sexta-feira, 20 de março de 2015

Norma litúrgicas para administração da Comunhão na Missa:

Norma litúrgicas para administração da Comunhão na Missa:
84.       O sacerdote prepara-se para receber frutuosamente o Corpo e Sangue de Cristo rezando uma oração em silêncio. Os fiéis fazem o mesmo orando em silêncio.
Depois o sacerdote mostra aos fiéis o pão eucarístico sobre a patena ou sobre o cálice e convida-os para o banquete de Cristo; e, juntamente com os fiéis, faz um ato de humildade, utilizando as palavras evangélicas prescritas.
85.       É muito para desejar que os fiéis, tal como o sacerdote é obrigado a fazer, recebam o Corpo do Senhor com hóstias consagradas na própria Missa e, nos casos previstos, participem do cálice (cf. n. 283), para que a Comunhão se manifeste, de forma mais clara, nos próprios sinais, como participação no sacrifício que está a ser celebrado.
86.       Enquanto o sacerdote toma o Sacramento, dá-se início ao cântico da Comunhão, que deve exprimir, com a unidade das vozes, a união espiritual dos comungantes, manifestar a alegria do coração e realçar melhor o carácter «comunitário» da procissão daqueles que vão receber a Eucaristia. O cântico prolonga-se enquanto se ministra aos fiéis o Sacramento. Se se canta um hino depois da Comunhão, o cântico da Comunhão deve terminar a tempo.
             Procure-se que também os cantores possam comungar comodamente.
87.        Como cântico da Comunhão pode utilizar-se ou a antífona indicada no Gradual Romano, com ou sem o salmo correspondente, ou a antífona do Gradual simples com o respectivo salmo, ou outro cântico apropriado aprovado pela Conferência Episcopal. Pode ser cantado ou só pela schola, ou pela schola ou por um cantor juntamente com o povo.
Se, porém, não se canta, a antífona que vem no Missal pode ser recitada ou pelos fiéis, ou por alguns deles, ou por um leitor, ou então pelo próprio sacerdote depois de ter comungado e antes de dar a Comunhão aos fiéis.
88.       Terminada a distribuição da Comunhão, o sacerdote e os fiéis, conforme a oportunidade, oram alguns momentos em silêncio. Se se quiser, também pode ser cantado por toda a assembleia um salmo ou outro cântico de louvor ou um hino.


Comunhão das hóstias consagradas na própria Missa:
Enquanto o sacerdote recebe o Sacramento, começa-se o canto da Comunhão (cf. n. 86).
160.       O sacerdote pega depois na patena ou na âmbola com as partículas e aproxima-se dos comungantes, que habitualmente se aproximam em procissão.
Não é permitido que os próprios fiéis tomem, por si mesmos, o pão consagrado nem o cálice sagrado, e menos ainda que o passem entre si, de mão em mão. Os fiéis comungam de joelhos ou de pé, segundo a determinação da Conferência Episcopal. Quando comungam de pé, recomenda-se que, antes de receberem o Sacramento, façam a devida reverência, estabelecida pelas mesmas normas.
161.        Se a Comunhão for distribuída unicamente sob a espécie do pão, o sacerdote levanta um pouco a hóstia e, mostrando-a a cada um dos comungantes, diz: O Corpo de Cristo ou Corpus Christi. O comungante responde: Amen, e recebe o Sacramento na boca, ou, onde for permitido, na mão, conforme preferir. O comungante recebe a hóstia e comunga-a imediatamente e na íntegra.
Quando a Comunhão se faz sob as duas espécies, segue-se o rito descrito em seu lugar próprio (cf. nn. 284-287).
162.     Na distribuição da Comunhão, o sacerdote pode ser ajudado por outros presbíteros eventualmente presentes. Se estes não estiverem disponíveis e o número dos comungantes for demasiado grande, o sacerdote pode chamar em seu auxílio os ministros extraordinários, isto é, o acólito devidamente instituído ou também outros fiéis, que tenham sido devidamente nomeados para isso. Em caso de necessidade, o sacerdote pode designar, só para essa ocasião, alguns fiéis idóneos.
             Estes ministros não devem aproximar-se do altar antes de o sacerdote ter tomado a Comunhão; e recebem sempre da mão do sacerdote celebrante o vaso com as espécies da Santíssima Eucaristia a distribuir aos fiéis.
163.      Terminada a distribuição da Comunhão, o sacerdote, no altar, consome imediatamente todo o vinho consagrado que porventura tiver sobrado; quanto às hóstias consagradas que sobrarem, ou as consome no altar ou leva-as ao lugar destinado a guardar a Eucaristia.
O sacerdote, regressado ao altar, recolhe os fragmentos que porventura houver. Depois vai ao lado do altar ou à credência e purifica a patena ou a píxide sobre o cálice; a seguir, purifica o cálice, enquanto diz em silêncio: O que em nossa boca recebemos (Quod ore sumpsimus); e limpa o cálice com o sanguinho. Se os vasos são purificados no altar, o ministro leva-os para a credência. Os vasos a purificar, sobretudo se forem vários, também se podem deixar no altar ou na credência, sobre o corporal, devidamente cobertos, sendo purificados imediatamente depois da Missa, após a despedida do povo.
164.        Depois o sacerdote pode voltar para a cadeira. Entretanto, podem guardar-se uns momentos de silêncio sagrado, ou cantar ou recitar um salmo ou outro cântico de louvor ou um hino (cf. n. 88).
165.        Depois o sacerdote, de pé junto do altar ou da cadeira, diz de mãos juntas, voltado para o povo: Oremos (Oremus); e, de braços abertos, recita a oração depois da Comunhão, a qual pode ser precedida de um breve momento de silêncio, a não ser que o tenha havido logo a seguir à Comunhão. No fim da oração o povo aclama: Amen.

Comunhão sob as duas espécies
281.        A sagrada Comunhão adquire a sua forma mais plena, enquanto sinal, quando é feita sob as duas espécies. Nesta forma manifesta-se mais perfeitamente o sinal do banquete eucarístico, e exprime-se mais claramente a vontade de ratificar a nova e eterna aliança selada pelo Sangue do Senhor, bem como a relação entre o banquete eucarístico e o banquete escatológico no reino do Pai[103].
282.                Empenhem-se os sagrados pastores em recordar, da maneira mais eficiente, aos fiéis que tomam parte no rito sagrado ou a ele assistem, a doutrina católica acerca da forma da sagrada Comunhão, segundo o Concílio de Trento. Antes de mais devem advertir os fiéis de que a fé católica ensina que, mesmo sob uma única espécie, é Cristo todo e inteiro e o verdadeiro Sacramento que se recebe; consequentemente, quem receber uma só das duas espécies nem por isso fica privado de qualquer graça necessária à salvação[104].
Além disso, devem ensinar também que a Igreja, na administração dos Sacramentos, salvaguardada a sua substância, tem o poder de estabelecer ou modificar aquilo que, atendendo às circunstâncias ou à diversidade dos tempos e lugares, julgue mais apto para favorecer a veneração devida aos mesmos Sacramentos e seja de maior proveito para quem os recebe[105]. Ao mesmo tempo, não deixem de exortar os fiéis para que participem mais intensamente no rito sagrado por aquela forma em que se manifesta de modo mais pleno o sinal do banquete eucarístico.
283.        A Comunhão sob as duas espécies é permitida, além dos casos expostos nos livros rituais:
a) aos sacerdotes que não podem celebrar ou concelebrar a Missa;
b) ao diácono e àqueles que desempenham algum ofício na Missa;
c) aos membros das comunidades, na Missa conventual ou naquela que é chamada «da comunidade», aos alunos dos seminários e a todos os que fazem exercícios espirituais ou participam numa reunião espiritual ou pastoral.
           O Bispo diocesano pode definir normas para a Comunhão sob as duas espécies na sua diocese, a observar mesmo nas igrejas dos religiosos e nos pequenos grupos. Ao mesmo Bispo é dada faculdade de permitir a Comunhão sob as duas espécies, sempre que tal pareça oportuno ao sacerdote celebrante, desde que os fiéis sejam bem instruídos e não haja perigo de profanação do Santíssimo ou que o rito não se torne mais difícil em virtude da multidão dos participantes ou por outra causa.
Quanto ao modo de distribuir a sagrada Comunhão sob as duas espécies aos fiéis e ao alargamento da autorização, as Conferências Episcopais podem dar normas, confirmadas pela Sé Apostólica.
284.        Quando se distribui a Comunhão sob as duas espécies:
                a) habitualmente quem ministra ao cálice é o diácono, ou, na sua ausência, o presbítero; ou também o acólito devidamente instituído ou outro ministro extraordinário da sagrada Comunhão; ou o fiel a quem, em caso de necessidade, se chama para este ofício em cada caso;
                b) o que eventualmente sobrar do Sangue é consumido no altar pelo sacerdote, ou pelo diácono, ou pelo acólito instituído, que ministrou ao cálice e purifica, enxuga e arruma os vasos sagrados do modo habitual;
                Aos fiéis que eventualmente queiram comungar só sob a espécie do pão, dê-se a sagrada Comunhão desta forma.
285.        Para a Comunhão sob as duas espécies deve preparar-se o seguinte:
                a) se a Comunhão do cálice se faz bebendo diretamente do cálice, preveja-se ou um cálice de tamanho suficiente ou vários cálices, havendo sempre o cuidado de que não fique muito Sangue de Cristo para consumir no fim da celebração;
                b) se se faz por intinção, as hóstias não devem ser demasiado finas nem demasiado pequenas, mas um pouco mais espessas do que o costume, para tornar fácil a sua distribuição depois de parcialmente embebidas no Sangue.
286.        Se a Comunhão do Sangue se faz bebendo do cálice, o comungante, depois de receber o Corpo de Cristo, passa para o lado do ministro do cálice e fica de pé diante dele. O ministro diz: O Sangue de Cristo (Sanguis Christi); o comungante responde: Amen, e o ministro entrega-lhe o cálice, que o próprio comungante leva à boca por suas mãos. O comungante bebe um pouco do cálice, entrega-o ao ministro e afasta-se; então o ministro limpa com o sanguinho o bordo do cálice.
287.        Se a Comunhão do cálice se faz por intinção, o comungante, segurando a patena por baixo da boca, aproxima-se do sacerdote, que segura o cálice, e ao lado do qual está o ministro que segura o vaso com as sagradas partículas. O sacerdote toma a hóstia, embebe-a parcialmente no cálice e, mostrando-a, diz: O Corpo e o Sangue de Cristo (Corpus etSanguis Christi); o comungante responde: Amen, recebe do sacerdote o Sacramento na boca, e retira-se.



A ESPIRITUALIDADE DO MINISTRO EXTRAORDINÁRIO DA SAGRADA COMUNHÃO

A ESPIRITUALIDADE DO MINISTRO EXTRAORDINÁRIO DA SAGRADA COMUNHÃO


INTRODUÇÃO
Antes que possamos refletir sobre a espiritualidade que norteia o Ministro Extraordinário da Sagrada Comunhão é preciso definir o que é espiritualidade e o que é espiritualidade cristã.
A palavra espiritualidade traz alguns equívocos, pois é usada em diversos contextos e muitas vezes de forma errônea.
“É escusado admitir que há muitas espiritualidades, além da cristã. Todas elas, enquanto humanas, são legitimamente sadias e caminhos a serem seguidos e perseguidos com denodo e segurança” (Frei Neylor J. Tonin, Curso de Teologia – Psicologia e Espiritualidade Cristã). “Ela consiste essencialmente em uma busca pessoal de sentido para o próprio existir e agir. Acha-se, por isso, unida à motivação profunda que nos faz crer, lutar e amar” (João Edênio dos Reis Valle, em Psicologia e Espiritualidade). Muitas pessoas confundem espiritualidade com religião. São diferentes, por definição e essência. Talvez seja por isso que encontramos muitas pessoas tidas como religiosas, mas sem espiritualidade alguma e, por outro lado, podemos encontrar pessoas fora das igrejas, mas com muita espiritualidade. Podemos afirmar que espiritualidade é uma dimensão da pessoa humana que traduz o modo de viver característico de um crente em busca da plenitude de sua relação com o transcendental. Em outras palavras: É a relação natural do homem com Deus, é um estilo de vida.
Muitos ainda classificam o ser humano dentro da dualidade “corpo e alma”. Os estudiosos, os cientistas, os antropólogos dizem que nós, seres humanos, somos muito mais que essa dualidade. Temos nosso corpo (matéria), nossa alma (aquilo que dá ânimo ao corpo) e nosso espírito (parte imaterial do ser). Mas temos também nossa história particular, que relata nossas origens (onde nascemos filhos de quem, onde estudamos, onde trabalhamos, onde vivemos), temos nossas emoções, nossas razões, nosso “eu” interior, nossos relacionamentos, nossas ações, nosso trabalho. Tudo isso faz de nós “pessoas”, pessoas com espiritualidade, pessoas como Jesus Cristo. A propósito, ao morrermos e ressuscitarmos, o faremos como pessoas. Não somente nossa alma ressuscitará, mas toda nossa “pessoa”. É errado rezarmos pela “alma de fulano de tal...”. Devemos rezar pelo “falecido tal..., pela pessoa tal...”

CARACTERÍSTICAS DA ESPIRITUALIDADE CRISTÃ

1) Presença real de Deus
É importante saber e sentir essa presença real de Deus de forma concreta e prática, não apenas de forma simbólica ou representativa. Deus age em nós, por nós e conosco. O mesmo Deus que vem ao nosso encontro nos leva ao seu encontro; isso é uma via de mão dupla.

2) Cristocêntrica
A espiritualidade cristã só pode ser vivida da mesma forma que Jesus a vivenciava. Não dá para ter espiritualidade cristã sem ter Jesus Cristo como nosso mestre. O propósito é nos fazer crescer em direção a Deus através de um processo de transformação e conversão:
“Ninguém chega ao Pai se não por mim.” Portanto, requer um compromisso genuíno com Deus e com o próximo: “Tudo o que fazeis a cada um desses pequenos é a mim que o fazeis.” Não devemos nos perguntar “o que vou ganhar em seguir Jesus Cristo, mas o que vou perder por sua causa”. Se compreendermos isso, nossa cruz não será tão pesada.


3) Trinitária
A fonte de esperança do cristão é saber-se filho de Deus, irmão de Jesus e templo do Espírito Santo. A espiritualidade cristã tem suas raízes fincadas na experiência pessoal na Trindade Santa, especialmente pelos valores traduzidos do Evangelho e de forma experiencial pelo seguimento dos passos de Jesus Cristo. Esse encontro pessoal com Jesus Cristo é a experiência do mistério que nos circunda e envolve.
“A espiritualidade vivida no Pai, no Filho e no Espírito Santo nos torna autênticos, dinâmicos, firmes na fé e perseverantes na missão que a Igreja confia a cada um de nós. A espiritualidade trinitária faz que nos posicionemos diante da realidade e nos leva a ver os acontecimentos do mundo com os olhos de Deus (Pe. Humberto Robson de Carvalho, em “Espiritualidade doCatequista”, Ed. Paulus).
Nossa espiritualidade tem a ver com o Espírito de Deus revelado por Jesus Cristo e que nos foi dado como defensor, animador e luz. Rememorando os passos de Jesus Cristo vemos que eles brotavam do coração de Deus. Jesus era sempre impelido em direção aos pobres, doentes, crianças, mulheres, estrangeiros, excluídos.

4) Bíblica
A espiritualidade cristã fundamenta-se na tradição bíblica, tendo por objeto o estudo da vida construída sob a ação do Espírito Santo. Esse estudo não nos leva a um processo de ajuste aos valores sociais dominantes, mas a um caminho que envolve crise e transformação, no qual a tensão entre a Palavra de Deus e o mundo estará sempre presente.

5) Missionária
Cristo dizia que veio para cumprir a palavra do Pai. “Uma vez seduzido por Cristo, o catequista torna-se missionário. Ser missionário é ser evangelizador” (Pe. Humberto Robson de Carvalho, em “Espiritualidade do Catequista”, Ed. Paulus).
Esse mesmo conceito aplica-se aos Ministros da Eucaristia, e não somente aos catequistas. A propósito disso a Conferência de Aparecida pede que deixemos de ser uma pastoral de conservação e nos transformemos em uma pastoral verdadeiramente missionária: “No seguimento de Jesus Cristo aprendemos e praticamos as bem-aventuranças do Reino, o estilo de vida do próprio Jesus: seu amor e obediência filial ao Pai, sua compaixão entranhável frente à dor humana, sua proximidade aos pobres e aos pequenos, sua fidelidade à missão encomendada, seu amor serviçal até a doação de sua vida” (DAp 139).

Maria de Nazaré é o modelo por excelência do ser missionário; aquela que respondeu “sim”, que acompanhou a encarnação do Verbo de Deus desde o primeiro momento da sua concepção até a morte e ressurreição. Maria é a expressão da espiritualidade vivida e integrada na vida e indica modos de viver: “Jesus se aproximou deles e disse: “Foi-me dada toda a autoridade no céu e na terra. Ide, pois, fazer discípulos entre todas as nações, e batizai-os em nome do pai, do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-lhes a observar tudo o que vos tenho ordenado. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos (Mt 28, 18-20).




6) Orante
Tem haver com oração pessoal e vida eucarística. “Lembrem-se, porém, que a oração deve acompanhar a leitura da Sagrada Escritura para que haja colóquio entre Deus e o homem, pois com Ele falamos quando rezamos e a Ele ouvimos quando lemos os divinos oráculos.”
(DV 25) Santo Agostinho dizia que o “Pai-Nosso é o resumo de nossa espiritualidade.” Oração e missão precisam caminhar juntas.

A ESPIRITUALIDADE DO MINISTRO EXTRAORDINÁRIO DA SAGRADA COMUNHÃO (*) Baseada no livro “A Espiritualidade do Ministro da Eucaristia”, de Mitch Finley, Ed. Loyola)

Supõe uma mudança de vida a exigir de nós opções bem concretas, escolhas e renúncias. O Ministro Extraordinário da Sagrada Comunhão deve cultivar a capacidade de ver além das aparências, de ultrapassar a superficialidade do relacionamento e de aprofundar o amor ao próximo.

Extraordinariedade
O Direito Canônico afirma, através do cânon 230, que “onde a necessidade da Igreja o aconselhar, na falta de ministros, podem também os leigos exercer o ministério da palavra, presidir as orações litúrgicas, administrar o batismo e distribuir a sagrada Comunhão”.
Muitas vezes somos levados a deixar o termo “extraordinário” subir à cabeça e nos cremos imprescindíveis ou insubstituíveis. Ledo engano. O termo “extraordinário” deve ser por nós entendido como “necessário”, o que nos leva a estarmos sempre prontos para o serviço na comunidade. Se essa extraordinariedade for aceita e cumprida, com o coração e não somente com ato de servir, o “necessário” se torna excepcional ou notável.

Levar Cristo vivo aos necessitados, doentes ou moribundos, nos torna notáveis já que temos o propósito de alimentar os que clamam pelo alimento que só o Senhor ressuscitado dá. Este propósito deve alimentar a espiritualidade do Ministro Extraordinário da Sagrada Comunhão.

A Eucaristia é um mistério alegre
Participar de uma celebração eucarística é muito mais que participar de uma representação simbólica. Muitos católicos acreditam que dizer que o pão e o vinho eucarísticos se tornam o corpo e sangue de Cristo é simplesmente fazer memória do que Cristo fez em sua última ceia. Participar de uma celebração eucarística é participar “daquela ceia”, é se enxergar sentado ao redor daquela mesa; é comer daquele pão e beber daquele vinho, junto com Cristo. Quando falamos sobre os fundamentos bíblicos e teológicos da Eucaristia tocamos neste assunto, ou seja, a Eucaristia é um mistério alegre. Citamos Leon Bloy, poeta católico francês do início do século XX e citamos também importante escritor inglês, G. K. Chesterton, que também afirmava da alegria que o sacramento transmite.

Pensando nisso podemos afirmar que os Ministros Extraordinários da Sagrada Comunhão Eucarística, por mais solenes que sejam as circunstâncias, vão à presença daqueles que receberão a comunhão com uma luz especial nos olhos, a luz do Cristo ressuscitado, a luz do mistério alegre da Eucaristia. O caminhar cabisbaixo dos fiéis em direção à Eucaristia é sempre um momento instigante: receber o Cristo ressuscitado é um momento de tristeza ou de alegria? A postura solene e séria do Ministro Extraordinário da Sagrada Comunhão Eucarística é também um momento instigante. É importante a postura radiante de felicidade que o Ministro exibe no momento da entrega do Cristo ressuscitado, postura essa que deve transferir, através dos gestos, das palavras, da expressão facial e do brilho dos olhos, a alegria da Eucaristia. De certa forma somos chamados a ser mensageiros da alegria de Cristo, ainda que em qualquer circunstância dolorosa. Isto não significa agir de forma tola, mas agir e mostrar a força de nossa fé, com o coração transbordante de alegria.




As Virtudes do Ministro Extraordinário da Sagrada Comunhão
São Paulo talvez seja quem melhor escreveu sobre as virtudes teologais em sua primeira carta aos Coríntios (13,1-13) quando fala de Fé, Esperança e Caridade. Na verdade, as únicas realidades que merecem ser levadas em conta. Quando a comunidade se reúne para celebrar a Eucaristia se reúne para celebrar a fé, esperança e caridade como modo de vida. Essa reunião não é para cultuar uns aos outros, mas para cultuar Deus.

1) Fé
Para o catolicismo, fé não é crer em alguma coisa, mas é conhecer Alguém, no caso, Deus, nosso pai amoroso e Jesus, seu filho amado, o Cristo ressuscitado que vive em nós e em nosso meio. Portanto, fé é muito mais um relacionamento pessoal do que uma experiência racional. Santo Agostinho, que viveu entre os séculos IV e V, disse que “nosso Deus está mais próximo de nós do que estamos nós mesmos”.
Nossa fé é expressa pela intimidade amorosa que temos com Deus e com Cristo ressuscitado, aqui e agora. E o Ministro Extraordinário da Sagrada Comunhão deve ter isso em conta, sempre. Na Eucaristia Cristo se dá a nós como alimento e é aí que se dá o encontro do sagrado com o comum, a união suprema do sagrado com o comum, da divindade com a humanidade. Tem sempre alguém que pergunta: a fé do Ministro Extraordinário da Sagrada Comunhão é diferente da fé do católico não ministro? Claro que não! A fé do Ministro Extraordinário da Sagrada Comunhão é a mesma fé compartilhada por toda a Igreja. Então, o que diferencia um do outro?

Certamente a experiência pessoal de cada um no exercício de sua missão. Cada ser, cada Ministro Extraordinário da Sagrada Comunhão, traz consigo sua experiência pessoal de Deus, sua preparação, sua devoção, sua maneira de ser. Traz consigo seu relacionamento pessoal, único, com a Eucaristia.
Uma coisa que o Ministro Extraordinário da Sagrada Comunhão não pode ter é medo de perguntas embaraçosas sobre a Eucaristia, afinal, estamos lidando com um mistério, talvez o maior de todos. O que deve fazer diante dessas perguntas, das dúvidas que existem, é buscar as respostas, através de aconselhamento com a comunidade religiosa, com leitura especializada, com a participação em eventos, cursos e seminários. Tudo isso, certamente, aprofundará o entendimento do mistério e dará sustentação à sua fé. Partamos da partilha dos pães e dos peixes. Como Jesus repartiu os pães e os peixes para que uma multidão de cinco pessoas se alimentasse? Como, não sabemos; mas sabemos que Ele o fez.
Da mesma forma, como Jesus partilha conosco o mistério de sua pessoa ressuscitada ter a aparência de pão e vinho? Como, não sabemos; mas sabemos que o faz. Provavelmente nunca entenderemos este mistério por completo. A melhor forma de entendermos isso é despertar nosso coração. É termos um coração misericordioso, é termos um coração apaixonado por Jesus, é ter um coração de poeta. Importante também é ter em mente que a fé do Ministro Extraordinário da Sagrada Comunhão é a fé da Igreja, una, santa, católica e apostólica: “Tudo o que podeis dizer ou fazer, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando graças por Ele, a Deus Pai”. (Cl 3, 17)


2) Esperança
“Que o Deus da esperança vos cumule de alegria e de paz na fé, a fim de que transbordeis de esperança pelo poder do Espírito Santo” (Rm 15, 13).
A respeito da esperança Santa Tereza D’Ávila dizia que devemos “ouvir não só com os ouvidos, mas com o coração”. Os Ministros da Eucaristia partilham com os outros o Corpo e o Sangue de Cristo ressuscitado. Dessa forma, partilham a esperança, para esta vida e para a outra. Não só partilham, bem como alimentam a esperança. Há muitíssimos relatos que afirmam que os doentes ao receberem a comunhão levada por um Ministro Extraordinário da Sagrada Comunhão voltam a ter esperança, o que os deixam muito felizes. É importante não pensar na esperança como sendo um remédio que cura tudo. A esperança é o alimento necessário para prosseguir vivendo, com paz e tranqüilidade. Muitos confundem esperança com otimismo, porém a esperança não é uma emoção, não é uma questão psicológica. É uma proposta, é uma certeza naquilo que há por vir. São João da Cruz nos lembra que é mais fácil reconhecer a esperança na noite mais escura, que é quando ela brilha mais forte.

Um antigo provérbio diz que “se não fosse a esperança, o coração se partiria”. Nesse sentido, a Eucaristia dá uma esperança que cura corações partidos. Dante, ao descrever o inferno em sua obra “Divina Comédia”, diz que o diabo colocou uma placa no alto da porta de entrada: “Deixai de fora a esperança, ó vós que entrais!” Curiosa descrição do inferno, como sendo a ausência de toda esperança. Dá para imaginar isso?

3) Caridade / Amor
São Paulo é intrigante ao afirmar que das três virtudes, ainda que todas importantes, o amor é a maior:“Atualmente permanecem as três coisas: a fé, a esperança e o amor. Mas a maior é o amor.”
Normalmente, a primeira definição para caridade expressa nos dicionários é “provisão de ajuda ou alívio aos mais necessitados”. Ensinava o professor Paschoal Zampini que “a melhor maneira de se aprender Português é aprendendo antes o Latim”. O que queria dizer o mestre com isso? A raiz latina das palavras emigradas para o Português traz informações que nos ajudam a entender melhor o significado das palavras. Assim, retornando à raiz latina da palavra caridade, vemos que caridade “se refere ao amor benevolente que Deus tem por nós e ao amor que temos uns pelos outros”. É esse amor que são Paulo tinha em mente ao escrever o trecho acima.

Os Ministros da Eucaristia são chamados a serem instrumentos do amor de Deus. Por isso é importante retomar o contexto da carta aos Coríntios: sem uma rica vida interior, sem uma espiritualidade vivificante, o ato de levar ou dar comunhão durante as celebrações eucarísticas é apenas um ato mecânico, sem a beleza e a mística do Jesus ressuscitado. Para exercer o ministério eucarístico em plenitude há que se fazê-lo com o coração transbordante do amor de Deus. Uma boa prática para se conseguir isso é a prática da oração.
É visível a insistência de Jesus, através dos Evangelhos, no amor ao próximo. Isso é básico e indispensável. E com a mesma clareza e insistência diz que devemos amar a Deus por causa dele. Simplesmente fazer o bem aos outros não nos faz seguidores de Cristo; o ateu humanista também faz isso. Precisamos ser pessoas que rezam. Por isso a oração é fundamental para o ministério eucarístico. Uma prática religiosa bastante recomendada aos Ministros da Eucaristia é a adoração ao Santíssimo Sacramento. O tempo passado na presença do Santíssimo alimenta a espiritualidade, em particular, do Ministro Extraordinário da Sagrada Comunhão. Por fim, ninguém ama o próximo se não amar a si mesmo. A questão é apreciar e amar a si mesmo como dádiva de Deus, simplesmente porque Deus nos ama. Diz um provérbio hassídico: “Uma hoste de anjos vai adiante de cada ser humano, bradando: “Abram caminho! Abram caminho para a imagem de Deus”. Como amar a nós mesmos?

Presença
O ministério da Eucaristia é o ministério da presença. Logicamente, a presença real de Jesus Cristo ressuscitado na Eucaristia. Mas também a presença de Jesus Cristo na pessoa do Ministro Extraordinário da Sagrada Comunhão e naqueles a quem se oferece a sagrada comunhão. Isto se dá para ratificar o mistério de amor que existe. É fácil constatar a presença de Deus ao longo da História, desde os princípios até os dias de hoje e de amanhã. Negar isso é negar nossa própria existência. “É da parte de Deus, na presença de Deus, em Cristo que falamos” (2Cor 2, 17).
O Ministro Extraordinário da Sagrada Comunhão deve transmitir a presença divina, essa presença que comunica e alimenta a nossa fé, presença que dá vida nova à relação do comungante com Cristo.
O ministério da Eucaristia é também o ministério da presença do Ministro Extraordinário da Sagrada Comunhão Eucarística na comunidade. Sua presença constante, sua dedicação, sua disposição de estar presente quando necessário, seu desejo de compartilhar a si mesmo e o seu tempo com os outros, alimenta e suporta a fé daqueles a quem você serve como Ministro Extraordinário da Sagrada Comunhão. A presença do Ministro Extraordinário da Sagrada Comunhão numa comunidade, inserida numa sociedade consumista, que aprendeu a valorizar muito mais as coisas do que as pessoas, deve ser balizadora dos princípios éticos e morais do cristianismo. Infelizmente as pessoas são julgadas pelos bens acumulados e não por seus ideais, por suas convicções, por sua religiosidade. A atuação do Ministro Extraordinário da Sagrada Comunhão se dá numa comunidade inserida numa sociedade em que os seres humanos têm pouco valor antes do nascimento e ao se tornarem idosos tornam-se também estorvo, um peso para a família e a sociedade. Portanto, a presença do Ministro Extraordinário da Sagrada Comunhão é a presença do próprio Jesus Cristo ressuscitado, não por causa de sua santidade – do Ministro – mas por causa de sua missão, de seu testemunho e da graça que a Eucaristia traz.

“Para amar alguma coisa é preciso perceber que podemos perdê-la!”
Este pensamento de G. K. Chesterton deve ser a tônica da presença do Ministro Extraordinário da Sagrada Comunhão na comunidade. Sua presença está relacionada à sua postura, o seu modo de vida, os seus gestos, as suas palavras. O Ministro Extraordinário da Sagrada Comunhão deve marcar sua presença na comunidade através de atitudes e testemunho de vida cristã. Sua presença deve eliminar os excessos.

Finalizando
Por fim, retomamos a reflexão de Bento XVI em sua Exortação Apostólica pós-Sinodal“Sacramentum Caritatis” quando afirma a relação intrínseca entre fé eucarística e celebração, pondo em evidência a oração e a ação litúrgica. E mais, a reflexão teológica não pode prescindir do sacramento instituído por Jesus Cristo e a ação litúrgica não pode prescindir do mistério da fé.Compreendendo-se isso, o caminho se abre à nossa frente, um caminho mais suave, mais ameno, mais instigante, mais santo, pois “sede santos como vosso Pai é santo”.


terça-feira, 17 de março de 2015

Os Fundamentos Teológicos da Ética Cristã»

Os Fundamentos Teológicos da Ética Cristã»

Deus é o Alfa e o Omega da vida humana, O Criador, o Redentor e a Realização última de toda existência pessoal. Toda pessoa é criada à imagem e semelhança de Deus (Gn.1, 26-27). Toda pessoa sem exceção é apta à santidade e à teosis ou deificação: uma plena e eterna participação nas energias divinas ou atributos divinos. É por esta razão que a Tradição Cristã põe tão fortemente o acento sobre o caráter sagrado da vida humana. Este caráter sagrado, uma vez ainda, tem sua origem em Deus e é concedido como uma pura expressão de Seu Amor (...) é Dom: o Dom da Vida própria de Deus e de Sua Santidade, que nos foi conferida, independentemente de todo o mérito, valor ou realização pessoal. Isolada deste Dom, a vida é absurda, sem sentindo algum (...)
A VIDA MORAL: LIBERDADE EM ESPÍRITO
O reconhecimento e a celebração de Deus como Mestre de nossa vida é o fundamento sobre o qual edificamos a compreensão e a esperança que levam à uma conduta cristã, uma conduta que se conforma à vontade divina e manifesta os atributos divinos: Justiça e Amor. A confissão de Deus como Senhor e Sua celebração na Liturgia da Igreja são, por esta razão, o fundamento da teologia moral cristã.
A problemática da teologia moral, que cria dilemas éticos em nossa vida cotidiana, provém do conflito existente entre a nossa confissão de fé e nossas "paixões"; os "impulsos da carne" que conduzem ao pecado e à separação com Deus, que é a fonte e a plenitude da existência humana. Sem esse conflito, nós conheceríamos pela nossa própria natureza a vontade de Deus e conformaríamos nossas atitudes e nossas ações à esta vontade. O pecado, portanto, resulta da autonomia humana conduzida ao absurdo que corrompeu nossa natureza criada e a capacidade natural de todos, em virtude da divina imagem na qual ela é investida, de conhecer, de amar a Deus e de, então, obedecê-lo acima de tudo.
"Todos pecaram e destituídos estão da Glória de Deus" (Rm.3,23). Cada um de nós sofre os efeitos do nosso próprio estado de pecado. É por este fato mesmo que os mais santos dentre nós devem afrontar este conflito entre a razão e as paixões.
Atingir as qualidades de bondade, de amor, de misericórdia e de justiça requer uma disciplina - uma ascese ou um combate - de arrependimento contínuo. O movimento de "retorno" implicado pela metanóia ou arrependimento não pode, todavia, ser um retorno a nós próprios, à nossa própria natureza caída e corrompida; mas sim um retorno a Deus. A conduta ética cristã não pode ser pregada a partir de idéias ou objetivos humanos; suas condições e suas metas, tal como a própria vida humana, devem estar ancorados em Deus, o único que determina aquilo que é bom, justo e reto, e que nos revela esta determinação pela Escritura, a oração e outros aspectos da experiência da vida em Igreja.
O AMOR TRINITÁRIO
Eis porque a ética cristã deve fundamentar-se sobre a Revelação. Se devemos nós empreendermos um combate para conformar nossa vontade, nossos desejos e nossas ações à vontade de Deus, devemos então saber o que a vontade divina exige. De fato, como é que Deus gostaria que nós nos conduzíssemos? Se procurarmos a resposta nas Escrituras e no ensinamento - A Tradição - da Igreja, algumas indicações emergem. Uma dentre elas se destaca particularmente: "Deus é Amor"; como nos diz o apóstolo João (I Jo.4,7-12). Em conseqüência, nossas atitudes e nossas ações vão refletir o amor oblativo, sacrifical que resplandeceu de forma particular na crucifixão de Jesus Cristo, o Filho Bem-Amado do Pai.
Esse amor revelado é essencialmente trinitário, é uma comunhão de Dom dividida de maneira igual entre as Três Pessoas Divinas. Desta forma, ele é sempre "dirigido aos autores"; ele consiste de dom de si, oferecido livre e jubilosamente ao outro e para o outro. Nossa resposta a este amor é também uma resposta em comunidade. Ao saber que somos objetos da profunda e terna afeição de Deus, nós oferecemos a Ele, de nossa parte, o nosso amor, pela nossa oração e nossa fidelidade aos Seus mandamentos. Ao mesmo tempo nós estendemos nosso amor ao outro (próximo), a todo "outro" que tal como nós mesmos, traz nos recônditos da alma a imagem da divina beleza e da vida divina. Não há limites nem qualificações para tal amor. Ele deve estender-se igualmente e plenamente ao amigo e ao inimigo, ao ortodoxo e ao não ortodoxo, qualquer que seja sua identidade étnica, sua classe social, sua raça, sua religião ou seu sexo. Deus revelou-nos o Seu amor sem medidas; e este amor confere à cada ser humano um valor e uma dignidade infinitas. Todo "outro" é então digno do nosso amor, ele requer, mesmo, nosso amor. Olivier Clément o exprime de uma maneira simples, mas profunda ao dizer que "todo homem tem direito a uma compaixão infinita" (...)
A revelação da vontade do Pai no e pelo Filho e o Espírito é raramente específica no ponto de vista das ações particulares que devem ser levadas em certas situações concretas. À nossa época, onde inquietudes avançadas têm lugar na tecnologia biomédica, somos geralmente confrontados com decisões pelas quais parece-nos não ter diretrizes confiáveis nas fontes da revelação, compreendidas nas Sagradas Escrituras. Os Dez Mandamentos (ex. 20; Dt.5), as Bem-Aventuranças (Mt.5; Lc.6) e outras regras de vida similares (cf: Ef.5; Cl.3) assim como os ensinamentos específicos de Jesus, de Paulo e de outros autores apostólicos (como por exemplo a respeito do casamento e divórcio: Mt.19, 3-12; I Co.7, 10-16; ou sobre a Ressurreição e o Julgamento: Mt.25, 31-46; Jo.5, 19-29; I Co.15, 34-58) nos fornecem condutas preciosas apesar de seu pequeno número, para tomadas de decisões éticas. Elas "condenam" certas atividades (tais como a idolatria, o matar, o furto, o adultério) e nos prescrevem outras atividades (a pureza, de coração, a reconciliação, a caridade).
A REFLEXÃO ÉTICA DEVE PROCEDER DA FÉ CRISTÃ
Se atualmente há tanta confusão quanto à tomada de decisões éticas, não é apenas em virtude da novidade e da complexidade das questões que devemos nós afrontar mas, primeiramente, porque a disciplina da ética foi isolada de suas raízes teológicas. Se ela deve constituir uma "teologia moral" autêntica, a reflexão ética deve proceder da Fé da Igreja e exprimi-Ia. Ela deve começar e terminar com a convicção de que somente Jesus Cristo é o Caminho, a Verdade e a Vida, o domínio e o próprio fim de toda ação ética, tão específica ou tão trivial que ela possa parecer. A ética é a teologia aplicada, a teologia em atos. Em tanto que tal, ela encontra seu tratamento mais fundamental e mais eloqüente nesta exortação [...]


segunda-feira, 16 de março de 2015

Homilia do Padre Fantico Borges no IV Domingo da Quaresma – Ano B

Homilia do Padre Fantico Borges no IV Domingo da Quaresma – Ano B

A fidelidade de Deus e o desprezo do ser humano!

Na liturgia deste domingo o Senhor nos chama a escuta da Palavra de Deus; a prestar atenção aos enviados do Senhor que anunciam o desejo de divino para vida humana. A infidelidade do Povo em não "auscutar" a Palavra de Deus; em não seguir seus ensinamentos gera a morte, ou seja, o exílio. Viver no seguimentos de Deus requer uma existência capaz de abraçar a vontade do Senhor como caminho de salvação.
A Quaresma converte-se neste tempo em que o Senhor nos chama através da Igreja a refazer o caminha da infidelidade. Quantas vezes a Igreja como enviada de Deus já não alertou a cada um de nós acerca de nossos maus procedimentos? E o que fizemos?... É incontável a misericórdia divina porque ao invés de escutar a Deus, nós o negamos com nosso mau comportamento. E o que faz Deus? Envia-nos seu filho para todo que n'Ele tenha a vida eterna. Diz São João Crisóstomo: "Existe algo que possa comparar-se com tão magnífica bondade? Pois ultrajado pessoalmente como pagamento por seus inúmeros benefícios, não só não assumiu represálias, mas também nos entregou seu Filho para reconciliar-nos com Ele" (IN. São João Crisóstomo. Comentário às cartas de São Paulo aos Efecios).  Deus deu-nos seus Filho sem pecado para morrer por nós quando ainda éramos seus inimigos. Diz ainda São João Crisóstomo: que "Ao que não tinha pecado, disse, Deus o fez expiar os nossos pecados. Mesmo que Cristo não tivesse feito nada mais além de tornar-se homem, pensa, por favor, quão agradecidos a Deus deveríamos estar por ter entregado seu Filho pela salvação daqueles que lhe cobriram de injurias. Mas a verdade é que Ele fez muito mais, e, como se fosse pouco, ainda permitiu que o ofendido fosse crucificado pelos ofensores".(IN. São João Crisóstomo. Comentário às cartas de São Paulo aos Efecios).
Viver segundo a verdade de Deus é adaptar a nossa maneira de pensar, querer, sentir e agir à maneira de Jesus, pois ele é a verdade. Não nos esqueçamos de que no cristianismo, a verdade não é simplesmente um argumento, a verdade é uma pessoa: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6). Viver conforme a verdade de Deus é pensar a própria vida segundo o plano de Deus que se manifestou suficientemente no mistério da Palavra de Deus que se encarnou para a nossa salvação.
Mas, como sabemos e experimentamos, não basta saber essas coisas, é preciso lutar para propor-se seriamente o seguimento de Jesus-Verdade. O ambiente no qual nos movemos oferece muitas atrações que não nos conduzem a bom porto, que não nos levam pelo caminho da salvação. O pecado frequentemente se assemelha a uma maçã que, estando podre por dentro, apresenta-se com belíssimo aspecto, bem atraente aos sentidos. O que fazer? Pedir a luz de Deus para vermos que tal fruta está podre, que não alimenta. O Evangelho de hoje ressalta justamente isso: andar na luz, que é sinônimo de andar na verdade.
O cristão tem que ser consciente de que sem a luz da fé na inteligência e sem a caridade na vontade, não fará o bem que almeja. Ninguém pode mover-se sobrenaturalmente sem a graça de Deus. É impossível! A nossa natureza, depois do pecado original, ficou estragada (não totalmente), posteriormente foi resgatada, e, contudo, nela permanece a ignorância e a concupiscência. Essas duas realidades são as que obscurecem a nossa inteligência e debilitam a nossa vontade. A fé vem para curar a ignorância e o amor de Deus vem para dar força à nossa vontade.
Irmãos e Irmã que nossa quaresma não se reduza a quarenta dias. Nos devemos continuar todos os dias a busca em agradar a Deus. São Bernardo de Claraval nos afirma que não devemos esquecer que este pouquíssimo tempo da quaresma não basta para lutarmos contra o mal e a infidelidade, pois toda nossa vida tem como finalidade agradar a Deus. Chegará o momento em que será impossível invocar-los (In São Bernardo. Sermões Litúrgicos Vol I ). Por, isso, o busquemos enquanto podemos.
   


segunda-feira, 9 de março de 2015

UMA INTRODUÇÃO AO TERMO EUTANÁSIA.

UMA INTRODUÇÃO AO TERMO EUTANÁSIA.

1. Seu significado a partir da etimologia da palavra.
A palavra eutanásia foi criada no século XVII, pelo filósofo inglês Francis Bacon. Todavia, o termo Eutanásia vem do grego, compondo-se de duas palavras: Eu - que significa (bem) boa - e thanatos que significa morte. A partir do significado das palavras que constituem o termo, podemos tomar consciência de sua primeira significação, ou seja, a de boa morte. O termo eutanásia significava, em sua origem, uma morte tranqüila, sem angústias e dores. Proporcionar uma boa morte, nesse sentido de "eutanásia", seria dar uma ajuda para morrer, não no sentido de uma abreviação da vida, mas de ajudar o moribundo a encarar o seu momento derradeiro da forma mais bela, tranqüila e livre de sofrimentos.
Hodiernamente, o termo eutanásia passou a designar a morte deliberadamente causada a uma pessoa que sofre de enfermidade incurável ou muito penosa, para suprimir a agonia demasiado longa e dolorosa, o chamado paciente terminal. Em termos bem moderno V. Marcozzi define a eutanásia como a eliminação indolor ou por piedade de quem sofre ou presume-se estar sofrendo e possa sofrer no futuro de modo interminável.[1] Esta definição coincide com aquela aplicada pela Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé apresentada em 1980, onde afirma: entende-se por eutanásia uma ação ou uma omissão que, por sua natureza, ou nas intenções, busca a morte, com o objetivo de eliminar toda dor.
A eutanásia leva à discussão sobre o direito de uma pessoa por fim à própria vida, valendo-se de outra pessoa. Podemos indagar se haveria apenas uma faculdade, ou um direito juridicamente tutelado, isto é, que possa ser coercitivamente exigido. No mundo jurídico, se alguém tem um direito, pode socorrer-se do processo, para fazê-lo valer. Para que uma pessoa que não consegue por seus próprios meios extinguir a própria vida possa ter concretizado o seu intento, outra precisa ter o dever de realizá-lo. Mas como veremos, no campo da ética e da moral, isso fere um outro direito maior, do qual é princípio primário e mantenedor de todos os outros, a saber, o princípio a vida e a sacralidade desta vida.[2] Qualquer outro direito e dever esta sob a tutela da vida. Por que não há liberdade humana sem que antes haja uma vida para reivindicar esse direito. 

2. A EUTANÁSIA NA SUAS RAIZES HISTÓRICAS.
O homem como ser simbólico, ou seja, ser que possui a tendência de atribuir significado a tudo aquilo com que se relaciona, tende a encher de significado os momentos marcantes de sua vida. A problemática desta característica propriamente humana é que ela não se dá de uma forma homogênea. A diversidade de significados atribuídos a cada momento do desenvolvimento humano - momento que nenhum ser, sendo ele humano, pode se ver dispensado - é tão grande quanto a diversidade de culturas existentes na face desse pequeno planeta.
A forma de um católico considerar a morte é diferente da forma de um indígena de cultura ainda pura. Ter-se-ia uma missão interminável com a proposta de se relatar historicamente toda a caminhada e evolução daquilo que se entendeu por eutanásia, como também aquilo que se praticou tendo como fim levar ao moribundo a uma boa morte, mesmo que não se tenha utilizado o termo que hoje se entende designar esta ação. Contudo é possível entrar nos corredores históricos da eutanásia para lá, colher alguns de seus momentos importantes, que auxiliarão no entendimento do que foi e do que é a eutanásia hoje.
A discussão a cerca dos valores sociais, culturais e religiosos envolvidos na questão da eutanásia apareceu, em primeiro plano, na Grécia antiga, de modo que encontramos em Platão, Epicuro e Plínio um abordagem do tema. Platão em sua República, expõe já conceitos de caráter solucionador patrocinando o homicídio dos anciões, dos débeis e dos enfermos. Igualmente, Sócrates defendia a idéia de que o sofrimento resultante de uma doença dolorosa justificava o suicídio. Aristóteles, Pitágoras e Epicuro, ao contrário, condenavam tal prática. Mas é Hipócrates, que de modo definitivo, se divorcia da postura do primeiros filósofos citados, pois em seu juramento declarou: "eu não darei qualquer droga fatal a uma pessoa, se me for solicitado, nem sugerirei o uso de qualquer uma deste tipo".
Se fizermos um retrospecto ao passado vemos que a antigüidade praticou a eutanásia, nas mais diversas formas e modalidades e os exemplos de sua aplicação se multiplicam ao longo da história.
Não se pode esquecer que os antigos praticavam a eutanásia contra as crianças raquíticas, velhas, enfermos incuráveis, aleijados etc. Esse tipo de eutanásia era praticada em larga escala, como confessa Platão: “Estabelecerá em nossa República uma medicina e uma jurisprudência que se limitem ao cuidado dos que receberam da natureza corpo sã e alma famosa; e pelo que toca aos que receberam corpo mal organizado, deixá-los morrer e que sejam castigados com pena de morte os de alma incorrigível”. 

UMA CULTURA SECULARIZADA.
            A mentalidade secularizada que invade a cultura ocidental é fortemente um dos mecanismos para a busca da legalização da eutanásia. Segundo Campanini, neste processo de justificação da eutanásia ela se une ao processo de secularização que permeia nossa sociedade e que se exprime, sobretudo, como forma suprema de reivindicação da independência do homem diante de Deus e como conseqüência a rejeição do simbolismo religioso da morte.[3] 
            A morte para o crente indica, neste sentido, a sua contingência e sua dependência de Deus. Ora, num mundo subjetivista e individualista a eutanásia é sinal para o homem moderno de independência absoluta de toda e qualquer estrutura e afirmação de si como senhor da vida e da morte. Por isso afirma Elio Sgreccia: A eutanásia, como fuga da dor e da agonia, acontece primeiro no espírito e depois na sociedade e no direito.[4]
            É interessante notar que a eutanásia ganhou mais aceitação nos países mais industrializados e tecnicamente mais desenvolvidos: EUA, Canadá, Holanda, França, Itália, entre outros. Fica claro que quanto mais a secularização e a banalização do aspecto religioso mais fácil se convive com a eutanásia.  

ALGUMAS POSTURAS MAGISTERIAIS A FAVOR DA VIDA.
O Papa Pio XII numa conferência dirigida aos médicos da Associação Médico-biológica São Lucas afirmou categoricamente que ninguém no mundo, nenhuma pessoa em particular, nenhum poder humano pode autorizar um médico a destruir a vida diretamente. Seu dever não é o de destruir a vida, mas de salvá-la. O mesmo pontífice, em 14 de setembro de 1952, num discurso que fez aos participantes do I Congresso de Histopatologia do sistema nervoso, declarou: O médico como pessoa privada não pode tomar medida alguma nem tentar intervenção alguma sem o consentimento do paciente. O médico não tem sobre o paciente senão os poderes e os direitos que lhe confere, quer explicita, quer implicitamente e de maneira tácita. De sua parte, o paciente não pode conferir ao médico mais direitos do que aquele que tem. Quanto ao paciente, ele não é senhor absoluto de si mesmo, do próprio corpo e do próprio espírito. Não pode, portanto, dispor deles livremente, a seu bel-prazer.
Paulo VI no seu pontificado também se pronunciou contra a eutanásia valendo-se do direito a vida e do respeito que essa vida exige. Para o Pontífice a vida humana independente da etapa tem seu dignidade inalienável quer seja embrião, feto, criança, adulto ou velho. Na mesma linha postulou a S. Congregação para a Doutrina da Fé, em 1974, com relação ao tema: O direito à vida continua íntegro num velho, ainda que muito debilitado; um doente incurável não o perde.
Também no Concílio Vaticano II, na constituição pastoral Gaudium et Spes encontramos uma solene declaração magisterial contra a eutanásia e a favor da vida: tudo quanto se opõe a vida em si, como todo tipo de homicídio, genocídio, aborto, eutanásia e o mesmo suicídio voluntário... todas essas coisas e outras semelhantes são certamente vergonhosas e, ao mesmo tempo que corrompem a civilização humana, desonram mais aqueles que assim procedem do que os que padecem injustamente, e ofendem gravemente a honra do Criador.(GS, 27)
 

 Tipos de Eutanásia:
Distinguem-se as diversas formas de eutanásia, considerando-se os motivos e os meios empregados na sua execução, bem como a pessoa que a realiza. Aglutinamos aqui os diversos tipos de eutanásia, segundo os diferentes critérios usados para classificá-la: (10)
a) eutanásia terapêutica - está relacionada com o emprego ou omissão de meios terapêuticos a fim de obter a morte do paciente, distinguindo-se em:
1) eutanásia ativa - consiste no ato deliberado de provocar a morte sem sofrimento do paciente, por fins misericordiosos;c) eutanásia passiva ou indireta - dá-se quando a morte do paciente ocorre, dentro de uma situação de terminalidade, ou porque não se inicia uma ação médica ou pela interrupção de uma medida extraordinária (p. ex.: não colocar ou retirar o paciente de um respirador); pode também ser chamada eutanásia por omissão, ortotanásia ou paraeutanásia;
2) eutanásia voluntária - ocorre quando a morte é provocada atendendo a uma vontade do paciente;
3) eutanásia involuntária - ocorre quando a morte é provocada contra a vontade do paciente;
4) eutanásia não voluntária - caracteriza-se pela inexistência de manifestação da posição do paciente em relação a ela;
5) eutanásia de duplo efeito - dá-se quando a morte é acelerada como uma conseqüência indireta das ações médicas, que são executadas visando o alívio do sofrimento de um paciente terminal;
b) eutanásia eugênica - é a eliminação indolor dos doentes indesejáveis, dos inválidos e velhos, no escopo de aliviar a sociedade do peso de pessoas economicamente inúteis;
c) eutanásia criminal - é a eliminação indolor de pessoas socialmente perigosas;
d) eutanásia experimental - é a ocisão indolor de determinados indivíduos, com o fim experimental para o progresso da ciência;
e) eutanásia solidarística - é a ocisão indolor de seres humanos no escopo de salvar a vida de outrem;
f) eutanásia teológica - ou morte em estado de graça;
g) eutanásia legal - é aquela regulamentada ou consentida pela leis;
h) eutanásia-suicídio assistido - é o auxílio ao suicídio de quem já não consegue realizar sozinho a sua intenção de morrer;
i) eutanásia homicídio - resulta da distinção entre aquela praticada por médico e aquela praticada por parente ao amigo.
Por fim, devemos mencionar a eutanásia animal, que tem se revestido cada vez mais de aspectos éticos. Neste caso a eutanásia é realizada quando não existem meios de manter um animal sem sofrimento; quando clinicamente não há como mantê-lo vivo ou na falta de condições locais para realizar tratamento clínico ou cirúrgico. Admite-se na hipótese de o proprietário não ter recursos financeiros para realizar o tratamento ou se não há interesse em gastar alta soma num animal de esporte que não dará retorno.







[1] V. Marcuzzi, IN Elio Sgreccia.  Manual de Bioética: Fundamentos e ética biomédica. Vol. I, 2a edição, Loyola, SP 1996, p. 604.
[2] A Congregação para a Doutrina da Fé, numa declaração de 5 de maio de 1980 afirma explicitamente a vida humana como o fundamento de todos os bens, a fonte e a condição necessária de toda atividade humana e de toda vivência social. Portanto qualquer ato contra a vida, ou seja, contra o fundamento da vida é racionalmente inaceitável e amoral. Cf. Declaração sobre a Eutanásia, da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, promungada em 5 de maio de 1980, no 1. 
[3] G. Campanini. IN Elio Sgreccia.  Manual de Bioética: Fundamentos e ética biomédica. Vol. I, 2a edição, Loyola, SP 1996, p. 607
[4] Sgreccia, Elio.  Manual de Bioética: Fundamentos e ética biomédica. Vol. I, 2a edição, Loyola, SP 1996, p. 607

“IGREJA MISTÉRIO” NA CONSTITUIÇÃO DOGMÁTICA “LUMEN GENTIUM

“IGREJA MISTÉRIO”
NA
CONSTITUIÇÃO DOGMÁTICA “LUMEN GENTIUM”

                                                                                   As nações caminharão à sua luz (Ap 21,24)

Fazendo memória do Concílio Vaticano II, após seus quarenta anos, o Conselho Nacional do Laicato do Brasil realizará um seminário cujo tema é a “Constituição Dogmática Lumen Gentium”. Criando esse espaço convoca o seu laicato para entender, aprofundar e retomar os ensinamentos conciliares sobre a Igreja, objetivando reacender a chama e o espírito de renovação do Concílio Vaticano II a fim de que os ajude a perceber que este Concílio não foi um acontecimento passado, mas o ponto de partida de toda ação eclesial, no presente e no futuro, conforme se expressou o Papa Paulo VI em carta de 21/ 09/1966, dirigida ao Congresso de Teologia pós-conciliar:

 “A tarefa do Concílio Ecumênico não está completamente terminada com a promulgação de seus documentos. Esses, como ensina a história dos Concílios, representam antes um ponto de partida que um alvo atingido. É preciso, ainda, que toda a vida da Igreja seja impregnada e renovada pelo vigor e pelo espírito do Concílio, é preciso que as sementes de vida lançadas pelo Concílio no campo que é a Igreja cheguem a plena maturidade”.[1]

Estas palavras ecoaram em grande parte da Igreja do Brasil e o CNLB atento a essa escuta acolhe esse vigor e esse espírito conciliar à luz também das novas exigências dos novos sinais dos tempos e recebe com entusiasmo a tarefa fontal do Concílio Vaticano II.
O lugar central das preocupações conciliares foi ocupado pela própria Igreja. Os dois temas basilares sobre os quais se construiu a eclesiologia[2] do Concílio foram: A Igreja como “Mistério” e a Igreja como “Povo de Deus”. Esta reflexão se concentrará no capítulo I da Constituição Dogmática “Lumen Gentium” que apresenta com riqueza o tema da Igreja “Mistério”.


1. O CONCÍLIO, A IGREJA E O MUNDO MODERNO
                                                                 “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz”(Mt 4,16)

O Concílio Vaticano II marcou a entrada da Igreja no mundo moderno: o encontro da Igreja com a humanidade,[3] que a fez reafirmar sua aliança com a vida humana[4]. Por paradoxal que pareça esse encontro foi decisivo para que ela se encontrasse consigo mesma. Até então a Igreja - desde os tempos da cristandade – exauria-se em crise de identidade. Pois, todo “estranhamento” com relação à história compromete o próprio sentido e a razão de ser da Igreja: na maneira de entender-se a si mesma, e na maneira de entender sua relação com a história[5]. Daí, o Concílio ser recebido como uma lufada de “ar” do Espírito Santo a ponto de ser denominado pelo Papa João XXIII como um “Novo Pentecostes” e pelo papa Paulo VI “uma passagem do Senhor”[6]. A Igreja ao assumir o desafio de “dialogar” com o pensamento moderno é levada a buscar uma nova maneira de estar no mundo e o pré-requisito básico é o seu “Aggiornamento” que o Concílio procurou realizar ao propor o diálogo da Igreja consigo mesma.  Fruto desta opção foram os dois documentos de fundamental importância: A Lumen Gentium e a Gaudium et Spes, que tiveram grande influência na orientação e conteúdo dos demais documentos conciliares[7].
A Igreja necessitava de aggiornamento para viver e anunciar o conteúdo da Revelação, perceber os sinais dos tempos, responder evangelicamente aos desafios, muitos e variados, de cada época histórica. Em homilia às vésperas do encerramento do Concílio, o Papa Paulo VI esclarece os dois grandes eixos norteadores das preocupações da Igreja conciliar: Como evangelizar o mundo atual e como o homem entende o Evangelho hoje.

“A Igreja interessa-se pelo mundo moderno e sente necessidade de conhecer, de aproximar, de compreender, de penetrar, de servir, de evangelizar a sociedade que a rodeia e, por assim dizer, de a seguir nas suas transformações rápidas e contínuas (...) A Igreja do Concílio ocupou-se muito do homem como ele se apresenta na nossa época(...) o homem tal como é, que pensa, que ri, que trabalha, que espera sempre alguma coisa  (...). Grandeza, beleza, mas também miséria, orgulho”. E finalizando, diz ainda o Papa: “... para conhecer a Deus é preciso conhecer o homem”.E mais: “Amar o homem (...) não como um simples meio, mas como um primeiro termo da subida para o termo supremo e transcendente, para o princípio e causa de todo o amor”[8].

O ponto de partida desta renovação, deste rejuvenescimento diz o Concílio é Cristo. Cristo é a Luz na qual a Igreja encontra sua autoconsciência, sua razão de ser. Espelhando-se em Cristo, a Igreja procurará atualizar-se, renovar-se, rejuvenescer: Ao Cristo vivo deve corresponder uma Igreja viva (PauloVI)[9]. Cristo é o Verbo de Deus; é por Ele, é Nele que Deus fala ao mundo, que faz história com os homens. É com Jesus, o Cristo, o Verbo Eterno que é Revelação do Pai e Revelação do homem que a Igreja aprende a dialogar.  
A renovação, propugnada pelo Concílio Ecumênico Vaticano II, é, sem dúvida, uma profunda renovação interior, da qual as reformas externas devem ser sinal. A novidade maior do Concílio adverte, o Papa Paulo VI dirigindo-se aos Bispos da Itália[10], “não são as mudanças exteriores, mas o modo de considerar a Igreja”. Ao dizer isto o Papa estava consciente que o Concílio, no fundo, estava removendo algo considerado intocável durante séculos: superar uma etapa de profunda desistorização da fé e da Igreja. E iniciar uma etapa histórica nova, sob o signo de uma consciência clara da historicidade da fé, da Igreja e de toda reflexão teológica e eclesiológica[11]. Por isso, não mais fuga do mundo, mas presença evangélica atuante no mundo.


2. O CONCÍLIO NASCE PASTORAL[12]
                                     “Eu vim para que todos tenham a vida e a tenham em abundância”(Jo 10,10)

Essa inserção nas realidades do mundo caracteriza a novidade do seu agir: Ela quer realizar aqui e agora, nesse dado momento histórico a sua missão salvífica em relação ao mundo e ao homem como serviço à vida, serviço à comunidade dos homens[13]. Acentuando, então, a sua dimensão pastoral explicita o caráter dinâmico e eficaz de sua presença preocupada e solícita com as realidades terrenas e deixando-se guiar pelas mãos de Deus que investiga o segredo das coisas concentra sua atenção no aspecto de Igreja-Mistério de Salvação.
Importa salientar que a perspectiva pastoral identificou o Concílio desde a sua abertura como se pode constatar no discurso inaugural do Papa João XXIII, no dia 11-10-1962:

“Uma é a substância da antiga doutrina do depositum fidei e outra é a formulação que a reveste: e é disto que se deve, – com paciência se necessário – ter grande conta, medindo tudo nas formas e proporções do magistério prevalentemente pastoral... Sempre a Igreja se opôs aos erros; muitas vezes até os condenou com a maior severidade. Nos nossos dias, porém, a Esposa de Cristo prefere usar mais o remédio da misericórdia que o da severidade: julga satisfazer melhor às necessidades de hoje mostrando a validez da sua doutrina que condenando erros... A Igreja Católica, levantando por meio deste Concílio o facho da verdade religiosa, deseja mostrar-se mãe amorosa de todos, benigna, paciente, cheia de misericórdia e bondade com os filhos dela separados”[14].

O impacto deste pronunciamento do Papa foi surpreendente: a mudança no modo de falar e de conceber a Igreja definiu o rumo do Concílio: de uma Igreja mestra, juíza, dona da verdade, para uma Igreja mãe amorosa, compreensiva, humilde, dialogante...[15] A pastoralidade deste Concílio está marcada por uma abertura inédita à criação, à história e às realidades terrestres.[16]É no meio desta história e desta criação que a Igreja recebe a missão de anunciar e estabelecer em todas as gentes o Reino de Cristo e de Deus (LG 5). Vinculada à realidade histórica incorpora-se no novo “Povo de Deus” reunido por Cristo: comunidade dos homens que testemunha na história a Revelação de um Deus que ama e chama o seu “povo” a fazer dessa história, uma História da Salvação. Pode-se afirmar que este discurso“é, do princípio ao fim, uma só e contínua reflexão sobre o condicionamento histórico do cristianismo e sobre a grande importância deste dado para o acontecimento conciliar”[17]. D.Aloísio assim interpreta a orientação pastoral do Concílio:

É na sua dimensão pastoral que a Igreja se abre às justas exigências do mundo de hoje (democracia, liberdade, responsabilidade. (...),diálogo(...) direitos fundamentais da pessoa humana ) para ajudá-lo num espírito de doação total que é o serviço dos pobres. É a pastoral que considera a maneira de pensar dos homens, a sua linguagem, o seu modo de vida para apresentar o Evangelho de Jesus Cristo como mensagem que liberta e plenifica o homem. É a presença crítica da fé no mundo de hoje, a releitura da Palavra de Deus dentro das mudadas condições de nossos tempos.[18]

Ao apresentar o novo modo de considerar a Igreja a partir de sua natureza e de sua missão (LG 1), o Concílio na sua Constituição Dogmática Lumen Gentium assume que a Revelação e a Igreja são realidades acontecidas e constituídas na história e através de acontecimentos históricos concretos. A exigência desse novo modo de sentir a Igreja orientou a perspectiva pastoral assumida prioritariamente pelo Concílio “que deseja ardentemente iluminar todos os homens com a claridade de Cristo que resplandece na face da Igreja”(LG 1). É Cristo, a luz das nações, o fundamento do “Mistério da Igreja”. Ao descentrar a Igreja de si mesma o Concílio deu um salto: pastoral, ecumênico.[19] Este salto, ou seja, a mudança histórica conciliar pressupõe um novo paradigma de compreensão: uma concepção, dinâmica, histórico-evolutiva da realidade do mundo e, dentro dele, uma compreensão lúcida do caráter histórico do cristianismo e da Igreja, e da historicidade constitutiva de toda eclesiologia[20]. As presentes condições do mundo tornam ainda mais urgente este dever da Igreja (LG 1).


            3. A IGREJA COMO “MISTÉRIO”
 “A Igreja, hoje mesmo está dando Jesus. Explica-mo, ensina-me a vê-lo, conserva para mim sua presença. Dizer isto é dizer tudo. Que poderia eu saber de Jesus, que vínculo haveria entre nós dois sem a Igreja?” (Henri de Lubac)

O Concílio propõe-se explicar com maior rigor, aos fiéis e a toda a gente, a natureza e a missão universal da Igreja (LG 1). A Natureza da Igreja é ser “sacramento” de Cristo. Cristo é o “Sacramento” do Pai, enquanto sinal: sensível, palpável e eficaz do plano divino (LG 1). A Igreja é “sacramento”, enquanto chamada a traduzir em visibilidade histórica o próprio desígnio de Deus, sacramentalizado na humanidade visível de Cristo. Cristo é o sacramento fundamental e a Igreja é o sacramento geral derivado de Cristo. A vocação profunda da Igreja é ser instrumento, da união íntima com Deus e da unidade de todo o gênero humano.
O Concílio ao entender a Igreja como “sacramento” inaugurou uma eclesiologia que supera a compreensão de uma Igreja em termos de razão refletida e comprovada - “sociedade perfeita”- , e passa a compreendê-la como “mistério” de unidade a serviço do mundo. Ao reconhecer a presença de Deus nela que chama os homens à comunhão entre si mediante a graça de Cristo - inter-relacionando ambas as dimensões a visível e a invisível -, o Concílio quis propor a concepção de Igreja em termos de experiência a partir da concepção de “mistério”. Essa mudança do modelo eclesial hegemônico anterior ao Concílio que se caracterizava por uma estrutura estática, na sua doutrina e disciplina, é, saudada por muitos eclesiólogos católicos como uma abertura para a Igreja encontrar o caminho de sua “sacramentalidade”. Assim Rufino Velasco:
“O concílio abre caminho de uma Igreja entendida como “instituição”, como meio de acesso dos homens a Deus, para uma Igreja entendida como “mistério”, isto é, “sacramento” que veicula o acesso de Deus aos homens. Neste sentido, Cristo é “Sacramento”, e a Igreja o é “em Cristo”.[21]

A Lumen Gentium ao definir a natureza sacramental da Igreja está assumindo o sentido patrístico de sacramento entendido como o “mysterion” do Novo Testamento, referido ao “mistério de Deus, que é Cristo” (Cl 2,2) e que foi traduzido pelos Padres da Igreja por “sacramentum”.[22]A Igreja é “sacramento” quando através dela transparecem historicamente as realidades invisíveis, evangélicas, que está chamada a veicular; ela é participante da História da Salvação. A Igreja brota do desígnio amoroso do Pai concretiza-se na Encarnação Redentora do Filho, completa-se na ação santificadora e rejuvenescedora do Espírito Santo. O Verbo feito Carne (Jo 1,14) é, pois, a fonte que acentua a noção fundamental da Igreja “Mistério”, uma realidade única e complexa na qual se fundem dois elementos, o humano e o divino (LG 1). A Igreja é mistério: lugar onde é revelado o projeto salvífico de Deus realizado em Jesus Cristo. A Igreja é acesso ao conhecimento e à participação neste mistério, espaço de participação nessa salvação.
A verdadeira realidade da Igreja só pode ser vislumbrada à luz da fé. A sua inteligibilidade não vem de sua condição de sociedade perfeita, mas de ícone da Trindade, em sua realidade de comunhão interpessoal, solidariedade mútua, inter-relação. O Pai envia Jesus para reunir o Povo de Deus disperso, o Espírito é o começo da nova criação. A Trindade congrega continuamente a Igreja à sua imagem nesta nova criação[23]. Vem da Trindade, vive da Trindade, caminha para a Trindade.[24]
Quando se fala do “mistério” da Igreja, costuma-se dizer, e o próprio Concílio disse (LG 8), que isto significa que a Igreja é uma “realidade complexa”, constituída por um elemento humano e outro divino, por uma dimensão visível e outra invisível. Duas dimensões que por sua própria razão de ser não podem ser separadas, mas cuja relação mútua não se costuma precisar[25]. Não é o mesmo que reduzir a concepção de mistério às verdades sobrenaturais que estão acima da razão, nem a uma realidade ‘inacessível’de Deus, à qual o homem procura se achegar por diversos caminhos. O Concílio na Lumen Gentium deslocou o sentido de mistério, encerrado na eclesiologia anterior numa categoria a-histórica para a vivência concreta do mistério da Encarnação. A aplicação à Igreja dessa concepção geral do mistério foi apresentada por Paulo VI em sua alocução inaugural da segunda sessão do Concílio:

“A Igreja declarou o Papa, é “ um mistério”. É uma realidade imbuída da presença oculta de Deus.Está, por conseguinte, na própria natureza da Igreja manter-se sempre aberta a uma nova e cada vez mais ampla exploração”.[26]

D. Aloísio Lorscheider assim explicita a concepção de mistério no capítulo primeiro da Lumen Gentium:

 “No mistério da Igreja devemos distinguir dois aspectos: divino, sobrenatural um; humano outro.
1.O aspecto divino, sobrenatural: É o mistério do Verbo Encarnado em toda sua profundidade: Deus e Homem; Eterno e temporal; infinito e limitado. Na base da Igreja está o Verbo Encarnado Redentor, o Filho Único, o bem amado, que está no seio do Pai (Jo 1,18). Permanecendo no seio do Pai, o Filho, o Verbo se fez carne e colocou a sua tenda entre nós (Jo 1,14). A partir deste seio, Ele, o Verbo, nos revela o Pai, a Si mesmo, e o Espírito Santo (Jo 3,11; Mt 11,27).
2.O aspecto humano: A Igreja continua o Verbo Encarnado Redentor. Encarna-se nas diferentes culturas, nos diferentes povos, nos diferentes ritos; peregrina com os homens na fé (não possui a visão, não conhece claramente a solução de todos os problemas, deve procurar, refletir, meditar, ouvir os outros, sempre atenta às sementes de verdade que Deus espalhou pelo mundo inteiro, também nas religiões do mundo; ela é posta à prova: a perda de Jesus no templo é muito elucidativa; a atitude de Maria que conservava todas estas coisas no seu coração e as meditava é um exemplo para a Igreja), na esperança (ela geme esperando ansiosamente a libertação: Rm 8,19-25), na caridade (que é serviço no sentido de Fl 2,6-8), sempre vigilante à espera do esposo para as bodas (Mt 25,1-13), em crescimento, o grão de mostarda (Mt 13,31s); o pequeno rebanho (Lc 12,32). Cresce visivelmente por virtude divina; em contínua tensão pensando nas coisas do alto (Cl 3,1s)”. [27]

A inspiração que enriqueceu a visão rica e profunda da Igreja como “mistério” é contribuição das tradições bíblicas, orientais e patrística. Chama atenção também o uso intenso e constante na Lumen Gentium de citações bíblicas o que manifesta a importância da Revelação para a vida da Igreja e a história dos homens. A Palavra de Deus na Bíblia volta a ser a “alma da teologia e da pregação”(DV 6) , o que caracterizou a chamada volta “às fontes da fé”.

4. O MISTÉRIO EM SUA SIMBOLOGIA
                                             “É grande este mistério: refiro-me à relação entre Cristo e a sua Igreja”(Ef 5,32)

  O capítulo I que trata do mistério da Igreja é construído em torno da Bíblia, notadamente do Novo Testamento. No ‘Corpus Paulinum’ o mistério por excelência não é tanto Deus na sua natureza essencial ou os conselhos da mente divina, mas, sobretudo, o plano divino da salvação quando vem a realizar-se concretamente na pessoa de Cristo[28]. É nas cartas de São Paulo –, quando esclarece a natureza da Igreja que ele apresenta quase que exclusivamente por imagens - que o termo “mistério” (1 Cor 15,51; Cl 1,26.27;2,2; 4,4 e Ef 1,9;3,3.4.9;5,32; 6,19) adquire para o Novo Testamento todo seu sentido.
Ao definir a Igreja como “mistério” o Concílio lançou mãos de categorias que manifestam a mais profunda realidade da Igreja – o mais importante constitutivo do seu ser – que é o divino dom de si mesmo. No citado discurso de abertura do Papa João XXIII ele já a descreve por imagens que funcionam como símbolos: ‘esposa de Cristo’, ‘mãe amorosa’... Isto equivale dizer que as imagens falam existencialmente ao homem, encontram eco nas profundezas do seu psiquismo e focalizam de um modo novo a sua experiência[29]. O mistério da comunhão do homem com Deus exclui a possibilidade de partir de conceitos claros e unívocos ou de definições na acepção da palavra. Entre os instrumentos positivos para iluminar os mistérios da fé, o Concílio considerou primeiramente as imagens.

“O resultado mais significativo do debate foi a persuasão profunda de que a Igreja, nos seus dois mil anos, foi descrita não tanto mediante definições verbais quanto à luz de imagens. A maioria das imagens é, por certo, bíblica.O valor teológico das imagens foi vigorosamente afirmado pelo Concílio. Da noção que se deve começar por uma definição Aristotélica, simplesmente não se tomou conhecimento.Em seu lugar foi proposta uma análise bíblica do significado das imagens[30].

Esse uso das metáforas bíblicas pelo Concílio está a serviço da compreensão da Igreja como “mistério” que, não só sugere que ela transcende incomensuravelmente todos os conceitos e formulações humanos, mas retoma uma eclesiologia  simbólica Bíblico-Patrística: A Igreja é o Povo de Deus, a Igreja é o Reino já presente em mistério,  a Igreja é o Corpo de Cristo, a Igreja é o rebanho, a Igreja é a vinha, a Igreja é o templo, a Igreja é a mãe, a Igreja é a esposa, que é muito sintomática de uma eclesiologia aberta e plural que a concepção de Igreja como “mistério” de salvação induz e favorece. Estas várias imagens, sem contradizer-se diretamente, realçam diferentes aspectos e funções, insinuando a diversidade de prioridades e metas.
O Concílio concentrando sua atenção mais no aspecto de Igreja-Mistério de Salvação na dimensão da história dos homens - sem rejeitar as outras formas de expressão – elegeu como a que melhor manifesta o dinamismo de sua natureza sempre em missão, sempre um projeto que deve buscar entre os homens a realização do Reino de Deus a imagem de Igreja “Povo de Deus”. Esta imagem contempla de forma especial, o seu novo modo de presença no mundo. O campo de ação da Igreja, sendo o mundo dos homens, inclui a todos e a sua missão será a missão de todos os batizados. Portanto, como mistério de comunhão e de unidade ela se propõe uma comunidade de batizados onde todos participam a seu modo do múnus sacerdotal, profético e real de Cristo – realizam na Igreja e no mundo, na parte que lhes compete, a missão de todo o povo Cristão (LG IV/31). Esta novidade restaura a igualdade fundamental proveniente do Batismo, a comum dignidade, a comum missão de todos os seus membros e recupera de modo surpreendente a condição eclesial dos cristãos “leigos”: O Apostolado dos leigos é participação na própria missão salvífica da Igreja. Por isso esforcem-se os leigos com diligência por conhecer mais profundamente a verdade revelada e peçam incessantemente a Deus o dom da sabedoria (LG IV/35).
A Lumen Gentium (LG 8) ao dizer que a Igreja de Cristo subsiste na Igreja Católica, reconhecendo, ao mesmo tempo que fora dela pode-se encontrar realmente vários elementos de santificação e de verdade que, como dons próprios da Igreja de Cristo, impulsionam para a unidade Católica  abre suas portas ao Ecumenismo. A concepção de Igreja, que se desenvolve depois do Concílio, valoriza sua face espiritual e misteriosa. Deixa-se de lado a insistência unilateral sobre o aspecto visível, jurídico, organizativo. Ela é percebida mais como sinal, um anúncio do projeto de salvação para toda a humanidade do que como aquele lugar necessário fora do qual as pessoas se condenam[31].
À dimensão pastoral assumida pelo Concílio se devem os méritos do retorno dessa metodologia eclesial, cuja riqueza do símbolo na ação evangelizadora, típica das primeiras comunidades cristãs, permite, quando atualizada e em sintonia com as diversas experiências de inculturação, o enraizamento nas diversas culturas do anúncio do Reino de Deus (LG 5) que foi a preocupação básica de Jesus e é a missão da Igreja.

“A estes quis Deus tornar conhecida qual é entre os povos a riqueza da glória deste mistério, que é Cristo em vós, a esperança da glória”(Cl 1,27).

.
CONCLUSÃO

 A Igreja é o que de mais divino e mais humano opera eficazmente no mundo, como fermento, luz, sal, para a glória do Pai e a felicidade do gênero humano.(A.Lorscheider)

Com o que ficou dito poder-se-á compreender com que profundidade no capítulo I da Lumen Gentium se refletiu sobre o mistério da Igreja. Este novo modo de sentir a Igreja de uma maneira peculiar e inovadora traz consigo incalculáveis conseqüências.
·        Porque animada pelo Espírito do Ressuscitado, a Igreja é viva e dinâmica, é comunhão com os irmãos na fé, comunhão solidária com os pobres. Mistério que é o do Cristo pobre e sofredor: “Como Cristo realizou a obra da redenção na pobreza e na perseguição, assim também, para poder comunicar aos homens os frutos da salvação, a Igreja é chamada a seguir o mesmo caminho” (LG 8).
·        Outra é, de que não existe Igreja à margem da fé do povo de Deus: aos que acreditam em Cristo, o Pai quis convocá-los na santa Igreja (LG 2). “Assim aparece a Igreja inteira como povo congregado na unidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo” (LG 4). A imagem da Vinha expressa o mistério do Povo de Deus.
·         Também convém destacar a ternura da Igreja, sua face materna ao acolher a todos como Filhos “amados e eleitos do Pai” (1Ts 1,1), sem acepção de pessoas, a fim de que todos possam compreender a caridade de Deus e de Cristo para com os homens, amor que excede todo conhecimento (LG 6) a ponto de reunir em seu seio os pecadores. Por isso mesmo, ao mesmo tempo, que, é santa, precisa também de purificação, e sem descanso prossegue no seu esforço de penitência e renovação (LG 8). 
  Assim, toda a importância da Igreja deriva de sua ligação com Jesus Cristo, porque em seu ministério Galilaico-judeu se cumpriu o desígnio do Pai de manifestar o Reino prometido há séculos: “os tempos estão cumpridos e o Reino de Deus está iminente”(LG 5). Continuando a missão de Jesus de Nazaré, a Igreja continua também o seu peregrinar entre as perseguições do mundo e as consolações de Deus. Anunciando a cruz e a morte do Senhor até que ele venha, a Igreja encontra força no poder do Senhor ressuscitado para revelar ao mundo, com fidelidade, embora entre sombras, o mistério de Cristo, até que por fim se manifeste em luz total (LG 8).
Em síntese o “mistério” da Igreja é o mistério da Manjedoura de Belém, da Epifania, do Batismo no Jordão, da Proclamação do Reino, da Cruz, do Túmulo vazio, da Ressurreição, do Pentecostes, da Trindade, da Comunhão e da Unidade, isto é, é o “MISTÉRIO DE CRISTO”.
Este Concílio Vaticano II que nasceu de uma experiência espiritual e foi recebido como um “Novo Pentecostes” é uma inspiração para que o laicato do Brasil se repense como Igreja, repense a sua comunidade, e sua vida pessoal, em função do bem do mundo, e de toda a humanidade que aspira pela justiça e paz.[32]
Recordando o apelo do Papa Paulo VI para atualizar o vigor e o espírito do Concílio, citado no início deste artigo, podemos fazer nossas as palavras de Rufino Velasco:

 “Não se trata apenas de entender e aprofundar os documentos conciliares trata-se de continuar o Concílio, de fazê-lo avançar para a mudança histórica começada por ele. Não se pode ser fiel ao Concílio a não ser indo para além dele, em inovação e criatividade permanente. Decididamente, o Vaticano II foi um acontecimento do Espírito, desse Espírito que continua“criador” de sua Igreja, e que continua “fazendo novas todas as coisas”[33].

                                                                        Tânia Maria Couto Maia[34]





BIBLIOGRAFIA
- Compêndio do Vaticano II- Ed. Vozes, RJ- 1968
- Constituição Dogmática sobre a Igreja – Lúmen Gentium, 11ª edição, Ed. Paulinas, 1966
- Concilium / 208 – 1986/6 Ed. Vozes, RJ. 1985
- Dulles, A. A Igreja e seus modelos, Ed. Paulinas, SP 1978
- Gonçalves,P. e Bombonatto,V.: Concílio Vaticano II- Análise e Perspectivas Ed. Paulinas 2004
- Libânio, J.B. – Igreja Contemporânea: Encontro com a modernidade, Ed. Loyola, SP 2000
- Lorscheider,A.-Idéias Fundamentais do Concílio E. Vaticano II, Santo Ângelo, RS, 1968
- Lorscheider,A.- O Mistério da Igreja no Vaticano II – Teologia I, Santo Ângelo, RS 1965
- Velasco Rufino. – A Igreja de Jesus – Ed. Vozes, RJ- 1995

TEXTOS (mimeo)
Batista, Libânio: Concílio Vaticano II: Abordagem pastoral. ITEP, Semana Teológica - CE -2003
Ernando, Paulo: Reacendendo a chama do Concilio Vaticano II-ITEP, Semana Teológica, CE, 2003
Kosubeck, Miguel: A Igreja do Vaticano II- Semana Teológica do ITEP – Fortaleza, Ce 2003






[1] Papa Paulo VI in Kloppenburg, B.: Introdução Geral aos Documentos do Concílio Vat.II, p.7 - Ed. Vozes 1968 .
[2] Eclesiologia é a abordagem da dimensão eclesial da fé cristã
[3] Humanidade aqui tem o sentido de reconhecimento dos valores humanos = humanismo.
[4] Papa Paulo VI, Discurso final do Concílio em 7 de Dez. de 1965 in Kloppenburg, B.: op.cit , p.7
[5] Velasco, Rufino: A Igreja de Jesus – p.234 e 238 – Ed. Vozes, 1995
[6] Citado por Lorscheider, A. in Idéias Fundamentais do Concílio.Vat.II – Santo Ângelo, RS - 1968
[7] Velasco Rufino: A Igreja de Jesus – p.234 – Ed. Vozes, RJ, 1995
[8] Papa Paulo VI – Homilia em 7/12/1965 in artigo de Ernando Paulo N. Barbosa – ITEP – Fortaleza, 2003
[9] Lorscheider, A.; Idéias fundamentais do Concílio Vaticano II, Santo Ângelo, RS, 1968
[10] Papa Paulo VI, citado por Kloppenburg, in Introdução Geral aos Doc. do C. Vat.II, p.8 – Vozes, RJ, 1968
[11] Velasco, Rufino: op.cit. p. 234
[12] Libânio, JB in artigo: Vaticano II: Abordagem pastoral, p.1 – Semana Teológica do ITEP – Ceará, 2003
[13] Cf. Lorscheider, A. in Gonçalves, P. e Bombonatto, V.:Concílio Vaticano II – Análise e Perspectivas p. 7, Paulinas, 2004
[14] Papa João XXIII in Kloppenburg: Intr. Geral aos Doc. do C. Vaticano II , p.8 -Ed.Vozes 1968  (O grifo é nosso)
[15] Cf. Lorscheider, A. in op. cit. p.5
[16] Cf. Bingemer.M.C. in Gonçalves, P. e Bombonatto, V. – op. cit. p.192
[17] Joseph Ruggiori in Velasco, R. op. cit. p.236
[18] Lorscheider,A. in Grandes Linhas Eclesiológicas do Concílio Vaticano II: Novidades - in Revista Kairós, p.45 Dez.2004
[19] Cf. Libânio, JB op.cit, p8
[20] Velasco,R. op. cit, p.236
[21] Velasco,R. op. cit.,p 246
[22] Velasco,R. op.cit. p 244
[23] Cf. Igreja, Mistério de Koinonia,,p. 62-64 in artigo de Mikael Kosubeck – ITEP – Fortaleza, 2003
[24] Cf.Libânio, J.B. op.cit, p.8
[25] Velasco,R. op. cit., p. 245
[26] Citado por Dulles, A.. op cit p.15
[27] Lorscheider,A. in Curso sobre a Constituição Dogmática Lumen Gentium, Santo Ângelo, RS- 1965
[28] Dulles,A.: A igreja e seus modelos,p.14, Ed.Paulinas, 1978
[29] Ibidem, idem
[30] G. Wiegel, in Dulles.A: Op. cit. p.16
[31] Libânio,J.B. – Igreja Contemporânea: Encontro com a Modernidade, p.95 -Ed. Loyola,  SP 2000
[32] Cf. Catão, F. in Gonçalves, P. e Bombonatto V. in op. cit. p.106
[33] Velasco, R., op. cit. p 239
[34] Casada, mãe de cinco filhos já adultos, Téologa, professora de Bíblia desde 1984 do Instituto Teológico e Pastoral do Ceará, ITEP, da Escola de Pastoral Catequética, presta assessoria ao CEBI, faz parte da atual Comissão de Formação e é membro nato do CNLB.

Homilia do XVIII Domingo do Tempo Comum (Ano C)

Homilia do XVIII Domingo do Tempo Comum (Ano C) Um homem vem a Jesus pedindo que diga ao irmão que reparta consigo a herança. Depois ...