sábado, 19 de agosto de 2017

Homilia do Pe. Fantico – da Assunção de Nossa Senhora

Homilia do Pe. Fantico – da Assunção de Nossa Senhora

Viva a Maria, esperança de Deus realizada!

Neste domingo a igreja no Brasil celebra a festa da solenidade da Assunção de Nossa Senhora. Festa essa celebrada dia 15 de agosto, mas que por razões pastorais foi transferida para este domingo; a fim de atrair mais fieis para esta solenidade da Mãe de Deus. Nosso desejo como fieis cristãos é conseguir do Senhor o que Maria, sinal glorioso da Igreja, já conseguiu. Esperamos estar completos, corpo e alma, com o Senhor. Ao contemplar a Mãe de Deus de maneira tão gloriosa no dia de hoje, os nossos corações se enchem de luz e de esperança.
Desde de S. João Damasceno e S. Germão de Constantinopla que pregavam abertamente a existência da incorruptibilidade do corpo de Nossa Senhora e assim se associa a não-corrupção da carne imaculada de Maria. A este respeito Afirma S. Jõao Damasceno “que ao comparar a assunção gloriosa da Mãe de Deus com as suas outras prerrogativas e privilégios, exclama com veemente eloqüência: "Convinha que aquela que no parto manteve ilibada virgindade conservasse o corpo incorrupto mesmo depois da morte. Convinha que aquela que trouxe no seio o Criador encarnado, habitasse entre os divinos tabernáculos. Convinha que morasse no tálamo celestial aquela que o Eterno Pai desposara. Convinha que aquela que viu o seu Filho na cruz, com o coração traspassado por uma espada de dor de que tinha sido imune no parto, contemplasse assentada à direita do Pai. Convinha que a Mãe de Deus possuísse o que era do Filho, e que fosse venerada por todas as criaturas como Mãe e Serva do mesmo Deus". A essa teoria deu-se o nome de Dormição de Nossa Senhora. A festa da Dormição de Nossa Senhora foi celebrada primeiramente em Jerusalém. Mas para os antigos, “dormição” não significava necessariamente ausência de morte. Defensor da Assunção de Nossa Senhora na Idade Média foi o assim chamado “Pseudo-Agostinho” (século IX). Baldo de Ubaldi, no século XV, também foi um grande defensor desta verdade de fé. Finalmente, o Papa Pio XII definiu solenemente o dogma da Assunção no dia 1 de novembro de 1950 através da Constituição “Munificentissimus Deus”. Inclusive o nome desta constituição deixa claro que se trata de uma graça de Deus “munificentissimus”, isto é, generosíssimo.  Uma graça tal que é um privilégio: Maria recebeu o privilégio de que nela fosse antecipado aquilo que acontecerá com todos os eleitos.
O Papa sentencia “que é dogma divinamente revelado: que a Imaculada Mãe de Deus e sempre Virgem Maria, ao término de sua vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória do céu”. É interessante que antes do Papa definir o quarto dogma sobre Nossa Senhora, ele recorde os outros três: Mãe de Deus, sempre Virgem (antes, durante e depois do parto), Imaculada. Pio XII não diz se Maria, antes de ser elevada ao céu, morreu ou não: isso continua como tema aberto à livre discussão teológica, isto é, pode-se defender uma ou outra coisa. O que todos devem reter como doutrina de fé solenemente definida é que ela, Nossa Senhora, foi elevada em corpo e alma aos céus, antecipadamente, como privilégio.
Quanto à morte de Nossa Senhora, parece muito mais acertado afirmar que ela realmente morreu e somente depois teria sido elevada aos céus. Por um lado, quando os antigos Padres falavam de “dormição” eles falavam também de morte. De fato, não é difícil encontrar textos na patrística que transmitam uma dormição de Jesus na Cruz referindo-se à sua morte real. Por outro lado, o desejo de imitar a Cristo que estava no coração de Nossa Senhora faz com que seja mais conveniente que ela imite o seu filho também nisso e se una, desta maneira, ao valor redentor do seu mistério de cruz.
Desta festa da Assunção de Nossa Senhora podemos tirar para nossa vida prática que ela  é sinal de esperança para nós. O Concílio Vaticano II afirmou: “Entretanto, a Mãe de Jesus, assim como, glorificada já em corpo e alma, é imagem e início da Igreja que se há de consumar no século futuro, assim também, na terra, brilha como sinal de esperança segura e de consolação, para o Povo de Deus ainda peregrinante, até que chegue o dia do Senhor (cfr. 2 Ped. 3,10)” (Constituição Dogmática sobre a Igreja, Lumen Gentium, nº 68).
Maria como pregoeira da Esperança escatológica de Jesus acena à meta anelada por cada um de nós. A esperança é virtude sobrenatural, teologal, uma disposição plantada pelo Senhor na nossa alma que nos une a ele através da vontade, do desejo. Esperamos em Deus e nos auxílios (graças) que ele nos concede para alcançá-lo. Temos a firme esperança de chegar ao céu, à bem-aventurança eterna. É nesse sentido que a Assunção de Maria nos anima a continuar com os olhares fixos na meta: uma como nós conseguiu aquilo que nós conseguiremos. O nosso caminho rumo ao céu já foi selado por uma da nossa raça. Assim como ela chegou lá por graça, também nós chegaremos.
A Festa de hoje não é somente da Virgem Maria. Primeiramente, ela glorifica o Cristo, Autor da nossa salvação, pois em Maria aparece a vitória sobre a morte, que Jesus nos conquistou. A liturgia hoje exclama: “Preservastes, ó Deus, da corrupção da morte aquela que gerou de modo inefável vosso próprio Filho feito homem, Autor de toda a vida”. Este senhorio de Cristo aparece hoje radiante na sua Mãe toda santa: em Maria, Cristo venceu a morte de Maria! Em segundo lugar, a festa de hoje é também festa da Igreja, de quem Maria é Mãe e figura. A liturgia canta: “Hoje, a Virgem Maria, Mãe de Deus, foi elevada à glória do céu. Aurora e esplendor da Igreja triunfante, ela é consolo e esperança para o vosso povo ainda em caminho”. Sim! A Mãe Igreja contempla a Mãe Maria e fica cheia de esperança, pois um dia, estará totalmente glorificada como ela, a Mãe de Jesus, já se encontra agora. Finalmente, a festa é de cada um de nós, pois já vemos em Nossa Senhora aquilo que, pela graça de Cristo, o Pai preparou para todos nós: que sejamos totalmente glorificados na glória luminosa do Espírito do Filho morto e ressuscitado. Aquilo que a Virgem já possui plenamente, nós possuiremos também: logo após a morte, na nossa alma; no fim dos tempos, também no nosso corpo!
Estejamos atentos! A festa hodierna recorda o nosso destino, a nossa dignidade e a dignidade do nosso corpo. O mundo atual, por um lado exalta o corpo nas academias, no culto da forma física, da moda e da beleza exterior; por outro lado, entrega o corpo à sensualidade, à imoralidade, à droga, ao álcool… É comum escutarmos que o que importa é o “espírito”, que a matéria, o corpo passa… Os cristãos não aceitam isso! Nosso corpo é templo do Espírito Santo, nosso corpo ressuscitará, nosso corpo é dimensão indispensável do nosso eu.

Assim entregues a oração roguemos a Mãe de Deus que derrame sobre nós seu manto de amor. Que ela seja nossa advogada diante da Misericórdia do Pai, Filho e Espírito Santo. Amém! 

sábado, 12 de agosto de 2017

Homilia do Pe. Fantico Borges – XIX domingo do tempo comum ano A.

Homilia do Pe. Fantico Borges – XIX domingo do tempo comum ano A.

Passar do medo ao temor

Neste domingo, o XIX do tempo comum, a liturgia da Palavra vem nos falar como Deus se revela a humanidade nas horas mais difíceis da vida. Muitas vezes não confiamos na simplicidade do agir de Nosso Senhor. Pensamos num Deus poderoso, ao molde mundano. Procuramo-lo nos grandes acontecimentos, em espetáculo grandioso. Mas ele vem simples, como uma brisa, um murmúrio que sopra.  A Escritura fala-nos de um Deus que é grande demais, misterioso demais, inesperado e surpreendente demais para que possamos enquadrá-lo na nossa lógica e no nosso modo de pensar.
Em muitas épocas, especialmente na modernidade e pos-modernidade, o ser humano quis enquadrar Deus entro de um esquema subjetivo e limitado. O resultado foi sempre a perda de referencial transcendente, restando o subjetivismo possessivo como imperativo no agir social.  Um tentação para o homem é achar que pode compreender o Senhor, enquadrar seu modo de agir e dirigir o mundo com a nossa pobre e limitada lógica… Mas, o Deus verdadeiro, o Deus que se revelou a Israel e mostrou plenamente o seu Rosto em Jesus Cristo, não é assim! Ele é mistério que se abre e deixar-se penetrar sem esvaziar seu núcleo.
Na primeira leitura deste domingo Elias após tentar fugir de Deus no deserto, encontra-se diante do convite do Senhor de encontra-Lo. Mas Javé deseja que Elias entenda de quem é a vitória, quem venceu os falsos deuses. Mostra-lhe na gruta que o poder divino se realiza livremente e somente a Ele pertence. Pensemos nesta cena em que Elias, em crise, fugindo de Jezabel, caminha para o Horeb; ele quer encontrar suas origens, as fontes da fé de Israel. Recordem que o Horeb é o mesmo monte Sinai, a Montanha de Deus. Elias tem razão: nos momentos de dúvida, de crise, de escuridão, é indispensável voltar às origens, às raízes de nossa fé; é indispensável recordar o momento e a ocasião do nosso primeiro encontro com o Senhor e nele reencontrar as forças, a inspiração e a coragem para continuar. Pois bem, Elias volta ao Horeb procurando Deus. Lembrem que no caminho ele chegou a desanimar e pedir a morte: “Agora basta, Senhor! Retira-me a vida, pois não sou melhor que meus pais!” (1Rs 19,4). No entanto, o Senhor o forçou a continuar o caminho: “Levanta-te e come, pois tens ainda um longo caminho” (1Rs 19,7). Pois bem, Elias caminhou, teimou em procurar o seu Deus, mesmo com o coração cansado e em trevas; assim, chegou ao Monte de Deus! Mas, também aí, no seu Monte, Deus surpreende Elias – Deus sempre nos surpreende! O Profeta espera o Senhor e o Senhor se revela, vai passar… Mas, não como Elias o esperava: não no vento impetuoso que força tudo e destrói tudo quanto encontra pela frente, não no terremoto que coloca tudo abaixo, não no fogo que tudo devora… Eis: três fenômenos que significam força, que causam temor, que fazem o homem abater-se… E o Senhor não estava aí. Elias teve de reconhecê-lo, de descobrir sua Presença no murmúrio da brisa suave! – Ah, Senhor! Como teus caminhos são imprevisíveis! Quem pode te reconhecer senão quem a ti se converte? Quem pode continuar contigo se pensar em dobrar-te à própria lógica e à própria medida? Tu és livre demais, grande demais, surpreendente demais! Não há Deus além de ti; tu, que convertes e educas o nosso coração!
A lição que fica de Elias é que precisamos olhar com os olhos espirituais, com o coração e a alma voltada para o céu. Sem um olhar atento, que só obtém-se na oração persistente, não se chegará ao profundo reconhecimento de Deus e a uma experiência verdadeiramente mística.   
Esta experiência mística de estar com Jesus e se alimentar de seu pão requer uma travessia nas sendas da mortificação. Sem atravessar o mar e ir para o outro lada não se alcança a salvação que constitui a visão beatifica.
Para alcançar tal meta Jesus ensina o caminho: mister subir ao monte e lá ficar horas rezando com Deus sós.   São João da Cruz já aludindo sobre essa subida diz: é preciso vencer as paixões, os desejos e as vontades. Eis a subida ao monte Carmelo. Também sobre esse tema ensina Santo Evágrio que a oração requer esforço e persistência. Orar é sair de si e entrar numa dimensão teológica onde o cronológico perde o sentido. Nesta ascensão ao monte de Deus tem-se muitas barreiras para lutar. O evangelho alude duas: o medo e a fraqueza da fé. Ensina Santo Tomas de Aquino que o medo é próprio dos vícios, e, portanto do demônio (Suma Teológica I, 6 ). Pelo medo o homem deixa de sonhar, estagna e morre. O medo aniquila a confiança e põe fim a missão. Daí Santo Tomás afirmar que o medo cega.  A outra barreira a ser transposta é a fraqueza de fé. A fé se torna fraca quando é negligenciada a oração. A fé não nasce da oração, mas se alimenta nela. A fé é um ato livre e confiante de lançar-se nas mãos de Deus. Porém, a fortaleza da fé não se nutre senão da oração. Bem lembra Orígenes no comentário ao Evangelho de Mateus, que Jesus não chama Pedro de incrédulo, mas de fraco na fé. Não é que Pedro fosse infiel, incrédulo, mas que sua fé ainda não tinha fortalecido ao ponto de não duvidar.
A dúvida paira os corações vacilantes e ausente de Deus. Por isso, reforça-se no evangelho a oração e a intimidade com Jesus. Diz Mateus que ao entrar na barca o mar acalmou e todos prostraram-se diante de Jesus e afirmaram: verdadeiramente tu és o Filho de Deus. Prostrar-se é o mesmo que rezar diante dele. No Evangelho de hoje Jesus vai rezar. Para que Jesus reza? Ele não é Deus? Jesus tem necessidade de rezar? Não! É para nos mostrar o caminho para encontrar Deus e reconhece-lo na suavidade da brisa do seu Espirito. Essa é a angustia de Paulo: seus coetâneos não reconheceram Jesus, Filho de Deus. Não subiram ao monte calvário e assim não enxergaram o Senhor da vida. Justo aqueles para os quais Jesus foi prometido.   
Não basta cumprir normas e preceitos rituais, não basta entregar os bens aos pobres, não basta colocar o corpo em chamas. Precisa estar aos pés do Mestre, subir a montanha com Ele, enfrentar as ondas revoltas da vida, encarar as provações ate chegar a cruz para com Ele nascer de novo. Só a oração constante, simples e piedosa pode transformar o medo em temor, a dúvida em fé comprovada.

Pe. Fantico Borges, CM   

terça-feira, 2 de maio de 2017

Homilia do Pe. Fantico Borges – III Domingo de Páscoa – Ano A


Homilia do Pe. Fantico Borges – III Domingo de Páscoa – Ano A

Cristo é o Caminho para o Pai e o cristão a seta que aponta para Cristo.

Na Liturgia deste domingo o Senhor nos diz: fica comigo meu filho! A expressão: Mane nobiscum, Domine foi o título daquela Carta Apostólica que São João Paulo II escreveu um ano antes de morrer. No centro do Evangelho de hoje exaspera o desejo dos discípulos de ficar com Jesus, pois Ele caminha ao seu lado e ensina as trilhas para o eterno Deus trino. No ícone desta relação dos discípulos de Emaús, o Senhor nos forma no conhecimento das escrituras, que culmina no partir do Pão, na eucaristia. E como disse o Papa São João Paulo II, a igreja nasce da eucaristia, tudo converge para o sacramento da sua Presença Real de Jesus Cristo.  
Fica conosco, Senhor! Que o Senhor permaneça conosco em pleno século XXI, porque nós queremos continuar servindo a Deus e a todas as pessoas. “Nós queremos servir a Igreja como ela deseja ser servida”, não conforme os nossos caprichos ou gostos pessoais. O Papa bento XVI  nos recordava também na já citada homilia como o Bem-aventurado João Paulo II soube descobrir as riquezas do Concilio Vaticano II, como ele se imergiu na doutrina conciliar e soube expressá-la de distintas maneiras. “O homem é o caminho da Igreja e Cristo é o caminho do homem”. Sem Cristo o homem se perde em vil caminhos errôneos. Sem a presença constante de Jesus a humanidade se desfigura na sua identidade de ser e passa a valor o que tem. Essa sociedade do descartável enche os nossos jovens de falsas esperanças que levam ao coas e a desordem cultural e intelectual. De homo sapiens tornar-se homo demens, ou seja, de pessoal sabias a pessoas doentias. É mister redescobrir o caminho de retorno para  Cristo! E como fazer? Qual a saída?
É preciso redescobrir essa realidade: a pessoa humana como caminho da Igreja para apresentarmos a cada ser humano o caminho que realmente é o seu, Cristo. Precisamos compreender as pessoas, amá-las, participar das suas alegrias e tristezas, entender o mundo no qual habitamos junto a elas, acompanhar as situações de pobreza e de riqueza, descobrir o poder da técnica e dos novos meios de comunicação. A vida cristã não é um jogo de palavras, nem se limita ao conjunto linguístico. O cristianismo é antes de tudo vida! Essa vida que se vive vivendo, isto é, no testemunho destemido de homens e mulheres que enfrentam a batalha diária de ser santos! Não é fácil e ninguém jamais, querendo enfeitar a verdade com relapsos comportamentos, não caiu em heresia. Porque no Evangelho de Jesus não cabem meias palavras.   Mas como percorrer esse caminho de testemunho sem vacilar?
Andar por um caminho que não se conhece é muito difícil! A Igreja, como entende que o homem é caminho para ela, se sabe e se declara “mestra de humanidade”: há dois mil anos a Igreja Católica tem acompanhado o ser humano, ela sim entende quem é a pessoa humana e sabe o que é melhor para ela. E nós temos que colocar todos os meios para que sejamos, na Igreja e como Igreja, mestres em humanidade. É preciso conhecer os nossos semelhantes através da simpatia e do amor, conduzidos pelo Espírito Santo, que nos faz apreciar retamente todas as coisas. O Senhor continua no meio de nós.
Cristo é o caminho do homem. Nós não podemos silenciar esta verdade. São João Paulo II nos ensinou a não ter medo de ser cristãos e de pregar o Evangelho. Ele nos ensinou a beleza da fé através da verdade e do amor. Jesus continua atraindo as pessoas desde a cruz. Jesus Cristo continua atual, a sua mensagem nunca passará de moda, ele está sempre presente no hoje da história universal e pessoal.

Pe. Fantico Borges




sábado, 21 de maio de 2016

Homilia do Padre Fantico Borges, CM – Santíssima Trindade – Ano C

Homilia do Padre Fantico Borges, CM – Santíssima Trindade – Ano C

Salve ó Santíssima Trindade!

Na liturgia deste domingo celebramos o Mistério da Santíssima Trindade. Mistério que escapa nossa mente, sem esconder-se de nós, infinito sem deixar-se ignorar. Assim afirmava, Santo Agostinho, que é difícil encontrar uma pessoa que, falando da Trindade, saiba do que esteja falando (Confissões XIII,II). Trata-se de uma tarefa – como foi revelado em sonho a Santo Agostinho – não menos impossível do que aquela de uma criança que tenta esvaziar o mar usando uma concha. A liturgia de hoje propõe a meditação sobre o mistério central de nossa fé: a Santíssima Trindade. Toda a vida da Igreja está impregnada por este Mistério. E quando falamos aqui de mistério, não pensemos no incompreensível, mais na realidade mais profunda que atinge o núcleo do nosso ser e do nosso agir.
É Cristo quem nos revela a intimidade do mistério trinitário e o convite para que participemos dele. “Ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Mt, 11, 27). Ele revelou-nos também a existência do Espírito Santo junto com o Pai e enviou-O à Igreja para que a santificasse até o fim dos tempos; e revelou-nos a perfeitíssima Unidade de vida entre as Pessoas divinas (Cf. Jo16, 12-15).
O mistério da Santíssima Trindade é o ponto de partida de toda a verdade revelada e a fonte de que procede a vida sobrenatural e para a qual nos encaminhamos: somos filhos do Pai, irmãos e co-herdeiros do Filho, santificados continuamente pelo Espírito Santo para nos assemelharmos cada vez mais a Deus. Por isso, a Santíssima Trindade habita na nossa alma como num templo. E São Paulo faz-nos saber que o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado (Cf. Rm 5, 5). E aí, na intimidade da alma, temos de nos acostumar a relacionar-nos com Deus Pai, com Deus Filho e com Deus Espírito Santo. Dizia Santa Catarina de Sena: “Vós, Trindade eterna, sois mar profundo, no qual quanto mais penetro, mais descubro, e quanto mais descubro, mais vos procuro”.
Imensa é a alegria por termos a presença da Santíssima Trindade na nossa alma! Esta alegria é destinada a todo cristão, chamado à santidade no meio dos seus afazeres profissionais e que deseja amar a Deus com todo o seu ser; se bem que, como diz Santa Teresa, “há muitas almas que permanecem rodando o castelo (da alma), no lugar onde montam guarda as sentinelas , e nada se lhes dá de penetrar nele. Não sabem o que existe em tão preciosa mansão, nem quem mora dentro dela”. Nessa “preciosa mansão”, na alma que resplandece pela graça, está Deus conosco: o Pai, o Filho e o Espírito Santo.
Por ser o mistério central da vida da Igreja, a Santíssima Trindade é continuamente invocada em toda a liturgia. Cremos, portanto, em um só Deus, um princípio sem princípio, incriado, ingênito, que não perece, imortal, eterno, ilimitado, inapreensível,  indefinível, onipotente, simples, não composto, incorpóreo, imóvel, impassível, imutável, inalterável, invisível, fonte de todo bem e de toda justiça, luz inteligível e nunca acendida; poder que não pode medir-se com medida alguma a não ser sua própria vontade, porque pode fazer tudo quanto quer.
É o Criador de todas as criaturas visíveis e invisíveis, de todas tem cuidado e providência, e as conserva; tem o poder sobre todas as coisas, as quais dirige e governa com um reino que não tem fim e é imortal; nada pode opor-se a ele, tudo preenche, nada pode abarcá-lo, mas, pelo contrário, ele abarca todas as coisas, as contém e zela por elas. Penetra todas as substâncias de maneira puríssima e em tudo repousa. Ele estabelece os principados e ordens, e encontra-se acima de toda ordem e principado, acima da substância, da vida, palavra e pensamento. Ele é a própria luz, a própria bondade, a própria vida, a própria essência já que não recebeu de outro nem o ser nem qualquer uma das suas propriedades, Ele é a fonte do ser de todos os seres, a vida dos viventes. Ele é Deus, nosso Deus, uno e santo, indivisível todo ser racional o adora, com uma só e mesma adoração que é do Pai, do Filho e do Espírito Santo. São três as pessoas, mas é a mesma natureza; por isso, o mesmo louvor.
Ó coisa admirável! Nós Cremos no Pai, no Filho e no Espírito Santo, nos quais fomos batizados. Porque assim ordenou Deus: batizai-os em nome do Pai, Filho e Espírito Santo. Assim, cremos num único Pai, princípio sem princípio e causa de tudo, incausado e ingênito; Criador de todas as coisas, eterno Pai do Eterno Filho de igual natureza do Pai, Filho Unigênito e Salvador, do qual procede o Santíssimo Espírito. Amém     



domingo, 15 de maio de 2016

Homilia de Pentecostes - Espírito Santo: Senhor e doador de vida!

Homilia de Pentecostes - Espírito Santo: Senhor e doador de vida!

Veni, Sancte Spiritus! – Vinde, Espírito Santo! “Sem a vossa força e favor clemente, nada há no homem que seja inocente”: são palavras da sequência de Pentecostes, composta por John Dunstable (1380-1453) e que foi provavelmente entoada na coroação do rei inglês Henry VI, em Paris, em 1431. Toda a Igreja clama: Vem, Espírito Santo! “Ó Deus (…) derramai por toda a extensão do mundo os dons do Espírito Santo, e realizai agora no coração dos fiéis as maravilhas que operastes no início da pregação do Evangelho” (oração coleta da Missa do dia de Pentecostes).
O bispo emérito de Roma, Papa Bento XVI, escrevia em sua última homilia de Pentecostes, que o Espírito Santo age desde do princípio primeiro como Espírito Criador e por último como Espírito Salvador. O Espírito Santo foi chamado alguma vez de “O Grande Desconhecido” (São Jose maria Escrivá, Caminho, 57). Isso me faz lembrar aquela passagem dos Atos dos Apóstolos na qual Paulo ao chegar a Éfeso, ao conversar com alguns discípulos lhes pergunta: “Recebestes o Espírito Santo, quando abraçastes a fé?” Respondem eles da seguinte maneira: “Mas nem sequer ouvimos dizer que existe um Espírito Santo” (At 19,2). Dá a impressão muitas vezes que alguns cristãos nem sabem se existe um Espírito Santo. Quem é o Espírito Santo? é a terceira Pessoa da Santíssima Trindade, é “o Senhor e Doador de Vida, que procede do Pai e do Filho, que com o Pai e o Filho recebe uma mesma adoração e glória e que falou pelos profetas”. O Espírito Santo é Deus, como o Pai é Deus e como o Filho é Deus. Ele é o Paráclito, o Consolador, enviado por Cristo para comunicar-nos a vida divina. É ele quem nos introduz no Mistério de Cristo, é ele quem nos dá a graça, as virtudes da fé e da esperança e da caridade, os dons e os frutos. Quem é o Espírito Santo? É aquele que mora em você, o doce hóspede da sua alma, foi ele quem o fez templo de Deus, filho de Deus, membro da Igreja, quem lhe deu a salvação, a justificação e a vida eterna. “Desde o nascimento da Igreja, é ele quem dá a todos os povos, o conhecimento do verdadeiro Deus; e une, numa só fé, a diversidade das raças e línguas” (prefácio de Pentecostes).
Não podemos ignorar o Espírito Santo e seu poder. Quando o Espírito Santo vem habitar em nós vem com o Pai e com o Filho.
Santa Teresa conta que, ao considerar certa vez a presença das Três divinas Pessoas na sua alma, “estava espantada de ver tanta majestade em coisa tão baixa como é a minha alma”, e então o Senhor disse-lhe: “Não é baixa, minha filha, pois está feita à minha imagem” (Santa Teresa, Contas de consciência, 41, 2). Nós fomos feitos à imagem e semelhança de Deus. Quis Deus que essa semelhança fosse semelhança mesmo e nos fez participar de sua natureza divina. É pelo Espírito Santo que nós participamos da natureza divina. “Como não dar graças a Deus pelos prodígios que o Espírito não cessou de realizar nestes dois milênios de vida cristã? O evento de graça do Pentecostes tem, com efeito, continuado a produzir os seus maravilhosos frutos, suscitando em toda a parte ardor apostólico, desejo de contemplação, empenho em amar e servir com total dedicação a Deus e aos irmãos. Ainda hoje o Espírito alimenta na Igreja gestos pequenos e grandes de perdão e de profecia, dá vida a carismas e dons sempre novos, que atestam a Sua ação incessante no coração dos homens” (João Paulo II, Homilia do Domingo de Pentecostes de 1998).
Pentecostes já era uma festa celebrada pelos judeus cinquenta dias depois da Páscoa. No começo era uma festa na qual se dava graças a Deus pela colheita da cevada e do trigo, era uma festa agrícola. Já no século I, porém, tornou-se a festa que celebrava a aliança (o dom da lei e a constituição do Povo de Deus). Cinquenta dias depois da Páscoa, os discípulos de Cristo recebem o Espírito Santo, a lei na nova aliança no sangue de Jesus. Também o Espírito Santo constitui a nova comunidade do Povo de Deus, a Igreja.
Nela, todos devem estar unidos em Cristo e na força do Espírito Santo. As línguas de Pentecostes significam essa unidade do Povo de Deus. Pentecostes é, então, o reverso de Babel (cf. Gn 11,1-9); em Babel, a dispersão, aqui, a unidade. O Espírito Santo, que é o amor do Pai e do Filho, é também amor entre nós. Lembremo-nos que é sempre o amor que une os corações. O amor, por ser conhecido propriamente somente pelos que se amam, é sempre muito discreto. Daí a discrição do Espírito Santo: sua missão é levar a Palavra de Jesus, ajudar a Igreja para que anuncie destemidamente a Palavra da salvação, Jesus Cristo. Isso condiz com o Espírito Santo que é amor, já que o autêntico amor sempre pensa mais no outro que em si mesmo.
O Paráclito santifica-a continuamente, como também santifica cada alma, através das inúmeras inspirações que se escondem em “todos os atrativos, movimentos, censuras e remorsos interiores, luzes e conhecimentos que Deus produz em nós, prevenindo o nosso coração com as suas bênçãos, pelo seu cuidado e amor paternal, a fim de nos despertar, mover, estimular para o amor celestial, para as boas resoluções, para tudo aquilo que, numa palavra, nos conduz à nossa vida eterna. A sua ação na alma é suave e aprazível; Ele vem salvar, curar, iluminar,” (São Francisco de Sales). “O Espírito Santo vem em socorro à nossa fraqueza”, diz S. Paulo (Rom. 8,26). Diz São João da Cruz que o Espírito Santo, com a sua chama está ferindo a alma, gastando e consumindo-lhe as imperfeições dos seus maus hábitos.
A Igreja precisa estar unida. Hoje terminamos a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos; findamos a semana, não a oração pela unidade dos cristãos. Todos nós, discípulos de Cristo, precisamos – é importante para nós e para a evangelização – viver bem unidos: uma só fé, os mesmos sacramentos, um só governo: o do Papa e o dos Bispos em comunhão com ele. A divisão é vergonhosa para nós. “Celebrai, pois, este dia como membros do único corpo de Cristo. E não o celebrareis em vão, se realmente sois aquilo que celebrais, isto é, se estais perfeitamente incorporados naquela Igreja que o Senhor enche do Espírito Santo e faz crescer progressivamente através do mundo inteiro. (…) Esta é a casa de Deus, edificada com pedras vivas. Nela o Eterno Pai gosta de morar; nela seus olhos jamais devem ser ofendidos pelo triste espetáculo da divisão entre seus filhos” (Dos Sermões de um Autor africano anônimo do séc.VI).
As línguas de fogo no dia de Pentecostes simbolizam a unidade da Igreja, ela falaria todas as línguas com a sua expansão; no entanto, essa que falaria todas as línguas encontra-se toda ali, unida. Essas línguas são de fogo. “O fogo simboliza a energia transformadora do Espírito Santo” (Cat. 696). Também ao Espírito Santo poderia aplicar-se o simbolismo da água, que significa “o nascimento e a fecundidade da vida dada no Espírito Santo” (Id.). Nós experimentamos a água e o fogo, ao mesmo tempo. Nascemos da água e do Espírito no nosso Batismo (cf. Jo 3,5), a partir daí o Espírito Santo começa uma ações muito especiais em nós que vai transformando-nos mais e mais. São Basílio fala-nos da importância de estar com o Espírito Santo, ou melhor, de que o Espírito Santo esteja em nós: “Por estarmos em comunhão com Ele, o Espírito Santo torna-nos espirituais, recoloca-nos no Paraíso, reconduz-nos ao Reino dos céus e à adoção filial, dá-nos a confiança de chamarmos Deus de Pai e de participarmos na graça de Cristo, de sermos chamados filhos da luz e de termos parte na vida eterna” (Liber de Sp. Sancto, 15,36, em Cat. 736).
Antes de Pentecostes, “Todos eles perseveravam unanimemente na oração, juntamente com as mulheres, entre elas Maria, mãe de Jesus” (At 1,14). Peçamos nós também, em união com toda a Igreja e com Maria, Mãe de Igreja: Vinde, Espírito Santo!



segunda-feira, 9 de maio de 2016



Homilia da Ascensão do Senhor – Ano C
O mistério da Ascensão
                                                                           
Hoje é um dia no qual se mesclam a alegria pela consumação da glorificação do Senhor Jesus, a tristeza ao vê-lo partir e a melancolia de uma espécie de sonho quase real. Ao celebrar a Ascensão do Senhor, celebramos também – como dizia São Leão Magno num sermão – a exaltação da nossa pobre natureza humana em Cristo: ele sobe aos céus com a nossa carne, com um coração de carne, com sentimentos humanos, em fim, ele nos leva aos céus. Santo Agostinho exortava: “hoje o Senhor nosso, Jesus Cristo, subiu aos céus, suba também o nosso coração com ele”.
Nós fomos feitos por Deus e para Deus, levamos dentro de nós essa marca de eternidade que nos faz desejar a felicidade. Cada ser humano tem dentro de si uma espécie de saudade do paraíso, um desejo de ser feliz para sempre, uma ânsia de eternidade que faz sentir certa náusea de viver para sempre numa situação incompleta e cheia de perigos. Aquela frase de Santo Agostinho, “Fizeste-nos, Senhor, para ti e o nosso coração está inquieto enquanto não descansar em ti”, continua atual. A pessoa humana, por mais que queira fugir de Deus, não descansará enquanto não se deixar seduzir pelo Senhor, já que em cada efêmera felicidade está buscando a Deus, ainda que as apalpadelas.
Você já desejou, de verdade, ver Deus? Nós falamos de Deus, cremos nele, o adoramos, é preciso também desejar vê-lo. Como é o rosto do Pai? Como é a humanidade glorificada de Cristo? Como é a personalidade do Espírito Santo? O que é Deus? Quem é Deus? “Ninguém jamais viu Deus. O Filho único, que está no seio do Pai, foi quem o revelou” (Jo 1,18). Ambas as afirmações estão perfeitamente combinadas na nossa vida cristã: nós não vimos a Deus, mas nós o conhecemos em Cristo. E, no entanto, desejamos ver como é Deus, como é cada uma das três Pessoas da Santíssima Trindade; também queremos dar um abraço em Nossa Senhora e agradecer pessoalmente ao nosso anjo da guarda por tudo, enfim, nós desejamos o céu.
Hoje é um dia para desejar a vida eterna. Pode-se ler num delicioso livro publicado pela Editora Quadrante, Reflexões espirituais, de Salvador Canals, a conversa de duas pessoas, umas das quais procurava convencer a outra de que a vida cristã é muito importante. O outro, contudo, se resistia. Depois, num momento de sinceridade, disse algo surpreendente: “Não posso viver como você diz por que sou muito ambicioso”. O seu interlocutor teve uma dessas respostas inteligentes e francas: “Olha, você tem diante um homem que é muito mais ambicioso que você (…) um homem que quer ser santo. A minha ambição é tão grande que não ambiciono nenhuma coisa dessa terra (…) Ambiciono a Jesus Cristo, o Paraíso, e a vida eterna”. Isso sim que é ambição! Todo cristão é um ambicioso, santamente ambicioso.
Precisamos que a nossa ambição santa aumente e que desejemos o céu não somente para nós, mas também para todos os nossos amigos. Um cristão sem zelo apostólico é um cristão estéril. Assim como não se pode entender que um peixe não possa nadar, a não ser que esteja morto, assim também não se pode entender que um cristão não seja apostólico, proselitista (no bom sentido da palavra), a não ser que esteja morto. Não podemos perder a audácia, o desejo de ganhar a todos para Cristo. No mesmo sermão citado anteriormente, São Leão Magno dizia que “a fé, aumentada pela ascensão do Senhor e fortalecida com o dom do Espírito Santo, não pode temer diante das cadeias, da prisão, do desterro, da fome, do fogo, das feras nem das torturas dos cruéis perseguidores. Homens e mulheres, crianças e frágeis donzelas lutaram em todo o mundo por essa fé até o derramamento do sangue. Esta fé afugenta os demônios, afasta as enfermidades, ressuscita os mortos”.
Peçamos a Deus que aumente a nossa fé e, consequentemente, a nossa audácia apostólica, que irá ao encontro não somente daquelas pessoas que ainda não são católicas, mas também dos mesmos católicos. Há muitos que estão afastados da Igreja, com uma fé raquítica, sem vigor apostólico. É preciso ajudá-los! Nessa Semana de Oração pela Unidade dos cristãos peçamos a Deus que se acabem as divisões, que todos tenhamos um único desejo: amar a Deus e estender o seu reino por todo o mundo, cada um no ambiente em que se encontra. É vergonhoso que tantas pessoas levem o sublime nome de “cristão” e estejam divididos por placas de igrejas e comunidade eclesiais. Que Deus nos conceda que todos sejamos um sob o cajado do Sucessor de Pedro, pois essa é a vontade de Deus para a sua Igreja.



sábado, 26 de março de 2016

Homilia da Vigília Pascal. Pe. Fantico Borges, CM

Vigília Pascal - Ano C

Ó noite de alegria verdadeira!

É uma Noite estupenda, esta Noite! Não há outra, como esta; não poderá haver neste mundo! Esta Noite santíssima, caríssimos, resume e encerra em si, como num ventre fecundo, outras noites.
Vede: hoje, nesta Noite, quando tudo era trevas, Deus disse: “Faça-se a luz!” e a luz se fez (cf. Gn 1,3)! Hoje, quando Isaac estava para entrar na noite da morte, pois nosso Pai Abraão tinha decidido sacrificá-lo a Deus, a luz brilhou e o Senhor disse: “Abraão, não estendas a mão contra o teu filho!” E Isaac viu a luz da vida (cf. Gn 22,12)! Ainda hoje, nesta Noite, Deus, com braço estendido, fez o seu povo atravessar o Mar Vermelho e deixar a escravidão de Faraó, no Egito (cf. Ex 14,1-31). Foi também hoje, nesta noite bendita – nesta mesma Noite! –, que o Pai, derramou seu Espírito Santo sobre o nosso Jesus que estava morto e o arrancou das trevas da morte, fazendo-o passar para a luz da plenitude da vida. Finalmente, numa noite como esta, num hoje como hoje, no meio da noite deste mundo, em plena escuridão da história, o Pai enviará o Cristo ressuscitado, pleno de glória, e brilhará, no meio da noite deste mundo, o Dia eterno, da glória eterna, na plenitude do Reino! E já não haverá mais noite e o Cordeiro imolado e ressuscitado será nosso sol, nosso dia eterno (cf. Ap 22,5)!
Irmãos amados, todas estas noites que se transformam em dia de luz fulgurante, se resumem e estão presentes misteriosamente nesta Noite de Páscoa! Porque nesta Noite Cristo ressuscitou, todas as noites da história da salvação e todas as noites deste mundo, e todas as noites da nossa vida e do nosso coração, são transformadas em Dia pleno, Dia triunfante, Dia resplendente de glória! Nem todas as palavras do mundo bastariam para exprimir o mistério desta Noite!
Irmãos, Irmãs, se correrdes ao túmulo do Crucificado, tereis uma surpresa: não o encontrareis lá! "Por que estais procurando entre os mortos Aquele que está vivo? Ele não está aqui. Ressuscitou!” Irmãos, crede: no meio desta Noite – só ela viu, só ela sabe a hora! – o nosso Jesus deixou a morte na qual havia entrado na Sexta-feira, e entrou na plenitude da vida do Pai! Irmãos, Irmãs, não procureis Jesus neste mundo: ele partiu, ele ressuscitou, ele está com o Pai, pleno de corpo e de alma! Ele, agora, é nosso eterno Intercessor, nosso Senhor, nosso Deus Vencedor! Mas, não fiqueis tristes, irmãos: ele, que se foi, não nos deixou. Deu-nos o seu Espírito Santo, Aquele mesmo no qual o Pai o ressuscitou. Vós, batizados em Cristo, recebestes o Espírito Santo de Cristo e, agora, tendes a vida do Cristo em vós, que irá crescendo até a vida eterna! No Espírito Santo de Cristo, tendes a vida do Senhor no pão e no vinho, presença real do Cristo morto e ressuscitado! Ele, que se foi, não nos deixou! Na potência do seu Espírito, continua agindo em nós e entre nós!
             Irmãos, esta Noite é santa! Toda lágrima, nela, é enxugada; todo pecado, nela, é perdoado; toda morte, nela, é vencida! Irmãos, nosso Jesus ressuscitou, nosso Jesus foi constituído Senhor, nosso Jesus abriu-nos um caminho novo; nosso Jesus deu-nos um novo rumo na vida, uma nova esperança , uma invencível certeza! Irmãos, nesta Noite, a Morte perdeu a guerra, nesta Noite, o Filho de Deus, na sua humanidade igual a nossa, venceu a Morte, arrombou o pântano infernal e abriu-nos o caminho para o Pai! Irmãos, esta é a Noite mais feliz da história humana: é a Noite da Páscoa; Páscoa de Cristo, nossa Páscoa! “Eis agora a Páscoa, nossa festa, em que o real Cordeiro se imolou: marcando nossas portas, nossas almas, com seu divino sangue nos salvou! Ó Noite de alegria verdadeira, que prostra o Faraó e ergue os hebreus, que une de novo ao céu a terra inteira, pondo na treva humana a luz de Deus!”

Irmãos, Cristo ressuscitou! Irmãs, o sepulcro está vazio! Irmãos, Cristo, nosso Caminho, abriu-nos o caminho da vida! Irmãs, vivamos vida nova, porque agora nossa vida tem rumo, sentido e plenitude: na treva humana brilhou em Cristo a luz de Deus! Feliz Páscoa, Irmãos! Cristo ressuscitou, Irmãs! Aleluia!

sexta-feira, 25 de março de 2016

Homília da Sexta-Feira Santa do Padre Fantico


Homília da Sexta-Feira Santa

A liturgia desta Sexta-feira Santa tem como ponto alto a cruz de Jesus. Diz São Leão Magno:  “Que a nossa inteligência, iluminada pelo Espírito da Verdade, acolha, com o coração puro e liberto, a glória da cruz que se irradia pelo céu e a terra”. O mesmo santo nos diz que a santa cruz “é fonte de todas as bênçãos e origem de todas as graças. Por ela, os que creem recebem na sua fraqueza a força; na humilhação, a glória; na morte, a vida”. Cantemos, nós também, a glória da Santa Cruz.
O centro, é portanto a mensagem que o Cristo, nossa páscoa foi imolado por nossos pecados. O Justo pelos injustos, o Santo pelos pecadores. O filho unigênito pelos filhos desobedientes. A sexta feira Santa revela o inefável amor de Deus pela criação. A obediência do Filho recompõe o que outrora nossa desobediência fizera perder: “Mesmo sendo Filho, aprendeu o que significa a obediência a Deus por aquilo que sofreu. Mas, na consumação de sua vida, tornou-se causa de salvação eterna para todos os que lhe obedecem”. Esta hodierna Liturgia é solene e dramática. Altar desnudo cruzes veladas na igreja, nenhum ornamento... Quase não há palavras para exprimir o estupendo mistério que se celebrará: o eterno Filho, Deus santo, vivo e verdadeiro, na tarde sacratíssima desta sexta-feira, por nós se entregou ao Pai, em total obediência, até à morte, e morte de cruz! Para contemplar o mistério celebrado, tomemos, então, com temor e tremor, as palavras da Epístola aos Hebreus, que apresenta-nos no inicio: “Mesmo sendo Filho, aprendeu o que significa a obediência a Deus por aquilo que sofreu”. Eis aqui uma realidade que jamais poderemos compreender totalmente! O Filho eterno, o Filho que vive sempre na intimidade do Pai, o Filho infinitamente amado pelo Pai, no seu caminho neste mundo, aprendeu a descobrir, cada dia, a vontade do seu Pai e a ela obedecer! Mais ainda: esta obediência lhe custou lágrimas, fê-lo sofrer!
Queres conhecer o poder do sangue de Cristo? Voltemos às figuras que o profetizaram e recordemos a narrativa do Antigo Testamento: Imolai, disse Moisés, um cordeiro de um ano e marcai as portas com o seu sangue (cf. Ex 12,6-7). Que dizes, Moisés? O sangue de um cordeiro tem poder para libertar o homem dotado de razão? É claro que não, responde ele, não porque é sangue, mas por ser figura do sangue do Senhor. Se agora o inimigo, ao invés do sangue simbólico aspergido nas portas, vir brilhar nos lábios dos fiéis, portas do templo dedicado a Cristo, o sangue verdadeiro, fugirá ainda mais para longe.  
Queres compreender mais profundamente o poder deste sangue? Repara de onde começou a correr e de que fonte brotou. Começou a brotar da própria cruz, e a sua origem foi o lado do Senhor. Estando Jesus já morto e ainda pregado na cruz, diz o evangelista, um soldado aproximou-se, feriu-lhe olado com uma lança, e imediatamente saiu água e sangue: a água,como símbolo do batismo; o sangue, como símbolo da eucaristia. O soldado, traspassando-lhe o lado, abriu uma brecha na parede do templo santo, e eu, encontrando um enorme tesouro, alegro-me por ter achado riquezas extraordinárias. Assim aconteceu com este cordeiro. Os judeus mataram um cordeiro e eu recebi o fruto do sacrifício.
De seu lado saiu sangue e água (Jo 19,34). Não quero, querido ouvinte, que trates com superficialidade o segredo de tão grande mistério. Falta-me ainda explicar-te outro significado místico e profundo. Disse que esta água e este sangue são símbolos do batismo e da eucaristia. Foi destes sacramentos que nasceu a santa Igreja, pelo banho da regeneração e pela renovação no Espírito Santo, isto é, pelo batismo e pela eucaristia que brotaram do lado de Cristo. Pois Cristo formou a Igreja de seu lado traspassado, assim como do lado de Adão foi formada Eva, sua esposa. Por esta razão, a Sagrada Escritura, falando do primeiro homem, usa a expressão osso dos meus ossos e carne da minha carne (Gn 2,23), que São Paulo refere, aludindo ao lado de Cristo. Pois assim como Deus formou a mulher do lado do homem, também Cristo, de seu lado, nos deu a água e o sangue para que surgisse a Igreja. E assim como Deus abriu o lado de Adão enquanto ele dormia, também Cristo nos deu a água e o sangue durante o sono de sua morte. Vede como Cristo se uniu à sua esposa, vede com que alimento nos sacia. Do mesmo alimento nos faz nascer e nos nutre. Assim como a mulher, impulsionada pelo amor natural, alimenta com o próprio leite e o próprio sangue o filho que deu à luz, também Cristo alimenta sempre com o seu sangue aqueles a quem deu o novo nascimento.


sábado, 20 de fevereiro de 2016

Homilia do Pe. Fantico Borges, CM – II Domingo da Quaresma – Ano C Escuta-O sempre!

Homilia do Pe. Fantico Borges, CM – II Domingo da Quaresma – Ano C

Escuta-O sempre!

Neste domingo Jesus revela o esplendor da sua Glória, glória essa fruto do compromisso com a cruz salvadora.  No Evangelho ( Lc 9, 28-36 ) apresenta a fé dos Apóstolos, fortalecida na Montanha, pela Transfiguração de Jesus. Na Caminhada para Jerusalém, o primeiro anúncio da Paixão e Morte de Jesus abalou profundamente a fé dos apóstolos. Gerou a “crise da galileia”. Desmoronaram seus planos de glória e de poder.
Para fortalecer essa fé ainda tão frágil… Cristo tomou três deles… subiu ao Monte e “Transfigurou-se…” A transfiguração de Jesus é uma catequese que revela aos discípulos e a nós Quem é Jesus: O Filho Amado de Deus! Dizia São Leão Magno: “O Salvador do gênero humano, Jesus Cristo, lançando os fundamentos daquela fé que converte os ímpios à justiça e restitui os mortos à vida, formava seus discípulos por doutrinas e milagres a fim de crerem que o mesmo Cristo é o Unigênito de Deus e o Filho do Homem”. Com isso Jesus unia no coração e na mente dos discípulos que Aquele mesmo que morreu na cruz era o mesmo que sempre esteve na glória dom Pai com Eterno Filho do Eterno Pai. A transfiguração, então resplandecia a divindade do Deus-Filho na humanidade do Filho do Homem. 
Nesta caminhada quaresmal somos também convidados a subir com Jesus a montanha e, na companhia dos três discípulos, viver a alegria da comunhão com Ele. As dificuldades da caminhada não podem nos desanimar. No meio dos conflitos, o Pai nos mostra desde já sinais da Ressurreição e do alto daquele monte Ele continua a nos gritar: “Este é o Meu Filho Amado, escutai-O”. Para São Leão Magno “a principal finalidade desta transfiguração era dissipar nos corações dos discípulos o escândalo cruz e que humilhação da paixão voluntária não perturbasse a fé daqueles aos quais fora revelada a excelência da dignidade oculta”. Os Apóstolos jamais esquecerão esta “gota de mel” que Jesus lhes oferecia no meio da sua amargura.
Esta centelha da glória divina inundou os Apóstolos de uma felicidade tão grande que fez Pedro  exclamar: “Senhor, é bom ficarmos aqui. Vamos fazer três tendas…” Pedro quer prolongar a situação! O que é bom, o que importa, não é estar aqui ou ali, mas estar sempre com Cristo, em qualquer parte, e vê-Lo por trás das circunstâncias em que nos encontramos. Jesus não o repreende, apenas aponta que devem descer a montanha a fim de ser fiel até o fim, pois não há glória sem cruz, não há vitória sem sacrifícios, não há conquistas sem esforços.  
A vida dos homens é uma caminhada para o Céu, que é a nossa morada (2 Cor 5,2). Uma caminhada que, às vezes, se torna áspera e difícil, porque com frequência devemos remar contra a corrente e lutar com muitos inimigos interiores ou de fora. Mas o Senhor quer confortar-nos com a esperança do Céu, de modo especial nos momentos mais duros ou quando se torna mais patente a fraqueza da nossa condição.
O pensamento da glória que nos espera deve animar-nos na nossa luta diária. Nada vale tanto como ganhar o Céu. Ensina Santa Teresa: “ E se fordes sempre avante com esta determinação de antes morrer do que desistir de chegar ao termo da jornada, o Senhor, mesmo que vos mantenha com alguma sede nesta vida, na outra, que durará para sempre, vos dará de beber com toda a abundância e sem perigo de que vos venha a faltar” (Caminho de Perfeição, 20,2).
“Este é o meu Filho amado, no qual ponho a minha complacência”. Com estas palavras Deus afirma estar sempre presente junto ao Filho. Quem me viu viu o Pai, aqui se traça o especifico de cada pessoa na Divina Relação de Paternidade e Filiação. A Divindade única e real de cada pessoa. Este é meu Filho amado, não adotivo, mas próprio; náo criado de outrem, mas gerado de Pai, igual a Ele; não de outra natureza comparável a sua, mas nascido da sua essência.  
Escutai-O!” ( Lc 9, 35 ). E Deus Pai fala através de Jesus Cristo a todos os homens de todos os tempos. A sua voz faz-se ouvir em todas as épocas, sobretudo através dos ensinamentos da Igreja…
Tudo que aconteceu naquele monte não foi apenas para utilidade daqueles que escutaram, mas para a Igreja inteira. Aquilo que viram os olhos dos apóstolos transmitiram de sua audição. Aquela cena marcou a ainda marca nossa história de fé. Ninguém se engane da cruz de Cristo, pela qual o mundo foi redimido. Ninguém tema sofrer pela justiça ou desamine da retribuição prometida. Pelo labor se passa ao repouso, pela morte se transita para avida. Uma vez que Cristo assumiu toda a fraqueza de nossa humanidade, se permanecermos na confissão e no amor a ele, venceremos como ele venceu, e receberemos o que prometeu. Na prática dos mandamentos, ou no suportar as adversidades, deve ressoar sempre nos nossos ouvidos as palavras cheias de encanto de Deus: “este é meu Filho amado, escutai-O” .



sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Homilia da Quarta-Feira de Cinzas do Padre Fantico Borges, CM

Homilia do Padre Fantico Borges, CM

Quaresma caminho de conversão pessoal.
Quero começar minha reflexão para esta quata-feira de Cinzas lembrando de São Leão Magno que dizia: “ Sabendo, porém, que chegaram os dias santos da quaresma, cuja observância perdoa todas as faltas passadas, apaga todas as negligências”. Com esta frase desejo lembra-los que a quaresma é tempo para recomeçar.
A quaresma é um itinerário espiritual onde somos convocados a contemplar o Mistério da Cruz, fazendo o caminho do calvário, rumo a ressurreição. Para realizar uma conversão profunda da nossa vida: deixar-se transformar pela ação do Espírito Santo, como São Paulo no caminho de Damasco; orientar com decisão a nossa existência segundo a vontade de Deus; libertar-nos do nosso egoísmo, superando o instinto de domínio sobre os outros e abrindo-nos à caridade de Cristo; são os meios de por em marcha essa conversão. Novamente vem me minha memoria as palavras do Papa São Leão Magno: “...não prevaleceremos sobre nossos inimigos se não prevalecermos, antes, sobre nós mesmos.” Muitos combates começam dentro de nós, os desejos; as paixões do corpo; o anelo de controlar as pessoas e o poder, dentre outros, mostram que o inimigo não mora muito longe de nós. Por isso, o período quaresmal é momento favorável para reconhecer a nossa debilidade, acolher, com uma sincera revisão de vida, a graça renovadora do Sacramento da Penitência e caminhar com decisão para Cristo.
O primeiro passo deste itinerário é contemplar o Mistério da Cruz. Olhar com profundidade o Silêncio penetrante e salvífico da Cruz. No “Silêncio da Cruz de Cristo, nasce a certeza da nossa vitória”. Todos os exercícios quaresmais: jejum, esmola, oração e tantos outros nascem, recebem e se nutrem da forca da Cruz de Jesus. A prova disso é que recebemos do Mistério da Cruz a força para unir-nos à mesma Cruz, ou seja, aquilo que Deus nos pede, ele nos concede: Deus pede que rezemos, Ele nos dá a graça da oração. Deus nos pede que façamos penitência, Ele nos dá a graça para realizá-la. Deus pede que partilhemos e que não sejamos egoístas, Ele nos dá a graça da generosidade e da esmola. Não podemos mais confiar nas nossas próprias forças! A experiência grita aos nossos ouvidos: “somente com as próprias forças não é possível!” E é assim. Mas também é verdade aquele grito celestial: com a graça de Deus, tudo é possível! S. Paulo experimentou e expressou essa realidade de uma maneira maravilhosa, confiando na graça de Deus pôde dizer aquelas palavras aparentemente contraditórias: “quando eu sou fraco, então, é que sou forte” (2 Cor 12,10).
O itinerário que a quaresma nos convida a realizar nasce da consciência que necessitamos de conversão pessoal. São João Crisóstomo, ensinava que existem distintos e diferentes meios que conduzem a alma para este fim. Para ele o primeiro era a acusação dos próprios pecados.  Pois se condenamos nós mesmos aquilo que pecamos esta contrição obterá o perdão diante do Senhor. Condenar aquilo que se fez de errado, com menos facilidade de recaímos no erro. Por isso, que quem não faz reta contrição dificilmente alcançará a graça da paz interior.
Um segundo caminho proposto por São João Crisóstomo consiste em perdoar as ofensas que recebemos de nossos inimigos, de tal forma que, colocando limites a nossa ira, esqueçamos as faltas de nossos irmãos. Quem assim age receberá o perdão de Deus, pois Cristo disse: perdoai nossas faltas como nós perdoamos a quem nos têm ofendidos.
O segundo caminho é a Oração fervorosa e contínua, que brota do íntimo do coração. Pela oração a pessoa entra em contato estreito com Deus, unido-se ao seu mistério de amor. Quem reza vive na presença de Deus e sabe escutar sua voz, por isso, lhe é mais obediente. Como não existe frutos sem obediência a oração prepara os corações para confiar somente em Deus e esperar sempre no seu amor. Pela oração o ser humano caminhas nas sendas de Deus partilhando do seu mistério de amor, que uni a Santíssima Trindade. 
 Uma terceira via é a esmola. Ela possui uma enorme vitalidade, porque abre nosso coração ao sofrimento alheio e torna-nos mais sensíveis aos apelos de Deus, em favor do Reino. Ensina-nos, São João Crisóstomo, a esmola nos leva a uma humildade que significa agir com modéstia, sem desejo de recompensa humana, como fazem os hipócritas. Neste caminho quem dar recebe mais do que aquele beneficiado. A esmola ínsita a entrar na vida dos mais frágeis e acudi-los em suas necessidades, reconhecendo neles o Cristo que sofre.  Assim, a esmola dista de uma ajuda pretenciosa ou interesseira, que buscaria honras pessoais ou reconhecimento de um ato realizado; ao contrario, a esmola cristã é aquela feita em nome de Deus, por Ele e n’Ele. Não busca recompensa nem a faz por interesses pessoais, age apenas por misericórdia. 
Neste itinerário quaresmal, que iniciamos hoje ninguém deixe de esforça-se ao máximo para chegar mais santo na Páscoa. Nas sendas da graça tudo é possível e quem espera no Senhor sempre alcança. Tomemos estes quarenta dias como um verdadeiro retiro espiritual, pondo nossa atenção na oração pessoal, que será nossa vigia, reconciliando-nos com Deus, como ponte para atravessar as tentações, como mura contra as tribulações, vitória nas batalhas, sustentáculo do espírito, e desterro da tristeza. Que Maria, mãe de Jesus e da Igreja caminhe conosco por essa estrada da conversão. Amém


sexta-feira, 25 de dezembro de 2015


Homilia do dia de natal  25/12/2015


“Um Menino nasceu para nós: um Filho nos foi dado! O poder repousa nos seus ombros. Ele será chamado ‘Mensageiro do Conselho de Deus’”. Estas palavras, lidas na leitura da Missa da Noite, dão bem o sentido da presente celebração. Nasceu para nós um Menino; foi-nos dado um Filho! Vamos encontrá-lo pobrezinho e frágil, deitado na manjedoura, alimentado por uma Virgem Mãe, guardado por um pobre carpinteiro. Mas, quem é este Menino? Quem é este Filho? Agora, com o sol já claro e alto, podemos enxergar melhor o Mistério: meditemos bem sobre o que celebramos na noite de ontem para hoje, no que professamos neste dia tão santo!
Este menininho, a Escritura nos diz que ele é a Palavra eterna do Pai: esta Palavra “no princípio estava com Deus… e a Palavra era Deus”. Esta Palavra, que dorme agora no presépio, depois de ter mamado, é aquela Palavra poderosa pela qual tudo que existe foi feito, “e sem ela nada se fez de tudo que foi feito”. Esta Palavra tão potente, feita tão frágil, esta Palavra que sempre existiu e que nasceu na madrugada de hoje, esta Palavra que é Deus, feita agora recém-nascido, é a própria Vida, e esta Vida é a nossa luz, é a luz de toda humanidade. Fora dela, só há treva confusa e densa! Sim, fora do Deus feito homem, do Emanuel, não há vida verdadeira! O Autor da Carta aos Hebreus, na segunda leitura, diz que, após ter falado aos nossos pais de tantos modos, Deus, agora, falou-nos pessoalmente no seu Filho, “a quem ele constituiu herdeiro de todas as coisas e pelo qual também criou o universo”; somente a ele, o Pai disse: “tu és o meu Filho, eu hoje te gerei!” Por isso, somente eles nos dá o dom da vida do próprio Deus!
Eis o mistério da festa de hoje: nesta criancinha nascida para nós, Deus visitou o seu povo, Deus entrou na humanidade. Que mistério tão profundo: ele, sem deixar de ser Deus, tornou-se homem verdadeiramente. Deus se humanizou! Veio desposar a nossa condição humana, veio caminhar pelos nossos caminhos, veio experimentar a dor e a alegria de viver humanamente: amou com um coração humano, sonhou sonhos humanos, chorou lágrimas humanas, sentiu a angústia humana… Ele, Filho eterno do Pai, tornou-se filho dos homens para salvar toda a humanidade, “tornou-se de tal modo um de nós, que nós nos tornamos eternos!”
Ó criatura humana, por que temes com a vinda do Senhor? Ele não veio para julgar ninguém. Não nasceu para condenar. Por isso ele apareceu como criancinha e não como um rei potente; pode ser encontrado na manjedoura, não no trono. Seu chorinho é doce, não afugenta ninguém. Sua mãe enfeixou seus bracinhos frágeis: por que ainda temes? Ele não veio armado para punir. Ele está aí franzino para ficar junto de nós e nos libertar! Celebra, pois, a chegada do teu maior Amigo! Canta Aquele que foi sempre, no sono e na vigília, esperado e ansiado, o guarda de Israel, o consolo da humanidade, o alento do nosso coração. Ele chegou, finalmente! Chegou para nunca mais nos deixar, porque desposou para sempre a nossa pobre humanidade! São Jerônimo, com palavras cheias de ternura, medita sobre este mistério: “O Cristo não encontra lugar no Santo dos Santos, onde o ouro, as pedras preciosas, a seda e a prata reluziam: não, ele não nasce entre o ouro e as riquezas, mas nasce num estábulo, na lama dos nossos pecados. Ele nasce num estábulo para reerguer os que jazem no meio do estrume: ‘Ele retira o pobre do estrume’. Que todos os pobres encontrem nisso consolo! Não havia outro lugar para o nascimento do Senhor, a não ser um estábulo; um estábulo onde se achavam amarrados bois e burros! Ah! Se me fosse dado ver este estábulo onde Deus repousou! Na realidade, pensamos honrar o Cristo retirando o presépio de palha e substituindo-o por um de prata… Para mim tem mais valor justamente o que foi retirado: o paganismo merece prata e ouro. A fé cristã merece o estábulo de palha. Pois bem! Ouvimos a criança choramingar no estábulo: adoremo-la, todos nós, no dia de hoje. Ergamo-la em nossos braços, adoremos o Filho de Deus. Um Deus poderoso, que por longo tempo, bradou alto dos céus e não salvou ninguém: agora choramingou e salvou. A elevação jamais salva; o que salva é a humildade! O Filho de Deus estava no céu, e não era adorado; desce à terra e passa a ser adorado. Mantinha sob seu domínio o sol, a lua, os anjos, e não era adorado; nasce na terra, homem, homem completo, integralmente homem, a fim de curar a terra inteira. Tudo o que não assumisse de humano, também não salvaria…”
É este o mistério do Santo Natal! Tenhamos o cuidado de não parar nas aparências, de não ficarmos somente na meiga cena do Menino, com a Virgem e são José! Este Menino é o Emanuel, o Deus-conosco! Este Menino veio como sinal de contradição, pois diante dele ninguém pode ser indiferente: ou se o acolhe, ou se o rejeita: “A Palavra estava no mundo, e o mundo foi feito por meio dela, mas o mundo não quis conhece-la. Veio para o que era seu, e os seus não a acolheram. Mas, a todos os que a acolheram, deram a capacidade de se tornarem filhos de Deus…” Pois bem: acolhamo-la, a Palavra que se fez Menino, Filho que nos foi dado! Se o acolhermos de verdade, na pobreza do dia-a-dia, no esforço de uma vida santa, então poderemos cantar com o salmista: “Cantai ao Senhor Deus um canto novo, porque ele fez prodígios! O Senhor fez conhecer a salvação, e às nações, sua justiça. Os confins do universo contemplaram a salvação do nosso Deus. Aclamai o Senhor Deus, ó terra inteira, alegrai-vos e exultai!”
Vamos todos! Sejamos testemunhas da graça deste dia, da novidade desta festa. E cumpram-se em nós as palavras da Escritura na leitura da missa de hoje: “Como são belos, sobre os montes, os pés do mensageiro que anuncia a paz, de quem anuncia o bem e prega a salvação e diz a Sião: o teu Deus reina! O Senhor consolou o seu povo! O Senhor desnudou seu santo braço aos olhos de todas as nações; todos os confins da terra hão dever a salvação que vem do nosso Deus”. Sejamos mensageiros dessa paz, dessa boa nova, sejamos testemunhas do Menino, irradiemos a graça do Santo Natal! Amém.

Homilia da missa da noite de natal (24/12/2015)


Hoje nasceu para vós o Salvador, que é o Cristo Senhor! Por isso a alegria da Igreja, por isso, a exultação! Abramos nosso coração, abramos nossa vida, nossos afetos, nossos sentimentos, nossos projetos para o mistério desta Noite. Por Ele os anjos cantam jubilosos, os coros dos santos exultam de alegria! Alegremo-no, pois nasceu o Deus-menino! Esta noite é de imensa alegria, como bem dizia, no século V, são Leão Magno, Papa de Roma: “Hoje, amados filhos, nasceu o nosso Salvador. Alegremo-nos! Não pode haver tristeza no dia em que nasce a vida; uma vida que, dissipando o temor da morte, enche-nos de alegria com a promessa da eternidade. Ninguém está excluído da participação nesta felicidade. Exulte o justo, porque se aproxima à vitória; rejubile o pecador, porque lhe é oferecido o perdão; reanime-se o pagão, porque é chamado à vida!” Nesta noite venturosa Deus se fez pequeno, visível aos nossos olhos. Ele quis nos mostrar a sua face e levar-nos ao seu amor.

Então, ouçamos novamente as palavras do Papa São Leão; tomemos o seu apelo para esta Noite: “Toma consciência, ó cristão, da tua dignidade! Não voltes aos erros de antes por um comportamento indigno de tua condição. Lembra de que cabeça e de que corpo és membro. Despojemo-nos, portanto, do velho homem com seus atos; e tendo sido admitidos a participar do nascimento de Cristo, renunciemos às obras da carne!” Esta noite nos chama à vida nova. Cristo quer ser luz em nossa vida, esperança em nossas dores e nossa salvação por meio cruz.

Neste momento em que o criador se faz criatura, o sermões de Santo Agostinho, nos oferece o teor desta noite de natal: “Expergiscere, homo: quia pro te Deus factus est homo” - “Desperta, ó homem, porque por ti Deus se fez homem!" E o santo Bispo de Hipona continuava: "Desperta, tu que dormes, levanta-te dentre os mortos e sobre ti Cristo resplandecerá! Por tua causa, repito, Deus se fez homem. Estarias morto para sempre, se ele não tivesse nascido no tempo. Jamais te livrarias da carne do pecado, se ele não tivesse assumido uma  carne semelhante à do pecado. Estarias condenado a uma eterna miséria, se não fosse a sua misericórdia. Não voltarias à vida, se ele não tivesse vindo ao encontro da tua morte. Terias perecido, se ele não te socorresse. Estarias perdido, se ele não viesse salvar-te". Caríssimos, tomemos consciência de tão grande graça! No Menino que repousa no presépio foi-nos dada agraça para sair do sono miserável de uma vida medíocre e vazia, de uma existência morna e sem sentido. Desperta, ó cristão, porque hoje brilhou para ti a luz! Por ti, o Filho eterno fez-se um de ti! Eis a maior prova de amor de Deus por nós. Como canta a liturgia no missal Gótico da noite de natal: “Aquele que deu forma a todas as coisas recebe a forma de escravo; Aquele que era Deus é gerado na carne; eis que ele é envolvido em panos, Aquele que era adorado no firmamento; e eis que repousa numa manjedoura Aquele que reinava no céu” (Missal Gótico, Missa do Natal).

Por tudo isso, saíamos daqui felizes e cheios de esperança porque nasceu-nos hoje o salvador que é Cristo o Senhor! Feliz natal para todos, Amém!


segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Homilia do padre Fantico na Missa do XXVII domingo comum ano b. 04/10/2015


Homilia da Missa do XXVII domingo comum ano b. 04/10/2015

O ser humano se realiza no encontro com outro ser capaz de comunhão com ele.

A narrativa poética de Gênesis nos desvela que é na mulher que o homem se reconhece a si mesmo: “Desta vez, sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne! Ela será chamada “mulher”, porque foi tirada do homem”. Adão descobre o seu companheiro para o amor: o ser gestado da suas entranhas, nascido do seu coração. Este ser que o Criador lhe entrega após um longo sono era semelhante a ele, mas diverso. Então está posta a questão da unidade dual: Homem-mulher. Deus criou o ser humano nesta unidade-diversidade que ele só se reconhece na diferença do outro que lhe completa. Aqui na se levanta a questão da defesa do principio heterodoxo da realidade. A vida é um mistério da diversidade na unidade dos distintos.  Isto por que na corporeidade de cada indivíduo estar a complemetariedade do outro: daí que a solidão é o aniquilamento do ser humano. É parte ontológica e constitutiva de cada ser humano o encontro interpessoal. Por isso, dizia Aristóteles, na ética anicômago, que o ser humano é essencialmente político, ou seja, de relações.   No campo teológico esponsal este Outro é Deus. Em Cristo Esposa a Igreja esposa esta chamada a fidelidade do matrimônio do mistério nupcial de Cristo com a Igreja. Assim, é no encontro com o diferente hetero, e não no homo, que o ser humano se descobre em todas as suas potencialidades.
 No evangelho, Jesus não se refere a nenhuma prescrição da lei, mas retoma a cena da manhã original, não como uma lembrança do passado, mas como a imagem do paraíso, e, de uma realidade essencial inserida no coração: “Os dois formarão uma só carne, assim, já não são dois, mas uma só carne”. O profundo laço que une o homem e a mulher têm, no contexto do Genesis dois significados: primeiro que o amor conjugal é superior a qualquer outro laço, mesmo o laço paterno; depois que é tão intimo e tão profundo que ultrapassa o plano meramente corporal: os dois se tornam uma só carne! Aqui se afirma a indissolubilidade do vínculo matrimonial. Neste sentido, a perene natureza do matrimônio, antes de ser uma norma eclesiástica é imperativo constitutivo do encontro do ser humano com Deus.
O Papa São João Paulo II, nas suas catequeses sobre o amor humano ensinava: “A esponsalidade do amor humano é antes um dom do que uma lei”. Como dom ela brota do amor de Deus derramado na criatura. A questão principal é portanto, saber como reconduzir ao paraíso do amor e à vontade divina tal como ela se manifestou no princípio. Jesus nos afirma que a nossa única regra, que resume toda a Lei e os profetas, é a do amor, tal como existia no paraíso, pois só o seu sopro possui a amplidão e a infinitude do próprio Deus.
Na sua resposta à provocação dos fariseus – estritos cumpridores da Lei – Ele faz saber que os homens e mulheres não são atados em razão de uma vontade humana e não podem ser separados por esta mesma vontade. Jesus garante que o vínculo entre os que se amam vem da força de Deus e tem origem divina. Para Ele, são as pessoas, inundadas e sustentadas pelo sopro divino, que fundam e respondem pelos esponsais e não os poderes civis e religiosos que os instituem. O amor salva e as leis que inventamos salvaguardam os direitos adquiridos. Jesus quis e quer uma humanidade liberada dos constrangimentos, da angústia, da humilhação e dos sentimentos de culpa. Só a dureza de coração tem necessidade de leis rígidas que nada têm a ver com as palavras de amor de Deus.
No evangelho, Jesus nos remete à tradição e nos lembra que o Deus-Esposo não rompe a sua Aliança e nem repudia o seu Povo-Esposa por não ter sido totalmente fiel ao Seu amor. Para Cristo o amor dos homens não morre nunca, porque nasce do amor de Deus. Por isso, o amor do homem e da mulher não caminha para a morte. O divorcio é a tragédia epopeica do definhamento humano. Daí que a Igreja não aceita o divorcio e prega a indissolubilidade do vínculo Matrimonial. Mas, não se deve considerar essa indissolubilidade uma lei e sim um dom. Deus chamou os esposos ao amor, os chama a viver um amor que não morre, porque cresce cada vez mais e se renova. Isso significa que o amor matrimonial é chamado a superar as dificuldades presentes e futuras. Um amor mais forte que os problemas diários. Um amor que tem a própria força de Deus. E mesmo quando a indissolubilidade do matrimonio parece perder o sentido, nós encontramos seu sentido mais íntimo na participação no amor de Cristo crucificado.

Assim como Cristo não abandonou, mesmo na cruz, sua esposa, a saber, a humanidade, também todo cristão é convocado a viver dessa fidelidade. O matrimonio contraído no Senhor encontra força n’Ele para conservar a indissolúvel unidade e comunhão no amor conjugal. 

sábado, 15 de agosto de 2015

Homilia da Assunção de Nossa Senhora

Homilia da Assunção de Nossa Senhora
Assunção, festa da esperança
Esperamos conseguir do Senhor o que Maria, sinal glorioso da Igreja, já conseguiu. Esperamos estar completos, corpo e alma, com o Senhor. Ao contemplar a Mãe de Deus de maneira tão gloriosa no dia de hoje, os nossos corações se enchem de luz e de esperança. Deus cuida de nós e nos conduz cada vez mais à sua vida divina.
Os Padres da Igreja, especialmente a partir de S. João Damasceno e S. Germão de Constantinopla, pregavam abertamente a existência da incorruptibilidade do corpo de Nossa Senhora. A festa da Dormição de Nossa Senhora foi celebrada primeiramente em Jerusalém. Mas para os antigos, “dormição” não significava necessariamente ausência de morte. Defensor da Assunção de Nossa Senhora na Idade Média foi o assim chamado “Pseudo-Agostinho” (século IX). Baldo de Ubaldi, no século XV, também foi um grande defensor desta verdade de fé. Finalmente, o Papa Pio XII definiu solenemente o dogma da Assunção no dia 1 de novembro de 1950 através da Constituição “Munificentissimus Deus”. Inclusive o nome desta constituição deixa claro que se trata de uma graça de Deus “munificentissimus”, isto é, generosíssimo.  Uma graça tal que é um privilégio: Maria recebeu o privilégio de que nela fosse antecipado aquilo que acontecerá com todos os eleitos.
O Papa sentencia “que é dogma divinamente revelado: que a Imaculada Mãe de Deus e sempre Virgem Maria, ao término de sua vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória do céu”. É interessante que antes do Papa definir o quarto dogma sobre Nossa Senhora, ele recorde os outros três: Mãe de Deus, sempre Virgem (antes, durante e depois do parto), Imaculada. Pio XII não diz se Maria, antes de ser elevada ao céu, morreu ou não: isso continua como tema aberto à livre discussão teológica, isto é, pode-se defender uma ou outra coisa. O que todos devem reter como doutrina de fé solenemente definida é que ela, Nossa Senhora, foi elevada em corpo e alma aos céus, antecipadamente, como privilégio.
Quanto à morte de Nossa Senhora, parece muito mais acertado afirmar que ela realmente morreu e somente depois teria sido elevada aos céus. Por um lado, quando os antigos Padres falavam de “dormição” eles falavam também de morte. De fato, não é difícil encontrar textos na patrística que transmitam uma dormição de Jesus na Cruz referindo-se à sua morte real. Por outro lado, o desejo de imitar a Cristo que estava no coração de Nossa Senhora faz com que seja mais conveniente que ela imite o seu filho também nisso e se una, desta maneira, ao valor redentor do seu mistério de cruz.
Mas, como dizíamos antes, a Assunção de Nossa Senhora é sinal de esperança para nós. O Concílio Vaticano II afirmou: “Entretanto, a Mãe de Jesus, assim como, glorificada já em corpo e alma, é imagem e início da Igreja que se há de consumar no século futuro, assim também, na terra, brilha como sinal de esperança segura e de consolação, para o Povo de Deus ainda peregrinante, até que chegue o dia do Senhor (cfr. 2 Ped. 3,10)” (Constituição Dogmática sobre a Igreja, Lumen Gentium, nº 68).
A esperança é virtude sobrenatural, teologal, uma disposição plantada pelo Senhor na nossa alma que nos une a ele através da vontade, do desejo. Esperamos em Deus e nos auxílios (graças) que ele nos concede para alcançá-lo. Temos a firme esperança de chegar ao céu, à bem-aventurança eterna. É nesse sentido que a Assunção de Maria nos anima a continuar com os olhares fixos na meta: uma como nós conseguiu aquilo que nós conseguiremos. O nosso caminho rumo ao céu já foi selado por uma da nossa raça. Assim como ela chegou lá por graça, também nós chegaremos.
A Festa de hoje não é somente da Virgem Maria. Primeiramente, ela glorifica o Cristo, Autor da nossa salvação, pois em Maria aparece a vitória sobre a morte, que Jesus nos conquistou. A liturgia hoje exclama: “Preservastes, ó Deus, da corrupção da morte aquela que gerou de modo inefável vosso próprio Filho feito homem, Autor de toda a vida”. Este senhorio de Cristo aparece hoje radiante na sua Mãe toda santa: em Maria, Cristo venceu a morte de Maria! Em segundo lugar, a festa de hoje é também festa da Igreja, de quem Maria é Mãe e figura. A liturgia canta: “Hoje, a Virgem Maria, Mãe de Deus, foi elevada à glória do céu. Aurora e esplendor da Igreja triunfante, ela é consolo e esperança para o vosso povo ainda em caminho”. Sim! A Mãe Igreja contempla a Mãe Maria e fica cheia de esperança, pois um dia, estará totalmente glorificada como ela, a Mãe de Jesus, já se encontra agora. Finalmente, a festa é de cada um de nós, pois já vemos em Nossa Senhora aquilo que, pela graça de Cristo, o Pai preparou para todos nós: que sejamos totalmente glorificados na glória luminosa do Espírito do Filho morto e ressuscitado. Aquilo que a Virgem já possui plenamente, nós possuiremos também: logo após a morte, na nossa alma; no fim dos tempos, também no nosso corpo!
Estejamos atentos! A festa hodierna recorda o nosso destino, a nossa dignidade e a dignidade do nosso corpo. O mundo atual, por um lado exalta o corpo nas academias, no culto da forma física, da moda e da beleza exterior; por outro lado, entrega o corpo à sensualidade, à imoralidade, à droga, ao álcool… É comum escutarmos que o que importa é o “espírito”, que a matéria, o corpo passa… Os cristãos não aceitam isso! Nosso corpo é templo do Espírito Santo, nosso corpo ressuscitará, nosso corpo é dimensão indispensável do nosso eu. Um documento recente da Igreja sobre a relação homem-mulher, chamava-se atenção exatamente para essa questão: o corpo em si, para o mundo, parece que não significa muita coisa, que não tem uma linguagem própria, que não diz algo do que eu sou, da minha identidade – inclusive sexual. Para nós, cristãos, o corpo integra profundamente a personalidade de cada um: meu corpo será meu por toda eternidade; meu corpo é parte de minha identidade por todo o sempre! Honremos, então nosso corpo: “O corpo não é para a fornicação e, sim, para o Senhor e o Senhor é para o corpo. Ora, Deus, que ressuscitou o Senhor, ressuscitará também a nós – em nosso corpo- pelo seu poder. Glorificai, portanto, a Deus em vosso corpo” (1Cor 6,14.20).
Então, caríssimos, olhemos para o céu, voltemos para lá o nosso coração! Celebremos! Com a Virgem Maria, hoje vencedora da morte, com a Igreja, que espera, um dia, triunfar totalmente como Maria Virgem, cantemos as palavras da Filha de Sião, da Mãe da Igreja, pensando na nossa vitória: “A minha alma engrandece o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, porque olhou para a humildade de sua serva. O Todo-poderoso fez grandes coisas em meu favor!” A ele a glória pelos séculos dos séculos. Amém.