sábado, 8 de outubro de 2011

Tema : O Batismo no Código de Direito Canônico:

Formação para Região Episcopal Nossa Senhora da Assunção
96. Pelo batismo o homem é incorporado à igreja de Cristo e nela constituído pessoa, com os deveres e os direitos que são próprios dos cristãos, tendo-se presente a condição deles, enquanto se encontram na comunhão eclesiástica, a não ser que se oponha uma sanção legitimamente infligida.
111 § 1. Com a recepção do batismo, fica adscrito à Igreja latina o filho de pais que a ela pertencem ou, se um dos dois a ela não pertence, ambos tenham escolhido, de comum acordo, que a prole fosse batizada na Igreja latina; se faltar esse comum acordo, fica adscrito à Igreja ritual à qual pertence o pai.
111 § 2. Qualquer batizando, que tenha completado catorze anos de idade, pode escolher livremente ser batizado na Igreja latina ou em outra Igreja ritual autônoma; nesse caso, ele pertence à Igreja que tiver escolhido.
204 § 1. Fiéis são os que, incorporados a Cristo pelo batismo, foram constituídos como povo de Deus e assim, feitos participantes, a seu modo, do múnus sacerdotal, profético e régio de Cristo, são chamados a exercer, segundo a condição própria de cada um, a missão que Deus confiou para a Igreja cumprir no mundo.
645 § 1. Antes de serem admitidos para o noviciado, os candidatos devem exibir a certidão de batismo, de confirmação e de estado livre.
842 § 1. Quem não recebeu o batismo não pode ser admitido validamente aos outros sacramentos.
842 § 2. Os sacramentos do batismo, da confirmação e da santíssima Eucaristia acham-se de tal forma unidos entre si, que são indispensáveis para a plena iniciação cristã.
845 § 1. Os sacramentos do batismo, confirmação e ordem, já que imprimem caráter, não podem ser repetidos.
849 ´ O batismo, porta dos sacramentos, necessário na realidade ou ao menos em desejo para a salvação, e pelo qual os homens se libertam do pecado, se regeneram tornando-se filhos de Deus e se incorporam à Igreja, configurados com Cristo mediante caráter indelével, só se administra validamente através da ablução com água verdadeira, usando-se a devida fórmula das palavras.
850 O batismo se administra segundo o ritual prescrito nos livros litúrgicos aprovados, exceto em caso de urgente necessidade, em que se deve observar apenas o que é exigido para a validade do sacramento.
851 A celebração do batismo deve ser devidamente preparada; assim:
1° - o adulto que pretende receber o batismo seja admitido ao catecumenato e, enquanto possível, percorra os vários graus até a iniciação sacramental, de acordo com o ritual de iniciação, adaptado pela Conferência dos Bispos, e segundo normas especiais dadas por ela;
2° - os pais da criança a ser batizada, e também os que vão assumir o encargo de padrinhos, sejam convenientemente instruídos sobre o significado desse sacramento e as obrigações dele decorrentes; o pároco, por si ou por outros, cuide que os pais sejam devidamente instruídos por meio de exortações pastorais, e também mediante a oração comunitária reunindo mais famílias e, quando possível, visitando-as. * Ver Legislação Complementar da CNBB na nota Sobre o modo de preparar convenientemente a celebração do batismo, cf. os documentos da CNBB: ´´Pastoral do Batismo´´, aprovado na 13ª Assembleia Geral (1973) (incluído na ´´Pastoral dos Sacramentos da Iniciação Cristã´´, Col. Documentos da CNBB, n. 2a); ´´Batismo de Crianças. Subsídios Teológico-litúrgico-pastorais´´, aprovado pela 18ª Assembleia Geral (1980). Advirta-se que, no n. 2 deste cânon, se estabelece, como norma universal, algo semelhante ao nosso “curso” de batizados.
853 A água a ser utilizada na administração do batismo, exceto em caso de necessidade, deve ser benzida segundo as prescrições dos livros litúrgicos.
854 O batismo seja conferido por imersão ou por infusão, observando-se as prescrições da Conferência dos Bispos.
§ 1. Os ministros católicos só administram licitamente os sacramentos aos fiéis católicos que, por sua vez, somente dos ministros católicos licitamente os recebem, salvas as prescrições dos §§ 2, 3 e 4 deste cânon e do cân. 861, § 2.
NOTA: O rito de imersão demonstra mais claramente a participação na morte e na ressurreição de Cristo, mas o rito de infusão (derramamento de água) é plenamente legítimo. O novo Código ´ do mesmo modo que os novos livros rituais ´ já não fala do batismo por aspersão. De acordo com a tradição, ele seria válido, mas atualmente não é lícito usá-lo. Entre nós continua a praxe de batizar por infusão; no entanto, permite-se o batismo por imersão, onde houver condições adequadas, a critério do Bispo Diocesano.
855 Cuidem os pais, padrinhos e pároco que não se imponham nomes alheios ao senso cristão.
856 Embora o batismo possa ser celebrado em qualquer dia, recomenda-se, porém, que ordinariamente seja celebrado no domingo ou, se for possível, na vigília da Páscoa.
857 § 1. Exceto em caso de necessidade, o lugar próprio para o batismo é a igreja ou oratório.
857 § 2. Tenha-se como regra geral que o adulto seja batizado na própria igreja paroquial e a criança na igreja paroquial dos pais, salvo se justa causa aconselhar outra coisa.
858§ 1. Toda a igreja paroquial tenha sua pia batismal, salvo direito cumulativo já adquirido por outras igrejas.
858§ 1. Exceto em caso de necessidade, o batismo não seja conferido em casas particulares, salvo permissão do Ordinário local, por justa causa.
860§ 2. Exceto em caso de necessidade ou por outra razão pastoral que o imponha, não se celebre o batismo em hospitais, salvo determinação contrária do Bispo diocesano.
861§ 1. Ministro ordinário do batismo é o Bispo, o presbítero e o diácono, mantendo-se a prescrição do cân. 530, n. 1.
861 § 2. Na ausência ou impedimento do ministro ordinário, o catequista ou outra pessoa para isso designada pelo Ordinário local pode licitamente batizar; em caso de necessidade, qualquer pessoa movida por reta intenção; os pastores de almas, principalmente o pároco, sejam solícitos para que os fiéis aprendam o modo certo de batizar.
862 Exceto em caso de necessidade, a ninguém é lícito, sem a devida licença, conferir o batismo em território alheio, nem mesmo aos próprios súditos.
863 O batismo dos adultos, pelo menos daqueles que completaram catorze anos, seja comunicado ao Bispo diocesano, a fim de ser por ele mesmo administrado, se o julgar conveniente.
864 É capaz de receber o batismo toda pessoa ainda não batizada, e somente ela.
865 § 1. Para que o adulto possa ser batizado, requer-se que tenha manifestado a vontade de receber o batismo, que esteja suficientemente instruído sobre as verdades da fé e as obrigações cristãs e que tenha sido provado, por meio de catecumenato, na vida cristã; seja também admoestado para que se arrependa de seus pecados.
865 § 2. O adulto, que se encontra em perigo de morte, pode ser batizado se, possuindo algum conhecimento das principais verdades da fé, manifesta de algum modo sua intenção de receber o batismo e promete observar os mandamentos da religião cristã.
866 A não ser que uma razão grave o impeça, o adulto que é batizado seja confirmado logo depois do batismo e participe da celebração eucarística, recebendo também a comunhão.
867 § 1. Os pais têm a obrigação de cuidar que as crianças sejam batizadas dentro das primeiras semanas; logo depois do nascimento, ou mesmo antes, dirijam-se ao pároco a fim de pedirem o sacramento para o filho e serem devidamente preparados para eles.
867 § 2. Se a criança estiver em perigo de morte, seja batizada sem demora.
868 § 1. Para que uma criança seja licitamente batizada, é necessário que:
1° - os pais, ou ao menos um deles ou quem legitimamente faz as suas vezes, consintam;
2°- haja fundada esperança de que será educada na religião católica; se essa esperança faltar de todo, o batismo seja adiado segundo as prescrições do direito particular, avisando-se aos pais sobre o motivo.
868 § 2. Em perigo de morte, a criança filha de pais católicos, e mesmo não católicos, é licitamente batizada mesmo contra a vontade dos pais.
869 § 1. Havendo dúvida se alguém foi batizado ou se o batismo foi conferido validamente, e a dúvida permanece depois de séria investigação, o batismo lhe seja conferido sob condição.
869 § 2. Aqueles que foram batizados em comunidade eclesial não católica não devem ser batizados sob condição, a não ser que, examinada a matéria e a forma das palavras usadas no batismo conferido, e atendendo-se à intenção do batizado adulto e do ministro que o batizou, haja séria razão para duvidar da validade do batismo.
NOTA: O § 2 conserva a presunção de validade do batismo conferido em comunidades acatólicas, reafirmada pelo no. 95 do novo Diretório Ecumênico. No Brasil, para complementar o primeiro Diretório, foi feita uma pesquisa pelo Secretariado Nacional de Teologia, sobre o modo de conferir o batismo nas comunidades acatólicas atuantes em nosso país. Os resultados dessa pesquisa, complementados posteriormente, foram incluídos no verbete “Batismo” do Guia Ecumênico (Col. Estudos da CNBB, n. 21). Lá se conclui o seguinte:
A) Diversas Igrejas batizam, sem dúvida, validamente; por esta razão, um cristão batizado numa delas não pode ser normalmente rebatizado, nem sequer sob condição. Essas Igrejas são:
a) Igrejas Orientais (´´Ortodoxas´´, que não estão em comunhão plena com a Igreja católico-romana, das quais, pelo menos, seis se encontram presentes no Brasil);
b) Igreja vétero-católica;
c) Igreja Episcopal do Brasil (Anglicanos);
d) Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB);
e) Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB);
f) Igreja Metodista.
B) Há diversas Igrejas nas quais, embora não se justifique nenhuma reserva quanto ao rito batismal prescrito, contudo devido à concepção teológica que têm do batismo p. ex., que o batismo não justifica e, por isso, não é tão necessário ´, alguns de seus pastores, segundo parece, não manifestam sempre urgência em batizar seus fiéis ou em seguir exatamente o rito batismal prescrito: também nesses casos, quando há garantias de que a pessoa foi batizada segundo o rito prescrito por essas Igrejas, não se pode rebatizar, nem sob condição. Essas Igrejas são:
a) Igrejas presbiterianas;
b) Igrejas batistas;
c) Igrejas congregacionistas;
d) Igrejas adventistas; e) a maioria das Igrejas pentecostais (Assembleia de Deus, Congregação Cristã do Brasil, Igreja do Evangelho Quadrangular, Igreja Deus é Amor, Igreja Evangélica Pentecostal ´´O Brasil para Cristo´´);
f) Exército da Salvação (este grupo não costuma batizar, mas quando o faz, realiza-o de modo válido quanto ao rito).
C) Há Igrejas de cujo batismo se pode prudentemente duvidar e, por essa razão, requer-se, como norma geral, a administração de um novo batismo, sob condição. Essas Igrejas são:
a) Igreja Pentecostal Unida do Brasil (esta Igreja batiza apenas ´´em nome do Senhor Jesus´´, e não em nome da SS. Trindade);
b) ´´Igrejas Brasileiras´´ (embora não se possa levantar nenhuma objeção quanto à matéria ou à forma empregadas pelas ´´Igrejas Brasileiras´´, contudo, pode-se e deve-se duvidar da intenção de seus ministros; cf. Comunicado Mensal da CNBB, setembro de 1973, p. 1227, c, n. 4; cf. também, no ´Guia Ecumênico´, o verbete ´Brasileiras, Igrejas´);
c) Mórmons (negam a divindade de Cristo, no sentido autêntico e, consequentemente, o seu papel redentor).
D) Com certeza, batizam invalidamente:
a) Testemunhas de Jeová (negam a fé na Trindade);
b) Ciência Cristã (o rito que pratica, sob o nome de batismo, tem matéria e forma certamente inválidas. Algo semelhante se pode dizer de certos ritos que, sob o nome de batismo, são praticados por alguns grupos religiosos não-cristãos, como a Umbanda).
869 § 3. Nos casos mencionados nos §§ 1 e 2, se permanecerem duvidosas a celebração ou a validade do batismo, não seja este administrado, senão depois que for exposta ao batizando, se adulto, a doutrina sobre o sacramento do batismo; a ele, ou aos pais, tratando-se de crianças, sejam explicadas as razões da dúvida sobre a validade do batismo.
870 A criança exposta ou achada, seja batizada, a não ser que, após cuidadosa investigação, conste de seu batismo.
871 Os fetos abortivos, se estiverem vivos, sejam batizados, enquanto possível.
872 Ao batizando, enquanto possível, seja dado um padrinho, a quem cabe acompanhar o batizando adulto na iniciação cristã e, junto com os pais, apresentar ao batismo o batizando criança. Cabe também a ele ajudar que o batizado leve uma vida de acordo com o batismo e cumpra com fidelidade as obrigações inerentes.
873 Admite-se apenas um padrinho ou uma só madrinha, ou também um padrinho e uma madrinha.
874 § 1. Para que alguém seja admitido para assumir o encargo de padrinho, é necessário que:
1° -seja designado pelo batizando, por seus pais ou por quem lhes faz as vezes, ou, na falta deles, pelo próprio pároco ou ministro, e tenha aptidão e intenção de cumprir esse encargo;
2° - Tenha completado dezesseis anos de idade, a não ser que outra idade tenha sido determinada pelo Bispo diocesano, ou pareça ao pároco ou ministro que se deva admitir uma exceção por justa causa;
3° - seja católico, confirmado, já tenha recebido o santíssimo sacramento da Eucaristia e leve uma vida de acordo com a fé e o encargo que vai assumir;
4° - não tenha sido atingido por nenhuma pena canônica legitimamente irrogada ou declarada;
5° - não seja pai ou mãe do batizando.
NOTA: Fora das condições do § 1, que são requeridas pela própria natureza das coisas, não parece que as qualidades expressas neste cânon afetem à validade, mas apenas à liceidade da designação do padrinho.
O § 2 é mais restritivo do que o no. 98, b) do Diretório Ecumênico, pois lá se permite que os Orientais que não estão em comunhão plena com a Igreja católica desempenhem o papel de verdadeiros padrinhos (não só de testemunhas), no batizado católico.
874 § 2. O batizado pertencente a uma comunidade eclesial não católica só seja admitido junto com um padrinho católico, o qual será apenas testemunha do batismo.
875 Se não houver padrinho, aquele que administra o batismo cuide que haja pelo menos uma testemunha, pela qual se possa provar a administração do batismo.
876 Para provar a administração do batismo, se não advém prejuízo para ninguém, é suficiente a declaração de uma só testemunha acima de qualquer suspeita, ou o juramento do próprio batizado, se tiver recebido o batismo em idade adulta.
877 § 1. O pároco do lugar em que se celebra o batismo deve registrar cuidadosamente e sem demora os nomes dos batizados, fazendo menção do ministro, pais, padrinhos, testemunhas, se as houver, do lugar e dia do batismo, indicando também o dia e o lugar do nascimento.
877 § 2. Tratando-se de filhos de mãe solteira, deve-se consignar o nome da mãe, se consta publicamente da maternidade ou ela o pede espontaneamente por escrito perante duas testemunhas; deve-se também anotar o nome do pai, se sua paternidade se comprova por algum documento público ou por declaração dele, feita perante o pároco e duas testemunhas; nos outros casos, anote-se o nome do batizado, sem fazer menção do nome do pai ou dos pais.
877 § 3. Tratando-se de filho adotivo, anotem-se os nomes dos adotantes e pelo menos os nomes dos pais naturais, de acordo com o §§ 1 e 2, se assim se fizer também no registro civil da região, observando-se as prescrições da Conferência dos Bispos.
878 Se o batismo não for administrado pelo pároco ou não estando ele presente, o ministro do batismo, quem quer que seja, deve informar da celebração do batismo ao pároco da paróquia em que o batismo tiver sido administrado, para que este o registre, de acordo com o cân. 877, § 1.

domingo, 25 de setembro de 2011

Reflexão sobre a eclesiologia do Vaticano II por Papa Bento XVI

Encerrou-se Domingo, 27 de fevereiro de 2000, o Simpósio Internacional sobra a atuação do Concílio Ecumênico Vaticano II promovido pelo Comitê do Grande Jubileu do Ano 2000.
Foi um importante momento de reflexão e de análise, que contou com a participação de Cardeais, Arcebispos, Bispos, sacerdotes, religiosos, religiosas, estudiosos e especialistas provenientes de diversos países do mundo, entre os quais também alguns dos protagonistas do evento conciliar.
O Card. Joseph Ratzinger, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, desenvolveu uma aprofundada análise sobre a "Eclesiologia da Constituição Lumen gentium"

Durante a preparação para o Concílio Vaticano II e também durante o próprio Concílio, o Cardeal Frings muitas vezes me contou um pequeno episódio que evidentemente o tocara profundamente. O Papa João XXIII não havia de sua parte estabelecido nenhum tema determinado para o Concílio, mas convidara os Bispos do mundo inteiro a propor as suas prioridades, para que das experiências vivas da Igreja universal surgisse a temática de que o Concílio deveria ocupar-se. Também na Conferência Episcopal Alemã se discutiu sobre quais temas deveriam ser propostos para a reunião dos Bispos. Não só na Alemanha, mas praticamente em toda a Igreja católica se considerava que o tema deveria ser a Igreja: o Concílio Vaticano I interrompido antes da hora em razão da guerra franco-alemã não pudera levar a termo a sua síntese eclesiológica, mas deixara um capítulo isolado de eclesiologia. Retomar os fila de então e assim buscar uma visão global da Igreja parecia ser a tarefa urgente do iminente Concílio Vaticano II. Isso decorria também do clima cultural da época: o fim da primeira guerra mundial trouxera consigo uma profunda reviravolta teológica. A teologia liberal orientada de modo completamente individualista se eclipsara como por si mesma, se despertara uma nova sensibilidade para a Igreja. Não só Romano Guardini falava de redespertar da Igreja nas almas; o bispo evangélico Otto Dibelius cunhava a fórmula de "século da Igreja", e Karl Barth dava à sua dogmática fundada sobre as tradições reformadas o título programático de "Kirchliche Dogmatik" (Dogmática eclesial): a dogmática pressupõe a Igreja, como explicava ele; sem Igreja, ela não existe.
Entre os membros da Conferência Episcopal Alemã, portanto, prevalecia amplamente um consenso sobre o fato de que a Igreja devesse ser o tema. O velho bispo Buchberger de Regensburg, que, como ideador do Lexikon für Theologie und Kirche em dez volumes, hoje na sua terceira edição, conquistara estima e renome muito além da sua diocese, pediu a palavra - assim me contava o Arcebispo de Colônia - e disse: caros irmãos, no Concílio deveis sobretudo falar de Deus. Este é o tema mais importante. Os Bispos ficaram impressionados; não podiam furtar-se à gravidade destas palavras. Naturalmente, não podiam decidir-se a propor simplesmente o tema de Deus. Mas uma inquietação interior permaneceu pelo menos no Cardeal Frings, que se perguntava continuamente como poderíamos satisfazer a este imperativo. Este episódio voltou-me à mente quando li o texto da conferência com a qual Johann Baptist Metz se despediu em 1993 da sua cátedra de Münster. Desse importante discurso gostaria de citar pelo menos algumas frases significativas. Diz Metz: "A crise que atingiu o cristianismo europeu não é mais primariamente ou pelo menos exclusivamente uma crise eclesial... A crise é mais profunda: de fato, ela não tem as suas raízes só na situação da própria Igreja: a crise tornou-se uma crise de Deus". "Poder-se-ia dizer, esquematicamente: religião, sim - Deus não, onde este não, por sua vez, não é entendido no sentido categórico dos grandes ateísmos. Não existem mais grandes ateísmos. O ateísmo de hoje. ns realidade, já pode voltar a falar de Deus - distraída ou tranquilamente -, sem pretendê-lo realmente...". "Também a Igreja tem sua concepção da imunização contra as crises de Deus. Ela hoje não fala mais - como por exemplo ainda no Concílio Vaticano II - de Deus, mas apenas - como por exemplo no último Concílio - de Deus anunciado por meio da Igreja. A crise de Deus é codificada eclesiologicamente". Palavras deste tipo na boca do criador da teologia política devem tornar atentos. Elas nos recordam sobretudo justamente que o Concílio Vaticano II não foi só um concílio eclesiológico, mas antes e sobretudo ele falou de Deus e isto não só dentro da cristandade, mas voltado para o mundo - daquele Deus que é o Deus de todos, que a todos salva e a todos é acessível. Será que porventura o Vaticano II, como Metz parece dizer, recolheu só metade da herança do Concílio anterior? Um texto dedicado à eclesiologia do Concílio deve evidentemente colocar-se esta pergunta.
Gostaria de antecipar imediatamente a minha tese de fundo: o Vaticano II queria claramente inserir e subordinar o discurso sobre a Igreja ao discurso sobre Deus, queria propor uma eclesiologia no sentido propriamente teo-lógico, mas a recepção do Concílio até o momento desdenhou esta característica qualificante em favor de afirmações eclesiológicas isoladas, lançou-se sobre palavras isoladas de fácil apelo e assim ficou para trás no que se refere às grandes perspectivas dos Padres conciliares. Algo de análogo se pode, aliás, dizer a propósito do primeiro texto que o Vaticano II produziu - a Constituição sobre a Sagrada Liturgia. O fato de que ela se situasse no início tinha em princípio motivos pragmáticos. Mas retrospectivamente se deve dizer que na arquitetura do Concílio isto tem um sentido preciso: no início está a adoração. E portanto Deus. Este início corresponde à palavra da Regra beneditina: Operi Dei nihil praeponatur. A Constituição sobre a Igreja, que se segue como o segundo texto do Concílio, deveria ser considerada internamente vinculada a ela. A Igreja deixa-se guiar pela oração, pela missão de glorificar a Deus. A eclesiologia, por natureza, tem a ver com a liturgia. E portanto também é lógico que a terceira Constituição fale da palavra de Deus, que convoca a Igreja e a renova a todo momento. A quarta Constituição mostra como a glorificação de Deus é proposta na vida ativa, como a luz recebida de Deus é levada ao mundo e só assim se torna totalmente a glorificação de Deus. Na história do pós-concílio, certamente a Constituição sobre a liturgia não foi mais compreendida a partir deste primado fundamental da adoração, mas antes como um livro de receitas sobre o que podemos fazer com a liturgia. Nesse meio tempo, parece ter fugido aos criadores de liturgia, ocupados que estão de modo cada vez mais premente em refletir sobre como se possa configurar a liturgia de modo cada vez mais atraente, comunicativo, nela envolvendo ativamente cada vez mais gente, que a liturgia na realidade é "feita" para Deus e não para nós mesmos. Quanto mais, porém, a fizermos para nós mesmos, tanto menos atraente ela é, porque todos notam claramente que o essencial é cada vez mais perdido. No que concerne agora à eclesiologia de "Lumen gentium", permaneceram sobretudo na consciência algumas palavras chaves: a idéia de Povo de Deus, a colegialidade dos Bispos como revalorização do ministério do Bispo em relação ao primado do Papa, a revalorização das Igrejas locais em relação à Igreja universal, a abertura ecumênica do conceito de Igreja e a abertura às outras religiões; enfim, a questão do estatuto específico da Igreja católica, que se exprime na fórmula segundo a qual a Igreja una, santa, católica e apostólica, de que fala o Credo, "subsistit in Ecclesia catholica": deixo esta famosa fórmula aqui inicialmente não traduzida, porque ela - como era previsto - recebeu as explicações mais contraditórias – da idéia, de que aqui se exprima a singularidade da Igreja católica unida ao Papa até a idéia de que aqui se tenha alcançado uma equiparação com todas as outras Igrejas cristãs e a Igreja católica tenha abandonado a sua pretensão de especificidade.
Numa primeira fase da recepção do Concílio predomina, conjuntamente com o tema da Colegialidade, o conceito de povo de Deus, que, logo compreendido totalmente a partir do uso lingüístico político geral da palavra povo, no âmbito da teologia da libertação foi compreendido com o uso da concepção marxista do povo como
contraposição às classes dominantes e mais em geral e ainda mais amplamente no sentido de soberania do povo, que agora finalmente deveria ser aplicada também à Igreja. Isso, por sua vez deu oportunidade a amplos debates sobre as estruturas, nos quais foi interpretado, conforme a situação, de modo mais ocidental como "democratização" ou mais no sentido das "Democracias populares" orientais. Lentamente, este "fogo de artifício de palavras" (N. Lohfink) ao redor do conceito de povo de Deus foi-se apagando, por um lado e principalmente porque estes jogos de poder se esvaziaram por si mesmos e tiveram de dar lugar ao trabalho ordinário nos conselhos paroquiais, mas por outro lado também porque um sólido trabalho teológico mostrou de modo incontrovertível a insustentabilidade de tais politizações de um conceito de per si proveniente de um âmbito totalmente diferente. Como resultado de análises exegéticas precisas, o exegeta de Bochum, Werner Berg, p. ex., afirma: "Apesar do pequeno número de trechos que contêm a expressão "povo de Deus" - deste ponto de vista, "povo de Deus" é um conceito bíblico um tanto raro -, pode-se, porém, notar algo comum neles: a expressão "povo de Deus" exprime o parentesco com Deus, a relação com Deus, o vínculo entre Deus e aquele que é designado como "povo de Deus", portanto uma "direção vertical". A expressão presta-se menos para descrever a estrutura hierárquica dessa comunidade, sobretudo se o "povo de Deus" for descrito em contraposição aos ministros... A partir do seu significado bíblico, a expressão tampouco se presta a ser um grito de protesto contra os ministros: "Nós somos o povo de Deus"".
O professor de teologia fundamental de Paderborn, Josef Meyer zu Schlochtern, conclui a resenha sobre a discussão ao redor do conceito de povo de Deus com a observação de que a Constituição sobre a Igreja do Vaticano II termina de tal modo o capítulo correspondente que "designa a estrutura trinitária como fundamento da última determinação da Igreja...". Assim aa discussão é reconduzida ao ponto essencial: a Igreja não existe por si mesma, mas deveria ser o instrumento de Deus, para reunir os homens a Ele, para preparar o momento em que "Deus será tudo em tudo" (1 Cor 15, 28). Justamente o conceito de Deus havia sido deixado de lado no "fogo de artifício" ao redor desta expressão e assim fora privado do seu significado. De fato, uma Igreja que existe só por si mesma é supérflua. E as pessoas logo notam isso. A crise da Igreja, como ela se reflete no conceito de povo de Deus, é "crise de Deus"; ela decorre do abandono do essencial. O que resta é hoje só uma luta pelo poder. Isso já existe bastante no mundo, para isso não se precisa da Igreja. Pode-se certamente dizer que aproximadamente a partir do Sínodo extraordinário de 1985, que devia tentar uma espécie de balanço de vinte anos de pós-concilio, uma nova tentativa tem-se difundido, que consiste em concentrar o conjunto da eclesiologia conciliar num conceito base: a eclesiologia de comunhão. Acolhi com alegria este novo recentramento da eclesiologia e também procurei, dentro das minhas capacidades, prepará-lo. Deve-se, porém, em primeiro lugar reconhecer que a palavra "communio" no Concílio não tem uma posição central. Entretanto, compreendida corretamente, ela pode servir de síntese para os elementos essenciais da eclesiologia conciliar. Todos os elementos essenciais do conceito cristão de "communio" encontram-se reunidos no famoso trecho de 1 Jo 1,3, que pode ser considerado o critério de referência para toda correta compreensão cristã da "communio": "O que vimos e ouvimos, anunciamo-lo também a vós, para que também vós estejais em comunhão conosco. A nossa comunhão é com o Pai e com o seu Filho Jesus Cristo. Estas coisas vos escrevemos, para que a nossa alegria seja perfeita". Surge aqui em primeiro plano o ponto de partida da "communio": o encontro com o Filho de Deus, Jesus Cristo, que no anúncio da Igreja vem aos homens. Nasce assim a comunihãn dos homens entre si, que por sua vez se fundamenta na comunhão com o Deus uno e trino. À comunhão com Deus se tem acesso através daquela realização da comunhão de Deus com o homem que é Cristo em pessoa; o encontro com Cristo cria comunhão com Ele mesmo e portanto com o Pai no Espírito Santo; e a partir daí une os homens entre si. Tudo isto tem por fim a alegria plena: a Igreja traz em si uma dinâmica escatológica. Na expressão alegria plena se nota a referência aos discursos de despedida de Jesus, portanto ao mistério pascal e ao retorno do Senhor nas aparições pascais, que tende ao seu pleno retorno no novo mundo: "Vós vos entristecereis, mas a vossa tristeza se transformará em alegria... ver-vos-ei de novo e o vosso coração se alegrará... Pedi e recebereis, para que a vossa alegria seja plena" (Jo 16, 20.22.24). Se confrontarmos a última frase citada com Lc 11, 13 – o convite à oração em Lucas -, fica claro que "alegria" e "Espírito Santo" se equivalem e que por trás da palavra alegria se esconde em 1 Jo 1, 3 o Espírito Santo aqui não expressamente mencionado. A palavra "communio" tem, pois, a partir deste âmbito bíblico, um caráter teológico, cristológico, histórico-salvífico e eclesiológico. Traz pois consigo também a dimensão sacramental, que em Paulo se mostra de modo totalmente explícito: "O cálice da bênção que abençoamos não é porventura comunhão com o sangue de Cristo? E o pão que partimos não é porventura comunhão com o corpo de Cristo? Já que há um só pão, nós, embora sendo muitos, somos um só corpo..." (1 Cor 10, 16s). A eclesiologia de comunhão é desde seu íntimo uma eclesiologia eucaristica. Ela se coloca assim bem perto da eclesiologia eucarística, que teólogos ortodoxos desenvolveram de modo convincente no nosso século. Nela, a eclesiologia torna-se mais concreta e permanece, porém, ao mesmo tempo totalmente espiritual, trascendente e escatológica. Na Eucaristia, Cristo, presente no pão e no vinho e dando-se sempre novamente, edifica a Igreja como seu corpo e por meio do seu corpo de ressurreição nos une ao Deus uno e trino e entre nós. A Eucaristia é celebrada em diferentes lugares, porém é ao mesmo tempo sempre universal, porque existe um só Cristo e um só corpo de Cristo. A Eucaristia inclui o serviço sacerdotal de "repraesentatio Christi" e portanto a rede do serviço, a síntese de unità e multiplicidade, que já se evidencia na palavra "Communio". Pode-se assim sem dúvida dizer que este conceito traz em si uma síntese eclesiológica que une o discurso da Igreja ao discurso de Deus e à vida de Deus e com Deus, uma síntese que retoma todas as intenções essenciais da eclesiologia do Vaticano II e as une entre si do modo correto.
Por todos estes motivos sentia-me grato e contente, quando o Sínodo de 1985 trouxe de volta ao centro da reflexão o conceito de "communio". Mas os anos seguintes mostraram que nenhuma palavra é à prova de mal-entendidos, nem mesmo a melhor e mais profunda. Na medida em que "communio" se tornou um slogan fácil, ela foi nivelada e deturpada. Como no caso do conceito de povo de Deus, também aqui se notou uma progressiva horizontalização, o abandono do conceito de Deus. A eclesiologia de comunhão começou a reduzir-se à temática da relação entre Igreja local e Igreja universal, que por sua vez tornou a cair cada vez mais no problema da divisão de competências entre uma e outra. Naturalmente, difundiu-se de novo o tema igualitarista, segundo o qual na "communio" só poderia haver uma igualdade plena. Chegou-se assim de novo exatamente à discussão dos discípulos sobre quem fosse o maior, que evidentemente em nenhuma geração pretende extinguir-se. Marcos refere-se a ela com maior insistênciaa. No caminho para Jerusalém Jesus falara pela terceira vez aos discípulos da sua próxima paixão. Chegados a Cafarnaum, pergunta a eles sobre o que tinham discutido ao longo do caminho. "Mas eles se calavam", pois haviam discutido sobre qual deles fosse o maior - uma espécie de discussão sobre o primado (Mc 9, 33-37). Não é assim também hoje? Enquanto o Senhor vacaminha para a sua paixão, enquanto a Igreja e nela Ele próprio sofre, nós nos detemos no nosso tema preferido, na discussão sobre os nossos direitos de precedência. E se Ele viesse entre nós e nos perguntasse sobre o que falamos, quanto teríamos de enrubecer e calar. Isto não quer dizer que na Igreja não se deva também discutir sobre a ordenação correta e sobre a atribuição das responsabilidades. E certamente sempre haverá desequilíbrios que exigem correções. Naturalmente pode ocorrer um centralismo romano exorbitante, que, como tal, deve depois ser evidenciado e purificado. Mas tais questões não nos podem distrair da verdadeira tarefa da Igreja: a Igreja não deve falar primariamente de si mesma, mas de Deus, e só para que isto aconteça de modo puro há então também críticas intraeclesiais, para as quais a correlação do discurso sobre Deus e sobre o serviço comum deve dar a direção. Em suma, não por acaso retorna na tradição evangélica em diversos contextos a palavra de Jesus segundo a qual o último será o primeiro e o primeiro, o último - como um espelho, que diz respeito sempre a todos. Diante da redução, que com relação ao conceito de "communio" se verificou nos anos que se seguiram a 1985, a Congregação para a Doutrina da Fé considerou oportuno preparar uma "Carta aos Bispos da Igreja católica sobre alguns aspectos da Igreja entendida como comunhão", que foi publicada com a data de 28 de junho de 1992. Uma vez que hoje para os teólogos que prezam a o seu prestígio, parece Ter-se tornado um dever dar uma avaliação negativa aos documentos da Congregação para a Doutrina da Fé, sobre esse texto choveram as críticas, de que muito pouco conseguiu salvar-se. Foi sobretudo criticada a frase de que a Igreja universal seria no seu mistério essencial uma realidade que ontológica e temporalmente precede cada uma das Igrejas particulares. Isto no texto era brevemente fundamantado com a evocação do fato de que segundo os padres a Igreja una e única precede a criação e gera as Igrejas particulares (9). Os padres dão assim continuidade a uma teologia rabínica que concebera como preexistentes a Torá e Israel: a criação teria sido concebida para que nela houvesse um espaço para a vontade de Deus; esta vontade, porém, precisava de um povo que vivesse para a vontade de Deus e dela fizesse a luz do mundo. Uma vez que os padres estavam convictos da identidade última entre Igreja e Israel, eles não podiam ver na Igreja algo de casual aparecido de última hora, mas reconheciam nesta reunião dos povos sob a vontade de Deus a teleologia interna da criação. A partir da cristologia, a imagem se amplia e se aprofunda: a história - de novo em relação com o Antigo Testamento - é explicada como história de amor entre Deus e o homem. Deus encontra e prepara para Si a esposa do Filho, a única esposa, que é a única Igreja. A partir da palavra da Gênese, que homem e mulher serão "dois numa só carne" (Gn 2, 24), a imagem da esposa se funde com a idéia da Igreja como corpo de Cristo, metéfora que por sua vez deriva da liturgia eucarística. O único corpo de Cristo é preparado; Cristo e a Igreja serão "dois numa só carne", um corpo, e assim "Deus será tudo em tudo". Essa precedência ontológica da Igreja universal, da única Igreja e do único corpo, da única esposa, em relação às realizações empíricas concretas em cada uma das Igrejas particulares me parece tão evidente, que para mim é difícil compreender as objeções a ela. Na realidade, elas só me parecem possíveis se não se quer e não se consegue mais ver a grande Igreja ideada por Deus - talvez por desespero em razão da sua insuficiência terrena -; ela aparece então como uma quimera teológica, e permanece portanto só a imagem empírica das Igrejas na sua relação recíproca e na sua conflitualidade. Isto porém significa que a Igreja como tema teológico é excluída. Se agora só se pode ver a Igreja nas organizações humanas, então na realidade permanece só desolação. Mas então não se abandona só a eclesiologia dos padres, mas também a do Novo Testamento e a concepção de Israel do Antigo Testamento. No Novo Testamento, aliás, não é necessário aguardar as epístolas deutero-paulinas e o Apocalipse para encontrar a prioridade ontológica - reafirmada pela Congregação para a Doutrina da Fé - da Igreja universal em relação às Igrejas particulares. No coração das grandes Epístolas paulinas, na epístola aos Gálatas, o Apóstolo nos fala da Jerusalém celeste e não como de uma grandeza escatológica, mas como uma realidade que nos precede: "Essa Jerusalém é a nossa mãe" (Gal 4, 26). A este respeito, H. Schlier nota que para Paulo como para a tradição judaica em que se inspira, a Jerusalém do alto é o novo eón. Para o apóstolo, porém, este novo eón já está presente "na Igreja cristã. Esta é para ele a Jerusalém celeste nos seus filhos". Se a prioridade ontológica da única Igreja não pode ser negada seriamente, a questão acerca da precedência temporal, porém, já é sem dúvida mais difícil. A Carta da Congregação para a Doutrina da Fé remete aqui à imagem lucana do nascimento da Igreja em Pentecostes por obra do Espírito Santo. Não queremos discutir aqui a questão da historicidade dessa narrativa. O que conta é a afirmação teológica, que é o que importa a Lucas. A Congregação para a Doutrina da Fé chama a atenção para o fato de que a Igreja tem início na comunidade dos 120 reunida ao redor de Maria, sobretudo na renovada comunidade dos doze, que não são membros de uma Igreja local, mas são os apóstolos, que levarão o evangelho aos confins da terra. Para esclarecer mais isto podemos acrescentare que eles, em seu número de doze, são ao mesmo tempo o antigo e o novo Israel, o único Israel de Deus, que agora - como desde o início estava contido fundamentalmente no conceito de povo de Deus - se estende a todas as nações e funda em todos os povos o único povo de Deus. Esta referência é reforçada por outros dois elementos: a Igreja nessa hora do seu nascimento já fala em todas as línguas. Os padres da Igreja interpretaram corretamente essa narrativa do milagre das línguas como uma antecipação da Catholica - a Igreja desde o primeiro instante é orientada "kat'holon" - abarca todo o universo. A isso se correlaciona o fato de que Lucas descreva o grupo de ouvintes como peregrinos vindos da terra inteira, com base num quadro de doze povos, cujo significado é aludir à onicompreensividade do auditório; Lucas enriqueceu esse quadro helenístico dos povos com um décimo terceiro nome: os romanos, com o que sem dúvida queria ressaltar mais uma vez a idéia do Orbis. Não se traduz com toda exatidão o sentido do texto da Congregação para a Doutrina da Fé quando, a este respeito Walter Kasper diz que a comunidade originária de Jerusalém teria sido de fato Igreja universal e Igreja local ao mesmo tempo e em seguida continua: "Certamente isto representa uma elaboração lucana; de fato, do ponto de vista histórico, é de se presumir que houvesse desde o início mais comunidades, ao lado da comunidade de Jerusalém e também comunidades na Galiléia". Aqui não se trata da questão para nós insolúvel em última instância, de quando exatamente e onde pela primeira vez surgiram comunidades cristãs, mas do início interior da Igreja no tempo, que Lucas quer descrever e que ele, para além de qualquer observação empírica, reconduz à força do Espírito Santo. Mas sobretudo não se faz justiça à narratica lucana se se diz que a comunidade originária de Jerusalém "teria sido ao mesmo tempo Igreja universals e Igreja local. A realidade primeira na narrativa de São Lucas não é uma comunidade originária hierosolimitana, mas a realidade primeira é que nos doze o antigo Israel, que é único, torna-se o novo e que agora este único Israel de Deus, por meio do milagre das línguas, ainda antes de se tornar a representação de uma Igreja local hierosolimitana, se mostra como uma unidade que abarca todos os tempos e todos os lugares. Nos peregrinos presentes, que vêm de todos os povos, ela também envolve imediatamente todos os povos do mundo. Talvez não seja necessário supervalorizar a questão da precedência temporal da Igreja universal, que Lucas em sua narrativa propõe claramente. Permanece importante, porém, que a Igreja nos doze é gerada pelo único Espírito desde o começo para todos os povos e portanto também desde o primeiro instante é orientada a exprimir-se em todas as culturas e assim a ser o único povo de Deus: não é que uma comunidade local se amplie lentamente, mas o fermento está sempre orientado para o todo e portanto traz em si uma universalidade desde o primeiro instante.
A resistência contra as afirmações de precedência da Igreja universal em relaçao às igrejas particulares é teologicamente difícil de compreender ou mesmo incompreensível.
Só se torna compreensível a partir de uma suspeita que foi assim sinteticamente formulado: "A fórmula torna-se totalmente problemática se a única Igreja universal for tacitamente identificada com a Igreja romana, de facto com o Papa e a Cúria. Se isto ocorre, então a Carta da Congregação para a Doutrina da Fé não pode ser entendida como uma ajuda no esclarecimento da eclesiologia de comunhão, mas deve ser compreendida como o seu abandono e como a tentativa de uma restauração do centralismo romano". Neste texto, a identificação da Igreja universal com o Papa e a Cúria é primeiramente introduzida como hipótese, como perigo, mas depois parece de fato ser atribuída à Carta da Congregação para a Doutrina da Fé, que assim aparece como uma restauração teológica e portanto como afastamento do Concílio Vaticano II. Esse salto interpretativo surpreende, mas representa sem dúvida uma suspeita amplamente difundida; ela dá voz a uma acusação que se ouve um pouco em toda parte, e também exprime bem uma crescente incapacidade de representar-se sob a Igreja universal, sob a Igreja una, santa, católica algo de concreto. Como único elemento configurável restam o Papa e a Cúria, e se se dá a eles uma classificação alta demais do ponto de vista teológico, é compreensível que pessoas se sintam ameaçadas. Assim nos encontramos aqui muito concretamente, depois do que só aparentemente é um Excursus, diante da questão da interpretação do Concílio. A pergunta que agora nos colocamos é a seguinte: qual idéia de Igreja universal tem realmente o Concílio? Não se pode dizer em verdade que a Carta da Congregação para a Doutrina da Fé "identifique tacitamente a Igreja universal com a Igreja romana, de facto com o Papa e a Cúria". Essa tentação surge se anteriormente já se houvesse identificado a Igreja local de Jerusalém e a Igreja universal, ou seja, se se houver reduzido o conceito de Igreja às comunidades que aparecem empiricamente e a sua profundidade teológica tiver sido perdida de vista. É útil retornar com estas questões ao texto mesmo do Concílio. Imediatamente, a primeira frase da Constituição sobre a Igreja esclarece que o Concílio não considera a Igreja como uma realidade fechada em si mesma, mas a vê a partir de Cristo: "Cristo é a luz das nações, e este sagrado concílio, reunido no Espírito Santo, deseja ardentemente que a luz de Cristo, refletida na face da Igreja, ilumine a todos os homens... ". Sobre esse fundo reconhecemos a imagem presente na teologia dos padres, que vê na Igreja a lua, a qual não tem por si mesma luz própria, mas reenvia a luz do sol Cristo. A eclesiologia manifesta-se como dependente da cristologia, a ela ligada. Já’que, porém, ninguém pode falar corretamente de Cristo, do Filho, sem ao mesmo tempo falar do Pai e já que não se pode falar corretamente de Pai e Filho sem colocar-se na escuta do Espírito Santo, a visão cristológica da Igreja se amplia necessariamente numa eclesiologia trinitária (LG n. 2-4). O discurso sobre a Igreja é um discurso sobre Deus, e só assim está correto. Nesta ouverture trinitária, que oferece a chave para a correta leitura do texto inteiro, aprendemos o que é a Igreja una, santa a partir das e em todas as concretas realizações históricas, o que significa "Igreja universal". Isto mais tarde se esclarece quando sucessivamente é mostrado o dinamismo interior da Igreja rumo ao Reino de Deus. Justamente porque a Igreja deve ser compreendida teo-logicamente, ela autotranscende sempre a si mesma; ela é a reunião para o Reino de Deus, irrpução nele. São em seguida apresentadas brevemente as diversas imagens da Igreja, que representam todas elas a única Igreja, quer quando se fale da esposa, quer da casa de Deus, da sua familha, do templo, da cidade santa, da nossa mãe, da Jerusalém celeste ou do rebanho de Deus, etc. Ao final, isso se concretiza mais. Recebemos uma resposta muito prática à pergunta: o que é isto, esta única Igreja universal que precede ontológica e temporalmente as Igrejas locais? Onde está? Onde podemos vê-la agir? A Constituição responde falando-nos dos sacramentos. Há em primeiro lugar o batismo: ele é um evento trinitário, ou seja, totalmente teológico, muito mais que uma evento social ligado à Igreja local, como hoje infelizmente é muitas vezes desfigurado. O batismo não deriva da comunidade individual, mas nele se abre a nós a porta à única Igreja, ele é a presença da única Igreja e só pode manifestar-se a partir dela - da Jerusalém celeste, da nova mãe. Com relação a isto, o conhecido ecumenista Vinzenz Pfnür disse recentemente: o batismo é ser inserido "no único corpo de Cristo aberto para nós na cruz (cf Ef 2, 16), no qual... são batizados por meio do único Espírito (1 Cor 12, 13), o que é essencialmente mais do que o anúncio batismal em uso em muitos lugares: acolhemos na nossa comunidade...". No batismo, tornamo-nos membros desse único corpo, "o que não deve ser confundido com a pertença a uma Igreja local. Disso faz parte a única esposa e o único episcopado..., do qual com Cipriano se participa só na comunhão dos bispos". Nel batismo a Igreja universal precede continuamente a Igreja local e a constitui. A partir daí a Carta da Congregação para a Doutrina da Fé sobre a "communio" pode dizer que na Igreja não há estrangeiros: todos estão em toda parte em casa e não só como hóspedes. É sempre a única Igreja, a única e a mesma. Quem é batizado em Berlim, está na Igreja em Roma ou em Nova York ou em Kinshasa ou em Bangalore ou em qualquer outro lugar, tanto em sua casa como na Igreja em que foi batizado. Não deve registrar-se de novo, é a única Igreja. O batismo vem dela e dá à luz nela. Quem fala do batismo fala, trata por isso mesmo também da palavra de Deus, que para a Igreja inteira é só uma e continuamente a precede em todos os lugares, a convoca e a edifica. Esta palavra está acima da Igreja, e no entanto está nela, confiada a ela como sujeito vivo. A palavra de Deus precisa, para estar presente de modo eficaz na história, deste sujeito, mas este sujeito, por sua vez, não subsiste sem a força vivificante da palavra, que antes de tudo a torna sujeito. Quando falamos da palavra de Deus, entendemos também o Credo, que está no centro do evento batismal; ele é omodo como a Igreja acolhe a palavra e dela se apropria, palavra e resposta, por assim dizer, ao mesmo tempo. Também aqui a Igreja universal está presente, a única Igreja, de modo bastante concreto e aqui perceptível.
O texto conciliar passa do batismo à Eucaristia, na qual Cristo dá o seu corpo e lhes devolve assim seu corpo. Esse corpo é único, e assim novamente a Eucaristia para cada Igreja local é o lugar da inserção no único Cristo, o tornar-se uma só coisa de todos os que comungam na "communio" universal, que une céu e terra, vivos e mortos, passado, presente e futuro e abre para a eternidade. A Eucaristia não nasce da Igreja local e não termina nela. Ela manifesta continuamente que Cristo, de fora, através das nossas portas fechadas vem a nós; ela vem continuamente a nós a partir de fora, do total, único corpo de Cristo e nos conduz para dentro dele. Este "extra nos" do Sacramento revela-se também no ministério do bispo e do presbítero: o fato de a eucaristia precisar do sacramento do serviço sacerdotal tem o seu fundamento exatamente no fato de que a comunidade não pode oferecer-se ela própria a eucaristia; ela deve recebê-la a partir do Senhor por meio da mediação da única Igreja. A sucessão apostólica, que constitui o ministério sacerdotal, implica ao mesmo tempo tanto o aspecto sincrônico como o diacrônico do conceito de Igreja: o pertencer ao todo da história da fé a partir dos apóstolos e o estar em comunhão com todos aqueles que se deixam reunir pelo Senhor no seu corpo. A Constituição sobre a Igreja tratou notoriamente o ministério episcopal no terceiro capítulo e esclareceu o seu significado a partir do conceito fundamental do "collegium". Este conceito que aparece só de modo marginal na tradição serve para ilustrar a unidade interior do ministério episcopal. Ninguém é bispo individualmente, mas através da pertença a um corpo, a um colégio, que por sua vez representa a continuidade histórica do "collegium apostolorum". Neste sentido, o ministério episcopal deriva da única Igreja e introduz a ela. Justamenteo aqui se torna visível que não existe teologicamente nenhuma contraposição entre Igreja local e Igreja universal. O Bispo representa na Igreja local a única Igreja, e ele edifica a única Igreja, enquanto edifica a Igreja local e desperta os seus dons particulares para a utilidade de todo o corpo. O ministério do sucessor de Pedro é um caso particular do ministério episcopal e está ligado de modo particular com a responsabilidade para unidade da Igreja inteira. Mas esse ministério de Pedro e a sua responsabilidade não poderia sequer existir, se não existisse antes de tudo a Igreja universal. Mover-se-ia, de fato, no vazio e representaria uma pretensão absurda. Sem dúvida, a correlação correta entre episcopado e primado teve de ser continuamente redescoberta através mesmo de esforços e sofrimentos. Mas esta busca só é colocada de modo correto quando é considerada a partir do primado da missão específica da Igreja e a ele sempre orientada e subordinada: ou seja, a tarefa de levar Deus aos homens, os homens a Deus. O objetivo da Igreja é o Evangelho, e ao redor dele tudo nela deve girar.
Gostaria aqui de interromper a análise do conceito de "communio" e tomar mais uma vez posição pelo menos brevemente em relação ao ponto mais discutido de "Lumen gentium": o significado da já mencionada frase de "Lumen gentium" 8, segundo a qual a única Igreja de Cristo, que confessamos no Símbolo como a única, santa, católica e apostólica, "subsiste" na Igreja católica, que é guiada por Pedro e pelos bispos em comunhão com ele. A Congregação para a Doutrina da Fé viu-se obrigada em 1985 a tomar posição em relação a esse texto muito discutido em razão de um livro de Leonardo Boff, no qual o autor sustentava a tese de que a única Igreja de Cristo, como subsiste na Católico-romana, subsistiria também em outras Igrejas cristãs. É supérfluo dizer que sobre o pronunciamento da Congregação pela Doutrina da Fé choveram críticas pungentes, para depois ser deixado de lado. Na tentativa de refletir sobre o estado atual da recepção da eclesiologia conciliar, a questão da interpretação do "subsistit" é inevitável, e a este respeito o único pronunciamento oficial do Magistério depois do Concílio sobre esta palavra, ou seja, a citada Notificação, não pode ser negligenciado. À distância de 15 anos, aparece com mais clareza do que na época que não se tratava no caso de um único autor teológico, mas de uma visão da Igreja que circula com diversas variações e ainda hoje é muito atual. O esclarecimento de 1985 apresentou extensamente o contexto da tese de Boff já brevemente mencionada. Não é necessário aprofundarmo-nos mais nesses pormenores, porque nos interessa algo mais fundamental. A tese, cujo representante na época foi Boff, poder-se-ia caracterizar como relativismo eclesiológico. Ela encontra sua justificação na teoria de que o "Jesus histórico" por si só não teria pensado numa Igreja, e muito menos, portanto, a teria fundado. A Igreja como realidade histórica teria surgido só depois da ressurreição, no processo de perda de tensão escatológica, em razão das inevitáveis necessidades sociológicas da institucionalização, e inicialmente não teria sequer existido uma Igreja universal "católica", mas apenas diversas Igrejas locais, com diferentes teologias, diferentes ministérios, etc. Nenhuma Igreja institucional poderia, portanto, afirmar ser aquela única Igreja de Jesus Cristo querida pelo próprio Deus; todas as configurações institucionais nasceram, pois, de necessidades sociológicas e portanto, como tais, são todas elas construções humanas, que podem ou até mesmo devem modificar-se de novo radicalmente sob novas circunstâncias. Na sua qualidade teológica se diferenciam de modo muito secundário e portanto se poderia dizer que em todas ou pelo menos em muitas subsiste a "única Igreja de Cristo". A propósito desta hipótese surge naturalmente a pergunta de com que direito, numa tal perspectiva, se possa simplesmente falar de uma única Igreja de Cristo.
A tradição católica, porém, escolheu um outro ponto de partida: ela confia nos evangelistas, crê neles. Fica então evidente que Jesus, que anunciou o reino de Deus, para a sua realização reuniu ao seu redor alguns discípulos; Ele lhes deu não só a sua palavra como uma nova interpretação do Antigo Testamento, mas no sacramento da última ceia deu-lhes de presente um novo centro unificante, por meio do qual todos aqueles que se confessem cristãos, de um modo totalmente novo, se tornam uma só coisa com Ele - tanto que Paulo pôde designar esta comunhão como o ser um só corpo com Cristo, assim como a unidade de um só corpo no Espírito. Fica então evidente que a promessa do Espírito Santo não era um vago anúncio, mas apontava para a realidade de Pentecostes - o fato, pois, de que a Igreja não foi pensada e feita por homens, mas foi criada por meio do Espírito, é e continua a ser criatura do Espírito Santo. Assim, porém, instituição e Espírito estão na Igreja numa relação muito diferente da que as mencionadas correntes de pensamento gostariam de nos sugerir. Assim a instituição não é simplesmente uma estrutura que se pode modificar ou demolir à vontade, que não teria nada a ver com a realidade da fé como tal. Assim esta forma de corporeidade pertence à própria Igreja. A Igreja de Cristo não está escondida de modo imperceptível por trás das múltiplas configurações humanas, mas existe realmente, como Igreja verdadeira, que se manifesta na profissão de fé, nos sacramentos e na sucessão apostólica. O Vaticano II, com a fórmula do "subsistit", conformemente à tradição católica - queria portanto dizer exatamente o contrário do relativismo eclesiológico: a Igreja de Jesus Cristo existe realmente. Ele próprio a quis, e o Espírito Santo a criou continuamente a partir de Pentecostes, embora contra toda falência humana, e a sustenta na sua identidade essencial. A instituição não é uma exterioridade inevitável mas teologicamente irrelevante ou até daninha, mas pertence no seu núcleo essencial à concretitude da Encarnação. O Senhor mantém a sua palavra: "As portas do inferno não prevalecerão contra ela".
Neste ponto, torna-se necessário examinar de modo um pouco mais preciso a palavra "subsistit". O Concílio diferencia-se com esta expressão da fórmula de Pio XII, que na Encíclica "Mystici Corporis Christi" dissera: a Igreja católica "é" (est) o corpo místico único de Cristo. Na diferença entre "subsistit" e "est" esconde-se todo o problema ecumênico. A palavra subsistit deriva da filosofia antiga, posteriormente desenvolvida na escolástica. A ela corresponde a palavra grega "hypostasis", que na cristologia tem um papel central, para descrever a união da natureza divina e humana na pessoa de Cristo. "Subsistere" é um caso especial de "esse". É o ser na forma de um sujeito a se stante (que se mantém por si só).
Trata-se aqui exatamente disso. O Concílio pretende dizer-nos que a Igreja de Jesus Cristo como sujeito concreto neste mundo pode ser encontrada na Igreja católica. Isto pode acontecer só uma vez e a concepção segundo a qual o Subsistit se deveria multiplicar justamente não capta o que se pretendia dizer. Com a palavra subsistit o Concílio queria exprimir a singularidade e a não multiplicabilidade da Igreja católica: a Igreja existe como sujeito na realidade histórica. A diferença entre subsistit e est contém, porém, o drama da divisão eclesial. Embora a Igreja seja apenas uma e subsista num único sujeito, também fora desse sujeito existem realidades eclesiais - verdadeiras Igrejas locais e diferentes comunidades eclesiais. Uma vez que o pecado é uma contradição, esta diferença entre subsistit e est não pode, em última instância, ser plenamente resolvida do ponto de vista lógico.
No paradoxo da diferença entre singularidade e concretitude da Igreja, por um lado, e existência de uma realidade eclesial fora do único sujeito, por outro, reflete-se a contraditoriedade do pecado humano, a contraditoriedade da divisão. Tal divisão é algo de totalmente outro em relação à dialética relativista acima descrita, na qual a divisão dos cristãos perde o seu aspecto doloroso e na realidade não é uma fratura, mas só o manifestar-se das múltiplas variações de um único tema, no qual todas as variações, de certo modo, têm razão e de certo modo não a têm. Na realidade, não existe então uma necessidade intrínseca da busca da unidade, pois na verdade de qualquer modo a única Igreja está em toda parte e em nenhum lugar. O cristianismo, portanto, na realidade existiria só na dialética correlação de variações contrapostas. O ecumenismo consiste no fato de que todos, por assim dizer, se reconhecem reciprocamente, pois todos seriam apenas fragmentos da realidade cristã. O ecumenismo seria, pois, a resignação a uma dialética relativista, pois o Jesus histórico pertence ao passado e a verdade permanece, de qualquer forma, oculta.
A perspectiva do Concílio é completamente diferente: que na Igreja católica esteja presente o subsistit do único sujeito Igreja, não é de fato mérito dos católicos, mas apenas obra de Deus, que Ele faz perdurar apesar do contínuo demérito dos sujeitos humanos. Estes não podem gabar-se disso, mas tão-somente admirar a fidelidade de Deus, envergonhando-se de seus próprios pecados e ao mesmo tempo cheios de gratidão. Mas pode-se ver o efeito de seus próprios pecados: todo o mundo vê o espetáculo das comunidades cristãs divididas e antagônicas, que reivindicam reciprocamente as suas pretensões à verdade e assim aparentemente tornam vã o rogo de Cristo às vésperas de sua paixão. Enquanto a divisão como realidade histórica é perceptível a todos, a subsistência da única Igreja na figura concreta da Igreja católica só pode ser percebida como tal na fé. Uma vez que o Concílio Vaticano II observou este paradoxo, justamente por isso proclamou como um dever o ecumenismo como busca da verdadeira unidade e o confiou à Igreja do futuro.
Chego à conclusão. Quem quer compreender a orientação da eclesiologia conciliar não pode deixar de lado os capítulos 4-7 da Constituição, nos quais se fala dos leigos, da vocação universal à santidade, dos religiosos e da orientação escatológica da Igreja. Nestes capítulos volta mais uma vez ao primeiro plano o objetivo intrínseco da Igreja, aquilo que é mais essencial à sua existência: trata-se pois da santidade, da conformidade a Deus - que no mundo haja espaço para Deus, que Ele possa nele habitar e assim o mundo se torne o seu "reino". A santidade é algo mais que uma qualidade moral. Ela é o habitar de Deus com os homens, dos homens com Deus, a "tenda" de Deus entre nós e em meio a nós (Jo 1, 14). Trata-se do novo nascimento - não da carne e do sangue, mas de Deus (Jo 1, 13). A orientação à santidade é idêntica à orientação escatológica, e de fato agora esta a partir da mensagem de Jesus é fundamental para a Igreja. A Igreja existe para que se torne morada de Deus no mundo e seja assim "santidade": por isso se deveria competir na Igreja, não por ter mais ou menos direitos de precedência, pela ocupação dos primeiros lugares. Tudo isto é em seguida mais uma vez retomado e sintetizado no último capítulo da Constituição sobre a Igreja, que trata da Mãe do Senhor.
À primeira vista a inserção da mariologia na eclesiologia efetuada pelo Concílio poderia parecer um tanto casual. É verdade do ponto de vista histórico que de fato uma maioria bastante pequena de padres decidiu por esta inserção. Mas de um ponto de vista mais interior, esta decisão corresponde perfeitamente à orientação do conjunto da Constituição: só se se compreende esta correlação se compreende corretamente a imagem da Igreja que o Concílio queria traçar. Nesta decisão foram aproveitadas as pesquisas de H. Rahner, A. Müller, R. Laurentin e Karl Delahaye, graças aos quais a mariologia e a eclesiologia foram ao mesmo tempo renovadas e aprofundadas. Sobretudo Hugo Rahner mostrou de modo grandioso, a partir das fontes, que toda a mariologia foi pensada e determinada pelos padres antes de tudo como eclesiologia: a Igreja é virgem e mãe, é concebida sem pecado e carrega o peso da história, sofre e no entanto já foi assunta ao céu. Muito lentamente se revela no decurso do desenvolvimento sucessivo que a Igreja é antecipada em Maria, em Maria é personificada e que, reciprocamente, Maria não está como um indivíduo isolado e fechado em si mesmo, mas traz em si todo o mistério da Igreja. A pessoa não é fechada de modo individualista, e a comunidade não é compreendida coletivisticamente de modo impessoal; ambas se superpõem uma à outra de modo inseparável. Isto já vale para a mulher do Apocalipse, tal como aparece no capítulo 12: não é correto limitar esta figura exclusivamente, de modo individualista, a Maria, porque nela é conjuntamente contemplado todo o povo de Deus, o antigo e o novo Israel, que sofre e no sofrimento é fecundo; mas tampouco é correto excluir dessa imagem Maria, a mãe do Redentor. Assim, na superposição entre pessoa e comunidade, como a encontramo neste texto, já é anticipado o entrelaçamento de Maria e Igreja, que em seguida foi lentamente desenvolvido na teologia dos Padres e finalmente retomado pelo Concílio. Que mais tarde ambas se tenham separado, que Maria tenha sido vista como um indivíduo cheio de privilégios e por isso infinitamente distante de nós, e a Igreja, por sua vez, de modo impessoal e puramente institucional, prejudicou igualmente tanto a mariologia quanto a eclesiologia. Operam aqui as divisões que o pensamento ocidental atuou particularmente e que, aliás, têm seus bons motivos. Mas se quisermos compreender corretamente a Igreja e Maria, devemos saber retornar a antes dessas divisões, para compreender a natureza supra-individual da pessoa e sipra-institucional da comunidade justamente ali onde pessoa e comunidade são reconduzidas às suas origens a partir da força do Senhor, do novo Adão. A perspectiva mariana da Igreja e a perspectiva eclesial, histórico-salvífica de Maria nos reconduzem em última instância a Cristo e ao Deus trinitário, porque aqui se manifesta o que significa santidade, o que é a morada de Deus no homem e no mundo, o que devemos entender por tensão "escatológica" da Igreja. Só assim o capítulo de Maria dá acabamento à eclesiologia conciliar e nos leva de volta ao seu ponto de partida cristológico e trinitário.
Para dar uma amostra da teologia dos Padres, gostaria, para concluir, de propor um texto de santo Ambrósio, escolhido por Hugo Rahner: "Assim, pois, estai firmes no terreno do vosso coração!... O que significa estar, o apóstolo nos ensinou, Moisés o escreveu: "O lugar em que estás é terra santa". Ninguém está, senão aquele que está firme na fé... e mais uma palavra está escrita: "Tu, porém, está firme comigo". Tu estás firme comigo se estás na Igreja. A Igreja é a terra santa, na qual devemos estar... Está pois firme, e na Igreja. Está firme ali, onde eu quero aparecer a ti, ali permaneço junto a ti. Onde está a Igreja, lá é o lugar firme do teu coração. Sobre a Igreja se apóiam os fundamentos da tua alma. De fato, na Igreja eu te apareci como outrora na sarça ardente. A sarça és tu, eu sou o fogo. Fogo na sarça eu sou na tua carne. Fogo eu sou, para iluminar-te; para queimar as espinhas dos teus pecados, para dar-te o favor da minha graça".
© L'OSSERVATORE ROMANO Sábado, 4 de março de 2000

FORMAÇÃO PAROQUIAL: A IGREJA: CONCEITOS FUNDAMENTAIS


O termo grego ’ekklesía do qual deriva o termo latim ecclesia, que provém por sua vez, encontra-se na tradição bílblica da septuaginta com o termo qahal, que significa aviso de convocação e assembléia reunida. Foi introduzido na época do Deuteronômio, por volta do século VII a. C., com uma formulação significativa: dia da assembléia (Dt 4,10; 9,10), que Moisés pronunciava como lembranças do dia em que o Senhor lhe ordenara que convocasse o povo em assembléia para celebração da aliança.
O termo grego ’ekklesía pode ser entendido tanto em sentido ativo como passivo: como Igreja convocada e como congregação de fiéis. Ambas as definições encontram-se apoio na patrística, e se tornou clássica no Ocidente por via das reflexões de Santo Isadoro de Sevilha, que formulou a seguinte expressão: ecclesia convocans et congregans – convocação divina – ecclesia convocata et congregata – comunidade dos convocados. São Cipriano distinguia entre a ad ecclesiam matem et ad vestram fraternitatem (Igreja mãe e a Igreja fraterna).
Outras imagens exprimidas pela tradição também apresentam uma realidade muito clara da Igreja: a Ecclesia de Trinitate, cuja missão ministerial tem origem na mesma trindade, é ao tempo e sobre outro aspecto Ecclesia ex hominibus, como “Igreja terrena” que entra na história dos homens (cf. LG 8, 9). Trata-se de um duplo ministério de comunicação e de comunhão: graças a comunicação dos sacramentos, das coisas santas, a Igreja é comunhão dos santos. Daí o duplo significado da formula que explicita o que a Igreja é no credo, communio sanctorum, conforme se entende o segundo termo neutro como – coisas santas – ou masculino – os santos.
O Concílio Vaticano II dá uma resposta sobre se existe uma definição de Igreja quando, no cap. I da LG, afirma que ela é um mistério. O concílio descreveu de diversos modos a Igreja como povo de Deus, corpo místico de Cristo, Esposa de Cristo, templo do Espírito Santo, família de Deus. Essas definições se completam mutuamente e devem ser compreendidas à luz do mistério de Cristo e da Igreja em Cristo.

A Igreja como Sacramento.
De acordo com o Concílio Vaticano II a Igreja se define sacramento universal da Salvação (cf. LG 1, 48; SC 5, 26 GS 42, 45; AG 1, 45). Trata-se sem dúvida da mais significativa definição da Igreja, tendo-se em vista a própria história da incorporação desse conceito ao contexto conciliar.
Essa definição aparece nos textos conciliares primeiramente num contexto claramente cristológico. Jesus é o único mediador entre Deus e o homem, sobretudo mediante seu mistério pascal. A Igreja brotou do lado aperto de Cristo na Cruz (cf. SC 5; LG 3). E nesta linha de pensamento a Lumen Gentium é clara: “lumen Gentium cum sit Chistus” (sendo Cristo a luz dos povos LG 1) ou Cristo luz dos povos. É por isso que se diz que a Igreja é em Cristo, sacramento, quer dizer, sinal e instrumento da união com Deus e da unidade do gênero humano. Assim não é por acaso que em LG 9 se afirma que Cristo ressuscitado e glorificado, mediante o seu Espírito, transformou a Igreja em sacramento universal da salvação, e que continua a agir na sua Igreja por intermédio do Espírito Santo.
Tal definição ainda aparece num outro contexto: como expressão escatológica. Com efeito, o Reino de Deus se manifesta nas palavras, nas obras e, sobretudo, na presença pessoal de Cristo. É por isso que a Igreja, sendo “o Reino de Cristo já presente em mistério” (LG 3), representa “o germe e o início deste Reino aqui na terra” (LG 5), e é “este povo messiânico que, embora não abranja todos os homens e, por vezes, apareça como pequeno rebanho, é, para todo o gênero humano, germe firmíssimo de unidade, esperança e salvação” (LG 9).
Essa dupla perspectiva cristológica e escatológica, montra como o conceito de Igreja-sacramento não surge da teologia dos sacramentos elaborada no séc. XII e consagrada no Concílio de Trento, como a definição dos sete sacramentos. A fonte desse conceito, utilizado aqui analogicamente, deve ser buscada na teologia patrística, para a qual o termo latino sacramentum traduzia o conceito bíblico mysterium que, de acordo com o que vem explicado no próprio Vaticano II, não é algo incognossível e absurdo, mas na Bíblia é equivalente a uma realidade divina portadora de salvação.

Igreja como Comunhão.
Pouca a pouco foi se evidenciando o conceito eclesiológico do Vaticano II de Igreja de comunhão. Esse conceito tem um significado básico de comunhão com Deus, da qual se participa por meio da Palavra e dos sacramentos. Esse tipo de comunhão é que leva à comunhão dos cristãos entre si e se realiza concretamente na comunhão das igrejas locais fundadas mediante a Eucaristia. Chega-se assim ao termo técnico communio, conceito e realidade fundamental da Igreja antiga, muito apreciada pelas igrejas orientais (cf. LG, nata explicativa, n° 2).
Mas o nível eminentemente estrutural da communio foi definido no lócus theologicum, principal noção conciliar, a fórmula eclesiológica de LG 23ª que diz: “ E os bispos individualmente são o princípio visível e fundamento da unidade em suas Igrejas particulares, formadas à imagem da Igreja universal, nas quais e pelas quais existe a Igreja católica una e única”. Esse retorno à eclesiologia da communio do primeiro milênio por parte do concílio coexiste com a eclesiologia jurídica da unidade mais típica do segundo milênio e bem explicitada na expressão communio hierarchica (LG 22), com a qual se liga o ministério episcopal à Igreja universal, concretamente com o Papa e o colégio os bispos.
Para que essa imagem importante na Igreja, resgatada pelo concílio, não se tornasse uma realidade abstrata, e para garantir a justeza da comunhão e da hierarquia na Igreja o concílio propões como solução sublinhar que a eclesiologia de communio não poderia ser reduzida a meras questões organizacionais ou a problemas que concernem unicamente às questões de poder. Todavia, a eclesiologia de comunhão é também fundamento à ordem na Igreja e, sobretudo, para, uma correta relação entre unidade e pluriformidade na Igreja.

Igreja Povo de Deus.
O capítulo dedicado a hierarquia, faz com que se tornasse a mais significativa da nova concepção da Igreja no Vaticano II. Afinal, era preciso superar uma visão de Igreja eivada de hiererquismo, para se concentrar no seu objeto primário: todos os batizados que formam o povo de Deus. Este é, graças à sua origem transcendente Ícone da Trindade (cf. GL 4).
O claro fundamento da eclesiologia do povo de Deus na tradição veterotestamentária e sua relação com a categoria da aliança, que é o seu elo com o novo testamento, tornaram mais fácil o emprego desse conceito. Provavelmente é o conceito mais expressivo que fundamenta a Igreja no AT e em Israel. A Igreja é povo de Deus por que realiza a sua vocação universal a que era chamado Israel pelo seu Deus, o qual, sendo único, queria também ser o Deus de todos os homens.
Note-se, além disso, que, em se tratando de uma expressão mais ao alcance de todos em relação à de Corpo Místico e ao mesmo tempo mais abrangente do denso conceito de sacramento, tornou-se a marca da recepção mais popular da eclesiologia conciliar.

A Igreja como Corpo Místico.
A LG dedica a essa descrição um número inteiro e amplo, n° 7, e com razão, visto que essa expressão foi a mais difundida na eclesiologia católica a partir da encíclica Mystici Corporis de 1943, abrindo um novo campo para uma reflexão mais teológico-dogmática e não somente apologética sobre a Igreja. A Mystici Corporis acentua a estrutura humano-divina da Igreja, contra o perigo de um misticismo eclesiológico, sublinhando o seu caráter visível como instrumento do invisível.
A LG 3 utiliza o conceito de “Corpo de Cristo” num contexto eucarístico, ao passo que LG 7 trata diretamente da Igreja como “Corpo de Cristo”. Essa imagem ajuda a apresentar a Igreja não só como sociedade, mas como organismo vivo e hierarquicamente organizado, que envolve ao mesmo tempo todos os seus membros (hierarquia e fiéis). E há ainda uma clara referência a Cristo – de onde provém a imagem da Igreja esposa (LG 7) – que a leva a apontar uma eclesiologia cristológica e pneumatológica, que ajuda a ponderar de maneira justa as duas dimensões da Igreja: a visível e a invisível, justamente pela força que confere à imagem de organismo vivo que é o corpo.

A Igreja como tradição.
O Decreto Dei Verbum do Vaticano II refletindo sobre a imagem da Igreja como tradição viva afirma que a Igreja está como prolongamento da missão de Cristo. Ele situa inicialmente o mandamento de Cristo à Igreja apostólica no início do Evangelho, uma vez que Cristo Senhor, em quem se consuma toda a revelação do sumo Deus (2Cor 1,20; 3,16-4,6), ordenou aos apóstolos que o evangelho, prometido antes pelos profetas, completado por Ele e por Sua própria boca pronunciado, fosse por eles pregado a todos os homens como fonte de verdade salvífica, de toda disciplina e costumes, comunicando-lhes dons divinos (cf. DV 7).
Exprime-se aqui aquilo que poderemos chamar de princípio católico de tradição que se identifica com a Igreja: trata-se, com efeito, de todo um dinamismo da doutrina, culto e vida, expressão de fé que a Igreja mesma crê. A natureza própria da tradição viva da Igreja consiste precisamente na sua conaturalidade com a revelação, realizada mediante a Palavra e gestos intrinsecamente unidos (cf. DV 2).
A tradição viva tem em comum com a Escritura o constituir o princípio de comunidade e de identidade entre a Igreja católica e as gerações posteriores até o fim dos tempos. A partir disso a DV 10 enfatiza a relação existente entre tradição, Escritura e toda a Igreja: “ a Sagrada Tradição e a Sagrada Escritura constituem um só sagrado deposito da Palavra de Deus confiado à Igreja; apegando-se firmemente a ele, o povo santo todo, unidos a seus pastores, persevera continuamente na doutrina dos apóstolos e na comunhão, na fração do pão e nas orações (cf. At 2, 42). Trata-se de texto que leva a uma compreensão de unidade orgânica base principal da catolicidade e da tradição na Igreja católica.
O carisma de infalibilidade ao qual a Igreja é mergulhada está inserida na correta vivência desta imagem de tradição viva. Pois a tradição viva é expressão do conteúdo do deposito da revelação. Por isso, a fé na infalibilidade da Igreja inclui não só a fé, mas também toda regra, norma e ordenação moral, de acordo com a matizada expressão do Concílio de Trento retomada pelo Vaticano II: morum disciplina.
O exercício dessa infalibilidade por parte do romano pontífice e do corpo dos bispos em união com ele forma o que chamamos de “magistério supremo” – ou extraordinário – por meio de um “ato definitivo” (LG 25), tradução da expressão ex cathedra. Na esteira desta tradição viva o magistério ordinário, ao invés, que acompanha habitualmente essa tradição viva que é a Igreja, é um ensinamento que leva a uma melhor compreensão da revelação em matéria de fé e de costumes.
É evidente que a DV usa a Palavra tradição em dois sentidos: de um lado, para descrever o que não está escrito na Escritura e tem origem apostólica e, de outro, para exprimir todo o processo de transmissão viva da revelação através dos tempos. É este último sentido que podemos qualificar a Igreja como tradição viva.

Igreja como sociedade.
A Igreja do Vaticano II (LG, 8) é estruturada como sociedade visível ou grupo visível, ou ainda sociedade visível dotada de organismos hierárquicos (LG 14, 20, 23), Igreja terrena, estabelecida e estruturada neste mundo como uma sociedade. È São Berlarmino quem defende essa idéia de uma Igreja formada como sociedade visível e hierárquica, contra as ideias dos reformadores, que queriam fundar uma nova Igreja. Para São Berlamino existe uma só e única Igreja formada como sociedade orgânica e definida como grupo visível, com a mesma fé, com os mesmos sacramentos e mandamentos.
O conceito de Igreja como sociedade ajudou a formular e a fundamentar a teologia do direito eclesial, pois uma vez que a Igreja deveria ser sociedade visível para todos e o sacramento visível desta unidade salvífica, devendo estender-se a todas as regiões da terra, e entrar na história dos homens, necessitava de leis e estruturas que se adequassem a vida social e pudesse ser ponto normativo para todos.

Igreja como Instituição.
A reflexão atual sobre a instituição quer superar o risco de situar a Igreja como sendo algo meramente privado e fazer com que sua forma institucional social proteja a “liberdade concreta” de cada indivíduo.
Essa concepção sociológica pode ser aplicada a Igreja, embora se deva levar em conta seu sentido último e o conteúdo de sua atividade, uma vez que se trata de uma instituição que, sendo composta de homens – Ecclesia ex hominibus –, tem sua origem e fim em Deus – Ecclesia ex Trinitate. Por isso é importante que a instituição eclesial, como forma social concreta, atualize e medeie a salvação de Cristo para todos os homens. Enfim, como uma “complexa realidade” formada por um elemento divino e humano, e precisamente por isso, graças à sua estrutura análoga à encarnação de Jesus Cristo (cf. LG ,8), a Igreja se manifesta como sacramento universal da salvação (cf. LG 48), e esta é a sua razão de ser e o seu sentido.
Será conveniente evitar identificar a Igreja com a mera tarefa de conservação histórica, cujo risco é evidente. O papel da Igreja não pode ser reduzir a conservar historicamente a memória de Jesus, mas, identificando-se com ela, esta mesma Igreja se encarna em toda situação concreta diversa e mutável, fiel à sua identidade evangélica.
Por fim o aspecto da instituição ressalta a liberdade do Espírito. Com efeito, é libertadora por que exige de todos os fiéis, unidos à Igreja, buscarem juntos e não isolado a salvação. A Igreja como instituição exime a busca de uma salvação individualista e intimista. O amplo alcance da Igreja como instituição ressalta a importância do projeto coletivo e participativo da salvação. Essa força libertadora da instituição deve, por sua vez, torna-se visível uma possível participação dos crentes, de modo que cada um possa ser corresponsável por toda ela.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Homilia da missa da noite de natal (24/12/2010)


Hoje nasceu para vós o Salvador, que é o Cristo Senhor! Por isso a alegria da Igreja, por isso, a exultação! Abramos nosso coração, abramos nossa vida, nossos afetos, nossos sentimentos, nossos projetos para o mistério desta Noite. Por Ele os anjos cantam jubilosos, os coros dos santos exultam de alegria! Alegremo-no, pois nasceu o Deus-menino! Esta noite é de imensa alegria, como bem dizia, no século V, são Leão Magno, Papa de Roma: “Hoje, amados filhos, nasceu o nosso Salvador. Alegremo-nos! Não pode haver tristeza no dia em que nasce a vida; uma vida que, dissipando o temor da morte, enche-nos de alegria com a promessa da eternidade. Ninguém está excluído da participação nesta felicidade. Exulte o justo, porque se aproxima à vitória; rejubile o pecador, porque lhe é oferecido o perdão; reanime-se o pagão, porque é chamado à vida!” Nesta noite venturosa Deus se fez pequeno, visível aos nossos olhos. Ele quis nos mostrar a sua face e levar-nos ao seu amor.
Então, ouçamos as palavras do Papa são Leão; tomemos o seu apelo para esta Noite: “Toma consciência, ó cristão, da tua dignidade! Não voltes aos erros de antes por um comportamento indigno de tua condição. Lembra de que cabeça e de que corpo és membro. Despojemo-nos, portanto, do velho homem com seus atos; e tendo sido admitidos a participar do nascimento de Cristo, renunciemos às obras da carne!” Esta noite nos chama à vida nova. Cristo quer ser luz em sua vida, esperança em suas dores e salvação em sua cruz.
Neste momento em que o criador se faz criatura, o sermões de Santo Agostinho, nos oferece o teor desta neite de natal: “Expergiscere, homo: quia pro te Deus factus est homo” - “Desperta, ó homem, porque por ti Deus se fez homem!" E o santo Bispo de Hipona continuava: "Desperta, tu que dormes, levanta-te dentre os mortos e sobre ti Cristo resplandecerá! Por tua causa, repito, Deus se fez homem. Estarias morto para sempre, se ele não tivesse nascido no tempo. Jamais te leberarias da carne do pecado, se ele não tivesse assumido uma carne semelhante à do pecado. Estarias condenado a uma eterna miséria, se não fosse a sua misericórdia. Não voltarias à vida, se ele não tivesse vindo ao encontro da tua morte. Terias perecido, se ele não te socorresse. Estarias perdido, se ele não viesse salvar-te". Caríssimos, tomemos consciência de tão grande graça! No Menino que repousa no presépio foi-nos dada a força para sair do sono miserável de uma vida medíocre e vazia, de uma existência morna e sem sentido. Desperta, ó cristão, porque hoje brilhou para ti a luz! Por ti, o Filho eterno fez-se um de ti! Eis a maoir prova de amor de Deus por nós. Como canta a liturgia no missal Gótico da noite de natal: “Aquele que deu forma a todas as coisas recebe a forma de escravo; Aquele que era Deus é gerado na carne; eis que ele é envolvido em panos, Aquele que era adorado no firmamento; e eis que repousa numa manjedoura Aquele que reinava no céu” (Missal Gótico, Missa do Natal).
Por tudo isso, saíamos daqui felizes e cheios de esperança porque nasceu-nos hoje um menino de Deus que veio trazer a salvação! Feliz natal para todos, Amém!

sábado, 25 de setembro de 2010

XXVI Domingo do Tempo Comum (Ano C)

O egoismo do rico e a humildade de Lazaro!
No Evangelho de hoje, Jesus continua o tema de domingo passado, quando nos conclamou a fazer amigos com o dinheiro injusto. Aqui se encontra o pecado do rico do Evangelho de hoje: não fez amigos com suas riquezas. Se tivesse aberto o coração para Lázaro, teria um amigo a recebê-lo no céu! É importante notar que esse rico não roubou, não ganhou seu dinheiro matando ou fazendo mal aos outros. Seu pecado foi unicamente viver somente para si: “se vestia com roupas finas e elegantes e fazia festas esplêndidas todos os dias”. Ele foi incapaz de enxergar o “pobre, chamado Lázaro, cheio de feridas, que estava no chão”, à sua porta. “Ele queria matar a fome com as sobras que caíam da mesa do rico. E, além disso, vinham os cachorros lamber suas feridas”. O rico nunca se incomodou com aquele pobre, nunca perguntou o seu nome, nunca procurou saber sua história, nunca abriu a mão para ajudá-lo, nunca deu-lhe um pouco de seu tempo. O rico jamais pensou que aquele pobre, cujo nome ninguém importante conhecia, era conhecido e amado por Deus. Não deixa de ser impressionante que Jesus chama o miserável pelo nome, mas ignora o nome do rico! É que o Senhor se inclina para o pobre, mas olha o rico de longe! Afinal, os pensamentos de Deus não são os nossos pensamentos
É importante notar que o homem rico não está contra Deus nem oprime o pobre! Apenas está cego para as necessidades alheias. O seu pecado foi não ter visto Lázaro, a quem poderia ter feito feliz com um pouco menos de egoísmo e um pouco mais de despreocupação pelas suas próprias coisas. Não utilizou os bens conforme o querer de Deus. Não soube compartilhar. Santo Agostinho comenta: “Não foi a pobreza que conduziu Lázaro ao Céu, mas a sua humildade; nem foram as riquezas que impediram o rico de entrar no descanso eterno, mas o seu egoísmo e a sua infidelidade.”
O egoísmo, que muitas vezes se concretiza na ânsia de usufruir sem medida os bens materiais, leva a tratar as pessoas como coisas; como coisas sem valor. Pensemos hoje que todos temos ao nosso redor pessoas necessitadas, como Lázaro. E não esqueçamos que os bens que recebemos para administrar generosamente são também o afeto, a amizade, a compreensão, a cordialidade, as palavras de ânimo…
Nosso Senhor não questiona a riqueza, mas o uso que fazemos dela. Isso porque do uso que fazemos dos bens que Deus depositou nas nossas mãos depende a nossa vida eterna. Estamos num tempo de merecer! Por isso, o Senhor nos dirá: “É melhor dar do que receber” (At 20, 25). Ganhamos mais dando do que recebendo: ganhamos o Céu! A caridade é sempre realização do Reino dos Céus e é a única bagagem que restará neste mundo que passa. E devemos estar atentos, pois Lázaro pode estar no nosso próprio lar, no escritório ou na oficina em que trabalhamos.
Pela caridade somos impelidos a transformar as estruturas injustas de nossa sociedade. “Não vos conformeis com este mundo…” (Rm 12, 2). Quando se vive com o coração posto nos bens materiais, as necessidades dos outros escapam-nos; é como se não existissem. Como diz Santo Agostinho: O rico da parábola “foi condenado porque nem sequer percebeu a presença de Lázaro, da pessoa que se sentava à sua porta e desejava alimentar-se das migalhas que caíam da sua mesa.”

sábado, 11 de setembro de 2010

Homilia do XXIV Domingo do Tempo Comum (Ano C)

Homilia do XXIV Domingo do Tempo Comum (Ano C)
O amor de Deus para com os homens é tão gratuito que não podemos pretender ter direito a ele; é tão absoluto que jamais podemos dizer que nos falta. O contrário disso é o amor humano limitado e muitas vezes fechado pelo egoísmo. Na liturgia de hoje, Deus quer nos demonstrar que é possível amor livremente. O caminho para tal é a intimidade com Ele. Deus nos quer seu íntimo, ele não deseja meros cumpridores de prescrições mortas, não basta cumprir ordens, como no caso do filho mais velho da parábola de Lucas, é necessário alegra-se com o senhor, sentir-se herdeiro das graças divinas. Por isso, alerta-nos São Cipriano: “Deus não aceita o sacrifício dos que fomentam a desunião; ele ordena que se afastem do altar para primeiro se reconciliarem com seus irmãos: Deus quer ser pacificado com orações de paz. Para Deus a mais bela obrigação é nossa paz...”
O caminho da paz passa necessariamente pela misericórdia e a reconciliação com Deus. é neste sentido que as leituras de hoje tomam sentido. Por que Jesus contou essas parábolas que hoje escutamos? Porque “os publicanos e pecadores aproximavam-se dele para o escutar. Os fariseus, porém, e os escribas criticavam Jesus: ‘Este homem acolhe os pecadores e faz refeição com eles’.” Aqui está: Jesus era um fio de esperança para aqueles considerados perdidos, metidos no pecado, sem jeito nem solução… Os publicanos, as prostitutas, os ignorantes, os pequenos e desprezados, gente sem preparo e sem cultura teológica… estavam aproximando-se de Jesus para escutá-lo; viam nele a ternura e a misericórdia de Deus. Os escribas e fariseus – homens praticantes e doutores da Lei – criticavam Jesus por isso. Ele se misturava com os impuros, ele acolhia os incultos e os pecadores. Pois bem, foi para esses doutores que Jesus contou as parábolas, para mostrar-lhes que o coração do Pai é ternura, é amor, é vida, e é misericórdia infinita
O Pai se alegra, porque Jesus, o Bom Pastor, era capaz de deixar noventa e nove ovelhas para ir atrás daquela que se perdera totalmente, até encontrá-la! O convite que Jesus estava fazendo aos escribas e fariseus era claro: “Alegrai-vos comigo! Encontrei a minha ovelha que estava perdida!” Alegrai-vos, porque o coração do Pai está feliz: ele não quer a morte do pecador, mas que ele se converta e tenha a vida! O Deus que Jesus nos revela, o Deus a quem ele chamava de Pai é assim: bom, compassivo, misericordioso, preocupado conosco e com cada um de nós. Ele somente é glorificado quando estamos de pé, quando estamos bem, quando somos felizes. Mas, não há felicidade verdadeira para nós, a não ser juntinho dele, que é o Pai de Jesus e nosso Pai. É isso que Jesus inculca com a terceira parábola, a mais bela de todos: o Pai e os dois filhos.
“Um homem tinha dois filhos”. Este homem é o Pai do céu. “O filho mais novo disse ao pai: ‘Dá-me a parte da herança que me cabe’”. Esse moço quer ser feliz, deseja ser livre… e imagina que somente vai sê-lo longe do olhar do pai. Assim, sem juízo, como que mata o pai, pedindo-lhe logo a herança. “e partiu para um lugar distante”. Quanto mais longe do pai, melhor, mais livre. E aí dissipa tudo, numa terra pagã, longe do pai, longe de Deus. E termina na miséria, tendo esbanjado a vida, a felicidade, o futuro, o amor e o sexo… Vai pedir trabalho e dão-lhe o mais vergonhoso para um judeu: cuidar de porcos, animais impuros. E ele queria comer a lavagem dos porcos e não lha davam! Em que deu o sonho de autonomia, de liberdade, de felicidade longe do pai! Tudo não passara de ilusão! Mas, apesar de louco, o jovem era sincero: caiu em si, reconheceu que pecou. Não colocou a culpa no pai, nos outros, no mundo, no destino. Reconheceu-se culpado e recordou e confiou no amor do pai: “Vou voltar para meu pai e dizer-lhe: Pai, pequei contra o céu e contra ti!” E volta! O jovem era corajoso, generoso, era sincero! O que ele não sabia é o pai nunca o esquecera; esperava-o todos os dias, olhando ao longo do caminho. De longe o avistou e o reconheceu, apesar da miséria e da fome e das roupas maltrapilhas. E, cheio de compaixão – como o coração do Pai de Jesus – correu ao encontro do filho, cobriu-o de beijos e de vida, e restituiu-lhe a dignidade de filho. E deu uma festa! O Pai é assim: não quer ninguém fora de sua casa, de seu coração, da festa do seu amor, do banquete de sua eucaristia! Mas, havia ainda o filho mais velho. Este, como os escribas e os fariseus, jamais havia desobedecido ao pai; cumprira todos os seus preceitos. Por isso, ficou com raiva e não quis entrar na festa do pai: “O pai, saindo, insistia com ele…” Notem que o mesmo pai que saíra ao encontro do mais novo, saiu agora ao encontro do mais velho, que estava perdido no seu egoísmo, na sua raiva, fora da festa e do aconchego do pai! E o mais velho passou-lhe na cara: “Eu trabalho para ti há tantos anos… e tu nunca me deste um cabrito para eu festejar com meus amigos…” O pai respondeu: “Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu…” É que aquele filho nunca amara o pai de verdade: cumpria tudo, de tudo fazia conta… e, um dia, iria pedir o pagamento, a recompensa por tudo… Por isso nunca se sentiu íntimo do pai, por isso não sentia que tudo quanto era do pai era dele também! Pode-se estar junto do pai e nunca o conhecê-lo de verdade!
Percebe-se pelo teor da mensagem da parábola que o central destas parábolas é o próprio Deus (que é PAI), que lança mão de todos os meios para recuperar os seus filhos feridos pelo pecado. “No seu grande amor pela humanidade, Deus vai atrás do homem, escreve Clemente de Alexandria, como a mãe voa sobre o passarinho quando este cai do ninho; e se a serpente começa a devorá-lo, esvoaça gemendo sobre os seus filhotes (Dt 32, 11). Assim Deus busca paternalmente a criatura, cura-a da sua queda, persegue a besta selvagem e recolhe o filho, animando-o a voltar, a voar para o ninho.”
Deus não quer perder-nos para satanás e por isso faz tudo que pode para nos salvar. Na parábola vimos que o pecado, tão detalhadamente descrito, consiste na rebelião contra Deus, ou ao menos no esquecimento ou indiferença para com Ele e para com o seu amor, no desejo tolo de viver fora do amparo de Deus, de emigrar para uma terra distante, longe da casa paterna. Como se passa mal quando se está longe de Deus! “Onde se passará bem sem Cristo – pergunta Santo Agostinho -, ou quando se poderá passar mal com Ele?”
Assim, a liturgia deste domingo chama-nos atenção para a beleza do sacramento da Reconciliação (confissão). Na Confissão, através do sacerdote, o Senhor devolve-nos tudo o que perdemos por culpa própria: a graça e a dignidade de filhos de Deus. Cumula-nos da sua graça e, se o arrependimento é profundo, coloca-nos num lugar mais alto do que aquele em que estávamos anteriormente.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

LIDERANÇA E AUTO-ESTIMA


1. LIDERANÇA E PODER


É com desejo de muita luta coragem e determinação que eu inicio essa temática, a qual vou desenvolver em doze capítulos. Espero ajudar na reflexão de algo tão essencial na vida de quem exerce qualquer função, na família, no trabalho, na escola, no grupo de amigos. O que é ser líder? Qual a diferença entre poder e liderança? Todos tem condições de liderar, ou isso é privilégio de algumas ‘estrelas’? Existem princípios de liderança? Caráter tem alguma coisa a ver com esse tema? A ética circula nesse meio? Enfim, vou procurar aprofundar tudo isso e um pouco mais, com o objetivo de ajudá-lo na sua função diária.
Nada melhor do que iniciar essa reflexão, desejando a todos muita liderança em seus empreendimentos e negócios, tanto familiares como profissionais. Trago presente um texto de Bob Dylan, tirado de uma música sua que diz, “escreva sua vida com as suas próprias mãos”, e mais “o importante é você crer no grande líder que existe dentro de você”, para afirmar desde o começo que todos nós podemos desenvolver a arte da liderança. Não é privilégio de alguns, mas possibilidade para todos.
Como diz a música, o importante é escrever a história com as próprias mãos, e não dependendo exclusivamente das mãos dos outros. Liderar é acreditar em si mesmo em primeiro lugar, pois a força está dentro de cada um. Ela pode ser despertada pelos outros, motivada pela presença alheia, mas é algo intrínseco, interno, exclusivo de cada um.
Um dos livros que mexeu comigo a partir do seu título, e que me motivou a lê-lo, apesar das suas mais de 500 páginas, se intitula: “Desperte o seu gigante interior”. É um título forte, decisivo, e que joga a responsabilidade para cada um. O gigante está dentro de mim, de você, mas é fundamental encontrar um meio de despertá-lo. Há muitos gigantes adormecidos, paralisados, imobilizados, precisando de um chacoalhão, de um movimento forte e determinado para sair do marasmo e entrar em ação.
Comprometa-se com o melhor que existe dentro de você, buscando meios para que isso se torne realidade. Diz um velho ditado, que se o elefante tivesse consciência da sua força, não se deixaria dominar. Eu diria o mesmo para cada ser humano, ou seja, se tivesse a consciência da força interior, não se deixaria dominar e ser levado pelos outros. Assumiria a sua própria história, o seu protagonismo, dando uma resposta pessoal e autêntica em todos os momentos e situações da sua vida. Infelizmente, essa força interior, esse gigante anda muito frágil na maioria das pessoas. É como se a galinha do vizinho fosse melhor, ou dito em outras palavras, parece que o outro não tem os problemas que eu tenho; foi sempre privilegiado e assim por diante, recebeu mais oportunidades, e a pessoa então permanece parada, ‘esperando’ que a sua sorte mude.
As coisas podem ser bem melhores, com toda certeza, mas para que isso aconteça, a sua participação torna-se fundamental. Ninguém poderá fazer aquilo que lhe compete, e nem fazer crescer em você aquilo que é de sua exclusiva competência.
Depois dessa breve introdução motivacional, onde desejo que cada um entenda a sua decisiva colaboração no desenvolvimento da sua liderança, vou iniciar esse nosso papo de 12 capítulos, apresentando uma diferença essencial entre poder e liderança. Espero que vocês tenham calmas e aguardem o próximo capítulo, a fim de darmos uma seqüência lógica à nossa reflexão. Começo, portanto, com essa fundamental diferença.
O poder é uma faculdade de forçar ou coagir alguém a fazer sua vontade, por causa da posição e força, mesmo que a pessoa preferisse não o fazer.
Age pelo poder quem tem um cargo acima de tudo, e por causa dele, utiliza a forma coercitiva de obrigar o outro a seguir aquilo que ele quer. O outro não tem direito de reagir, de opinar, mas simplesmente cumprir a tarefa que o chefe lhe impõe.
Existem muitas formas de usar o poder, mas todas elas são manipuladoras, pois o outro age desse ou daquele modo, movido, sobretudo pelo medo. O medo do chefe o paralisa interiormente, destruindo nele toda a capacidade de criar, de renovar, de discordar, de opinar, de expor aquilo que pensa, de ser autêntico e assim por diante. Nega-se a si mesmo, para obter os favores daquele que lhe comanda.
Agindo assim, o subordinado se vê limitado, silencioso, simplesmente buscando agradar as exigências do seu senhor. Morre por dentro para os seus pensamentos e as suas convicções, anulando sua força interior e se sujeitando às vontades do outro.
O chefe também não avança interiormente, pois se coloca na posição de quem sabe tudo, de quem não precisa de ajuda, de quem nunca erra de quem nunca pergunta, mas simplesmente manda e impõe. A sua verdade é sempre absoluta e digna de ser seguida, sem questionamentos ou dúvidas. Se porventura o subordinado se insurgir, ele encontra meios de abafá-lo com ameaças, elevação de tom de voz, perseguições e tantos outros meios ilícitos utilizados por causa do poder que detém.
Conhecemos na história tantos ditadores, carrascos, expositores, destruidores de consciências e manipuladores. Certamente não podemos aprovar esse jeito de ser, porque ele é altamente anti-evangélico e desumano. Quem age assim faz do outro uma coisa manipulável, um objeto a ser jogado de um lado para o outro, com frieza e total soberba.
O poder está em todos os setores profissionais, e tantas vezes em nossas igrejas, seminários, de modo arbitrário e animalesco. Não posso concordar com essa atitude, pois ela descaracteriza a essência do ser humano, a sua liberdade e o seu direito inalienável de escolha.
A liderança, pelo contrário, é uma habilidade de influenciar pessoas para trabalharem entusiasticamente visando atingir objetivos identificados como sendo para o bem comum. Não é imposição, e não é movida pelo medo, mas é uma proposta, a partir de alguém que a vive com muito entusiasmo. Esse entusiasmo contagia as pessoas que estão sob a sua liderança, e faz com que se identifiquem com o projeto apresentado. Mas existe muito respeito pelo outro, pela sua lentidão em entender a proposta, e sobretudo, confiança na possibilidade do outro crescer e evoluir.
O líder mexe, transforma, arrasta pessoas para o mesmo projeto, porque vive em primeiro lugar aquilo que apresenta. Ele é modelo daquilo que propõe como o caminho. Jesus foi o maior líder da história, porque tudo aquilo que ele pregava e anunciava como o certo, como a vontade de Deus, ele vivia em primeira pessoa. Isso encantava as multidões, e fazia com que um número sempre maior de seguidores estivesse ao seu redor. Era vibrante, entusiasta, contagiante, um líder como nunca se viu e se virá na história.
Esse seu jeito de ser autêntico, coerente, fez com que muitos exclamassem: ”ele fala com quem tem autoridade e não como os fariseus”. Só quem vive em primeira pessoa aquilo que prega como verdadeiro fala com autoridade, sem impor medo, castração, revolta, submissão ou qualquer tipo de diminuição do outro. E Jesus, como líder, sempre em seus gestos e palavras fez levantar o caído, encorajar o desanimado, fortalecer o fragilizado, devolvendo a dignidade a todo ser humano.
Portanto, liderança e poder são totalmente opostos. Um conduz para a vida, é o caso do líder; outro conduz para a morte, é o caso do poderoso. Você também pode fazer a escolha entre ser líder ou dominador; mandar ou servir; acreditar ou duvidar.

2. SER LIDER É MUDAR O COMPORTAMENTO

Iniciamos nossa reflexão sobre a liderança. Fizemos um breve apanhado sobre aquilo que vamos refletir. Nosso primeiro encontro procurou dar algumas pinceladas sobre a diferença entre poder e liderança. Continuaremos discorrendo sobre o mesmo tema nesse segundo texto, a fim de clarearmos algo que requer uma definição mais precisa e concreta.
Poder é uma faculdade. Faculdade significa algo que eu recebo por causa da posição, da força, do cargo que ocupo. Isso me faculta a agir desse modo, porque meu cargo me coloca acima dos outros. É no fundo agir pelo papel que exerço, e não por aquilo que sou. Visto a máscara da minha função, e ajo ancorado nessa proteção externa. Ela não me obriga uma mudança interior, pois no fundo eu sou um cumpridor de ordens, o comandante, e os comandados são obrigados a seguir as minhas indicações. Caso eles não obedeçam, podem sofrer sanções, ameaças e até expulsões.
Quem age a partir do poder, desconhece os sentimentos dos seus subordinados. Seu modo de agir é frio, autoritário e diretivo. Despreza aquilo que se passa com o outro, pois o seu objetivo é o resultado final. No caso da empresa, o que conta é o lucro, mesmo que isso cause uma série de danos morais e físicos ao funcionário. O outro acaba valendo pelo que produz, e não por aquilo que é.
Aqueles que agem pelo poder recorrem a questões externas, tais como documentos, papéis, para justificar a sua ação. No caso da Igreja, seria usar o seu cargo de pároco para manipular, ou de coordenador para mandar, afirmando que age assim porque recebeu mandato de uma instância superior. O seu pensamento e suas justificativas até são bem lógicas, mas desumanas.
Esse estilo autoritário, mesmo se pode ser realizado facilmente porque baseado em normas, ordens e punições, é avaliado como não educativo pelas conseqüências que provoca nas pessoas. Reforça os mecanismos de defesa, constrições, falta de motivações primárias.
Além disso, gera insegurança nos liderados, medo, comodismo, falta de criatividade, passividade, desequilíbrio, fechamento, mentira, ou então, comportamentos de oposição, tais como a rebeldia, a vingança, a revolta, ou em muitos casos, a violência.
Mudar um comportamento autoritário, porque movido pelo poder que lhe foi concedido, não é nada fácil. Muitos generais da ditadura, depois que perderam o poder, simplesmente não sabiam mais o que fazer. Continuaram mandando, sem que tivesse alguém para obedecê-los e seguí-los. Viraram pessoas totalmente perdidas, com sérios problemas psicológicos.
Mudar exige um olhar para dentro de si mesmo, e reconhecer suas imperfeições, suas falhas, suas lacunas, e colocar-se numa atitude de busca e de transformação. E isso requer descer do topo, coisa nem sempre fácil para quem aprendeu a mandar, a dominar e a coagir os outros a seguir quase que cegamente suas orientações.
Jesus criticou fortemente os fariseus porque eles agiam a partir do poder que lhes era concedido pelos conhecimentos e cargos que possuíam. Eles facilmente julgavam os outros, mas eram incapazes de perceber os seus erros e pecados. Isso porque quem age pelo poder não olha para dentro de si mesmo, mas está sempre preocupado em perceber os erros dos outros e apontá-los imediatamente. Coloca-se numa atitude de mestre que sabe tudo, e não na atitude de discípulo que quer aprender através do treino e da disciplina.
Em nossas comunidades existe o grande perigo das lideranças agirem pelo poder, sobretudo aquelas que já estão no cargo há muito tempo. Por isso, é saudável mudar, renovar, a fim de ter idéias novas e mudanças no agir cristão. Quem se coloca na posição de insubstituível, é porque está claramente acomodado, julgando-se o perfeito, como se sem ele o trabalho pastoral iria desmoronar. Não mudam, e não permitem que pessoas novas, com idéias novas e renovadoras assumam em seus lugares. São os caciques das comunidades, donos do ‘campinho’. Se alguém ousar mexê-los, sentem-se profundamente magoados, incompreendidos e injustiçados. Como é difícil lidar com pessoas desse jeito!
Liderança é uma habilidade, isto é, uma capacidade aprendida ou adquirida por meio da educação e da aplicação. Precisa muita motivação, treino e disciplina. É uma questão de aprendizagem contínua, pois o verdadeiro líder nunca se sente pronto, mas está sempre em processo de crescimento. O verdadeiro líder aprende sempre, pois se percebe limitado e necessitado de mudança em muitos aspectos.
Liderar significa conquistar as pessoas, envolvê-las de forma que coloquem seu coração, mente, espírito, criatividade e excelência a serviço de um objetivo. É preciso fazer com que se empenhem ao máximo na missão, dando tudo pelo aquele. Você não gerencia pessoas. Você lidera pessoas,
Liderança é um processo de influenciar pessoas e fazer com que contribuam com entusiasmo e se tornem os melhores que são capazes de ser.
Liderança é uma questão de caráter. Para um mesmo estímulo, uma resposta diferente. A vida não é tanto o que nos acontece, mas a maneira como reagimos diante do que nos acontece. Entre o estímulo e a reação existe o caráter – considerando que este reflita nosso empenho em fazer o que é certo, ignorando impulsos ou caprichos.
O primeiro dever de qualquer líder é criar mais líderes. Aqueles que são servidos crescem como pessoas? Tornam-se mais saudáveis, sensatos, livres e autônomos? O líder sempre deixa sua marca. A liderança passa a responder às pessoas que lidera, identificar e responder suas necessidades legítimas que possam se tornar mais eficazes na realização da sua missão.
A liderança exige habilidades específicas, como a paciência e a confiança de que os frutos virão. É preciso estimular as pessoas do “pescoço para cima”. O que significa isso?
O verdadeiro líder estimula seus liderados a pensar, analisar, discernir, refletir e tomar decisões. Estimula a sua mente, motor essencial no crescimento e desenvolvimento saudável da pessoa a qual serve.
Só porque uma pessoa é muito competente não significa que seja capaz de inspirar ou influenciar os outros a também fazerem bem o seu trabalho. É preciso desenvolver uma nova maneira de pensar e um novo conjunto de habilidades. Diz Einstein: “não se pode alcançar um novo objetivo pela aplicação do mesmo nível de pensamento que o levou ao ponto em que se encontra hoje”.
O líder é alguém que se coloca em processo contínuo, em movimento, como o primeiro que deve mudar, melhorar e evoluir. Por isso, ele é modelo para os seus seguidores, não por aquilo que diz, mas por aquilo que faz, e sobretudo, por aquilo que ele é. Como líderes, precisamos refletir sobre o impacto que causamos na vida de outras pessoas e a responsabilidade inerente a essa posição de confiança. Liderança é uma profunda interferência na vida de outras pessoas, e por isso requer coerência, respeito profundo na relação com o outro.
Por fim, a liderança é uma habilidade que deve ser adquirida. Os líderes são feitos, em vez de nascerem líderes.
Se o seu jeito de agir é pautado no poder, mas você percebe que isso está machucando e impondo medo nos outros, e você não quer mais agir assim, a boa notícia é que você pode mudar e ser diferente. Vai exigir de você, em primeiro lugar o desejo de mudar, muita humildade e disciplina.

3. LIDERAR É SERVIR

Já refletimos sobre a questão da faculdade e da habilidade, ou seja, a primeira nos remete a um cargo que nos foi concedido, e a segunda reflete aquilo que somos na essência, e o nosso agir reflete o nosso ser. O líder é, enquanto que aquele que age pelo poder representa. Até aí espero que esteja tudo claro. Vamos então continuar aprofundando aquilo que diferencia a liderança do poder.
O líder é aquele que serve por excelência, e não mede esforços em oferecer o seu melhor. A palavra serviço é a chave da sua ação, mesmo que para isso necessite deixar de lado uma série de prioridades pessoais. O outro está em primeiro lugar na escala de importância. Isso não quer dizer que ele se descuide de si mesmo. Muito pelo contrário, ele tem a consciência de que todo o seu viver, existir e passar por esse mundo tem uma única finalidade, um único objetivo: servir os irmãos. E para tanto, sabe priorizar o seu tempo, cuidando do seu interior, sabendo dosar suas energias, sem se perder num emaranhado de coisas. Ele sabe que para oferecer o melhor, é fundamental estar bem. Ninguém pode ajudar alguém em sua problemática, se está numa situação deprimente. Como diz aquele velho ditado, “um cego não pode dirigir outro cego, pois os dois vão parar num precipício”.
O serviço está intrinsecamente ligado ao sacrifício, feito com amor. Um sacrifício que exige renúncia do seu tempo em prol das necessidades dos outros. Não um sofrimento estéril, vazio, quase que forçado e feito sem gosto e vibração. Mas um doar-se com alegria, porque em vista do crescimento alheio. Tudo aquilo que é feito como peso, como tremendamente difícil e complicado, não alivia o sofrimento do outro.
A mãe que se sacrifica pelo seu filho demonstra o grande amor por ele, e não mede esforços para oferecer o melhor em vista do seu crescimento. Mas se ela se sacrificar com raiva, com peso, certamente não estará sendo uma boa mãe. Assim também alguém que trabalha na comunidade e dedica o seu tempo em prol da mesma, mas o faz com tristeza, com rancor, como peso, não estará sendo um bom líder.
O sacrifício deve ser feito com amor. É o que Jesus fez por nós. Ele foi o maior líder da história, e passou por esse mundo fazendo o bem. Sua máxima demonstra a razão da sua passagem por esse mundo, ou seja, “eu não vim para ser servido, mas para servir”. Esse foi o testamento que ele nos deixou na quinta-feira santa quando lavou os pés dos seus discípulos, e pediu que eles fizessem o mesmo. Lavar os pés dos outros e servir a partir das suas necessidades, mesmo que isso exija uma renúncia das suas próprias necessidades. E Jesus serviu com alegria. O seu sacrifício na cruz espelhou o grande amor pela humanidade. Quem ama se sacrifica pelo outro, através do serviço alegre e pleno.
Portanto, o papel essencial do líder é servir. Quem pensa em pensa em primeiro lugar e acima de tudo em si mesmo demonstra o seu egoísmo, o seu egocentrismo e jamais poderá liderar um grupo. O narcisismo está longe da liderança, pois se afoga no “eu primeiro”, e se sobrar tempo, o que nunca acontece, dou tempo ao outro. Um serviço de qualidade, oferecendo o melhor de si mesmo.
Um bom servidor sabe que precisa melhorar todos os dias da sua vida. Não pode se der por satisfeito, achando que já está pronto. O seu desejo é de contínua mudança, revendo, reavaliando e mudando se necessário for o seu comportamento. É alguém que tem sede de novos conhecimentos, novas experiências e não mede esforços para estar atualizado.
Na comunidade o verdadeiro líder promove cursos, treinamentos, investe na formação dos seus liderados. Sabe que a verdadeira mudança acontece “da cabeça para cima”. Quando as pessoas pensam, refletem e analisam os seus atos, certamente buscam através desse processo uma transformação sempre gradual e constante. O líder se realiza na medida em que os seus liderados avançam para águas mais profundas, e se colocam nessa dinâmica de busca. Age assim, porque também ele está sempre atrás de novos conhecimentos, numa sede que não tem limites. Mesmo aos 80 anos se sente um eterno aprendiz.
Aprendiz é palavra que melhor define um líder. E como aprendiz eterno e insatisfeito sabe motivar nos liderados esse gosto pelo novo, pelo ainda não. Quem não se coloca na dinâmica da busca não pode motivar os outros a serem diferentes. Nunca podemos esquecer que o líder age por aquilo que é e não pelo cargo que ostenta e representa. Se eu quero que os meus liderados leiam mais, é imprescindível que eu demonstre através do meu comportamento o gosto pela leitura. Se eu quero que os meus liderados sejam mais pacientes, é lógico que devo manifestar no meu agir cotidiano essa mesma paciência.
Aprender para oferecer o melhor. O líder servidor sabe que deve se qualificar constantemente. Jesus o maior líder da história da humanidade foi alguém altamente qualificado, a ponto de discutir com os doutores da lei quando tinha apenas 12 anos. Buscar qualidade é se empenhar na melhoria pessoal, numa atitude de quem tem plena consciência do tanto que ainda precisa aprender. E pode aprender com os próprios liderados. Na convivência com eles percebe seus inconvenientes, as suas contradições, os seus pontos fracos e procura corrigi-los. Não nega e nem justifica suas atitudes porque é o primeiro em tudo, e também na correção pessoal.
Um grande guru, conhecido por sua enorme liderança foi chamado um dia por um casal para ajudar o seu filho a superar um grande defeito: parar de chupar balas. Os pais já tinham feito de tudo, mas o filho não desistia dessa sua fraqueza a ponto de não comer nada sólido. Isso estava prejudicando enormemente a sua saúde. O guru quando solicitado a dar uma receita para a mudança do filho, pediu um tempo, prometendo voltar dentro de um mês. Os pais não entenderam essa sua atitude pois esperavam uma solução imediata. Depois de um mês o guru voltou. Os pais do menino lhe interrogaram: “porque você não deu a solução há um mês atrás?” E ele então respondeu: “para ajudar o vosso filho eu precisava vencer um grande defeito, ou seja, chupar muita bala. E só depois de ter dominado essa minha fraqueza, posso ajudar o vosso filho a enfrentar esse seu limite e superá-lo”.
O líder tem consciência de que comanda os seus liderados servindo e oferecendo o seu melhor em vista do crescimento dos mesmos. Ele apenas aponta caminhos, mas não faz a parte que compete a eles. Muitas pessoas se enganam ao servir, fazendo pelos liderados, e não os motivando a fazer. A mãe não pode substituir a responsabilidade do filho, mas educá-lo a fazer aquilo que lhe compete.
O líder é um grande motivador, porque cheio de motivação interior. Está sempre ligado numa corrente que se chama aprendizagem, desejo de mudança, de crescimento, e transmite isso através do seu modo de ser. Arrasta as pessoas não por aquilo que ele representa, mas por aquilo que ele é. A comunicação tem seus graus de força: em terceiro lugar comunicamos por aquilo que falamos; em segundo lugar por aquilo que fazemos e em primeiro lugar, por aquilo que somos. Nada tem um impacto maior do que o exemplo.
O líder tem consciência da sua importância, mas não se coloca na atitude de insubstituível. São Paulo afirma na sua carta que no final de nossa vida seremos apenas servos inúteis, pois fizemos o que deveríamos ter feito. Por que ele diz isso? Porque por experiência descobriu que a razão da nossa passagem por esse mundo é o serviço, a doação, a entrega em prol dos irmãos. Essa é a razão da nossa existência.
Aprendamos com Jesus, líder por excelência a lavarmos os pés dos outros, numa atitude de doação contínua e progressiva. Para que isso aconteça de modo qualificado, sejamos eternos aprendizes.


4. LIDERAR COM PACIÊNCIA

Refletimos no artigo anterior a importância do serviço, como qualidade fundamental no líder. Assim como Jesus, o líder ele veio para servir e não para ser servido. Essa é a dinâmica essencial na sua relação com o liderado.
Para que ele possa servir com dignidade, profundidade, algumas atitudes se fazem presentes, de valor imprescindível. São atitudes que devem ser revistas diariamente, reavaliadas e redimensionadas. São elas que movem o agir do líder, e é através delas que o líder se manifesta como tal.
Essencialmente, são 08 as qualidades indispensáveis na relação lider-liderado. Poderiam ser 10 ou até mais, mas essas são suficientes, se bem vividas e aprofundadas no decorrer da sua missão.
A primeira virtude de um bom líder é a paciência. Se o líder gritar, o time dos liderados também perderá o controle e tenderá a agir de forma irresponsável. É importante criar um ambiente seguro, em que as pessoas possam cometer erros sem terem medo de ser advertidas de forma grosseira ou aos berros.
Ter paciência é demonstrar autocontrole, algo nem sempre fácil, sobretudo quando os erros da parte do liderado são repetitivos, ou então, quando o cansaço do líder for além do seu domínio pessoal. Explodir, agredir, ser movido pelo impulso da agressividade demonstra uma enorme falta de liderança. Eu diria que o líder manifesta sua maturidade e sua competência nessas horas inesperadas. Ele continua a manter o equilíbrio, sem esbravejar com os liderados. Sabe o momento certo de falar, e como falar. Falar nessa hora, certamente não é o mais conveniente e inteligente.
O líder tem de fazer com que as pessoas se responsabilizem por suas tarefas, apontando as suas deficiências. Isso requer disciplina – e ela vem da mesma raiz de discípulo, que significa ensinar a treinar.
Todo treinamento exige exercício e repetição. As coisas não se aprendem em segundos, sobretudo quando alguém está habituado a realizar algo errado por muito tempo, e diversas vezes seguido. Com certeza, o mais difícil em nossa vida é mudar um hábito adquirido e reforçado pelo tempo.
William James, um grande psicólogo americano assim define o nosso destino: “Semeie uma ação e você colherá um hábito. Semeie um hábito e você colherá um caráter; semeie um caráter e você colherá um destino”. E acrescenta: “tudo muda quando começamos a mudar e a agir”. Mas qualquer mudança provém de um pensamento renovado. A mente humana tem o poder de gerar novas realidades partindo da energia dos seus pensamentos.
O líder tem consciência dos hábitos errados do seu liderado, e sabe que a mudança requer muita paciência, através de treinamentos constantes, onde a repetição da ação deve ser observada e corrigida. Aliás, corrigir um jeito errado de fazer algo que já se tornou um hábito, com certeza, não é uma tarefa muito fácil.
Retomando a frase citada anteriormente, podemos afirmar que são os atos que movem a nossa vida, e não as nossas intenções. São os atos que definem o nosso comportamento. Quando eles são repetidos, vira um hábito, e o hábito define o caráter. Portanto, precisamos mudar o nosso caráter, quando ele não está colaborando no serviço aos irmãos. Nunca esqueçamos que o serviço é o parâmetro para ver se estou no caminho certo ou não. Se o meu caráter é fechado, dirigido por hábitos negativos, certamente não serei um bom líder, e não conseguirei ajudar os meus liderados.
O objetivo de qualquer ação disciplinar deve ser corrigir ou mudar o comportamento, treinar a pessoa, e não punir a pessoa. Existe uma grande diferença entre corrigir de modo grosseiro, estúpido, aos berros, e um modo paciente e por conseguinte, respeitoso e humano.
Seguidamente observo que essa é uma das qualidades mais difíceis de serem vivenciadas pelo líder. Quando reflito e aprofundo esse tema em minhas palestras, percebo que as pessoas fazem cara feia, como manifestação da dificuldade em compreender o outro na sua problemática específica. Os pais geralmente não tem paciência com os seus filhos, assim como os professores, os chefes e aqueles que exercem uma função, em qualquer campo que seja. Entra em jogo à ansiedade, a pressa, a necessidade imediata de resolver um problema. É quase uma obrigação para que o outro mude, e imediatamente. No entanto, essa sua atitude levou tempo para se enraizar, e certamente não poderá ser mudada em segundos.
A disciplina deve ser progressiva, a fim de não queimar etapas. Quando apressamos com alguma mudança, provavelmente estaremos destruindo a possibilidade de mudança e de crescimento. Alguém afobado, que não respeita o outro, não poderá ajudá-lo na sua evolução pessoal. Nunca esqueçamos que o objetivo principal do líder é servir em vista do crescimento do liderado, e isso não é possível sem muita, mas muita dose de paciência.
Sempre penso na grande paciência que Deus tem por cada um de nós, e isso me ajuda na relação com o outro. Na Bíblia nós encontramos diversas passagens nas qual Deus se manifesta lento na cólera, pois sabe que os seus filhos falham e muitas vezes demoram em perceber e querer mudar o seu erro.
Um dos grandes inimigos da paciência é o cansaço físico. Quando estamos cansados, temos mais dificuldades para a tolerância, e facilmente explodimos. Agimos assim nem sempre porque é o nosso modo habitual, mas porque não temos controle sobre o cansaço que se abateu em nós. Juntamente com o cansaço vem o desânimo. Quando nos encontramos numa situação de estresse acumulado, parece que desce sobre nós uma enorme vontade de simplesmente deixar que as coisas aconteçam. Vemos então o erro dos nossos liderados, a necessidade de corrigí-los, mas nos sentimos frágeis e impotentes pelo cansaço e desânimo que toma conta de nós.
O verdadeiro líder deve encontrar no diário da sua vida momentos especiais de encontro consigo mesmo e de restabelecimento das suas energias. Quando alguém está bem descansado, certamente tem muito mais probabilidades de controlar seus impulsos e suas tendências a reagir de modo grosseiro e agressivo. Pessoalmente, quando estou muito cansado, procuro me retirar para não influenciar negativamente as pessoas. O cansaço pode produzir mau-humor, que acabe tendo reflexos super negativos no liderado. Uma mãe que está sempre super cansada, tende ao desânimo, e isso influenciará no modo de relacionar-se com o filho. Ou agirá aos berros frente o choro do mesmo, ou simplesmente não fará nada para conter o seu choro.
Por vezes é fundamental sair, silenciar, fazer algo diferente e não querer resolver tudo na hora. Disse bem Jesus no evangelho, “para cada dia basta o seu próprio fardo”. O líder tem consciência disso, e sabe o momento certo de se retirar. Fico pensando em Jesus, sempre tão cercado por pessoas, mas que em nenhum momento agiu de modo violento. No entanto, quando ele estava muito cansado e exausto pelo trabalho pastoral, se retirava para estar a sós, para rezar, descansar e recuperar as energias gastas na relação com o outro. Precisamos aprender a agir como Jesus agiu, e descobrir nele a fonte para o nosso trabalho. Devemos nos esforçar para agir pacientemente à imitação de Jesus Cristo, sendo capazes de resistência, perseverança e determinação, até alcançar as metas propostas.
Essa é a primeira qualidade do líder, e provavelmente uma das mais exigentes na relação diária com o outro. No próximo mês daremos continuidade a outros princípios necessários da parte do líder na sua relação com os seus liderados.


5. LIDERAR COM BONDADE

Como vimos no capitulo anterior, o que move um líder servidor são os princípios. Acabamos de refletir sobre a paciência. Dando continuidade, vamos nos adentrar num outro princípio fundamental para a liderança, ou seja, a bondade.
Talvez muitos entendam esse princípio de modo errôneo, como se uma pessoa boa pudesse ser facilmente manipulável, devido a sua pouca firmeza. Já ouvimos diversas vezes essa constatação: “ele é muito bom, mas é um coitado”. Quando analisamos alguém enunciando essa frase, certamente não estamos definindo de modo correto o que seja uma pessoa boa.
Ser bom significa dar atenção, apreciação e incentivo. Este princípio fala a respeito da forma como agimos e não como nos sentimos. Convém lembrar que todos esses princípios são frutos do verdadeiro amor. E amor não é um sentimento, mas um comportamento. Amor é aquilo que o amor faz, e não aquilo que sente.
A melhor maneira que temos de prestar atenção às pessoas é ouvindo-as ativamente. Ouvir ativo requer esforço consciente e disciplinado, para silenciar toda a conversação interna enquanto ouvimos outro ser humano. Isso exige sacrifício, uma doação de nós mesmos para bloquear o mais possível o ruído interno e de fato entrar no mundo da outra pessoa – mesmo que por poucos minutos. Isso se chama empatia e requer muito esforço. Há quatro maneiras essenciais de nos comunicarmos com os outros – ler, escrever, falar e ouvir. As estatísticas mostram que na comunicação uma pessoa gasta em média sessenta e cinco por cento do tempo ouvindo, vinte por cento falando, nove por cento lendo e seis por cento escrevendo. No entanto, nossas escolas ensinam bastante bem a ler e escrever, e talvez até ofereçam uma ou duas línguas, mas não fazem nenhum esforço para ensinar a prática da escuta. Escutar e compartilhar o problema da outra pessoa alivia a sua carga.
Ouvir é diferente de escutar. Nós ouvimos ruídos, ouvimos vozes, mas isso não quer dizer que compreendemos o mundo do outro. É uma questão puramente fisiológica, ou seja, o meu organismo atesta o som de ruídos. O marido que apenas ouve a esposa, não quer dizer que saiba compreende-la em profundidade. O professor que ouve o aluno desconhece os sentimentos verdadeiros. O líder na comunidade que ouve os liderados ignora seus verdadeiros problemas. Apenas ouviu, mas sem penetrar na verdadeira problemática que envolve o outro.
Escutar é um ato muito mais exigente. A escuta vem sempre acompanhada pela empatia, e por isso dizemos ‘escuta empática’. A palavra empatia tem a sua origem no grego, e quer dizer, ‘dentro do sentimento’. É entrar no mundo do outro, e compreender a situação a partir de que como ele vê, sente e vive. Se alguém me partilha o seu cansaço, no fundo está buscando a minha compreensão. Quer que eu compreenda o momento que está vivendo. E isso é o suficiente. Geralmente nós não escutamos, e acabamos ou dando conselhos, ou então trazendo a nossa realidade, ignorando a partilha do outro. Compreender o outro na sua situação é muito mais difícil do que se possa imaginar. Geralmente falamos a partir dos nossos conceitos, do nosso modo de ver as coisas, deixando de lado o verdadeiro sentimento do outro.
O grande psicólogo Carl Rogers traz as palavras de uma paciente que fazia terapia com ele: “Venho de boa vontade. Quando falo com você sou como sou, sou eu mesma. Com ninguém posso ser assim, nem mesmo com meu marido ou com meu filho; nem mesmo com as pessoas. Não posso nunca ser como sou: cansada, triste ou com um problema ou com uma culpa ou com os meus medos. O meu trabalho é esconder; quem sabe adoeci, pela violência de esconder. Este é o único lugar em que posso ser como sou”.
Acredito que estamos muito mais prontos para julgar, dar conselhos, generalizar, minimizar, achar solução para o problema do outro, do que para compreendê-lo. Logo moralizamos ou diagnosticamos, sem deixá-lo falar e expressar o seu sentimento. Escutar alguém é fazer silêncio frente a sua história, sem julgar ou condenar, mas acolher a sua realidade, a sua história, o seu momento. Quando escutamos sem interromper o conteúdo emocional que o outro nos partilha, oferecemos a ele a oportunidade de encontrar a saída própria para o seu problema.
Ser bom é saber apreciar as coisas boas que existem no outro. Apreciar é reconhecer alguma coisa como valor. Quem sabe apreciar individualiza e evidencia por primeiro os aspectos positivos de um trabalho, de uma discussão ou de uma decisão: aqueles sobre os quais está de acordo ou aqueles particularmente profundos e originais, aqueles que oferecem um enriquecimento, e não tem medo de reconhecê-los com termos específicos: “você fez um ótimo trabalho”; “parabéns pela ótima leitura” e assim por diante. Os pontos discutíveis os realça depois; como sempre, antes aquilo que une, depois o que discorda e que divide.
Ser bom é também incentivar o outro. No centro da personalidade está a necessidade de ser apreciado, diz o grande psicólogo norte-americano William James. Nesse sentido, é importante elogiar as pessoas. Isso requer uma “percepção seletiva”. É selecionar antes de tudo o lado bom, o lado positivo do outro. Vou dar um exemplo.
Anos atrás, quando cheguei ao seminário, percebi a necessidade de mudar a frente do mesmo. Aquela cerca de arame tirava toda a beleza do seminário. Resolvi então observar a frente das casas em Curitiba. Fiz uma seleção, observando as fachadas, mas sem deixar de ver a casa também. No entanto, o que me interessava naquela ocasião era observar os muros das casas. Foi aí que decidi pelo palito, algo que eu nunca tinha dado atenção anteriormente. A minha percepção seletiva era o muro, mas sem ignorar a beleza da casa. Assim é também na relação com o outro. O líder seleciona em primeiro lugar as coisas boas, os aspectos positivos no liderado, mas sem com isso ignorar os seus aspectos negativos. No entanto, seu primeiro olhar é sobre aquilo que funciona, que vai bem, e não sobre aquilo que é negativo ou precisa ser melhorado.
Quando o líder começa a procurar o bem nos outros, ficando atento para o que as pessoas fazem bem, de repente o liderado começa a ver coisas que nunca tinha visto antes. O elogio é uma legitima necessidade humana, essencial nos relacionamentos saudáveis. Entretanto, o elogio deve ser específico e repetido.
Certo autor dizia que o “elogio me corrompe”. Posso até concordar com ele, quando o elogio é genérico. Por exemplo, é muito diferente você dizer para alguém: “você é ótimo, você é bom”, do que afirmar: “gostei muito da leitura que você fez”. A primeira afirmação é muito genérica, e não ajudará no crescimento do liderado; a segunda é bem específica, e certamente fará bem para um melhor desenvolvimento do liderado. Portanto, o elogio deve ser sempre feito, mas de modo específico.
O elogio faz muito bem para o outro, porque esse percebe que o seu trabalho foi reconhecido. No fundo, todos nós temos necessidade de sermos reconhecidos pelo bem que fizemos, por algo bom que construímos. Essa é uma necessidade normal do ser humano, e não importa a idade, o grau social ou o sexo em questão.
Esse segundo princípio do líder servidor é com certeza um dos mais importantes na relação com o liderado. Mas também é um dos mais difíceis e exigentes. Requer da parte do líder um olhar positivo sobre si mesmo em primeiro lugar, sabendo apreciar e valorizar em primeiro lugar os aspectos positivos da sua própria vida. No fundo, eu reflito na relação com o outro aquilo que eu vivo com relação a mim mesmo.


6. LIDERAR COM HUMILDADE

Continuo conversando sobre os princípios de um líder servidor. Já refleti sobre a paciência e a bondade. Quero, nesse capitulo, aprofundar um terceiro principio que é fundamental, mas tantas vezes mal entendido, mal interpretado, ou seja, a humildade.
De modo algum é mérito nosso sermos inteligentes, fortes, bonitos, se nascemos em uma família de posses que nos pôde dar carinho, proteção, boa educação. Não somos superiores àquele que não recebeu tanto quanto nós nem teve as mesmas oportunidades. Foi-nos dado muito para que o puséssemos a serviço dos que não receberam tanto quanto nós.
Ser humilde é reconhecer o lado bom, positivo de nossas vidas, as qualidades, os valores, as potencialidades. É fundamental para a nossa auto-estima trabalharmos o nosso lado positivo. Somos um poço de potencialidades, mas precisamos deixar que esse poço emergisses, e manifeste mais plenamente aquilo que somos.
Ser humilde é ser otimista perante a vida, e expressar toda a certeza de que as coisas podem ser diferentes. É ser alguém que acredita no ser humano, porque acredita em si mesmo, e já fez diversas experiências desse seu poder interior.
Quanto mais nos conhecemos e confiamos em nós mesmos, mais nos sentiremos capazes e senhores da nossa história, e poderemos oferecer o melhor do que somos àqueles que necessitam de nossa ajuda.
Humildade não quer dizer negação, pobreza, incapacidade. Isso denigre a nossa imagem de seres humanos, criados por Deus. Foi uma educação nociva do passado que enalteceu nossas fraquezas em detrimento das nossas fortalezas. No entanto, reconhecer os nossos defeitos é sinal de humildade, pois nos coloca na busca contínua da superação dos mesmos. Seremos sempre imperfeitos, frágeis e carregados de um número de realidades negativas a serem superadas.
Segundo um autor moderno, desde o início da vida, ainda na primeira infância, por necessidade de fazer de nós criaturas civilizadas, nossos pais cuidadosamento vão enchendo o saco das negatividades. São as críticas, os nãos, as repreensões, em que sempre se salientam os erros. Os acertos e façanhas, esforços e vitórias parecem não receber a mesma atenção. Por uma questão cultural, os acertos são vistos como obrigações das crianças e jovens e, como não são louvados e levados em conta, o saco das positividades vai ficando vazio. Com o tempo, nossos erros passam a ser o ponto de referência para todas as coisas.
Mais para frente, esse mesmo autor salienta o valor do positivo, dizendo que a felicidade está em priorizar ao máximo as coisas boas que acontecem e menosprezar as coisas ruins. As pessoas positivas são otimistas porque conseguem otimizar a positividade. Devemos encher o saco da positividade. O negócio é encher o saco dos filhos, encher o saco dos alunos, encher o saco do vizinho, encher o saco de todo mundo. Mas o esforço é no sentido de encher o saco certo. Temos de descobrir por nós mesmos quem somos. Essa é a razão pela qual passamos a vida em busca de autoconhecimento, única maneira de desenvolver nossas potencialidades e expressar o melhor de nós mesmos.
Ser humilde é tudo isso, é olhar a si mesmo e ao outro pelo seu lado positivo, e perceber em si mesmo e no outro a força interior para superar seus negativismos e medos.
O líder é aquele que se trabalha continuamente, cultivando o seu lado positivo e, assim, despertando nas pessoas, naqueles que são colocados o seu serviço, o valor intrínseco desde sempre inerente a ele.
Ser humilde é buscar a qualificação pessoal, a excelência naquilo que faz, para poder ajudar, servir de modo mais intenso e produtivo. Oferecer então o que tem de melhor, buscando despertar o melhor que existe no outro.
Ser o que se é por natureza, desde a criação, implica um trabalho diário de autoconhecimento. Não quer dizer derrubar ou diminuir o outro, nem ser seu concorrente, mas simplesmente ser si mesmo, porque assim desde sempre foi criado por Deus. O ser humilde não nega aquilo que é, nem se vangloria por ser assim. Acolhe os valores não em causa ou benefícios próprios, mas a serviço de quem está ao seu redor e espera uma palavra de conforto e de esperança,
Ser humilde é também reconhecer os limites. Nós não fomos criados para fazermos tudo, sabermos tudo, entendermos de tudo, e termos domínio de tudo. Isso é simplesmente impossível. Nós temos limites. Limite não é algo negativo, mas simplesmente algo que faz parte da nossa personalidade. Ainda bem que temos limites, pois isso nos obriga a precisar da ajuda do outro, do seu auxílio, da sua mão para desenvolver tanta coisa que foge da nossa capacidade naquele campo. Nem todo mundo nasceu para ser músico, cantor, escritor, comunicador ou construtor. Ainda bem que é assim, pois o fato de sermos necessitados nos obriga a irmos ao encontro do outro e buscarmos a sua ajuda. Não tem nada de errado em reconhecer um limite, pois isso nos torna mais humanos, irmãos e necessitados uns dos outros. Quando a pessoa não aceita um limite, torna-se uma “palpiteira”, como costumamos dizer na linguagem popular, e demonstra a sua enorme ignorância. Quem não reconhece um limite, demonstra a sua pequenez.
Podemos dizer que ser humilde é aceitar os defeitos e buscar meios para superá-los; é reconhecer os limites, e abrir-se à nobre necessidade da ajuda do outro e perceber-se pessoa capaz, cheia de valores, qualidades, potencialidades. No entanto, esses não são usados para sua vanglória, para seu orgulho próprio, de modo auto-suficiente, se colocando maior e melhor do que os outros, mas a serviço da vida, do crescimento e realização do outro.
O líder precisa resgatar a humildade, ou seja, ser gente. Da raiz etimológica húmus: terra, ou seja, ser pé no chão, ou mais, ser profundamente aquilo que é e para o qual foi chamado.
A humanização passa pela humildade. Jesus, sendo Deus, tornou-se gente, e humilhou-se, tornou-se servo de todos. É a grande lição divina.
Por outro lado, Jesus nunca negou aquilo que ele era: plenamente homem e plenamente Deus. Ele não negou a sua identidade, mas também não a colocou a serviço de si mesmo. Ele despojou-se de tudo, para colocar tudo o que ele era, a serviço da vida, dos irmãos, da comunidade. Como ele mesmo afirmou: “eu vim para que todos tenham vida, e a tenham em abundância”.
Na sociedade pós-moderna modelos são aqueles que chegam por primeiro; são os mais fortes, os mais bonitos, os mais saudáveis, os consagrados e vencedores em detrimento dos mais fracos, pequenos, pobres, derrotados e sofredores. Para nós, líderes, vencedores são aqueles que servem e oferecem o melhor de suas vidas a serviço – e de modo voluntário. Aliás, todos os líderes das comunidades oferecem gratuitamente o melhor de si mesmos em prol da comunidade. Com certeza, o trabalho voluntário, como doação do melhor de si mesmo aos que necessitam, é o grande segredo e o caminho de uma nova sociedade.
Caro amigo, espero que eu tenha conseguido refletir esse grandioso principio cristão, de modo claro e ajustado. Ele é um dos princípios essenciais, pois na medida em que reconhecemos nossas fraquezas, aceitamos nossos limites e colocamos o melhor de nós mesmos a serviço dos irmãos, estaremos ajudando a construir uma sociedade mais humana, e seremos mais felizes e realizados.

7. LIDERAR COM RESPEITO

Dando continuidade aos princípios do líder servidor, vamos refletir a importância do respeito. Assim como os princípios refletidos anteriormente, esse colabora de modo decisivo ma influência do líder sobre os seus liderados. A falta de respeito provoca suspeita e queixas sobre o modo de agir do líder, muitas vezes não superáveis de modo fácil. A grande verdade é que ninguém gosta de ser desrespeitado, pelo simples fato de ser gente, ser pessoa, ser alguém carente e necessitado de uma compreensão contínua e natural no relacionamento.
Ao longo da nossa reflexão, temos dedicado muito tempo para deixar bem claro que o importante na relação não são as intenções de ser bom, de ser humilde, ou de sentir-se assim na interação líder e liderado. O fundamental é a ação, ou seja, o modo de agir, e que muitas vezes requer do líder uma profunda mudança de comportamento. Querer que os liderados mudem de atitude, mas continuar tratando-os do modo tradicional, é no fundo aquilo que Einstein define de debilidade mental. Querem-se mudanças, atitudes diferentes naqueles que nos são confiados, faz-se necessário e fundamental que os lideres sejam os primeiros a mudarem seu jeito de ser e de querer influenciar os liderados.
Mudar um jeito habitual de agir realmente não é nada fácil, pois o hábito cria uma série de vícios que exigem uma nova postura, um novo jeito de falar, de comunicar e de se relacionar. Isso nem sempre é fácil. Quanto mais os lideres avançam no tempo, e continuam a agir do mesmo modo antigo, tradicional, mais difícil será a mudança no futuro. Apesar dessa constatação um pouco drástica e por vezes determinista, continuamos a acreditar que é possível mudar em qualquer etapa da vida. Talvez mais do que palavras, palestras, como dizia o próprio Huntner nos seus belos livros, seja urgente um treinamento. Palavras podem até comover, entusiasmar, motivar, mas podem abafar qualquer mudança. O problema muitas vezes agrava-se porque quando ouvimos falar dos princípios da liderança, não nos colocamos em primeiro lugar, mas logo adaptamos para os outros, para o vizinho, para fulano ou cicrano que julgamos estarem necessitados de mudança. E assim, de modo bastante sutil, tiramos o corpo fora e permanecemos os mesmos. Usamos um mecanismo de defesa que pode ser de projeção, ou seja, sempre adaptando o que ouvimos para os outros e não para nós mesmos. Ou então, racionalizamos e logo nos convencemos que somos perfeitos, que agimos de modo justo e correto e não permitimos a mudança.
Sabemos que uma árvore que cresce inclinada para um lado, dificilmente encontrará um modo de endireitar-se. Caso isso venha acontecer, ou caso alguém queira endireitá-la, poderá quebrá-la e piorar a sua situação. Claro que não somos árvores, mas temos diversas semelhanças com o modo de agir da natureza.
Alguém que durante a vida toda agiu de modo desrespeitoso, naturalmente necessitará de um grande esforço para mudar esse seu procedimento. A fórmula mágica é: intenções + vontade: ação. Não basta a intenção de mudar, pois conhecemos aquele velho ditado que de boas intenções o inferno está cheio. É preciso acionar a vontade, as energias que provém dessa fonte. No fundo é querer, se determinar, e não medir esforços para ser diferente. Vai exigir humildade, pois o orgulho de achar-se o bom, o certo, o justo, o melhor, deverá ser reavaliado e transformado. Naturalmente, um princípio influencia e determina o outro. Eles não são estanques, divididos, separados, mas interagem de modo circular e contínuo. Eu diria que alguém que não vive o princípio da bondade, como já refletimos outrora, ou seja, se não olhar o outro pelo lado positivo, pelo incentivo, dificilmente viverá o princípio do respeito, o qual estamos refletindo nesse espaço atual.
O respeito pode ser definido como uma ação na qual o líder considera cada pessoa como importante, e merecedora de crédito e confiança. Considera alguém importante, necessário, e exige com certeza a capacidade de delegar funções, e não concentrar tudo em volta de si mesmo.
Existem lideres que se sentem quase que insubstituíveis, pensando que a sua ausência determinará uma ruína, uma queda no trabalho em questão. Concentram as funções, e reclamam então do fato de terem que fazer tudo, sem a colaboração dos outros. Esquecem de fazer uma pergunta fundamental: não estarei afastando as pessoas com o meu jeito de ser concentrador e autoritário?
Me vem à mente nesse momento a história de Moisés no Antigo Testamento. O mesmo reclamava de modo até desproporcional do fato a que todos vinham procurá-lo para resolver os seus problemas. Dizia ele que não tinha tempo para mais nada, pois de certo modo sentia-se sugado pelas necessidades dos outros. Seu sogro Jetro lhe sugere que divida os grupos, e delegue funções para mais lideres a fim de que sejam responsáveis pelo grupo. Moisés agiu assim, e percebeu então que o fardo do trabalho até então todo ele assumido de modo pessoal foi dividido e a realidade mudou substancialmente. Muitos lideres deveriam aprender essa grande lição encontrada na história do Êxodo, confiando responsabilidades a mais pessoas.
Aliás, uma maneira de demonstrar grande respeito pelas habilidades e capacidades dos liderados, é ser capaz de construir uma relação de confiança, delegando responsabilidades. É a única maneira de as pessoas crescerem e se desenvolverem. Delegar responsabilidades é um modo maravilhoso de demonstrar confiança. É incentivar o exercício do livre-arbítrio.
O respeito é conquistado quando você é líder. O líder concede respeito. Ele opta por tratar as pessoas como importantes, mesmo quando se comportam mal ou “não fazem por merecer”. Vimos anteriormente que errar é normal, e requer paciência para saber que muitas coisas levam tempo para serem digeridas e transformadas. Nada se muda da noite para o dia, mas tudo exige quedas, levantamentos, novas quedas até que um dia a realidade de outrora seja hoje diferente.
Nós como seres humanos devemos ser considerados dignos de manifestações de respeito apenas por sermos humanos. O líder deve ter um interesse especial no sucesso daquele que lidera. O papel do líder é incentivá-los para que se tornem bem sucedidos.
O atraso é uma falta de respeito. Demonstra que o tempo do líder é mais importante do que o meu. Transmite também a mensagem de que não devo ser importante para a pessoa. Além disso, passa a impressão de não ser honesta. Atrasar-se é um comportamento extremamente desrespeitoso.
Muitos lideres se atrasam para demonstrarem a sua importância, com aquele ar de insubstituíveis. Agindo assim acabam ferindo a dignidade do liderado, pois se colocam numa atitude superior ao mesmo, diminuindo a sua importância. Não importa quem seja a função que exerça na comunidade, mas o seu trabalho sempre será apenas um serviço. E como servidores não somos nem maiores e nem menores, mas irmãos que se ajudam e se colocam numa relação na qual o outro merece o melhor que eu puder lhe oferecer.
Respeitar, tratar alguém como importante, como necessário, como digno do meu trabalho, requer uma contínua mudança da parte do líder. Quando esse se acomoda, pensa estar prestando favores ao liderado, e a qualidade do atendimento acaba sendo diminuída e rebaixada. É preciso ver o outro sempre na ótica valorizante, pois ele é meu irmão, outro Cristo e seja quem for, tem todo o direito de ser respeitado.

8. LIDERAR COM ABNEGAÇÃO

Estou no aeroporto, no meio do caos, vôos atrasados e um mundo de pessoas inquietas, revoltadas, quase explodindo. Já passam das 2horas da manhã. O vôo deveria ter saído de Congonhas as 21.40, e agora estou em Guarulhos, acreditando que hoje ainda poderei voltar para Curitiba.
Enquanto vejo esse povo sem saber como lidar com o caos, aproveito para deixar tantas coisas em dia, nessa correria que é estar agora aqui, logo mais ali, numa verdadeira maratona de palestras, cursos e retiros.
Nada melhor então do que colocar em dia os meus diversos compromissos. Sentado, recostado na parede, escrevo esse capítulo. Vou ver o que consigo escrever nesse meio turbulento e inquieto.
Dando continuidade à nossa reflexão sobre os princípios do líder servidor, pretendo hoje enfocar a importância do altruísmo ou abnegação, palavras que são sinônimos na relação com o liderado.
Antes de tudo, faz-se necessário definir o que significa a palavra altruísmo ou abnegação. Como a maioria das palavras, essa também tem a sua origem do latim. Altruísmo vem de alter que quer dizer: outro, ou então, alteridade como é definida por tantos escritores e filósofos. O outro como alguém que me completa, que me faz crescer e evoluir, mas que também necessita de mim.
Abnegação, seguindo a mesma reflexão de altruísmo, tem a ver com o outro, no sentido de que eu deixo as minhas necessidades, e me coloco a serviço das necessidades alheias. É a vontade de servir e de se sacrificar pelos outros, a disposição de abrir mão dos próprios anseios pelo bem maior. Isso não quer dizer que eu sempre vá deixar de lado aquilo que faz parte dos meus desejos e anseios naturais, mas ser capaz de deixá-los em segundo plano quando as necessidades do outro são prementes e urgentes.
Gosto sempre de brincar dizendo que a terça é o meu dia de folga, e folga para mim quer dizer ler, estudar e escrever, passando o dia na chácara do meu cunhado. Até aí, tudo bem, mas o que realmente me faz deixar de lado muitas vezes essa minha necessidade natural, são os tantos enterros que acontecem exatamente na terça. Parece que as pessoas morrem na segunda para provar a minha capacidade de abnegação, deixando meus anseios de lado em vista de um bem maior.
Infelizmente, vivemos num mundo onde as pessoas dificilmente dispõem do seu tempo livre em vista de alguém que está carente e necessitado de sua presença. A televisão, o shopping e outros passeios acabam predominando em detrimento daquilo que urge e que grita por minha ajuda e meu auxílio.
Pensar em primeiro lugar no seu próprio bem, levando vantagem em tudo, é para muitos a tônica da sua existência. Fazer algo gratuitamente pesa na vida de muitas pessoas. As coisas são feitas somente se houver algo em troca, alguma compensação, sobretudo financeira. Do contrário, são incapazes de sair do seu mundo, e de modo voluntário dedicar o seu tempo em prol daquilo que implora sua mão. E isso cria um distanciamento daquilo que Jesus um dia definiu como a essência do cristianismo: amar a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a si mesmo. Fico pensando então que as pessoas não se amam o suficiente, porque se de verdade se amassem, aprenderiam a lição da entrega e da doação. Quem quer bem a si mesmo, é flexível e amoroso com relação às dores e sofrimentos do outro.
A alteridade, ou seja, pensar no outro, priorizar aquilo que diz respeito a ele, é hoje um dos estudos e reflexões essenciais feito pelos estudiosos mais influentes da pós-modernidade. Muitos afirmam que a salvação da humanidade começa acontecer quando se percebem gestos espontâneos e voluntários em prol do próximo sofredor.
Abnegação não significa negar as suas necessidades legítimas, seus anseios, seus desejos, mas deixá-los em segundo plano quando as necessidades do outro são mais urgentes, imediatas e imprescindíveis. Muitas vezes sou obrigado a deixar de lado o meu almoço, o meu sono, o meu descanso, o meu prazer, a minha diversão, todas necessidades normais e mais do que compreensíveis, porque o outro requer naquele momento da minha presença.
Rezar é uma das necessidades positivas e essenciais na vida de todo ser humano. No entanto, muitas vezes é preciso deixar a oração em segundo plano, porque o outro brada pelo meu auxílio. São Vicente de Paulo dizia para as irmãs que quando estivessem indo para a Igreja, e encontrassem um pobre caído no chão gritando por seu socorro, deveriam deixar a missa em segundo plano em benefício daquele irmão caído e sofredor. Ele gostava de dizer que agindo assim as irmãs estariam “trocando Deus por Deus”. Deixando de ir ao encontro de Deus que estava na Igreja, estavam servindo Deus que se encontrava no próximo. Bela essa visão desse grande santo, que com certeza entendeu muito bem o significado de abnegação.
Na Bíblia encontramos uma passagem que mostra a falta de altruísmo por parte de pessoas que se consideravam perfeitas e justas. Para falar sobre o amor a Deus e ao próximo, Jesus conta a parábola do samaritano, como exemplo de solidariedade. Diz Jesus que um homem que vinha pelo deserto, de repente foi atacado por bandidos que bateram, espancaram e deixaram-no quase morto. Passou por ai então um judeu apressado para chegar na hora certa no culto desviou aquele irmão sofrido, e foi incapaz de prestar socorro. Passou também um levita que fez a mesma coisa. Os dois foram incapazes de dar assistência para quem estava sofrendo, porque viram em primeiro lugar as suas próprias necessidades. O samaritano, homem odiado pelos judeus e levitas, porque era considerando impuro e não temente a Deus, ao ver aquele pobre homem levou-o a uma pensão, mandou que fosse bem cuidado e ainda pagou o seu tratamento. E Jesus elogiou a atitude do mesmo, porque deixou de lado seus afazeres, e cuidou daquele que mais necessitava de sua ajuda naquele momento.
O mundo pós-moderno cria necessidades no ser humano, e faz com que ele faça tudo para satisfazê-las, mesmo que para isso tenha que passar por cima dos outros. O egoísmo, o individualismo, a frieza e a indiferença, por vezes tomam conta das pessoas. É essa frieza que acaba distanciando as pessoas umas das outras, como se essas estivessem a dizer: “o problema é dele, que se vire”. Mas para um líder cristão o problema do outro se torna seu problema, pois Jesus veio para dar dignidade a todos, sobretudo àqueles mais abandonados e excluídos da sociedade.
Deixar de lado um prazer pessoal para servir o outro que precisa da minha presença, com certeza nos torna pessoas de valor e nos dignifica. Diz São Paulo que há mais alegria em dar do que em receber. Quando faço um bem ao próximo, esse bem volta em dobro para mim em alegria e felicidade. Quem já fez essa experiência, sabe o quanto ela é real e verdadeira. Vem-me em mente aquele senhor que deixou de lado a sua vida para salvar a vida dos outros nesse gravíssimo acidente da TAM. Acabou morrendo, mas salvou muitas vidas. Gesto nobre e precioso de quem aprendeu o profundo significado daquilo que é o altruísmo ou abnegação.
Amar, fazer o bem, ajudar o outro na sua dor, ser voluntário por uma causa social, dignifica e realiza profundamente o ser humano. A sua felicidade não está nos prazeres imediatos e vazios como quer nos fazer acreditar o sistema atual, mas naquilo que dá sensação de profundidade e eternidade.
Meu amigo, desejo que eu e você aprendamos a deixarmos de lado aquilo que é uma necessidade legítima, quando o sofrimento, a dor e o grito do outro forem mais urgentes e imediatos. Que o Deus da vida que deixou de lado a sua divindade, nos ensine a grande lição do amor voluntário e sem limites.

9. LIDERAR É SABER PERDOAR

Um verdadeiro líder deve estar pronto para os erros e imperfeições dos seus liderados. É essencial aceitar as limitações nos outro. Aí entra outra característica essencial do líder, ou seja, o perdão.
Perdoar é deixar de lado o ressentimento. Significa comunicar de forma positiva o ressentimento existente. Diz Gandhi: “os fracos podem nunca perdoar, o perdão é atributo dos fortes”.
Outro autor assim manifesta a sua visão sobre o perdão: “sempre que odiamos alguém, estamos odiando uma parte de nós mesmos em sua imagem. Não nos exaltamos por qualquer coisa que não esteja em nós”.
Gostaria de continuar refletindo essa definição do autor acima citado. Geralmente quando alguém nos ofende, manifestamos a nossa indignação, acusando o outro como o culpado da nossa frustração e mal-estar. Mas se aprofundarmos essa análise, perceberemos que a ofensa do outro mexeu com algum problema nosso, de cunho pessoal. Não nos magoamos por qualquer coisa, mas por algo que é essencial em nossa vida, ou por alguma coisa que é mexida dentro de nós.
Jesus, o mestre dos mestres, pede que perdoemos setenta vezes sete, ou seja, sempre. Não pode existir limite para o perdão. E se ele fala sobre isso, é porque sentiu na pele o que significa não guardar mágoas e ressentimentos. Na cruz, perdoou a humanidade e todos aqueles que o maltratavam, a ponto de crucificá-lo. Do alto da cruz ele manifesta a essência do perdão: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”.
Quando rogamos: “Pai, perdoa-lhes, pois eles não sabem o que fazem”, não estamos realizando nenhuma exigência que esteja além do nosso desejo. Este pedido é muito mais um caminho para nos dirigirmos ao Pai e encontrarmos nele a nossa verdadeira razão de ser. Ao mesmo tempo, este pedido nos liberta do poder que aquele que nos feriu tem sobre nós. Ele nos possibilita distanciarmo-nos desta pessoa e, ao mesmo tempo, entendermos seu comportamento. Muitas vezes, aqueles que nos ferem não sabem o que fazem. Ferem-nos, porque eles mesmos estão feridos; porque se sentem inferiores e querem apenas mostrar o seu poder ao nos fazer o mal. Porém, na realidade fazem mal a si mesmos. Se eu suplicar, como Jesus na cruz, “Pai, perdoa-lhes, pois eles não sabem o que fazem”, não precisarei transferir a minha raiva; poderei perdoar, porque já não mais verei o outro como meu inimigo, mas sim como uma pessoa que foi ferida. Eu não perdôo por fraqueza ou resignação. Se eu não perdoar, o outro continuará a ter poder sobre mim. Ele determinará meus pensamentos e sentimentos. O perdão me liberta do poder do outro. Ele não é mais o meu oponente, mas sim uma pessoa ferida e cega, que não pode agir de outra forma. Mesmo se ele me matasse, não teria nenhum poder sobre mim. Foi isto que Jesus ensinou na cruz. Ele se entregou ao Pai. As pessoas podem atacá-lo exteriormente com sua maldade. Porém não o atingem, porque ele roga por eles e em sua oração compreende sua cegueira e ignorância.
Com certeza, quem dá o troco, mostra a sua ignorância. Assim agiam os judeus de modo geral, quando defendiam a máxima: “olho por olho, dente por dente”. Imaginavam que agindo assim estivessem sendo fortes, como se não pudessem levar desaforo para casa, como se diz na gíria. Dar o troco é demonstrar a mesma fraqueza daquele que agiu de forma arbitrária e violenta.
Muitas vezes ouvimos pessoas que afirmam “não ter sangue de barata”, e por isso revidam uma ofensa, explodem, argumentam em alto tom que agindo assim, demonstram também os seus direitos. Em minha opinião, o fato de não dar o troco não é sinal de fraqueza, mas de fortaleza.
Quantas vezes num jogo de futebol, sobretudo os homens, defendem o direito de revidar. Cria-se então uma verdadeira guerra, e tantas vezes uma batalha campal. Já acompanhamos essa cena em muitas partidas de futebol, que terminaram em verdadeira pancadaria. O que trouxe de benefício o revide? Nada, ou pior, só trouxe prejuízo para ambas as partes.
A guerra entre os povos geralmente advém da incapacidade de perdoar o irmão, o próximo. O que nós vemos no Oriente Médio é um verdadeiro ódio, virando um círculo vicioso muito perigoso, onde a lei do talião continua ditando as relações.
Perdoar uns aos outros não é nenhuma exigência de Jesus, mas sim uma expressão de reconhecimento pelo perdão sem medidas que recebemos de Deus. Jesus usou esta parábola para nos mostrar, claramente, que a dívida infinita que temos com Deus e o pouco que devemos uns aos outros não é razão para que não nos perdoemos mutuamente. Jamais poderemos pagar o que devemos a Deus. A cada dia que passa nos tornamos mais e mais seus devedores. Nós nos revoltamos contra ele, o esquecemos e nos dedicamos a outros deuses – ao dinheiro, ao sucesso, à carreira. E, apesar disso, Deus está sempre do nosso lado. Ele sempre nos redime de nossas culpas. Aquele que recebe o perdão de Deus com o coração aberto não pode fazer nada mais do que perdoar àqueles que o feriram. O perdão não assume para ele o caráter de uma exigência, que ele tem de cumprir, mas sim o caráter de resposta ao perdão que lhe foi concedido.
Se a nível espiritual isso aparece claro, no sentido do quando fomos amados e perdoados por Deus apesar de nossa infidelidade, a nível psicológico ele também tem um valor essencial.
Quando alguém é incapaz de perdoar, e vive ameaçando o outro com o troco, certamente apresenta no seu interior uma carência enorme, uma fraqueza emocional que o torna incapaz de perceber que o revide não o libertará do outro. A mágoa, o ressentimento, a ameaça de um revide, acaba afetando o seu próprio organismo. É um tóxico que afeta o seu próprio corpo, e pode com o tempo levá-lo a doenças até incuráveis. Se analisarmos a causa inicial, ela tem tudo a ver com a incapacidade de perdoar.
Quantas vezes percebemos casais que não se conversam mais, porque estão magoados e ressentidos entre si. Não quero dizer que não haja motivos para tal, mas guardar uma ofensa, uma traição, e ficar remoendo esse fato, com certeza não é nada saudável para ninguém. É preciso encontrar um meio de reconciliar-se com o outro, a fim de não lhe dar poder sobre os seus sentimentos e pensamentos.
Só pode existir perdão se houver amor. O amor reúne os diversos elementos que trazemos em nós. Ele nos transforma em uma pessoa que pode aceitar totalmente a si mesmas. O amor une os grupos opostos em uma comunidade e os conduz à unidade. Não existe amor sem perdão. E nenhuma comunidade poderá existir sem que os seus membros estejam dispostos a perdoar uns aos outros.
São tantas as razões pelas quais somos chamados e convidados a perdoar, tanto a nível espiritual, comunitário como pessoal. Eu nunca vi ninguém feliz porque revidou, porque deu o troco, ou porque guardou mágoas ou ressentimentos frente a uma ofensa ou calúnia. Mas já vi muita gente feliz, liberta, viva, porque foi capaz de perdoar, e assim sentiu-se forte e vencedora.
Faça você também à experiência diária do perdão, e nunca guarde mágoas. Jogue para fora todo e qualquer ressentimento, a fim de manter o seu interior limpo, livre e feliz. Se necessário for, fale para alguém sobre esses seus sentimentos que o magoam, mas nunca os guarde, nem revide.... Você merece ser feliz.

10. LIDERAR COM HONESTIDADE

Dando continuidade aos princípios da liderança, como elementos essenciais para quem trabalha em comunidade, gostaria de aprofundar o grande valor da honestidade , ou seja, da coerência, da autenticidade e transparência.
Ser honesto é no fundo não tentar enganar ninguém. Um dos principais aspectos da honestidade, e também de como se manter imune à desilusão, é a maneira como delegamos e cobramos responsabilidades. É evitar comportamento desleal e a formação de “panelinhas”. Desenvolver a confiança exige esforço e comunicação. As pessoas afirmativas não violam os direitos das outras – mantém um comportamento respeitoso. Transmitir más notícias de uma forma objetiva e honesta é a oportunidade perfeita para desenvolver uma relação de confiança e credibilidade. Isso se chama integridade. Diz Gandhi: “um homem não pode fazer o que é certo em uma área da vida, ao mesmo tempo em que está ocupado fazendo o que é errado em outra”.
A mentira é uma comunicação com a intenção de enganar os outros. Honestidade implica esclarecer as expectativas das pessoas, tornando-as responsáveis, dando às pessoas um retorno, sendo firme, previsível e justo. A maioria das pessoas quer saber como são avaliadas pelo líder.
Um dos grandes pecados da falta de honestidade é a falsidade. O líder falso engana o outro, dizendo-lhe coisas que realmente não estão de acordo com o seu sentimento e a verdade. Já vi pessoas fazerem grandes elogios para alguém num determinado momento, e minutos depois destruírem o outro de modo inesperado.
Ser falso é agir de modo descompassado, pois na frente de alguém superior se dirige de um modo, mas por detrás dele, age de maneira totalmente inversa. São aquelas pessoas que na sua frente são uma coisa, mas distantes, desmentem o que tinham lhe afirmado.
A honestidade caminha muito ligada à autenticada, congruência e transparência. Hoje surge uma nova palavra, com caráter mais determinante, ou seja, a assertividade. Vou analisar essas palavras que são chaves na relação do líder com os seus liderados, e que produzirão ótimos frutos no relacionamento.
A autenticidade é a coerência entre a palavra e a ação. Nesse caso existe uma sintonia entre o que fala o líder e o modo como ele faz aquilo que prega aos outros. Enaltece-se a essência do amor entre as pessoas, é porque ele vive em primeiro lugar essa afirmação, ou então, se empenha para que isso aconteça. Incoerente é aquele que após afirmar algo como essencial, imediatamente depois age de modo totalmente diferente. É difícil acreditar em alguém que age assim. É o caso dos fariseus do tempo de Jesus, os quais pregavam o amor, mas eram incapazes de qualquer gesto de acolhida perante o outro, que demonstrasse a veracidade dessa sua pregação.
Todo líder que exerce uma função na Igreja, na escola, na empresa, ou onde quer que seja, é observado pelos seus liderados, e com certeza, não são as palavras que o identificam como líder, mas as suas ações. São elas que determinam o grau da liderança, e da confiabilidade dos seus liderados. Ele pode até convencer com sua bela eloqüência, com sua fala aprimorada, mas não poderá ser seguido, não será um modelo, porque a prática contradiz a palavra.
Existe hoje uma palavra que define de modo mais profundo aquilo que entendemos por autenticidade. Começa a fazer parte do mundo das relações, e, sobretudo da vida do líder, aquilo que denominamos pelo nome de assertividade. Enquanto ser autêntico é buscar a verdade, sendo coerente entre a palavra e a ação, ser assertivo quer dizer, primar sempre pela transparência, por aquilo que é o certo, pela correção dos liderados, mas de modo delicado e gentil.
Acredito que muitos líderes pecam pela falta de tato, de jeito, do modo como dizem aquilo que acreditam ser o correto. Mesmo que esteja certo quando chama atenção dos liderados, mas se não tiver delicadeza, a sua afirmação poderá perder toda a força e significado. Um líder que corrige o outro de modo violento, duro, e muitas vezes aos berros, aos gritos, certamente não ajudará o seu liderado a perceber o erro e colocar-se numa atitude de mudança.
Eu sempre digo que ninguém gosta de ser tratado de modo ríspido, com mau humor, mas todos nós admiramos e gostamos daqueles lideres que sabem dizer a verdade, chamar a atenção, corrigir, com muito carinho e firmeza ao mesmo tempo. Lideres que agem com a cara fechada, sem um sorriso, não atraem o outro para ser diferente. O que ele afirma até pode ser certo, correto, mas o modo como fala, como se dirige ao outro, não o levará a uma revisão de vida e possível correção.
Ser assertivo é dizer a verdade, mas com muita delicadeza. É ser ao mesmo tempo terno e firme. Falar como firmeza não significa ser duro intransigente, como se fosse o dono da verdade, mas é ajudar o outro a perceber o seu erro. Isso não é fácil, pois requer um trabalho pessoal e uma maturidade interior.
Ser honesto também tem a ver com a congruência. Talvez essa virtude esteja bem mais de acordo com aquilo que definimos no início como honestidade, ou seja, estar livre de engano, não representar, mas ser aquilo que é. A congruência é a coerência entre a palavra e o sentimento. Incoerente é aquele que se dirige ao seu liderado enaltecendo-o, enumerando suas qualidades, mas no fundo ele não acredita naquilo que está falando. Nós costumamos denominar essa pessoa como falsa, pois percebemos no seu próprio olhar e na sua fala, que existe um descompasso entre o que diz e o que realmente está sentindo. É o líder falso, que por vezes age assim somente para agradar o outro. Tem medo de dizer o que sente, a sua própria verdade, a fim de não ofendê-lo ou magoá-lo.
Ser congruente é muito importante. A liderado precisa saber aquilo que líder pensa em relação a ele, mesmo que isso seja doloroso no momento preciso. A falsidade não faz bem para ninguém, e com o tempo o líder perderá a credibilidade do liderado, pois sempre estará em dúvida se aquilo que ele diz é verdadeiro ou não.
Tudo isso requer da parte do líder uma integridade de vida. A pessoa íntegra não age de acordo com as circunstâncias e as pessoas que estão ao seu lado naquele momento, pois em qualquer situação, prima pela verdade. A pessoa desintegrada, pelo contrário, age de acordo com as circunstâncias. Frente pessoas mais importantes ela tem um procedimento, e perante outras inferiores, age de modo diverso.
Ser autêntico, ser congruente e honesto, ser assertivo e transparente é no fundo agir a partir daquilo que acredita, e não através de máscaras. O mascarado se desfaz daquilo que é, usa uma máscara que não é a sua identidade, mas naquele momento mente, inventa, finge ser uma coisa que na verdade não é. Tem medo de ser verdadeiro, pois isso pode custar à perda da estima do outro, pelo menos naquele momento. Demonstra no fundo a sua insegurança e fragilidade interior.
Quem vive mascarado, entra na vida como se ela fosse uma representação, tal como vive o artista quando faz um teatro no palco. Muitos líderes vivem representando uma imagem que não é a sua. Representar com o tempo cansa, porque a verdade é mais direta e econômica, mesmo que mais exigente.
Quando engano os outros, sou falso nas relações, não sou autêntico com o outro, no fundo o maior prejudicado disso tudo sou eu porque vivo uma relação antagônica comigo mesmo. A coerência me deixa com a consciência tranqüila, com a certeza de ter agido de modo honesto, verdadeiro, congruente e assertivo.

11. LIDERAR É COMPROMETER-SE ATÉ O FIM

Depois de termos percorrido um longo caminho, refletindo os diversos princípios que regem a vida de um líder servidor, chegamos àquele que certamente irá determinar e conduzir um líder até o final do caminho traçado e proposto como meta, como objetivo. Muitos são os que iniciam determinados trabalhos, poucos são os que vão até o final.
Um grande líder mundial ao falar sobre aqueles que dedicam a sua vida em prol das pessoas, da comunidade, afirmava: “tem homens que lutam um dia, e são bons; outros lutam muitos dias, e são muito bons; mas existem aqueles que lutam toda a vida, e esses são imprescindíveis”.
Constatação estupenda, e que vem de encontro com o oitavo princípio de um verdadeiro líder, ou seja, o compromisso.
O líder servidor é fiel à sua escolha, e vai até o fim, mesmo que no meio do caminho encontre diversas barreiras, obstáculos e uma série de imprevistos. Os melhores líderes servidores são aqueles que cumprem os compromissos assumidos. Esse compromisso exige uma relação de liberdade com sua equipe, especialmente quando surgem falhas ou quando alguém precisa de sua ajuda.
O verdadeiro compromisso envolve o crescimento do individuo e do grupo, juntamente com o aperfeiçoamento constante. Ao pedir o crescimento e aperfeiçoamento dos liderados, nós como líderes nos comprometemos a crescer e a nos tornarmos o melhor que pudermos.
Desde o início deixamos claro que o líder, diferente daquele que age pelo poder que lhe foi conferido, se manifesta na relação com o liderado por aquilo que ele é, vivendo em primeiro lugar o que propõe como meta a ser alcançada. Isso requer estar em contínuo processo, na busca do sempre mais, da excelência, do aprendizado, sem nunca dar-se por satisfeito e pronto. O líder se constrói na relação contínua, e na busca do aprimoramento pessoal, através de cursos, leituras e ações concretas.
O líder servidor sabe que o trabalho assumido nem sempre é fácil e tranqüilo. Por vezes, situações adversas fazem com ele tenha até tentações de largar tudo. Isso pode ser causado pelo cansaço, e o cansaço pode levar ao desânimo. Nesses momentos parece que tudo está errado, e isso está a indicar que é preciso parar, tomar distância, fazer coisas diferentes e prazerosas, a fim de retomar a escolha feita.
Dias atrás, depois de muito trabalho, eu estava muito cansado. Percebi então em mim um movimento de desânimo, vendo as coisas a partir de uma ótica negativa e pessimista. Na noite daquele dia fui jogar futebol, algo que me dá muito prazer e satisfação. Aqueles momentos diferentes me renovaram, e eu retornei para casa relaxado, de humor novo e transformado.
Vejo que muitos lideres não se dão tempo para o descanso, para o lazer, para fazerem coisas prazerosas, a fim de renovarem seu compromisso frente às escolhas. Vivem batendo na mesma tecla, e tornam-se no andar da carroça chatos, mal humorados, perdendo o brilho e o encantamento pelo trabalho. Esse é um sinal de que é preciso parar, renovar as energias e voltar com o mesmo ânimo e disposição anterior.
As escolhas precisam ser reelaboradas diariamente. Um compromisso assumido requer uma decisão diária no sentido de prosseguir. Nesse sentido podemos dizer que não existem chegadas, mas contínuas partidas. Cada meta alcançada projeta novos investimentos, novas possibilidades e novas escolhas. Como dizia um grande poeta, ‘viver é decidir’. E o líder decide diariamente o prosseguimento no compromisso assumido. Não basta ser bom um dia, mas toda a vida.
Percebo em muitas pessoas uma grande fragilidade interior, com dificuldades de assumirem compromissos para a vida toda. É também conseqüência dessa cultura pós-moderna, onde tudo é relativo, descartável, com pouca durabilidade. Até os prédios são construídos para determinado período, e a sua estrutura é pensada para esse tempo limitado. Isso se percebe depois nas relações entre as pessoas, e nas tarefas assumidas.
Certo autor chama a nossa sociedade de líquida, ou seja, ela se dilui entre os dedos, e nada permanece. Falta a solidez e o perene. Ao escrever sobre isso, me vem em mente os prédios na antiga Roma, com mais de dois mil anos. Uma estrutura sólida, feita para durar eternamente, muito diferente da cultura americana. Dizia-me um professor que um americano, em visita a Roma, ficou escandalizado com o Coliseu, e propôs a demolição do mesmo, e a construção de um shopping em seu lugar. Para os italianos, essa proposta foi motivo de revolta, dado que o Coliseu retrata a história de todo um período romano, e que o fato de estar em pé, continua mantendo a história viva.
A sociedade pós-moderna parece querer demolir os valores perenes, e em seu lugar propõe valores passageiros, efêmeros, líquidos e imediatos.
Observaram-se bem perceberemos que vivemos numa cultura do envolvimento, do agora, do imediato, daquilo que causa prazer nesse momento. Existe uma forte tendência ao relativismo, ao agarrar e soltar, ao começar e terminar, sem a constância e fidelidade necessárias.
O líder servidor assume, e vai até as últimas conseqüências, mesmo que isso lhe cause muita dor e sofrimento. Nesse sentido, Jesus foi o maior líder da história, pois foi fiel até o fim, morrendo na cruz para a nossa salvação. Esse seu gesto de entrega total despertou uma série de seguidores dispostos a seguí-lo plenamente. Ele mesmo afirmou que só poderá segui-lo e salvar-se quem tomar a sua cruz diariamente, e for fiel até o fim.
A liderança é opção diária, fazendo as coisas certas, sendo paciente, gentil, humilde, respeitoso, altruísta, honesto e dedicado. O maior líder é o maior servidor, o mais dedicado a atender as necessidades dos outros. O esforço exigido para ser um líder servidor é enorme, mas a realidade mostra que basta determinação para chegar lá. Conhecimento intelectual não é suficiente e tem pouco valor quando não é colocado em prática.
Quem trabalha numa comunidade sabe que as dificuldades são enormes, pois essa é feita de pessoas diferentes, com posturas diversas, com formação diferente da sua, mas isso não pode ser motivo de desânimo e pior, de desistência.
Pessoalmente acredito que a formação contínua é fundamental. Muitas vezes existe o perigo do ativismo, e da falta de reflexão da ação, e isso pode levar ao esvaziamento e a uma rotina, ou simples repetição, sem entusiasmo e alegria. A formação deve fazer analisar, refletir e reavaliar a caminhada do líder. Aquele que não tem tempo para o estudo, para a análise e reflexão da sua prática, certamente será um grande obstáculo para o bom andamento da comunidade.
Na Igreja, assim como nas empresas, os cursos motivacionais tornam-se cada vez mais necessários. São momentos de renovação, de encher o balde, por vezes esvaziado pelo ativismo, e retomar com mais força e coragem a caminhada.
Enfim, comprometer-se é muito diferente de envolver-se. O envolvimento é passageiro, momentâneo, motivado pelo simples prazer, e quando esse termina, acaba também o gosto e entusiasmo pela tarefa assumida. Comprometer-se, pelo contrário, é agir movido por uma meta, um ideal, um sonho, um projeto, e manter-se firme, mesmo frente aos obstáculos, sofrimentos e imprevistos do cotidiano.
Desejo que você, caro leitor, seja persistente no seu trabalho comunitário, e não desanime, mesmo quando as dificuldades parecem ir além das suas forças. Não esqueça: para cada um Deus deu a cruz que pode carregar.

12. AUTO-ESTIMA E LIDERANÇA - CONCLUSÃO

Depois de 11 capítulos de conversa sobre a liderança, chegou a hora de darmos uma conclusão a essa temática. Para mim foi um trabalho exigente, mas valeu a pena, pois me obrigou parar, avaliar e escrever. Na medida em que lia e escrevia, aprendia, e isso me fazia crescer e avançar.
O título inicial de todos esses capítulos foi ‘auto-estima e liderança’, pois quis mostrar que a liderança não pode caminhar dissociada da auto-estima. Na medida em que nos conhecemos, aceitando nossos limites, trabalhando nossos pontos frágeis e enaltecendo nossas qualidades, nos tornamos líderes mais consistentes e saudáveis. Um líder poderíamos dizer, é aquele que age movido por aquilo que é, pelo seu ser, pelo melhor de si mesmo, e isso naturalmente o coloca em processo, na contínua construção.
Ninguém nasce líder, assim como vamos nos construindo como pessoas. Quando alguém se acomoda, e por uma série de razões acha que já está pronto, certamente irá decrescendo e perdendo a força da sua liderança. A liderança é uma habilidade, isto é, uma capacidade aprendida ou adquirida por meio da educação e da aplicação. Precisa muita motivação, treino e disciplina. Portanto, a liderança é adquirida, pois não nascemos lideres, mas somos feitos lideres durante a caminhada.
Viver com auto-estima é ter a plena consciência de que estamos em continua construção, e que cada chegada é sempre uma partida. Quem se acomoda com a chegada, não fará a experiência da continuação e poderá simplesmente se satisfazer com o alcançado, e isso o levará a um marasmo e esse marasmo poderá determinar um esfriamento e conseqüente acomodação.
Ao longo desses capítulos, refletimos os princípios que regem a vida de um líder. Esses princípios não são algo do nosso tempo, pois dirigem a história da humanidade desde sempre, sobretudo a partir de Jesus Cristo. Se tomarmos em mãos a Bíblia e o texto de 1cor 13 vamos encontrá-los todos ali. Simplesmente nós os aplicamos para os lideres que trabalham nas comunidades.
Ninguém vive plenamente esses princípios, mas vai amadurecendo na conquista e aprimoramento dos mesmos. Assim como dissemos acima, que ninguém nasce líder, mas aprende a ser líder durante o processo.
Certamente, temos mais facilidade para vivermos determinado principio, e dificuldades para deixarmos desabrochar outro. Isso é normal, embora eles interajam entre si, e se complementam mutuamente.
Na medida em que estivermos atentos a eles, a nossa auto-estima também tenderá a aumentar, pois todos eles dizem respeito a cada pessoa de modo único, pessoal e intransferível. Auto-estima requer ação, movimento, mudança, pois do contrário continuaremos estáticos, parados, e quem estaciona, decresce e diminui.
Muitas pessoas que me encontraram durante o ano, expressaram o fato de estarem acompanhando todos os artigos desenvolvidos desde janeiro. Espero que tenham feito uma análise pessoal, para ver se seu trabalho de cristão condiz com esses princípios. Por vezes tendemos a transferir aos outros, como se nós não tivessemos nada mais para aprender.
Confesso que sempre me coloquei em primeiro lugar, buscando ver como eu me portava frente a cada principio. Nós, lideres cristãos, geralmente temos um grave defeito de aplicarmos para os outros, aquilo que serviria muito bem para nós. Usamos aquela velha expressão: “pena que fulano não escutou... não leu... não estava presente... geralmente os que precisariam ouvir não estão presentes”... e assim por diante. Agindo assim, nos colocamos na atitude de produto, feitos, prontos, como se não tivéssemos mais nada para aprender, e assim, deixamos de ser lideres. Porque ser líder é exatamente isso: buscar em primeiro lugar, aprender, perceber-se um barro nas mãos do oleiro, com muito para avançar e mudar.
Os princípios são universais e atemporais, ou seja, eles servem para todos os povos, e em todos os tempos. Muda a cultura, o modo de serem aplicados, mas a sua importância independe dos tempos e dos lugares. Eles determinam profundamente aquilo que definimos como líder servidor. Do contrário, tal pessoa, mesmo que exerça uma série de funções na comunidade, não pode ser considerado líder.
Você seria capaz de enumerar rapidamente os oito princípios desenvolvidos ao longo desse ano? Pare, e antes de continuar, tente lembrá-los. Caso você tenha esquecido algum, vou lhe ajudar a dar uma recapitulada conclusiva.
Dizíamos que o primeiro princípio é a paciência. Ser paciente quer dizer ser capaz de autocontrole. Um líder nunca berra, mas corrige o erro através da disciplina, sabendo que toda mudança requer tempo... E tempo exige paciência.
O segundo principio de um líder servidor é a bondade ou gentileza. Ser bom quer dizer dar atenção, apreciar e incentivar. O bom líder é aquele que olha antes de tudo o lado positivo da pessoa, pois sua percepção seletiva observa em primeiro lugar aquilo que funciona no outro. Atitude nem sempre fácil, pois como seres humanos temos uma tendência natural para darmos destaque para aquilo que não vai que não funciona. É um processo quer requer mudança.
Terceiro principio é a humildade. Ser humilde não tem nada a ver com complexo de inferioridade, no sentido de sentir-se um coitado, um pobre ser humano. É ser capaz de reconhecer suas falhas, aceitar seus limites e aprofundar suas qualidades, e tudo isso, a serviço dos irmãos.
Um quarto principio muito importante é o respeito, ou seja, tratar a cada pessoa com dignidade, como alguém importante. Significa não fazer acepção de pessoas, independente da raça, cor ou grau social. Quantas vezes valorizamos as pessoas que se destacam, e humilhamos os mais frágeis e debilitados.
Quinto principio é a abnegação, isto é, a disposição de abrir mão das nossas necessidades legítimas em vista de uma necessidade maior. É deixar de lado o nosso prazer, o nosso descanso legítimo, quando a necessidade do outro é mais urgente.
Sexto principio de um líder servidor é o perdão. No trabalho comunitário muitas vezes sofremos críticas injustas, somos difamados ou mal falados. Líder cristão não guarda mágoa, mas perdoa, porque o perdão tira o poder do outro sobre ele. Os fracos nunca perdoam, pois o perdão é atributo dos fortes.
Na seqüência, falamos sobre o sétimo princípio do líder servidor, a honestidade. Ser honesto é ser livre de engano. O contrário desse principio é a falsidade, a mentira, a máscara, a falta de autentica de. No entanto, a verdade sempre deve ser dita com ternura, com caridade, como dizia São Paulo.
Enfim, concluímos o nosso percurso sobre a “auto-estima e liderança” falando do último princípio, o compromisso ou fidelidade. Ser líder não por dias, meses ou anos, mas por toda a vida. Não existe um prazo de validade do líder, pois o prazo termina somente no momento da morte. Até lá, o líder continuará agindo, mudando, servindo, com toda alegria e entusiasmo.
Espero que a reflexão feita tenha ajudado a cada um de vocês a refletirem vossas práticas, e buscarem uma mudança, uma melhora gradual, paulatina, mas constante e duradoura.


Pe. André Marmilicz
22.11.2007


Homilia do XVIII Domingo do Tempo Comum (Ano C)

Homilia do XVIII Domingo do Tempo Comum (Ano C) Um homem vem a Jesus pedindo que diga ao irmão que reparta consigo a herança. Depois ...