sábado, 30 de setembro de 2017

Homilia do Pe. Fantico Borges, CM – XXVI Domingo do Tempo Comum – Ano A

Homilia do Pe. Fantico Borges, CM – XXVI Domingo do Tempo Comum – Ano A

Arrepende-se é começar a vida nova!

A liturgia deste domingo traz presente a reflexão o arrependimento que faz gerar o perdão. No Evangelho (Mt 21,28-32) Jesus indaga ao seus ouvintes assim:         “Que vos parece?”... Ora, o objetivo de Jesus é usar os próprios argumentos dos ouvintes para exigir deles uma posição autêntica. A pergunta é muito simples: dois filhos são enviados pelo pai a trabalhar na vinha; o primeiro responde  “sim”, mas não  vai; o segundo diz “não” mas depois  arrepende-se e vai. “Qual dos dois fez a vontade do pai? Os sumos sacerdotes e anciãos do povo responderam: ‘O primeiro’” (Mt 21,29-31). É a sua condenação que Jesus proclama a seguir, bem claramente: “os cobradores de impostos e as prostitutas  vos precedem no Reino  de Deus”. O motivo é também simples: porque as prostitutas e cobradores de impostos arrependeram-se e eles não. Dirá São Clemente de Alexandria, que “aqueles que de todo coração se converte para Deus tem as portas abertas, e o Pai recebe com braços abertos ao filho realmente arrependido.” (S. Clemente, Livro sobre a Salvação dos rico, 39)
Assim, como nesta parábola dos dois filhos, Deus chamou primeiro os filhos de Israel; através dos fariseus, sumo sacerdotes, escribas e doutores da lei, mas estes não quiseram mudar de vida; por fim chamou os outros, que a principio eram rebeldes, mas depois se arrependeram e mudaram de vida; os pecadores convertidos. Diz Jesus que uns ouviram a pregação de João Batista, mas não lhes deram crédito porque julgavam-se excessivamente seguros da sua ciência e da não necessidade de aprender; excessivamente seguros da sua justiça e da não necessidade de conversão: “não vos arrependestes para crer nele” (Mt. 21,32 ); não aceitaram a palavra  de João Batista nem a de Jesus. Veem-se, pois, colocados para depois, nada mais e nada menos, que as pessoas de mau viver, cobradores de impostos e prostitutas; pois estes arrependeram-se, “afastaram-se do mal que praticaram, acreditaram e praticaram “a justiça” (Ez.18,27), e, por isso, foram recebidos  no Reino de Deus. Parece que os justos, diante da lei judaica, não precisavam de juiz, nem se sentiam impelidos a mudar os comportamentos internos, ao contrário deles os publicamente pecadores, não tinha ninguém para defende-los, e por isso, punham sua esperança no Deus misericordioso e cheio de amor, sempre inclinado a perdoar o pecador arrependido. Lembra-nos São Clemente, “que arrepender-se supõe lamentar-se das faltas cometidas, e pedir com insistência ao Pai que as lance definitivamente no esquecimento, ele que é o único capaz de, em sua misericórdia, dar por não feito o feito, e abolir com suavidade do Espírito os delitos da vida passada.” (S. Clemente, Livro sobre a Salvação dos rico, 40)
Jesus propõe uma nova mentalidade, onde assevera o sentimento de amor a perdão. A nova experiência do Reino de Deus é pura misericórdia ao pecador contrito. Na comunidade de Cristo todos que desejarem, sinceramente, e de coração, podem alcançar a salvação. Deus não olha para o passado, nem fica atrás de nossos delitos, ele quer saber é se estamos dispostos a começar, hoje, o caminho de santidade. Jesus não prega um Deus contabilista, calculador de pecados, ele é o Pai das misericórdias. O Pai deseja, como nos ensina Gregorio de Nissa, é que choremos nossos pecados, nos repelemos com nossos maus comportamentos, que não fiquemos inertes ao mau. Por isso, que a santidade é uma virtude dos fortes; porque santo não é quem não pecou, mas sim quem luta, todo dia, para não pecar mais. Ser santo é dizer todos os dias ao levantar: “só por hoje, não quero mais pecar..., Só por hoje, náo vou falar mau de ninguém, só por hoje, não vou mentir, só por hoje, não vou trair... PHN sempre ao pecado.
Comentando o Evangelho de Mateus São João Crisóstomo afirma: “Porque estes dois filhos manifestam o que aconteceu com os judeus e com os gentios.  Porque foi assim que os gentios, que não tinham prometido obedecer e nunca ouviram a lei, em suas obras mostraram sua obediência; e os judeus, que disseram: tudo quanto o Senhor disser o faremos e obedeceremos, mas em obras lhe desobedeceram. Justamente Porque não pensaram que a lei lhes serviriam para alguma coisa, ele lhes faz ver que ela seria motivo de maior condenação.” (São João Crisóstomo, Sermão sobre o Evangelho de Mateus, 67) Por orgulho, vaidade e arrogância muitos criam máximo obstáculo à salvação. Por isso, surge muito a propósito, a exortação de São Paulo à Virtude da humildade: “Tende entre vós o mesmo sentimento que existe em Cristo Jesus. Ele que era de condição divina… esvaziou-se a Si mesmo, assumindo  a  condição de escravo, tornando-se igual aos homens” ( Fl.2,5-7).Se o Filho de Deus Se humilhou ao ponto de carregar sobre Si os pecados  dos homens ,será pedir muito que estes sejam humildes no reconhecimento do seu orgulho e dos seus pecados?
Peçamos ao Senhor a graça da humildade, ensina São João Maria Vianês, o Cura D’Ars, “é a porta pela qual passam as graças que Deus nos outorga; é ela que amadurece todos os nossos atos, dando-lhes valor e fazendo com que sejam  agradáveis a Deus. Finalmente, constitui-nos donos do coração de Deus, até fazer Dele, por assim dizer nosso servidor, pois Deus nunca pode resistir  a um coração humilde”.  É uma virtude que não consiste essencialmente em reprimir os impulsos da soberba, da ambição, do egoísmo, da vaidade… Trata-se de uma virtude que consiste fundamentalmente em inclinar-se diante de Deus e diante de tudo o que há de Deus  nas criaturas, em reconhecer a nossa pequenez  e indigência em face da grandeza do Senhor. São Vicente dizia as Filhas da Caridade: “O espírito das Filhas da Caridade é a humildade e ela [uma irmã] está cheia de orgulho. Isso é ser semelhante ao diabo e pior que o diabo. Ai! Se fôssemos humildes, deveríamos nos julgar todos piores que o diabo! Não se trata de uma imaginação, mas de uma verdade: pois, se o diabo não se tivesse obstinado em seu pecado e tivesse recebido a mais pequena graça que nós recebemos, a haveria usado melhor que nós” ( COSTE, IX, 945) O que Deus quer de nós é a humildade nos comportamentos, a firmeza na fé, respeito à sua Palavra, gratidão nas ações, misericórdia nas obras, moderação nos costumes, e tolerância uns com os outros. 
       Que Deus nos fortaleça para o bom combate da fé, com a ajuda augustíssima de sua Mãe a virgem de Nazaré. Amém!

Pe. Fantico Borges, CM  

domingo, 24 de setembro de 2017

HOMILIA DO XXV DOMINGO DO TEMPO COMUM ANO A

HOMILIA DO XXV DOMINGO DO TEMPO COMUM ANO A

OS SALÁRIO DO OPERÁRIO FIEL É A VIDA ETERNA

Na meditação deste domingo, novamente, o Senhor, falando em parábolas, anuncia ao povo a salvação. O caminho salvador é uma graça que Deus abre a todas as pessoas, mesmo aquelas chamadas nas últimas horas. Essa referencia final, com muita certeza, faz-se aos convertidos que vinham das diásporas e fora da palestina, no qual podemos nos incluir. A mensagem de Jesus é um convite a todos os povos de todos os tempos. No reino de Deus ninguém fica de fora. Todos encontram um espaço. Urge estar a disposição do convite de Cristo. Pelo modo como o Senhor nos ama, o ser humano jamais poderá compreender as atitudes divinas, sem a predisposição em abrir-se àquele que chama.  
Torna-se um grande perigo querer reduzir Deus à medida de nossos pensamentos, ou mesmo, condicionar o comportamento do Altíssimo às nossas categorias de justiça e de bondade. Deus está muito acima do homem, muito mais do que está o céu acima da terra (Is 55,9); por isso, muitas vezes os projetos da sua providência são incompreensíveis à inteligência humana, que os deve aceitar com humildade, sem pretender julgá-los. Quantas vezes ficamos aquém das maravilhas que Deus nos preparou! Quantas vezes os nossos planos se revelam tão estreitos!
Com a parábola de hoje no Evangelho o Senhor não deseja dar-nos uma lição de moral salarial ou profissional, mas sublinhar que, no mundo da Graça, tudo é um puro dom, mesmo o que parece ser um direito que nos assiste pelas nossas boas obras. A salvação não é algo conquistado pelo tamanho do esforço, mas pela intensidade com que se lança ao trabalho de Deus. A murmuração, a cobrança e exigência da salvação pelos obras revelam um coração interesseiro e sem Deus, pois Deus ama quem dar com alegria e gratuitamente, porque foi assim que ele fez e quer que façamos. Por isso, que fomos chamados a diferentes horas para trabalhar na vinha do Senhor, só temos motivos de agradecimento. A chamada, em si mesma, já é uma honra. “Não há ninguém, afirma São Bernardo, que, por pouco que reflita, não encontre em si mesmo poderosos motivos que o obriguem a mostrar-se agradecido a Deus.
Seja qual for o tempo de nossa conversão Deus sempre nos acolhe. No Evangelho de Mateus estes homens encontrados pelo patrão (Deus Uno e Trino), já no final do dia, queriam trabalhar, mas ninguém o contratou. Eram ociosos por falta de Senhor que os contratassem. Jesus passou no mundo chamando a todos a ingressarem na vinha do Senhor. Instara-se o tempo kairótico da graça do Senhor; um convite escatológico ao reinado de Deus, que age por misericórdia. Segundo Santo Efrém, o Senhor “ensinou que, seja qual for o momento de sua conversão, todo homem é acolhido...” (Diatessaron, 15, 15-17). Fica evidente que Jesus desde o início do seu ministério pastoral sempre procurou convidar todos a seguir o caminho do Reino, ou seja, “ saiu de madrugada para contratar trabalhadores”; saiu também até na undécima  hora, a fim de ninguém ficar sem trabalho, nem usassem a desculpa  de que não foram chamados.   
É importante notarmos, neste momento, o apelo que faz o profeta Isaías ao Israel desviado: “Abandone o ímpio seu caminho, e o homem injusto, suas maquinações; volte para o Senhor, que terá piedade dele” (Is 55,7). Ora, desde primeiro instante da profecia de Israel o Senhor apresenta-se com misericordioso, sempre pronto a acolher. Esse convite de Deus, através do oráculo, manifesta a sede que Deus tem do ser humano. Quer chamar todos os seus filhos e reuni-los novamente: “quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha recolhe os seus pintinhos debaixo das suas asas, e não o quiseste!” (Mt 23, 37). A recusa de muitos é causa de dor no coração de Jesus, que veio para que todos tenham vida. O apelo de Deus se renova em cada eucaristia celebrada, pois, Ele passa chamando os operários ao Reino: Não fecheis teu coração, ouvi hoje a voz de Deus. Entente ó filhos que Deus não estipula um tempo para a conversão, mas sempre estar atento ao nosso movimento de procura divina. E quando nos encontra oferece-nos tudo de si.
Ao contrario das atitudes divinas são aquelas humanas atitudes desordenadas, que visão a satisfação pessoal, a retribuição meritória. Os operários das primeiras horas reclamam da bondade do patrão que os iguala aos que trabalharam menos. A queixa gira em torno do valor da graça alcançada. Dirá Santo Agostinho: “o que significa esse gesto de pagar a diária começando pelos últimos? Não lemos  em outra passagem do Evangelho que todos receberão simultaneamente a recompensa?” Ora, a moeda de prata aqui se chamaria na teologia a vida eterna. Se todos receberão o denario ao mesmo tempo, como entender o que aqui se diz sobre o primeiro receberão a diária, os contratados ao entardecer, e, por último, os do amanhecer? Santo Agostinho alude nestes termos: “ No que se refere a retribuição, todos seremos iguais: os últimos como os primeiros, e os primeiros como os últimos, pois aquele denario é a vida eterna, e na vida eterna todos são iguais.”  Tanto Abel, Abraão, Moises, os profetas, os Santos, como nós, receberemos o salário divino.  Mesmo que aja diversidade de méritos e brilhem diversamente os eleitos, mas no que se refere à vida todos serão iguais. É por isso que Deus fez entrar na vida eterna o ladrão que no suplicio da cruz se arrependeu. Não é o ladrão um operário da undécima hora? Claro que sim! Como eu, como você somos trabalhadores do entardecer.  
Como já citei acima não podemos nem devemos enquadrar Deus nos nossos planos humanos finitos e imperfeitos. Deus é mais; seus caminhos são infinitamente maiores e melhores que nos nossos. Sendo assim, tenhamos cuidado para não sentar Deus no banco dos réus e julgá-lo injustamente. O melhor que podemos fazer quando não entendermos os projetos de Deus é ser-lhe dóceis acreditando que ele sabe mais e faz melhor do que nós. Por mais evidente que seja, é preciso que nos lembremos disso para que, inconscientemente, não tomemos o lugar de Deus.
Cabe, portanto, pensar que todo nosso esforço ainda será pouco para comparar-se com a gradíssima graça dada por Deus a nós. Como afirma Efrém, “somos contratados para um trabalho proporcionado às nossas forças, porém nos propõe um salário muito acima do que o nosso trabalho merece...” aquilo que damos a Deus é muito pouco e inferior a sua dignidade. Por isso, não nos cabe reprovar a bondade de Deus que deseja salvar os últimos em primeiro. Deus se oferece livre e gratuitamente, e nisso mostra a sua paixão e compaixão por todos.

Pe. Fantico Borges, CM


domingo, 17 de setembro de 2017

Homilia do Pe. Fantico - XXIV domingo comum ano A

Homilia do Pe. Fantico - XXIV domingo comum ano A

O perdão caminho de mão dupla. 

Hoje a palavra de Deus nos leva a refletir sobre o PERDÃO. Nesta liturgia dominical o Senhor se coloca como modelo perfeito de perdão divino. Deus exige do pecador, apenas, um gesto de misericórdia para com o outro. Diz o Senhor no livro do Eclesiástico: “Quem se vingar  encontrará a vingança do Senhor, que pedirá severas contas dos seus pecados. Perdoa a injustiça cometida por teu próximo: assim quando orares, teus pecados serão perdoados. Se alguém guarda raiva contra o outro, como poderá pedir a Deus a cura para si? Senão tem compaixão do seu semelhante, como poderá pedir que Deus tenha misericórdia de seus pecados?” (Eclo 28, 1-4.) Quem deseja a misericórdia para si deve se reconciliar com seus irmãos. A proposta de Jesus pressupõe uma radicalidade infinita: perdoa não apenas sete vezes mais sim setenta vezes sete. Para o santo Padre o Papa Francisco a atitude do perdão está implícita no Pai-nosso: arrepender-se com sinceridade dos próprios pecados, sabendo que Deus perdoa sempre. O papa alude que tudo parte de nós. Quando nos apresentamos para pedir perdão temos consciências dos nossos atos e a necessária busca de reconciliação com Deus e os irmãos.
Há uma diferença grande entre o pecado e a desculpa. Perdão é algo que envolve todo ser de quem perdoa e é perdoado. “Pedir perdão é diferente de pedir desculpa. Eu errei? Mas me desculpe, errei… Pequei! Não tem nada a ver uma coisa com outra. O pecado não é um simples erro. O pecado é idolatria, é adorar o ídolo, o ídolo do orgulho, da vaidade, do dinheiro, do eu mesmo, do bem-estar… Tantos ídolos que nós temos. E, por isso, Azarias, no antigo testamento, não pede desculpas, pede perdão”.  O perdão deve ser pedido com sinceridade, com o coração, e de coração deve ser doado a quem cometeu um deslize. Como o patrão da parábola contada por Jesus, que perdoa um grande débito movido pela compaixão diante das súplicas de um dos seus servos. E não como aquele mesmo servo faz com outro servo, tratando-o sem piedade e mandando-o à cadeia, mesmo que a dívida fosse irrisória. A dinâmica do perdão – recordou o Papa – é aquela ensinada por Jesus no “Pai-Nosso”.

A pergunta de Pedro é a procura sobre a essência de Deus como perdão-misericórdia. Em outras palavras se pergunta até onde Deus pode dar o perdão. Pensando que o perdão é uma prerrogativa de Deus; e Pedro, vivia, num mundo, em que a concepção judaica limitava o perdão aos justos, essa questão gira sobre a proposta de salvação, na qual Jesus anunciava, ou seja, um Deus que não impõe limites ao perdão. Sempre é hora de perdoar.  Jesus revela um caminho de Reconciliação, onde todos estão incluídos: pobres, ricos, pecadores, publicados e justos.  
Jesus ao propor a resposta para Pedro alude o caminho da reconciliação: ter a mesma atitude de Deus para com o pecado alheio. Santo Agostinho, pensando no pecado de Judas, escreveu: “se ele tivesse orado em nome de Cristo teria pedido perdão, se tivesse pedido perdão teria esperança, se tivesse esperança teria esperado na misericórdia e não teria se enforcado desesperadamente”.  Pedro que também pecou acreditou no poder da esperança que salva e alcançou a graça da reconciliação. Não temos motivo para desesperar-nos.  O pensamento de São Máximo de Turim é irrefutável: “se o ladrão obteve a graça do paraíso, por que o cristão não há de obter o perdão?”. Sendo assim, confiemos sempre na misericórdia do Senhor, façamos um propósito de mudança de vida, confessemos os nossos pecados.
Santo Tomás de Aquino na suma teológica diz que a cegueira da mente não é pecado, mas a insensatez ou o embotamento da alma, de não querer mudar de vida, isso sim leva a morte. Comecemos novamente! Perdoando os nossos semelhantes, quantas vezes for preciso, estaremos imitando o próprio Deus e essa semelhança nas ações atrairá maiores graças para as nossas futuras decisões.
O perdão constrói as relações de amizade e todas as relações sociais. Quanto há compreensão e perdão entre amigos, essa amizade perdurará apesar dos pesares. Os nossos amigos são pessoas como nós, com virtudes e defeitos; se nós, porém, não compreendermos que eles nem sempre se comportarão virtuosamente é sinal de que ainda não somos bons amigos. Até Deus permite que nós erremos, deixa que pequemos, isto é, Deus respeita até o mau uso da nossa liberdade e… continua nos amando, nos perdoando. Nós não podemos sufocar as pessoas sendo intransigentes e insuportáveis; ao contrário, devemos compreender quem está no erro sem minimizar as exigências da doutrina e da moral cristã.
Por fim diz santo Agostinho: “Perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido; digamo-lo com um coração sincero e façamos o que dizemos. É um compromisso que fazemos com Deus, um pacto e um agrado. O Senhor teu Deus te diz: Perdoa e eu perdoo. Não perdoaste? Tu te voltas contra ti mesmo, não eu”. S.56,9,13


Pe. Fantico Borges,CM

sábado, 9 de setembro de 2017

Homilia do Pe. Fantico – XXIII domingo do tempo comum ano A

Homilia do Pe. Fantico – XXIII domingo do tempo comum ano A

Corrigir sim, mas com caridade!

A liturgia da Palavra deste domingo traz o tema da correção fraterna, muito importantes à vida cristã. Corrigir é o eixo no qual se sustenta a mensagem de Jesus sobre o Pai das misericórdias que sempre busca ajudar o ser humano a alcançar a perfeição. Cristo veio corrigir o que estava desordenado, recapitular o horizonte da esperança de Israel, que havia perdido o rumo de Deus: corrigir as distorções da relação entre Deus e ser humano e entre os irmãos uns com os outros. 
No cristianismo, a correção fraterna sempre foi o um bem admirado, ainda que, frequentemente, pouco compreendido e, talvez, praticado com escassez. Jesus propõe, com uma dinâmica judaica do seu tempo, o modo como corrigir partir do amor divino. À pessoa que é corrigida, o Senhor lhe dirige essas palavras:  “aquele que ama a correção ama a ciência, mas o que a detesta é um insensato” (Prov 12,1).   Quem ama a correção sempre encontra forma de crescer e nunca ficará vazio.
Às vezes me pergunto: queremos que os outros nos ajudem? Desejamos que os nossos irmãos nos corrijam? Temos essa sensatez de quem é consciente de que sozinho não podemos chegar à meta da santidade e de que, portanto, necessitamos da ajuda dos irmãos na fé? São Cirilo dizia que “a repreensão que melhora os humildes costuma ser intolerável aos soberbos”. Todo processo de mudança nasce do desejo de deixar-se corrigir pelos outros. Mas como fazer a correção ser fraterna?
Em Mt 18,15-20, Jesus fala aos seus discípulos sobre a liberdade espiritual necessária para restaurar a boa convivência e a amizade entre as pessoas. Jesus alude que não se trata simplesmente de um procedimento social ou de uma reconciliação da boca para fora, mas de uma atitude mística, nascida da comunhão com Deus. Corrigir é amar e deixar-se corrigir é fazer-se amor na esteia da santidade.
A partir do amor fraterno pode-se vislumbrar a paz como fruto do cristianismo real. A paz e a união devem prevalecer sempre; para tanto, a vigilância dos homens em relação a isso há de ser constante, e não menos incessante o desejo da correção fraterna: reorientar a partir do Agapé de Deus as relações humanas, eis uma chave para superar os conflitos hodiernos.
O modo como Jesus apresenta a correção fraterna aos discípulos – e podemos nos incluir entre eles – é bastante simples. Exige apenas um pouco de sensibilidade e delicadeza. Para alcançá-la, há três etapas possíveis. Na primeira, tentamos resolver a questão pessoalmente. É especial essa forma porque corrigir sem respeito é violentar o irmão. A correção sem caridade é agressão ao outro. Um segundo novel é contar com a ajuda de mediadores, que servirão de testemunhas da reconciliação. Neste caso, como na cultura judaica, apelava-se ao testemunho de outros para resolver a querela. Se ainda assim fracassem recorre-se aos representantes da Igreja. Neste caso, entra a função sacramental do sacerdote. Desta forma se recorre, antes, a todo tipo de tentativa para não se perder o irmão.
Temos a obrigação de repreender imediatamente nosso irmão para que, ao nos fazer o mal, ele não permaneça no pecado. Escreve São Jerônimo: “Não só temos o poder de perdoá-lo, mas somos obrigados a fazê-lo, pois nos foi ordenado perdoar os que nos ofenderam”. Aquele que pensa ser mais fácil esquecer a ofensa e deixar o pecador entregue ao seu próprio destino está bastante enganado. O que deve nos mover é o desejo de realizar em nosso irmão uma mudança de conduta que transforme sua vida. Recomenda Santo Agostinho: “Ainda que ele não seja considerado mais, pela Igreja, como um dos teus irmãos, nem por isso deixes de te preocupar com a sua salvação”.
      Como irmãos em Cristo, temos o dever de corrigir-nos e rezarmos uns pelos outros. Esta correção deverá ser feita sempre com amor, com discernimento, com caridade fraterna. São Bento, na sua Regra, dá uma recomendação singular, ao prescrever: “Socorrer na tribulação” (RB 4,18). Mas, a expressão latina usada por São Bento é “In tribulationem subvenire”. A palavra “subvenire” pode ser traduzida por “vir por baixo, vir de baixo”. Ou seja, socorrer sim, corrigir sim, mas com a humildade de quem vem por baixo para sustentar, amparar e ajudar, para salvar. Corrigir, sim, mas como Deus, que em Jesus, veio por baixo, na humildade de um presépio e na humilhação da cruz.



Pe. Fantico Borges, CM 

domingo, 3 de setembro de 2017

Homilia do Pe. Fantico – XXII domingo do Tempo comum ano A

Homilia do Pe. Fantico – XXII domingo do Tempo comum ano A

A Cruz de Jesus, caminho de salvação!

Neste, domingo da XXII semana do tempo comum, a palavra de Deus vem os mover o olhar para a Cruz de Jesus, como caminho a percorrer todos os que querem seguir os passos de Cristo. A vida hodierna com as técnicas modernas de busca do bem-estar social vem cada vez mais movendo os sentimentos hedonistas de fuga da dor e sofrimento, como formas de satisfação humana. A ousadia religiosa agora é alcançar a salvação sem passar pela experiência da kenosis, ou seja, deseja-se chegar a salvação de Jesus sem passar pela paixão e morte.
Quem busca um Cristo sem Cruz acaba, por fim, encontrando-se com uma cruz sem Cristo. Já nos ensinava no seu magistério o Papa São João Paulo II: “A Cruz é o livro vivo em que aprendemos definitivamente quem somos e como devemos atuar. Este livro está sempre aberto diante de nós”(Alocução, 01/04/1980). Neste sentido a fé permite-nos ver e experimentar que sem sacrifício não há amor, não há alegria verdadeira, a alma não se purifica, não encontramos a Deus. O caminho da santidade passa pela Cruz, e todo o apostolado fundamenta-se nela. A mortificação que é inerente a vida de Jesus de Nazaré incide sobremaneira na vida discipular dos seguidores do Caminho. Quem procura a Deus sem sacrifício, sem Cruz, não O encontrará. Para ressuscitar com Cristo, temos que acompanha-Lo no seu caminho para a Cruz: aceitando as contrariedades e tribulações com paz e serenidade; sendo generosos na mortificação voluntária, que nos faz entender o sentido transcendente da vida e reafirma o senhorio da alma sobre o corpo. Devemos ter em conta que a Cruz que anuncia Cristo é escândalo para uns e loucura e insensatez para outros (cf. 1 Cor 1,23).
A atitude do profeta Jeremias é aquela humana compreensão que a dor e o sofrimento são demais para suportar. Tantas vezes esquecemos que o sofrimento está condicionado à vida imerso na existência do ser que vive. Mas que existem dois modos de encarar o sofrimento: como condição natural do ser vivente, e como fruto dos atos. O sofrimento salvífico é aquele que voluntariamente aceitamos suportar, mesmo sem merecer, em amor a Cristo. O Papa São João Paulo escrevia: “O sofrimento deve servir à conversão, isto é, à reconciliação do bem no sujeito, que pode reconhecer a misericórdia divina este chamamento à penitência” (Salvifici doloris, 12). A partir do entendimento do sofrer por amor a Cristo, então, o amor divino torna-se fonte mais rica sobre o sentido do sofrimento, que sempre continua um mistério.
A atitude de Pedro reporta seu imenso carinho por Jesus, Simão procura afastá-Lo do caminho da Cruz, sem compreender ainda que ela será um grande bem para a humanidade e a suprema demonstração do amor de Deus por nós. Comenta São João Crisóstomo: ”Pedro raciocinava humanamente e concluía que tudo aquilo – a Paixão e a Morte – era indigno de Cristo e reprovável.” Aqui também podemos notar que nem os discípulos compreendiam qual o signo do Cruz para Jesus. A expectativa messiânica dos contemporâneos de Jesus rejeitavam todo e qualquer relação de fraqueza, por isso a atitude de Pedro em reprovar as palavras de Jesus. Pedro penava num rei dravídico que iria recuperar o esplendor de Israel. A resposta de Jesus é teológica, ou seja, remete ao entendimento de Deus: vai para longe satanás! Recordando as mesmas palavras ditas ao demônio na tentação do deserto. Ver-se clara a oposição entre o mundo e Deus; o céu e a terra; as coisas do alto e as debaixo. A incompatibilidade entre querer viver para esse mundo e querer buscar o Reino de Deus. Pedro, naquele momento, não chega a entender que, por vontade expressa de Deus, a Redenção se tem de fazer mediante a Cruz e que “não houve meio mais conveniente de salvar a nossa miséria” (Sto. Agostinho).
Tem pessoas que não conseguem sair deste mundo escravagista das coisas e necessidades; não conseguem avançar as águas profundas do seu ser, porque como galinhas vivem ciscando no terreiro da vida sem poder olhar ao azul celestial que consiste em  seu verdadeiro horizonte. Temos que lembrar a todos que não ponham o coração nas coisas da terra, que tudo é caduco, que envelhece e dura pouco. ”Todos envelhecerão como uma veste” (Hb 1,11).Somente a alma que luta por manter-se em Deus permanecerá numa juventude sempre maior até que chegue o encontro com o Senhor. Todas as outras coisas passam, e depressa.
Jesus recorda-nos hoje: ”Que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, se depois vier a perder a própria alma? O que poderá alguém dar em troca de sua vida?” (Mt 16,26). Antes, falou: ”Quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim vai encontrá-la.” Mas como entender esse dilema: somos do céu, buscamos ver Deus, chegar até ele, mas desejamos, e é humanamente cristão buscar cuidar-se para viver mais e melhor! Então o que pensar? Será que devemos realmente cair fora da corrente do mundo e renegar-nos como homens para sermos cristãos? Não, porque a renúncia que Jesus exige é, na realidade, a mais alta auto-realização, é a nossa verdadeira recuperação: porque perder a nós mesmos é o modo melhor para nos reencontrar: porque quem perde sua vida vai encontra-la. Aqui o Evangelho chama-nos ao retorno a casa paterna, ao coração de Deus. E somente estamos no coração de Deus quando toda nossa vida estiver nEle, com Ele e por Ele. somente quando nos oferecermos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, e assim não nos conformamos com o mundo mais transformamos nosso modo de ser e viver segundo a vontade de Deus.  

    Pe. Fantico Borges, CM

sábado, 26 de agosto de 2017

HOMILIA DO PE. FANTICO – XXI DOMINGO DO TEMPO COMUM ANO A.

HOMILIA DO PE. FANTICO – XXI DOMINGO DO TEMPO COMUM ANO A.
NA RESPOSTA DE FÉ DE PEDRO A IGREJA ESTÁ UNIDA A CRISTO!
A liturgia deste domingo traz aos nossos corações aquelas palavras de Jesus a Pedro: “Feliz de ti, Simão, filho de Jonas..” Oh que felicidade receber do próprio redentor essas suaves palavra! Mas, o contexto em que foram proferidas estava recheada de revelações. O Evangelho (Mt 16, 13-20) nos apresenta Jesus com os seus discípulos em Cesareia de Filipe. Enquanto caminham, Jesus pergunta aos Apóstolos: “Quem dizem os homens ser o Filho do homem?” E depois que eles apresentaram as várias opiniões que as pessoas tinham, Jesus pergunta-lhes diretamente: “E vós, quem dizeis que eu sou?”. Segunda São Leão Magno, “o senhor pergunta a todos os apóstolos o que os homens pensavam a seu respeito, porém, o que estava posto em revelo era o desejo de saber quem eles entendiam ser o Filho do Homem. A resposta como tal é início de uma fé madura e íntima. A resposta é tomada de teofania, e como na ordem do chamado Pedro toma a palavra e responde: “ Tu és o Cristo,   o Filho de Deus vivo”. A indagação se move da esfera social para teologal. Novamente São Leão magno faz lembrar que a declaração de Jesus acerca da revelação de Pedro faz parte da vontade absoluta de Deus em revelar-se aos homens pelo Filho Unigenito: “Como o Pai te manifestou a minha divindade, assim também te faço conhecida tua excelência”.
A vida de intimidade com Jesus exige uma visão pessoal acerca de sua identidade. Disse  São João Paulo II, em 1980: “Todos nós conhecemos esse momento em que já não basta falar de Jesus repetindo o que os outros disseram, em que já não basta referir uma opinião, mas é preciso dar testemunho, sentir-se comprometido pelo testemunho dado e depois ir até aos extremos das exigências desse compromisso. Os melhores amigos, seguidores, apóstolos de Cristo, foram sempre aqueles que perceberam um dia dentro de si a pergunta definitiva, incontornável, diante da qual todas as outras se tornam secundárias e derivadas: “Para você, quem sou Eu?”  Todo o futuro de uma vida “depende da nossa resposta nítida e sincera, sem retórica nem subterfúgios, que se possa dar a essa pergunta”. Neste sentido, a resposta de Pedro é a mesmo da Igreja na sua mais profunda intimidade.
Essa pergunta encontra particular ressonância no coração de Pedro, que, movido por uma graça especial, respondeu: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. Jesus chama-o bem-aventurado (Feliz és tu, Simão…) por essa resposta cheia de verdade, na qual confessou abertamente a divindade dAquele em cuja companhia andava há vários meses. Esse foi o momento escolhido por Cristo para comunicar ao seu Apóstolo que sobre ele recairia o Primado de toda a sua Igreja: “Por isso eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la…”. A confissão vem imbuída de uma grande missão. Graças à escuta de sua palavra e à cotidiana convivência,  Discípulo reconheceu o Messias porque a revelação do Pai encontrou nele abertura e acolhida. Quer dizer, descobre a verdade dos desígnios de Deus quem se deixa iluminar pela luz da fé. Com razão, reconhece o Documento de Aparecida: “A fé em Jesus como o Filho do Pai é a porta de entrada para a Vida.”  Como discípulos de Jesus, confessamos nossa fé com as palavras de Pedro: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” (DAp, 100).
Essa resposta convincente de fé nasce do conhecimento e da intimidade, profunda, com o Mestre. A busca por estar com o Senhor, aos seus pés, ouvindo e vendo seus milagres, prodígios e portentos. Conhecer, então, Jesus Cristo e saber sempre mais sobre sua pessoa, e obra, tem seu caminho pela leitura e meditação dos Evangelhos, e pelos encontros com Ele por meio da ação litúrgica, em particular, dos sacramentos.
“Tu és Pedro…”. Pedro será a rocha, o alicerce firme sobre o qual Cristo construirá a sua Igreja, de tal maneira que nenhum poder poderá derrubá-la. E foi o próprio Senhor que quis que ele se sentisse apoiado e protegido pela veneração, amor e oração de todos os cristãos. Se desejamos estar muito unidos a Cristo, devemos estar sim, em primeiro lugar, a quem faz as suas vezes aqui na terra: o Papa. O nosso amor pelo Romano Pontífice não é apenas um afeto humano, baseado na sua santidade, simpatia, etc. Quando vamos ver o Papa, escutar a sua palavra, fazemo-lo para ver e ouvir o Vigário de Cristo, o “doce Cristo na terra”, na expressão de Santa Catarina de Sena, seja ele quem for. O Romano Pontífice é o sucessor de Pedro; unidos a ele, estamos unidos a Cristo.
Aquele que detém “as chaves” não pode usar a sua autoridade para concretizar interesses pessoais; mas deve exercer o seu serviço como um pai que procura o bem dos seus filhos, com solicitude e dedicação. Define em que consiste o verdadeiro serviço “das chaves”, o serviço da autoridade: ser um pai para aqueles sobre quem se tem responsabilidade e procurar o bem de todos com solicitude, com amor, com justiça.  Nos tempos antigos, “administrador do palácio”, entre outras responsabilidades, administrava os bens do soberano, fixava o horário da abertura e do fechamento das portas do palácio e definia quais os visitantes a introduzir junto do soberano. Assim como na primeira leitura de hoje o Senhor entregou a administração para outro que cuide com amor na sua casa, da mesma forma, Jesus entrega a Pedro a administração da Igreja. Nas palavras de São Cipriano “A Pedro se dá a primazia para se crer uma a Igreja e a Cátedra de Jesus Cristo. Todos são pastores, porem todos de um só rebanho, que unânimes apascentam a todos”.    
O ministério de Pedro consiste em fazer com que a Igreja de Cristo não se perca por ideologias e culturas, mas conserve intacta a unidade que só em Cristo alcança seu apogeu. Por conseguinte, a missão de Pedro consiste em servir a unidade interior que provém da paz de Deus, a unidade de quantos, em Jesus Cristo, se tornaram irmãos e irmãs, ovelhas do mesmo rebanho.
Uma conclusão brota da profissão de fé de Pedro: “tu és o Filho do Deus vivo!” Simão sabia quem era Jesus porque criou com ela uma relação de proximidade, de discípulo e mestre. Esse mesma pergunta do Cristo ressoa ainda hoje: “ E vós, quem dizeis que eu sou?” Cada resposta revelará seu grau de intimidade à medida, que o discípulo se assemelhar com seu mestre. Por isso, que uma forma de observamos se nossa resposta é pueril ou nasce da intimidade vejamos como nos afeiçoamos ao Senhor.

Pe. Fantico Borges, CM 

sábado, 19 de agosto de 2017

Homilia do Pe. Fantico – da Assunção de Nossa Senhora

Homilia do Pe. Fantico – da Assunção de Nossa Senhora

Viva a Maria, esperança de Deus realizada!

Neste domingo a igreja no Brasil celebra a festa da solenidade da Assunção de Nossa Senhora. Festa essa celebrada dia 15 de agosto, mas que por razões pastorais foi transferida para este domingo; a fim de atrair mais fieis para esta solenidade da Mãe de Deus. Nosso desejo como fieis cristãos é conseguir do Senhor o que Maria, sinal glorioso da Igreja, já conseguiu. Esperamos estar completos, corpo e alma, com o Senhor. Ao contemplar a Mãe de Deus de maneira tão gloriosa no dia de hoje, os nossos corações se enchem de luz e de esperança.
Desde de S. João Damasceno e S. Germão de Constantinopla que pregavam abertamente a existência da incorruptibilidade do corpo de Nossa Senhora e assim se associa a não-corrupção da carne imaculada de Maria. A este respeito Afirma S. Jõao Damasceno “que ao comparar a assunção gloriosa da Mãe de Deus com as suas outras prerrogativas e privilégios, exclama com veemente eloqüência: "Convinha que aquela que no parto manteve ilibada virgindade conservasse o corpo incorrupto mesmo depois da morte. Convinha que aquela que trouxe no seio o Criador encarnado, habitasse entre os divinos tabernáculos. Convinha que morasse no tálamo celestial aquela que o Eterno Pai desposara. Convinha que aquela que viu o seu Filho na cruz, com o coração traspassado por uma espada de dor de que tinha sido imune no parto, contemplasse assentada à direita do Pai. Convinha que a Mãe de Deus possuísse o que era do Filho, e que fosse venerada por todas as criaturas como Mãe e Serva do mesmo Deus". A essa teoria deu-se o nome de Dormição de Nossa Senhora. A festa da Dormição de Nossa Senhora foi celebrada primeiramente em Jerusalém. Mas para os antigos, “dormição” não significava necessariamente ausência de morte. Defensor da Assunção de Nossa Senhora na Idade Média foi o assim chamado “Pseudo-Agostinho” (século IX). Baldo de Ubaldi, no século XV, também foi um grande defensor desta verdade de fé. Finalmente, o Papa Pio XII definiu solenemente o dogma da Assunção no dia 1 de novembro de 1950 através da Constituição “Munificentissimus Deus”. Inclusive o nome desta constituição deixa claro que se trata de uma graça de Deus “munificentissimus”, isto é, generosíssimo.  Uma graça tal que é um privilégio: Maria recebeu o privilégio de que nela fosse antecipado aquilo que acontecerá com todos os eleitos.
O Papa sentencia “que é dogma divinamente revelado: que a Imaculada Mãe de Deus e sempre Virgem Maria, ao término de sua vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória do céu”. É interessante que antes do Papa definir o quarto dogma sobre Nossa Senhora, ele recorde os outros três: Mãe de Deus, sempre Virgem (antes, durante e depois do parto), Imaculada. Pio XII não diz se Maria, antes de ser elevada ao céu, morreu ou não: isso continua como tema aberto à livre discussão teológica, isto é, pode-se defender uma ou outra coisa. O que todos devem reter como doutrina de fé solenemente definida é que ela, Nossa Senhora, foi elevada em corpo e alma aos céus, antecipadamente, como privilégio.
Quanto à morte de Nossa Senhora, parece muito mais acertado afirmar que ela realmente morreu e somente depois teria sido elevada aos céus. Por um lado, quando os antigos Padres falavam de “dormição” eles falavam também de morte. De fato, não é difícil encontrar textos na patrística que transmitam uma dormição de Jesus na Cruz referindo-se à sua morte real. Por outro lado, o desejo de imitar a Cristo que estava no coração de Nossa Senhora faz com que seja mais conveniente que ela imite o seu filho também nisso e se una, desta maneira, ao valor redentor do seu mistério de cruz.
Desta festa da Assunção de Nossa Senhora podemos tirar para nossa vida prática que ela  é sinal de esperança para nós. O Concílio Vaticano II afirmou: “Entretanto, a Mãe de Jesus, assim como, glorificada já em corpo e alma, é imagem e início da Igreja que se há de consumar no século futuro, assim também, na terra, brilha como sinal de esperança segura e de consolação, para o Povo de Deus ainda peregrinante, até que chegue o dia do Senhor (cfr. 2 Ped. 3,10)” (Constituição Dogmática sobre a Igreja, Lumen Gentium, nº 68).
Maria como pregoeira da Esperança escatológica de Jesus acena à meta anelada por cada um de nós. A esperança é virtude sobrenatural, teologal, uma disposição plantada pelo Senhor na nossa alma que nos une a ele através da vontade, do desejo. Esperamos em Deus e nos auxílios (graças) que ele nos concede para alcançá-lo. Temos a firme esperança de chegar ao céu, à bem-aventurança eterna. É nesse sentido que a Assunção de Maria nos anima a continuar com os olhares fixos na meta: uma como nós conseguiu aquilo que nós conseguiremos. O nosso caminho rumo ao céu já foi selado por uma da nossa raça. Assim como ela chegou lá por graça, também nós chegaremos.
A Festa de hoje não é somente da Virgem Maria. Primeiramente, ela glorifica o Cristo, Autor da nossa salvação, pois em Maria aparece a vitória sobre a morte, que Jesus nos conquistou. A liturgia hoje exclama: “Preservastes, ó Deus, da corrupção da morte aquela que gerou de modo inefável vosso próprio Filho feito homem, Autor de toda a vida”. Este senhorio de Cristo aparece hoje radiante na sua Mãe toda santa: em Maria, Cristo venceu a morte de Maria! Em segundo lugar, a festa de hoje é também festa da Igreja, de quem Maria é Mãe e figura. A liturgia canta: “Hoje, a Virgem Maria, Mãe de Deus, foi elevada à glória do céu. Aurora e esplendor da Igreja triunfante, ela é consolo e esperança para o vosso povo ainda em caminho”. Sim! A Mãe Igreja contempla a Mãe Maria e fica cheia de esperança, pois um dia, estará totalmente glorificada como ela, a Mãe de Jesus, já se encontra agora. Finalmente, a festa é de cada um de nós, pois já vemos em Nossa Senhora aquilo que, pela graça de Cristo, o Pai preparou para todos nós: que sejamos totalmente glorificados na glória luminosa do Espírito do Filho morto e ressuscitado. Aquilo que a Virgem já possui plenamente, nós possuiremos também: logo após a morte, na nossa alma; no fim dos tempos, também no nosso corpo!
Estejamos atentos! A festa hodierna recorda o nosso destino, a nossa dignidade e a dignidade do nosso corpo. O mundo atual, por um lado exalta o corpo nas academias, no culto da forma física, da moda e da beleza exterior; por outro lado, entrega o corpo à sensualidade, à imoralidade, à droga, ao álcool… É comum escutarmos que o que importa é o “espírito”, que a matéria, o corpo passa… Os cristãos não aceitam isso! Nosso corpo é templo do Espírito Santo, nosso corpo ressuscitará, nosso corpo é dimensão indispensável do nosso eu.

Assim entregues a oração roguemos a Mãe de Deus que derrame sobre nós seu manto de amor. Que ela seja nossa advogada diante da Misericórdia do Pai, Filho e Espírito Santo. Amém! 

Homilia do XVIII Domingo do Tempo Comum (Ano C)

Homilia do XVIII Domingo do Tempo Comum (Ano C) Um homem vem a Jesus pedindo que diga ao irmão que reparta consigo a herança. Depois ...