sábado, 28 de outubro de 2017

Homilia do Pe. Fantico Borges, CM – XXX Domingo do Tempo Comum – Ano A

Homilia do Pe. Fantico Borges, CM – XXX Domingo do Tempo Comum – Ano A

Imitemos em tudo a Cristo
O verdadeiro cristão é aquele que em tudo imita a Cristo. O que fez Cristo deve fazer também o cristão. O tema da liturgia da palavra de hoje é o sentido profundo do amor que Jesus viveu e testemunhou. O amor é a essência de Deus, e exprime a existência em Deus. “Deus é amor.”  O que ensinou Jesus foi fazer em tudo a vontade de Deus-Pai. Em suma seu ensinamento era esse, e nisso se resumia a lei: amor a Deus e ao próximo. Diz São Gregório Magno que essa lei é a caridade: “O que melhor define a lei de Cristo é a caridade e esta caridade a praticamos de verdade quando toleramos por amor as cargas dos irmãos” (São Gregório magno, Tratado Morais sobre o Livro de Jó 10,7).
Essa máxima de Cristo que resume toda lei e os profetas, mesmo sendo dois preceitos, abrange muitos aspectos, pois começa pelo amor a Deus e ao próximo, mas se estende por inúmeros atos de caridade. Essa multiplicidade de facetas é enumerada por São Paulo no belíssimo hino à caridade: “O amor é paciente, afável, não é invejoso, não é vaidoso, não é ambicioso, nem egoísta, não guarda rancor, não se alegra com a injustiça, mas se regozija com a verdade” (1Cor 13, 1-13). Ensina São Gregório Magno que “o amor é paciente, porque tolera com serenidade os males que lhe são infligidos. É afável porque devolve generosamente o bem pelo mal” (São Gregório magno, Tratado Morais sobre o Livro de Jó 10,7).      
Estar na nossa raiz apostólica a união fraterna, a comunhão de amor. Já nas primeiras comunidades cristãs se dizia que os irmãos tinham tudo em comum. Essa demonstração de amor confundia os de fora que diziam: “vejam como eles se amam!” Ensina Tertuliano que é justamente essa demonstração de grande amor entre os cristãos que atraiu a aversão de alguns. “vede como eles estão dispostos a morrer uns pelos outros, enquanto que eles estão mais dispostos a matarem-se entre si” (Tertuliano, Apologeticum, 39). Nós nos toleramos por amor a Cristo, por fidelidade ao mandato cristão, e porque pelo batismo somos incorporados na família de Jesus, pela obediência à vontade de Deus. Somos verdadeiramente irmãos em Cristo, marcados por um selo espiritual mais forte que os laços de sangue, mais duráveis que as estrelas, infinitamente mais penetrante que qualquer vinculação humana. Somos irmãos porque um é nosso Deus, um é nosso Pai, um é nosso Senhor. “Com quanta maior dignidade se chamam e são verdadeiramente irmãos os que reconhecem a um único Deus como Pai, os que beberam de um mesmo Espírito de santidade, que esperam uma mesma herança, que nasceram de um mesmo ventre de cega ignorância?” (Tertuliano, Apologeticum, 39).
Mas porque acontece tanta falta de amor neste mundo, iminentemente, cristão, do ocidente? Talvez seja porque fizemos pouco caso da nova lei do amor impressa na vida e na pessoa de Jesus. Como ser seu seguidor e não seguir os seus passos? Jesus não é um ideal metafísico, nem um conceito abstrato, Ele é uma pessoa, Ele produz um encontro, neste encontro exige-se uma decisão. Ensina São Cipriano de Cartago: “Imitemos a Cristo. O nome de cristão pressupõe a justiça, a bondade, a integridade. É cristão aquele que em tudo imita a Cristo e lhe segue; aquele que é santo, inocente, incontaminado, puro. É cristão aquele em cujo coração não há lugar para malícia, aquele em cujo peito somente há piedade e a bondade tem carta de cidadania” (Autor desconhecido, Sermão atribuído a São Cipriano). Cristão é aquele que vive a vida de Cristo, quem em tudo segue os passos de Jesus, ou seja, aquele totalmente entregue a misericórdia.
Quem ama a Deus, ama o próximo. O amor do cristão é aquele amor gratuito, que se entrega às necessidades alheia. Somente o amor de Deus no coração explica ações como essas: “o rei S. Luís visitava e cuidava dos doentes com tanto desvelo como se fosse sua própria obrigação. (…) S. Gregório muito folgava de dar agasalho aos peregrinos, a exemplo do patriarca Abraão, e, como ele, recebeu um dia o Rei da glória na forma de um peregrino. Tobias exercia a caridade, sepultando os mortos. Santa Isabel, sendo uma augusta princesa, achava a sua alegria em humilhar-se a si mesma. Santa Catarina de Gênova, tendo perdido o seu marido, dedicou-se ao serviço num hospital.” (S. Francisco de Sales, Filotéia ou Introdução à vida devota, III, 1).
Muitos pensam que serão mais felizes quando possuírem mais coisas, quando forem mais admirados…, e se esquecem de que só necessitamos de “um coração enamorado”. O nosso coração foi feito por Deus para alcançar a sua plenitude, a sua completa realização, nos bens eternos, no seu Criador!
As coisas criadas são para nos levar a Deus, pois um amor perfeito busca sempre estar com mais perfeito. Ensina Santa Teresa: “Quando é perfeito, o amor tem esta força: leva-nos a esquecer o nosso próprio contentamento para contentar Aquele a quem amamos. E verdadeiramente é assim, porque, ainda que sejam grandíssimos os trabalhos, se nos afiguram doces quando percebemos que contentamos a Deus” (Fundações, 5,10).

Pe. Fantico Borges, CM


sábado, 21 de outubro de 2017

Homilia do Pe. Fantico Borges, CM– XXIX Domingo do Tempo Comum – Ano A


Homilia do Pe. Fantico Borges, CM– XXIX Domingo do Tempo Comum – Ano A

Imago Dei homo sapiens, homo Sanctus.

Na liturgia deste domingo Deus nos chama a resplandecer como Imago Dei, ou seja, Imagem como ele nos criou. Queres buscar a imagem de Deus em ti? Olha para quem te criou, vê de onde foste gerado, de que raiz nasceste? Não busque fora do artífice divino uma imagem que não és.  Com essas indagações podemos entender o sentido do Evangelho de hoje.
“Mestre, sabemos que és verdadeiro e ensinas o caminho de Deus em toda a verdade, sem te preocupares com ninguém... é licito pagar o tributo a César? (Mt 22,16-17). Os homens que falam são aduladores! E Jesus não se deixa conquistar pela duplicidade da linguagem, nem pela malícia daqueles homens. A resposta do Senhor não é maliciosa, nem ofensiva, mas questionadora. Ele quer nos levar a uma adesão livre da vontade e da consciência. O desejo de Jesus é maiêutico, ou seja, deseja suscitar em nos respostas fruto da maturidade espiritual.
Diz Santo Agostinho que só Deus pode fazer uma imagem de si mesmo. O artesão pode fazer uma imagem de deus, mas nunca do Deus vivo e verdadeiro. “Não fez outro distinto de ti mesmo, mas que te fez a ti a sua imagem. Adorando, pois, a imagem de homem que o artífice fez, profana a imagem de Deus, que Deus imprimiu em ti mesmo” (Santo Agostinho, Sermoes 113A,7).  
Num mundo de privilégios, poder e honra, muitas vezes impera a falsidade e o cinismo. A atitude dos adversários de Jesus ilustra muito bem essa situação. Os elogios iniciais escondiam uma falta de sinceridade dos bajuladores, que, com linguagem frívola, iludem os corações fracos. É verdade que, às vezes, em nós brota um discípulo de fariseu. Afirmava uma sábio homem “que cada um de nós leva dentro um ‘pequeno fariseu’”. E tem razão! Frequentemente, podemos procurar parecer o que não somos para agradar, para subir na vida, para alcançar uma posição social. Usam-se disfarces, dissimulações para esconder o rosto oculto da podridão.  Desta maneira, se pode passar a vida com um disfarce, ocultando assim o que há de mais belo em nós, e ou não permitindo que as coisas sejam curadas porque não mostramos ao médico divino as nossas reais feridas.
Deus sabe quem somos, nos conhece antes de sermos. Diz o salmista que no seu livro já estão, os nossos dias, todos anotados (Sl 139,16). Deus realmente não gosta da falta de sinceridade. “Os discípulos de Cristo “revestiram-se do homem novo, criado segundo Deus, na justiça e santidade da verdade” (Ef 4,24). “Livres da mentira” (Ef 4,25), devem “rejeitar toda maldade, todas as formas de hipocrisia, de inveja e maledicência”, confiados em Deus, que os ama assim como são. (1 Pd 2,1)” (Cat. 2475)
Explica um autor que “os romanos, na sua paixão pelo belo e pelo autêntico, admiravam as expressões artísticas mais perfeitas e genuínas, e não admitiam defeitos nas obras de arte. Por isso, quando um escultor falhava, procurava dissimular o defeito cobrindo a irregularidade com cera. E quando a estátua saía perfeita das suas mãos, dizia-se que estava completa, íntegra, autêntica, sine cera – “sem cera”. Daí deriva a expressão sincera” (R. Llano Cifuentes, Vidas sinceras). Devemos ser assim diante de Deus, “sem cera”, isto é, sinceros; é preciso que sejamos sinceros, bem sinceros: com o nosso confessor, com o diretor espiritual, com aquelas pessoas que tem como encargo saber aquilo que devem saber sobre nós para nos ajudar.
Por tudo que foi dito acima, o Evangelho de hoje torna-se tão rico para meditação de como vivemos e buscamos ser imagem de Deus. Daqui procede, irmãos, que Deus busque a sua imagem em nós. Isso foi o que recordou aqueles judeus que lhe apresentaram uma moeda. Quando lhe disseram: Senhor, é lícito pagar tributo a César?, sua primeira intenção era tentar-lhe; se dizia é licito, seria então acusado de defender a ocupação romana e a escravidão tributaria exigida pelo rei. Caso respondesse negativamente seria acusado de incitar uma revolta politica contra o Imperador Romano. Diz Santo Agostinho, “que Jesus conheceu que lhe tentavam, conheceu por assim dizer, a verdade para a falsidade e com poucas palavras deixou exposta a mentira procedente da boca dos mentirosos. Não emitiu sentença contra eles por sua boca, mas deixou que eles mesmos a emitissem contra si”  (Santo Agostinho, Sermoes 113A,7).
O Senhor Jesus Cristo ao enfrentar os inimigos demonstra como o cristão deve lutar contra o mal, pois o mundo busca satisfazer a si; Deus busca encontrar a vida divina escondida no coração desviado dos pecadores. O Senhor diz então aos Fariseus: “mostra-me a moeda do imposto! Trouxeram-lhe então a moeda. E Jesus disse: de quem é a figura e a inscrição desta moeda? Eles responderam: de César. Jesus então lhes disse: dai, pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.” (Mt 22, 19-21) Ensina-nos Santo Agostinho que “como César busca a sua imagem em sua moeda, assim Deus busca a sua imagem em tua alma. Dai a César, disse, o que é de César. O que César te pede? Sua imagem. O que Deus te pede? Sua Imagem. Porém, a do César está na moeda, a de Deus está em ti. Se alguma vez perdes uma moeda, choras porque perdeste a imagem de César; e não choras quando adoras um ídolo sabendo que fazes uma injúria à imagem de Deus que reside em ti?” (Santo Agostinho, Sermoes 113A,7-8).
Buscando os ídolos que se enfeitam de deuses distorcermos a imagem que temos de Deus, empobrecemos nossa real identidade, desconfiguramos nossa caráter fundamental, tornando-nos coisa e não homo sapiens, objeto e não criação divina. Ensina Gregório de Nissa que “a imagem não é verdadeira imagem senão na medida em que possui todos os atributos de seu arquétipo; deste ponto de vista ela não é mais imagem” (Gregório de Nissa, A criação do Homem,XI,3 ).
O que é o homem se não é sinal do seu criador? Afirma Orígenes que o pintor desta imagem é o Filho de Deus e que ele imprimiu uma carta divina em nossa constituição que nem o pecado pode rasgar. “Sua imagem pode se tornar feia pela negligência, mas mão apagada pela malícia. Pois a imagem de Deus permanece sempre em ti, mesmo quando tu mesmo sobreponhas à imagem do homem terreno. Esta imagem do homem terreno, que Deus não esboçou em ti, tu mesmo te vais pintando através das variadas escalas de tipos de malícia, como uma combinação de diversas cores” (Orígenes Sermões sobre o Genesis 13,4 ). Somente quando tiveres apagado em ti todas estas cores procedentes das fraudes da malícia, então resplandecerá em ti a imagem criada por Deus. “tens, pois, a carta de Deus em ti, e a carta do Espírito Santo. Mas se pecas, tu mesmo assinas o documento do pecado”   (Orígenes Sermões sobre o Genesis 13,4).
Fujamos, pois do pecado e não corramos para sentença de morte que a fraude conduz. Busquemos com atos divinos de amor a Imagem de Deus em nós. Uma dica salutar para isso é a confissão.  Gostaria de insistir num aspecto da sinceridade que é capital. Trata-se daquela sinceridade total que devemos ter no sacramento da confissão. Lá vamos para dizer as podridões, os pecados; para mostrar as feridas, as chagas, as coisas feias. Nenhum padre espera que cheguemos ao confessionário para dizer as nossas virtudes, as coisas boas que fizemos ou como somos pessoas notáveis. Não! Para isso não é o sacramento da confissão. Vamos confessar-nos para dizer os pecados, ser perdoados e ficar reconciliados com Deus e com sua Igreja. Quem tem vergonha de confessar seus pecados morre sem experimentar a alegria de sentir-se Imago Dei. Quem tem vergonha do pedado no empobrece seu ser. Melhor ainda se começarmos a falar daquelas coisas que nos parecem mais difíceis de dizer, as que nos causam maior vergonha. Deus nos livre de esconder por vergonha algum pecado, neste caso a nossa confissão seria inválida e nenhum pecado seria perdoado.

Pe. Fantico Borges, CM

sábado, 14 de outubro de 2017

Homilia do Pe. Fantico Borges, CM – XXVIII do tempo comum ano A

Homilia do Pe. Fantico Borges, CM – XXVIII do tempo comum ano A

Muitos os convidados poucos os escolhidos!

A Palavra de Deus desde domingo chama-nos atenção para o banquete, no qual o Senhor nos quer introduzir. Ele mesmo prepara a mesa para os convidados, convocando-os a virem ao seu encontro e deleitarem-se da festa das núpcias eternas. O evangelho diz que o Senhor enviou os servos para convidar os que quisessem vir e lhes faz anunciar: “Meu banquete está servido!” Mas os que foram convidados se desculparam. Diz São Macário, o Grande: “o que convidava estava preparado, mas os chamados não fizeram caso; são responsáveis pelo seu destino” (São Macário, homilias espirituais 15, 30-31).
A grandeza do cristão consiste neste convite: Deus convoca a refeição que ele mesmo é o artífice. Do cristão se exige a responsabilidade em aderir a convocação, pois Deus lhe prepara o Reino e chama-o a entrar. Afirma São Macário, que “esta é, portanto, a grande dignidade dos cristãos. O Senhor lhes prepara o reino e lhes convida para nele entrar, mas eles se recusam a ir. Se observarmos o dom que haviam de receber, pode-se dizer que alguém... suportava tribulações desde a criação de Adão até o fim do mundo, pode-se dizer que nada tinha feito comparado com a glória que terá em herança, porque deve reinar com Cristo pelos séculos sem fim” (São Macário, homilias espirituais 15, 30-31).
Ora, quem são estes convocados? São os que receberam a fé; mergulhados nas águas santas batismais; instruídos no conhecimento da Palavra e na Tradição Apostólica. E são convocados a quê? A ceia eucarístico! Nesta refeição da graça, como em antegozo já são introduzidos no mistério da nupcialidade de Jesus. Por isso, a missa – e quero dizer toda missa – é o céu na terra. Ao banquete da missa, dizia São Justino, o Mártir, “chama-se Eucaristia, da qual ninguém pode participar, a não ser que creia serem verdadeiros nossos ensinamentos e se lavou no banho que traz a remissão dos pecados e a regeneração e viva conforme o que Cristo nos ensinou” (Justino, Mártir, I Apologia, 66).  
Escutamos no Evangelho: “Dizei aos convidados que já está preparado o meu banquete (…). Vinde às bodas!” (Mt 22,4). Jesus deixou-nos esse prodígio de amor, que é a eucaristia, para que participemos de suas alegrias eternas. Ele instituiu o sacramento do seu corpo e do seu sangue no contexto de uma ceia e se deu em alimento para que nós, fortalecidos, pudéssemos chegar à glória celestial. Mas a eucaristia não é somente um banquete, trata-se de uma ceia sacrificial. O Catecismo da Igreja Católica faz essa conexão – eucaristia-ceia – já que o Novo Testamento também o faz: “Jesus expressou de modo supremo a oferta livre de si mesmo na refeição que tomou com os Doze Apóstolos na “noite em que foi entregue” (1 Cor 11,23). Na véspera de sua Paixão, quando ainda estava em liberdade, Jesus fez desta Última Ceia, com seus apóstolos, o memorial de sua oferta voluntária ao Pai, pela salvação dos homens: “Isto é o meu corpo que é dado por vós” (Lc 22,19). “Isto é o meu sangue, o sangue da Aliança, que é derramado por muitos para remissão dos pecados” (Mt 26,28)” (Cat. 610).
Fomos convidados para participar das núpcias do Cordeiro, aquele que tira o pecado do mundo. Jesus é o noivo desta núpcia. Como os convidados, por primeiro, fizeram pouco caso do convite, o noivo vai à busca de outros que queira ir à sua festa. Diz a Escritura que o salão ficou cheio. Mas lá no meio havia uma pessoa sem a devida veste. Sem explicar como entrara ali foi expulsa do salão e jogada na escuridão. Ora, que roupa é essa? Diz São Gregório Magno: “O que significa, irmãos, a veste nupcial? Não podemos dizer que signifique o batismo nem a fé, porque quem pode entrar sem eles nestas bodas?... Portanto, o que devemos entender por veste nupcial, senão a caridade? Entra, pois, nas bodas, mas não leva a veste nupcial, aquele que pertencendo à Igreja Católica tem fé, mas lhe falta a caridade”. (São Gregório Magno, Sermões sobre os Evangelhos, 38).
Com propriedade chama-se caridade a veste nupcial que trajamos neste banquete. A simplicidade popular canta que só tem lugar nesta mesa eucarística quem comunga na vida do irmão. Novamente ensina São Gregório que “se alguém é convidado para uma boda, procura trocar de veste, e manifesta que se alegra com o esposo e a esposa pela dignidade de seu traje, e se envergonharia de aparecer entre os convidados com uma veste insignificante. Nós assistimos as bodas divinas, e, contudo, resistimos a trocar a veste do coração” (São Gregório Magno, Sermões sobre os Evangelhos, 38).
A caridade é a grande dama que embeleza nossa imagem diante dos anjos. Pela caridade nosso coração volta-se a Deus com as vestimentas da dignidade desejada pelo Senhor. Dizia São Vicente de Paulo que a caridade é a virtude que “consiste em arrancar de nossos corações, não só de nossa fantasia e de nosso espírito, mas também de nosso coração, as afeições à impureza” (Pierre Coste, XI, 681) Pois, sem a caridade, mesmo tendo sido introduzido no batismo e na fé dos Apóstolos, caímos na falta das insígnias merecidas do noivo.
Quem recebendo um convite não se prepara, adquirindo a melhor veste, enfeitando-se com os melhores adornos, despreza quem o convidou. Quando na vivência da fé, na participação da vida cristã, não nos esforçamos por uma vida mais santa, justa, honesta, sem vícios, fugindo de todo pecado, lutando contra o mal, a impressão que deixamos ao que nos veem é o descaso, o desrespeito com quem nos convida, isto é, com Deus. Quem diz amar a Deus; ter fé, mas continua obstinado no mal faz pouco caso de sua salvação. É por isso que o Evangelho termina dizendo que “muitos são os convidados e pouco escolhidos”(Mt 22,14). Terrível é, caríssimos irmãos, o que acabamos de ouvir. Considerai que todos nós, chamados pela fé, assistimos as bodas celestiais; todos cremos e confessamos o mistério de sua encarnação; todos participamos do banquete do verbo divino, porém no dia futuro do juízo o rei entrará e passando verá quem está no salão e observará se todos estão vestidos com a roupa nupcial. Ai de quem não estiver trajado com a dignidade que convém! “sabemos que fomos chamados, mas ignoramos se pertencemos ao grupo dos escolhidos” (São Gregório Magno, sermões sobre os evangelhos, 38).    
Adverte-nos São João Crisóstomo: “não será absurdo, depois, (de ouvir) aquela misteriosa voz vinda do céu – refiro-me à dos querubins – emporcalhar o ouvido com cantos de bordel e quebradas melodias? E, como não será digno do pior castigo olhar as prostitutas com os mesmos olhos com que olhas os inefáveis e tremendos mistérios, e cometes adultérios de pensamentos?” (São João Crisóstomo, Catequese Batismal 1,2). Como não será digno de reprovação aqueles que receberam a fé e por ela robustecidos, tornam-se partícipes do numero dos eleitos, mas por práticas lamentáveis caminham como animais irracionais? Ou tendo sido iluminados no caminho de Deus, preferem seguir as pegadas das trevas? O que esperar uma alma que assim procede? Só a misericórdia de Deus pode dissolver esse enigma preclaro do juízo final.   Confiemo-nos a bondade e compaixão de nosso Deus, mas sem fugir de nossas responsabilidades.


Pe. Fantico Borges, CM 

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Homilia do Pe. Fantico, CM - Missa de Nossa Senhora Aparecida

Homilia do Pe. Fantico Borges, CM  -  Missa de Nossa Senhora da Conceição Aparecida

Maria  mãe de Deus e nossa, senhora Aparecida
Maria mãe de Deus é modelo para toda a Igreja, ela é mãe dos redimidos, advogada dos aflitos, intercessora sempre atenta e mãe clementíssima. Por sua adesão pronta e incondicional à vontade de divina, que lhe foi anunciada pelo anjo Gagriel, tornou-se para nós Estrela da Evangelização. Como nos ensina o Venerado São Elredo, abade, que aproximando-nos de Maria, esposa do Senhor, aproximemo-nos também de sua ótima serva. O que faremos ao abeirarmos dela? “Que presente lhe ofereceremos? E se pudéssemos ao menos, dar-lhe de volta o que por justiça lhe devemos! Nós lhe devemos honra, nós devemos serviço, nós lhe devemos amor, nós lhe devemos louvor. Honra, porque é a mãe de nosso Senhor. Quem não honra a mãe, sem dúvida alguma, despreza o Filho” (Sermões de Santo Elredo, Abade 20,2). Já diz a escritura: honram teu pai e tua mãe (Dt 5,16).
É preciso nunca perder de vista que antes do sim de Maria estávamos nas trevas do pecado e da ignorância. Perdidos na escuridão de nosso faltas, sem alento em meio as dores. Com Cristo nasce nova vida; e como foi no seio de Maria que nasceu o Salvador podemos dizer que em Maria, na ordem da natureza, a igreja também nasce em seu seio virginal. Ensina Santo Elredo que “ela é nossa mãe, mãe de nossa vida, mãe de nossa incorruptibilidade, mãe da nossa luz” (Sermões de Santo Elredo, Abade 20,2).  Ora, sendo ela mãe de Cristo, ela é, portanto, mãe de nossa sabedoria, de nossa justiça, de nossa santificação, de nossa libertação. Assim é mais nossa mãe do que a mãe do nosso corpo. Dela provindo, é nobre o nosso nascimento; porque vem dela nossa santificação, nossa sabedoria, nossa justiça, santificação e libertação.
Já o Concílio Ecumênico Vaticano II, no seu oitava capitulo afirma: “ a maternidade de Maria, na economia da graça, perdura sem cessar, a partir do consentimento que prestou fielmente na Anunciação, que mante4ve sem vacilar ao pé da cruz, até à consumação final de todos os Eleitos. De fata, depois de elevado aos céus, não abandonou esta missão salvífica, mas, por sua múltipla intercessão, continua a obter-nos os dons da salvação eterna.  
   Dizia o Papa São João Paulo II em seu discurso na dedicação da Basílica de Aparecida que pelos méritos de seu Filho, é imaculada em sua conceição, concebida sem a mancha original, preservada do pecado e cheia de graça. Nela, a arca da Nova Aliança, vestida de sol, templo onde habita Deus, sinal e instrumento da Aliança de Deus com a humanidade. Afirma São João Paulo II que Maria não pronunciou um sim passivo, mas ativo. Ao confessar-se a serva do Senhor ela acolhe em seu coração e em seu seio o autor da vida, o Redentor nosso, Jesus Cristo. Assim, Maria não foi instrumento meramente ocasional nas mãos de Deus, mas cooperou na salvação dos homens com fé livre e inteira obediência. Sem nada tirar ou diminuir e nada acrescentar à ação daquele que é o único Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo, Maria aponta as vias da salvação, vias que convergem todas para Cristo e para sua obra redentora. É por isso que o povo de Deus, na sua teologia simples e natural afirma, que nada se faça para Jesus sem Maria!
Temos a firme certeza que Maria nos leva mais seguramente a Cristo, nossa esperança! Isso o Concílio Ecumênico Vaticano II já apontava a afirmar: “a função maternal de Maria em relação aos homens, de modo algum ofusca ou diminui esta única mediação de Cristo, antes, manifesta a sua eficácia”.  
No nosso continente cristão, eminentemente católico, a figura de Maria torna-se mais visível; não é por acaso as manifestações e agradecimentos que acompanham o ano litúrgico, quase que inteiramente: o mês de maio repletos de homenagens com as coroações de nossa Senhora; a festa do Círio de Nazaré, as comemorações Aparecida em todo Brasil, são apenas amostras da vivacidade de Maria na fé do nosso povo cristão.
A Igreja, como mestra e guardiã da fé tem sempre os olhos voltados a Maria, que permanecendo Virgem deu à luz o Salvador, por obra do Espírito Santo. Qual é a missão da Igreja senão a de fazer crescer Cristo no mundo, e gerar cada vez mais filhos de Deus que encontrem em Jesus sua única alegria. Assim, a missão da Igreja espelha-se na missão de Maria, que gera, cuida e promove as condições para crescer o Plano de Deus. Neste sentido, a devoção mariana é fonte de vida cristã e força na caminhada rumo a meta que é a salvação.
Permaneçamos na escola de Maria, fazendo tudo que Cristo disser; e como outrora, na Galileia, ela cuida para que não falte a alegria de viver. Rezemos com Maria a Mãe de Deus e nossa, sem pecado concebida, Santa Virgem Imaculada, a Senhora de Aparecida!
Pe. Fantico Nonato Silva Borges, CM    


sábado, 7 de outubro de 2017

Homilia do Pe. Fantico Borges, CM - XXVII domingo do tempo comum ano A

Homilia do Pe. Fantico Borges, CM  -  XXVII domingo do tempo comum ano A


Ai da alma na qual não habita o Cristo!

 A história de Israel, que se desenrolou como uma espécie de luta entre Deus e o povo eleito, é como que a parábola de toda história humana. Enquanto Deus se empenha em salvar a humanidade, esta insiste em caminhar para a condenação. Ele vai lhe apresentando os meios necessários para que se salve, mas o ser humano continua destruindo a obra divina. Deus confia na conversão do coração humano; este, no entanto, frustra, continuamente, a confiança divina.
Neste domingo a liturgia da palavra vem continuando a reflexão de Jesus acerca do juízo de Deus. Se queremos conhecer o juízo de Senhor e qual será a sentença ditada é mister vislumbrar esta parábola de hoje.  O senhor diz aos responsáveis pela religião oficial de Israel: um homem plantou uma vinha e arrendou-a; quando chegou a época da colheita o patrão enviou seus empregados para receber os frutos, mas eles maltrataram a uns e mataram a outros, enfim enviou seu filho e o tomaram e mataram a fim de herdar a herança. Jesus pergunta e que fazer com estes? Os chefes do povo afirmaram que devem ser retirados da vinha e colocados outros que deem frutos ao seu tempo. Eis ai, meus irmãos, o juízo. É assim que acontecerá com quem toma a fé cristã e não produz frutos para o Reino.    Ensina Santo Irineu de Lião que “Deus plantou a vinha na raça humana, primeiro ao plasmar a Adão, depois quando escolheu Jerusalém” (Tratado contra as heresias 4,6). Deus sempre quis cuidar de sua vinha através dos vinhateiros que é seu povo escolhido, mas exigirá os resultados da vinha.
O Profeta Isaías (Is 5, 1-7) mostra como Deus manifestou o seu amor, os seus cuidados pela vinha, por Israel, o povo eleito e a falta de correspondência a esse amor. Descreve Israel como uma plantação de Deus, tratada com todos os cuidados possíveis: “Vou cantar para o meu amado o cântico da vinha de um amigo meu: um amigo meu possuía uma vinha em fértil encosta. Cercou-a, limpou-a de pedras, plantou videiras escolhidas, edificou uma torre no meio e construiu um lagar: esperava que ela produzisse uvas boas, mas produziu uvas azedas. O que poderia eu ter feito a mais por minha vinha e não fiz?” (Is 5, 1-4) A Vinha é certamente Israel, que não correspondeu aos cuidados divinos; mas é também a Igreja, bem como cada um de nós: “Cristo é a verdadeira videira, que dá vida e fecundidade aos ramos, quer dizer, a nós que pela Igreja permanecemos nEle e sem Ele nada podemos fazer” (Jo 15, 1-5).  Como ficará uma vinha abandonada, sem cuidado, sem cerca; onde cresce os espinhos e a erva daninha? O que será duma alma sem a luz de Deus? Aí da alma na qual não habita Cristo! Ensina São Macário: “E da mesma forma que uma casa, se não habita nela seu dono, se cobre de trevas, de ignomínia e de afronta, e fica toda cheia de sujeira e imundície; assim também a alma, privada de seu Senhor e da presença alegre de seus anjos, fica repleta de trevas do pecado, da fealdade das paixões e de todo tipo de desonra” ( São Macário, o Grtande, Sermão 28).
Apesar de tudo que ser humano fez e faz, o Pai mostra-se sobremaneira paciente. O primeiro gesto de rebeldia do ser humano seria suficiente para merecer a punição. Afinal, ele é quem tem uma dívida de gratidão para com Deus. Criado com todo o carinho, fora-lhe dadas as condições para viver em comunhão com o Criador e com os demais seres humanos. Dele se esperava frutos de amor e de justiça. No entanto, seu coração perverteu-se, levando-a a se rebelar contra Deus. Até mesmo Jesus, que representa o gesto supremo da boa-vontade divina de salvar o ser humano, acabou sendo crucificado. Ao ressuscitar seu Filho, o Pai estabeleceu-o como sinal de seu amor pela humanidade. Sempre que o ser humano quiser voltar-se para Deus, pode contar com Jesus. Aquele que fora rejeitado pelo ser humano, o Pai constituiu-o como "pedra angular" da salvação.
Para produzirmos os frutos de vida que Deus espera diariamente de cada um de nós, temos em primeiro lugar cultivar uma aversão por tudo que ofende a Deus; as faltas – mesmo veniais- que prejudicam os resultados de conversão. Os descuidos na caridade, os juízos negativos sobre as pessoas, as impaciências, as mentiras, as injustiças e tantos outros maus comportamentos... prejudica a alma. É necessário que nos empenhemos continuamente em afastar tudo aquilo que não é grato ao Senhor. A alma que detesta o pecado venial deliberado, pouco a pouco vai crescendo em delicadeza e em finura no trato com o Mestre. São Paulo (Fl 4, 6-9) lembra que na nossa fraqueza é preciso que nos apoiemos na oração. Devemos pedir a graça da fidelidade para que possamos dar muitos frutos, guardando nossos corações e pensamentos, em Cristo Jesus.

Pe. Fantico Borges, CM






   

sábado, 30 de setembro de 2017

Homilia do Pe. Fantico Borges, CM – XXVI Domingo do Tempo Comum – Ano A

Homilia do Pe. Fantico Borges, CM – XXVI Domingo do Tempo Comum – Ano A

Arrepende-se é começar a vida nova!

A liturgia deste domingo traz presente a reflexão o arrependimento que faz gerar o perdão. No Evangelho (Mt 21,28-32) Jesus indaga ao seus ouvintes assim:         “Que vos parece?”... Ora, o objetivo de Jesus é usar os próprios argumentos dos ouvintes para exigir deles uma posição autêntica. A pergunta é muito simples: dois filhos são enviados pelo pai a trabalhar na vinha; o primeiro responde  “sim”, mas não  vai; o segundo diz “não” mas depois  arrepende-se e vai. “Qual dos dois fez a vontade do pai? Os sumos sacerdotes e anciãos do povo responderam: ‘O primeiro’” (Mt 21,29-31). É a sua condenação que Jesus proclama a seguir, bem claramente: “os cobradores de impostos e as prostitutas  vos precedem no Reino  de Deus”. O motivo é também simples: porque as prostitutas e cobradores de impostos arrependeram-se e eles não. Dirá São Clemente de Alexandria, que “aqueles que de todo coração se converte para Deus tem as portas abertas, e o Pai recebe com braços abertos ao filho realmente arrependido.” (S. Clemente, Livro sobre a Salvação dos rico, 39)
Assim, como nesta parábola dos dois filhos, Deus chamou primeiro os filhos de Israel; através dos fariseus, sumo sacerdotes, escribas e doutores da lei, mas estes não quiseram mudar de vida; por fim chamou os outros, que a principio eram rebeldes, mas depois se arrependeram e mudaram de vida; os pecadores convertidos. Diz Jesus que uns ouviram a pregação de João Batista, mas não lhes deram crédito porque julgavam-se excessivamente seguros da sua ciência e da não necessidade de aprender; excessivamente seguros da sua justiça e da não necessidade de conversão: “não vos arrependestes para crer nele” (Mt. 21,32 ); não aceitaram a palavra  de João Batista nem a de Jesus. Veem-se, pois, colocados para depois, nada mais e nada menos, que as pessoas de mau viver, cobradores de impostos e prostitutas; pois estes arrependeram-se, “afastaram-se do mal que praticaram, acreditaram e praticaram “a justiça” (Ez.18,27), e, por isso, foram recebidos  no Reino de Deus. Parece que os justos, diante da lei judaica, não precisavam de juiz, nem se sentiam impelidos a mudar os comportamentos internos, ao contrário deles os publicamente pecadores, não tinha ninguém para defende-los, e por isso, punham sua esperança no Deus misericordioso e cheio de amor, sempre inclinado a perdoar o pecador arrependido. Lembra-nos São Clemente, “que arrepender-se supõe lamentar-se das faltas cometidas, e pedir com insistência ao Pai que as lance definitivamente no esquecimento, ele que é o único capaz de, em sua misericórdia, dar por não feito o feito, e abolir com suavidade do Espírito os delitos da vida passada.” (S. Clemente, Livro sobre a Salvação dos rico, 40)
Jesus propõe uma nova mentalidade, onde assevera o sentimento de amor a perdão. A nova experiência do Reino de Deus é pura misericórdia ao pecador contrito. Na comunidade de Cristo todos que desejarem, sinceramente, e de coração, podem alcançar a salvação. Deus não olha para o passado, nem fica atrás de nossos delitos, ele quer saber é se estamos dispostos a começar, hoje, o caminho de santidade. Jesus não prega um Deus contabilista, calculador de pecados, ele é o Pai das misericórdias. O Pai deseja, como nos ensina Gregorio de Nissa, é que choremos nossos pecados, nos repelemos com nossos maus comportamentos, que não fiquemos inertes ao mau. Por isso, que a santidade é uma virtude dos fortes; porque santo não é quem não pecou, mas sim quem luta, todo dia, para não pecar mais. Ser santo é dizer todos os dias ao levantar: “só por hoje, não quero mais pecar..., Só por hoje, náo vou falar mau de ninguém, só por hoje, não vou mentir, só por hoje, não vou trair... PHN sempre ao pecado.
Comentando o Evangelho de Mateus São João Crisóstomo afirma: “Porque estes dois filhos manifestam o que aconteceu com os judeus e com os gentios.  Porque foi assim que os gentios, que não tinham prometido obedecer e nunca ouviram a lei, em suas obras mostraram sua obediência; e os judeus, que disseram: tudo quanto o Senhor disser o faremos e obedeceremos, mas em obras lhe desobedeceram. Justamente Porque não pensaram que a lei lhes serviriam para alguma coisa, ele lhes faz ver que ela seria motivo de maior condenação.” (São João Crisóstomo, Sermão sobre o Evangelho de Mateus, 67) Por orgulho, vaidade e arrogância muitos criam máximo obstáculo à salvação. Por isso, surge muito a propósito, a exortação de São Paulo à Virtude da humildade: “Tende entre vós o mesmo sentimento que existe em Cristo Jesus. Ele que era de condição divina… esvaziou-se a Si mesmo, assumindo  a  condição de escravo, tornando-se igual aos homens” ( Fl.2,5-7).Se o Filho de Deus Se humilhou ao ponto de carregar sobre Si os pecados  dos homens ,será pedir muito que estes sejam humildes no reconhecimento do seu orgulho e dos seus pecados?
Peçamos ao Senhor a graça da humildade, ensina São João Maria Vianês, o Cura D’Ars, “é a porta pela qual passam as graças que Deus nos outorga; é ela que amadurece todos os nossos atos, dando-lhes valor e fazendo com que sejam  agradáveis a Deus. Finalmente, constitui-nos donos do coração de Deus, até fazer Dele, por assim dizer nosso servidor, pois Deus nunca pode resistir  a um coração humilde”.  É uma virtude que não consiste essencialmente em reprimir os impulsos da soberba, da ambição, do egoísmo, da vaidade… Trata-se de uma virtude que consiste fundamentalmente em inclinar-se diante de Deus e diante de tudo o que há de Deus  nas criaturas, em reconhecer a nossa pequenez  e indigência em face da grandeza do Senhor. São Vicente dizia as Filhas da Caridade: “O espírito das Filhas da Caridade é a humildade e ela [uma irmã] está cheia de orgulho. Isso é ser semelhante ao diabo e pior que o diabo. Ai! Se fôssemos humildes, deveríamos nos julgar todos piores que o diabo! Não se trata de uma imaginação, mas de uma verdade: pois, se o diabo não se tivesse obstinado em seu pecado e tivesse recebido a mais pequena graça que nós recebemos, a haveria usado melhor que nós” ( COSTE, IX, 945) O que Deus quer de nós é a humildade nos comportamentos, a firmeza na fé, respeito à sua Palavra, gratidão nas ações, misericórdia nas obras, moderação nos costumes, e tolerância uns com os outros. 
       Que Deus nos fortaleça para o bom combate da fé, com a ajuda augustíssima de sua Mãe a virgem de Nazaré. Amém!

Pe. Fantico Borges, CM  

domingo, 24 de setembro de 2017

HOMILIA DO XXV DOMINGO DO TEMPO COMUM ANO A

HOMILIA DO XXV DOMINGO DO TEMPO COMUM ANO A

OS SALÁRIO DO OPERÁRIO FIEL É A VIDA ETERNA

Na meditação deste domingo, novamente, o Senhor, falando em parábolas, anuncia ao povo a salvação. O caminho salvador é uma graça que Deus abre a todas as pessoas, mesmo aquelas chamadas nas últimas horas. Essa referencia final, com muita certeza, faz-se aos convertidos que vinham das diásporas e fora da palestina, no qual podemos nos incluir. A mensagem de Jesus é um convite a todos os povos de todos os tempos. No reino de Deus ninguém fica de fora. Todos encontram um espaço. Urge estar a disposição do convite de Cristo. Pelo modo como o Senhor nos ama, o ser humano jamais poderá compreender as atitudes divinas, sem a predisposição em abrir-se àquele que chama.  
Torna-se um grande perigo querer reduzir Deus à medida de nossos pensamentos, ou mesmo, condicionar o comportamento do Altíssimo às nossas categorias de justiça e de bondade. Deus está muito acima do homem, muito mais do que está o céu acima da terra (Is 55,9); por isso, muitas vezes os projetos da sua providência são incompreensíveis à inteligência humana, que os deve aceitar com humildade, sem pretender julgá-los. Quantas vezes ficamos aquém das maravilhas que Deus nos preparou! Quantas vezes os nossos planos se revelam tão estreitos!
Com a parábola de hoje no Evangelho o Senhor não deseja dar-nos uma lição de moral salarial ou profissional, mas sublinhar que, no mundo da Graça, tudo é um puro dom, mesmo o que parece ser um direito que nos assiste pelas nossas boas obras. A salvação não é algo conquistado pelo tamanho do esforço, mas pela intensidade com que se lança ao trabalho de Deus. A murmuração, a cobrança e exigência da salvação pelos obras revelam um coração interesseiro e sem Deus, pois Deus ama quem dar com alegria e gratuitamente, porque foi assim que ele fez e quer que façamos. Por isso, que fomos chamados a diferentes horas para trabalhar na vinha do Senhor, só temos motivos de agradecimento. A chamada, em si mesma, já é uma honra. “Não há ninguém, afirma São Bernardo, que, por pouco que reflita, não encontre em si mesmo poderosos motivos que o obriguem a mostrar-se agradecido a Deus.
Seja qual for o tempo de nossa conversão Deus sempre nos acolhe. No Evangelho de Mateus estes homens encontrados pelo patrão (Deus Uno e Trino), já no final do dia, queriam trabalhar, mas ninguém o contratou. Eram ociosos por falta de Senhor que os contratassem. Jesus passou no mundo chamando a todos a ingressarem na vinha do Senhor. Instara-se o tempo kairótico da graça do Senhor; um convite escatológico ao reinado de Deus, que age por misericórdia. Segundo Santo Efrém, o Senhor “ensinou que, seja qual for o momento de sua conversão, todo homem é acolhido...” (Diatessaron, 15, 15-17). Fica evidente que Jesus desde o início do seu ministério pastoral sempre procurou convidar todos a seguir o caminho do Reino, ou seja, “ saiu de madrugada para contratar trabalhadores”; saiu também até na undécima  hora, a fim de ninguém ficar sem trabalho, nem usassem a desculpa  de que não foram chamados.   
É importante notarmos, neste momento, o apelo que faz o profeta Isaías ao Israel desviado: “Abandone o ímpio seu caminho, e o homem injusto, suas maquinações; volte para o Senhor, que terá piedade dele” (Is 55,7). Ora, desde primeiro instante da profecia de Israel o Senhor apresenta-se com misericordioso, sempre pronto a acolher. Esse convite de Deus, através do oráculo, manifesta a sede que Deus tem do ser humano. Quer chamar todos os seus filhos e reuni-los novamente: “quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha recolhe os seus pintinhos debaixo das suas asas, e não o quiseste!” (Mt 23, 37). A recusa de muitos é causa de dor no coração de Jesus, que veio para que todos tenham vida. O apelo de Deus se renova em cada eucaristia celebrada, pois, Ele passa chamando os operários ao Reino: Não fecheis teu coração, ouvi hoje a voz de Deus. Entente ó filhos que Deus não estipula um tempo para a conversão, mas sempre estar atento ao nosso movimento de procura divina. E quando nos encontra oferece-nos tudo de si.
Ao contrario das atitudes divinas são aquelas humanas atitudes desordenadas, que visão a satisfação pessoal, a retribuição meritória. Os operários das primeiras horas reclamam da bondade do patrão que os iguala aos que trabalharam menos. A queixa gira em torno do valor da graça alcançada. Dirá Santo Agostinho: “o que significa esse gesto de pagar a diária começando pelos últimos? Não lemos  em outra passagem do Evangelho que todos receberão simultaneamente a recompensa?” Ora, a moeda de prata aqui se chamaria na teologia a vida eterna. Se todos receberão o denario ao mesmo tempo, como entender o que aqui se diz sobre o primeiro receberão a diária, os contratados ao entardecer, e, por último, os do amanhecer? Santo Agostinho alude nestes termos: “ No que se refere a retribuição, todos seremos iguais: os últimos como os primeiros, e os primeiros como os últimos, pois aquele denario é a vida eterna, e na vida eterna todos são iguais.”  Tanto Abel, Abraão, Moises, os profetas, os Santos, como nós, receberemos o salário divino.  Mesmo que aja diversidade de méritos e brilhem diversamente os eleitos, mas no que se refere à vida todos serão iguais. É por isso que Deus fez entrar na vida eterna o ladrão que no suplicio da cruz se arrependeu. Não é o ladrão um operário da undécima hora? Claro que sim! Como eu, como você somos trabalhadores do entardecer.  
Como já citei acima não podemos nem devemos enquadrar Deus nos nossos planos humanos finitos e imperfeitos. Deus é mais; seus caminhos são infinitamente maiores e melhores que nos nossos. Sendo assim, tenhamos cuidado para não sentar Deus no banco dos réus e julgá-lo injustamente. O melhor que podemos fazer quando não entendermos os projetos de Deus é ser-lhe dóceis acreditando que ele sabe mais e faz melhor do que nós. Por mais evidente que seja, é preciso que nos lembremos disso para que, inconscientemente, não tomemos o lugar de Deus.
Cabe, portanto, pensar que todo nosso esforço ainda será pouco para comparar-se com a gradíssima graça dada por Deus a nós. Como afirma Efrém, “somos contratados para um trabalho proporcionado às nossas forças, porém nos propõe um salário muito acima do que o nosso trabalho merece...” aquilo que damos a Deus é muito pouco e inferior a sua dignidade. Por isso, não nos cabe reprovar a bondade de Deus que deseja salvar os últimos em primeiro. Deus se oferece livre e gratuitamente, e nisso mostra a sua paixão e compaixão por todos.

Pe. Fantico Borges, CM


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