunida em oração: a presença habitual da Palavra de Cristo, a motivar o ensinamento e a admoestação mútuo, com toda a sabedoria, e a ação de graça a Deus, através de salmos, hinos e cânticos espirituais (v.16). Além disto, apresenta uma norma para qualquer palavra ou ação: tudo fazer em nome do Senhor Jesus, dando por Ele graças a Deus, o Pai (v.17).
Em tudo que envolve essa festa da Sagrada Família, especialmente hoje, última celebração de 2017, é a possibilidade de sonhar com sociedade melhor que se constrói a partir do respeito pelas pessoas, da gratidão para com aqueles que nos ajudaram a viver e a crescer como pessoas, como cidadãos, por fim, da descobrir do amor de Deus que se esconde em coisas simples do dia a dia.
Quero concluir minha meditação com essas palavras de São João Paulo II: “Que São José, ‘homem justo’, trabalhador incansável, guarda integérrimo dos penhores que lhe foram confiados, as guarde, proteja e ilumine. Que a Virgem Maria, Mãe da Igreja, seja também a Mãe da ‘Igreja doméstica’ e, graças ao seu auxílio materno, cada família cristã possa tornar-se verdadeiramente uma ‘pequena Igreja’, na qual se manifeste e reviva o mistério da Igreja de Cristo. Seja Ela, a Escrava do Senhor, o exemplo de acolhimento humilde e generoso da vontade de Deus; seja Ela, Mãe das Dores aos pés da Cruz, a confortar e a enxugar as lágrimas dos que sofrem pelas dificuldades das suas famílias. E Cristo Senhor, Rei do Universo, Rei das famílias, como em Caná, esteja presente em cada lar cristão a conceder-lhe luz, felicidade, serenidade, fortaleza”.
Nas mãos de Jesus, Maria e José confio cada família deste imenso Brasil. Que sejam Eles a enriquecer cada lar com sua graça.  A todos e a cada um, assegurando a minha constante prece, concedo de coração uma bênção sacerdotal para um ano novo cheio de amor e fidelidade em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.


Pe. Fantico Borges, CM


segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Homilia Pe. Fantico Borges, CM – Missa de Natal

Homilia Pe. Fantico Borges, CM – Missa de Natal

Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo, segundo a carne!

Nasceu Jesus, é natal de Nosso Senhor Jesus Cristo, segundo a carne! Vida nova que brota do amor misericordioso de Deus. Aos homens que viviam nas sombras do pecado, marcados pelas trevas dos erros, nasceu uma nova luz, uma luz resplandeceu para todos! Essa mensagem fez crescer a alegria e aumentou a certeza da nossa felicidade.
Todos são chamados a regozijar-se Deus, contemplando a sua presença no presépio. Como alegres pessoas que descobriram um tesouro ou ganhadores de uma loteria, a satisfação invade os corações de quem descobriu o verdadeiro sentido do natal.
Nasceu hoje para vós o Salvador! Por isso, nesta noite não cabe tristeza, não cabe amargura ou rancor. Deus veio visitar-nos e perdoar nossa divida. Alegria e exultação, festa e jubilo felicidade e amor são esses nossos sentimentos hoje! Abramos nosso coração, abramos nossa vida, nossos afetos, nossos sentimentos, nossos projetos para o mistério deste dia de natal.
Belém se faz aqui, hoje, é dia da gente se encontrar, é dia de renascer, o senhor conosco quer morar! Por Ele os anjos cantam jubilosos, os coros dos santos exultam de alegria! O anjo de Deus vem dizer-nos novamente: não tenhais medo! Hoje na cidade de Davi, nasceu para vós o salvador, que é Cristo Senhor.
Juntemos nossa voz a voz dos anjos no céu a cantar: glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens por ele amados! Essa mensagem de paz é o símbolo mais concreto do natal. Num mundo que patrocina a guerra, numa cultura de bombas atômicas, verbalizando um contexto de neo-guerra-fria, onde falta caridade e sobra arrogância, a passagem do natal quer ser uma palavra de protesto. Como cristãos não podemos nos calar diante da violência que mata tantas pessoas, que aborta tantas vidas inocentes. Os cristãos não podem mais calar em meio aos escândalos de corrupção de ceifam sonhos e massacram os pobres. Enquanto hoje muitos vão para casa comer e celebrar o natal pense nos milhares de irmãos refugiados que não têm um teto para descansar, uma escola para estudar, um local para trabalhar. Como será para eles o natal? Que tempo da graça eles podem vislumbrar?
   Despojemo-nos, portanto, do velho homem com atos perversos e renunciemos as discórdias. Partilhemos o amor e um pouco dos nossos bens com os que nada têm e façamos do natal a festa da solidariedade. Desde encarnação do Filho de Deus já participamos da natureza divina, não voltemos à escuridão por comportamentos indignos de Cristo. Lembremos de que cabeça e de qual corpo fazemos parte!  
Neste momento em que o criador se faz criatura é mister as palavras de Santo Agostinho: “Expergiscere, homo: quia pro te Deus factus est homo - Desperta, ó homem, porque por ti Deus se fez homem!  Por tua causa Deus se fez homem. Estarias morto para sempre, se ele não tivesse nascido no tempo. Jamais te livrarias da carne do pecado, se ele não tivesse assumido uma  carne semelhante à do pecado. Estarias condenado a uma eterna miséria, se não fosse a sua misericórdia. Não voltarias à vida, se ele não tivesse vindo ao encontro da tua morte. Terias perecido, se ele não te socorresse. Estarias perdido, se ele não viesse salvar-te". Agradeça a Deus sua infinita misericórdia por ti construindo, já aqui e agora, na cidades dos homens, a cidade de Deus!


Pe. Fantico Borges, CM 

sábado, 23 de dezembro de 2017

Homilia do Pe. Fantico Borges, CM – IV Domingo do Advento (Ano B)

Homilia do Pe. Fantico Borges, CM – IV Domingo do Advento (Ano B)

E Verbo carne se fez!

Com esta liturgia do IV domingo do advento entramos no final desde curto tempo litúrgico. No centro desta liturgia está a figura de Maria. O menino que vai nascer é Filho de Deus, o Emanuel Deus conosco. Neste domingo ele já se faz presente, ainda de modo velado, mas real, no seio da Virgem, que concebeu por obra do Espírito Santo (cf. Lc.1,26-38)
A leitura do Evangelho de Lucas que escutamos neste domingo nos recorda o prelúdio de nossa redenção, quando Deus enviou o Arcanjo Gabriel à Virgem Maria para comunicar-lhe o novo nascimento, na carne, do Filho de Deus, e por quem, deposta a antiga culpa, possamos ser renovados e contados entre os filhos do altíssimo.
Ao descrever a encarnação do Verbo de Deus, o evangelista Lucas demonstra que este menino é verdadeiro homem, filho de Davi, filho de Abraão, ou seja, é totalmente homem. Ao narrar a concepção de Maria Virgem, que foi mãe por virtude do Espírito Santo, afirma que é verdadeiro Deus; e, finalmente, ao citar a gravidez inesperada de Isabel declara o poder daquele que há vir, o Salvador prometido pelos profetas, o Emanuel, o Deus conosco.
O Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um homem chamado José, e a virgem se chamava Maria. Virgem desposada, ou seja, ainda não casada. Isso prova que Maria era virgem e que não havia vivido com José. Mas, ao mesmo tempo, o evangelista também quer dizer que Jesus tem uma estirpe, isto é, uma tribo, uma origem e uma família, a de Davi. Ele não cai de paraquedas na história humana, mas entrelaçado na linhagem desde Adão até José e Maria.
O anjo, estando na presença de Maria dirá: Conceberás em teu ventre e darás à luz um filho e lhe porás o nome de Jesus. Ele será grande, se chamará Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi (Cf: Lc, 1, 31-32).  Chama de pai a Davi e o reino o Israel, nisto consiste que ele reinará sobre seu povo, isto é, o povo de Deus, os cristãos que em seu nome colocam as suas esperanças e sonhos.
Daqui a pouco veremos Jesus reclinado numa manjedoura, o que é uma prova da misericórdia e do amor de Deus. Neste tempo venturoso de Natal, tudo rende graças a Deus! Estar diante dEle; contemplá-lo na manjedoura, dobrar o joelho em agradecimento por tudo que vivemos este ano, que estar terminando, não há nada mais importante a ser feito. Quanto mais contemplamos e subindo ao cimo do seu amor mais emudecemos e silenciamos no seu mistério. Não se precisará de palavras. Não se dirá mais nada, mas só o estar aí diante dEle. Ele é o Deus amando-me. E se Deus se faz homem e me ama como não procurá-Lo? Como perder a esperança de encontrá-Lo, se é Ele que me procura? Afastemos de nosso coração todo possível desalento, toda tristeza. Que as dificuldades exteriores e a nossa miséria pessoal não tirem a alegria  diante do Natal que se aproxima.
Levanta tu que dormes; esperta do sono do pecado, e, tua alma vem contemplar no presépio Aquele que os profetas predisseram; que a Virgem esperou com amor de mãe; que João anunciou estar próximo e depois mostrou presente entre os homens.
Deste presépio em Belém Deus quer nascer em tua casa. Que tua casa sejas Belém e teu coração a manjedoura, onde o menino nascerá. Olhas para a gruta de Belém, em vigilante espera, e compreendes que somente com Ele poderás aproximar-te confiadamente de Deus Pai.
Por ocasião do Natal, onde preparamos a casa para receber os amigos e familiares, decoramos a arvore de natal e enchemo-la de presentes, não falte no centro de tudo isso uma imagem de Jesus menino, nem uma oração profunda de gratidão a Deus. Lutemos com todas as nossas forças, agora e sempre, contra o desânimo na vida espiritual, o consumismo exagerado, e a preocupação quase exclusiva pelos bens materiais. Na medida em que o mundo se cansar da sua esperança cristã, a alternativa que lhe há de restar será o materialismo, do tipo que já conhecemos; isso e nada mais. Por isso, nenhuma nova palavra terá atrativo para nós se não nos devolver à gruta de Belém, para que ali possamos humilhar o nosso orgulho, aumentar a nossa caridade e dilatar o nosso sentimento de reverência ao nosso Criador e Salvador.

Que Deus nasça em cada coração e que com Virgem Maria sejamos benditos e benditas de Deus. Feliz natal 

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

MENSAGEM DE NATAL



MENSAGEM DO PE. FANTICO BORGES, CM

FELIZ NATAL AOS AMIGOS E FIÉIS CATÓLICOS!

Em fim é natal! Tempo de alegria e festa, de encontrar amigos e sorrir, pois nasceu para nós o Salvador, que é Cristo-Senhor. Mas o natal é tempo de recordar que Deus se compadeceu do ser humano e veio salvá-lo de seus pecados, veio libertar quem estava preso, curar quem estava doente, sarar as feridas da alma e anunciar o tempo da graça do Senhor! Será que todos vivem esse tempo? Ou muitos ainda esperam o Natalício desta aurora?
Para muitos pobres essa natal será de dificuldade, pobreza, fome, dor, lamento. Muitos estão presos, doentes, privados de liberdade. Num país cheio de desigualdades, onde poucos têm muito e muitos nada possuem não é fácil afirmar que o tempo da graça já chegou para todos! Eis aí um grande desafio para todos os cristãos de hoje.
Todavia, contradizendo a lógica da desigualdade nasceu para nós o Salvador, que é o Cristo Senhor! Por isso a alegria da Igreja em exultar com todos os homens e mulheres de boa vontade! Abramos o nosso coração, abramos a nossa vida, os nossos afetos, os nossos sentimentos, os nossos projetos ao mistério da Noite grandiosa do natal. Pelo Menino-Deus os anjos cantam jubilosos, os coros dos santos exultam de alegria! Alegremo-nos também nós, pois nasceu o Deus Salvador! Esta noite é de imensa alegria. Hoje, amados filhos, nasceu o nosso Salvador. Alegremo-nos! Não pode haver tristeza no dia em que nasce a vida; uma vida que, dissipando o temor da morte, enche-nos de alegria com a promessa da eternidade. Ninguém está excluído da participação nesta felicidade. Exulte o justo, porque se aproxima à vitória; rejubile o pecador, porque lhe é oferecido o perdão; reanime-se o pagão, porque é chamado à vida! Nesta noite venturosa Deus se fez pequeno, visível aos nossos olhos. Ele quis nos mostrar a sua face e levar-nos ao seu amor.
Tomemos consciência da nossa dignidade, não deixemos que os erros e defeitos da humana história, deforme o que Deus salvou! Lembremos que aquele que era rico se fez pobre para enriquecer a todos! Não voltemos aos erros de antes por comportamento indigno da nossa condição de cristãos. Despojemo-nos do velho homem com seus pecados e vícios e revistamo-nos do novo homem marcado por Cristo Jesus.
Desperta, ó filho meu, porque hoje brilhou para você a luz! Por você, o Filho eterno fez-se homem! Eis a maior prova de amor de Deus. Como cantam as antigas liturgias da noite de natal: “Aquele que deu forma a todas as coisas recebe a forma de escravo; Aquele que era Deus é gerado na carne; eis que ele é envolvido em panos, Aquele que era adorado no firmamento; e eis que repousa numa manjedoura Aquele que reinava no céu” (Missal Gótico, Missa do Natal).
Como vimos o natal não festa, troca de presentes, comilança e bebedeira. Natal é a renovação de todos as formas de amor. Tempo de solidariedade e partilha. Faça tudo para ser feliz neste natal se reconciliando consigo, com os outros. Faça o bem e imite os gestos de Jesus.
Desejo que você tenha no olhar o encantamento da vida! Que você tenha no coração a plenitude do amor! E que você acredite na grandeza de  Deus, no destino do mundo, na beleza da vida, nos sonhos e na esperança de mundo melhor, mais humano e solidário!

Desejo a você um Feliz Natal!

PE. FANTICO BORGES, CM 

sábado, 16 de dezembro de 2017

Homilia do Pe. Fantico Borges, CM – III domingo do Advento ano b 2017

Homilia do Pe. Fantico Borges, CM –  III domingo do Advento ano b 2017

A Alegria do Senhor é a nossa Força, por isso, alegrai-vos nEle!

A litúrgica da Igreja chama este Terceiro Domingo do Advento de Gaudete, isto é “Alegria!” “Alegrai-vos sempre no Senhor. De novo eu vos digo: alegrai-vos! O Senhor está perto!” (Fl 4,4.5).
No domingo anterior vimos a figura de João Batista, como o Evangelho de Marcos nos apresentou: o profeta do reino, que pregou um batismo de conversão. Neste domingo, no Evangelho, podemos ver como o evangelista João identifica o Batista: como a voz que clama no deserto, ou seja, a testemunha da glória de Deus no Filho. Em São Marcos, centrado na figura de Jesus que proclama a chegada do Reino de Deus, o Batista é o profeta escatológico, o novo Elias, que deve preparar aos corações para que, mediante a conversão, participem do Reino. Já no evangelista São João, que evita a historização do Reino, como também o tradicionalismo das conceituações apocalípticas sobre o profeta do fim; a figura do Batista é tomada como um sinal que aponta o envio de Deus, o qual estar desconhecido no meio do mundo. Por isso, João Batista é chamado de voz que clama no deserto! Se, portanto, o Batista aponta essa Luz como estando presente, desconhecida, no meio de nós, ela não apenas quer dizer que (ainda) não tivemos a chance de descobri-la, mas sugere que é preciso querer descobri-la. Para poder ver é preciso querer ver. Assim, o Evangelho de hoje desperta em nós a necessidade de uma decisão pelas palavras do Batista “No meio de vós está quem vós não conheceis”, somos convidados a querer descobri-lo, dilatando nosso coração em Alegria.    
A alegria do Senhor é ver-nos felizes! Assim a liturgia de hoje revela a proximidade do Natal! Diz São Paulo aos tessalonicenses: Alegrai-vos no Senhor e rezai sem cessar... Afastai-vos de toda espécie de maldade, não apagueis o Espírito, isto é, guardai vivo o fogo interior e incentivai com ações visíveis diante dos irmãos, para que o Deus da paz vos santifique totalmente e tudo aquilo que sois: alma, corpo e espírito sejam guardados sem mancha alguma para vinda de nosso Senhor Jesus Cristo. Deus através do Apóstolo admoesta para, ponderando tudo, avaliar segundo a vontade de Deus e ficar com aquilo que serve para nossa salvação.
Paulo nos aponta onde nasce a verdadeira alegria: ela nasce da oração: rezai sem cessar; daí graças em todas as circunstâncias; aqueles que rezam alcançam a graça de Deus e a felicidade duradoura. Mas o que significa essa alegria no mundo hoje? Para muito é o banquete da ceia natalina, um restaurante cinco estrelas, um hotel de luxo, etc. Mas a alegria verdadeira é outra! São Paulo dizia “por tudo dai graças a Deus”. A alegria nasce da abertura do coração aos apelos do Espírito que convida à conversão, a mudança de vida; nasce de uma vida moral irrepreensível (afastai-vos de toda espécie de maldade!), ou seja, dos pecados, dos vícios, das injustiças, do adultério, da mentira, da calunia e por fim a alegria nasce de uma vida santa: tudo que sois, seja preservado de toda mancha do pecado, isto é, que os poderes infernais não dominem sobre os filhos da luz. Para tudo isso é necessário acreditar que “Aquele que vos chamou é fiel.” Com essa certeza corramos ao encontro do Cristo que vem, tendo nossas lâmpadas acessas pela consciência da nossa condição de criaturas diante do Criador.
A vinda de Jesus, feito homem, abriu o caminho que nossos pecados fecharam. A trilha tortuosa em que o homem vivia por sua culpa foi endireitada pelo percussor para que o homem encontrasse novamente a luz que é Jesus. Segundo São Cirilo de Alexandria “existem acessos públicos e trilhas quase impraticáveis, íngremes e intransitáveis, que algumas vezes obrigam a subir os montes e as colinas, e outras a descê-las; ora te colocam à beira de precipícios, ora te fazem escalar altíssimas montanhas. Porém, se estes lugares isolados e abruptos descerem, e se preencherem as cavidades profundas, aí sim, o torcido se endireita totalmente, os campos se aplainam e os caminhos, antes íngremes e tortuosos, tornam-se transitáveis. É isso, só que em nível espiritual, o que faz acontecer o poder do salvador” (São Cirilo de Alexandria, Comentários sobre o livro do profeta Isaias, 3,4). Podemos dizer que aos homens estava vedado o acesso a uma vida exemplar, pois a alma aprisionada pelo pecado, mergulhada nos apetites mundanos, entorpecida aos impulsos abomináveis da carne, não enxergava a luz de Deus. Uma vez que Cristo se fez carne e destruiu o pecado, abatendo o soberano mal dominador deste mundo, Ele nivelou o caminho para nós, um caminho muito apto para correr nas sendas da piedade; um caminho sem encostas acima, nem declives ladeirentos, realmente liso e plano. Só Cristo é a luz que não tem ocaso, a salvação eterna. Ele é o caminho da glória do Senhor, e todos, contemplamos sua glória, glórias que antes não conhecíamos, e, só depois da encarnação passamos conhecê-la e ama-la como única salvação.  
No sentido acima exposto a alegria é uma busca por colocar-se no seguimento de Jesus. João Batista, aquele que testemunha a chegada de Deus nos oferece uma exemplo claro de como devemos comporta-nos diante de Deus. Ele não é arrogante nem tenta enganar os outros querendo ser o que não é. Dirá com isso Santo Agostinho: “João era a voz, mas o Senhor, no princípio, era a Palavra. João era a voz passageira, Cristo a Palavra eterna desde o princípio”. João sabia que não era a palavra e que sem ela ressoava ao ouvida, mas não alimentava o coração. João é voz que clama no deserto: aplainai os caminhos do Senhor. E porque é difícil não confundir a voz com a palavra, julgaram que João era Cristo. Confundiram a voz com a palavra. Mas a voz reconheceu o que era para não prejudicar a palavra. Eu não sou o Cristo (Jo 1,20), disse João nem Elias, nem profeta. Sou apenas a voz que clama no deserto. E novamente dirá Agostinho: “O que significa: Aplainai o caminho do Senhor, senão: Orai como se deve ser? O que significa ainda: Aplainai o caminho senão: tende pensamentos humildes? Imitai o exemplo de João. Julgam que é o Cristo e ele diz não ser aquele que julgam; não se aproveita do erro alheio para uma afirmação pessoal. Se tivesse dito: ‘eu sou o Cristo’, facilmente teriam acreditado nele, pois já era considerado como tal antes que o dissesse. Mas não disse; pelo contrario, reconheceu o que era, disse o que não era, foi humilde. Viu de onde lhe vinha a salvação; compreendeu que era uma lâmpada e temeu que  o vento do orgulho pudesse apaga-la” (Santo Agostinho, dos Sermões 293, 3).  
João reconhece aquele que nos traz a alegria verdadeira. Nossa alegria está no Senhor e não em outro. Alegrai-vos! Há quem se alegre no pecado, há quem se alegre em futilidades, há quem, mesmo alegrando-se com coisas que valem a pena, esquece que toda alegria é passageira. Quanto a vós, caríssimos, alegrai-vos com tudo quanto é bom e louvável, mas colocai vossa maior e definitiva alegria no Senhor! Somente nele o coração repousa plenamente, somente nele encontramos a paz que dura mesmo em meio à tribulação mais feroz, somente nele o anseio mais profundo de nossa alma encontra satisfação. Como lembrava-nos Agostinho nas Confissões: “Nosso coração estará inquieto enquanto não repousar no Senhor”. Alegrai-vos! Mas seja o Senhor o fundamento da vossa alegria, a causa última da vossa exultação!
Resta-nos, então, escutar com atenção este ultimo conselho de São João Crisótomo: “Que pode perturbar o santo? A morte? Não, porque a deseja como prêmio. As injúrias? Não, porque Cristo ensinou a sofrê-las. A doença? Também não, porque a Escritura aconselha: Aceita tudo o que Deus te mandar, e permanece em paz na tua dor, e no tempo da humilhação tem paciência; porque o ouro e a prata se provam no fogo, e os homens amados de Deus, no cadinho da tribulação (Ecl 2, 5). Que resta então, que seja capaz de perturbar o santo? Nada. Na terra, até a alegria costuma acabar em tristeza; mas, para quem vive de acordo com Cristo, as próprias penas se transformam em alegrias” (Homilias sobre as estátuas, 18).
Num mundo que despreza ou ao menos é indiferente a Deus e seus mandamentos, numa sociedade pagã, senão secularizada que ridiculariza a fé e olha com indiferença os que amam a Deus, tenhamos esta certeza: “Quem vos chamou é fiel; ele mesmo realizará isso!” Ele nunca nos deixará! Ele é a nossa alegria, esta alegria é a nossa força!


Pe. Fantico Borges, CM 

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