domingo, 19 de novembro de 2017

Homilia do Pe. Fantico Borges – XXXIII Domingo do Tempo Comum – Ano A

Homilia do Pe. Fantico Borges – XXXIII Domingo do Tempo Comum – Ano A
Trabalhai para sua santificação!
Caríssimos irmãos e irmãs se aproxima o domingo de Cristo Rei. A liturgia vai tomando como pano de fundo o juízo do justo rei-juiz de todos. Como doador dos dons Deus chamará todos para prestar contras dos talentos entregues a cada um, segundo sua capacidade. Aquele que recebeu cinco talentos e o que recebeu somente dois foram bons trabalhadores. Cada um deles, recebidos os talentos, “negociou com eles; fê-los produzir, e ganhou outros” (Mt 25,16). É preciso trabalhar! Mais ainda, é preciso trabalhar bem! São João Paulo II, na sua Carta Encíclica sobre o trabalho humano Laborem exercens, falava de “elementos para uma espiritualidade do trabalho”. O trabalho é dom de Deus em nossas vidas. 
Também é verdade que muitas pessoas não querem trabalhar. São preguiçosas e escondem os talentos para não se fadigarem. Quem não trabalho, diz o Apóstolo Paulo, não deve comer! Com o nome de talento se deve entender aquilo que qualquer pessoa recebeu. São Gregório Magno diz que devemos saber que não existe ninguém ocioso que esteja seguro de não ter recebido algum talento, porque não existe ninguém que diga: “eu não recebi nenhum talento, portanto não estou obrigado a prestar contas” (São Gregório Magno: sermões sobre os Evangelhos, 9). Todos, cristãos ou ateus, pobres ou ricos, negros ou brancos receberam bens para seu crescimento pessoal e para colaboração no crescimento dos outros.  Esses talentos são oportunidades da mente humana crescer e produzir frutos para si e para o mundo. Quem se abstém desta tarefa desvincula-se de sua missão existencial.
Podemos ter a certeza que o Senhor nos deu uma vida, “a cada um de acordo com a sua capacidade”. Ora, é esta vida, dom de Deus, fruto de um desígnio de amor sem fim, que cada um de nós deve responsavelmente cultivar e fazer frutificar em benefício para nosso irmãos e irmãs. Na leitura de provérbios a figura da mulher forte aparece como um exemplo de alguém que não se contenta em passar pela vida, mas vai tecendo o fio da existência com as pequenas fidelidades de cada dia. O importante da vida é observar o essencial, a beleza que escode-se por detrás das coisas que fazemos. A aparente estética das coisas passará, a verdadeira vida encontra-se no temor do Senhor.  Do mesmo modo, a segunda leitura chama-nos atenção para o fato que nos serão pedidas contas da vida, dom recebido de Deus. Daí, o conselho: “Não durmamos, como os outros, mas sejamos vigilantes e sóbrios”. São Gregório diz que devemos considerar o que temos recebido para empregá-lo bem. Que não exista nenhum cuidado terreno que nos impeça a vida espiritual, para que não venha a acontecer que, escondendo o talento na terra, provoque-se a ira do Senhor dos talentos.  
O mundo moderno, com todo sua técnica, pensa que a existência material é seu modo absoluto de ser. Fechados em si mesmos, os homens pensam que podem ser felizes construindo a vida de seu próprio modo, dando os parâmetros do seu agir. Esta é a grande tentação pós-moderna! Que grande Ilusão! A vida é dom de Deus e somente nos faz felizes se dela fizermos um diálogo amoroso com o Senhor, autor e doador de nosso ser. Mais que talentos na vida, o Senhor nos concedeu a própria vida como um precioso talento. Desenvolvê-lo, ser feliz e buscar não a nossa própria satisfação, não nossa própria medida, não nosso próprio caminho, mas fazer da existência uma busca amorosa e cheia de generosidade da vontade de Deus, isso sim realiza o ser humano porque mais que tenha coisas e poder a vida somente é bela se é cheia de sentidos que transcendem os bens materiais. O mundo dos ricos já demostra que ter nunca é sinal de felicidade. Muitas pessoas que possuem bens, títulos, aplausos, também comentem suicídio. Ser feliz é encontrar sentidos transcendentais, divinos para viver. Eis! Somente seremos felizes e maduros quando tivermos a capacidade de arriscar verdadeiramente nos perder, nos deixar para nos encontrar no Senhor, alicerce e fonte de nossa vida. Eis o verdadeiro investimento!
Infelizmente, a dinâmica do mundo hodierno, pagão e ateu, não nos ajuda nessa direção. Há distração demais, novidade demais, produto demais a ser consumido; há preocupação demais com uma felicidade compreendida como satisfação de nossos desejos, carências e vontades. Há consciência de menos de que a vida é dom e serviço, doação e abertura para o infinito; há percepção de menos de que aqui estamos de passagem e de que lá, junto ao Senhor, é que permaneceremos para sempre. Atolamo-nos de tal modo nos afazeres da vida, no corre-corre de nossas atividades, no esforço por satisfazer nossas vontades, na busca de nossa auto-afirmação, que perdemos a capacidade de compreender realmente que somos passageiros e viajantes numa existência breve e fugaz que somente valerá a pena se vivida na verdade, se for compreendida como abertura para o Senhor e se por amor a ele, for abertura generosa e servidora para os outros.
A advertência do Apóstolo Paulo deve nos conduzir nesta meditação: “Vós, meus irmãos, não estais nas trevas, de modo que esse dia vos surpreenda como um ladrão. Todos vós sois filhos da luz e filhos do dia”. Vivamos da Luz. O vaticano II dizia Lumen gentium Christis - Cristo, Luz dos povos. Viver na luz, viver no dia é viver na perspectiva de Cristo Jesus, é valorizar o que ele valoriza e desprezar o que ele despreza. Filhos da luz, filhos do dia – eis o que deveríamos ser! Mas, com tanta frequência nossa mente e nosso coração, nossos pensamentos e nossos afetos encontram-se entenebrecidos como o dos pagãos… Quão grave para nós, porque conhecemos a Luz, cremos no Dia que é o Cristo-Deus!  Será que ignoramos quem é o dono dos talentos? Será que desprezamos seus bens a ponto de tornamo-lo infrutíferos? Por acaso fazemos pouco caso do juízo divino? Consideremos, pois, o que é que temos recebido, e estejamos atentos para empregá-lo bem. O servo preguiçoso, quando o juiz pede contas das culpas, desenterra o talento. Existe, portanto, muitos que se afastam dos desejos e obras terrenas, por aviso do juiz, quando já entregues ao suplicio eterno. Vigiemos, portanto, antes que nos seja solicitada a conta do talento, para que, quando o juiz estiver ameaçando com castigo, sejamos libertos dele pelo lucro que tivermos alcançado.  
Peçamos ao bondoso Deus que não sejamos tragados pelo desanimo da tardança dos frutos, nem pelas tarefas puramente mudando sem dar a devida atenção às coisas do alto. Que Maria santíssima passe à frente de nossos empreendimentos para pensarmos e agirmos em vista do Reino de seu Filho Jesus Cristo. 

Pe. Fantico Borges, CM   

sábado, 11 de novembro de 2017

Homilia do Pe. Fantico Borges – XXXII domingo do tempo comum ano A

Homilia do Pe. Fantico Borges – XXXII domingo do tempo comum ano A

Uma Igreja previdente sempre está vigilante no amor!

Na Liturgia deste Domingo, XXXII do Tempo Comum, Deus nos fala através do autor bíblico que sábio é quem teme a Deus e se afasta do mal. Sabedoria é, ao mesmo tempo, dom de Deus, mas, também, resultado de uma busca humana. Sabedoria não é só sistematizar algum conteúdo científico ou tirar nota dez em determinadas áreas do conhecimento e, às vezes, tirar zero na convivência com as pessoas, na solidariedade, no amor a Deus e ao próximo, etc. Sabedoria é sobressair-se bem diante das questões fundamentais de nossa vida. Por isso, sabedoria e prudência caminham juntas sempre. São Gregório de Nazianzeno ensinando em sua catequese dizia que “as lâmpadas acesas são figuras daquela procissão de tochas com que, quais radiantes almas virgens, não adormecidas pela preguiça ou indolência, sairemos ao encontro de Cristo, o esposo, com as radiantes lâmpadas da fé, a fim de que não se apresente de improviso, sem que saibamos, aquele cuja vinda esperamos, e nós, desprovidos de combustível e de azeite, carecendo de boas obras, sejamos excluídos do tálamo nupcial” (Gregório Nazianzeno, Sermão da festividade do Batismo, 40,46).
A prudência, a vigilância, o estar de prontidão são figuras de como devemos esperar o esposo. Como não sabemos a hora, nem o dia, alerta-nos São Pedro a sermos sóbrios e vigilantes porque o adversário está rodeando-nos para devorar aos que tiverem descuidados.
Na segunda leitura o Apóstolo Paulo esclarece aos tessalonicenses que, diante da morte de alguns membros da comunidade, ficavam em dúvida sobre a salvação em Cristo, pois viviam na expectativa de estarem todos vivos para o dia da vinda do Senhor. Paulo os anima, explicando-lhes que o cristão não pode ser, diante da morte, como os pagãos que não têm esperança, pois se cremos que Jesus ressuscitou, devemos, também, crer que os mortos ressuscitarão e estarão com o Senhor. A certeza que Paulo deseja incutir no coração da comunidade é que há uma unidade entre a Igreja peregrina, aquela que esperava a vinda eminente do Senhor, e os que já na glória participavam na morte da esperança escatológica de Cristo. Na segunda vinda do Senhor, nos encontraremos todos juntos: os vivos e os que já morreram.
No Evangelho Mateus trata do discurso escatológico de Jesus que descreve a conclusão do Reino na terra. Tudo é claramente orientado e exprime o insistente convite à perseverança e à vigilância: “Vigiai, portanto, porque não sabeis nem o dia nem a hora”. A parábola das dez virgens é uma alegoria das núpcias de Cristo com sua Igreja. Na Igreja, as virgens, isto é, os cristãos, caminham juntos ao encontro do senhor, recebem a mesma missão de Jesus: fazer o bem, amar, produzir frutos, boas obras. Mas, infelizmente, uns são bons, vigilantes, fiéis, sensatos; outros são maus, infiéis, insensatos, autossuficientes, centrados em si mesmos, se julgam sábios e esquecem o principal: as boas obras. Para estes, fecham-se as portas. No caminho da vida, achavam que os outros poderiam substituí-los, responder por eles, querem aproveitar o azeite (santidade) dos outros e, por isso, improvisam o encontro. Iniciaram a caminhada de fé, mas não se mantiveram alertas.
Aquela triste e miserável cena será dramática: “estará presente aquele que, ao se ouvir a sinal, exigirá que saiam ao seu encontro. Então todas as almas prudentes lhe sairão ao encontro com uma luz radiante e com superabundante provisão de azeite; as almas restantes, muito conturbadas, pedirão inoportunamente azeite àquelas que estão bem abastecidas. Porém, o esposo entrará apressadamente e as prudentes entrarão juntamente com ele; porém às imprudentes que empregaram o tempo em que deveriam entrar no preparo de suas lâmpadas, lhes será  proibido o ingresso e se lamentarão aos gritos, compreendendo, demasiado tarde, o prejuízo que acarretaram com sua negligência e sua indolência” (Gregório Nazianzeno, Sermão da festividade do Batismo, 40,46). A porta lhes será fechada e por mais que supliquem não se abrirá.
O momento da vinda de Jesus, o noivo, no fim dos tempos, é desconhecido (morte, juízo final). É preciso que as virgens, isto é, as comunidades cristãs, estejam abastecidas do combustível das boas obras, preparadas, para o encontro com o Senhor, mediante a prática da justiça (o azeite) e dos valores do Reino. Quem negligenciar esta vigilância, achando ter todo tempo para encontrar o azeite da lamparina, pode-se dar conta de ser tarde demais. Não imiteis tampouco aqueles que recusaram participar das bodas que o bom pai preparou para magnífico esposo, apresentando como desculpa, embora acabe de casar-se, seja o campo recentemente comprado, seja a junta de bois mal-adquirida: privando-se deste modo de bens maiores pelo solicitude de coisas insignificantes e fúteis. Diz São Cirilo de Alexandria que “como as insensatas não trouxeram nada, suas almas começam a esvaecer-se e como apagar-se e a serem levadas até um delírio, pensando que terão compaixão delas graças à virtude dos outros” (São Cirilo de Alexandria, Fragmentos sobre o Evangelho de São Mateus, 280). A virtude de cada um, a muito custo, basta para salvação da sua alma, porque até aqueles que são sábios cometem transgressões de muitas maneiras.    
A comunidade sem óleo vive no vazio, no escuro, é uma comunidade estéril. Mas, qual é a raiz da esterilidade? A ausência de relação intensa e contínua com Deus. É o desconhecimento do Espírito Santo, cujo primeiro fruto é a caridade. A oração, a intimidade com Deus mantém aceso o amor. Quem ama não esquece da pessoa amada. Há esquecimentos que não são falta de memória, mas de amor: “Quem não ama carrega dentro de si um germe homicida” (1Jo 3, 15).
O convite final desta liturgia consiste em estarmos de prontidão, pois o augustíssimo noivo, excelso Senhor e Salvador vem ao nosso encontro, e quem estiver com a lâmpada acesa ingressará no seu reinado. Oxalá que também nós nos façamos partícipes de tais mistérios de amor e nupcialidade de Jesus Cristo.

Pe. Fantico Borges, CM

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Espiritualidade para casais


Espiritualidade para casais 


E a família, como vai? FAMÍLIA, COMUNHÃO DE PESSOAS.
Muito se fala da crise da família. Nos últimos tempos, no entanto, pudemos ver sinais na linha de  sua revalorização. Ela  continua sendo, apesar de todas as  transformações, o espaço primeiro e privilegiado de personalização e socialização, espaço de auto-realização, comunicação, lazer e afeto. Quando alguém não vive em família, essa lacuna se fará sentir para sempre, impedindo o amadurecimento  pessoal de  que se viu privado de casa, pai, mãe, tendo também sérias influências no ambiente externo. Disto estão convencidos psicólogos, assistentes sociais, sociólogos e educadores.  Na família acontecem as  primeiras experiências da vida, que tanta importância têm na configuração da maneira pessoal de se situar no mundo. Tudo o que acontece depois, na idade adulta servirá para modificar ou enriquecer essas experiências fundamentais. Quando elas forem dolorosas e negativas ocasionam danos que dificilmente podem ser superados (cf.  Pedro José Gómez Serrano,  La família, escuela de liberación, justicia ey solidariedad, in Sal Terrae 91 (2003), p 373ss)
A família não pode ser uma camisa-de-força. Em certas configurações de família do passado, marcadas pela supremacia masculina, em tempos em que  unidade familiar era mais do que tudo uma unidade de trabalho, nem sempre as pessoas eram respeitadas, de modo especial as mulheres e as crianças.  Filmes e livros não se cansam de mostrar os malefícios de uma certa família do passado.  Certamente, ela não pode se transformar, hoje, numa espécie de ninho quente  onde seus membros vivem uma espécie de célula “gostosa”, distante dos desafios do mundo. Uma tal concepção seria completamente danosa para os seus membros e para a sociedade.  Por vezes, tem-se a impressão de que cristãos das classes remediadas  vivem um familismo sem sentido e sem amanhã. A família é responsável pela transformação do mundo.
Na esteira do personalismo de  Emanuel Mounier, João Paulo II, ao descrever a família,  fala de uma comunhão de pessoas. “A família, fundada e vivificada pelo amor, é uma comunidade de pessoas, do homem e da mulher, dos pais e dos filhos, e dos parentes. A sua primeira tarefa é a de viver fielmente a  realidade da comunhão num constante empenho por fazer crescer uma autêntica comunidade de pessoas. O princípio interior, a força permanente e a meta última de tal dever é o amor: como, sem o amor a família não é uma comunidade de pessoas, assim, sem o amor, a família não pode viver, crescer e aperfeiçoar-se como comunidade de pessoas”  ( Familiares consortio, n. 18).
A família satisfaz  a necessidade básica de conhecimento, intimidade e de colaboração do ser humano e de sua libertação da solidão e do medo diante do futuro. Em seu seio há a oportunidade de ser desenvolvido o melhor que alguém carrega em si, de fazer uma integração de sua complexa personalidade e de sempre melhorar sua condição espiritual.
A dupla orientação na direção da liberdade e solidariedade, da unidade e da distinção exigem relacionamentos novos.  É indispensável relacionar-se, reconhecendo o valor pessoal, pois do contrário somos ilhas isoladas. No seio da família, âmbito de relacionamentos, experimenta-se a alegria de uns pertencerem aos outros. Assim, se deixa a rede de individualismo e se vive a comunhão solidária.  Benito Goya  afirma:  “O lar se converte em espaço de comunhão de pessoas adultas e estabelece entre os cônjuges um estilo existencial atraente e construtivo, que favorece o espírito de doação, de apoio mútuo e de compromisso em projetos comuns. Esta harmonia entre os esposos constitui uma base sólida para que também as relações filiais sejam gratificantes”  (La nueva família. Una espiritualidad de comunión, in  Revista de Espíritualidad (59) (2000) p. 48).
A família cristã  é aquela em que pais e filhos procuram configurar os relacionamentos interpessoais no lar a partir de atitudes e valores propostos pelo Evangelho, aquela que é construída e constituída sobre a fé em Cristo Jesus. No seu fundamento está o amor do casal que supõe as condições normais e as exigências para inauguração de qualquer vida conjugal: amor, responsabilidade, comunidade de vida. Ela reveste-se, no entanto, de diferente iluminação. Seus membros são de Cristo e querem ser mais dele. Morreram a si mesmos pelo Batismo e vivem numa célula de Igreja na Igreja. É por tudo isso, que o matrimônio é sinal do mistério nupcial de Cristo com a Igreja que se entrega ao amor do Pai na unidade do Espírito Santo. 
O Papa Paulo VI chamava a família cristã de Igreja doméstica, lugar onde se aprende o amor a Deus, a conviver e os valores cristãs.  O texto-base da Campanha da Fraternidade de 1994, rezava:  “A expressão Igreja doméstica designa a realidade mais profunda do casal e da família e se tornou expressão muito frequente em documentos recentes do Magistério para caracterizar a identidade mais profunda da família cristã. A exemplo da Igreja, ela é chamada a ser santuário da vida, que acolhe, vive, celebra e anuncia a Palavra de Deus. É ainda santuário onde se edifica a santidade e a partir de onde a Igreja e o mundo podem ser santificados. Lá se celebra e se anuncia a Palavra, se vive a vivência da reconciliação pelo perdão mútuo. Destarte, a família, através das quatro facetas do amor humano reproduz as quatro experiências de vida da própria Igreja: experiência de Deus como Pai, experiência de  Cristo como irmão, experiência de filhos em, com e pelo Filho, experiência de Cristo como esposo da Igreja” ( Campanha da Fraternidade/ 1994, n. 176).
Ninguém é coisa no seio das famílias, todos possuem sua identidade. Pessoas se encontram com pessoas. Pais, filhos, avós, esposos, todos procuram viver relacionamentos fraternos no reconhecimento do diferente sem indiferença. Ali vidas se interpenetram, ou seja, cultivam a inteligência, fortalecem a vontade e nutrem afetos. E essa célula se irradia para fora como matriz da sociedade. Nada de familismo, nada de famílias guetos, mas comunidades vigorosas que não se deixam enredar pelo consumismo, pelo hedonismo e pelo relativismo. Essas famílias assim solidificadas poderão fazer de sorte que as novas gerações não sejam joguetes do acaso e de uma sociedade sem sentido.
Mais do que nunca está em jogo a identidade de comunidade cristã. A mídia bombardeia com informações incompletas as consciências ainda em formação dos nossos jovens. Priva-lhes o acesso a verdade por meio de ilusões novelescas, manobrada diabolicamente para vender uma cultura relativista e pouco humanizada, onde a família não garante segurança, mas apenas consiste num espaço de possessivos domínio do mais forte.     

Construamos nossas famílias e pastorais moldados na sociedade do amor e da paz, conscientes que, a grande contribuição do cristianismo para pós-modernidade é exatamente a fidelidade ao mistério de Cristo, sempre atual nas pessoas, que tomando sua cruz sinceramente não se cansam de afirmar: Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida!
Perguntas:
1.      Na família acontecem as  primeiras experiências da vida, que tanta importância tem na configuração da maneira pessoal de se situar no mundo. Como você ver essa desvalorização da experiência familiar no desenvolvimento humano-cristão?
2.      Nada de familismo, nada de famílias guetos, mas comunidades vigorosas que não se deixam enredar pelo consumismo, comunidade familiar onde reine comunhão. Como contribuir para isso acontecer em sua casa? 

Pe. Fantico Borges, CM

sábado, 4 de novembro de 2017

Homília do Pe. Fantico Borges, CM – Solenidade de todos os Santos.

Homília do Pe. Fantico Borges, CM – Solenidade de todos os Santos.

Todo batizado é chamado a santidade!

Para que louvar os santos? Para que glorifica-los? Para que, enfim, esta solenidade? Que lhes importam as honras terrenas, a eles que segundo a promessa do Filho, o mesmo Pai celeste glorifica? De que lhes servem nossos elogios? Os santos não precisam de nossas homenagens, nem lhes vale nossa devoção. Se veneramos os Santos, sem dúvida nenhuma o interesse é nosso, não deles. Ao recordar os Santos, sinto um desejo profundo de ser santo. Acende em mim uma vontade de estar lá com eles!
A celebração de Hoje faz memória aos irmãos e irmãs que já estão na Igreja Celeste e intercedem por nós. Afirma São Bernardo de Claraval que “o desejo que sua lembrança mais estimula e incita é o de gozarmos de sua tão amável companhia e de merecermos ser concidadãos e comensais dos espíritos bem-aventurados, de unir-nos ao grupo dos patriarcas, às fileiras dos profetas, ao senado dos apóstolos, ao numeroso exército dos mártires, ao grêmio dos confessores, aos coros das virgens, de associar-nos, enfim, à comunhão de todos os santos e com todos nos alegrarmos” (São Bernardo, Sermões, In liturgia do Oficio das leituras da solenidade de todos os Santos).
A humanidade geme e chora até que se manifestem os filhos santos de Deus! A assembleia dos primogênitos aguarda ansiosamente a manifestação desta raça santa, deste povo sacerdotal, e nós parecemos indiferentes! Os santos desejam-nos e não fazemos caso; os justos esperam-nos e esquivamo-nos. Amimemo-nos para realizar já aqui a cidade celeste que espera por nós! Para ela caminhamos segundo os passos dos santos que nos precederam. Confiantes que não estamos sós, que caminham conosco milhões de milhões de santos e santas que lavaram e alvejaram suas vestes no sangue do cordeiro; irmãos e irmãs que vencendo as tribulações e foram dignos de participar das núpcias de Cristo.  
Muitas vezes temos a tentação de pensar que a santidade não é coisa acessível, que ser santo é apenas para figuras escolhidas, pessoas excepcionais. Essa compreensão faz parte dos equívocos de confundir a vida de santidade como uma missão particular dos consagrados à virgindade ou aos ministros sagrados do altar. Ser santo, ensina o Concílio Vaticano II, é missão comum a todo batizado. Por seu desígnio salvador, nós fomos consagrados no momento do nosso batismo e nos aproximamos da montanha da santidade. O 5º capítulo da Lumen Gentium ,chama todos os batizados a viver a vocação comum á santidade.  A partir daquele momento batismal, a santidade para nós pode ser descrita como um processo no qual confluem a graça de Deus e a generosa correspondência humana. Uma novidade do Concílio Vaticano II foi colocar a santidade comum a todo cristão como meta para qual tende toda a vida do cristianismo. Por isso, ser santo pressupõe um processo de luta e conflito pelo qual passará quem for fiel a vocação à santidade. Esse processo tem lugar uma noite escura, como falava são João da Cruz, que tende a nos purificar por meio da Kenosis constante. A busca de assemelharmos a imagem daquele que é totalmente Santo e santifica o próprio ser da criatura, exigirá de cada um a superação das paixões, desejos e vontades. Em outras palavras, para chegar a purificação temos que subir ao monte Carmelo e travar nossa luta espiritual contras as forças de Baal (Baal entendido como o mal, deus pagão).
A liturgia de hoje nos amina a buscar as realidades celestes. Tenhamos gosto pelas coisas do alto. Desejemos Aquele que nos deseja: Jesus Cristo, o qual está sentado junto do Pai. Apresentemo-nos ao encontro daquele que nos aguarda de braços abertos. Ensina São Bernardo que devemos cobiçar a santidade dos santos. “Seja-nos um incentivo não só a companhia dos santos, mas também a sua felicidade. Cobicemos com fervoroso empenho também a glória daqueles cuja presença desejamos. Não é má esta ambição, nem de nenhum modo é perigosa a paixão pela glória deles” (São Bernardo, Sermões, In liturgia do Oficio das leituras da solenidade de todos os Santos).
Esta busca de ser santo é alimentada pelo desejo de ver Deus, pois ser santo é tão natural em nós quanto a vontade de comer e beber. Por mais avesso que seja alguém a busca de Deus, ele sempre busca fora de si um sentido para viver. Sem transcendência ninguém vive. Por isso dizia Santo Agostinho: “Não pode existir alguém que não deseje ser feliz. Mas, oxalá os homens que tão vivamente desejam a recompensa não fugissem dos trabalhos que conduzem a ela!” Como se pode observar, a serpente astuta que aparece no livro do Gênesis, enganando os nossos primeiros pais, não estava tão equivocada: podemos ser como deuses, ou seja, podemos ser divinizados pela graça de Deus e parecer-nos a ele já aqui nesta terra e depois, eternamente, no céu. O erro da serpente não estava nesta afirmação – sereis como deuses – mas no método para alcançar esse objetivo. A serpente demoníaca, propôs o orgulho e a desobediência para alcançar a divinização. Nada mais contraditório! O caminho é justamente outro: a humildade e a obediência acompanhadas da mais nobre de todas as virtudes, a caridade e isso só alcançamos com muito trabalho e dedicação. Não esqueçamos de que antes de contemplarmos o Cristo da glória, nós o veremos coroado de espinhos. A glória dos santos é fruto de uma luta constante, feitas de pequenas vitórias que vão se somando ao longo da vida.
Santidade! Esse é o segredo que o cristão deve ter para aproximar muitas pessoas de Deus. E ser santo não é não pecar, mas lutar para não pecar. A santidade não uma virtude os fortes, mas dos humildes. Porém, não confundamos a santidade como uma coisa esquisita, rara, estranha. O santo come, trabalha, saí com os amigos, vai à praia. Na verdade, os santos são pessoas verdadeiramente normais porque a vivência das virtudes humanas (prudência, justiça, fortaleza, temperança etc.) e sobrenaturais (fé, esperança e caridade) vai não somente divinizá-los, mas também, humanizá-los cada vez mais.
Hoje, num mundo de tantas contradições, ser santo é estar inseridos na vida real da sociedade. É preciso ser santo lá onde às vezes, o padre não entra, isto é, na minha casa, no meu condomínio, no meu trabalho, na minha escola, na minha academia, na minha associação politica, no fórum de justiça, enfim, em todas as camadas da vida, ou seja, onde o protagonismo dos leigos é imperativo para transformar as estruturas deste mundo. 


Pe. Fantico Borges, CM 

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

HOMÍLIA DO PE. FANTICO BORGES - MISSA DOS FIÉIS DEFUNTOS

HOMÍLIA DO PE. FANTICO BORGES  -  MISSA DOS FIÉIS DEFUNTOS

Nascidos para a vida eterna em Cristo!
O que celebramos hoje não é a morte, mas a vida eterna plenamente realizada para nossos parentes, amigos e benfeitores que já partiram para morada de Deus. O que se afirma nesta liturgia é a doutrina da igreja, na qual se proclama a tendência escatológica da comunidade cristã, que começa aqui na terra e culmina no céu. O magistério do Concílio Vaticano II ensina que antes, da vinda do Senhor os fiéis vivem em três grupos distintos: os que ainda peregrinam nesta terra, os que se purificam depois da morte (com alusão a doutrina do purgatório) e os que já estão glorificados na visão beatífica. Há, todavia, entre os três grupos, comunicação de bens espirituais, pois todos vivem a mesma vida da graça, unidos entre si a Cristo. Mas os do céu, por estarem mais intimamente unidos a Cristo, têm também maior interesse por nós ainda peregrinos. Assim entre nós cristãos a prática de rezar pelos mortos é a compreensão de que a morte física não significa o fim, a interrupção do diálogo com a igreja celeste e aquela que “espera” o juízo final.   
O motivo desta celebração é a firme certeza que a morte não constitui o aniquilamento da vida. Ao contrário, é a partir da morte física que experimentamos a vida em sua plenitude. O ser humano, com a morte se abre ao infinito, na ilimitada onipresença do Espírito de Deus.
Para nós cristãos, a morte não é um acidente brutal, imprevisto, ou vingança do destino. Ela é, na verdade, uma desagregação dolorosa do físico, mas que conduz a uma nova etapa da vida – muito melhor,  sem dor e sofrimento. A morte é neste sentido, como afirmava Santo Ambrósio, um remédio que Deus colocou no mundo para sanar e abrandar o vale de lagrima que se tornou, por causa do pecado, a vida do homem na terra. A morte é o desabrochamento verdadeiro da vida, depois de uma existência terrena, marcada pela dor e a tentação. Ela consiste no ato mais pessoal da existência humana. A morte é uma realidade inevitável de nossa condição mortal, condição, essa, assumida por Jesus Cristo. Como nos diz nossa fé: “Se no batismo fomos sepultados com Cristo para vivermos na fé, certos de que com Cristo Senhor haveremos de ressuscitar, passando para o Reino de paz e de felicidade na Companhia dos Santos”. Como cantamos no prefácio da missa aos fiéis defunto: “em Cristo brilhou para nós a esperança da feliz ressurreição. E se a certeza da morte, ainda nos entristece, a promessa da imortalidade nos consola”.
Quem duvidaria que a morte é uma companheira inseparável? A morte consiste numa realidade tão presente em nós quanto a vida. Ela não é uma vingativa ação de Deus, nem uma frustrada interrupção de nossos sonhos. Na verdade, a morte constitui em nosso corpo físico algo inevitável, porque para viver morremos todos os dias. Mas o livro da Sabedoria orienta precisamente o que consiste a morte na vida de um justo: “Sabeis meus irmãos que a vida dos justos está nas mãos de Deus. Nenhum tormento os atingirá...”(Sb3,1-3). Ora, se a vida do justo está nas mãos de Deus, a quem temer? O que temer? Agora, outra, é a sorte dos que não se colocam nãos mãos de Deus! A morte para quem não se comporta como justo, diante do Senhor, é um tormento, um fim trágico.   
Como dói e preocupa vê hoje, um mundo que se prepara para tudo, menos para o grande encontro com Deus. Para quem não se prepara com uma vida reta, justa e fiel diante de Deus e dos irmãos a morte pode significar um aniquilamento. Pensemos assim: para o encontro definitivo devemos escolher a melhor veste, banhar-nos com o melhor perfume! Qual é esse perfume e essa veste que devemos usar? São nossas boas obras em favor da vinda do Reino.
A nossa fé nós diz que fomos sepultados com Cristo para com ele ressuscitamos na glória. A atitude de Jesus ao encontrar-se com Maria, irmã de Lázaro, é exatamente essa: lembrá-la, naquele momento de dor e saudade, que aos crentes a vida não é tirada, mas transformada e quem acreditar verá a glória de Deus.  Para quem não crer o túmulo permanece fechado, contudo aos que creem a pedra que os impedia de viver é retirada. E se pode escutar a voz suave e terna de nossa Salvador: Vem para fora, vem para vida!
O banquete eucarístico que devotamente celebramos já é sinal antecipado dessa vida nova que nos espera após nossa partida deste mundo. O ato celebrativo que hoje realizamos é ato memorial e sacramental das promessas salvíficas. Memorial, pois lembra o evento pascal, e as palavras do próprio Jesus Cristo: “vou preparar-vos um lugar e quando estiver preparado, voltarei e os levarei, para que onde eu estiver estejais-vos também”. Sacramental, porque realiza, no aqui e agora de nossa existência, de forma antecipada, tudo aquilo que na outra vida resplandecerá em plenitude.  
Eu posso imaginar o sentimento de saudade que invade o coração daqueles que perderam seus parentes. Contudo lembra São Paulo que “os sofrimentos da vida presente não tem comparação alguma com a glória que se manifestará em nós” (Rm 8,18).
Ó Deus, escutai com bondade as nossas preces e aumentai a nossa fé no Cristo ressuscitado, para que seja mais viva a nossa esperança na ressurreição dos mortos. Amém!

Pe. Fantico Borges, CM




sábado, 28 de outubro de 2017

Homilia do Pe. Fantico Borges, CM – XXX Domingo do Tempo Comum – Ano A

Homilia do Pe. Fantico Borges, CM – XXX Domingo do Tempo Comum – Ano A

Imitemos em tudo a Cristo
O verdadeiro cristão é aquele que em tudo imita a Cristo. O que fez Cristo deve fazer também o cristão. O tema da liturgia da palavra de hoje é o sentido profundo do amor que Jesus viveu e testemunhou. O amor é a essência de Deus, e exprime a existência em Deus. “Deus é amor.”  O que ensinou Jesus foi fazer em tudo a vontade de Deus-Pai. Em suma seu ensinamento era esse, e nisso se resumia a lei: amor a Deus e ao próximo. Diz São Gregório Magno que essa lei é a caridade: “O que melhor define a lei de Cristo é a caridade e esta caridade a praticamos de verdade quando toleramos por amor as cargas dos irmãos” (São Gregório magno, Tratado Morais sobre o Livro de Jó 10,7).
Essa máxima de Cristo que resume toda lei e os profetas, mesmo sendo dois preceitos, abrange muitos aspectos, pois começa pelo amor a Deus e ao próximo, mas se estende por inúmeros atos de caridade. Essa multiplicidade de facetas é enumerada por São Paulo no belíssimo hino à caridade: “O amor é paciente, afável, não é invejoso, não é vaidoso, não é ambicioso, nem egoísta, não guarda rancor, não se alegra com a injustiça, mas se regozija com a verdade” (1Cor 13, 1-13). Ensina São Gregório Magno que “o amor é paciente, porque tolera com serenidade os males que lhe são infligidos. É afável porque devolve generosamente o bem pelo mal” (São Gregório magno, Tratado Morais sobre o Livro de Jó 10,7).      
Estar na nossa raiz apostólica a união fraterna, a comunhão de amor. Já nas primeiras comunidades cristãs se dizia que os irmãos tinham tudo em comum. Essa demonstração de amor confundia os de fora que diziam: “vejam como eles se amam!” Ensina Tertuliano que é justamente essa demonstração de grande amor entre os cristãos que atraiu a aversão de alguns. “vede como eles estão dispostos a morrer uns pelos outros, enquanto que eles estão mais dispostos a matarem-se entre si” (Tertuliano, Apologeticum, 39). Nós nos toleramos por amor a Cristo, por fidelidade ao mandato cristão, e porque pelo batismo somos incorporados na família de Jesus, pela obediência à vontade de Deus. Somos verdadeiramente irmãos em Cristo, marcados por um selo espiritual mais forte que os laços de sangue, mais duráveis que as estrelas, infinitamente mais penetrante que qualquer vinculação humana. Somos irmãos porque um é nosso Deus, um é nosso Pai, um é nosso Senhor. “Com quanta maior dignidade se chamam e são verdadeiramente irmãos os que reconhecem a um único Deus como Pai, os que beberam de um mesmo Espírito de santidade, que esperam uma mesma herança, que nasceram de um mesmo ventre de cega ignorância?” (Tertuliano, Apologeticum, 39).
Mas porque acontece tanta falta de amor neste mundo, iminentemente, cristão, do ocidente? Talvez seja porque fizemos pouco caso da nova lei do amor impressa na vida e na pessoa de Jesus. Como ser seu seguidor e não seguir os seus passos? Jesus não é um ideal metafísico, nem um conceito abstrato, Ele é uma pessoa, Ele produz um encontro, neste encontro exige-se uma decisão. Ensina São Cipriano de Cartago: “Imitemos a Cristo. O nome de cristão pressupõe a justiça, a bondade, a integridade. É cristão aquele que em tudo imita a Cristo e lhe segue; aquele que é santo, inocente, incontaminado, puro. É cristão aquele em cujo coração não há lugar para malícia, aquele em cujo peito somente há piedade e a bondade tem carta de cidadania” (Autor desconhecido, Sermão atribuído a São Cipriano). Cristão é aquele que vive a vida de Cristo, quem em tudo segue os passos de Jesus, ou seja, aquele totalmente entregue a misericórdia.
Quem ama a Deus, ama o próximo. O amor do cristão é aquele amor gratuito, que se entrega às necessidades alheia. Somente o amor de Deus no coração explica ações como essas: “o rei S. Luís visitava e cuidava dos doentes com tanto desvelo como se fosse sua própria obrigação. (…) S. Gregório muito folgava de dar agasalho aos peregrinos, a exemplo do patriarca Abraão, e, como ele, recebeu um dia o Rei da glória na forma de um peregrino. Tobias exercia a caridade, sepultando os mortos. Santa Isabel, sendo uma augusta princesa, achava a sua alegria em humilhar-se a si mesma. Santa Catarina de Gênova, tendo perdido o seu marido, dedicou-se ao serviço num hospital.” (S. Francisco de Sales, Filotéia ou Introdução à vida devota, III, 1).
Muitos pensam que serão mais felizes quando possuírem mais coisas, quando forem mais admirados…, e se esquecem de que só necessitamos de “um coração enamorado”. O nosso coração foi feito por Deus para alcançar a sua plenitude, a sua completa realização, nos bens eternos, no seu Criador!
As coisas criadas são para nos levar a Deus, pois um amor perfeito busca sempre estar com mais perfeito. Ensina Santa Teresa: “Quando é perfeito, o amor tem esta força: leva-nos a esquecer o nosso próprio contentamento para contentar Aquele a quem amamos. E verdadeiramente é assim, porque, ainda que sejam grandíssimos os trabalhos, se nos afiguram doces quando percebemos que contentamos a Deus” (Fundações, 5,10).

Pe. Fantico Borges, CM


sábado, 21 de outubro de 2017

Homilia do Pe. Fantico Borges, CM– XXIX Domingo do Tempo Comum – Ano A


Homilia do Pe. Fantico Borges, CM– XXIX Domingo do Tempo Comum – Ano A

Imago Dei homo sapiens, homo Sanctus.

Na liturgia deste domingo Deus nos chama a resplandecer como Imago Dei, ou seja, Imagem como ele nos criou. Queres buscar a imagem de Deus em ti? Olha para quem te criou, vê de onde foste gerado, de que raiz nasceste? Não busque fora do artífice divino uma imagem que não és.  Com essas indagações podemos entender o sentido do Evangelho de hoje.
“Mestre, sabemos que és verdadeiro e ensinas o caminho de Deus em toda a verdade, sem te preocupares com ninguém... é licito pagar o tributo a César? (Mt 22,16-17). Os homens que falam são aduladores! E Jesus não se deixa conquistar pela duplicidade da linguagem, nem pela malícia daqueles homens. A resposta do Senhor não é maliciosa, nem ofensiva, mas questionadora. Ele quer nos levar a uma adesão livre da vontade e da consciência. O desejo de Jesus é maiêutico, ou seja, deseja suscitar em nos respostas fruto da maturidade espiritual.
Diz Santo Agostinho que só Deus pode fazer uma imagem de si mesmo. O artesão pode fazer uma imagem de deus, mas nunca do Deus vivo e verdadeiro. “Não fez outro distinto de ti mesmo, mas que te fez a ti a sua imagem. Adorando, pois, a imagem de homem que o artífice fez, profana a imagem de Deus, que Deus imprimiu em ti mesmo” (Santo Agostinho, Sermoes 113A,7).  
Num mundo de privilégios, poder e honra, muitas vezes impera a falsidade e o cinismo. A atitude dos adversários de Jesus ilustra muito bem essa situação. Os elogios iniciais escondiam uma falta de sinceridade dos bajuladores, que, com linguagem frívola, iludem os corações fracos. É verdade que, às vezes, em nós brota um discípulo de fariseu. Afirmava uma sábio homem “que cada um de nós leva dentro um ‘pequeno fariseu’”. E tem razão! Frequentemente, podemos procurar parecer o que não somos para agradar, para subir na vida, para alcançar uma posição social. Usam-se disfarces, dissimulações para esconder o rosto oculto da podridão.  Desta maneira, se pode passar a vida com um disfarce, ocultando assim o que há de mais belo em nós, e ou não permitindo que as coisas sejam curadas porque não mostramos ao médico divino as nossas reais feridas.
Deus sabe quem somos, nos conhece antes de sermos. Diz o salmista que no seu livro já estão, os nossos dias, todos anotados (Sl 139,16). Deus realmente não gosta da falta de sinceridade. “Os discípulos de Cristo “revestiram-se do homem novo, criado segundo Deus, na justiça e santidade da verdade” (Ef 4,24). “Livres da mentira” (Ef 4,25), devem “rejeitar toda maldade, todas as formas de hipocrisia, de inveja e maledicência”, confiados em Deus, que os ama assim como são. (1 Pd 2,1)” (Cat. 2475)
Explica um autor que “os romanos, na sua paixão pelo belo e pelo autêntico, admiravam as expressões artísticas mais perfeitas e genuínas, e não admitiam defeitos nas obras de arte. Por isso, quando um escultor falhava, procurava dissimular o defeito cobrindo a irregularidade com cera. E quando a estátua saía perfeita das suas mãos, dizia-se que estava completa, íntegra, autêntica, sine cera – “sem cera”. Daí deriva a expressão sincera” (R. Llano Cifuentes, Vidas sinceras). Devemos ser assim diante de Deus, “sem cera”, isto é, sinceros; é preciso que sejamos sinceros, bem sinceros: com o nosso confessor, com o diretor espiritual, com aquelas pessoas que tem como encargo saber aquilo que devem saber sobre nós para nos ajudar.
Por tudo que foi dito acima, o Evangelho de hoje torna-se tão rico para meditação de como vivemos e buscamos ser imagem de Deus. Daqui procede, irmãos, que Deus busque a sua imagem em nós. Isso foi o que recordou aqueles judeus que lhe apresentaram uma moeda. Quando lhe disseram: Senhor, é lícito pagar tributo a César?, sua primeira intenção era tentar-lhe; se dizia é licito, seria então acusado de defender a ocupação romana e a escravidão tributaria exigida pelo rei. Caso respondesse negativamente seria acusado de incitar uma revolta politica contra o Imperador Romano. Diz Santo Agostinho, “que Jesus conheceu que lhe tentavam, conheceu por assim dizer, a verdade para a falsidade e com poucas palavras deixou exposta a mentira procedente da boca dos mentirosos. Não emitiu sentença contra eles por sua boca, mas deixou que eles mesmos a emitissem contra si”  (Santo Agostinho, Sermoes 113A,7).
O Senhor Jesus Cristo ao enfrentar os inimigos demonstra como o cristão deve lutar contra o mal, pois o mundo busca satisfazer a si; Deus busca encontrar a vida divina escondida no coração desviado dos pecadores. O Senhor diz então aos Fariseus: “mostra-me a moeda do imposto! Trouxeram-lhe então a moeda. E Jesus disse: de quem é a figura e a inscrição desta moeda? Eles responderam: de César. Jesus então lhes disse: dai, pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.” (Mt 22, 19-21) Ensina-nos Santo Agostinho que “como César busca a sua imagem em sua moeda, assim Deus busca a sua imagem em tua alma. Dai a César, disse, o que é de César. O que César te pede? Sua imagem. O que Deus te pede? Sua Imagem. Porém, a do César está na moeda, a de Deus está em ti. Se alguma vez perdes uma moeda, choras porque perdeste a imagem de César; e não choras quando adoras um ídolo sabendo que fazes uma injúria à imagem de Deus que reside em ti?” (Santo Agostinho, Sermoes 113A,7-8).
Buscando os ídolos que se enfeitam de deuses distorcermos a imagem que temos de Deus, empobrecemos nossa real identidade, desconfiguramos nossa caráter fundamental, tornando-nos coisa e não homo sapiens, objeto e não criação divina. Ensina Gregório de Nissa que “a imagem não é verdadeira imagem senão na medida em que possui todos os atributos de seu arquétipo; deste ponto de vista ela não é mais imagem” (Gregório de Nissa, A criação do Homem,XI,3 ).
O que é o homem se não é sinal do seu criador? Afirma Orígenes que o pintor desta imagem é o Filho de Deus e que ele imprimiu uma carta divina em nossa constituição que nem o pecado pode rasgar. “Sua imagem pode se tornar feia pela negligência, mas mão apagada pela malícia. Pois a imagem de Deus permanece sempre em ti, mesmo quando tu mesmo sobreponhas à imagem do homem terreno. Esta imagem do homem terreno, que Deus não esboçou em ti, tu mesmo te vais pintando através das variadas escalas de tipos de malícia, como uma combinação de diversas cores” (Orígenes Sermões sobre o Genesis 13,4 ). Somente quando tiveres apagado em ti todas estas cores procedentes das fraudes da malícia, então resplandecerá em ti a imagem criada por Deus. “tens, pois, a carta de Deus em ti, e a carta do Espírito Santo. Mas se pecas, tu mesmo assinas o documento do pecado”   (Orígenes Sermões sobre o Genesis 13,4).
Fujamos, pois do pecado e não corramos para sentença de morte que a fraude conduz. Busquemos com atos divinos de amor a Imagem de Deus em nós. Uma dica salutar para isso é a confissão.  Gostaria de insistir num aspecto da sinceridade que é capital. Trata-se daquela sinceridade total que devemos ter no sacramento da confissão. Lá vamos para dizer as podridões, os pecados; para mostrar as feridas, as chagas, as coisas feias. Nenhum padre espera que cheguemos ao confessionário para dizer as nossas virtudes, as coisas boas que fizemos ou como somos pessoas notáveis. Não! Para isso não é o sacramento da confissão. Vamos confessar-nos para dizer os pecados, ser perdoados e ficar reconciliados com Deus e com sua Igreja. Quem tem vergonha de confessar seus pecados morre sem experimentar a alegria de sentir-se Imago Dei. Quem tem vergonha do pedado no empobrece seu ser. Melhor ainda se começarmos a falar daquelas coisas que nos parecem mais difíceis de dizer, as que nos causam maior vergonha. Deus nos livre de esconder por vergonha algum pecado, neste caso a nossa confissão seria inválida e nenhum pecado seria perdoado.

Pe. Fantico Borges, CM

Homilia do Pe. Fantico Borges – XXXIII Domingo do Tempo Comum – Ano A

Homilia do Pe. Fantico Borges – XXXIII Domingo do Tempo Comum – Ano A Trabalhai para sua santificação! Caríssimos irmãos e irmãs se apr...