sábado, 3 de março de 2018

Homilia do Pe. Fantico Borges CM – III Domingo da Quaresma – Ano B


Homilia do Pe. Fantico Borges CM – III Domingo da Quaresma – Ano B

Jesus quer purificar-nos!
A quaresma é um tempo de purificação, onde Deus nos convida a mudar de vida. Para isso, os mandamentos, a vivência moral da ética cristã.  Ensina São Leão Magno que  “A Quaresma é tempo de limpar e enfeitar a casa por dentro. Convém que vivamos sempre de modo sábio e santo, dirigindo nossa vontade e nossas ações para aquilo que sabemos agradar a Deus.”  Como acontece verdadeira e autêntica renovação se não se passa por uma corajosa revisão da própria vida moral e da própria vida litúrgica; com palavras mais simples, dos próprios costumes e da própria oração pessoal?
A liturgia do terceiro domingo nos apresenta o Decálogo, a lei do Antigo Israel que regia toda a vida social e religiosa do povo. Não pronunciarás o nome do Senhor Teu Deus em vão; lembra-te de santificar o dia de sábado; honra teu pai e tua mãe; não matarás; não cometerás adultério; não furtarás; não levantarás falso testemunho; não cobiçarás as coisas do teu próximo; não desejarás a mulher do teu próximo. Estes dez mandamentos formam a base da vida moral, antes do povo hebreu e depois do povo cristão. Não contém toda a lei; sua forma negativa (“não fazer”) indica que se trata de alguns limites que determina um âmbito moral, antes que descrevê-lo positivamente; dentro devem ser colocados “toda a lei e os profetas” e de maneira especial o mandamento do amor que os resume a todos (Mt 22,40). É precisamente este caráter “negativo” que assegura aos dez mandamentos sua perene e imutável atualidade.
No início, eles não são percebidos nem mesmo como lei, mas como evento: o povo entra na aliança com Deus e os mandamentos são um sinal de sua pertença ao Senhor; são a proclamação de seu caráter de povo eleito, diferente de todos, isto é, santo.
O Decálogo é uma escolha de vida que Deus propõe ao homem: Olha que hoje ponho diante de ti a vida com o bem, e a morte com o mal; observam seus mandamentos, suas leis e seus preceitos [...] para que vivas e te multipliques [...] se não obedecerdes e se te deixares seduzir eu te declaro neste dia: perecereis (Dt 30,15 ss). O Decálogo é para o homem, não contra ele; não quer amarrar ou limitar sua liberdade, mas antes soltá-la.
Os mandamentos estão colocados aí para que o homem tenha vida com Deus e com os outros homens. Jesus não expulsou do templo os vendedores e comerciantes porque estava querendo moralizar a religião, mas porque a religião já não mais servia para construir relações com o divino nem o humano. O templo, a Igreja na qual Jesus vai reconstruir em três dias é o seu corpo místico, no qual todos são chamados a entrar. Zelar pela casa de Deus aqui é em primeiro lugar zelar pela vida. Eis a nossa missão primordial: zelar pela vida de todos, sobretudo daqueles cuja vida corre perigo ou está ameaçada.
Quem não tem zelo pelas coisas de Deus e coloca outras coisas ou pessoas no lugar de Deus, desrespeita não apenas a Deus, mas ao próximo, pois quem não tem Deus e não O respeita dificilmente respeitará seus semelhantes. Por isso, não colocar nada e ninguém acima de Deus na vida não é apenas uma ato de fé, mas um gesto de respeito criatural.    
 Jesus deseja que tenhamos uma relação com Deus que ultrapasse a mera preceituação ritualistas e alcance o ápice da intimidade. Sua atitude no Evangelho de hoje mais que estimular a violência quer deixar claro que Deus não se agrada de cultos exteriores e sim que anela nossa adesão sincera. Segundo Santo Agostinho no Comentário aos salmos, Jesus age por meio da santa ira, movido pelo zelo das almas que encontro no templo de pedra um sinal da presença constante de Deus. O templo de Israel era apenas sinal escatológico do Cristo Templo vivo de Deus. " Em nível de imagem, o Senhor expulsa do templo aos que no templo buscavam seu próprio interesse, ou seja, os que iam ao templo para comprar e vender. Agora, se aquele templo era uma imagem, é evidente que também no corpo de Cristo - que é o verdadeiro templo no qual o outro era uma imagem - existe uma miscelânea de compradores e vendedores, isto é, gente que busca seu interesse, e não o de Jesus Cristo. E visto que os homens são açoitados pelos seus próprios pecados, o Senhor fez um açoite de cordas e expulsou do templos a todos os que buscavam seus interesses, e não o de Jesus Cristo." Jesus com esse gesto conclama a pureza de espírito que deve ter quem se aproxima de Cristo.    
O gesto ousado de Cristo não é apenas zelo de purificação do templo. As ofertas para os sacrifícios faziam girar muito dinheiro e provocavam abusos e exploração. “Tirai isso daqui! Não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio!” (Jo 2, 16). As relações do homem com Deus, e também para com o próximo, têm que ser orientadas pela retidão, pela sinceridade; pode acontecer que, no culto divino ou na observância de determinado preceito do Decálogo (os Dez Mandamentos) se preste maior atenção ao aspecto externo legalista, do que ao interno e, assim, poderá chegar-se, pouco ou muito, à profanação do templo, da religião. São João afirma que Jesus purificou o templo, expulsando dele os vendedores com as suas mercadorias, quando já estava próxima a “Páscoa dos Judeus”.
A Igreja, durante a quaresma, caminhando para a Páscoa, parece repetir o gesto de Jesus, convidando os cristãos à purificação do templo do seu coração para que possam prestar a Deus um culto mais purificado. Jesus falou de outro templo, infinitamente digno, “o Templo do Seu Corpo” (Jo 2, 21), ao qual fazia alusão quando dizia: “Destruí este Templo, e em três dias Eu o levantarei” (Jo 2,19). Assim, o Senhor identifica o Templo de Jerusalém com Seu próprio Corpo, e deste modo refere-se a uma das verdades mais profundas sobre Si mesmo: a Encarnação. Depois da Ascensão do Senhor aos Céus essa presença real e especialíssima de Deus, no meio dos homens, continua no sacramento da Eucaristia.
Como todo ato de renovação e purificação é um gesto de entrega, não se faz isso sem sacrifícios e dor.  Não é possível seguir o Senhor sem a Cruz. Carregar a cruz, aceitar a dor e as contrariedades que Deus permite para a nossa purificação, cumprir com esforço os deveres próprios, assumir voluntariamente a mortificação cristã é condição indispensável para seguir o Mestre. “Que seria de um Evangelho, de um cristianismo sem Cruz, sem dor, sem o sacrifício da dor?, perguntava-se o Papa Paulo VI. Seria um Evangelho, um cristianismo sem Redenção, sem Salvação, da qual temos necessidade absoluta. O Senhor salvou-nos por meio da Cruz; com sua morte, devolveu-nos a esperança, por meio da Cruz; com sua morte devolveu-nos a esperança o direito à Vida”. Diz São Leão Magno que seria um cristianismo desvirtuado que não serviria para alcançar o Céu, pois “o mundo não pode salvar-se senão por meio da Cruz de Cristo.”

Pe. Fantico Borges, CM



sábado, 24 de fevereiro de 2018

Homilia do Pe. Fantico Borges, CM – II Domingo da Quaresma – Ano B



Homilia do Pe. Fantico Borges, CM – II Domingo da Quaresma – Ano B

A cruz precede a glória!

Na liturgia deste domingo II da Quaresma Jesus transfigura-se diante dos Apóstolos Pedro, Tiago e João. A cena longe de ser triunfalismo deseja encoraja-los nas tribulações que deverão enfrentar na defesa da fé. A glória de Deus não seria alcançada sem cruz, mas a morte do mestre iria escandaliza-los. A humanidade quer chegar à felicidade, à plena realização, mas muitos não suportam os desafios e as tribulações; desejam a vitória, porém, sem esforço. Querem o céu, desejam o paraíso, mas sem sacrifícios e renúncias. A vida, porém, é repleta de desafios e quem não se esforça para superar não alcançará a vitória.
Quando Jesus anunciava na Galileia, na Samaria ou em Jerusalém, que o Reino de Deus havia chegado, e por meio de milagres, sinais e curas, demonstrava a predileção divina pelos mais simples, todos corriam ao seu encontro. Multidões queriam vê-lo. Curas, milagres, multiplicação de pães, ressuscitação de mortos, sermões emocionantes. Tudo perfeito! Mas quando o Senhor foi mostrando que a cruz precedia a glória; que quem quisesse segui-lo no caminho do Reino, precisava renunciar a si, tomar a cruz de cada dia, então muitos O abandonaram.     
A transfiguração entra na vida dos apóstolos como prefiguração que o horror da cruz não era o fim. O conhecido poema “pegadas na areia” relata a observação que uma pessoa fazia ao estar numa praia e perceber que nos momentos mais felizes da sua vida existiam duas pegadas na areia: as do Senhor e as suas. Deus estava presente nos momentos de felicidade. Mas… que decepção! Nos momentos de dificuldade, a mesma pessoa notava que só existia uma pegada na areia. Ao perguntar ao Senhor o porquê daquilo, Deus lhe respondeu que nos momentos mais difíceis Ele a segurava nos braços sem que ela mesma percebesse isso. Surpresa maior ainda: as pegadas eram do Senhor!
Na primeira leitura vemos como Deus não deseja sacrifício, mas a obediência humana aos preceitos divinos. Deus quer o nosso coração e não nosso dinheiro. Não deseja que façamos sacrifícios sobre-humanos. De que adianta andar quilômetros de joelhos numa procissão ou caminhar a pé até um santuário dias e dias, mas permanecer com rancor e ódio no coração? Será que agradará mais a Deus o dízimo de nossos bens do que a fidelidade aos preceitos divinos?   A entrega dos bens materiais são etapas de nossa abertura a Deus, mas não o fim. A finalidade de nossas vidas são os bens espirituais. O Senhor deseja possuir a pessoa total e não pedaços de si. Quem quiser salvar a sua vida, sozinho, vai perdê-la. O projeto de Jesus para nós é que confiemos plenamente no amor de Deus. O Cardeal Ratzinger (Papa Bento XVI) dizia em seu livro Introdução ao Cristianismo que fé é confiança e exige muita coragem para lançar-se nas mãos de Deus.  O Evangelho deste domingo nos relata a transfiguração do Senhor como sinal antecipado da graça da ressurreição.
Ao olharmos um pouco o contexto, observamos que Jesus tinha anunciado aos seus que era necessário que o Filho do homem padecesse muitas coisas, fosse rejeitado pelos anciãos, pelos príncipes dos sacerdotes e pelos escribas, que fosse levado à morte e ressuscitasse ao terceiro dia (Cf. Lc 9,22); por outro lado, alguns discípulos esperavam um messias davídico que vencesse pela força de um exército dominador o poder dos romanos, de cujo jugo desejava vê-se livres.
Tendo em conta tudo isso, podemos dizer que os discípulos encontravam-se bastante desnorteados e até mesmo desanimados. A transfiguração do Senhor foi um conforto. De fato, dizia São Leão Magno que “o fim principal da transfiguração foi desterrar das almas dos discípulos o escândalo da Cruz”; trata-se de um antegozo do céu no meio dos sofrimentos.
A prova pela qual passou Abraão – o pai de todos os crentes – foi dura e dramática (cf. 22, 1ss). Com que sentimento um pai tem ao sacrificar seu próprio filho? Não esqueçamos que Isaac era o filho da promessa. Quê dor! Um drama profundo! Muitas vezes, também nós passamos por provas espirituais difíceis. Pensamos que Deus está longe de nós. Os discípulos de Jesus têm uma sensação semelhante diante do anúncio da Paixão e do seguimento exigido por Jesus. Na chamada crise da Galileia os discípulos encontra-se entre a frustração de um messias não bélico e que minava o triunfalismo zelótico, e por outro lada exigia a renúncia da violência em nome do amor. Encontravam-se diante de um projeto que eles não tinham imaginado. E agora, alguns se perguntavam: vale a pena? Que tipo de Deus procuramos?
Os discípulos da transfiguração são os mesmos do Monte das Oliveiras, os da alegria são também os da agonia. É preciso acompanhar o Senhor em suas alegrias e em suas dores. As alegrias preparam-nos para o sofrimento e o sofrimento por e com Jesus dá-nos alegria. Os discípulos, que estavam desanimados diante do Mistério da Cruz, são consolados por Jesus na transfiguração e preparados para os acontecimentos vindouros, como, por exemplo, o terrível sofrimento que Ele padecerá no Getsêmani.
Nesta quaresma queremos refletir sobre o tipo de Deus que buscamos. O da glória sem a cruz? Ou da cruz sem a glória? Cruz sem glória é masoquismo, glória sem cruz é ilusão. Queremos um Jesus que conosco caminhe ajude-nos a levar nossa cruz cada dia. Queremos uma Igreja que nos oriente para o céu sem esquecer que o mundo é lugar de mistério trinitário. Porque uma igreja sem mundo produz um mundo sem Deus.

Pe. Fantico Borges, CM



domingo, 18 de fevereiro de 2018

Homilia do Pe. Fantico Borges para I semana da quaresma ano b.

Homilia do Pe. Fantico Borges para  I semana da quaresma ano b.

Fazei Penitência e Credes no Evangelho!

Neste tempo Deus nos chama a conversão pelo caminho dos exercícios quaresmais. As tentações e provas são meios de purificadores nesta jornada santificante. O Senhor faz conosco uma aliança, ou seja, um pacto de fidelidade. Estabelece por meio desta aliança o sinal da santificação. Colocando um arco no céu como manifestação da sua vontade Ele conclui sua verdade e manifesta sua vontade. Este sinal é mais plenamente manifesto, quando Cristo, em sua vitória sobre a tentação, vislumbra com seu batismo e combate contra satanás no deserto, mostrando a força da graça de Deus. N´Ele a misericórdia de Deus é plenamente apresentada.
Banhados em Cristo somos novas criaturas, mas esse banho regenerador precisa ser constantemente renovado pelos sinais sacramentais e pela vivência da caridade. Assim, mortos nas águas batismais em Cristo somos nova criatura na medida que lutamos com responsabilidade. A Igreja sinal da arca é o lugar onde encontramos a vida nova em Jesus. O batismo é a nova e definitiva aliança de Deus com a humanidade. Neste sentido, o batismo é um convite a conversão diária por meio da penitência.
 “Convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15). Essas palavras do Senhor mostram a conexão necessária entre a fé e a conversão, entre ser cristão e a mudança de vida em vista do Reino. A religião cristã é um convite a transforma todo o nosso ser, nossa maneira de pensar e de agir. Os primeiros cristãos não separavam a fé em Cristo da imitação a ele. Ser cristão era o mesmo que prolongar Cristo no mundo. A realidade cristã envolvia a cabeça e o coração. Daí a luta de todo cristão de morrer o velho homem do pecado. “Já não vos é permitido trazer aquela velha túnica, digo, não esta túnica visível, mas o homem velho corrompido pelas concupiscências falazes. Oxalá a alma, uma vez despojada dele, jamais torne a vesti-lo” (São Cirilo de Jerusalém, Segunda Catequese Mistagógica sobre o Batismo, 2). Quem se aproxima de Deus se transforma numa criatura nova, pois assim como não é possível aproximar-se do sol sem se queimar ou entrar na água sem se molhar, tampouco é possível aproximar-se de Deus sem se transformar.
Como ensinava São Leão Magno o nosso combate que temos a frente não é contra o sangue nem contra a carne, mas contras os principados, contra as autoridades, contra os dominadores deste mundo de trevas, contra os espíritos do mal que povoam as regiões celestiais. Contra este tipo de inimigo demos que nos prevenir com a atenção voltada para o Senhor. Portanto, pode-vos de pé e cingi vossos rins com a verdade e revesti-vos com couraça da justiça e calçai os vossos pés com a preparação do Evangelho da paz, empunhando sempre o escudo da fé, com os quais podereis extinguir os dardos inflamados do maligno.  
A transformação empreitada pela nova vida em Cristo deve levar o convertido a buscar à “medida alta da vida cristã”, que começa com uma vida de fé, na qual se inserem, necessariamente, a mudança de mentalidade e de costumes, a promoção da justiça, a luta pela liberdade, a defesa da vida e a busca da paz. Uma autentica conversão a Deus corresponde uma vida mais humana e concreta. A abertura sobrenatural da fé não é  abandono da vida terrenal, mas superação dos sinais de morte que manifestam a divisão.
 No itinerário da conversão  o 1º Domingo da Quaresma nos apresenta o mistério do jejum de Jesus no deserto, seguido das tentações (cf. Mc 1 ,12-15). Tendo em conta que a quaresma é um tempo forte de conversão e renovação em preparação à Páscoa, ele dever ser um caminho de mudança interior.  É tempo de rasgar o coração e voltar ao Senhor. Tempo de retomar o caminho e de se abrir à graça do Senhor, que nos ama e nos socorre. É um tempo sagrado para aprofundar o Plano de Deus e rever a nossa vida cristã. E nós somos convidados pelo Espírito ao DESERTO da Quaresma para nos fortalecer nas TENTAÇÕES, que freqüentemente tentam nos afastar dos planos de Deus.
É a primeira vez que o demônio intervém na vida de Jesus, e faz isto abertamente. Põe à prova Nosso Senhor; talvez queira averiguar se chegou a hora do Messias. Jesus deixa-o agir para nos dar exemplo de humildade e para nos ensinar – diz São João Crisóstomo –, quis também ser conduzido ao deserto e ali travar combate com o demônio a fim de que os batizados, se depois do batismo sofrem maiores tentações, não se assustem com isso, como se fosse algo de inesperado. Se não contássemos com as tentações que temos de sofrer, abriríamos a porta a um grande inimigo: o desalento e a tristeza.
A narrativa das tentações que Jesus sofreu mostra que Jesus “foi experimentado em tudo” (Hb 4, 15), comprovando também a veracidade da Encarnação do Verbo de Deus. Diz Santo Agostinho que, na sua passagem por este mundo nossa vida não pode escapar à prova da tentação, dado que nosso progresso se realiza pela prova. De fato, ninguém se conhece a si mesmo sem ser experimentado, e não pode ser coroado sem ter vencido, e não pode vencer, se não tiver combatido e não pode lutar se não encontrou o inimigo e as tentações.
O demônio promete sempre mais do que pode dar. A felicidade está muito longe das suas mãos. Toda a tentação é sempre um engano miserável! Mas, para nos experimentar, o demônio conta com as nossas ambições. E a pior delas é desejar a todo o custo a glória pessoal; a ânsia de nos procurarmos sistematicamente a nós mesmos nas coisas que fazemos e projetamos. Muitas vezes, o pior dos ídolos é o nosso próprio eu. Temos que vigiar, em luta constante, porque dentro de nós permanece a tendência de desejar a glória humana, apesar de termos dito ao Senhor que não queremos outra glória que não a dEle. Jesus também se dirige a nós quando diz: “Adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás”. E é isto o que nós desejamos e pedimos: servir a Deus, alicerçados na vocação a que Ele nos chamou.

Não esqueçamos que o Senhor Jesus caminha conosco, tentado como foi, sabe as artimanhas do tentador, por isso, mesmo não nos abandona sozinhos no deserto. O Senhor está sempre ao nosso lado, em cada tentação, e nos diz afetuosamente: “Confiai: Eu venci o mundo” (Jo16, 33).
Neste tempo quaresmal, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) nos apresenta a Campanha da Fraternidade com o tema : “Fraternidade e superação da violência”, e o lema, Em Cristo somos todos irmãos” ( Mt23,8). A luta pela paz e a promoção da cultura da não-violência são extremamente necessária diante do caos que  se tornou a segurança publica no pais e no mundo. A falta de amor pela vida e a ausência de princípios éticos fundamentais que regule as relações humanas demonstram a urgência de conversão ao amor divino. Há que se promover neste dias da CF uma corrente de solidariedade em vista do bem do próximo. Pensemos neste momento nos milhares de irmãos venezuelanos que fogem em busca de comida e segurança em nossas fronteiras? Eles são filhos de Deus, nossos irmãos em Cristo. Não podemos aceitar que toquem fogo neles como material descartável. Basta de violência! Façamos jejum da maldade, da indiferença, do ódio, da guerra.   



Pe. Fantico Borges, CM

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Homilia do Pe. Fantico Borges, CM – VI Domingo do Tempo Comum – Ano B

Homilia do Pe. Fantico Borges, CM –  VI Domingo do Tempo Comum – Ano B

Jesus Médico da humanidade!  

Jesus é o médico das almas e do corpo. Tendo descrito nossa enfermidade invocamos aquele que pode nos limpar das doenças. Aquele que nos formou à sua Imagem não restituiria a saúde ao corpo enfermo? Deus quer renovar nossa vida sempre e transfigurar nossa figura marcada pelo pecado em sinal da graça divina. O Evangelho (Mc 1, 40-45) narra a cena de um leproso que, ao encontrar-se com Jesus, ficou curado. A Lei de Moisés prescrevia o seguinte: “O leproso deve ficar isolado e morar fora do acampamento” (Lv 13, 46). Um preceito duro que só se explica pela preocupação de evitar o contágio e pela idéia corrente entre os hebreus de que era um castigo de Deus aos pecadores. Consequentemente, o leproso era um foragido da comunidade e tido como “impuro”, ferido e amaldiçoado por Deus.
A lepra não denominava apenas uma doença física, mas atingia as relações espirituais, sociais e eclesiais. Daí a importância da cena de hoje: um leproso, contrariando a Lei, aproxima-se de Jesus… e de joelhos implora: “Se queres, tens o pode de curar-me…” diz Santo Agostinho que aquele que curou tuas enfermidades é o mesmo que redimiu tua vida da corrupção.  
Jesus “se compadece”, estende a mão e toca-o… e restitui-lhe a saúde: “Eu quero, fica curado…”. Que fé maravilhosa! Aquele homem de Deus, abandonado pelos homens e tido como rejeitado por Deus, tem mais fé do que muitos seguidores de Cristo. A fé autêntica não se perde em raciocínios sutis; tem uma lógica muito simples: Deus pode fazer tudo; basta, pois, que o queira fazer. “Acaso não te curará aquele que te criou em tal condição que nunca terias adoecido se quisesses cumprir suas ordens? Ele te curará; só falta que te deixes curar” (Santo Agostinho, Comentário ao Salmo 102,6).
Ao pedido, que manifesta uma confiança ilimitada, Jesus responde com um gesto inaudito para um povo, a quem fora proibido qualquer contato com os leprosos: “estendeu a mão, tocou-o”. Deus é o Senhor da Lei e, por isso, pode infringi-la.
A cena do leproso que vai ao encontro de Jesus é tão marcante que a encontramos narrada em três Evangelistas que contam o episódio e transmitem-nos o gesto surpreendente do Senhor: “Estendeu a mão e o tocou”. Até àquele momento, todos os homens haviam fugido dele com medo e repugnância. Cristo, porém, que podia tê-lo curado à distância – como já o fizera em outras ocasiões -, não só não se afasta dele, como chega a tocar a sua lepra. Não é difícil imaginar a ternura de Cristo e a gratidão do doente quando viu o gesto do Senhor e ouviu as suas palavras: “Quero, sê limpo.”
Ensina-nos Santo Agostinho a confiar em Deus e não procurar remédios fãs quando temos o verdadeiro remédio: Cristo. Buscar a saúde e tê-Lo sempre aos olhos e buscá-Lo de todo coração. Oh Alma Cristã, levanta-te e olha o que vales, se reconcilia com teu Redentor.    
O Senhor sempre deseja curar-nos das nossas fraquezas e libertar-nos dos nossos pecados. E não temos necessidade de esperar meses nem mesmo dias para que ele passe perto da nossa cidade… No Sacrário mais próximo, na intimidade da alma em graça, no Sacramento da Penitência (Confissão), encontramos o mesmo Jesus de Nazaré que curou o leproso. Ele é Médico, e cura o nosso egoísmo se deixarmos que a sua graça nos penetre até o fundo da alma.
Jesus advertiu-nos que a pior doença é a hipocrisia, o orgulho que leva a dissimular os pecados próprios. Com o Médico, é imprescindível que tenhamos uma sinceridade absoluta, que lhe expliquemos toda a verdade e digamos: Senhor, se quiseres, – e Tu queres sempre -, podes curar-me. Tu conheces a minha debilidade; sinto estes sintomas e experimento estas outras fraquezas. A sinceridade de nossa contrição é pressuposto para cura física e espiritual.
Os Santos Padres viram na lepra a imagem do pecado. Neste tempo de carnaval onde se extravasam as emoções a necessidade de cura é mais gritante. Procuremos com o mesmo entusiasmo do leproso do Evangelho aquele que pode nos purificar. Cada uma das nossas confissões é expressão do poder e da misericórdia de Deus. É o próprio Jesus quem, no Sacramento da Penitência, pronuncia a palavra autorizada e paterna: “Os teus pecados te são perdoados”.
Temos que aprender do leproso: Com toda a sinceridade, coloquemo-nos diante do Senhor e, de joelhos, reconheçamos nossa doença e peçamos a cura.
O Caminho do leproso deve ser o caminho de todo discípulo: Vir a Jesus, aceitar a própria limitação humana; experimentar a misericórdia e o poder libertador do Senhor; e finalmente tonar-se testemunha das grandes obras de Deus.

Pe. Fantico Nonato Silva Borges, CM



sábado, 3 de fevereiro de 2018

Homilia do Pe. Fantico Borges, CM – V Domingo do Tempo Comum ano B

Homilia do Pe. Fantico Borges, CM – V Domingo do Tempo Comum ano B

Aí de mim se eu não evangelizar!

A liturgia deste domingo, o V do tempo comum, fala-nos do amor de Deus que conhecendo o ser humano como obra de suas mãos, e consciente que pelo pecado a humanidade está doente, vem à nossa casa  e cura nossos males libertando-nos dos sofrimentos do pecado.
O Evangelho (Mc 1, 29-39) apresenta Jesus rodeado de uma multidão marcada pelo sofrimento: “Curou muitos enfermos atormentados por diversos males e expulsou muitos demônios” (Mc 1, 34). Mas se, por um lado, Ele se dedica a curar, por outro retira-se para um lugar deserto. E ali orava durante a noite. Ação apostólica e oração se completam. Pedro e seus companheiros o procuram. Quando O encontram, dizem-lhe: “Todos  Te procuram”. A verdadeira luz deve ser procurada em Deus, sobretudo através da oração.
O Senhor vai à casa de Simão Pedro e André e encontra a sogra de Pedro doente com febre; toma-a pela mão, ajuda-a a levantar-se e a mulher está curada e começa a servir. Neste episódio sobressai simbolicamente toda a missão de Jesus. Jesus vindo do Pai vai à casa da humanidade, na nossa terra, e encontra uma humanidade doente, doente com febre, com aquela febre que são as ideologias, as idolatrias, o esquecimento de Deus, a violência, a insensibilidade com o sofrimento alheio, a febre da injustiça. O Senhor dá-nos a sua mão, levanta-nos e cura-nos. E faz isto em todos os séculos; pega-nos pela mão com a sua palavra, e assim dissipa a obscuridade das ideologias, das idolatrias, das incertezas e maldades. Toma a nossa mão nos sacramentos, cura-nos da febre das nossas paixões e dos nossos pecados mediante a absolvição no sacramento da reconciliação. Dá-nos a capacidade de nos erguermos, de estarmos de pé diante de Deus e diante dos homens. E precisamente com este conteúdo da liturgia dominical o Senhor encontra-se conosco, guia-nos pela mão, eleva-nos e cura-nos sempre de novo com o dom da sua palavra, com o dom de si mesmo... (Bento XVI, Vaticano, 5 de Fevereiro de 2006)
Quando os apóstolos disseram: “Todos andam à Tua Procura”; o Senhor respondeu-lhes: “Vamos a outros lugares, às aldeias da redondeza! Devo pregar também ali, pois foi para isso que eu vim” (Mc 1, 38). A missão de Cristo é evangelizar, levar a Boa Nova até o último recanto da terra, através dos Apóstolos e dos cristãos de todos os tempos. Esta é a missão da Igreja, que assim cumpre o que  o Senhor lhe ordenou: “Ide e pregai a todos os povos…, ensinando-os a observar tudo quanto vos mandei” (Mt 28, 19-20).
São João Crisóstomo vai ao encontro das possíveis desculpas perante esta gratíssima obrigação: “Não há nada mais frio do que um cristão que não se preocupa pela salvação dos outros. Não digas: não posso ajudá-los, porque, se és cristão de verdade, é impossível que não possas fazer. Não há maneira de negar as propriedades das coisas naturais; o mesmo acontece com isto que agora afirmamos, pois está na natureza do cristão agir dessa forma. É mais fácil o sol deixar de iluminar ou de aquecer do que um cristão deixar de dar luz; mais fácil do que isso seria que a luz fosse trevas. Não digas que é impossível; impossível é o contrário. Se orientarmos bem a nossa conduta, o resto sairá como consequência natural. Não se pode ocultar a luz dos cristãos, não se pode ocultar uma lâmpada que brilha tanto”.
Perguntemo-nos se no nosso ambiente, no lugar onde vivemos e onde trabalhamos, somos verdadeiros transmissores da fé, se levamos os nossos amigos a uma maior frequência dos Sacramentos. Examinemos se encaramos a ação apostólica como algo urgente, como exigência da nossa vocação; se sentimos a mesma responsabilidade daqueles primeiros, pois a necessidade hoje não é menor… “Ai de mim se não evangelizar!”
Na pregação não se pode querer agradar a todos reduzindo, de acordo com as conveniências humanas, as exigências do Evangelho: “Falamos, não como quem procura agradar aos homens, mas somente a Deus” (1Ts 2, 4).
Não é bom caminho pretender tornar fácil o Evangelho, silenciando ou rebaixando os mistérios que devem ser cridos e as normas de conduta que devem ser vividas. Ninguém pregou nem pregará o Evangelho com maior credibilidade, energia e atrativo que Jesus Cristo, e houve quem não o seguisse fielmente. Não podemos esquecer-nos de que pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os gentios, mas poder de Deus para os escolhidos quer judeus, quer gregos (1 Cor 1, 23-24).
Todos andam à Tua procura… O mundo  tem fome e sede de Deus. Diz o Doc. de Aparecida, nº 29: “Conhecer a Jesus é o melhor presente que qualquer pessoa pode receber; tê-Lo encontrado foi o melhor que ocorreu em nossas vidas, e fazê-Lo conhecido com nossa palavra e obras é nossa alegria”.


Pe. Fantico Borges, CM 

sábado, 13 de janeiro de 2018

Homilia do Pe. Fantico Borges, CM - II Domingo do Tempo Comum – Ano B

Homilia do Pe. Fantico Borges, CM - II Domingo do Tempo Comum – Ano B

 Eles permaneceram com o Senhor naquele dia!

Caros irmãos e irmãs, chegamos ao tempo comum depois de termos vivido às alegrias do natal de Jesus. Entramos hoje no Segundo Domingo chamado Comum: tempo em que encontramos os passos de Jesus rumo ao ápice de salvação que ele veio anunciar. Neste tempo penetramos no dia a dia da vida miúda, vivida na presença do Senhor que está sempre presente na sua Igreja na potência do seu Espírito Santo, dando vigor à Palavra e eficácia aos sacramentos.
Neste Missa Deus chama-nos, pois quer entrar na nossa vida e nos dirigir uma apelo apaixonado. Foi assim com jovem Samuel que se quer sabia reconhecer a sua voz; foi assim com os primeiros discípulos, traspassados pela palavra do Batista que, apresentando o Cordeiro de Deus, quase que forçava aqueles dois, André e Tiago, a seguirem Jesus. E lá vão eles: “Rabi, onde moras? Onde tens tua vida?” E Jesus os convida: “Vinde e ver! A este convide os discípulos descobrem a presença e chamado de Deus: eles foram e permaneceram com ele... Somente se tiverdes a coragem de virdes comigo, de comigo permanecerdes, podereis ver de verdade!” Santo Agostinho afirma nas confissões que nosso coração viverá sempre incompleto, e, portanto, inquieto enquanto não permanecer em Deus. Não é impressionante, quase que inacreditável, caríssimos, que Deus nos conheça pelo nome, que nos chame e nos queira parceiros de seu caminho de vida? Deus nos conhece; sabe bem quem somos. Conhece nossas virtudes e nossos pecados e assim mesmo ele nos chama, por amor, a permanecer com Ele. A pergunta do Senhor é íntima: “O que estais procurando?”. Aqueles homens não procuravam um teto, nem um emprego e muito mesmo um “guru” ilusionista que fornecesse uma estrada pronta. O que eles procuravam era o sentido de suas vidas, a salvação de suas almas. Vinde caríssimos, fiquemos com o Senhor e encontraremos aquilo que nosso coração procura aquilo que faz a vida feliz.
André e João “foram e ficaram com ele aquele dia” (Jo 1,39). Também a nós foi dado um dia para que permaneçamos com Jesus, o domingo. Nós, os cristãos, precisamos redescobrir o domingo como o kyriaké, Dies Domini, Dia do Senhor. Afirma São João Paulo II na Carta Apostolica Dies Domini: “O dia do Senhor — como foi definido o domingo, desde os tempos apostólicos — mereceu sempre, na história da Igreja, uma consideração privilegiada devido à sua estreita conexão com o próprio núcleo do mistério cristão. O domingo, de fato, recorda, no ritmo semanal do tempo, o dia da ressurreição de Cristo. É a Páscoa da semana, na qual se celebra a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte, o cumprimento n'Ele da primeira criação e o início da « nova criação » (cf. 2 Cor 5,17). É o dia da evocação adorante e grata do primeiro dia do mundo e, ao mesmo tempo, da prefiguração, vivida na esperança, do « último dia », quando Cristo vier na glória (cf. At 1,11; 1 Tes 4,13-17) e renovar todas as coisas (cf. Ap 21,5)”. O domingo mais que preceito, deve ser vivido como gaudete, ou seja, da alegria. O preceito de fato existe, pois a Igreja quis garantir um mínimo vital para o cristão: participar da Missa aos domingos e dias santos. A razão da lei da Igreja não é o preceito em si, mas esse mínimo vital que sustenta a existência humana em Deus. Os primeiros cristãos compreendiam bem essa realidade quando, por exemplo, quando se arriscavam nas catacumbas romanas, não obstante a truculência dos opositores do cristianismo. Os cristãos afirmavam aos seus torturadores: sine domínico non possumus, ou seja, não podemos ser, nem existir, nem viver sem a celebração da Eucaristia dominical.
O sábado, celebração da criação e do repouso de Deus, era figura da realidade que o domingo significa: a nova criação e o repouso eterno iniciado com a ressurreição do Senhor Jesus. O apóstolo Paulo deixou bem claro que os cristãos já não devem sentir-se vinculados ao sábado: “ninguém, pois, vos critique por causa de comida ou bebida, ou espécies de festas ou de luas novas ou de sábados. Tudo isto não é mais que sombra do que devia vir. A realidade é Cristo” (Cl 2,16-17). Santo Inácio de Antioquia (+110 d.C.) explicou aos cristãos de Magnésia a passagem do sábado para o domingo da seguinte maneira: “aqueles que viviam na antiga ordem das coisas chegaram à nova esperança, e não observam mais o sábado, mas o dia do Senhor, em que a nossa vida se levantou por meio dele e da sua morte” (Aos Magn., 9,1).
O domingo é o dia que nós entramos em comunhão com Jesus no mesmo desejo dos João e André de permanecer com o Senhor. A participação na eucaristia é referencial de nossa adesão ao Mistério Pascal da Paixão, Morte e Glorificação de Jesus Cristo. Quem falta à missa dominical comete um grave pecado porque despreza o mistério da redenção. Não podemos achar que uma breve ou mesmo uma longa oração em nossa casa substitui a missa dominical, festa e solenidade. Nenhuma oração é maior e mais expressão de louvor e adoração a Deus que a santa missa. São João Crisóstomo explicava aos cristãos do seu tempo: “não podes rezar em casa como na Igreja, onde se encontra o povo reunido, onde o grito é lançado a Deus de um só coração. Há ali algo mais, a união dos espíritos, a harmonia das almas, o vinculo da caridade, as orações dos presbíteros” (Incomprehens. 3,6).
Portanto, o convite de permanecer com o Senhor precisa ser levado a serio por muitos católicos que trocam a missa por futebol, festas, praias e outras coisas mais. É necessário escutar a voz do Senhor anunciada todos os domingos na liturgia da Palavra, reconhecer a urgência de conversão pelo momento penitencial e alimentar-se do corpo do Senhor para que unidos a Ele deixemo-nos guiar por sua vontade e não manchemos o Corpo Místico de Cristo, o qual todos batizados fazem parte com as imundícies, imoralidades, injustiças, roubos e tantos outros pecados. 

Pe. Fantico Borges, CM 

domingo, 7 de janeiro de 2018

Homilia da Solenidade da Epifania do Senhor – 2018

Vimos adorar o menino-Deus!

Hoje se celebra a Epifania do Senhor. O termo grego tem o significado de auto-comunicação, entrada poderosa no campo da notoriedade e referencia-se à chegada de um rei. Também o termo servia para manifestação de uma divindade ou de alguma intervenção prodigiosa divina. Já no campo da fé a epifania entra desde II século com o qual se comemorava a celebração da vinda do Senhor.
A epifania marca a fase final do ciclo natalino. Celebra a manifestação de Deus ao mundo, na figura dos reis magos que, representando o mundo inteiro, vão adorar o menino Jesus em Belém. A liturgia, neste sentido, retorna o tema da luz – luz que brilha não só para o povo oprimido de Israel – como manifesta a leitura de Isaias –, mas para todos os povos, segundo a visão do profetismo universalista que escreveu o final de Isaias. Jerusalém, restaurada depois do exilio da Babilônia, é vista como centro para o qual convergem as caravanas do mundo inteiro. Essa visão recebe um sentido pleno quando os magos vindos do oriente procuram o Messias nascido de Davi – nos arredores de Jerusalém, em Belém, cidade de Davi. E nesta visão São Paulo complementa que a vinda de Jesus não é benção apenas para Israel, mas também para todos, para os pagãos, os povos distantes.
Belém representa a comunidade-testemunho, não apenas o lugar oficial de Davi, lugar do império de Herodes. Ela é centro do mundo, não para si mesma, mas para quem  procura o agir de Deus. Não em Roma, nem em Jerusalém de Herodes, mas em Belém do presépio é que a estrela parou. Com isso Deus quer mostrar que a manifestação do reino não depende do poder humano, mas da força da graça de Deus. Diz São Leão Magno que quando os reis magos vieram adorar a Jesus, “eles não o viram expulsando a demônios, ressuscitando aos mortos, dando visão aos cegos, curando os aleijados, dando a faculdade de falar aos mudos, ou qualquer outro ato que revelava seu poder divino; mas viram a um menino que guardava silêncio, tranquilo, confiado aos cuidados de sua mãe” (São Leão Magno, Sermão sobre a Epifania).   
Ao significado dos três presentes que os reis levaram ao Menino Jesus: ouro, incenso e mirra, estão ali representados o significado da vida de Jesus no mundo.  Ao rei, o ouro; incenso a Deus deitado no presépio, mirra ao homem que morreria por nós.  Jesus é Deus, Homem e Rei. E, nessa sociedade que, entre outras coisas, coloca Deus em plano inferior Jesus quer reinar, deseja a adoração das suas criaturas, quer que os homens e as mulheres valorizem mais o ser humano como tal, que a pessoa humana não pise a própria dignidade. Por isso, quando vemos que homens envaidecidos pela sabedoria mundana, e apartados da fé de Jesus Cristo, são arrancados pelos pecados, da presença graça de Deus, e, por isso tratam mal seus semelhantes, só temos que pensar na necessidade de olhar para a estrela que guiou os magos e seguirmos o caminho do presépio, que nos levará à humilde cena do menino deitado no feno.   
Como os reis magos, tampouco nós iremos de mãos vazias ao encontro do Senhor; ao contrário, levaremos presentes ao Menino Jesus: a nossa adoração já que ele é Deus; as nossas reparações, que desejamos que estejam simbolizadas na mirra, àquele que morrerá pelos nossos pecados; levaremos ainda os propósitos de viver melhor como homens e como mulheres, como filhos e filhas de Deus, reconhecendo a alta dignidade que recebemos e à qual somos chamados. Alegramo-nos com “profunda alegria” (Mt 2,10) ao ver a estrela de Belém, isto é, ao ver esse Menino que iluminou a nossa vida e nos deu a missão de iluminar a dos outros, não com outra luz, mas com a sua. Efetivamente, com a vinda do Filho de Deus, todos, sem distinção, podem caminhar segundo Deus. Todos somos filhos de Deus, todos somos irmãos.
Nós, os cristãos, temos que manifestar aos outros o sentido das suas próprias vidas através da consciência e da vivência do autêntico sentido da existência. Todos precisam saber o porquê estão nesse mundo: para amar, adorar e glorificar a Deus, para receber os grandes presentes que o Senhor quis trazer-nos, para vivermos como irmãos. Nós fomos criados para a felicidade. Deus quer que sejamos felizes também aqui na terra e, depois, no céu… para sempre!
São Boaventura afirmava que a estrela que nos conduz a Jesus é triple: “a Sagrada Escritura, que temos que conhecê-la muito bem. A outra estrela é a aquela que sempre nos está facilitando andar pelas sendas de Deus fazendo-nos ver e acertar o caminho, esta estrela é a Mãe de Deus, Maria. A terceira estrela é interior, pessoal, e são as graças do Espírito Santo”.
E se quiséssemos considerar atentamente como possível, para todos os que se aproximam a Cristo pelo caminho da fé, aquela tríplice classe de dons, não descobriríamos que esta oferenda se realiza no coração de quantos retamente creem no Cristo? Retire efetivamente ouro do tesouro de seu coração quem reconhece a Cristo como rei no universo; oferece mirra quem crê que o unigênito de Deus assumiu uma verdadeira natureza humana; venera a Cristo com uma espécie de incenso quem confessa que ele em nada é diferente da majestade do Pai. Tudo isso munido de uma vida perpassada pelas ações de caridade, promoção da vida, arações contates, frequência a confissão e participação regular à eucaristia.


Pe. Fantico Borges, CM

Homilia do XVIII Domingo do Tempo Comum (Ano C)

Homilia do XVIII Domingo do Tempo Comum (Ano C) Um homem vem a Jesus pedindo que diga ao irmão que reparta consigo a herança. Depois ...