sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES LITURGICAS


Liturgia:

É a vida da Igreja que brota da paixão e ressurreição de Cristo Salvador. Ela deve está como prelúdio da atividade pastoral, isto é, ela necessita refletir a prática daqueles e daquelas que a exercitam.

Celebração:

A celebração nos leva a descortinar a grandeza de nosso ser e de nosso destino de imagem de Deus, grandeza que corremos o perigo de esquecer nas lutas pela vida, nas frustrações da existência. A celebração abre-nos espaços para vivermos em comunhão com Cristo e com os irmãos.
A celebração ocupa, na religião, um lugar privilegiado: porque põe homens e mulheres em comunhão entre si e com Deus através de símbolos ou sinais. A celebração consiste no memorial do acontecimento mais importante da humanidade, a saber, a vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo.
Na nossa celebração há muitos gestos, objetos e atitudes especiais de pessoas: altar, cruz, livros, luzes, toalhas, palavras, mãos postas, mãos estendidas, sinal da cruz, genuflexão, procissões... Elas entram na liturgia como símbolos ou sinais significativos.
A celebração é a festa da libertação, por isso, ela precisa ser vivida e preparada com amor e vida. Jamais se deve improvisar a missa, ao contrário, se deve buscar ao máximo a harmonia em tudo: canto, leituras, gestos, símbolos... Como dissemos a missa ou celebração é o memorial de Cristo. “Tomai todos e bebei, pois isto é o meu sangue, sangue da nova e eterna que é derramado por muitos para a remissão dos pecados. Fazei isto em memória de mim.” (Mt 26, 27-28)


Elementos da celebração:

O primeiro elemento da liturgia são as pessoas. A presença de homens e mulheres no recinto em que se encontram, felizes por se reconhecerem como convocados por Deus, faz de nossas assembléias reuniões diferentes das que concentram pessoas em teatros ou estádio, em reuniões sindicais, ou encontros partidários, etc. As pessoas que à celebração se encontram são conduzidas pela fé em Cristo ressuscitado e na força do Espírito Santo em busca da transformação das estruturas.
O segundo elemento importantíssimo na celebração é a Palavra de Deus, comunicação do próprio Deus, que nos convoca a celebrar a aliança. Por isso as leituras não devem ser lidas, mas proclamadas. Daí a necessidade de bons leitores, com dicção audível.
O terceiro elemento e de muita expressividade é o altar. O altar constitui o local do sacrifício, oferecimento do Cristo, que se faz pão para alimentar nossa fé e nossa vida. Faz-se mister uma boa decoração do altar, sem muitos apetrechos.
No altar, liturgicamente, só necessitam estarem no mesmo o celebrante e aqueles que iram acolitá-lo. O ambão ou local das leituras é espaço sagrado, por isso, avisos e imformes devem ser dados dum lugar a parte. Se a Igreja contém dois ambãos um deve ser reservado para as leituras e outros para os comentários e avisos. A mesa do sacrifício deve estar no centro da Igreja com toalhas que indiquem o tempo litúrgico. Esteticamente a mesa do altar não precisa de muita coisa, somente uma par de velas; se existir o Ciro Pascal pode-se usá-lo; um crufixo; o missal. O pão e o vinho devem estar sobre a credência e só sobem à mesa na hora das oferendas.
O quarto elemento as preces, suplicas e pedidos. Eles expressam a vida, a história e o sonho da comunidade. Assim se sugere a equipe de liturgia que prepare as preces e pedidos da assembléia, usando os elementos da própria comunidade: suas lutas, seus problemas, suas conquistas...
O quinto elemento, o ambiente em que se vai celebrar. O espaço da celebração deve ser limpo e bem agradável, pois ninguém se sente bem num lugar sombrio e esquisito. Flores ajudam a embelezar o ambiente, as luzes são também muito importantes, pois um local escuro dificulta a leitura e impede o olhar profundo sobre as pessoas.
O sexto elemento, a música. A música ritma a celebração e a torna mais agradável. Porém ela deve ser bem cantada e está de acordo com aquilo que se celebra. Caso contrário a música tornar-se-á um elemento sem sentido. Os cantos precisam ajudar a compreender o mistério da celebração e respeitar a liturgia do dia. Jamais se deve trocar o salmo do dia por um canto de meditativo. Os salmos são para meditação da leituras proclamadas e não uma figura de sintaxe, que se pode retira e/ou trocá-lo a qualquer gosto.
O sétimo elemento, os gestos e danças. Nossa cultura Latino-Americana é marcada por símbolos, danças e gestos, e eles estão presentes também na liturgia, mas cada gesto deve respeitar o tempo litúrgico, como também as danças e símbolos, deve estar de acordo com o calendário litúrgico.



Alguns erros da equipe de liturgia:


1. Não preparar antecipadamente a celebração
2. Não fazer um programa da celebração
3. Não sentar com o presidente da celebração para mostrar-lhe o esquema da missa.
4. Chamar pessoas fora da equipe para fazer algum serviço da liturgia.
5. Não preparar as leituras (verificar palavras difíceis de serem pronunciadas)
6. Ler friamente a Palavra de Deus.
7. Não fazer comentários próprios
8. Fazer comentário muitos longos.
9. Trocar o salmo do dia por um canto qualquer
10. Ficar transitando sem necessidade no altar.
11. Ficar conversando na celebração
12. Ausentar-se da Igreja.
13. Bater palmas para tudo
14. Extrapolar com os instrumentos musicais
15. Cantar canto que não estão ligados a liturgia que se celebra.
16. Uma pessoa exercer mais de uma função na mesma celebração.
17. Ter uma grande quantidade avisos.
18. Não se vestir adequadas para as funções litúrgicas.

Pe. Fantico Nonato,

OS VOTOS VICENTINOS : DESAFIOS PARA A VIVÊNCIA DO CARISMA HOJE









INTRODUÇÃO

Não tenho a pretensão de fazer uma análise acurada do humano, pois tal trabalho não comportaria e falta-me também um conhecimento aprofundado do conteúdo. Apenas quero lançar pistas para ver na complexidade do humano uma alternativa de interpretar os votos e sua vivência.
O referido trabalho é uma tentativa de reler os votos vicentinos numa perspectiva atual. Sabemos que a conjuntura hodierna, marcada pela derrocada de valores milenares, torna mais difícil a empreitada de tal leitura.
Como falar de voto de obediência numa cultura que prega a possessiva liberdade de direitos? Ou como falar de voto de castidade para uma sociedade em que o corpo, o sexo e o prazer dominam as mentes, rejeitando o desejo singelo de mortificação e entrega ao irmão? E, por fim, como falar de voto de pobreza quando o sistema vindouro massacra a cultura do pobre, desprezando e marginalizando o mundo dos humildes e simples? Os bem-aventurados da religião capitalista não são os pobres, mas os economistas, banqueiros e acionistas das bolsas de valores, homens que sabem investir certo e na hora oportuna.
Em todo nosso trabalho levaremos nossa investigação na ótica do sujeito, isto é, não queremos analisar as disposições dos votos, mas confrontar as motivações religiosas com as estruturas “mundanas”. Nossa pretensa pesquisa quer ser alerta e ao mesmo tempo um sinal de esperança para nós vicentinos da CM que vivemos no agitado mundo pós-moderno.
Em vista dessa esperança, anunciamos os votos como Kairós, momento de crescimento e amadurecimento do ser humano. Acreditamos na vivência dos votos como um estilo de vida, e por isso não restrito apenas aos religiosos, mas a todo ser que possui uma compreensão mais extensa do sentido da vida.







UM SER DE RELAÇÕES


Quem sou eu?
Sou um nó de relações, voltado para todos os lados.
Constituindo universalmente um elo de condições.

Sou o hoje em conformidade com o passado, profundamente aberto ao futuro.
Sou a tardança daquilo que está em mim, mas ainda não aconteceu.
Em fim, sou gerações!

Sou abertura para transcender os limites de mim mesmo.
Andarilho pelo mundo em busca de amar, envolvido num fio umbilical infinitamente ligado ao transcendente transparente no irmão.

Sou o celeste prosaicamente presente na terra,
pensamento que voa longe, mas tenazmente enraizado no chão da vida diária.
Sou gente, sou criança, sou um ser em construção,
em caminho de solução, buscando meios novos, fórmulas alternativas.

Sou eu-tu na confluência de um constante nós,
marchando para o concreto presente indiviso dum ser em descoberta.
Sou agora um que não serei no futuro. Sou infinito n'Ele!

Pe. Fantico Borges







PRIMEIRO CAPÍTULO: O HOMEM VICENTE DE PAULO, DESCOBERTAS E DESAFIOS.

1. A DESCOBERTA DO POBRE

Vicente de Paulo nasceu, como se sabe, de família bem humilde, contudo não podemos dizer que era um “miserável”. A prova disso é que o seu pai, João de Paulo, vendeu uma junta de boi, para garantir-lhe o ingresso nos estudos, no colégio de Dax.[1] Porém, nem por isso podemos, também, afirmar que o garoto Vicente tivesse uma vida cômoda, de gente rica. Ao contrário, Vicente vivia uma vida simples como todo menino do campo.
O sonho de ir ao seminário para ingressar na vida eclesial se deu numa circunstância muito peculiar. Os biógrafos do Santo, afirmam que tudo partiu do desejo do pai. Foi João de Paulo quem deu o primeiro impulso concreto. É o pai quem percebe que Vicente possui qualidades especiais para os estudos e a oração, o que lhe difere dos outros irmãos. Daí começa a incentivá-lo.[2]
Após a ordenação, o recém padre Vicente de Paulo lança-se na busca do seu ideal: a conquista de uma pensão gorda, isto é, de uma vida tranqüila para si e os seus. Como sabemos, ele viajou muito, foi a diversos lugares, chegando até Roma. Depois do obscuro período do cativeiro, Vicente vai trabalhar como capelão-esmoler da Rainha Margarida de Valois, tendo como função a distribuição dos donativos da Rainha. Neste contexto os pobres eram visto como espaço da misericórdia assistencialista.
Cabe aqui uma análise da relação de Vicente com os pobres. No princípio, seu contado não é muito amistoso, parece ser mais profissional e menos pastoral. Todavia, essa relação é bem entendida quando observamos as motivações iniciais de Vicente. Ora, ele saíra de um contexto de pobreza, sonhava com uma vida cômoda, era lógico que sua relação com os pobres fosse pouco afetiva, uma vez que ele ainda não havia sido tocado pelo Cristo Pobre.
Sua luta desenfreada, nos primeiros anos de sacerdócio, para conseguir uma vida fácil parece-lhe prepará-lo para o encontro definitivo com o Cristo transfigurado nos pobres. Todavia, Vicente precisará fazer um longo e árduo caminho à conversão. O primeiro passo e talvez o mais difícil foi reconhecer-se como pobre.
Vicente vai fazer uma caminhada lenta, dolorosa. Psicologicamente ele travará uma grande batalha com sua estrutura psíquica. O reconhecimento do pobre passa pelo sua auto-descoberta como pobre. A aceitação da sua condição de pobreza e humildade convergirá num profundo esvaziamento do homem Vicente de Paulo.
Imagino como deve ter sido difícil para Vicente fazer este caminho de abertura de si. Colocar o pobre como centro de sua vida é antes reconhecer e identificar-se com eles. Para uma pessoa que sempre sonhou com as riquezas, que teve como uma de suas motivações iniciais para o sacerdócio a vida cômoda, mudar de rumo não é fácil. Sair na via contrária ao pré-estabelecido e sonhado é um choque. Exige uma maturidade e ao mesmo tempo uma confiança fiducial a Deus. E que decepção Vicente de Paulo não terá causado aos seus familiares, que esperavam por dias melhores! Com certeza os parentes de Vicente, que investiram muito na sua carreira religiosa, esperavam que ele trouxesse "o maná". Mas nada disso aconteceu, que desolação não terá pairado na casa dos de Paulo.
A descoberta do pobre para Vicente deve ser entendida como uma batalha da consciência. Era o ideal chocando-se com o real, o sonhado sendo diluído pela realidade gritante de miséria dos pobres da França. Quantas noites Vicente não se sentiu como o Cristo no Horto das Oliveiras: “Pai, se for possível afasta de mim este cálice!” (Lc 22, 42). Que tensão viveu o homem Vicente de Paulo até a conversão. O ato de reconhecer sua história, seu passado, sua gente e sua realidade não foi simples. Reconhecer o Cristo sofrido é pôr em questão todos as suas idéias de grandeza, é identificar-se com o pobre, é ser um pobre. Talvez essa luta constante na consciência Vicente sempre o fizera lembrar, em suas conferências, de sua realidade camponesa e pobre.
O que mais me encanta na conversão de Vicente de Paulo não é o ato de acolher o pobre, mas a maneira como ele se identifica com o pobre. Muito mais que reconhecer, Vicente se transporta para o lugar do pobre.[3] O processo de lapidação da conversão de Vicente é a grande marca de um santo que se fez na história, no dia-a-dia, assumindo sua condição existencial de pobre.

2. A CONVERSÃO DO HOMEM VICENTE DE PAULO

A conversão de Vicente de Paulo é algo de fantástico na Igreja. Um homem que vivera sempre sonhando com os altos púlpitos sente-se conclamado a socorrer os mais pobres entre os pobres. Este clamor ingente, como já vimos relatando no item acima, deu-se num processo lento e doloroso, que concluirá no momento da morte.
O encontro de Vicente e o pobre dá-se primeiramente no interior dele mesmo, na descoberta da sua condição humano-existencial. A conversão de Vicente inicia-se primeiro no campo psíquico e depois no físico, pois para Vicente, a conversão deve ser entendida como uma tomada de consciência e valorização do pobre. Isso vai irromper no encontro fundamental com os pobres.
Os dois grandes episódios falados pelos biógrafos, Folleville e Châtillon, são colocados às vezes como o cume da conversão do Santo. Ao meu ver, ali se constata a abertura inicial ao pobre.
Em Folleville, a atitude de Vicente ao encontrar-se com o pobre é ainda um pouco formal. Ele não se questiona acerca da situação daquele povo, mas é Madame de Gondi quem o pressiona. “Ah! Senhor Padre, que é isso que acabamos de ouvir?! (...) Ah! Padre Vicente, quantas almas se perdem! Como remediar a isso?”[4] A interrogação não partiu de Vicente, acredito, pelo fato de ele ainda não ter despertado para o encontro com sua realidade, seu chamado e sua condição.
Não quero tirar o mérito do Santo Vicente, mas aludir para o homem Vicente. Alguns biógrafos, em seus livros, relatam Vicente como um Santo antes do tempo, que num toque de mágica, por um encanto, fez o grande encontro com o pobre. Não acredito nesta abertura abrupta ao pobre. Penso que o caminho percorrido foi outro. Folleville é um dos momentos de questionamento; pode até figurar como um grande questionamento, porém, jamais como “a experiência”. Em Folleville, Vicente começa tomar consciência de sua realidade existencial, questiona-se acerca de sua missão, confronta-se com a carência espiritual daquele povo pobre do campo.
Após Folleville, Vicente imprimirá uma auto-avaliação de sua caminhada, pondo-se em vigília acerca de sua posição social e religiosa. A conclusão disso é a repentina e inexplicável saída da casa dos Gondi, para a paróquia de Châtillon. Pode-se constatar aqui o conflito interno de Vicente, que começa a dar passos mais largos.
Em Châtillon, Vicente fará um encontro mais pessoal com o pobre. O amadurecimento ainda não é totalmente claro, contudo vemos um Vicente mais preocupado, atento à realidade de miséria. Os biógrafos dizem que o próprio Vicente irá à casa de uma família carente.
No primeiro episódio (Folleville), a expressão que surge é: “o povo se condena por falta de instrução”. Nesse segundo episódio, há uma personalização: “eis uma grande caridade, porém mal regrada. (...) estes pobres doentes, tendo tantas provisões ao mesmo tempo, deixarão muitas coisas se perder, e depois disso cairão na mesma necessidade”[5].
O encontro com a condição de miséria e abandono daquela família toca o coração de Vicente. Há um contato pessoal diferente dos demais, um encontro particular que mexe com o íntimo dele. A esta realidade não poderá ficar passivo. Nasce aí a abertura dele ao outro, totalmente pobre e abandonado. Dá-se o início da metanoia (conversão), porque existe uma kenose (esvaziamento de si). Agora, Vicente busca assumir uma posição hétero-centrada, ou seja, voltada para o outro e para sua libertação. Brotam os primeiros passos daquele que um dia será São Vicente.
Uma coisa intriga: por que Vicente levou tanto tempo para assumir juridicamente sua posição em defesa explícita dos pobres? A priori, sabe-se que são oito anos que separam Folleville e Châtillon da data do contrato de fundação da Companhia; e mais, quando ele o assina ainda está sozinho nessa aventura. Por isso é mais verossímil colocar Folleville e Châtillon não como divisor de águas, mas como espaço do encontro real, sem interesses próprios, como o contato da gratuidade, de fraternidade e de solidariedade.
A conversão de Vicente não se deu em Folleville e Châtillon, mas esses episódios são espaços que o fizeram remoer sua própria história, questionar sua realidade e confrontar suas idéias. Folleville e Châtillon são referenciais marcantes e por isso são importantes, porém nunca o ato decisivo. A conversão de Vicente é de mente e de ideal. Suas idéias vão tomando forma ao longo do tempo e conformando-se ao Evangelho de Cristo Servidor.

3. O CARISMA DA COMPANHIA

A Congregação da Missão é fruto de um conjunto de situações, não é inspiração do além ou da imaginação de Vicente. O contexto histórico da França no qual Vicente viveu, seu olhar observador e atento à miséria do povo provocaram um apelo fundacional. Por isso o carisma da Congregação é uma conquista do amadurecimento processual de Vicente.
A Pequena Companhia surge primeiramente como uma idéia, não muito clara, de Madame Gondi. O mérito de Vicente é aprimorar e sistematizar a proposta. Foi Madame de Gondi quem incentivou, e é ela quem financiará a Pequena Companhia. Porém, foi Vicente quem assumiu as rédeas da caminhada.
Em 1625, Vicente assume corajosamente um compromisso de alta responsabilidade com a família dos Gondi. Assina o contrato de fundação que marcará sua radicalidade no serviço aos pobres. Ele já percebe com mais clareza sua vocação-carisma: “Aplicar-se inteiramente e somente à salvação do povo pobre.” [6] Nasce dessa convicção o carisma da Companhia: “Evangelizare Pauperibus misit me”
O espírito da Congregação da Missão brotará da experiência de doação e identificação com o pobre. O carisma flui da vida, do chão, dos pés e das entranhas de Vicente. Como afirmava o próprio Santo: “O Filho de Deus veio evangelizar os pobres; nós, padres, não somos enviados para fazer a mesma coisa? Sim, os missionários são enviados para evangelizar os pobres. Oh! Que felicidade! Fazer na terra o mesmo que fez nosso Senhor”[7] O carisma fundante, exclusivo e excludente da Companhia é evangelizar os pobres (cf. Um Místico da Missão, Vicente de Paulo, 77-78). Em conseqüência da exigência desse carisma, os votos figurarão como resposta ao apelo do serviço aos pobres. Assim podemos observar que nossos votos não têm o objetivo de nos elevar a um estado de perfeição, mas de colocar-nos ao lado dos pobres. Fazemos votos para servir melhor os pobres, “nossos mestres e senhores”. Pelo carisma de entrega radical aos menos favorecidos, somos convocados a fazer os votos. Por isso, nossos votos não têm como objetivo nos tornar religiosos, mas deixar-nos livres para a missão. É pela missão de assistir aos pobres, isto é, pelo carisma fundamental, que emitimos os votos, primeiro de estabilidade e depois por funcionabilidade os outros três: pobreza, castidade e obediência.
Acredita-se que colocar a Congregação da Missão fora do campo dos excluídos é um crime de maquiagem da proposta vicentina. Temos que ter a ousadia de arriscar, de perder, de errar, pois é melhor errar com os pobres do que não errar.



























SEGUNDO CAPÍTULO: OS VOTOS COMO COMPROMISSO COM O CARISMA VICENTINO

1. O SER HUMANO COMO SER DE RELAÇÕES

Para falar de votos, temos de aludir primeiramente acerca do ser humano que o emite. Muitas vezes caímos no erro de prender-nos na ação e não no sujeito que age. O humano é um complexo interminável de experiência, e somente perscrutando-o conseguiremos compreender suas relações e atos.
A nossa macro-relação com o mundo, e este entendido como o conjunto de todas as realidades circunscritas no cosmos, torna-se profícua quando tomamos consciência do nosso modo por excelência de viver: somos seres da transcendência relacional. Como diz Boff: “Somos seres do enraizamento e da abertura”[8]. Pode-se caracterizar o ser humano como o ser da divindade, vivendo prosaicamente no mundo.
Em uma visão boffiana o ser humano é o ser do interdito, que não está pronto, mas em construção; um ser inacabado com ânsia de voar ao infinito; um ser que pensa lá nas alturas, mas vive entrelaçado com o cotidiano terrestre; um ser que protesta, reclama e não aceita o pré-estabelecido; um ser que almeja o universal, mas vive preso e agarrado ao particular. O próprio Boff afirma: “Não há sistema militar mais duro, não há nazismo mais feroz, não há repressão eclesiástica mais dogmática que possam enquadrar o ser humano. Sempre sobra alguma coisa nele. (...) Por mais aprisionado que ele esteja, no fundo da terra ou dentro de uma nave espacial no espaço exterior, mesmo aí o ser humano transcende tudo. Porque, com seu pensamento, ele habita as estrelas, rompe todos os espaços”[9].
Subjaz no ser humano como abertura para o infinito um nó de relações. Ele é o ser-em-si que se relaciona numa cadeia de comunicação infinita com Deus, com os outros seres e com a natureza[10]. No reconhecimento de sua personalidade como ser, brotará a consciência do respeito pelos outros seres, fator fundamental na vivência dos votos.
Como o ser humano é criativo, pensa saídas, temos que entender os votos como abertura e doação radical. Os votos não podem nos fechar numa gaiola de proteção, nem estagnar-nos como se fossem o "télos" da vida religiosa. Pensar nos votos como conclusão da caminhada é solapar no homem aquilo que ele é, a saber, livre.
Porque o homem é um ser de liberdade, os votos devem ser encarados como edificação do humano, que se percebe no mundo, e que para se realizar plenamente abre-se à alteridade.
Dessa forma, acreditamos nos votos como um ato de amor, uma ética do respeito e da co-responsabilidade, enfim, um sentimento da compaixão. Na Congregação da Missão não fazemos votos para sermos religiosos, fazemos por compromisso missionário com os pobres. Esse sentimento de compaixão e não de pena é, ou deve ser, o motor pelo qual somos impulsionados a pedir os votos. O carisma nos chama, mas a compaixão nos impele. Pois “logo que esta compaixão se torna viva, o bem e a dor do outro se encontram diretamente em nosso coração”[11].
Dessa maneira os votos são uma entrega livre e espontânea aos outros. Muito mais que palavras opacas, eles são vida em construção. Cada um dar-se aos companheiros na fidelidade a Jesus e a São Vicente, no compromisso do cuidado pela vida, pela testemunho assíduo da Palavra de Deus na história pessoal e nas lutas por justiça e igualdade. Em síntese , a vivência dos votos são questão de conversão e de convicção.

2. OS VOTOS COMO FORMA DE RESPONDER A UM APELO

Consideramos os votos como a chegada-partida duma caminhada refletida. Eles são uma forma concreta de responder, racionalmente à sociedade hedonista e sedenta de valores humanos, que ainda é possível viver os princípios da pobreza, castidade e obediência, e, para nós vicentinos, também da estabilidade. Ter coragem de deixar tudo e entregar-se nas mãos da Providência Divina continua sendo um desafio muito edificante. Como afirma o próprio Evangelho, o missionário é aquele que tem ousadia de esvaziar-se de si para encher-se de Jesus, deixar tudo, pegar a cruz e seguir o mestre.
Somente na kenose os votos revestem-se do sentido verdadeiro do Reino, desviam-se da falsificação e tornam-se vida doada. Por isso o desejo de emitir os votos necessita dum embasamento de fé-vida; sem essa relação pode-se ficar apenas na interpretação jurídica dos votos. Os votos nascem da experiência de identificação e reconhecimento da pessoa com a causa pala qual se quer fazer os votos. Se não brotar das entranhas da pessoa, se o apelo não tocar o coração, os votos serão uma mera etapa rumo ao sacerdócio, sem nenhum significado para a vida pessoal de quem os emitiu. Nesse último caso o fardo tende a transformar-se num pesadelo insuportável de se carregar.
O voto também não é fim, mas meio de serviço. Começo de um duro caminho a ser percorrido. Quem pensa que fazendo votos está salvo de todo perigo e tentação, tome muito cuidado, pois já está em grande apuro! Emitir os votos é como quem possui um automóvel, que, se não cuida do carro levando-o regularmente para trocar o óleo, calibrar direção, pneus, etc, rapidinho vai envelhecer e ficará sem valor e até inútil. Assim acontece com quem pensa que os votos são um fim em si mesmo.
Na Congregação da Missão os votos devem ser encarados como via de entrega ao carisma fundacional. Por isso nossos votos são emitidos em vista da Missão. Dessa maneira, urge àqueles que pretendem ingressar na dita Congregação pelos votos conhecer e amar o núcleo fundante do carisma. Quem deseja ser fiel a Vicente de Paulo, deverá amar os pobres e excluídos de nossa sociedade, pois todo tipo de miséria clama por nós.
Esse amor aos pobres exige um olhar profundo para as estruturas de morte, que massacram as populações carentes (índios, negros, mulheres e crianças). Todavia, os votos reclamam também um mergulho na figura do Carpinteiro de Nazaré. “Jesus Cristo é a regra da missão”. Quem não fizer uma experiência de Jesus em sua vida, dificilmente será feliz na vida religiosa. Os votos tornar-se-ão preceitos vazios, leitura mórbida, realidade monótona e regra jurídica pesada.
Os votos intimam uma capacidade de compaixão e solidariedade hétero-centrada. Por esse motivo, a maturidade humano-afetiva é fundamental para quem vai pedir os votos. Na verdade os votos são abertura de si ao outro totalmente fora de si. É abertura ao transcendente transparente na vida cotidiana.
Os votos emitidos na Companhia não possuem a finalidade de nos tornar religiosos de direito. Como explicitam as Constituições, eles nos colocam como continuadores da missão de Jesus Cristo. “Desejamos continuar a missão de Cristo, consagrando-nos a evangelizar os pobres, durante toda nossa vida. Para cumprir esta vocação, abraçamos a castidade, a pobreza e a obediência, segundo nossas Constituições e Estatutos”[12]. Dessa forma os votos nos impõem uma tarefa muito grande: a de sermos colaboradores na construção do Reino de Deus. Nas entrelinhas desta declaração repousa a seguinte advertência: quem falta com o compromisso pertinente aos votos, falha com o seguimento a Jesus. Os votos clamam a vivência profética, a conversão profunda e a abertura nas coisas grandes e pequenas do dia-a-dia.

3. O VOTO ORIGINÁRIO DE SERVIÇO AOS POBRES

Toda a reviravolta que fez São Vicente de Paulo na sua vida culmina numa entrega total e generosa aos pobres. Para São Vicente era invariável, imutável e inaceitável que a Companhia tomasse outro rumo, que não o dos pobres. Pensando nisso, ele sente a necessidade de criar um voto específico pelo qual assegurasse a pertença e perpetuação dos serviços aos pobres.
O voto de estabilidade, assim denominado por São Vicente, buscava responder este apelo à fidelidade ao carisma. Para São Vicente o voto de estabilidade garantia os dois elementos essenciais da Missão, a instituição e a vida dos missionários. Dessa maneira, Vicente genialmente assegura a evangelização dos pobres. Quem entra na Congregação da Missão deverá sentir-se pelo carisma impelido, convocado, intimado e comprometido a trabalhar, estar e respeitar os pobres.
Estabilidade não deve ser entendido como estagnação mórbida, nem como inércia, ao contrário, devemos encará-lo como fidelidade ao carisma fundacional. Fiéis ao carisma, sem medo de errar, e com toda liberdade de lançar-se a serviço do irmão necessitado. Ir na contramão disso é burlar o projeto de São Vicente e solapar o ideal de vida do Fundador.
O voto de estabilidade nos coloca como continuadores da obra de Jesus. “O Espírito do Senhor está sobre mim. Porque Ele me ungiu com a unção para anunciar a boa nova aos pobres, curar os corações feridos, libertar os presos e proclamar o ano da graça do Senhor”[13]. Por isso esse voto tem uma dimensão profundamente teológica. Fala da ação de Jesus e cobra de nós uma constante vigília diante da fidelidade aos pobres.
Urge à Congregação da Missão estar presente em todo local em que existam pobres. O critério para saber se estamos sendo fiéis a Vicente é observar onde está a Companhia, se estamos ao lado dos pobres ou ao lado dos ricos. Aqueles que não estão com os pobres desfiguram o carisma da CM. Só existe um carisma: ou nos colocamos ao lado dos pobres ou contra eles.!
A estabilidade chama-nos a voltarmos constantemente os olhos para nossa prática pastoral. Onde estamos trabalhando? As obras que temos convergem com nosso carisma? Somos fiéis à criatividade do Espírito? Que tipos de desafios estamos enfrentando? Temos respostas ao clamor dos pobres e excluídos do séc. XXI? Que alternativas lançamos aos novos rostos de pobreza?
Não se questionar acerca do conteúdo desse voto é encobrir com um véu a luz do sol que tenta despontar para uma humanidade sofrida de tanta exploração. Confundir o voto de estabilidade com a simples pertença a CM, sem aludir ao conteúdo teológico-profético do compromisso com a causa do marginalizado, é falsear a finalidade da Companhia. Como dizia Vicente: Seria melhor que o Senhor mandasse um raio para exterminar toda a Congregação, caso ela se desvie do serviço aos pobres. O voto de estabilidade visto como simples permanência na Congregação da Missão lightiza a Companhia e esvazia a proposta de São Vicente.
A presença no meio excluído (índio, mulher marginalizada, menor de rua, presidiário, sem-terra, etc) é característica do vicentino. Como afirma Pe. Getúlio, “é isso que nos dá rosto, é a razão primordial de nossa presença na Igreja”.[14] Esse voto, por nos deixar livres para a missão junto aos marginalizados, liga-nos ao seguimento a Jesus, servidor e evangelizador dos pobres.
Urge horizontalizar o voto de estabilidade, isto é, de uma visão hétero-centrada nos diversos rostos de pobreza do nosso século. Em tempo de refundação, nada melhor do que voltarmos ao excelso conteúdo do voto de estabilidade, argamassa dos três conselhos evangélicos (Pobreza, Castidade e Obediência), voto originário do missionário vicentino.





4. OS TRÊS VOTOS: CASTIDADE, OBEDIÊNCIA E POBREZA COMO FUNCIONABILIDADE DA NOSSA ESTABILIDADE

Como vimos tentando demonstrar, o voto de estabilidade para nós lazaristas tem precedência em relação aos demais. Para nós da Congregação da Missão, os votos de pobreza, castidade e obediência são uma resposta funcional ao nosso grande e decidido voto de estabilidade no serviço aos pobres. É pela missão e só por ela, que emitimos os votos.
É por essa razão que os votos na Companhia não nos tornam religiosos. São Vicente não queria religiosos, mas missionários. São Vicente procurou afastar os seus companheiros da burocratização já existente na vida religiosa (mosteiros, conventos e abadias). O Santo desejava homens livres de todas as amarras, sem muitas preocupações exageradas com a vida paroquial. Para São Vicente, emitir os votos de pobreza, castidade e obediência era de fundamental importância, pois quem faz o voto de estabilidade na Companhia (servir aos pobres), necessariamente, deve ser pobre, casto e obediente.
Para São Vicente os votos nos colocam num estado de prontidão e serviço aos pobres. Somente quem está livre de si, sem a armadura do eucentrismo, pode permanecer cheio de Cristo em constante vigília. Em outras palavras, os votos nos esvaziam das “preocupações” efêmeras, revestindo-nos da esperança evangélica, da qual embriagou-se o grande São Vicente.
Viver a pobreza, castidade e obediência é sentir-se livre para o sopro do Espírito, que chama e envia aonde Ele quer. É entregar-se nas mãos de Jesus, tendo-o como mestre e guia.
5. O VOTO DE CASTIDADE

O voto de castidade é a entrega generosa que se faz livremente, por opção e desejo de estar totalmente comprometido com o projeto de Deus. Em outras palavras castidade é prova de amor. Só quem ama coloca-se inteiramente nas mãos do amado. Todavia, ele nos convida a superar o infantilismo, a prepotência e a auto-suficiência, a buscar conformar-nos a um mundo pluralizado, onde o outro surge como interlocutor. Isso exige maturidade para o diálogo, abertura e aceitação dos limites pessoais e comunitários.
Numa linha mais corporal, o voto de castidade não nos obriga a esquecer nossa sexualidade. Isso seria impossível, haja vista nossa unidade entre psíquico e corporal. Ele nos exige perceber o quanto precisamos integrar o nosso “eu”. A sexualidade é parte constitutiva do ser humano. Quanto mais tentarmos reprimi-la, mais ela se tornará clarividente.
O voto de castidade não anula nossa masculinidade e/ou feminilidade. Ele nos põe em estado de vigília constante, diante do compromisso assumido perante Deus e a comunidade. Ser fiéis à castidade é co-responsabilidade na construção da vida comunitária saudável e fraterna.
Ser casto exige coerência, força de vontade, desapego de si, mansidão, perseverança e muita maturidade. Ser casto é ato de humildade, afirma São Vicente: “A humildade é um meio muito excelente para adquirir e conservar a castidade”[15]. Sem a humildade não se consegue viver a castidade, pois ela cobra muitas renúncias, e somente quem penetrou no néctar da humildade saberá corresponder a ela.
Nossas Regras Comuns chamam-nos a vislumbrar a castidade como um compromisso corporal e espiritual. A castidade transita pela harmonia do corpo e da alma[16]. Por isso a emissão desse voto urge amadurecimento na fé e nas questões humano-afetivas. A maturidade humana e a pureza espiritual são os alicerces de uma boa castidade. “Existe pureza de corpo e pureza de espírito. Aquele que tem a pureza de corpo não por isso tem castidade; é a pureza de espírito a que constitui esta virtude e lhe dá a perfeição”[17]. Para São Vicente quem tem o espiritual organizado possuirá o corporal equilibrado e viverá a castidade com segurança e zelo. Porém, quem se iludir acreditando que é casto apenas no corporal, sem ligar para o espiritual, corre grande risco de não vivenciar a castidade.
O voto de castidade é amor gratuito, livre das amarras que sobrepuja a visualização ágape do homem. Num ato de liberdade consagramo-nos casto para melhor servir ao Reino. Por esse motivo, o objetivo do voto de castidade consiste em possibilitar a abertura do indivíduo ao outro, buscando ser fiel ao projeto de Jesus Cristo, por toda vida. Pe. Robert Maloney, afirma em um de seus livros: “Pelo voto de castidade nós nos entregamos a uma vida de amor no celibato, no seguimento de Jesus Cristo Evangelizador dos Pobres. No mais profundo desta entrega encontramos a segurança de que a vocação traz consigo uma promessa de liberdade, de gozo e de plenitude pessoal na Congregação para servir aos outros”[18].
Para emitir o voto conscientemente, torna-se ferramenta indispensável a experiência amorosa de Jesus. Por isso, requer dedicação, vigília, oração e muita força de vontade. Porque o voto de castidade é uma constante metánoia, um esvaziamento, um ato de fidelidade esponsal.

6. O VOTO DE OBEDIÊNCIA

Vivemos no conturbado mundo pós–moderno, onde as pessoas sonham em possuir a plena liberdade de si, onde tudo é permitido e relativizado, onde as múltiplas escolhas determinam os conceitos de verdade e onde os valores como respeito, amor e responsabilidade vão dia a dia perdendo seu sentido. Nesse contexto de crise de valores e até de identidade, como anunciar um voto de obediência? Numa sociedade recheada por tantas informações e alternativas, como ser obediente, entregando-se a priori nas mãos da Divina Providencia? Isso será difícil de responder.
No crepúsculo do séc. XXI, no qual o individualismo possessivo é a lei, e onde o ser é livre para fazer aquilo que lhe convém, como introduzir a obediência apresentando-a como valor indispensável à manutenção da vida religiosa?
Primeiramente acreditamos que o voto de obediência não se caracteriza como submissão cega, nem como obediência passiva, mas como adequação atenta às exigências do Evangelho de Cristo, levando em conta o discernimento e o diálogo. Para São Vicente, os membros da Congregação deveriam acomodar-se às necessidades e urgências do Evangelho, por meio da obediência. “Nossa obediência comporta uma busca constante para chegarmos a tomar decisões sobre nossos planos pessoais e os comunitários à luz do plano salvífico de Deus”[19].
Deve-se estar consciente do papel funcional desse voto. Qual é o sentido que a expressão obediência tem em nossos ouvidos? São Vicente no seu tempo o tinha como estandarte do discipulado. “Deve haver algo de grande nesta virtude, já que nosso Senhor a amou tanto, desde o nascimento até a morte, já que fez todas as ações de sua vida por obediência”[20].
Reconheço ser o voto de obediência o grande desafio do novo milênio para as Congregações Religiosas. Penso que será mais fácil viver a pobreza e a castidade do que a obediência. Há quem possa maquiar a pobreza com discursos calorosos e cheios de eloqüência, vestindo-se muitas vezes com simplicidade, mas tendo o coração recheado de desejo de nobreza. Gente que vive a pobreza por obrigação e não por vocação, que ao primeiro descuido dos observadores trata de usufruir dos direitos que o status quo lhe propicia.
Existem também aqueles que tentam viver a castidade como uma manobra promocional. São féis a seu projeto pessoal; porém, quando chega a hora do comunitário, não conseguem exercer a mesma fidelidade.
Viver a obediência exige radicalidade, pois ou a vivemos ou a negamos. Na obediência não há meio termo. Não se pode ser obediente apenas naquilo que convém. A obediência exige exclusividade e abnegação. Pode-se maquiar a pobreza e a castidade com práticas ocultas e suspeitas, mas jamais se poderá pretender manobrar a obediência por caminhos levianos, pois toda ação contrária à obediência é um descompasso à própria obediência.
Obedecer é diálogo responsável e valorização do sujeito como pessoa. Sem isso o voto de obediência, torna-se uma cruz, e a vida religiosa um grande calvário, berço das lamentações.
Obedecer, contudo, não é entrever o superior como ser supremo, do qual emana a verdade, mas reconhecer na autoridade sua função de coordenador. Em outras palavras, obedecer consiste em diálogo e respeito. Todavia, esse diálogo pressupõe abertura recíproca e maturidade dialógica. Obediência, nesse sentido, transforma-se em serviço de amor.
Somente está pronto a obedecer quem discerniu e encontrou-se com o núcleo da missão evangélica. Os enamorados da idéia salvífica de Jesus são capazes de obedecer dialogalmente ao superior sem murmurar, pois acreditam não estar obedecendo a um capricho do superior, mas a uma necessidade da comunidade.
O voto de obediência é um conformar-se a Cristo que foi obediente até as últimas conseqüências. “Humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz”[21].
São várias as virtudes que acompanham a obediência, porém destacamos a escuta como palavra-chave. Quem não sabe escutar sentirá grande dificuldade de obedecer. Cristo foi obediente porque aprendeu a escutar a voz do Pai. “As palavras que digo a vocês não as digo de mim mesmo, mas o Pai que permanece em mim, Ele é quem realiza suas obras”[22].
Obedecer é escutar, abrir os ouvidos, o coração e a mente, para acolher em si a palavra do outro. Não se fechar ao diferente, respeitar cada pessoa com diligência, amor e caridade. Quem se fecha transforma-se numa ilha desconhecida e deserta e perde-se na complexidade da vida. Por isso canta o salmista: “Não endureçam seus corações como em Meriba, como em Massa no deserto aquele dia...”[23] Obedecer é deixar ressoar dentro do coração o grande apelo “vem e segue-me”, é permitir que o outro o interrogue, interpele e incomode.
Na obediência, todavia, brota a co-responsabilidade de coordenar e de ser coordenado, e isso exige elevado grau de maturidade, rica vivência da simplicidade e constante aplicação da humildade. A obediência é sem dúvida uma via de duas mãos, quem obedece é responsável pela construção de um sonho maior, mas quem coordena é responsável pela felicidade ou infelicidade do outro.

7. O VOTO DE POBREZA

O voto de pobreza deve ser pensado e assumido como compromisso ético, preocupado com a vida, superando todo tipo de preconceito e insensibilidade. Quem acolhe um pequeno órfão acolhe o próprio Cristo. “Venham, vocês, que são abençoados por meu Pai. Recebam como herança o Reino que meu Pai lhes preparou desde a criação do mundo. Pois eu estava com fome, e vocês me deram de comer; eu estava com sede, e me deram de beber; eu era estrangeiro, e vocês me receberam em sua casa; eu estava sem roupa, e vocês em vestiram; eu estava doente, e vocês cuidaram de mim; eu estava na prisão, e vocês foram me visitar...”[24]
O voto de pobreza é uma busca incansável de libertar-se de si, dos preconceitos que nos amarra no eucentrismo. São Vicente, um homem bem atual, já dizia que para viver o voto de pobreza “há que (...) se desfazer de todos os apegos que possa alguém ter às coisas,(...)”[25]. Em outras palavras, São Vicente nos convida à conversão interior, a quebrar a crosta do egoísmo que nos fecha em nosso mundinho, a romper toda barreira que nos impede de entrever os coetâneos como irmãos e companheiros.
A pobreza impinge superar a insensibilidade, a exclusão sócio-política, como também ecológico-cultural. Sobressair de tal insensibilidade é marcar o novo campo da vida religiosa. Pois enquanto a vida religiosa estiver voltada para si mesma, postergando os clamores do Reino, ela não servirá de sinal de salvação. Será um punhado de gente esquizofrênica com a vida afetivo-profissional sem acerto. A verdadeira vivência do voto de pobreza na vida religiosa deverá fazê-la abrir-se ao outro no mundo.
Para São Vicente, a pobreza por que optamos é por amor a Deus na ânsia de servir-lhe melhor. Dirá o Santo: “A pobreza que professamos é um voto simples que fazemos de abandonar os bens do mundo para servir a Deus, viver em comum e não ter nada em particular. Isso se deve entender quanto ao uso; os que têm algum benefício o deixam; os que têm outros bens os deixam ou põem nas mãos do superior a disposição de seus frutos; e vivem todos em comum. Assim, ninguém tem mais que os demais; ainda que alguns tenham posses, não usam delas particularmente, mesmo continuando a ser donos de seus bens”[26]. Para São Vicente, acredito eu, a insistência na vivência da pobreza é uma tentativa de imprimir na Congregação o rosto de Cristo e a proximidade com a situação dos pobres. Para Vicente emitir o voto de pobreza é ser pobre mesmo.
Neste sentido exposto acima, o voto de pobreza tem duas dimensões. Primeira, a dimensão utópica, e, em segundo, a dimensão diaconal. Utópico porque é revestido de uma esperança profética. O sonho de um mundo novo no qual reina a solidariedade, o respeito, a empatia e a fraternidade. Essa utopia é uma esperança contra toda desesperança. Ela espelha-se naquela esperança do profeta Ezequiel que, mesmo malgrada a situação, acreditou que dos ossos secos dos filhos de Israel surgiria uma grande nação[27].
A outra dimensão é a diaconia marcada pelo serviço gratuito, isto é, pelo amor incondicional. Esta diaconia é explicita por São Lucas no evangelho. Ao enviar os discípulos, Jesus recomenda: “Vão, Eu estou enviando vocês como cordeiros para o meio de lobos. Não levem bolsa, nem sacola, nem sandália, e não parem no caminho para cumprimentar ninguém”[28]. Mais à frente, no mesmo capítulo, Lucas descreve o episódio do bom samaritano, para atestar-nos que o serviço incondicional é marca característica de todo cristão, e sobretudo daqueles (as) que optam pela radicalidade da vida consagrada.
São Vicente reconhecia a pobreza como “uma renúncia voluntária a todos os bens da terra, por amor a Deus e para servir-lhe melhor e cuidar de nossa salvação; é uma renúncia, um desprendimento, um abandono, uma abnegação. Essa renúncia é exterior e interior, não só exterior. (...) que parta do coração. Junto com os bens há que renunciar também ao apego e ao amor a esses bens. (...) Renunciar externamente aos bens conservando o desejo de tê-los é não fazer nada”[29]. Aqui surgem alguns questionamentos: como estamos testemunhando o voto de pobreza? Como estamos vivendo as dimensões utópica e diaconal da pobreza? E como conciliar a cultura da satisfação, do prazer hedonista com a vivência da mortificação que o voto de pobreza exige de nós? Como encarar as conseqüências do voto de pobreza na imitação do Cristo Pobre? Por fim, como falar do voto de pobreza que exige abnegação e renúncia diante do neoliberalismo e da lightização da vida?
O modo de vivência do voto de pobreza estará muito ligado ao nosso estilo de vida, isto é, de que ótica vemos as coisas. Há sem dúvidas várias maneiras de vislumbrar o mundo. Podemos observá-lo com os olhos da classe oprimida, mas também com os olhos da classe dominante. Se olharmos o mundo com os olhos voltados para os ricos e poderosos, o voto de pobreza terá um sentido, ao meu ver, puramente figurativo e jurídico. Marcará um estado de graça e nunca um compromisso radical de vida austera e abnegada, totalmente doada ao Reino. Por outro lado, se entrevermos o mundo com os olhos dos pobres, camponeses, trabalhadores, sem-terra, etc, o voto ganha um dinamismo salvífico e questionador.
Cada modelo de vida constitui um modo de entender o mundo e suas situações. Se estivermos ao lado dos pobres defenderemos suas lutas, mas se estivermos atrelados com os poderosos, então toda reivindicação por justiça e igualdade, tornar-se-á uma agressão à moral e à tradição das boas famílias ricas.
Acreditamos nos profetas da história, de ontem e de hoje, que lavaram e alvejaram o chão da vida com o sangue do compromisso, da fraternidade e do amor. Esse profetas não desprezaram o clamor dos pobres por que se fizeram pobres como os pobres e buscaram um estilo de vida simples e humilde.
Somente a partir da sensibilidade do pobre é que aprenderemos a ser fiéis ao carisma vicentino e ao seguimento a Jesus Cristo Evangelizador dos Pobres. Resta-nos perguntar: em que modelo de vida nos encontramos? Como já disse anteriormente, temos duas opções: ou ficamos ao lado do pobre ou contra ele.
Concluindo podemos afirmar que o voto de pobreza é a radicalidade da entrega total a Deus e aos companheiros. É amor Ágape e Eros numa relação de conformidade com o plano do Senhor. Ele é início da parusia celeste e esperança escatológica do Reino iniciado aqui na terra.
















CONCLUSÃO

Após perscrutar as linhas gerais daquilo que vem a ser os votos e suas conseqüências, podemos afirmar que perpassa no âmago de cada voto um compromisso com a vida e com a comunidade. Os votos são como que uma resposta enfática e ao mesmo tempo veemente ao fechamento e ao isolamento hodierno. É uma abnegação voluntária daquilo que a sociedade prega como essencial, a saber, o consumo (não- pobreza), o hedonismo (não-castidade) e a autonomia absoluta (não-obediência).
Queremos retomar alguns elementos de cada voto, destacando sua importância na vida do missionário vicentino. No tocante ao voto de estabilidade o Superior Geral relembra as Constituições ao reafirmar os três elementos constitutivo do voto de estabilidade: “1) fidelidade e perseverança durante toda a vida, 2) na congregação, 3) consagrando-se a conseguir o seu fim conforme o definem as constituições”[30].
Nossa fidelidade ao carisma vicentino com a constante vivência da estabilidade, convoca-nos para vivermos uma vida coerente com todas as dimensões do carisma da CM. Só na fidelidade criativa ao voto de estabilidade poderemos ser missionários vicentinos. Como explicita Pe. Maloney, este voto dá um sentido missionário aos outros conselhos evangélicos, orienta todas as energias do missionário para a evangelização dos pobres, liberta-o de interesses pessoais para assim poder dedicar-se ao serviço dos outros.
Para nós, fica claro que sem uma vigília constante diante da estabilidade no trabalho com os pobres, os três votos restantes perdem seu conteúdo salvífico-teológico, tornando-se palavras vazias.
Um meio eficaz de não perder a identidade será cultivar o contato direto com os pobres. Como diz São Vicente, os pobres nós evangelizam! Segundo Pe. Maloney, devemos experimentar a alegria do contato pessoal com os menos favorecidos[31]. Somente por osmose aprenderemos a valorizar a cultura e o modo de ser dos pobres.
Com relação ao voto de castidade, dirá São Vicente: “Deus suscitou esta pequena Companhia, como todas as outras, para o seu amor e o seu beneplácito. Todas tendem a amá-lo, mas elas o amam de diversos modos... E nós, meus irmãos, se temos o amor, devemos demostrá-lo levando os povos a amarem a Deus e ao próximo... Fomos escolhidos por Deus como instrumentos de sua caridade imensa e paternal”[32]. A castidade para São Vicente é entendida como ato de amor. Quem ama é capaz de dar-se plenamente ao irmão.
Todavia, como afirma Pe. Maloney, a castidade é uma oportunidade e um desafio[33]. Todo avanço da psicologia humanista exige da pessoa um equilíbrio maduro de suas dimensões humanas, isto é, a integração de sua personalidade. Sem essa tomada de consciência da complexidade do ser humano, as exigências do voto serão incorporadas como pena e/ou castigo inerente à vida religiosa.
O voto de castidade precisa ser vivido e assumido como ato de amor. “Pelo voto de castidade nós nos entregamos a uma vida de amor no celibato no seguimento a Jesus Cristo Evangelizador dos Pobres”[34]. A castidade que abraçamos é para melhor servimos ao fim da Companhia. Somos castos por amor a Jesus no serviço aos pobres. Daí ser fiel ao fim da CM é uma prova de amor e liberdade. “O compromisso de castidade consiste em usar esta liberdade para dedicar-se plenamente ao fim da Congregação”[35].
Essa castidade brota da relação íntima com Cristo na oração e nos trabalhos apostólicos. Nossa vida missionária deve estar enraizada no Carpinteiro de Nazaré. Outro meio de adquirir a castidade será a vida comunitária. A comunidade na partilha dos dons é o espaço por excelência da vida casta. É dela que extraímos o néctar da fidelidade partilhada. Por fim, na busca assídua da vivência dos máximas evangélicas.
Acerca da obediência, esse voto é a melhor forma de imitação de Cristo que foi obediente até a morte. São Vicente amava a obediência e a punha como mãe de todos os votos. Quem sabe obedecer vive em harmonia com as exigências do Reino, assumindo as conseqüências do atos assumidos.
Sabemos, com clareza, que o tempo de São Vicente é um e o nosso é outro. Hoje as dificuldade de viver a obediência são astronômicas. Como já elencamos no corpo deste trabalho há no mundo globalizado neoliberal, uma ilusória visão de independência total. Todos se acham livres para fazer tudo (queimar índio, matar sem-terra, espancar crianças, desempregar trabalhadores por meio de cartas, frias e cruéis, etc), e, por outro lado, vêem a autoridade como uma ameaça a sua “liberdade”. Por causa desse tipo de pensamento voltamos a afirmar: o modo de viver a obediência é dialogal, respeitando o diferente e definindo funções.
Como explica Pe. Maloney, “a obediência supõe uma procura constante do verdadeiro significado de nossa missão”[36]. Somos obedientes por causa do serviço aos pobres. Esta obediência consiste na entrega de si ao projeto de evangelização e promoção dos pobres. Daí, todas as vezes que o objetivo da missão estiver em jogo, o missionário precisa abrir mão dos desejos pessoais e abraçar o projeto comunitário. Por esse motivo, a obediência impinge de nós disposição para aceitar e apoiar as decisões da comunidade.
A meu ver, a maneira mais fácil de conquistar a obediência é fazer tudo por amor ao Reino, porém sem esquecer o devido diálogo e respeito pelas idéias de cada membro. Acredito que percebendo a diafania de Deus na relação fraterna conseguiremos viver o voto de obediência.
Por fim, a pobreza vicentina deve ser vivida em vista da missão. Nossa pobreza existe como imitação de Cristo e como resposta enérgica a esta sociedade consumista.
Nosso pobreza é por opção, uma resposta a toda forma de consumo exagerado, um andar na contramão de um sistema que põe o humano como mercadoria dentro do capital. Pe. Maloney afirma: “A pobreza vicentina supõe tentar reproduzir na própria vida o Cristo Pobre, que evangelizou os mais abandonados”[37]. Abrimos, ou deveríamos abrir, mão das riquezas e acúmulo do mundo de consumo, e o fazemos por confiar na possibilidade de um modo alternativo de viver, onde o humano imagem de Deus valha mais que um máquina, ou um roupa de grife, ou ainda um sapato da moda. Sonhamos com um mundo do ser e não do ter. Como diz o profeta D. Hélder Câmara: “A humanidade é maior!” O ser humano vale mais que um sanduíche do Mc Donald, ou uma Ferrari. Somos filhos, imagem do Criador.
A pobreza que abraçamos na CM é uma decisão livre de doação ao Reino, relativizando outros valores. Por isso, para São Vicente, o voto de pobreza é “uma renúncia, um abandono, uma abnegação”[38] voluntária.
Nosso voto de pobreza deve nos aproximar dos pobres e de sua situação. Precisamos sentir com o pobre os dissabores e as alegrias, o peso do trabalho, etc. Por esse motivo, penso que deveríamos trabalhar para encarnar a real condição de assalariado. Sabemos quanto custa o feijão que comemos? Ou como dizia São Vicente: “Quando vamos ao refeitório, deveríamos nos perguntar: ganhaste o pão que vais comer?”[39]
Acredito, se não podemos absorver a radicalidade do Cristo pobre, pelo menos procuremos viver o voto de pobreza com mais seriedade, evitando os acúmulos de bens, os desperdícios, tendo zelo pelo bem da comunidade, deixando ser interpelado pelos irmãos de caminhada e ajudando-nos mutuamente. Ah! Outro forma eficiente e indispensável de pôr em prática o voto de pobreza será promovendo contato pessoal com os pobres no contexto deles, para ir quebrando a insensibilidade diante da dor e do sofrimento dos mais abandonados.
Resumindo, os votos são a comunhão do homem com Deus, com o cosmos, com a natureza e com o próprio homem, tanto dentro como fora de si, isto é, com a alteridade.




















BIBLIOGRAFIA

BOFF, Leonardo. Do Lugar do Pobre. Vozes, Petrópolis, 1997, 151 p.
BOFF, Leonardo. Princípio de Compaixão e Cuidado, Vozes, Petrópolis, 2001, 164 p.
BOFF, Leonardo. Tempo de Transcendência O Ser Humano como Um Projeto Infinito.
Sextante, Rio de Janeiro, 2001, 96 p.
CASTRO, Jerônimo Pedreira. São Vicente de Paulo e a Magnificência de Suas Obras.
Vozes, Petrópolis, 1957, 431 p.
Constituições e Estatutos da Congregação da Missão. Gráfica Vicentina, Curitiba,
1984.
COSTE, Pierre [org.]. San Vicente de Paúl. Obras Completas. Sigueme, Salamanca,
1973-1975, 13 v.
GROSSI, Getúlio Mota. Um Místico da Missão, Vicente de Paulo. Santa Clara,
Contagem,2001, 272 p.
Instrução sobre Estabilidade, castidade, pobreza e obediência. Gráfica Vicentina,
Curitiba, 1996, 122p (Col. “Vicentina”, 8)
SARTRE, Jean-Paul. O SER E O NADA, Ensaios de Ontologia e Fenomenológica.
Vozes, Petrópolis, 2000, 782 p.
VV.AA. Manual de Espiritualidade Vicentina. Gráfica Vicentina, Curitiba
176 p (Col. “Vicentina”, 12).
[1] “João de Paulo, economizando quanto lhe foi possível, matriculou Vicente nesse colégio. Cf. Castro, São Vicente de Paulo e a Magnificência de Suas Obras, p 17
[2] cf. Idem. p 16-17

[3] BOFF, Leonardo. Do lugar do pobre. Petrópolis, ed. Vozes,1997, p. 75
[4] Coste, I, p.88, IN Castro, São Vicente de Paulo e a Magnificência de Suas Obras, p 50

[5] Idem, p 59-60

[6] CosteXIII,197-198
[7] CosteXI,315
[8] Boff, Leonardo. Tempo de Transcendência, O Ser Humano como um Projeto Infinito, p 27
[9] Idem, p 22
[10] cf. Jean-Paul Sartre, O Ser e O Nada. Introdução, p 12-40
[11] Schopernhauer, O fundamento da Moral, IN Boff, Leonardo. Princípio de Compaixão e Cuidado, p.96
[12] Constituição, cap. III p.33
[13] Lc 4, 18-19

[14] cf. Grossi, Um Místico da Missão, Vicente de Paulo, p 4

[15] ES XI,94
[16] cf. Regras Comuns cap. IV
[17] ES XI, 682
[18] Instrução Sobre os Votos, p 43
[19] Instrução Sobre os Votos, p75
[20] ES XI, 688

[21] Fl 2,8
[22] Jo 14, 24
[23] Sl 95, 8
[24] Mt. 25, 34-36
[25] ES XI, 38
[26] ES XI, 138
[27] cf. Ez. 37, 1-10

[28]Lc. 10, 1-5

[29] ES XI, 156
[30] Constituições 39

[31] cf. Instrução sobre os Votos, p 33
[32] ES XI, 553
[33] cf. Instrução sobre os Votos, p 42
[34] Instrução sobre os Votos, p 43
[35] Idem, p 45

[36] Instrução sobre os Votos, p 78
[37] Instrução sobre os Votos, p 59
[38] ES XI, 156

[39] ES XI, 121

AS DUAS DIMENSÕES DA LIDERANÇA




A liderança cristã possui duas dimensões fundamentais que devem ser cultivadas por todo líder e pelo grupo como um todo. Deus não precisa apenas de servos, mas de pessoas que sirvam com liderança, pessoas que tomem iniciativas e façam a vontade de Deus com muita oração e espiritualidade. Que vivam intensamente aquilo que acreditam e divulgam. E neste sentido veremos que a Liderança Cristã tem duas dimensões: uma vertical e outra horizontal.
A primeira dimensão é, como anunciamos, a vertical , ou seja, tudo o que envolve o relacionamento com Deus e a com sua obra. Tenho notado que falamos muito de Deus, explicamos suas coisas e realizamos belos discursos sobre os atributos de Deus. Mas, ao mesmo tempo, falamos pouco com Deus. existe um ditado popular que diz: saco que só faz tirar um dia esvazia.
A dimensão vertical implica no nosso relacionamento com Deus, queremos ser servos que tenham liderança, pois percebemos e sentimos que Deus precisa disso, mas não paramos para orar e criar um relacionamento com Deus, para falar com Ele; sem Jesus nada podemos fazer. Não estamos sendo lideres de comércio onde trabalhamos, ou lideres de Governo ou qualquer coisa semelhante, somos lideres cristãos, e mesmo que estejamos em alguma dessas lideranças precisamos testemunhar que somos cristãos e que sem Jesus nada podemos fazer. Ele é a força que faz o cristão caminhar, o alimento que sustenta nossa luta contra a tentação. Sem estarmos inseridos na videira não produzimos frutos, a videira é Cristo, nos somos os galhos que precisam dar frutos, se estamos fora da árvore não seremos frutíferos, e sim estéreis.
Nossas atividades devem estar fundamentadas no AMOR de Deus, pois quem ama gosta de estar perto do amado; “quem ama cuida”, já diz o teólogo Leonardo Boff, no seu livro “Saber Cuidar”. Estando perto de Deus criamos relacionamento e intimidade com o Senhor, razão de ser do nosso trabalho e do nosso viver.
Muitos querem ser íntimos, mas não sabem como fazer, e não realizam nada, por isso, cruzam os braços e tornam-se inúteis. O líder cristão precisa buscar Deus constantemente; buscar os sacramentos; meditar e contemplar a palavra de Deus; clamar a intercessão de Nossa Senhora que é a mãe de Jesus. Como vicentinos (as) precisamos estar sempre abertos às virtudes vicentinas: zelo, mortificação, simplicidade, humildade, mansidão. Desta forma seremos íntimos de Deus e assim estaremos fazendo tudo de acordo com a vontade de Deus e não por nossos próprios desejos. Isso é a dimensão vertical.
Mas um líder cristão não se configura apenas como uma amante de Deus. A dimensão vertical da fé não esgota todas as exigências da liderança cristã. O cristão que possui uma forte e profícua intimidade com Deus, precisa exercitá-la na congregation fidellium, ou seja, é na comunidade dos fiéis que ele deve testemunhar sua real e eficaz relação com Deus. Já explica São Tiago: quem diz amor a Deus e não amo seu irmão é um mentiroso e a verdade não está nele. Por isso a dimensão vertical exige uma dimensão horizontal.
A dimensão horizontal envolve o relacionamento nosso com as pessoas nos aspectos da justiça, do amor e da paz. Quem amo a Deus é promotor da paz. São Cipriano afirmava em sua catequese catecumenal que o maior fruto do cristianismo é a paz, e que todo cristão é por antonomásia um promotor da paz pelo amor e a justiça. A dimensão horizontal é fruto das relações que brotam da fé. Quem tira o olhar do homem para olhar somente para Deus, comete o pecado da hipocrisia. Precisamos ser lideres inspirados por Deus para fazer o bem a humanidade. Dizia São Vicente: “não me basta amor a Deus se aos pobres não os amo!”
Jesus se fez amor e justiça para os homens, para que todos pudessem receber amor e justiça pela gratuidade da cruz (2 Cor 5,21). Devemos buscar o amor e a justiça, buscando dar aos outros, aquilo que for necessário para a dignidade de filhos de Deus. Muitos são a favor do aborto, da pena de morte, da violência contra aqueles que geram violência, mas nós precisamos fazer a diferença, combater estas coisas com AMOR, pois Deus caritas est (1Jo. 3). Precisamos ser diferentes do mundo e levar, pelo nosso testemunho, as pessoas para mais perto de Deus.
Muitos lideres se titulam ser cheios do Espírito Santo, mas não amam os irmãos, o caminho para sabermos se estamos cheios do Espírito Santo, é verificar o quanto amamos as pessoas e se estamos dispondo a dar nossas vidas pela construção do homem novo que o Pai deseja encontrar no seu próprio Filho.
A dimensão horizontal nos ensina a ser solidários, pois Jesus foi solidário com os homens, ao ponto de assumir a nossa natureza humana. Por isso, nós devemos também ser solidários, nos colocando a disposição dos outros. E o primeiro lugar para nos exercitarmos no amor, na solidariedade é aqui neste grupo de pessoas que desejam dar parte da sua vida pelos irmãos. É aqui na AIC que devemos por em prática as duas dimensões da liderança a vertical e a horizontal.
Usando estas duas dimensões estaremos fazendo a vontade de Deus e sendo lideres eficazes para a obra do Senhor. O reino acontece primeiro em nós e somente depois fora de nós. Trabalhando juntas e unidas para edificação do reino faremos esse reino acontecer já aqui e agora, nos sinais de amor, justiça e paz.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Um aporto histórico para endender a relevância do VII capítulo da Lumen gentium


1.1 O itinerário da inclusão da Escatologia na Lumen gentium
O debate concilar sobre o VII capítulo deu-se no dia 11 de julho de 1964.
Ainda na segunda seção conciliar o tema da escatologia não havia entrado em pauta. O esquema da Lumen gentium até aquela seção conciliar constava de 81 páginas e onze capítulos, os quais nada falavam sobre a índole escatológica da Igreja. O primeiro esquema constava destes capítulos: De Ecclesiae militantis natura; De membris Ecclesiae militatis eiusdemque necessitate ad salutem; De episcopatu ut supremo gradu sacramenti Ordinis et de sacerdotio; De episcopis residentialibus, De statibus evangelicae acquirendae perfectionis; De laicis; De Ecclesiae magisterio; De auctoritate et oboedientia in Ecclesiam; De relationibus inter Ecclesiae et Statum; De necessitate Ecclesiae annuntiandi Evangelium omnibus gentibus et ubique terrarum; De oecumenismo[1]. Em todos eles não se encontram referencias explícitas sobre a escatologia da Igreja.
Esse primeiro esquema foi louvado por alguns e violentamente criticado por outros: “apresentava, diziam, uma Igreja excessivamente jurídica, institucional, externa, clerical e triunfalista, sem acentuar bastante o mistério da vida divina, do dinamismo sobrenatural e da união com Cristo”[2]. O texto foi acusado de ser bastante bíblico, cristocêntrico, pastoral, maternal, pouco missionário, e nada aberto às outras formas de vida e cultura. Também se dizia que era um texto pouco ecumênico e que não estava adaptado com a mentalidade moderna. Em resumo faltava o espírito da caridade cristã.[3]
Um novo esquema foi redigido entre a segunda e a terceira seção, no chamado período internacional. A modificação ocorreu na divisão e ordem dos capítulos. Assim os onze capítulos do esquema anterior deram lugar a oito, que se apresentam assim: 1. O mistério da Igreja; 2. O povo de Deus; 3. A constituição hierárquica da igreja; 4. Os leigos; 5. A vocação universal à santidade na Igreja; 6. Os religiosos; 7. A índole escatológica de nossa vocação e nossa íntima união com a Igreja celeste; 8. A Bem-aventurada Virgem Maria Mãe de Deus no mistério de Cristo e da Igreja. Este último esquema agradou a maioria, pois abrangia uma reflexão profunda sobre toda realidade da Igreja em suas estruturas internas.
Mas o que levou, então, os padres conciliares a tomar uma posição diferente daquela contida na primeira estrutura da Lumen gentium? Há teólogos comentadores do Concílio (Candido Pozo, Boaventura Kloppenburg, entre outros), que defendem a introdução deste novo esquema a uma vontade expressa do Papa João XXIII, que foi bem defendida por seu sucessor, de que a Igreja deveria abrir-se ao mundo.
Já a inclusão do VII capítulo, foi um pedido expresso de João XXIII, que confiara ao Cardeal Larraona[4], auxiliado por uma comissão especial, o encargo de elaborar um texto em que apontasse uma íntima relação entre a Igreja peregrina e o culto dos santos, como também a oração aos fiéis defuntos.
A morte de João XIII em 1962, não pôs fim a esse ideal. O Papa Paulo VI, que foi uma figura singular no desenvolvimento do Concílio, não excitou em aprovar prontamente a decisão, de seu predecessor e, por conseguinte, o texto da comissão. Aasim durante a seção plenária de março de 1964 foi instituída uma subcomissão encarregada de rever o texto e enquadrá-lo no contexto e estilo da De Ecclesia.
O texto da subcomissão foi apresentado com quatro parágrafos para ser discutido na terceira seção do Concílio em 1964. O primeiro apresentava a índole escatológica da nossa vocação na Igreja: nele se exprimia a tendência da nossa vocação escatógica que começa aqui e culmina no céu. Já o segundo expressava a comunhão entre a Igreja celeste e a Igreja peregrinante: nele o texto salientava que a nossa morte não rompe a unidade entre as realidades eclesiais (Igreja peregrina e a Igreja celeste). O terceiro traz a relação da Igreja peregrina em união com os Santos: neste ponto a reflexão valoriza muito a intercessão poderosa dos santos e a oração pelos mortos. O quarto e último falava de algumas disposições pastorais: neste contexto o esquema aponta alguns perigos e exageros que seguem o culto aos santos.
O mencionado texto apresentado pela comissão para discussão na aula conciliar produziu muito debate. O cardeal Ernesto Ruffini, Arceb. de Palermo, na Itália classificou o texto de piedosíssimo no tocante a exposição da doutrina sobre os novíssimos e disse que nele se omite, quase completamente, uma posição sobre o inferno[5].
O cardeal Ignece Ziade, Acerb. Maronita de Beirut, no Líbano, faz uma intervenção valiosa ao colocar a necessidade de uma maior presença pneumatológica na Lumen gentium. Ele alega que não é possível falar de índole escatológica da nossa vocação sem referência a missão do Espírito Santo. Ele salientou que para os Orientais um capítulo de escatologia sem uma clara missão do Espírito é igual a uma liturgia sem epíclese ou anáforas, na qual se apresentaria a missão do Filho, tocaria um pouco no papel do Pai, mas nada se falaria do Espírito Santo. Esse capítulo sem um autêntico aceno ao papel Espírito não poderia ser aceito pelas Igrejas Orientais[6].
Também é salutar a intervenção do bispo alfred Ancel, auxiliar de Lião, na França, ao salientar que a índole escatológica de nossa vocação deve manifestar-se na nossa vida cotidiana, em todas as nossas obras, principalmente de duas maneiras: por meio das virtudes teologais: fé, esperança e caridade, que nos impinge a agir, buscando os valores eternos; depois por meio da consciência de que a índole escatológica de nossa existência faz-nos trabalhar sem nos tornarmos escravos das estruturas e ocupações.
Após o fim de todos os debates e mais de 17 intervenções encerraram-se as reflexões acerca do VII capítulo da Lumen gentium que foi aprovado por quase todos os 2.204 padres conciliares presentes na octogésima primeira congregação geral do Concílio em 16 de setembro de 1964.

1.2 POR QUE UM CAPÍTULO DE ESCATOLOGIA NA CONSTITUIÇÃO SOBRE A IGREJA.

Como ponto de partida, queremos salientar, no início desta pesquisa, a importância que teve a inclusão do tema sobre a escatologia para toda a Constituição Dogmática Lumen gentium. Não é nosso interesse tratar aqui da penetração do VII capítulo em toda Constituição, mas poderia deixar de registrar a relevância que teve a escatologia em todo o documento sobre a Igreja. A escatologia, como veremos ao longo deste trabalho, não é apêndice ou uma reflexão justaposta dentro do horizonte conciliar, ela representa parte de um projeto maior que tem como finalidade unir, numa mesma reflexão, a Igreja como mistério e sacramento da Salvação com a realidade concreta da vida dos fiéis. A finalidade é demonstrar que a Igreja visível nas suas estruturas é sinal e instrumento que apontam à vida nova da comunidade cristã.
É importante salientar, neste itinerário histórico, que o VII Capítulo, sobre a índole escatológica da Igreja, não estava presente no primeiro esquema da De Ecclesia, apresentado pela comissão preparatória. A inclusão foi fruto de um amadurecimento do horizonte teológico conciliar. O teólogo Riundor Ignacio, assim como Boaventura Kloppenburg defendem a tese de que a inclusão do capítulo escatolágico, na Carta Magna De Ecclesia condiz com a vontade do Papa João XXIII, que desejava que na reflexão sobre a Igreja se fizesse referências a temas como: o Culto dos Santos e a comunhão da Igreja peregrina com a Igreja celeste[7].
Assim a inserção do caráter escatológico da Igreja aponta para uma tomada de consciência dos Bispos em perceberem na natureza e na missão da Igreja uma tensão escatológica. Tal índole escatológica projeta a Igreja na história humana como instrumento de salvação; como sinal sacramental e visível da presença da graça na história atual. Por causa disso os bispos decidiram criar um capítulo inteiro sobre escatologia e colocá-lo dentro do esquema De Ecclesia.
Todavia, não foi fácil essa inclusão. A primeira discussão acerca do VII capítulo se deu em meio a esclarecimentos e propostas dos bispos presentes, na III seção ordinária de 1964, onde se discutiu, entre outros, os detalhes sobre a conclusão da De Ecclesia. Para entendermos melhor isso, cabe-nos voltar um pouco para recordar a valiosa contribuição do Cardeal Suenens[8] na Congregação geral n°33 de 4 de dezembro de 1962. Seu pronunciamento marcou muito o itinerário do Concílio. Ele buscava organizar um plano harmônico (Ratio ipsius Concilii) para todo o Concílio. Seu projeto consistia em apresentar a Igreja como luz das nações (ecclesia Lumen gentium), dividindo o tema sobre a Igreja em dupla vertente: como Igreja ad intra e como Igreja ad extra[9].
Segundo o esquema do Cardeal Suenens, a Igreja, ad intra, abordaria temas como: a natureza da Igreja, seu ofício ou missão. A Igreja, ad extra, seria explicada em tríplece diálogo: com os fiéis, com irmãos separados e com o mundo moderno. Essa proposta agradou muito a todos os bispos, chegando a influenciar diretamente a formulação das duas principais constituições: a Lumen gentium e a Gaudium et Spes[10].
No esquema do Cardeal, que agradou muito aos Padres, a escatologia ainda não se fazia presente, mas, como veremos mais adiante, já aparecem elementos que tornam necessária uma abordagem escatológica na Lumen gentium, como parte essencial da Constituição.
A própria localização do VII capítulo entre a vocação universal a santidade, a vida religiosa e a santíssima Virgem Maria, demonstram a centralidade da escatologia em todo o esquema da Constituição.
A proposito da importância do VII capítulo na estrutura da Lumen Gentium é relevante lembrar a contribuição do Cardeal Giovanni Urbani, patriarca de Veneza, na Itália, que afirma satisfação para com o texto apresentado, sobretudo por perceber nele um caráter eminentemente cristológico e eclesiológico, tão relevante à estruturação de todo o horizonte conciliar[11].
Desta forma fica evidente que com a incisão do tema escatológico na Lumen gentium os padres conciliares propõem uma visão escatológica aberta ao mistério, unida a um contexto sacramental, sem distanciá-la e isolá-la do mundo real, como acontecia anteriormente nos tratados de escatologia. A escatologia dentro da eclesiologia não somente revitalizou a Igreja como faz justiça à sua missão e natureza escatológica. A escatologia unida à eclesiologia torna mais consciente a íntima união que se processa pelo batismo em cada fiel com Cristo.

1.3 A escatologia do VII capítulo: superação do esquema juridicista e apologética da Igreja.

Desde início do Concílio muitos temiam que ele se tornasse uma espécie de “Sínodo Romano”. Que valorizasse os velhos esquemas apologéticos pós-trento: ou seja, de defesa da fé e aplicação de anátema. Como podemos confirmar nos relatos de Boabentura Kloppenburg, o primeiro esquema apresentado da Lumen gentium, privilegiava tal posição[12]. Algum, como o bispo de Borogan, nas Filipinas, Vicente Reyes, defendia a ideia da Igreja triunfante e eram defensores do esquema juridicista da Igreja.
Todavia, a maioria dos bispos tinha consciência de que os anátemas de Trento já não respondiam as inquietações da modernidade. Não adiantava falar em tom puramente apologético e autoritário. A mentalidade sociocultural exigia uma nova postura eclesial. Graças a Deus a mentalidade foi pouca a pouco clarificando e abrindo-se para aquilo que haveria de ser o Concílio Vaticano II: uma experiência de abertura a ação do Espirito Santo em unidade com a fé da Igreja, em diálogo com o mundo moderno.
Um fator muito positivo do Concílio foi o legado de ter superado uma mentalidade que se poderia chamar de antirreformista, identificada com a Igreja hierárquica, onde os leigos eram visto apenas como súditos obedientes. Isso pode ser constatado no item a seguir, onde exporemos os dois esquemas De Ecclesia, o primeiro com seus onze capítulos enquadra-se muito bem neste esquema de Igreja hierarquicamente perfeita e o final que foi aprovado na terceira seção, que se alinha com o pensamento de abertura e renovação muito presente, na maioria dos bispos.
A superação do esquema juridicista e apologético da Igreja devem-se muito ao desejo explícito de João XXIII, que sonhava em trazer a comunidade cristã para dentro dos problemas do mundo moderno, a fim de que a mensagem cristã encontrasse eco no coração humano. Neste sentido o esquema final trouxe mobilidade e novidade para toda reflexão eclesial. E a inclusão do VII capítulo responde a uma exigência de abertura e profundidade da reflexão eclesial num contexto nova: a escatologia presente no corpo da Lumen gentium, marca uma nova mentalidade da discussão teológica dentro do Concílio, posteriormente em todas as camadas teológica, visto que agora a Igreja é apresentada num contexto esperança que se lança para o fim, sem desvincular-se do real. Nisto se afirma o já e o ainda não da nossa vocação.





























2.1 A comunidade escatológica de salvação.

A comunidade escatológica é chamada em Cristo à santidade, que somente será plena na glória celeste, quando chegar o tempo da restauração de todas as coisas (cf. LG 48a). Ora, até que isso aconteça ela vive na esperança das promessas. Por isso o mistério da Igreja deve enquanto sinal escatológico é unir os fiéis na caminhada da fé. A meta da comunidade é despertar o amor do Pai apresentado em seu Filho, Cristo Jesus. O referencial é a fé em Jesus ressuscitado, como garantia plena da consumação de todas as coisas (cf. At 2,21)[13].
Essa confissão de fé nas promessas de Cristo e na sua ressurreição é o centro da vida da comunidade escatológica de salvação: “já chegamos, portanto, o fim dos tempos (cf. 1Cor 10, 11), a renovação de todas as coisas está irrevogavelmente decretada e vai-se realizando de certo modo neste mundo” (LG, 48c). Desta certeza nasce um imperativo no qual o Concílio deixa claro: “a Igreja possui já na terra uma santidade verdadeira, embora imperfeita.” (LG, 48c).
A nova comunidade que nasce da experiência pascal é escatológica não somente pelo fato de pregar uma segunda vinda do Senhor, mas porque anuncia e testemunha a vida nova em Cristo. A comunidade escatológica não tem medo de apostar sua vida neste evento. Da assembleia amedrontada e triste após a morte de Jesus, surge um povo que testemunha com valentia e determinação a fé cristã. A força do ressuscitado abre a tensão escatológica da salvação: “la experiencia de esta nueva comunidad es para los discípulos ocasión de alegría y agradecimiento; en ninguna parte narran las fuentes desilusión alguna, como se esta comunidad fuera solución de apuro ante el aplazamiento de la parusía”[14].
Desta experiência de fé podemos identificar três marcas fundamentais da comunidade escatológica de salvação: o testemunho, o anúncio do Reino e a profecia. Neste sentido, a nova comunidade de salvação é presentificada pelo testemunho dos fiéis, pela pregação da palavra e a partilha do pão (At 2, 42-47). A vida concreta da comunidade é o sinal escatológico de que o tempo da restauração já se abriu e a vitória foi decreta. Agora se percebe que as promessas do Antigo Testamento, que falava do fim dos tempos e da restauração de todas as coisas já aparecem no estilo de vida da comunidade (cf. Ed 9,9; Jo 8,6; Sl 14, 7; Sl 80, 3; Is 49, 8-10; Jr 30, 16-19 Am 9,11)[15]. A nova modo de vida, marcado pelo amor, a solidariedade e fraternidade tomam seu início na nova comunidade. Toda vez que o fiel vive testemunhando em sua vida as marcas da comunidade cristã, a nova Jerusalém já desponta como aurora resplandecente de beleza, (cf. Is 61, 10).
Um caráter relevante da comunidade escatológica é o fato dela viver sinais e experiências do Reino, mas ao mesmo tempo peregrinar rumo ao Reino. Por meio destes sinais vividos ela anuncia o Reino como uma possibilidade real. O Concílio neste sentido apresenta a Igreja como sacramento de salvação, que aponta para o Reino de Deus presente em mistério (cf. LG, 3; GS, 39). Na medida em que ela recebeu a missão do Senhor de anunciar o Reino e estabelecê-lo entre os homens, a Igreja representa “o germe e início deste Reino na terra” ( cf. LG, 5)[16]. Por isso ela é escatológica, pois anuncia o Reino, com a certeza de que sua pregação não é vã e ilusória.
A Basiléia é o senhorio de Deus sobre a vida humana e sobre o mundo. A plena restauração será num sentido exato a vitória, e, consequentemente, o senhorio de Deus sobra todas as realidades (1Cor 1,13; Ef 5,5; 2Tm 4, 1-8; Hb 1,8; 2Pd 1,11). Em Paulo o Reino é a força que destrói a morte e muda a nossa sorte. Aos Coríntios, Paulo afirma: o Reino de Deus é justiça e paz e gozo no Espírito Santo (Rm 14, 17).
É importante deixar claro que a congregatio fiedelium não anula o Reino esperado, nem o esgota em seu mistério: la congregación escatológica de los creyentes y el reino de Dios no se enfrentan hostilmente, pero tampoco se yuxtaponen sin mutua referencia, sino que la Iglesia está ordenada al reino de Dios, referido a él[17]. Segundo Hans Küng a comunidade escatológica de salvação vive da pregação do Reino. Podemos dizer, então, que a Igreja como comunidade escatológica antecipa realmente a experiência da solidariedade e fraternidade, sinais indeléveis da vida ressuscitada.
Esta comunidade escatológica é manifesta pelos dons e carismas presentes no seu meio pela força do Espírito Santo. Também faz parte dos sinais que caracterizam a comunidade: a profecia. A vida nova inaugurada pela ressurreição de Jesus, presente nos sacramentos e nas ações litúrgicas da Igreja, sobretudo na Ceia do Senhor, exige dela a profecia como prova de fidelidade a Deus. Uma comunidade sem profecia não pode levar o nome de comunidade escatológica de salvação.
A profecia se caracteriza pela postura firme e irrevogável da justiça diante da desigualdade, da paz diante da guerra, da solidariedade frente a ameaça, da fraternidade diante da insensibilidade frente a dor dos outros. Na verdade, o reino antecipado somente pode ser concretizado nos sinais de paz, amor e justiça. A congregatio fidelium na sua ação eclesial em gestos sacramentais, precisa testemunhar com ousadia a vida da graça. A profecia é comprometimento com a causa da vida, sobretudo da vida ameaçada, porque a promessa é vida para todos: “Eu vim para que todos tenham vida e vida em abundância”! (Jo 10,10).
Daquilo que afirmamos até aqui uma coisa parecer ser evidente: a tarefa da comunidade escatológica de salvação é ser sinal de esperança para todos que confiam em Jesus. O papel da Igreja é, por assim dizer, levar a humanidade a reconhecer na ressurreição de Jesus o Reino escatológico irrevogavelmente inaugurado.
[1] KLOPPENBURG, Frei Boaventura, OFM, Concílio Vaticano II, Vol. II Primeira sessão conciliar, Vozes, Petrópolis, 1972, p.234
[2] KLOPPENBURG, Frei Boaventura, op. Cit p.p 24
[3] Ibidem.
[4]Cf. Congregatio Generalis, 80, Schema Constitutionis de Ecclesia C7, relatio Gerenalis: ActsynConcVatSec Vol III, periodus tertio, pars I, p. 351; cf. POZO, Candido. Teologia del mas Allá, (Biblioteca de autores cristianos), Madrid Ed. Catolica, 1968, p. 544-545
[5] Cf. KLOPPENBURG, Frei Boaventura, OFM, Concílio Vaticano II, Vol. IV Terceira sessão conciliar, Vozes, Petrópolis, 1972, pp. 11-14.
[6] Ibidem
[7] Cf. Riudor Ignacio, S.I. IN Vaticano II: Documentos, enciclopédia conciliar, historia douctrina, Editorial Regina, 1971, 108-113; Cf. KLOPPENBURG, Frei Boaventura, OFM, Concílio Vaticano II, Vol. IV Terceira sessão conciliar, Vozes, Petrópolis, 1972, pp. 11-14.

[8] Cardeal Suenens é teólogo e Arcebispo de Malanes, na Belgica, defenso, como outros bispos, de uma Igreja mais aberta, sem, no entanto, perder asua razão última. A defesa de seu esquema da Igreja ad intra e ad extra truxe muita contribuição ao longo do Concílio. O chamado esquema treze, ou seja, a Gaudium et spes é uma resposta a isso. Cf. KLOPPENBURG, Frei Boaventura, OFM, Concílio Vaticano II, Vol. IV Terceira sessão conciliar, Vozes, Petrópolis, 1972, pp. 11-17; PHILIPS, Mons., A Igreja e seu mistério no Concílio Vaticano II, Tomo I, Herder, São Paulo, 1968, pp. 50-70
[9] Cf. KLOPPENBURG, Frei Boaventura, OFM, Concílio Vaticano II, Vol. IV Terceira sessão conciliar, Vozes, Petrópolis, 1972, pp. 11-17
[10] Cf. KLOPPENBURG, Frei Boaventura, OFM, Concílio Vaticano II, Vol. II Primeira sessão conciliar, Vozes, Petrópolis, 1972, p.243
[11] Cf. KLOPPENBURG, Frei Boaventura, OFM, Concílio Vaticano II, Vol. IV Terceira sessão conciliar, Vozes, Petrópolis, 1972, p. 15
[12] Cf. KLOPPENBURG, Frei Boaventura, OFM, Concílio Vaticano II, Vol. II Primeira sessão conciliar, Vozes, Petrópolis, 1972, p.243

[13] Cf. KLOPPENBURG, Frei Boaventura, OFM, A Natureza e Missão da Igreja, In REB, Vol XXIX, Fasc. 4, Vozes, Petrópolis, 1969, pp. 801-802
[14] KÜNG, H., La Eglesia, Herder, Barcelona, 1968, p. 101
[15] Cf. SCHOONENBERG, P. Creio na Vida Eterna, in CONCILIUM: Revista Internacional de Teologia, n° 1 Dogma, jan./1969, pp. 86-94
[16] Cf. MEDARD, K., A Igreja: Uma Eclesiologia Católica, Loyola, São Paulo, 1997, p.86
[17] Cf. KÜNG, H., La Eglesia, Herder, op. Cit 108-110

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