sábado, 10 de abril de 2010

Homilia do segundo domingo de Páscoa – ano c



Neste segundo domingo da Páscoa celebramos o domingo da Misericórdia Divina. Em 30 de abril de 2000, o Papa João Paulo II canonizou a irmã Faustina Kowalska, testemunha e mensageira do amor misericordioso do Senhor, motivo pelo qual se instituiu esta nova festa que, de modo bastante adequado, entra no ritmo litúrgico e responde às necessidades mais vivas dos homens do terceiro milênio. A elevação à honra dos altares desta humilde religiosa, filha da Polônia, representou um dom para toda a humanidade. A mensagem que ela anunciou é uma resposta adequada e decisiva, dada por Deus às perguntas e expectativas dos homens de nosso tempo, marcado por enormes tragédias. Irmã Faustina em seu diário afirma: "A humanidade não encontrará paz até que se dirija com confiança à Misericórdia Divina" (Diário, p. 132). A misericórdia divina! Este é o dom pascal que a Igreja recebe de Cristo ressuscitado e que oferece para a humanidade na aurora do terceiro milênio (cf. João Paulo II, Homilia do domingo da misericórdia, em 2001).
O salmo 117 (118) nos convida a um canto de gratidão a Deus pelo seu amor eterno, pela sua misericórdia eterna. A segunda leitura, tirada do livro do Apocalipse, ilustra por que o homem não deve temer: Cristo, alfa e ômega, triunfou sobre a morte e vive para sempre. No evangelho, Cristo aparece para os apóstolos e os convida à paz, à confiança, à segurança, porque a misericórdia divina foi derramada em Cristo, nosso Senhor. Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre.
O convite à confiança. "Não tenhas medo. Eu sou o Primeiro e o Último, aquele que vive. Estive morto, mas agora estou vivo para sempre" (Ap 1, 17-18). Na segunda leitura podemos ler estas consoladoras palavras, que nos convidam a olhar para Cristo, para experimentar a sua presença tranqüilizadora. Seja qual for a situação em que estamos, mesmo a mais complexa e dramática, o Ressuscitado repete a cada um de nós: "Não temas"; eu morri na cruz, mas agora "vivo pelo séculos dos séculos". "Eu sou o primeiro e o último, e aquele que vive". Aqui, notamos que Jesus é apresentado na óptica de João como atributos sacerdotais, a túnica longo é sinal da eleição, mas não somente isso, ele é também rei, por isso, o cinto de ouro, sinal da realeza que entrou o ressuscitado. Assim, aquele que morreu na cruz por fidelidade e amor tornou-se causa de santificação e dignidade para todo aquele que nele crer.
"O primeiro", ou seja, a fonte de todo ser e as primícias da nova criação; "o último", o fim definitivo da história; "o que vive", o manancial inesgotável da vida que derrotou a morte para sempre, tudo isso é Cristo Jesus. No Messias crucificado e ressuscitado, reconhecemos as características do Cordeiro imolado no Gólgota, que implora o perdão para os seus carrascos e abre as portas do céu para os pecadores arrependidos. Vislumbramos o rosto do Rei imortal, que já tem "a chave da morte e da região dos mortos" (Ap 1, 18) (cf. João Paulo II, Homilia do domingo da misericórdia, em 2001).
"Dai graças ao Senhor, porque Ele é bom! Eterna é a sua misericórdia!" (Sal 117, 1). Tomemos para nós a exclamação que repetimos no salmo responsorial: a misericórdia do Senhor é eterna. Para compreender a fundo a verdade destas palavras, deixemos que a liturgia nos guie até o coração dos acontecimentos salvíficos, que unem a morte e a ressurreição de Cristo com a nossa existência e a história do mundo. Este prodígio de misericórdia mudou radicalmente o destino da humanidade. É um prodígio em que se manifesta plenamente o amor do Pai, que, buscando a nossa redenção, não retrocede nem sequer diante do sacrifício de seu Filho unigênito.
Falando da misericórdia divina, São Bernardo de Claraval comenta com grande unção no seu sermão 1 na Epifania do Senhor (1-2 PL 133, 141-143): "Agora, a nossa paz não é prometida, mas enviada; não é diferida, mas concedida; não é profetizada, mas realizada: o Pai enviou para a terra uma grande carga de misericórdia; uma carga que será aberta na paixão, para que o preço do nosso resgate, contido nela, se derrame... sob o véu da humanidade (de Cristo), a misericórdia divina foi conhecida, pois quando a humanidade de Deus se revelou, a sua misericórdia já não pôde permanecer oculta. De que maneira Deus poderia manifestar melhor o seu amor do que assumindo a nossa própria carne?... Que o homem compreenda, portanto, até que ponto Deus cuida dele; que reflita sobre o que Deus pensa e sente por ele...”
A grande prova do amor misericordioso de Deus por nós, entre outras, é a cena da Cruz. Para o Papa João Paulo II “A cruz, inclusive depois da ressurreição do Filho de Deus, "fala e não cessa nunca de dizer que Deus Pai é absolutamente fiel ao seu eterno amor pelo homem (...) Crer nesse amor significa crer na misericórdia" (João Paulo II, Dives in misericordia). O amor gera kenose, que por sua vez, emerge a entrega como perdão. Segundo São Leão Magno, “ o aniquilamento pelo qual passou, o salvador, por causa da restauração humana foi dispensação de misericórdia e não privação de poder” ( segundo sermão sobre a ressurreição do Senhor, p. 166). A prova de misericórdia de Deus por nós é a entrega do seu filho para o perdão dos pecadores. Somente o dom misericordioso poder gerar o perdão. Como pelo pleno amor-perdão, o esvaziamento encontra nele a plenitude, pois o invisível tornou-se visível. Por misericórdia, o supratemporal fê-lo temporal, o impassível assumiu a passividade, o rico fez-se pobre, o forte fez-se fraco para que na sua fraqueza o homem se tornasse deus! e nisso reconhecemos o poder de Deus: pois, “a força, porém, não haveria de se consumir na fraqueza, mas a fraqueza se transformaria em poder incorruptível” ( S. Leão Magno, segundo sermão sobre a ressurreição do Senhor, p. 166).
Neste sentido, o evangelho de hoje nos ajuda a captar plenamente o sentido e o valor deste dom. O evangelista São João nos faz compartilhar a emoção que os apóstolos experimentaram durante o encontro com Cristo, depois da sua ressurreição. A nossa atenção se fixa num gesto do mestre, que transmite aos discípulos temerosos e atônitos a missão de serem ministros da misericórdia divina. Mostra-lhes as mãos e o lado com os sinais da paixão e diz: "Como o Pai me enviou, também eu vos envio" (Jo 20, 21). Depois dessas palavras, soprou sobre eles dizendo: "Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; a quem não os perdoardes, serão retidos" (Jo 20, 22-23). “Jesus lhes dá o dom de "perdoar os pecados", um dom que brota das chagas de suas mãos e de seus pés e, sobretudo, de seu lado perfurado. A partir daí, uma onda de misericórdia inunda toda a humanidade” (João Paulo II, homilia do domingo da misericórdia, em 2001). É por isso que dizia São Cipriano de Cartago, que a paz fruto do perdão é o maior dom do Cristianismo. Um cristianismo que não brota o perdão é por natura um anticristo, pois macula a raiz da experiência cristã, que constitui no perdão e na paz.
A novidade da história humana que transmite o cristianismo é essa mensagem de perdão e misericórdia que geram a paz. Essa novidade deve transparecer na comunidade dos renovados pelo batismo. Por isso, a renovação pascal não compreende apenas um revigoramento interior, nem apenas um retornar de algumas boas práticas. Temos de compor um peça nova, sendo uma nova estrutura que atinja o profundo do ser. Daí a mensagem de Jesus ao encontrar os discípulos: a paz esteja convosco! Ora, não há paz onde não existe perdão. Por isso, a missão de quem promove a paz é construir uma comunidade de perdão e misericórdia. Essa missão foi e é sempre atual. Páscoa é isso: misericórdia que promove a paz!!

Pe. Fantico Nonato Silva Borges

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Discípulos e Missionários de Jesus Cristo

Dom Benedito Beni dos Santos
Bispo Auxiliar de São Paulo

Introdução
Pretendo apresentar uma breve reflexão sobre o Documento de Participação à Quinta Assembléia do Episcopado da América Latina e do Caribe. Existe uma continuidade entre as cinco Assembléias. Todas elas tiveram, como objetivo, a evangelização. A próxima vai reforçar ainda mais esse objetivo, pois trata-se, em última análise, de promover uma grande missão em toda a América Latina e Caribe. As cinco Assembléias expressam, de certo modo, a tradição pastoral das Igrejas do nosso continente. Fonte próxima dessa tradição é o Concílio Ecumênico Vaticano. Na doutrina do Concílio, não só encontramos uma nova eclesiologia, mas, na realidade, um projeto eclesiológico.
Esse projeto eclesiológico foi assumido, pela primeira vez, e contextualizado, na América Latina, pela Assembléia de Medellín. Medellín procurou sublinhar a presença dos pobres na Igreja. Trata-se de uma presença que leva a Igreja a redefinir sua presença no mundo. Suas prioridades pastorais e, às vezes, até mesmo, o seu modo de organizar-se. Os pobres merecem uma atenção especial da Igreja, comunidade do seguimento de Jesus. A partir de Medellín, começou-se a falar da evangélica opção pelos pobres como uma das fontes inspiradora da missão evangelizadora da Igreja e de sua pastoral. A Igreja quer ser de todos, dizia João XXIII, mas, de modo especial, dos pobres.
O Vaticano II apresentou, como marca sua, a eclesiologia de comunhão. Nessa esteira, Medellín procurou acentuar a dimensão comunitária na organização da Igreja. A Igreja, organizada em forma de paróquia ou de pequenas comunidades, deve oferecer um espaço para o desenvolvimento de relações intersubjetivas: proximidade, conhecimento, amizade, fraternidade, luta em comum. Mais tarde, com essa mesma inspiração do Vaticano II, João Paulo II, vai dizer que a Igreja deve ser a escola da comunhão. Trata-se de uma escola que educa para a comunhão pela própria vivência, pelo modo de se organizar. Comunhão que é fruto não simplesmente de um esforço voluntarista, mas da ação da graça. Portanto, comunhão que implica vida de fé, vida sacramental e orante. Sobretudo, vida eucarística.
Medellín, seguindo ainda o projeto eclesiológico do Vaticano II, procurou sublinhar a face laical da Igreja no sentido teológico. A vocação e a missão do leigo se fundamentam no batismo e na confirmação e, de modo complementar, no sacramento do matrimônio. Os leigos não são apenas destinatários da missão da Igreja. São também sujeito eclesial. São também responsáveis pela vida eclesial. Mesmo onde não é possível a presença direta do bispo e do presbítero, deve haver uma vida eclesial, sobretudo orante e evangelizadora, coordenada pelos ministérios não ordenados.
Igreja evangelizadora é, ao mesmo tempo, militante e profética. Ela procura estar atenta à realidade, à organização da sociedade, para anunciar a Boa-Nova; denunciar o pecado e suas conseqüências no plano individual e social, em vista da conversão e da salvação.
Foi, por esse rumo, que Medellín procurou colocar em prática, na América Latina, o projeto eclesiológico do Vaticano II. Esse esforço de Medellín foi continuado e aprofundado pelas assembléias de Puebla e S. Domingo. E, agora, está sendo conscientemente assumido, alargado e aprofundado, pela quinta Assembléia, a ser realizada em Aparecida do Norte, em 2007. Trata-se de uma tradição pastoral que, cada vez mais, vai se consolidando e aprofundando.
Com ouvido colado no coração de Deus
Os textos do Magistério da Igreja, de natureza pastoral, têm procurado sempre apresentar uma visão da realidade. As práticas pastorais precisam ser respostas adequadas à realidade em que a Igreja está inserida. O Documento de Participação à Quinta Assembléia apresenta a visão da realidade latino-americana no capítulo quarto e não no início. Trata-se apenas de uma preferência metodológica. Creio, porém, que a visão da realidade, apresentada como ponto de partida, ajuda a compreender melhor não só as práticas pastorais propostas pelo texto, mas também o seu conteúdo antropológico, histórico, bíblico e teológico.
A perspectiva para a visão da realidade, adotada pelo DP, é bonita e significativa: “Devemos olhar a realidade com o ouvido colado no coração de Deus e a mão no pulso do tempo”(96). Só essa perspectiva nos permite, de fato, olhar a realidade não só pela superfície, como mero dado empírico, mas, para além do empírico, procurando descobrir o seu sentido. Em nosso caso, o seu sentido teológico, isto é, os sinais do tempo.
O Documento faz um elenco de fatos, que já foram levados em consideração pelas últimas Assembléias, mas que persistem até aos nossos dias. Por exemplo, a pobreza, a educação funcionalista, o narcotráfico e o uso de drogas; no campo político, o não cumprimento das promessas de campanha, a corrupção e o enfraquecimento do poder do Estado. Alguns desses males até se agravaram. No campo religioso, alguns males se tornaram mais agudos: secularismo, laicismo militante, que hoje se manifesta publicamente com um grau forte de agressividade com relação à Igreja. Laicismo autoritário que nega à Igreja o direito de manifestar publicamente suas convicções em questões morais e políticas. Esse laicismo se esquece de que a Igreja é uma instituição da sociedade civil e, por isso mesmo, tem o direito de manifestar suas convicções e lutar democraticamente para que elas sejam adotadas no plano jurídico.
Outros componentes da realidade são novos, pelo menos com relação à intensidade com que se manifestam. Recordemos, a título de exemplo, a investigação genética que, cada dia, surpreende a todos com novas descobertas. Essas investigações são promissoras no campo da saúde, mas, freqüentemente, envolvidas por problemas éticos graves. A consideração ética dessas pesquisas é necessária para evitar conseqüências desastrosas para dignidade do ser humano. O Documento cita ainda problemas referentes à ecologia natural e humana. No campo da ecologia natural, houve um progresso significativo no sentido não só de preservar a natureza e dela cuidar, mas, em alguns casos, de até mesmo salvá-la. No campo da ecologia humana, o progresso não foi tão significativo, pois acentuou-se o enfraquecimento da identidade do matrimônio e da família. Difunde-se cada vez mais os postulados de uma ética individualista, acompanhada do relativismo moral.
No plano especificamente religioso, o Documento de Participação se refere, diversas vezes, ao substrato católico de nossa cultura, resultado da presença evangelizadora da Igreja no continente, desde de seu início. Expressões desse substrato católico são, por exemplo, o sentido radical da existência presente na vida do povo; a religiosidade e piedade popular em suas modalidades características; o profundo sentido da importância e do valor da família.
Alguns problemas presentes no campo religioso são, de certo modo, novos e, por isso, não foram contemplados pelas Assembléias anteriores. O DP cita o enfraquecimento da observância religiosa do domingo; a diminuição, sobretudo no meio urbano, na recepção dos sacramentos do batismo e do matrimônio; a diminuição acelerada do número de católicos e o crescimento numérico das igrejas evangélicas e seitas. Como causa desse último fenômeno, podemos citar o pluralismo religioso, que leva as pessoas a reduzir todas as igrejas e religiões a um denominador comum, como se todas fossem iguais. Por isso mesmo, o pluralismo religioso vem sempre acompanhado de uma intensa mobilidade religiosa. Mas existem causas que se encontram no interior da Igreja. O êxodo dos católicos indica que a Igreja não está evangelizando e re-evangelizando suficientemente aqueles que batiza. Indica que ela não está sendo suficientemente missionária.
A leitura da realidade presente feita pelo DP visa, pois, descobrir, na própria realidade, os desafios pastorais para que possamos encontrar, à luz da Palavra de Deus e da experiência pastoral da Igreja, respostas adequadas. Visa encontrar, na própria realidade, os sinais dos tempos, as interpelações de Deus, o Senhor da história.
2. O ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus
A primeira consideração do DP é apresentar o fundamento antropológico da missão: os desejos de vida e felicidade que existem no mais profundo do nosso ser. Mas, ao mesmo tempo, o ser humano faz a experiência de que a vida e a felicidade em plenitude superam as possibilidades simplesmente humanas. Esse desejo de vida e felicidade plena expressa a sede de Deus que existe no coração humano. De fato, o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus. Existe, nele, algo de divino. Existe uma busca de comunhão com o Divino. O salmo 12 registra essa busca: “É a vossa face, Senhor, que eu procuro”.
Por causa do pecado, essa busca de felicidade plena trilha, às vezes, caminhos errados (cf.n.4). Isso já aconteceu quando o ser humano pecou pela primeira vez. Mas, a resposta de Deus, registrada pela Revelação, consistiu em colocar novamente o ser humano no caminho certo da felicidade plena. Logo após o pecado, observa o DP, Deus não abandona o ser humano. Como Pai e Pastor o procura e lhe promete o dom da salvação. Mais ainda: faz alianças com representantes da humanidade (Abel, Noé). Dessas alianças surgem verdadeiras experiências religiosas voltadas para a adoração de Deus e a busca da salvação.
Na aliança do Sinai, Deus escolhe Israel para ser um povo missionário. Revela-se a ele, para que Israel proclame o seu nome a todos os povos da terra. Dá-lhe os dez mandamentos, que indicam o caminho certo para encontrar a felicidade. Na encarnação de seu Filho, Deus de tal modo se aproxima do ser humano que Ele mesmo se torna um ser humano. Na expressão da Gaudium et Spes, o Filho de Deus se une a cada ser humano.Não só revela Deus ao homem, mas revela o homem ao próprio homem. Revela a ele a sua dignidade sagrada e a sua vocação divina, o chamado para a vida plena. Jesus, no sermão das bem-aventuranças, programa de vida seu e de seus discípulos, proclama o novo código da felicidade. Com as bem-aventuranças, Jesus convida seus discípulos não à resignação e à passividade. Convida-os a se colocarem de pé e a percorrer no mundo um novo caminho.
A Igreja é a comunidade dos discípulos de Jesus. E a finalidade do discipulado é a missão. A primeira coisa que Jesus faz, quando inicia o seu ministério na Galiléia, é reunir discípulos. O evangelho nos mostra Jesus sempre rodeado de discípulos. Ele não cumpre a sua missão sozinho. Jesus tem discípulos não para servi-lo, mas para prepará-los, teórica e praticamente, para a missão. Os evangelhos terminam, com Jesus enviando seus discípulos em missão. A Igreja, comunidade de seus discípulos, é a continuadora de sua missão na terra. O DP recorda, a propósito, a lei do discipulado: carregar a cruz. Expressão que, na Igreja primitiva, designa o martírio. Não só o martírio de derramar o próprio sangue como testemunho de Cristo e de seu evangelho, mas, também, o testemunho de gastar a própria vida no empenho de anunciar Cristo e o evangelho. O martírio, pois, em ambos os casos, é componente da missão. É um ato evangelizador.
Ao mostrar o fundamento antropológico da missão -o desejo de vida e felicidade plena como expressão da sede de Deus- o DP quer mostrar que a missão não é uma superestrutura, algo acrescentado à vida de um povo, à sua cultura. A missão é resposta a uma busca. Existe no coração humano, como lembrou João Paulo II, a busca misteriosa de Alguém que seja, de fato, o Caminho, a Verdade e a Vida. O pedido dos gregos, registrado no quarto evangelho, expressa esse anseio misterioso: “Queremos ver Jesus”.
3. A missão: uma corrente de amizade com Deus, de vida e promoção humana
A história da Igreja na América Latina é a história da missão, isto é, desenrolar da história da salvação, expressão do desígnio salvífico de Deus. Diz o DP: “Por um sábio e bondoso desígnio da Providência divina, chegou até as terras do Continente essa corrente de amizade com Deus, de vida nova e promoção humana, que Jesus Cristo iniciou em sua Encarnação e sua Páscoa, e que o Espírito Santo, com força pentecostal, impulsiona ao longo dos séculos” (n.21).
A missão não se inicia jamais a partir da estaca zero. O primeiro missionário é o Espírito Santo. Ele chega antes de qualquer missionário humano para preparar o terreno, nele espargindo as sementes do Verbo, a que se referem os Padres Apologetas. Semente do Verbo são aqueles valores evangélicos que o Espírito divino espalha na cultura e na vida dos povos: desejo de justiça, de paz, de fraternidade, sede de Deus, anseio misterioso de encontrar Alguém que seja, de fato, Caminho, Verdade e Vida. É neste terreno preparado pelo orvalho divino, derramado pelo Espírito, que o missionário lança a semente da Palavra de Deus. Sem essa ação preparatória do Espírito, a semente da Palavra cairia sobre o asfalto duro. Sem essa ação, a evangelização seria algo acidental na vida das pessoas. Quando o Evangelho chegou, pela primeira vez, ao nosso Continente, o Espírito Santo já havia preparado o terreno, espargindo, na vida dos povos do Continente, as sementes do Verbo. A isso faz referência o seguinte texto do DP: “Neles, as sementes do Verbo, que estavam presentes em um profundo senso religioso, esperavam o orvalho fecundo do Espírito. Eram muitos os valores que caracterizavam e que os predispunham a uma recepção mais pronta do Evangelho” (n.22).
A divina Providência, porém, usou de um outro meio, logo no início, “para abrir as portas do coração dos povos autóctones para Jesus Cristo, Boa Nova do Pai para a sua vida: a aparição da Virgem de Guadalupe” (n.23). No rosto de Maria, como afirmou João Paulo II no discurso de abertura da II Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, encarnavam-se os autênticos valores culturais indígenas.
A missão, enquanto ação humana, está envolvida não só por luzes, mas também por sombras. As vicissitudes históricas também atingem a ação missionária. O DP se refere a um verdadeiro holocausto dos indígenas realizado pela ocupação dos assim chamados colonizadores. Mas, por outro lado, houve também intrépidos lutadores pela justiça, evangelizadores da paz (cf.n.25).
A missão, conforme nos mostra o livro dos Atos, encontra sempre obstáculos. Vence-os, porém, na força do Espírito. Também, na América Latina, a ação missionária sempre encontrou obstáculos, até mesmo crises eclesiais. A fundação do CELAM, em 1955, e as diversas assembléias do episcopado por ele promovidas tem sido instrumentos para promover a missão e ajudá-la a vencer os obstáculos.
A missão evangelizadora da Igreja foi enriquecida ultimamente com diversos dons da bondade e sabedoria do Pai. O DP cita, de modo especial, a realização do Concílio Ecumênico Vaticano II que fez surgir, am toda América latina, paróquias missionárias, ministros da Palavra, renovação litúrgica, valorização da piedade popular, diáconos permanentes, pastoral presbiteral, diálogo ecumênico e inter-religioso, dinamização da pastoral da juventude e da pastoral vocacional. Dons da bondade e sabedoria do Pai, foram ainda, segundo o DP, a opção preferencial pelos pobres, a teologia da libertação e a nova evangelização, lançada pelo Papa João Paulo II. Seu pontificado foi também um grande dom da bondade e sabedoria do Pai (cf.n.33).
Em resumo, com sua ação missionária, a Igreja procurou, desde do início, dar uma resposta àqueles que buscavam, às apalpadelas, satisfazer à sede de busca de sentido, felicidade e transcendência (cf. n.32).
4. Discípulos e missionários
O cristianismo não é, antes de tudo, uma doutrina. Ele teve origem num acontecimento: a encarnação do Filho de Deus: “Quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho ao mundo, o qual nasceu de uma mulher”. Na encarnação de seu Filho, Deus de tal modo se aproximou do ser humano que Ele mesmo se tornou um ser humano. O cristianismo se iniciou nesse encontro. Esse encontro, como recorda o DP, é a razão da nossa fé. A Igreja vive desse encontro. Ele revela quem nós somos, de onde viemos e para onde vamos. A missão da Igreja é levar todos ao encontro com Jesus. Esse encontro, como mostra o episódio da Samaritana, de Zaqueu, leva a uma revisão de vida e à conversão. Esse encontro é a fonte do discipulado e da missão.
O evangelho mostra que ser discípulo de Jesus é fruto de uma vocação. É ele quem chama. A resposta só é possível através da ação da graça: “Ninguém pode vir a mim, se o Pai não o atrair”. A resposta é algo muito profundo: consiste em encontrar-se com Jesus e acolhê-lo em nossa vida. Isso muda o rumo da vida da pessoa. A acolhida de Jesus em nossa vida, implica também em viver de acordo com os seus ensinamentos. Jesus é também mestre.
Jesus reúne discípulos não para servi-lo, mas para prepará-los para a missão. A finalidade do discipulado é a missão. Por isso, a Igreja é uma comunidade de comunhão com Cristo em vista da missão. A dimensão comunitária e a dimensão missionária são as características principais da Igreja. A partir daí, podemos compreender a importância da Eucaristia. “Para que essa comunhão com ele fosse cada vez mais plena, Jesus Cristo se entregou a seus discípulos como o Pão da vida eterna e os convidou na Eucaristia a participar de sua páscoa” (n.52). É na Eucaristia que a Igreja expressa a sua identidade e nela cresce. Como mostra o episódio de Emaús, a missão tem a sua fonte principal no encontro com o Cristo vivo presente na Eucaristia. A Eucaristia alimenta a missão: “Eu estarei convosco todos os dias até o final dos tempos”. Jesus pronunciou essas palavras, ao enviar os apóstolos em missão. A Eucaristia é também o objetivo da missão: levar a todos ao encontro com o Cristo vivo para que se tornem seus discípulos e missionários.
5. Para que nele nossos povos tenham vida
Esse é o título do último capítulo do DP. Trata da atividade pastoral. É por meio da pastoral que a o anúncio da Boa Nova se torna boa realidade para os que procuram um sentido para vida; para os que tem fome de Deus; para os pobres e todos os que sofrem. O DP ensina que Igreja, Eucaristia e amor ao próximo são inseparáveis. O amor ao próximo prolonga a diaconia de Cristo.
À semelhança do livro dos Atos que ficou de certo modo inacabado para mostrar que a missão deve continuar, também o DP está um pouco inacabado. O último capítulo não está pronto. Ele deve ser escrito com a contribuição de todas as comunidades da América Latina e do Caribe. Trata-se, agora, de elaborar as práticas pastorais e missionárias para todo o Continente. O DP enumera apenas alguns núcleos para despertar a criatividade:
Formação de discípulos e missionários
Existe ainda muito descuido, sobretudo, na formação dos leigos para a missão. Esta é uma das causas da diminuição do número de católicos, do abandono da prática dos sacramentos: batismo, crisma e matrimônio. Nossas paróquias precisam ser não só comunidades de acolhida, mas também comunidades missionárias, comunidades que vão ao encontro. A vida das paróquias precisa girar não só em torno do eixo sacramental, mas, igualmente, do eixo da Palavra. Formação mais intensa de discípulos e missionários. Está aí um grande desafio.
Defesa e promoção da vida
Nunca a vida dos inocentes esteve tão ameaçada como em nossos dias. Muitos se esquecem de uma verdade simples e evidente: como a vida é um dom fundamental e sagrado, cada ser humano deve ser um servidor da vida, da vida sua e da vida de qualquer ser humano. Servidor da vida que apenas está se iniciando e também da vida em desenvolvimento. Servidor da vida que nasce plena e forte, mas também servidor da vida que nasce frágil e com defeito. Servidor da vida em seu início, mas também servidor da vida que está se aproximando de seu fim natural. Servidor e defensor da vida devem ser os agentes do Estado de direito, pois a essência da missão do Estado é a defesa e a promoção da vida.
A defesa da vida é um valor suprapartidário, no sentido que deve inspirar qualquer política que esteja a serviço da pessoa humana e da sociedade. É também um valor supra -religioso. A inviolabilidade da vida humana, desde seu início até o seu fim natural, é uma questão de direito natural. Os cristãos encontram em sua fé um motivo a mais para defender esse direito. Não se trata, pois, de impor à sociedade ou ao Estado laico uma convicção religiosa, mas levá-lo a respeitar um direito do ser humano. A Igreja, enquanto instituição da sociedade civil, não só pode, mas tem o dever de assim agir.Grande missão continental
Aqui se encontra, a meu ver, a grande intuição do DP. Através da Quinta Conferência, envolver toda a Igreja numa grande missão continental. Neste sentido, a Conferência de Aparecida, não só estará continuando a tradição das Assembléias precedentes, mas realizando um salto qualitativo, que mudará a face pastoral da Igreja e aprofundará a sua presença na sociedade. Para isso, é necessário um empenho de todos a começar desde agora, desde essa fase de preparação que está se iniciando.

Discípulos e Missionários de Jesus Cristo

Discípulos e Missionários de Jesus Cristo

Dom Benedito Beni dos Santos
Bispo Auxiliar de São Paulo

Introdução
Pretendo apresentar uma breve reflexão sobre o Documento de Participação à Quinta Assembléia do Episcopado da América Latina e do Caribe. Existe uma continuidade entre as cinco Assembléias. Todas elas tiveram, como objetivo, a evangelização. A próxima vai reforçar ainda mais esse objetivo, pois trata-se, em última análise, de promover uma grande missão em toda a América Latina e Caribe. As cinco Assembléias expressam, de certo modo, a tradição pastoral das Igrejas do nosso continente. Fonte próxima dessa tradição é o Concílio Ecumênico Vaticano. Na doutrina do Concílio, não só encontramos uma nova eclesiologia, mas, na realidade, um projeto eclesiológico.
Esse projeto eclesiológico foi assumido, pela primeira vez, e contextualizado, na América Latina, pela Assembléia de Medellín. Medellín procurou sublinhar a presença dos pobres na Igreja. Trata-se de uma presença que leva a Igreja a redefinir sua presença no mundo. Suas prioridades pastorais e, às vezes, até mesmo, o seu modo de organizar-se. Os pobres merecem uma atenção especial da Igreja, comunidade do seguimento de Jesus. A partir de Medellín, começou-se a falar da evangélica opção pelos pobres como uma das fontes inspiradora da missão evangelizadora da Igreja e de sua pastoral. A Igreja quer ser de todos, dizia João XXIII, mas, de modo especial, dos pobres.
O Vaticano II apresentou, como marca sua, a eclesiologia de comunhão. Nessa esteira, Medellín procurou acentuar a dimensão comunitária na organização da Igreja. A Igreja, organizada em forma de paróquia ou de pequenas comunidades, deve oferecer um espaço para o desenvolvimento de relações intersubjetivas: proximidade, conhecimento, amizade, fraternidade, luta em comum. Mais tarde, com essa mesma inspiração do Vaticano II, João Paulo II, vai dizer que a Igreja deve ser a escola da comunhão. Trata-se de uma escola que educa para a comunhão pela própria vivência, pelo modo de se organizar. Comunhão que é fruto não simplesmente de um esforço voluntarista, mas da ação da graça. Portanto, comunhão que implica vida de fé, vida sacramental e orante. Sobretudo, vida eucarística.
Medellín, seguindo ainda o projeto eclesiológico do Vaticano II, procurou sublinhar a face laical da Igreja no sentido teológico. A vocação e a missão do leigo se fundamentam no batismo e na confirmação e, de modo complementar, no sacramento do matrimônio. Os leigos não são apenas destinatários da missão da Igreja. São também sujeito eclesial. São também responsáveis pela vida eclesial. Mesmo onde não é possível a presença direta do bispo e do presbítero, deve haver uma vida eclesial, sobretudo orante e evangelizadora, coordenada pelos ministérios não ordenados.
Igreja evangelizadora é, ao mesmo tempo, militante e profética. Ela procura estar atenta à realidade, à organização da sociedade, para anunciar a Boa-Nova; denunciar o pecado e suas conseqüências no plano individual e social, em vista da conversão e da salvação.
Foi, por esse rumo, que Medellín procurou colocar em prática, na América Latina, o projeto eclesiológico do Vaticano II. Esse esforço de Medellín foi continuado e aprofundado pelas assembléias de Puebla e S. Domingo. E, agora, está sendo conscientemente assumido, alargado e aprofundado, pela quinta Assembléia, a ser realizada em Aparecida do Norte, em 2007. Trata-se de uma tradição pastoral que, cada vez mais, vai se consolidando e aprofundando.
1. Com ouvido colado no coração de Deus
Os textos do Magistério da Igreja, de natureza pastoral, têm procurado sempre apresentar uma visão da realidade. As práticas pastorais precisam ser respostas adequadas à realidade em que a Igreja está inserida. O Documento de Participação à Quinta Assembléia apresenta a visão da realidade latino-americana no capítulo quarto e não no início. Trata-se apenas de uma preferência metodológica. Creio, porém, que a visão da realidade, apresentada como ponto de partida, ajuda a compreender melhor não só as práticas pastorais propostas pelo texto, mas também o seu conteúdo antropológico, histórico, bíblico e teológico.
A perspectiva para a visão da realidade, adotada pelo DP, é bonita e significativa: “Devemos olhar a realidade com o ouvido colado no coração de Deus e a mão no pulso do tempo”(96). Só essa perspectiva nos permite, de fato, olhar a realidade não só pela superfície, como mero dado empírico, mas, para além do empírico, procurando descobrir o seu sentido. Em nosso caso, o seu sentido teológico, isto é, os sinais do tempo.
O Documento faz um elenco de fatos, que já foram levados em consideração pelas últimas Assembléias, mas que persistem até aos nossos dias. Por exemplo, a pobreza, a educação funcionalista, o narcotráfico e o uso de drogas; no campo político, o não cumprimento das promessas de campanha, a corrupção e o enfraquecimento do poder do Estado. Alguns desses males até se agravaram. No campo religioso, alguns males se tornaram mais agudos: secularismo, laicismo militante, que hoje se manifesta publicamente com um grau forte de agressividade com relação à Igreja. Laicismo autoritário que nega à Igreja o direito de manifestar publicamente suas convicções em questões morais e políticas. Esse laicismo se esquece de que a Igreja é uma instituição da sociedade civil e, por isso mesmo, tem o direito de manifestar suas convicções e lutar democraticamente para que elas sejam adotadas no plano jurídico.
Outros componentes da realidade são novos, pelo menos com relação à intensidade com que se manifestam. Recordemos, a título de exemplo, a investigação genética que, cada dia, surpreende a todos com novas descobertas. Essas investigações são promissoras no campo da saúde, mas, freqüentemente, envolvidas por problemas éticos graves. A consideração ética dessas pesquisas é necessária para evitar conseqüências desastrosas para dignidade do ser humano. O Documento cita ainda problemas referentes à ecologia natural e humana. No campo da ecologia natural, houve um progresso significativo no sentido não só de preservar a natureza e dela cuidar, mas, em alguns casos, de até mesmo salvá-la. No campo da ecologia humana, o progresso não foi tão significativo, pois acentuou-se o enfraquecimento da identidade do matrimônio e da família. Difunde-se cada vez mais os postulados de uma ética individualista, acompanhada do relativismo moral.
No plano especificamente religioso, o Documento de Participação se refere, diversas vezes, ao substrato católico de nossa cultura, resultado da presença evangelizadora da Igreja no continente, desde de seu início. Expressões desse substrato católico são, por exemplo, o sentido radical da existência presente na vida do povo; a religiosidade e piedade popular em suas modalidades características; o profundo sentido da importância e do valor da família.
Alguns problemas presentes no campo religioso são, de certo modo, novos e, por isso, não foram contemplados pelas Assembléias anteriores. O DP cita o enfraquecimento da observância religiosa do domingo; a diminuição, sobretudo no meio urbano, na recepção dos sacramentos do batismo e do matrimônio; a diminuição acelerada do número de católicos e o crescimento numérico das igrejas evangélicas e seitas. Como causa desse último fenômeno, podemos citar o pluralismo religioso, que leva as pessoas a reduzir todas as igrejas e religiões a um denominador comum, como se todas fossem iguais. Por isso mesmo, o pluralismo religioso vem sempre acompanhado de uma intensa mobilidade religiosa. Mas existem causas que se encontram no interior da Igreja. O êxodo dos católicos indica que a Igreja não está evangelizando e re-evangelizando suficientemente aqueles que batiza. Indica que ela não está sendo suficientemente missionária.
A leitura da realidade presente feita pelo DP visa, pois, descobrir, na própria realidade, os desafios pastorais para que possamos encontrar, à luz da Palavra de Deus e da experiência pastoral da Igreja, respostas adequadas. Visa encontrar, na própria realidade, os sinais dos tempos, as interpelações de Deus, o Senhor da história.
2. O ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus
A primeira consideração do DP é apresentar o fundamento antropológico da missão: os desejos de vida e felicidade que existem no mais profundo do nosso ser. Mas, ao mesmo tempo, o ser humano faz a experiência de que a vida e a felicidade em plenitude superam as possibilidades simplesmente humanas. Esse desejo de vida e felicidade plena expressa a sede de Deus que existe no coração humano. De fato, o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus. Existe, nele, algo de divino. Existe uma busca de comunhão com o Divino. O salmo 12 registra essa busca: “É a vossa face, Senhor, que eu procuro”.
Por causa do pecado, essa busca de felicidade plena trilha, às vezes, caminhos errados (cf.n.4). Isso já aconteceu quando o ser humano pecou pela primeira vez. Mas, a resposta de Deus, registrada pela Revelação, consistiu em colocar novamente o ser humano no caminho certo da felicidade plena. Logo após o pecado, observa o DP, Deus não abandona o ser humano. Como Pai e Pastor o procura e lhe promete o dom da salvação. Mais ainda: faz alianças com representantes da humanidade (Abel, Noé). Dessas alianças surgem verdadeiras experiências religiosas voltadas para a adoração de Deus e a busca da salvação.
Na aliança do Sinai, Deus escolhe Israel para ser um povo missionário. Revela-se a ele, para que Israel proclame o seu nome a todos os povos da terra. Dá-lhe os dez mandamentos, que indicam o caminho certo para encontrar a felicidade. Na encarnação de seu Filho, Deus de tal modo se aproxima do ser humano que Ele mesmo se torna um ser humano. Na expressão da Gaudium et Spes, o Filho de Deus se une a cada ser humano.Não só revela Deus ao homem, mas revela o homem ao próprio homem. Revela a ele a sua dignidade sagrada e a sua vocação divina, o chamado para a vida plena. Jesus, no sermão das bem-aventuranças, programa de vida seu e de seus discípulos, proclama o novo código da felicidade. Com as bem-aventuranças, Jesus convida seus discípulos não à resignação e à passividade. Convida-os a se colocarem de pé e a percorrer no mundo um novo caminho.
A Igreja é a comunidade dos discípulos de Jesus. E a finalidade do discipulado é a missão. A primeira coisa que Jesus faz, quando inicia o seu ministério na Galiléia, é reunir discípulos. O evangelho nos mostra Jesus sempre rodeado de discípulos. Ele não cumpre a sua missão sozinho. Jesus tem discípulos não para servi-lo, mas para prepará-los, teórica e praticamente, para a missão. Os evangelhos terminam, com Jesus enviando seus discípulos em missão. A Igreja, comunidade de seus discípulos, é a continuadora de sua missão na terra. O DP recorda, a propósito, a lei do discipulado: carregar a cruz. Expressão que, na Igreja primitiva, designa o martírio. Não só o martírio de derramar o próprio sangue como testemunho de Cristo e de seu evangelho, mas, também, o testemunho de gastar a própria vida no empenho de anunciar Cristo e o evangelho. O martírio, pois, em ambos os casos, é componente da missão. É um ato evangelizador.
Ao mostrar o fundamento antropológico da missão -o desejo de vida e felicidade plena como expressão da sede de Deus- o DP quer mostrar que a missão não é uma superestrutura, algo acrescentado à vida de um povo, à sua cultura. A missão é resposta a uma busca. Existe no coração humano, como lembrou João Paulo II, a busca misteriosa de Alguém que seja, de fato, o Caminho, a Verdade e a Vida. O pedido dos gregos, registrado no quarto evangelho, expressa esse anseio misterioso: “Queremos ver Jesus”.
3. A missão: uma corrente de amizade com Deus, de vida e promoção humana
A história da Igreja na América Latina é a história da missão, isto é, desenrolar da história da salvação, expressão do desígnio salvífico de Deus. Diz o DP: “Por um sábio e bondoso desígnio da Providência divina, chegou até as terras do Continente essa corrente de amizade com Deus, de vida nova e promoção humana, que Jesus Cristo iniciou em sua Encarnação e sua Páscoa, e que o Espírito Santo, com força pentecostal, impulsiona ao longo dos séculos” (n.21).
A missão não se inicia jamais a partir da estaca zero. O primeiro missionário é o Espírito Santo. Ele chega antes de qualquer missionário humano para preparar o terreno, nele espargindo as sementes do Verbo, a que se referem os Padres Apologetas. Semente do Verbo são aqueles valores evangélicos que o Espírito divino espalha na cultura e na vida dos povos: desejo de justiça, de paz, de fraternidade, sede de Deus, anseio misterioso de encontrar Alguém que seja, de fato, Caminho, Verdade e Vida. É neste terreno preparado pelo orvalho divino, derramado pelo Espírito, que o missionário lança a semente da Palavra de Deus. Sem essa ação preparatória do Espírito, a semente da Palavra cairia sobre o asfalto duro. Sem essa ação, a evangelização seria algo acidental na vida das pessoas. Quando o Evangelho chegou, pela primeira vez, ao nosso Continente, o Espírito Santo já havia preparado o terreno, espargindo, na vida dos povos do Continente, as sementes do Verbo. A isso faz referência o seguinte texto do DP: “Neles, as sementes do Verbo, que estavam presentes em um profundo senso religioso, esperavam o orvalho fecundo do Espírito. Eram muitos os valores que caracterizavam e que os predispunham a uma recepção mais pronta do Evangelho” (n.22).
A divina Providência, porém, usou de um outro meio, logo no início, “para abrir as portas do coração dos povos autóctones para Jesus Cristo, Boa Nova do Pai para a sua vida: a aparição da Virgem de Guadalupe” (n.23). No rosto de Maria, como afirmou João Paulo II no discurso de abertura da II Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, encarnavam-se os autênticos valores culturais indígenas.
A missão, enquanto ação humana, está envolvida não só por luzes, mas também por sombras. As vicissitudes históricas também atingem a ação missionária. O DP se refere a um verdadeiro holocausto dos indígenas realizado pela ocupação dos assim chamados colonizadores. Mas, por outro lado, houve também intrépidos lutadores pela justiça, evangelizadores da paz (cf.n.25).
A missão, conforme nos mostra o livro dos Atos, encontra sempre obstáculos. Vence-os, porém, na força do Espírito. Também, na América Latina, a ação missionária sempre encontrou obstáculos, até mesmo crises eclesiais. A fundação do CELAM, em 1955, e as diversas assembléias do episcopado por ele promovidas tem sido instrumentos para promover a missão e ajudá-la a vencer os obstáculos.
A missão evangelizadora da Igreja foi enriquecida ultimamente com diversos dons da bondade e sabedoria do Pai. O DP cita, de modo especial, a realização do Concílio Ecumênico Vaticano II que fez surgir, am toda América latina, paróquias missionárias, ministros da Palavra, renovação litúrgica, valorização da piedade popular, diáconos permanentes, pastoral presbiteral, diálogo ecumênico e inter-religioso, dinamização da pastoral da juventude e da pastoral vocacional. Dons da bondade e sabedoria do Pai, foram ainda, segundo o DP, a opção preferencial pelos pobres, a teologia da libertação e a nova evangelização, lançada pelo Papa João Paulo II. Seu pontificado foi também um grande dom da bondade e sabedoria do Pai (cf.n.33).
Em resumo, com sua ação missionária, a Igreja procurou, desde do início, dar uma resposta àqueles que buscavam, às apalpadelas, satisfazer à sede de busca de sentido, felicidade e transcendência (cf. n.32).
4. Discípulos e missionários
O cristianismo não é, antes de tudo, uma doutrina. Ele teve origem num acontecimento: a encarnação do Filho de Deus: “Quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho ao mundo, o qual nasceu de uma mulher”. Na encarnação de seu Filho, Deus de tal modo se aproximou do ser humano que Ele mesmo se tornou um ser humano. O cristianismo se iniciou nesse encontro. Esse encontro, como recorda o DP, é a razão da nossa fé. A Igreja vive desse encontro. Ele revela quem nós somos, de onde viemos e para onde vamos. A missão da Igreja é levar todos ao encontro com Jesus. Esse encontro, como mostra o episódio da Samaritana, de Zaqueu, leva a uma revisão de vida e à conversão. Esse encontro é a fonte do discipulado e da missão.
O evangelho mostra que ser discípulo de Jesus é fruto de uma vocação. É ele quem chama. A resposta só é possível através da ação da graça: “Ninguém pode vir a mim, se o Pai não o atrair”. A resposta é algo muito profundo: consiste em encontrar-se com Jesus e acolhê-lo em nossa vida. Isso muda o rumo da vida da pessoa. A acolhida de Jesus em nossa vida, implica também em viver de acordo com os seus ensinamentos. Jesus é também mestre.
Jesus reúne discípulos não para servi-lo, mas para prepará-los para a missão. A finalidade do discipulado é a missão. Por isso, a Igreja é uma comunidade de comunhão com Cristo em vista da missão. A dimensão comunitária e a dimensão missionária são as características principais da Igreja. A partir daí, podemos compreender a importância da Eucaristia. “Para que essa comunhão com ele fosse cada vez mais plena, Jesus Cristo se entregou a seus discípulos como o Pão da vida eterna e os convidou na Eucaristia a participar de sua páscoa” (n.52). É na Eucaristia que a Igreja expressa a sua identidade e nela cresce. Como mostra o episódio de Emaús, a missão tem a sua fonte principal no encontro com o Cristo vivo presente na Eucaristia. A Eucaristia alimenta a missão: “Eu estarei convosco todos os dias até o final dos tempos”. Jesus pronunciou essas palavras, ao enviar os apóstolos em missão. A Eucaristia é também o objetivo da missão: levar a todos ao encontro com o Cristo vivo para que se tornem seus discípulos e missionários.
5. Para que nele nossos povos tenham vida
Esse é o título do último capítulo do DP. Trata da atividade pastoral. É por meio da pastoral que a o anúncio da Boa Nova se torna boa realidade para os que procuram um sentido para vida; para os que tem fome de Deus; para os pobres e todos os que sofrem. O DP ensina que Igreja, Eucaristia e amor ao próximo são inseparáveis. O amor ao próximo prolonga a diaconia de Cristo.
À semelhança do livro dos Atos que ficou de certo modo inacabado para mostrar que a missão deve continuar, também o DP está um pouco inacabado. O último capítulo não está pronto. Ele deve ser escrito com a contribuição de todas as comunidades da América Latina e do Caribe. Trata-se, agora, de elaborar as práticas pastorais e missionárias para todo o Continente. O DP enumera apenas alguns núcleos para despertar a criatividade:
Formação de discípulos e missionários
Existe ainda muito descuido, sobretudo, na formação dos leigos para a missão. Esta é uma das causas da diminuição do número de católicos, do abandono da prática dos sacramentos: batismo, crisma e matrimônio. Nossas paróquias precisam ser não só comunidades de acolhida, mas também comunidades missionárias, comunidades que vão ao encontro. A vida das paróquias precisa girar não só em torno do eixo sacramental, mas, igualmente, do eixo da Palavra. Formação mais intensa de discípulos e missionários. Está aí um grande desafio.
Defesa e promoção da vida
Nunca a vida dos inocentes esteve tão ameaçada como em nossos dias. Muitos se esquecem de uma verdade simples e evidente: como a vida é um dom fundamental e sagrado, cada ser humano deve ser um servidor da vida, da vida sua e da vida de qualquer ser humano. Servidor da vida que apenas está se iniciando e também da vida em desenvolvimento. Servidor da vida que nasce plena e forte, mas também servidor da vida que nasce frágil e com defeito. Servidor da vida em seu início, mas também servidor da vida que está se aproximando de seu fim natural. Servidor e defensor da vida devem ser os agentes do Estado de direito, pois a essência da missão do Estado é a defesa e a promoção da vida.
A defesa da vida é um valor suprapartidário, no sentido que deve inspirar qualquer política que esteja a serviço da pessoa humana e da sociedade. É também um valor supra -religioso. A inviolabilidade da vida humana, desde seu início até o seu fim natural, é uma questão de direito natural. Os cristãos encontram em sua fé um motivo a mais para defender esse direito. Não se trata, pois, de impor à sociedade ou ao Estado laico uma convicção religiosa, mas levá-lo a respeitar um direito do ser humano. A Igreja, enquanto instituição da sociedade civil, não só pode, mas tem o dever de assim agir.Grande missão continental
Aqui se encontra, a meu ver, a grande intuição do DP. Através da Quinta Conferência, envolver toda a Igreja numa grande missão continental. Neste sentido, a Conferência de Aparecida, não só estará continuando a tradição das Assembléias precedentes, mas realizando um salto qualitativo, que mudará a face pastoral da Igreja e aprofundará a sua presença na sociedade. Para isso, é necessário um empenho de todos a começar desde agora, desde essa fase de preparação que está se iniciando.

Discípulos e Missionários de Jesus Cristo

Dom Benedito Beni dos Santos
Bispo Auxiliar de São Paulo

Introdução
Pretendo apresentar uma breve reflexão sobre o Documento de Participação à Quinta Assembléia do Episcopado da América Latina e do Caribe. Existe uma continuidade entre as cinco Assembléias. Todas elas tiveram, como objetivo, a evangelização. A próxima vai reforçar ainda mais esse objetivo, pois trata-se, em última análise, de promover uma grande missão em toda a América Latina e Caribe. As cinco Assembléias expressam, de certo modo, a tradição pastoral das Igrejas do nosso continente. Fonte próxima dessa tradição é o Concílio Ecumênico Vaticano. Na doutrina do Concílio, não só encontramos uma nova eclesiologia, mas, na realidade, um projeto eclesiológico.
Esse projeto eclesiológico foi assumido, pela primeira vez, e contextualizado, na América Latina, pela Assembléia de Medellín. Medellín procurou sublinhar a presença dos pobres na Igreja. Trata-se de uma presença que leva a Igreja a redefinir sua presença no mundo. Suas prioridades pastorais e, às vezes, até mesmo, o seu modo de organizar-se. Os pobres merecem uma atenção especial da Igreja, comunidade do seguimento de Jesus. A partir de Medellín, começou-se a falar da evangélica opção pelos pobres como uma das fontes inspiradora da missão evangelizadora da Igreja e de sua pastoral. A Igreja quer ser de todos, dizia João XXIII, mas, de modo especial, dos pobres.
O Vaticano II apresentou, como marca sua, a eclesiologia de comunhão. Nessa esteira, Medellín procurou acentuar a dimensão comunitária na organização da Igreja. A Igreja, organizada em forma de paróquia ou de pequenas comunidades, deve oferecer um espaço para o desenvolvimento de relações intersubjetivas: proximidade, conhecimento, amizade, fraternidade, luta em comum. Mais tarde, com essa mesma inspiração do Vaticano II, João Paulo II, vai dizer que a Igreja deve ser a escola da comunhão. Trata-se de uma escola que educa para a comunhão pela própria vivência, pelo modo de se organizar. Comunhão que é fruto não simplesmente de um esforço voluntarista, mas da ação da graça. Portanto, comunhão que implica vida de fé, vida sacramental e orante. Sobretudo, vida eucarística.
Medellín, seguindo ainda o projeto eclesiológico do Vaticano II, procurou sublinhar a face laical da Igreja no sentido teológico. A vocação e a missão do leigo se fundamentam no batismo e na confirmação e, de modo complementar, no sacramento do matrimônio. Os leigos não são apenas destinatários da missão da Igreja. São também sujeito eclesial. São também responsáveis pela vida eclesial. Mesmo onde não é possível a presença direta do bispo e do presbítero, deve haver uma vida eclesial, sobretudo orante e evangelizadora, coordenada pelos ministérios não ordenados.
Igreja evangelizadora é, ao mesmo tempo, militante e profética. Ela procura estar atenta à realidade, à organização da sociedade, para anunciar a Boa-Nova; denunciar o pecado e suas conseqüências no plano individual e social, em vista da conversão e da salvação.
Foi, por esse rumo, que Medellín procurou colocar em prática, na América Latina, o projeto eclesiológico do Vaticano II. Esse esforço de Medellín foi continuado e aprofundado pelas assembléias de Puebla e S. Domingo. E, agora, está sendo conscientemente assumido, alargado e aprofundado, pela quinta Assembléia, a ser realizada em Aparecida do Norte, em 2007. Trata-se de uma tradição pastoral que, cada vez mais, vai se consolidando e aprofundando.
Com ouvido colado no coração de Deus
Os textos do Magistério da Igreja, de natureza pastoral, têm procurado sempre apresentar uma visão da realidade. As práticas pastorais precisam ser respostas adequadas à realidade em que a Igreja está inserida. O Documento de Participação à Quinta Assembléia apresenta a visão da realidade latino-americana no capítulo quarto e não no início. Trata-se apenas de uma preferência metodológica. Creio, porém, que a visão da realidade, apresentada como ponto de partida, ajuda a compreender melhor não só as práticas pastorais propostas pelo texto, mas também o seu conteúdo antropológico, histórico, bíblico e teológico.
A perspectiva para a visão da realidade, adotada pelo DP, é bonita e significativa: “Devemos olhar a realidade com o ouvido colado no coração de Deus e a mão no pulso do tempo”(96). Só essa perspectiva nos permite, de fato, olhar a realidade não só pela superfície, como mero dado empírico, mas, para além do empírico, procurando descobrir o seu sentido. Em nosso caso, o seu sentido teológico, isto é, os sinais do tempo.
O Documento faz um elenco de fatos, que já foram levados em consideração pelas últimas Assembléias, mas que persistem até aos nossos dias. Por exemplo, a pobreza, a educação funcionalista, o narcotráfico e o uso de drogas; no campo político, o não cumprimento das promessas de campanha, a corrupção e o enfraquecimento do poder do Estado. Alguns desses males até se agravaram. No campo religioso, alguns males se tornaram mais agudos: secularismo, laicismo militante, que hoje se manifesta publicamente com um grau forte de agressividade com relação à Igreja. Laicismo autoritário que nega à Igreja o direito de manifestar publicamente suas convicções em questões morais e políticas. Esse laicismo se esquece de que a Igreja é uma instituição da sociedade civil e, por isso mesmo, tem o direito de manifestar suas convicções e lutar democraticamente para que elas sejam adotadas no plano jurídico.
Outros componentes da realidade são novos, pelo menos com relação à intensidade com que se manifestam. Recordemos, a título de exemplo, a investigação genética que, cada dia, surpreende a todos com novas descobertas. Essas investigações são promissoras no campo da saúde, mas, freqüentemente, envolvidas por problemas éticos graves. A consideração ética dessas pesquisas é necessária para evitar conseqüências desastrosas para dignidade do ser humano. O Documento cita ainda problemas referentes à ecologia natural e humana. No campo da ecologia natural, houve um progresso significativo no sentido não só de preservar a natureza e dela cuidar, mas, em alguns casos, de até mesmo salvá-la. No campo da ecologia humana, o progresso não foi tão significativo, pois acentuou-se o enfraquecimento da identidade do matrimônio e da família. Difunde-se cada vez mais os postulados de uma ética individualista, acompanhada do relativismo moral.
No plano especificamente religioso, o Documento de Participação se refere, diversas vezes, ao substrato católico de nossa cultura, resultado da presença evangelizadora da Igreja no continente, desde de seu início. Expressões desse substrato católico são, por exemplo, o sentido radical da existência presente na vida do povo; a religiosidade e piedade popular em suas modalidades características; o profundo sentido da importância e do valor da família.
Alguns problemas presentes no campo religioso são, de certo modo, novos e, por isso, não foram contemplados pelas Assembléias anteriores. O DP cita o enfraquecimento da observância religiosa do domingo; a diminuição, sobretudo no meio urbano, na recepção dos sacramentos do batismo e do matrimônio; a diminuição acelerada do número de católicos e o crescimento numérico das igrejas evangélicas e seitas. Como causa desse último fenômeno, podemos citar o pluralismo religioso, que leva as pessoas a reduzir todas as igrejas e religiões a um denominador comum, como se todas fossem iguais. Por isso mesmo, o pluralismo religioso vem sempre acompanhado de uma intensa mobilidade religiosa. Mas existem causas que se encontram no interior da Igreja. O êxodo dos católicos indica que a Igreja não está evangelizando e re-evangelizando suficientemente aqueles que batiza. Indica que ela não está sendo suficientemente missionária.
A leitura da realidade presente feita pelo DP visa, pois, descobrir, na própria realidade, os desafios pastorais para que possamos encontrar, à luz da Palavra de Deus e da experiência pastoral da Igreja, respostas adequadas. Visa encontrar, na própria realidade, os sinais dos tempos, as interpelações de Deus, o Senhor da história.
2. O ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus
A primeira consideração do DP é apresentar o fundamento antropológico da missão: os desejos de vida e felicidade que existem no mais profundo do nosso ser. Mas, ao mesmo tempo, o ser humano faz a experiência de que a vida e a felicidade em plenitude superam as possibilidades simplesmente humanas. Esse desejo de vida e felicidade plena expressa a sede de Deus que existe no coração humano. De fato, o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus. Existe, nele, algo de divino. Existe uma busca de comunhão com o Divino. O salmo 12 registra essa busca: “É a vossa face, Senhor, que eu procuro”.
Por causa do pecado, essa busca de felicidade plena trilha, às vezes, caminhos errados (cf.n.4). Isso já aconteceu quando o ser humano pecou pela primeira vez. Mas, a resposta de Deus, registrada pela Revelação, consistiu em colocar novamente o ser humano no caminho certo da felicidade plena. Logo após o pecado, observa o DP, Deus não abandona o ser humano. Como Pai e Pastor o procura e lhe promete o dom da salvação. Mais ainda: faz alianças com representantes da humanidade (Abel, Noé). Dessas alianças surgem verdadeiras experiências religiosas voltadas para a adoração de Deus e a busca da salvação.
Na aliança do Sinai, Deus escolhe Israel para ser um povo missionário. Revela-se a ele, para que Israel proclame o seu nome a todos os povos da terra. Dá-lhe os dez mandamentos, que indicam o caminho certo para encontrar a felicidade. Na encarnação de seu Filho, Deus de tal modo se aproxima do ser humano que Ele mesmo se torna um ser humano. Na expressão da Gaudium et Spes, o Filho de Deus se une a cada ser humano.Não só revela Deus ao homem, mas revela o homem ao próprio homem. Revela a ele a sua dignidade sagrada e a sua vocação divina, o chamado para a vida plena. Jesus, no sermão das bem-aventuranças, programa de vida seu e de seus discípulos, proclama o novo código da felicidade. Com as bem-aventuranças, Jesus convida seus discípulos não à resignação e à passividade. Convida-os a se colocarem de pé e a percorrer no mundo um novo caminho.
A Igreja é a comunidade dos discípulos de Jesus. E a finalidade do discipulado é a missão. A primeira coisa que Jesus faz, quando inicia o seu ministério na Galiléia, é reunir discípulos. O evangelho nos mostra Jesus sempre rodeado de discípulos. Ele não cumpre a sua missão sozinho. Jesus tem discípulos não para servi-lo, mas para prepará-los, teórica e praticamente, para a missão. Os evangelhos terminam, com Jesus enviando seus discípulos em missão. A Igreja, comunidade de seus discípulos, é a continuadora de sua missão na terra. O DP recorda, a propósito, a lei do discipulado: carregar a cruz. Expressão que, na Igreja primitiva, designa o martírio. Não só o martírio de derramar o próprio sangue como testemunho de Cristo e de seu evangelho, mas, também, o testemunho de gastar a própria vida no empenho de anunciar Cristo e o evangelho. O martírio, pois, em ambos os casos, é componente da missão. É um ato evangelizador.
Ao mostrar o fundamento antropológico da missão -o desejo de vida e felicidade plena como expressão da sede de Deus- o DP quer mostrar que a missão não é uma superestrutura, algo acrescentado à vida de um povo, à sua cultura. A missão é resposta a uma busca. Existe no coração humano, como lembrou João Paulo II, a busca misteriosa de Alguém que seja, de fato, o Caminho, a Verdade e a Vida. O pedido dos gregos, registrado no quarto evangelho, expressa esse anseio misterioso: “Queremos ver Jesus”.
3. A missão: uma corrente de amizade com Deus, de vida e promoção humana
A história da Igreja na América Latina é a história da missão, isto é, desenrolar da história da salvação, expressão do desígnio salvífico de Deus. Diz o DP: “Por um sábio e bondoso desígnio da Providência divina, chegou até as terras do Continente essa corrente de amizade com Deus, de vida nova e promoção humana, que Jesus Cristo iniciou em sua Encarnação e sua Páscoa, e que o Espírito Santo, com força pentecostal, impulsiona ao longo dos séculos” (n.21).
A missão não se inicia jamais a partir da estaca zero. O primeiro missionário é o Espírito Santo. Ele chega antes de qualquer missionário humano para preparar o terreno, nele espargindo as sementes do Verbo, a que se referem os Padres Apologetas. Semente do Verbo são aqueles valores evangélicos que o Espírito divino espalha na cultura e na vida dos povos: desejo de justiça, de paz, de fraternidade, sede de Deus, anseio misterioso de encontrar Alguém que seja, de fato, Caminho, Verdade e Vida. É neste terreno preparado pelo orvalho divino, derramado pelo Espírito, que o missionário lança a semente da Palavra de Deus. Sem essa ação preparatória do Espírito, a semente da Palavra cairia sobre o asfalto duro. Sem essa ação, a evangelização seria algo acidental na vida das pessoas. Quando o Evangelho chegou, pela primeira vez, ao nosso Continente, o Espírito Santo já havia preparado o terreno, espargindo, na vida dos povos do Continente, as sementes do Verbo. A isso faz referência o seguinte texto do DP: “Neles, as sementes do Verbo, que estavam presentes em um profundo senso religioso, esperavam o orvalho fecundo do Espírito. Eram muitos os valores que caracterizavam e que os predispunham a uma recepção mais pronta do Evangelho” (n.22).
A divina Providência, porém, usou de um outro meio, logo no início, “para abrir as portas do coração dos povos autóctones para Jesus Cristo, Boa Nova do Pai para a sua vida: a aparição da Virgem de Guadalupe” (n.23). No rosto de Maria, como afirmou João Paulo II no discurso de abertura da II Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, encarnavam-se os autênticos valores culturais indígenas.
A missão, enquanto ação humana, está envolvida não só por luzes, mas também por sombras. As vicissitudes históricas também atingem a ação missionária. O DP se refere a um verdadeiro holocausto dos indígenas realizado pela ocupação dos assim chamados colonizadores. Mas, por outro lado, houve também intrépidos lutadores pela justiça, evangelizadores da paz (cf.n.25).
A missão, conforme nos mostra o livro dos Atos, encontra sempre obstáculos. Vence-os, porém, na força do Espírito. Também, na América Latina, a ação missionária sempre encontrou obstáculos, até mesmo crises eclesiais. A fundação do CELAM, em 1955, e as diversas assembléias do episcopado por ele promovidas tem sido instrumentos para promover a missão e ajudá-la a vencer os obstáculos.
A missão evangelizadora da Igreja foi enriquecida ultimamente com diversos dons da bondade e sabedoria do Pai. O DP cita, de modo especial, a realização do Concílio Ecumênico Vaticano II que fez surgir, am toda América latina, paróquias missionárias, ministros da Palavra, renovação litúrgica, valorização da piedade popular, diáconos permanentes, pastoral presbiteral, diálogo ecumênico e inter-religioso, dinamização da pastoral da juventude e da pastoral vocacional. Dons da bondade e sabedoria do Pai, foram ainda, segundo o DP, a opção preferencial pelos pobres, a teologia da libertação e a nova evangelização, lançada pelo Papa João Paulo II. Seu pontificado foi também um grande dom da bondade e sabedoria do Pai (cf.n.33).
Em resumo, com sua ação missionária, a Igreja procurou, desde do início, dar uma resposta àqueles que buscavam, às apalpadelas, satisfazer à sede de busca de sentido, felicidade e transcendência (cf. n.32).
4. Discípulos e missionários
O cristianismo não é, antes de tudo, uma doutrina. Ele teve origem num acontecimento: a encarnação do Filho de Deus: “Quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho ao mundo, o qual nasceu de uma mulher”. Na encarnação de seu Filho, Deus de tal modo se aproximou do ser humano que Ele mesmo se tornou um ser humano. O cristianismo se iniciou nesse encontro. Esse encontro, como recorda o DP, é a razão da nossa fé. A Igreja vive desse encontro. Ele revela quem nós somos, de onde viemos e para onde vamos. A missão da Igreja é levar todos ao encontro com Jesus. Esse encontro, como mostra o episódio da Samaritana, de Zaqueu, leva a uma revisão de vida e à conversão. Esse encontro é a fonte do discipulado e da missão.
O evangelho mostra que ser discípulo de Jesus é fruto de uma vocação. É ele quem chama. A resposta só é possível através da ação da graça: “Ninguém pode vir a mim, se o Pai não o atrair”. A resposta é algo muito profundo: consiste em encontrar-se com Jesus e acolhê-lo em nossa vida. Isso muda o rumo da vida da pessoa. A acolhida de Jesus em nossa vida, implica também em viver de acordo com os seus ensinamentos. Jesus é também mestre.
Jesus reúne discípulos não para servi-lo, mas para prepará-los para a missão. A finalidade do discipulado é a missão. Por isso, a Igreja é uma comunidade de comunhão com Cristo em vista da missão. A dimensão comunitária e a dimensão missionária são as características principais da Igreja. A partir daí, podemos compreender a importância da Eucaristia. “Para que essa comunhão com ele fosse cada vez mais plena, Jesus Cristo se entregou a seus discípulos como o Pão da vida eterna e os convidou na Eucaristia a participar de sua páscoa” (n.52). É na Eucaristia que a Igreja expressa a sua identidade e nela cresce. Como mostra o episódio de Emaús, a missão tem a sua fonte principal no encontro com o Cristo vivo presente na Eucaristia. A Eucaristia alimenta a missão: “Eu estarei convosco todos os dias até o final dos tempos”. Jesus pronunciou essas palavras, ao enviar os apóstolos em missão. A Eucaristia é também o objetivo da missão: levar a todos ao encontro com o Cristo vivo para que se tornem seus discípulos e missionários.
5. Para que nele nossos povos tenham vida
Esse é o título do último capítulo do DP. Trata da atividade pastoral. É por meio da pastoral que a o anúncio da Boa Nova se torna boa realidade para os que procuram um sentido para vida; para os que tem fome de Deus; para os pobres e todos os que sofrem. O DP ensina que Igreja, Eucaristia e amor ao próximo são inseparáveis. O amor ao próximo prolonga a diaconia de Cristo.
À semelhança do livro dos Atos que ficou de certo modo inacabado para mostrar que a missão deve continuar, também o DP está um pouco inacabado. O último capítulo não está pronto. Ele deve ser escrito com a contribuição de todas as comunidades da América Latina e do Caribe. Trata-se, agora, de elaborar as práticas pastorais e missionárias para todo o Continente. O DP enumera apenas alguns núcleos para despertar a criatividade:
Formação de discípulos e missionários
Existe ainda muito descuido, sobretudo, na formação dos leigos para a missão. Esta é uma das causas da diminuição do número de católicos, do abandono da prática dos sacramentos: batismo, crisma e matrimônio. Nossas paróquias precisam ser não só comunidades de acolhida, mas também comunidades missionárias, comunidades que vão ao encontro. A vida das paróquias precisa girar não só em torno do eixo sacramental, mas, igualmente, do eixo da Palavra. Formação mais intensa de discípulos e missionários. Está aí um grande desafio.
Defesa e promoção da vida
Nunca a vida dos inocentes esteve tão ameaçada como em nossos dias. Muitos se esquecem de uma verdade simples e evidente: como a vida é um dom fundamental e sagrado, cada ser humano deve ser um servidor da vida, da vida sua e da vida de qualquer ser humano. Servidor da vida que apenas está se iniciando e também da vida em desenvolvimento. Servidor da vida que nasce plena e forte, mas também servidor da vida que nasce frágil e com defeito. Servidor da vida em seu início, mas também servidor da vida que está se aproximando de seu fim natural. Servidor e defensor da vida devem ser os agentes do Estado de direito, pois a essência da missão do Estado é a defesa e a promoção da vida.
A defesa da vida é um valor suprapartidário, no sentido que deve inspirar qualquer política que esteja a serviço da pessoa humana e da sociedade. É também um valor supra -religioso. A inviolabilidade da vida humana, desde seu início até o seu fim natural, é uma questão de direito natural. Os cristãos encontram em sua fé um motivo a mais para defender esse direito. Não se trata, pois, de impor à sociedade ou ao Estado laico uma convicção religiosa, mas levá-lo a respeitar um direito do ser humano. A Igreja, enquanto instituição da sociedade civil, não só pode, mas tem o dever de assim agir.Grande missão continental
Aqui se encontra, a meu ver, a grande intuição do DP. Através da Quinta Conferência, envolver toda a Igreja numa grande missão continental. Neste sentido, a Conferência de Aparecida, não só estará continuando a tradição das Assembléias precedentes, mas realizando um salto qualitativo, que mudará a face pastoral da Igreja e aprofundará a sua presença na sociedade. Para isso, é necessário um empenho de todos a começar desde agora, desde essa fase de preparação que está se iniciando.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Homilia do domingo do advento: o domingo da Alegria (ano c)

Este terceiro Domingo do Advento é conhecido na Liturgia como Domingo Gaudete – “Domingo alegrai-vos!” A alegria é a nota, o clima de toda a Eucaristia da hoje. E por quê? Basta escutar o Apóstolo, na segunda leitura: “Alegrai-vos sempre no Senhor; eu repito, alegrai-vos! O Senhor está próximo!” Com essa invocação o Apóstolo nos convida a adentrar no mistério da vida cristã. Essa é o nosso desejo no advento: anunciar a alegria da proximidade do Senhor que vem. O senhor vem para nós salvar, nele haveremos de encontrar a alegria, nele teremos a graça da salvação.
Porém, nós podemos perguntar: qual é o motivo desta alegria, e se essa alegria está unida à vinda do Senhor: que sentido a liturgia de hoje fala desta vinda? A liturgia fala da vinda do Senhor em triples sentido, como bem nos falava São Bernardo de Claraval nos seus sermões. Escutemos o que ele nos ensina: “Conhecemos uma tríplice vinda do Senhor. Entre a primeira e a última há uma terceira vinda. Aquelas são visíveis, mas esta não. Na primeira vinda o Senhor apareceu na terra e conviveu com os homens. Foi então, como ele próprio declara, que o viram e o odiaram. Na última, todos os homens verão a salvação de nosso Deus e verão aquele que traspassaram. A vida intermediária é oculta. Nela somente os eleitos o vêem em si mesmos e recebem a salvação. Na primeira o Senhor veio na fraqueza da carne. Nesta ele vem na força do Espírito e na última virá no esplendor de sua glória. Esta vinda intermediária é como um caminho que conduz da primeira à última. Na primeira Cristo foi nossa redenção; na segunda aparecerá como nossa vida; nesta é nosso repouso e consolo”. Para essas vindas de Cristo procuremos estar vigilantes: a do Natal, princípio da nossa salvação; a de cada dia, que marca e torna efetivo nosso acolhimento ou nossa rejeição da salvação trazida pelo santo Messias de Deus; e, finalmente, a vinda do final dos tempos, quando, na sua glória, tudo será manifestado e aparecerá claramente nossa salvação ou nossa danação, de acordo com nosso comportamento hoje em relação ao Senhor!
Aqui se encaminha a pergunta do Evangelho de hoje: o que devo fazer? A primeira coisa é alegrar-se com a proximidade da vinda do senhor. alegremo-nos porque o Senhor vem e sua vinda traz a salvação! Celebrando sua vinda no Natal, nos encontramos com o amor abissal de Deus por nos e com sua fidelidade que é infinita. Deus é fiel às suas promessas enche-nos de alegria e ânimo porque reconhecemos que só Deus pode nos oferecer a alegria que não tem fim.
Cuidado, irmãos, com o desânimo; cuidado com a tibieza, cuidado com a frieza de coração! Cuidado também com o espírito do mundo, com o paganismo em nossos pensamentos e ações! Cuidado para não descuidarmos das coisas de Deus, para não desacreditarmos de suas palavras e não fechar para ele o nosso coração! Muitas pessoas acreditam que a alegria do mundo pode oferecer-lhes as verdadeira satisfação de espírito, mas o mundo pós-moderno está aí para provar o contrario, a depressão e o estresse, doenças do mundo atual, demonstram o quanto as alegria deste mundo podem ser fugaz e levar o homem a uma vida sem sentido. A vinda de Cristo aponta uma nova-velha mensagem: Ele vem, e vem porque nos ama, e vem para salvar! Assim sendo, acolhamos as consoladoras palavras de Sofonias: “Canta de alegria, Sião; rejubila, Israel! Alegra-te exulta de todo coração! O Senhor está no meio de ti, nunca mais temerás o mal! Não temas, Sião; não te deixes levar pelo desânimo! O Senhor exultará de alegria por ti, movido por amor, como nos dias de festa”! Esse é o motivo da nossa alegria: o Senhor está no nosso meio!
Meus irmãos, a certeza da Vinda do Cristo deve fazer que procuremos sinceramente acolhê-lo pela estrada da conversão sincera! Por isso mesmo, no meio da alegria deste Domingo cor-de-rosa, surge a figura dura e austera de João Batista, o profeta vindo do deserto, vestido de pele de camelo atada por um cinto de couro. Sua figura rústica e sua palavra dura não são para nos amedrontar, não têm como objetivo apagar a alegria, mas são uma séria advertência! Eis a questão: o mundo procura a alegria. Agora mesmo, final de ano, o champagne correrá solto, os sorrisos e votos de felicidade e paz serão abundantes, a alegria encherá tantos corações e estará estampada em tantos lábios. Mas, é uma alegria duradoura? É uma alegria verdadeira? Temos, realmente motivo para tanto? Não qualquer alegria, caríssimos, é autêntica alegria! No mundo há dor, solidão, pobreza, doença, morte; no mundo há treva, há nossas lutas interiores, há as quebraduras do nosso coração, nossas frustrações e fracassos, há nossas ansiedades, apreensões e feridas mal curadas... Como, então, alegrar-nos de verdade? Como fazer que nossa alegria não seja uma alienação, uma fuga vazia, uma mentira deslavada? A resposta nos vem de Paulo: “Alegrai-vos sempre no Senhor”. E João Batista nos recorda e adverte que tal alegria somente pode ser fruto da sincera conversão que nos une a Deus! Por isso a pergunta: “Que devemos fazer?” Também nós devemos repetir esta pergunta: Que devemos fazer para bem prepararmos o santo Natal? Que devemos fazer para acolher o Senhor no dia-a-dia? Que devemos fazer para estar de pé diante dele quando ele se manifestar em sua glória? ... E a resposta de João é bem concreta: é preciso reconhecer que sem Deus não somos nada, que a Palavra que se fez carne é o poder de Deus derramado em nossos corações.
O caminho para a alegria do Senhor é buscar um caminho de humildade e simplicidade a exemplo de João Batista que ao ser assemelhado ao messias dizia não ser digno de desamarrar a correia de suas sandálias; João considerava-se um pobrezinho diante do poder de Deus. Para Santo Agostinho, João ao considera-se a voz e Cristo a Palavra deixava transparecer a soberania de Cristo como Verbo do Pai. E dizia o Santo: “queres ver como a voz passa e a Palavra permanece? Que foi feito do batismo de João? Cumpriu sua missão e desapareceu; agora é o batismo de Cristo que está em vigor. Todos cremos em Cristo e esperamos dele a salvação: foi o que a voz nos ensinou”.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Homília do II domingo do Advento ano C

Homília do II domingo do Advento ano C
O advento é tempo de conversão, tempo para preparar os caminhos do senhor, como bem nos alertam as leituras deste domingo. É tempo de endireitar as veredas, a fim de que chegue o reino de Deus. Mas o homem moderno não é muito dado ao tema da conversão. Diante dos graves desafios que se lhe impõem (SUPERAÇÃO DO MUNDO DE PECADO, MORTE E INJUSTIÇA), o ser humano muitas vezes desiste de construir um mundo novo. O cristão de hoje está mais consciente da necessidade de conversão. É preciso mudar de vida e reconstruir os caminhos de Deus por uma vida ilibada e repleta de caridade.
Estamos no Domingo II do Advento. Este é um tempo de espera. Um tempo que nos faz recordar a vitória e salvação de Deus. Neste mundo cansado e ferido, o coração humano espera um sentido pra vida, espera a paz, espera o amor, espera a plenitude... Menino de Deus, vem trazer a salvação, vem anunciar a redenção! A humanidade esperou e espera a salvação que vem de Deus: somente ele salva, somente nele encontra-se nossa esperança! Nos momentos de escuridão da sua história, Israel levantou-se e continuou o caminho, porque alicerçado na promessa do seu Deus, esperava contra toda desafio. A primeira leitura da Missa de hoje apresenta-nos esta realidade de modo comovente: quando o povo estava na maior escuridão do exílio de Babilônia, Deus lhe falou de esperança. Estas palavras ainda hoje nos tocam e comovem: “Depõe a veste de luto, e reveste, para sempre, os adornos da glória vinda de Deus! Cobre-te com o manto da justiça que vem de Deus e põe na cabeça o diadema da glória do Eterno!” Deus promete ao seu povo a felicidade, a bênção, a glória – essa promessa é real, concreta e plausível. Nosso Deus foi e sempre será o Deus da promessa, o Deus que nos aponta para um futuro de bênção, que nos enche de esperança, que faz nosso coração palpitar, sonhando com a paz que ele dará!
Para se alcançar essa tempo de graça é necessário aplainar os caminhos do Senhor, endireitar as veredas que levam a Deus, em outras palavras, é mister mudar de vida e começar a fazer as coisas que agradam a Deus! Ora, esta esperança, esta bênção, esta paz, esta plenitude, este futuro, têm um nome: Jesus Cristo! Tudo se cumpre nele, tudo se resume nele; nele, tudo é pleno e duradouro: ele é o Sim de Deus para Israel e para toda a humanidade! Portanto, aplainar os caminhos de Deus é o mesmo que dizer: Cristo é a regra da minha vida, do meu pensar, do meu falar e do meu viver! Como dizia são Vicente de Paulo: Jesus Cristo é a regra da nossa vida!!
A salvação que a humanidade esperou e os profetas prometeram a Israel, no Evangelho deste Domingo aparece tão próxima: ela entra na história humana; não fica lá em cima, no céu; entra nas coordenadas dos nossos pobres dias. Segundo Eusébio de Cesaréia “tudo isso se realizou literalmente na história, quando João Batista anunciou no deserto do Jordão a vinda salvífica de Deus e ali se revelou a salvação de Deus”[1]. Para justificar essa historicidade da nossa esperança o texto de hoje diz: “No décimo quinto ano do império de Tibério César, quando Pôncio Pilatos era governador da Judéia, Herodes administrava a Galiléia, seu irmão Filipe, as regiões da Ituréia e Traconítide, e Lisânias a Abilene; quando Anás e Caifás eram sumos sacerdotes...” Nossa fé não é um mito, nossa esperança não é uma quimera: ela veio, entrou no nosso mundo, no nosso tempo, no nosso espaço, na nossa pobre vida, nos nossos dias tão pequenos: “... Ele armou sua tenda no nosso meio e fez conosco morada. Santo Atanásio afirma que essa Deus que conosco fez morada, não é um semi-deus, nem tampouco uma criatura excelente, mas Deus mesmo, o Filho Unigênito, ele é o Emanuel. Ora, se não fosse assim a salvação não nos teria atingido. Porque aquilo que é assumido é também redimido.
Como é belo o Advento! João anuncia que chegou o tempo, que com Aquele que vem, o próprio Deus, em pessoa, faz-se presente: tempo de salvação, tempo de decisão, tempo de acolher o convite para o Reino! Deus habita na humanidade através de seu Filho, essa certeza nos enche de esperança, não somos mais órfãos temos um Pai. São Carlos Borromeu falando acerca do advento diz: “eis chegado o tempo tão importante e solene que, conforme diz o Espírito Santo, é o momento favorável, o dia da salvação (cf. 2Cor 6,2), da paz e da reconciliação. É o tempo que outrora os patriarcas e profetas tão ardentemente desejaram com seus anseios e suspiros; o tempo que o justo Simão finalmente pôde ver cheio de algreia, tempo celebrado sempre com solenidade pela Igreja”[2]. Celebrando cada dia essa mistério, a Igreja exorta a renovar continuamente a lembrança de tão grande amor de Deus por nós, ensina-nos que a vinda de Jesus não foi proveitosa apenas para seus contemporâneos, mas serve a todos os homens de todos os tempos e lugares, o convite é o mesmo ontem, hoje e sempre: mudai de vida, caminhai de cabeça erguida rumo ao senhor, pois ele é vossa salvação!!
Mas, este Jesus que veio – e estamos nos preparando para celebrar o seu santo Natal -, é o mesmo que ainda esperamos para consumar a sua obra no Dia final. Na Epístola aos Filipenses, segunda leitura da Missa de hoje, São Paulo nos fala do Dia de Cristo – aquele dia que começou em Belém, brilhou na Ressurreição e será pleno na Vinda do Senhor. Deus nos prometeu este Dia bendito, no qual todas as esperanças humanas serão realizadas! O cristão vive os dias deste mundo na esperança deste bendito e eterno Dia. Por isso, o Apóstolo deseja que permaneçamos puros e sem defeito “para o Dia de Cristo, cheios do fruto da justiça que nos vem por Jesus Cristo, para a glória e louvor de Deus”. Ele sabe que precisamos permanecer firmes até que o Mestre venha, pois isso nos exorta a viver na justiça que vem de Deus. Viver na justiça é cultivar ações evangélicas que promovam a experiência da salvação, tais como: a fraternidade, a solidariedade, o respeito, a tolerância e a fidelidade à verdade, entre outros.
Não percamos tempo! A oração da Missa pediu a Deus que nenhuma atividade terrena nos impeça de correr ao encontro do Filho que vem. Por isso, em nome de Cristo: levantemos os olhos de nossa mediocridade, de nossas preocupações pequenas e mesquinhas! Levantai a cabeça: a vossa Salvação se aproxima! Não sejamos desatentos, a ponto de não perceber e não acolher Aquele que veio, vem vindo e virá na Glória!


Pe. Fantico Borges, CM
[1] Eusébio de Cesaréia, Comentários sobre o Profeta Isaías, In Liturgia das horas, Oficio das Leituras, Vol. I, pp. 167-168
[2] São Carlos Borromeu, Das Cartas Pastorais, In: Liturgia das Horas, Oficio das Leituras, Vol I, pp. 122-124

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

A Morte de Deus em Friedrich Wilhelm Nietzsche

1. Friedrich Wilhelm Nietzsche: O Homem e suas Obras

Friedrich Wilhelm Nietzsche nasceu a 15 de outubro de 1844 em Röcken, localidade próxima a Leipzig. Karl Ludwig, seu pai, pessoa culta e delicada, e seus dois avós eram pastores protestantes; o próprio Nietzsche pensou em seguir a mesma carreira. Em 1849, seu pai e seu irmão faleceram; por causa disso a mãe mudou-se com a família para Naumburg, pequena cidade às margens do Saale, onde Nietzsche cresceu, em companhia da mãe, duas tias e da avó. Criança feliz, aluno modelo, dócil e leal, seus colegas de escola o chamavam "pequeno pastor"; com eles criou uma pequena sociedade artística e literária, para a qual compôs melodias e escreveu seus primeiros versos.[1]
Em 1858, Nietzsche obteve uma bolsa de estudos na então famosa escola de Pforta, onde haviam estudado o poeta Novalis o filósofo Fichte (1762-1814). Datam dessa época suas leituras de Schiller (1759-1805), Hölderlin (1770-1843) e Byron (1788-1824); sob essa influência e a de alguns professores, Nietzsche começou a afastar-se do cristianismo. Excelente aluno em grego e brilhante em estudos bíblicos, alemão e latim, seus autores favoritos, entre os clássicos, foram Platão (428-348 a.C.) e Ésquilo (525-456 a.C.). Durante o último ano em Pforta, escreveu um trabalho sobre o poeta Teógnis (séc. VI a.C.). Partiu em seguida para Bonn, onde se dedicou aos estudos de teologia e filosofia, mas, influenciado por seu professor predileto, Ritschl, desistiu desses estudos e passou a residir em Leipzig, dedicando-se à filologia. Ritschl considerava a filologia não apenas história das formas literárias, mas estudos das instituições e do pensamento. Nietzsche seguiu-lhe as pegadas e realizou investigações originais sobre Diógenes Laércio (séc. III), Hesíodo (séc. VIII a.C.) e Homero.
A partir desta pesquisa começa nietzsche a delinear seu caminho crítico frente a tudo que apresentava-se como cultura da razão pura. Em 1871, publicou O Nascimento da Tragédia, a respeito da qual se costuma dizer que o verdadeiro Nietzsche fala através das figuras de Schopenhauer e de Wagner. Nessa obra, considera Sócrates (470 ou 469 a.C.-399 a.C.) um "sedutor", por ter feito triunfar junto à juventude ateniense o mundo abstrato do pensamento. Segundo, Giovanni Reale, Socrates e Platão são sintomas da decadencia Grega.[2] A tragédia grega, diz Nietzsche, depois de ter atingido sua perfeição pela reconciliação da "embriaguez e da forma", de Dioniso e Apolo, começou a declinar quando, aos poucos, foi invadida pelo racionalismo, sob a influência "decadente" de Sócrates. Assim, Nietzsche estabeleceu uma distinção entre o apolíneo e o dionisíaco: Apolo é o deus da clareza, da harmonia e da ordem; Dioniso, o deus da exuberância, da desordem e da música. Segundo Nietzsche, o apolíneo e o dionisíaco, complementares entre si, foram separados pela civilização.
Em 1879, ao deixar a catedra na Basileia Nietzsche inicia sua grande crítica dos valores, escrevendo Humano, Demasiado Humano; seus amigos não o compreenderam. Rompeu as relações de amizade que o ligavam a Wagner e, ao mesmo tempo, afastou-se da filosofia de Schopenhauer, recusando sua noção de "vontade culpada" e substituindo-a pela de "vontade alegre"; isso lhe parecia necessário para destruir os obstáculos da moral e da metafísica. O homem, dizia Nietzsche, é o criador dos valores, mas esquece sua própria criação e vê neles algo de "transcendente", de "eterno" e "verdadeiro", quando os valores não são mais do que algo "humano, demasiado humano".[3]
Nietzsche, que até então interpretara a música de Wagner como o "renascimento da grande arte da Grécia", mudou de opinião, achando que Wagner inclinava-se ao pessimismo sob a influência de Schopenhauer. Nessa época Wagner voltara-se, ao mesmo tempo, a recusa do cristianismo e de Schopenhauer; para Nietzsche, ambos são parentes porque são a manifestação da decadência, isto é, da fraqueza e da negação.
Em 1880 Nietzsche publica Aurora, com a qual se empenhou "numa luta contra a moral da auto-renúncia". Dois anos depois, veio à luz A Gaia Ciência, depois Assim falou Zaratustra (1884), Para Além de Bem e Mal (1886), O Caso Wagner, Crepúsculo dos Ídolos, Nietzsche contra Wagner (1888). Ecce Homo, Ditirambos Dionisíacos, O Anticristo e Vontade de Potência só apareceram depois de sua morte.

2. O Dionisíaco e o Socrático

Para Nietzsche, um tipo de filósofo encontra-se entre os pré-socráticos, nos quais existe unidade entre o pensamento e a vida, esta "estimulando" o pensamento, e o pensamento "afirmando" a vida. Mas o desenvolvimento da filosofia teria trazido consigo a progressiva degeneração dessa característica, e, em lugar de uma vida ativa e de um pensamento afirmativo, a filosofia ter-se-ia proposto como tarefa "julgar a vida", opondo a ela valores pretensamente superiores, mediando-a por eles, impondo-lhes limites, condenando-a. Em lugar do filósofo-legislador, isto é, crítico de todos os valores estabelecidos e criador de novos, surgiu o filósofo metafísico, que apareceu claramente com Sócrates quando se estabeleceu a distinção entre dois mundos, pela oposição entre essencial e aparente, verdadeiro e falso, inteligível e sensível.
Para Nietzsche, a grande tragédia grega apresenta como característica o saber místico da unidade da vida e da morte e, nesse sentido, constitui uma "chave" que abre o caminho essencial do mundo. Mas Sócrates interpretou a arte trágica como algo irracional, algo que apresenta efeitos sem causas e causas sem efeitos, tudo de maneira tão confusa que deveria ser ignorada. Por isso Sócrates colocou a tragédia na categoria das artes aduladoras que representam o agradável e não o útil e pedia a seus discípulos que se abstivessem dessas emoções "indignas de filósofos".[4]
Por essa razão, Nietzsche combateu a metafísica, retirando do mundo supra-sensível todo e qualquer valor eficiente, e entendendo as idéias não mais como "verdades" ou "falsidades", mas como "sinais". A única existência, para Nietzsche, é a aparência e seu reverso não é mais o Ser; o homem está destinado à multiplicidade, e a única coisa permitida é sua interpretação.
A crítica nietzschiana à metafísica tem um sentido ontológico e um sentido moral[5]: o combate à teoria das idéias socrático-platônicas é, ao mesmo tempo, uma luta acirrada contra o cristianismo. Segundo Nietzsche, o cristianismo concebe o mundo terrestre como um vale de lágrimas, em oposição ao mundo da felicidade eterna do além. Essa concepção constitui uma metafísica que, à luz das idéias do outro mundo, autêntico e verdadeiro, entende o terrestre, o sensível, o corpo, como o provisório, o inautêntico e o aparente. Trata-se, portanto, diz Nietzsche, de "um platonismo para o povo", de uma vulgarização da metafísica, que é preciso desmistificar. Daí que o cristianismo é uma forma de perversão instittos e da vontade de poder.
Nietzsche verzará sua crítica na etimologia do "sentido original" de tudo, pois as próprias palavras não passam de interpretações, antes mesmo de serem signos, e elas só significam porque são "interpretações essenciais". As palavras, segundo Nietzsche, sempre foram inventadas pelas classes superiores e, assim, não indicam um significado, mas impõem uma interpretação. O trabalho do etimologista, portanto, deve centralizar-se no problema de saber o que existe para ser interpretado, na medida em que tudo é máscara, interpretação, avaliação. Fazer isso é "aliviar o que vive, dançar, criar". Zaratustra, o intérprete por excelência, é como Dioniso.
3. A cultura Ocidental Cristã e o Pensamento de Nietzsche

Para Nietzsche a história espiritual do Ocidente foi marcada desde o início por um erro epistemológico, que segundo ele, é mister superar. Nietzsche pensa que o caminho ontologia do mundo como se configurou até o séc. XIX levou o homem moderno a perde-se entre a idéia fundamentação da realidade. É necessário segundo ele, superar a vinculação inexorável que se forjou a partir da metafísica socrático-platônica de que o mundo existente só pode ser na medida que estiver vinculado a uma realidade metafísica ou supra-sensível. Nestes moldes o pensamento nietzschiano como veremos afirmou-se na busca incansável de demonstrar falácia desta unidade sobrenatural com o mundo sensível.
A critica neste sentido será não apenas uma impostação à religião, mas também uma crítica da filosofia, da ciência, da moral, enfim uma crítica da cultura Ocidental. Na verdade, Nietzsche vai pleitear uma luta colossal contra tudo que até o séc. XIX se chamou de cultural grego-romana, ou simplesmente cultural Ocidental. Afirma-nos Colomer que, se Hegel, com sua história do Espírito pensou ter descoberto o processo evolutivo da história como raiz para explicar a integração de todas as coisas, se Hegel acreditou ter respondido positivamente a história da humanidade Ocidental, Nietzsche, representará, ao contrário, a negação de todo o passado, a repulsa a toda tradição e a inversão radical dos valores. [6]
Nietzsche deseja impugna todo valor posto fora do sujeito e rejeita a toda fundamentação que não repousa no homem mesmo. Tal postura desclassifica a razão – como fundamentação metafísica – como instância ordenadora do mundo, que segundo Nietzsche desloca a segurança dos instintos e deforma a realidade. A critica como aponta Estrada, estende-se à própria razão e suas racionalizações: vivemos enganando-nos, escondendo nossos instintos que aparecem racionalizados, e afirmando nossas crenças como forma de auto-afirmação e autodomínio. Esquecemos inconscientemente as projeções que criam nossos valores e a ontologia.[7]
Para empreender tal projeto, Nietzsche cria um plano que, segundo Colomer possui três níveis progressivos. A cada um desses níveis corresponde inevitavelmente um aspecto essencial do pensamento nietzschiano.[8] No primeiro nível estará a busca em responder a pergunta sobre o sentido vida do homem tal como até o presente séc. XIX tinha compreendido. Para ele, tudo se inicia com o pensamento de Platão depois adornado pelo cristianismo. Assim os grandes responsáveis pela decadente cegueira humana são o pensamento socrático-platônico e o cristianismo, aliado obviamente com a cultura européia. Daí emerge a crítica feroz a todos os valores do mundo Ocidental: a verdade, a metafísica, a ciência, a moral e a religião são falsas idéias que precisam ser desmascaradas. Por isso a morte de Deus, fundamento desde edifício será sua primeira tarefa emancipatória do homem.[9] O fundamental do primeiro nível é decretar a morte do Deus cristão.
O primeiro nível conduz inexoravelmente ao segundo, pois se o mundo até o presente momento foi concebido a partir do ideal de um Deus e se o homem foi sempre compreendido na sua existência segundo essa idéia do absoluto; ora, a morte de Deus faz emergir a pergunta: o que é a vida humana então? Para Nietzsche a vida humana está não esta no sentido objetivo do mundo, mas no sem sentido. Disso vem a tese do niilismo nietzschiano. O niilismo é inevitável onde não existe Deus, pois o niilista está onde há ausência de sentido. Por que como Deus está morto, morto também está o sentido objetivo do mundo.
Por fim o terceiro nível é conseqüência lógica como afirma Colomer, da articulação dos dois primeiros. Por que se não há deus e não existindo o sentido objetivo do mundo, sobra apenas o niilismo, porém Nietzsche não deseja estacionar aqui seu projeto. Ele pensa sem superar a negativa afirmação numa positiva abertura.
Nietzsche apresenta-se como criador de um novo mundo, ou melhor, de uma nova compreensão do homem no mundo. Nasce o mais ousado projeto humano: trata-se de um esforço por converte a negação em afirmação, para encontrar no meio do universo sem sentido um pequeno raio de esperança relativa e humana simulacros de verdades, que ainda sem ser verdadeiras enobreçam seu criador, o homem. Daqui brotam ideal do super-homem, do eterno retorno mesmo, da vontade de poder e a transvalorização de todos os valores.[10]
4. A Morte de Deus em Nietzsche.

A idéia de Nietzsche acerca do homem é que ele cria seus próprios valores. O homem é quem confere um sentido a sua vida e ao mundo. Isto Nietzsche afirma em Zaratrusta: o homem é criador de seus próprios valores, que a evolução consiste em dar valor ao seu mundo e o valor se estabelece pela evolução e é por essa evolução que o homem atribui sentido a própria realidade. Para ele o homem compreende-se a partir de si mesmo e não fora de si, como sempre manifestou a metafísica e o cristianismo.
Para Nietzsche a grande falácia do mundo Ocidental, como já vimos no ponto anterior foi ter definido que não existe mundo real sem uma pré-compreensão de mundo ideal ou metafísica. Critica esse critério, pois segundo ele é o homem que profere critério e sentido ao mundo.[11]
O supra-sensível não se apresenta como uma simples ocorrência de algum pensamento, mas como resultado das questões do ser sensível mesmo. Para Nietzsche, o metafísico não está relacionado a uma coisa fora do mundo, mas ao sensível mesmo como condição da experiência mesma. Daí nasce o problema: como o homem pode criar se existe algo que é anteposto a ele, uma realidade fundamental fora dele? Para Nietzsche aqui se encontra o grande problema do Ocidente, o fato de ter unido o ser ideal ao ser real, uni o ser da coisa com a coisa mesma. Essa união fez com que o homem buscasse fora dele algo que pudesse fundamentar a sua realidade. Para Estrada Nietzsche desejava que o homem se preocupasse com o aqui e agora do indivíduo e do instante histórico.[12]
Para Nietzsche os que Platão não pôde fazer, o fizeram e o levaram a cabo os primeiros teólogos cristãos que identificam o ser absoluto de Platão a necessidade do Deus pessoal. Reconhecem no absoluto de Platão o ser que verdadeiramente é, uma espécie de preparatório ou antecipação racional do mesmo e único Deus. Toda filosofia do Ocidente até Kant se moveu, segundo Nietzsche, no horizonte desta concepção:é o problema do ser e do valor que permanecerá unido ao problema de Deus.[13]
A filosofia de Nietzsche, por outro lado, está nas antípodas de uma filosofia na qual não faz falta falar de Deus. Ela pretende ser uma leitura dos sinais e sintomas de uma crise de fé. Segundo Ledure, Nietzsche percebe no cristianismo uma sintomologia da fraqueza e da impotência. O cristianismo resume a o grito dos fracos contra o poder dos fortes e o vigor da vida.[14]
Deve está clara a peculiar literária fórmula nietzschiana Deus morreu que não é uma proposição teórica ou especulativa, mas sim uma proposição parabólica ou dramática. No sentido parabólico ou dramático há uma diferença, na proposição Deus morreu, pois aqui se opera uma síntese entre a compreensão de Deus, do homem e da historia, em seu passado e seu futuro. Então, o que está morto não é Deus mesmo, mas a fé que o homem depositou nele.[15]
Nasce uma critica seria a fé religiosa. A morte de Deus não é somente uma palavra teórica ou conceitual, mas um acontecimento histórico como algo que aconteceu ao homem na sua relação com Deus. Este acontecimento define aos seus olhos a essência de uma época histórica, a nossa. Vivemos num mundo histórico-cultural no qual Deus está ausente em boa parte.
Nietzsche se deu conta da gravidade da crise contemporânea da fé religiosa. Ele assim se opõe sem duvida, a fé cristã, mas também a incrença banal e o conformismo. Nietzsche decreta a morte do Deus cristão e chega a chamar o cristianismo de a mancha negra da humanidade ou vampiro do imperium Romanum.[16]
O fato de Deus está morto significava dizer que a fé no Deus cristão estava em descrença. E como em Nietzsche Deus não consistia apenas criação de certos crentes, mas a pedra singular e a chave da abóbada do mundo supra-sensível, que nele tem seu sustentáculo, a morte dele era a morte também do conceito metafísico e do fundamento supra-sensível do mundo, enquanto realidade de toda realidade. Tudo isso desmorona, a cultura cristã ocidental, na verdade, é uma irrealidade, e, portanto uma mentira. Nietzsche decreta, por assim dizer, o fim de uma era.
Ora, se toda estrutura do mundo, verdades, valores morais, religião estão ligados a Deus e ao ideal metafísico então o desmoronamento e o fim destas estruturas significa o fim de tudo que encontrava nelas seu fundamento. Deste modo, não resta mais nada senão o niilismo, como vontade de poder.[17] O sem sentido configurado como ausência de ordem no mundo, pois é o homem, para Nietzsche, que dá sentido ao mundo por sua vontade de poder.
Pelo que foi dito assim, já podemos vislumbrar, segundo o pensamento de Colomer, os motivos pelos quais Nietzsche se tornou ateu. Ora, seu motivo primeiro é ético, pois ele se opõe a moral ocidental, que condenava a existência do homem a viver como escravo de um mundo fora de si. Todavia, para suprimir a moral é necessário suprimir também a Deus. Nietzsche questiona neste ponto a posição kantiana da moral que segundo Kant é baseado na necessidade de Deus e da imortalidade da alma. Para Nietzsche a moral oprime o homem de fora. O homem não precisa da moral por que ele está para além do bem e do mal.
Nietzsche propõe, como fica claro outro tipo de moral a moral dos fortes, criadores que não conhecem normas e proibições e que nasce do íntimo do ser humano. É que ele propõe na Genealogia da Moral. A moral de Nietzsche é a do homem livre e absoluto. Daí a impossibilidade de coexistir o homem livre e Deus moralizante.
O segundo elemento do ateísmo de Nietzsche é o seu humanismo. Se o homem cria e dá sentido a todos as coisas ele é o único artífice. Nietzsche que demonstrar até onde pode chegar o homem solitário. O homem como único mediador entre a sua criação. Mas se Deus existe, há fora do homem uma ordem objetiva que o limita na sua própria criação. Para existir o homem nietzschiano (super-homem) Deus tem que morrer, como ele mesmo afirma em Zaratrusta: Deus morreu, que nasça o super-homem.
Por fim o terceiro motivo do ateísmo de Nietzsche é teológico, pois segundo Colomer, o homem se impõe como próprio Deus. Afirmava Nietzsche se existisse Deus ele deveria ser um. Na verdade, ele deseja inaugurar a história do novo homem absolutamente livre onde nada é proibido. Aqui fica claro que Deus aparece como rival do homem, que está em combate com o ser humano.[18]




[1] COLOMER, Eusebi, El Pensamiento Alemán de Kant a Heidegger, vol.III, Barcelona, Herder, 1990, p. 229

[2] REALE, G. & ANTISERI, D., História da Filososia, vol III, 3ª ed., São Paulo, 1991, pp. 425-427
[3] NIETZSCHE F, Humano, Demasiado Humano; COLOMER, Eusebi, El Pensamiento Alemán de Kant a Heidegger, vol.III, Barcelona, Herder, 1990, pp. 244-245

[4] REALE, G. & ANTISERI, D., História da Filososia, vol III, 3ª ed., São Paulo, 1991, p. 426
[5] Nietzsche foi um dos primeiros a criticar a ontoteologia, que segundo ele sobrevive nas filosofias de sentido racional no postulado segundo o qual a história tem uma meta em si mesma. Com a crítica ontoteológica Nietzsche deseja derrubar o bem e o mal como algo objetivo, como forma de afirmar a existência de Deus. Como nos diz Estrada, em Nietzsche o problema do bem e do mal, ou da realidade é uma forma de contrapor a teologia. Cf. ESTRADA, Juan Antonio, Imagem de Deus: A Filosofia ante a Linguagem Religiosa, São Paulo, Paulinas, 2007, p. 221
[6] COLOMER, Eusebi, El Pensamiento Alemán de Kant a Heidegger, vol.III, Barcelona, Herder, 1990, pp. 262-263
[7] ESTRADA, Juan Antonio, Deus nas Tradições Filosóficas, vol.II Da Morte de Deus à Crise do Sujeito, São Paulo, Paulus, 2003, p. 177
[8] Op. Cit. 264
[9] COLOMER, Eusebi, El Pensamiento Alemán de Kant a Heidegger, vol.III, Barcelona, Herder, 1990, p. 264
[10] Para Nietzsche o mundo é um conjunto de forças finitas. Somente a vontade de poder, aliada ao ideal do super-homem surge como princípio absoluto, que permite transmudar os valores e criar novos. Cf. Bernard Lauret, A inocência do Devir, in Concilium 165/1981/5 Teologia fundamental Nietzsche e o Cristianismo, Petrópolis, vozes, 1981, pp. 120-122
[11] Para Nietzsche se o medo ao caos e o devir da realidade leva a uma organização racional, axiológica e moral do mundo, também implica a teologia. Assim a problemática de Deus como princípio fundamental e lógico para explicar a ordem no mundo é um erro filosófico, pois deste forma o homem estava preso a outra ordem que não está no mundo e portanto fora dele que limita e delimita sua relação com o mundo real. Ver. ESTRADA, Juan Antonio, Deus nas Tradições Filosóficas, vol.II Da Morte de Deus à Crise do Sujeito, São Paulo, Paulus, 2003, pp. 178-179
[12] Ibid.
[13] COLOMER, Eusebi, El Pensamiento Alemán de Kant a Heidegger, vol.III, Barcelona, Herder, 1990, p. 266
[14] LEDURE, Y, O Pensamento Cristão face à Crítica de Nietzsche, IN Concilium 165/1981/5 Teologia fundamental Nietzsche e o Cristianismo, Petrópolis, vozes, 1981, p. 58
[15] COLOMER, Eusebi, El Pensamiento Alemán de Kant a Heidegger, vol.III, Barcelona, Herder, 1990, p. 266
[16] NIETZSCHE, F., O Anticristo, § 58
[17] Aqui cabe bem o comentário de Estrada ao afirma que o niilismo moral, epistemológico e ontológico, vem ser contraposto ao mundo estável e seguro constituído pelos cristãos apoiado em Sócrates e Platão. A alternativa nietzschiana será à vontade de poder sobre a razão, dos instintos sobre as construções mentais, da liberdade contra os costumes, da criatividade pessoal contra uma ordem previa, enfim da estética contra a ética. Cf. ESTRADA, Juan Antonio, Imagem de Deus: A Filosofia ante a Linguagem Religiosa, São Paulo, Paulinas, 2007, p. 225
[18] COLOMER, Eusebi, El Pensamiento Alemán de Kant a Heidegger, vol.III, Barcelona, Herder, 1990, pp. 275-278

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