sábado, 14 de novembro de 2009

Homilia XXXIII Domingo Tempo Comum (B)


O cristão constrói no mundo o seu futuro!

O cristianismo é essencialmente escatológico e toda sua pregação, sua existência quer seja pastoral ou clerical e hierárquica, está orientada por essa característica escatológica[1]. Como bem lembrou o Concílio Vaticano II, na Lumen gentium número 48, Jesus, com sua ressurreição fez o mundo e a própria história humano entrarem em sua fase final. As promessas de Deus encontram na pessoa de Jesus Cristo a resposta final, a vitória definitiva. Por isso, o Cristão não deve temer os problemas, os sofrimentos e as dificuldades da caminhada. A vitória já está garantida aos que se deixam conduzir por Cristo. Essa esperança na vitória de Jesus orientará nossa reflexão deste domingo.
Diante do mundo e suas dificuldade podemos tomar duas atitudes: podemos olhar a realidade como ruína e desastre e certamente não enxergaremos saídas. Neste caso falta-nos o olhar de Deus, que tudo pode, e que faz coisas impossíveis. Existe outro modo de vislumbrar nossa realidade. Podemos entrever muitas obras boas em volta de nós. Pessoas que mesmo diante da morte e do sofrimento encaram a vida como uma dor de parto. Ora, a dor de parto é um sofrimento que levará a uma alegria indivisa. Já existem muitos sinais do Reino que penetram na nossa cultura: a defesa da vida, a valorização dos excluídos, o cuidado com o sofredores, entre outros.
Assim a esperança na vitória não é sonho vazio, mas espera confiante em Deus. A primeira leitura (Dn 12, 1-3) é sem dúvida alguma uma mensagem de esperança para um povo cansado de sofrer. O livro de Daniel foi escrito num tempo de perseguição, durante o reinado do selêucida Antíoco IV Epífanes (174-164 a.C.) Este Rei mandou colocar no Templo de Jerusalém a imagem do deus Júpiter Olímpico para ser adorado obrigatoriamente por todos. Coisa que causou revolta entre os judeus. É também neste período que Judas Macabeus, juntamente com sua família permanece firme na fé a Aliança com Deus de Israel, mesmo sofrendo terríveis tormentos.
Diante desta perseguição feroz Daniel faz lembrar aos sofredores que Deus está com eles e vai intervir em seu favor. Virá “Miguel” apontado como o grande príncipe que defenderá o povo e o conduzirá a felicidade. A vitória sobre o inimigo é apresentada como a vida eterna, onde não haverá mais sofrimento e dor. A esperança encontrada em Daniel é, portanto, uma força para cada cristão de hoje que vive buscando ser fiel a Deus. A estes Daniel diz: coragem não desanime diante dos problemas, mas tenha fé e confiança!
Na segunda leitura, nos é expresso o motivo da nossa esperança. Em Hebreus 10,11-14, o autor da carta diz que nossa esperança está em Jesus, que com seu sacrifício trouxe definitivamente o perdão dos pecados.
Com a Páscoa de Jesus o mal foi vencido definitivamente, o que vale dizer que ele nunca será o vencedor. No texto de hoje somos convidados a ter esperança, mesmo vendo uma aparente vitória do mal no mundo. Mas porque o pecado ainda reina no mundo? A resposta não está na fraqueza de Deus, nem na lentidão de nosso Senhor, mas no fechamento dos corações humanos ao amor misericordioso de Deus. Por isso, o evangelho vai alerta-nos que é preciso se preparar para a chegada final do reino e seu irrevogável juízo.
No Evangelho (Mc 13, 24-32) estamos diante do discurso escatológico de Jesus, que se inicia pela profecia da destruição do Tempo de Jerusalém e se conclui com o anúncio de sua segunda vinda gloriosa. A chegada desse reino vem primeiro com a superação do mundo de pecado. Por isso haverá destruição do velho mundo a fim de surgir o novo céu e a nova terra.
A proposta de Jesus é que só destruindo as falsas estruturas individualistas estaremos prontos a acolher o reino de Deus. Assim, entendemos que o reino não é uma construção futurista, mas uma realidade arquitetada agora em vista do céu. É preciso levar o mundo a fazer a sua páscoa, ou seja, a fazer a passagem do estado de pecado a uma vida de perfeição. Esta é a grande missão da Igreja: levar este mundo à conformidade com Cristo. Assim, nossa missão de cristãos não é somente social, política e cultural, mas também cósmica. Pois assim como o pecado do primeiro Adão não teve somente conseqüências para o homem, mas repercutiu também no cosmo e na matéria, assim também a redenção de Cristo deverá atingir todo o universo. Ele salvou a tudo e todos. Por isso a humanidade é chamada em Cristo a ser uma nova criatura e não somente ela, mas também a natureza e o universo. Desta forma, esse mundo é importante para o cristão. Certo que ele não tem morada definitiva, nem por isso deverá descuidar-se de construir aqui na terra as condições do reino. A Constituição Pastoral Gautium et Spes no número 21 afirma que o cristão não deve descuidar das obrigações deste mundo com a desculpa da salvação depois da morte. Pela esperança do reino escatológico encontramos motivação para lutar por um mundo melhor.
Não esqueçamos que o cristão é um sinal de Cristo, outro Cristo no mundo como bem afirmava Santo Agostinho. Ora, se somos Cristo, então nossa vida deve resplandecer a esperança de Cristo para as pessoas. Se não for assim, não adianta ser cristão. O cristão, afirma a Carta a Diongeto, é para o mundo o que a alma é para o corpo[2]. O cristão não foge do mundo, nem se esconde covardemente, ao contrário ele enfrenta o mundo, pois sabe que não está só nessa luta. A vitória do Cristo Rei que celebraremos no final do ao litúrgico é o sinal celebrativo de que a esperança cristã não decepciona.


[1] Cf. J. MOLTMANN, Teologia da Esperança, São Paulo: Paulus/Teologia, 2003, PP.33-47
[2] Carta a Diagneto, 6, Padres Apologistas, col. Patrística, São Paulo: Paulus, 1995.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Formação Básica de Bíblia







Introdução:

A leitura da bíblia na Igreja segue alguns critérios necessários para manter-se fiel à Palavra de Deus e evitar “adulterar” o sentido com uma leitura tendenciosa. A Igreja orienta a forma correta de ler a bíblia.
Entre as orientações podemos destacar:
Leitura contextualizada do texto. Compreender a cultura da época isso ajuda a compreender o texto, tendo em mente que a Bíblia é Palavra de Deus, mas foi escrita em uma época histórica, utilizando normas gramaticais, língua e destinada a um povo concreto;
Evitar leitura fundamentalista. Tirar da bíblia o que ela não quer dizer, utilizando a Palavra de Deus para justificar certas posturas e visões moralistas do mundo Evita-se assim a leitura “mágica” (Abrir a Bíblia em qualquer versículo isolado do texto completo e aplicar a Palavra na vida); Deve-se ler o texto completo.
Ler as entrelinhas. Ler sempre com a pergunta: “o que este texto quer me dizer?” e não com a pergunta: “aconteceu assim mesmo?”. Assim consegue-se descobrir a atualidade da Palavra em nossas vidas.
Utilizar as sete chaves da leitura bíblica (folha anexa).


I – CONTEXTO HISTÓRICO

1. Os Povos pré-bíblicos

Para uma compreensão da Bíblia devemos, em primeiro lugar, contextualizá-la na história da humanidade. Hoje isso é possível através da ajuda das ciências: História, Geografia, Antropologia, Arqueologia, Exegese e Filologia (estudo da escrita antiga).
Antes do início do texto escrito houve a presença de povos que foram os antecessores dos Povos Bíblicos e que juntos formam os antepassados do Povo de Deus, ou seja, antigo Israel. São os povos:
a) Hapirus:
A origem deste povo é a planície. Trata-se do campesinato expulsos de suas terras na planície. Eram mão-de-obra explorados pela cidade-estado, sendo obrigados a buscar sobrevivência às margens da sociedade Feudal. Refugiaram-se nas montanhas, onde os carros de guerras da cidade-estado não alcançava. Esses povos tiveram um grande significado quando a decadência das cidades-estados.


b) Abraâmicos:
Ocupavam os espaços entre as cidades-estados, as estepes. Eram um outro grupo de resistência ao regime da cidade-estado. Viviam da criação de gado pequeno (ovelhas e cabras). Eram seminômades. O nomadismo nas estepes estavam sujeito às condições climáticas e mudavam de acordo com o clima e as pastagens (o Patriarca Abraão era proveniente desse grupo). A instituição básica desses povos era o Patriarcalismo, liderados pelo Pai de família, organizados em clã. No entanto, a mulher e a criança gozavam de estimas, diferente das cidades-estados, onde a mulher era destinada ao harém e as crianças sacrificadas aos ídolos. A divindade era politeísta, o deus era conforme cada clã, ou seja familiar..
c) Mosiacos:
Está ligado ao grupo do êxodo que viveu escravo no Egito. Não é um grupo homogêneo, mas proveniente de escravização por guerras e conquistas. Constava de vários grupos que trabalhavam sob o jugo do Faraó trabalhando na fabricação de tijolos. Passaram a serem designados de hebreus. Esse grupo teve a experiência do Deus libertador.
d) Sinaítico:
Viviam aos pé da montanha de Deus, o Sinai.Esse grupo deu grande contribuição a Israel no culto a Javé. Provavelmente Moisés teve contato com esse grupo quando fugiu para o deserto e conheceu o clã de Jetro, que se tornou seu sogro.

Posteriormente esses povos juntaram suas tradições e aderiram a Javé como Deus de seus antepassados.


A terra habitada - organização sócio-político- econômico-religioso [1]

A época dos povos pré-bíblicos até a época bíblica, houve uma sucessão de impérios que se alternaram em vários momentos na história no controle da região. A grande disputa desses impérios era a terra de Canaã por se tratar de um corredor de passagem, controlando este corredor controlava-se a terra. Havia o que era conhecido por Crescente Fértil – extensão de terra que se estende da mesopotâmia ao Egito em forma de lua crescente, onde toma grande de Canaã.
Neste período destaca-se:

a) Canaã
Do ponto de vista político Canaã não possuía uma identidade, apesar da unidade. Eram vários mini-estados organizados sob a coroa. Os canaanitas eram comerciantes, grandes exportadores de madeira, líderes na indústria têxtil e especialistas na tintura de púrpura. Mantinham relação comercial com Egito e Mesopotâmia e as terras egéias (mar Egeu). Socialmente a concentração era nas cidades-estados na planície. Não possuía uma classe média. Eram politeístas e sacrificavam crianças para os deuses.
b) Mesopotâmia
Do ponto de vista político a Mesopotâmia era governada por um rei, apesar de ser organizada no sistema de cidades-estados. As cidades-estados eram teocracias (governo de deus), a cidade e suas terras pertenciam ao deus. Economicamente a vida era organizada em torno do templo, com seus jardins seus campos e seus depósitos. Agricultura desenvolvida possibilitava uma economia crescente e uma estabilidade. A Mesopotâmia esteve sob o domínio de várias dinastias.

c) Egito
politicamente o Egito tem uma história de conquistas e expansionismo. Era governador por um rei: o faraó. Não era um rei por eleição divina, nem um homem que teria sido deificado, mas o próprio deus. Era horus visível entre o povo, um deus. Apesar da terra ser administrada por uma burocracia complexa chefiada pelo vizir, tudo pertencia ao rei-deus, sobretudo as pessoas e este tinha a obrigação de manter a justiça. Socialmente o Egito tinha os egípcios livres e os camponeses escravos que viviam na vida dura trabalhando nas construções e cerâmicas, apesar de não haver impedimento de qualquer um ascender às classes ricas (p. ex. a estória de José). A religião do Egito era politeísta. Economicamente, por sua localização, era estável. Pelo processo de expansão além de muitas relações comerciais, havia os tributos que eram cobrados sobre os povos dominados.
A visão de mundo dos Egípcios era um mundo equilibrado, com uma ordem imutável, estabelecida desde a criação do mundo.

A Migração

A Bíblia relata no livro do Gênesis ( 12, 1-10; 13,1-4) as viagens feitas pelos Patriarcas.
Esse testemunho bíblico está de acordo com o dado histórico. Abraão e Sara subiu da Mesopotâmia e segui por Canaã, desceu para o Egito e retornou a Canaã, onde se instalou.
A Bíblia também relata a estória de José (Gn 37, 1-36), José foi a frente de sua família e é com ele que começa a aventura para o Egito. A escritura também relata o processo migratório feito por vários grupos (Gn 42, 1ss), quando houve uma grande fome em toda região e todos foram forçados a descerem para o Egito em busca de melhores condições de vida. Esse fato ocorreu mais ou menos no ano 2000 antes de Cristo. A Bíblia também relata a estada do povo no Egito (Gn 46, 1-7 e Ex 1, 8-14). Esse relato apresenta todo processo que será a raiz da História da Salvação.

II – ESTRUTURA DA BÍBLIA

2.1. A Tradição Oral
A Bíblia antes de ser escrita foi falada. É o que chamamos de Tradição Oral. Foi passada de boca em boca, de pai pra filhos, de filhos pra neto... Durou 900 anos... (cf. Dt 6,21-24. 26,5-9) até ser codificada (escrita). O primeiros escritos da bíblia foram em Aramaico e hebraico (quase todo o Antigo Testamento) e em grego ( Novo testamento e alguns livros do AT). O termo “BÍBLIA” vem do grego “Biblos” que quer dizer livros.
Nossa bíblia católica possui 73. esta dividida em duas grandes partes: Antigo Testamento (ou Aliança) 46 livros e Novo Testamento (ou Aliança) 27 livros.

A) ANTIGO TESTAMENTO –
Relata a história do Povo escolhido por Deus. Sua relação com Deus. Está agrupado em quatro (4) grupos menores:
1. Pentateuco - significa penta= cinco e teucos= rolos. Cinco livros. Chamado pelos judeus de aTora = a Lei. O principal assunto é a formação do Povo de Deus, desde as origens até o momento da Aliança com Deus.
1.1. Gênesis: Relata a criação do mundo; o pecado de Adão e Eva; a história dos patriarcas: Abraão e Sara, Isaac e Jacó; história de José e seus irmãos e chegada no Egito.
1.2. Êxodo: Significa “saída”. Narra a estadia do povo no Egito, a escravidão, a eleição do povo por Javé e o processo de libertação; concluindo com a Aliança com Javé no Sinai.
1.3. Levítico: Apresenta as leis a cerca do culto a Javé, normas religiosas.
1.4. Números: Devido a listas de recenseamento contida no início do livro. Retoma a caminhada no deserto, narra as infidelidades e fidelidades do Povo, liderados por Moisés.
1.5. Deuteronômio: Significa Deutero= segunda e Nomos= Lei ( Segunda Lei) é uma reapresentação da lei dada no Sinal abrangendo as relações sociais da nova sociedade formada com a libertação e posse da Terra.
2. Livros Históricos – Formam a maior parte do AT, falam sobre a vivência da Aliança no meio do povo, a continuidade do Processo de libertação com a conquista da terra, a organização Tribal, as lideranças (juízes) e a tensão entre uma sociedade organizada segundo Deus e a tentação de renúncia a Deus aderindo aos costumes dos estrangeiros. Ao todo são 16: Josué, Juízes, Rute, 1 e 2 Samuel, 1 e 2 Reis, 1 e 2 Crônicas, Esdras, Neemias, Tobias, Judite, Éster, 1 e 2 Macabeus. Esses livros narram os momentos fortes da relação de Israel com Deus-Javé. Não obedecem uma ordem cronológica, pois sua função é de instruir e apresentar a fidelidade de Deus na história e as conseqüências da infidelidade do povo.
3. Livros Sapienciais – São poemas, orações, reflexões e dito populares que revelam a sabedoria do povo orientados por Deus no caminho da felicidade. São 7: Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes, Cânticos dos Cânticos, Sabedoria e Eclesiástico.
4. Livros Proféticos – É o último bloco do AT. Os profetas são pessoas escolhidas por Deus para exercer uma função de “porta voz” de Deus, falar em seu nome. Os profetas atuaram nos momentos marcantes da vida de Israel a fim de que o Povo seja fiel a Javé.

B) NOVO TESTAMENTO-

Relata a vida e missão de Jesus e o nascimento da Igreja e sua missão.
1. Evangelhos – Narra a vida-morte-ressurreição de Jesus e sua mensagem. Está dividido em: a) Evangelhos Sinótico: Mateus, Marcos e Lucas. São chamados assim por serem semelhantes no conteúdo e por utilizarem uma mesma fonte escrita. b) João – difere dos outros três por apresentar de forma bem específica a vida de Jesus com uma linguagem mais das alturas e por não utilizar as mesmas fontes.
2. Atos dos Apóstolos- Narra o nascimento das primeiras comunidades Cristãs, sua organização e difusão.
3. Cartas Apostólicas – São as cartas escritas pelos Apóstolos às comunidades fundadas a partir do anúncio da Palavra de Deus. a) Cartas Paulinas – As que Paulo escreveu nas suas viagens às comunidades por ele fundadas ou visitadas: Romanos, 1 e 2 Coríntios, Gálatas, Efésios, Filiopenses, Colossenses, 1 e 2 Tessalonicenses, 1 e 2 Timóteo, Tito, Filemon e Hebreus. b) Cartas Pastorais – escritas por outros apóstolos com o fim de ajudar a comunidade a ser fiel ao projeto de Jesus Cristo.
4. Apocalipse – É um livro escrito com uma literatura caracterizada por simbologia, um recurso literário de grande estratégia, pois foi escrito no período de perseguição e o perseguidor (império Romano) não poderia descobrir as razões dos escritos, mas para as comunidades os escritos eram claros. O objetivo do livro é exortar e animar os Cristão perseguidos, mostrando que no final eles serão vencedores em Cristo – o Cordeiro.


2.2. A Diferença das Bíblias

A Bíblia Católica difere das demais bíblias. O Texto atual, chamado de CANÔNICO (quer dizer faz parte da lista oficial da Igreja) foi traduzido da Tradução Latina (chamada Vulgata – traduzida por S. Jerônimo) , que por sua vez foi traduzida do Grego (chamada Setenta ou Septuaginta [LXX]), fruto da Tradução do Aramaico e Hebraico. Nossa lista contém os 73 livros completos.
A Bíblia Hebraica só tem o Antigo Testamento, fora os livros escritos em grego, sendo assim dividida: A Toráh (Pentateuco); Neebin (Livros históricos e outros Escritos) e Ketubin (Livros Proféticos).
A Bíblia Protestante adotou a versão Hebraica do Antigo Testamento, assim possuem sete livros a menos: Judite, Tobias, 1 e 2 Macabeus, Baruc, eclesiástico e Sabedoria, também partes de Éster (10,4-16,24) e Daniel (13-14). Esses Livros foram escritos em grego.
Existem os Livros chamados de APÓCRIFOS, quer dizer: Oculto, escondido, misterioso, estes não foram aceitos pela Igreja por se tratar de muita fantasia e de fonte duvidosa (p. ex. Livros que contam estórias da infância de Jesus, nascimento de Maria, vida de santos, etc).

OBSERVAÇÃO:
Para identificar se uma Bíblia é católica ou não além de conferir a quantidade de livros, um modo mais fácil é verificar a editora, as mais comuns é: Paulinas, Paulus, Vozes, Loyola, Ave Maria, CNBB, TEB. Também outra maneira é ver a autorização da CNBB ou do Vaticano com a assinatura do Bispo responsável.
















[1] Bibliografia consultada:História de Israel. Bright J. ed. São Paulo: Paulinas, 1978.

sábado, 7 de novembro de 2009

HOMILIA DA MISSA DO XXXII DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO B


Caros irmãos e irmãs a liturgia deste domingo apresenta-nos duas viúvas no centro do olhar de Deus. A primeira prima pela hospitalidade e a segunda pela humildade. Elas contrastam com a opulência da vida dos ricos e poderosos que não estão muito preocupados em servir aos irmãos e irmãs, mas sim ser servido por todos eles.
A verdadeira religião pressupõe essa dupla atitude das viúvas dos textos sagrados de hoje. No caso do Evangelho o Cristão é convidado a dar não do que tem, mas dar de si. Há uma diferença dá do que se tem sobrando e dá do que se tem para viver. No primeiro caso se oferece não por comprometimento, mas por obrigação. No segundo caso a oferenda parte do coração e não do bolso. Dar de si é oferecer-se a Deus no serviço generoso da caridade. A viúva deu do que lhe era necessário, ao contrário do rico que deu da abundancia, muitas vezes fruto do seu privilégio, como ostentação da glória e do poder. O gesto da viúva, lançado no silêncio de sua entrega, todos os seus bens, obteve mais graça e mereceu o elogio do Senhor, exatamente por que foi uma oferenda que comprometeu a viúva em sua vida presente e futura.
Assim, compreendemos que a oferenda, o dizimo e a esmola somente atingem seu fim quando elas envolvem a pessoa que oferta. Desta forma, o dar da viúva assemelha-se com o dar de Deus. A entrega do Filho pela salvação da humanidade afetou o mistério intra trinitário: Deus ao dar-se no Filho assumiu nossa condição. O rico fez-se pobre para enriquecer a muitos com seu gesto de hospitalidade e humildade.
Com relação a hospitalidade e a humildade, podemos notar até aqui que essas duas características não estão aí por acaso. Elas formam dois modos reais de identidade cristã. A hospitalidade é uma herança cristã presente já na origem das comunidades, pois se ler na Didaqué: Acolhei todo aquele que vier em nome do Senhor (...),Se o hóspede estiver de passagem, dai-lhe ajuda no que puder.[1] Nas Igrejas cristãs dos primeiros séculos um cristão em viagem estava certo de ser acolhido fraternalmente por todas as comunidades que iria encontrar ao longo de seu itinerário, contanto que tivesse provido de uma carta de apresentação, que geralmente era assinada pelo Bispo, como encontramos em na Apologia ao Cristianismo de Tertuliano[2]. A hospitalidade como marca cristã não somente é um bem para quem recebe como para quem a faz. Pois em São Clemente romano encontramos: “por causa da fé e da hospitalidade foi dado um filho na velhice (...) por causa da hospitalidade foi dado a Ló a salvação da condenação de Sodoma[3]. Pela hospitalidade se conquista graça diante de Deus. Por que na hospitalidade acolhemos a modo de Deus, que acolhe sem procurar receber nada em troca. Na hospitalidade espelhamos o amor ágape próprio de Deus.
A outra característica do cristão é a humildade presente na segunda viúva da liturgia de hoje. A humildade dizia São Vicente é a fonte da vida cristã, pois ser humilde é imitar nosso Senhor que foi humilde até o fim, morrendo numa cruz. A humildade afirma, São Vicente “ faz nascer na alma todas as demais virtudes (...). Um homem, por muito caridoso que seja, se não é humilde, não tem caridade” (XI, 494) “A humildade tem a propriedade de nos impedir de pretender alguma estima que não seja de ti mesmo, Deus meu (...).[4] Assim, compreendemos que a humildade é a bela dama que nos levará no bailado do amor até Cristo, nossa salvação. Sem humildade não podemos ir até Deus. Não esqueçamos que o Reino do Senhor está reservado aos humildes de coração!

Pe. Fantico Borges, CM

[1] DIDAQUÉ, nº 12 , São Paulo: Paulus, 2002, p. 356.
[2] Dicionário Patrístico e de Antiguidade Cristã, Petrópolis/São Paulo: Vozes/ Paulus, 2002, p. 698,
[3] Cf. CLEMENTE ROMANO, I Carta, São Paulo: Paulus, 2003, p. 31 ( nº 10-11).
[4] P. COSTE, Conferencias de São Vicente de Paulo, Vol. XI, p. 495

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

MISSA DOS FIÉIS FALECIDOS: O SENTIDO DA MORTE




Irmão e irmãos, o Senhor dos exércitos, ele mesmo, vai eliminar para sempre a morte e enxugará as lagrimas de todas as faces e acabará com a desonra do seu povo (cf. Is 25,8). Essa promessa é para aqueles que confiam no poder de Deus. Para estes “os sofrimentos da vida presente não tem comparação alguma com a glória que se manifestará em nós”. (Rm 8,18). A morte é o dom de Deus derramo sobre nossa vida de sofrimento, pois com o pecado a vida humana, possuidora da imortalidade, sem a morte, tornar-se-ia um eterno suplicio. A morte vem assim por fim ao sofrimento desta vida e abrir-nos as portas definitivamente da graça. Para Santo Ambrosio: “A morte não era da natureza humana, mas converteu-se em natureza. No princípio, Deus não fez a morte, mas deu-a como remédio. Pela prevaricação, condenada ao trabalho de cada dia e ao gemido intolerável, era preciso dar fim aos males, para que a morte restituísse o que a vida perdera. Pois a imortalidade seria mais penosa que benéfica, se não fosse promovida pela graça”.
Fica claro que a morte não é um fim trágico, mas uma oportunidade que Deus nos oferece para entrarmos em plena comunhão com Ele. Essa certeza é mais visível quando lemos a doce consolação presente no livro da Sabedoria: “a vida dos justos está nas mãos de Deus e nenhum tormento poderá atingi-los” (Sb3,1). Como lembra-nos Santo Anastácio de Antioquia: pela morte de Cristo somos ressuscitados e libertados da corrupção, não sofremos mais a morte, mas participamos da ressurreição de Cristo, como Cristo que participou da nossa morte.
Como nos apresentou para na segunda leitura: nós recebemos um Espírito de filhos, no qual nós clamamos Abá, ò Pai! Mas por enquanto estamos gemendo e aguardando a manifestação dos filhos de Deus. Até aguardamos na fé, ou seja, na vida presente. Por isso é necessário preparar-se, pois Deus virá numa hora que não sabemos. Assim, a vida do justo é o modo seguro para encontrar-se com deus. Quem não se prepara com uma vida reta, justa e fiel diante de Deus e dos irmãos a morte poderá significar um aniquilamento. Porém, a todos que crêem é dado a graça e a vida eterna. Pensemos assim, para o encontro definitivo devemos escolher a melhor veste, banhar-nos com o melhor perfume. Essa veste e esse perfume chamam-se caridade, amor ilimitado e incondicional, como bem demonstrou o texto do Evangelho de Mateus. O juízo será não de palavras, mas de obras: tive fome e me destes de comer...
O banquete eucarístico que devotamente celebramos já é sinal antecipado dessa vida novo que nos espera após nossa partida deste mundo. O ato celebrativo que hoje realizamos é ato memorial e sacramental das promessas salvífica. Memorial, pois lembra o evento pascal e as palavras do próprio Jesus Cristo: “vou preparar-vos um lugar e quando estiver preparado, voltarei e os levarei comigo, para que onde eu estiver estejais vos também”. Sacramental porque realiza no aqui e agora de nossa existência, de forma antecipada, tudo aquilo que na outra vida resplandecerá em plenitude.
Peçamos, pois, nesta celebração que o bom Deus, rico em misericórdia nos purifique no sangue de Cristo e pela força do Espírito santo todos os pecados de nossos irmãos falecidos, sejam perdoados. Amém!


sábado, 31 de outubro de 2009

Oração ao Deus desconhecido de Friedrich Nietzsche.

Antes de prosseguir em meu caminho e lançar o meu olhar
para frente uma vez mais, elevo, só, minhas mãos a Ti
na direção de quem eu fujo.

A Ti, das profundezas de meu coraçao,
tenho dedicado altares festivos para que, em cada momento,
Tua voz me pudesse chamar.

sobre esses altares estão gravadas
em fogo estas palavras: "Ao Deus desconhecido".

Seu, sou eu, embora até o presente
tenha me associado aos sacrílegos.
Seu, sou eu, não obstante os laços
que me puxam para o abismo.

Mesmo querendo fugir,
sinto-me forçado a servi-Lo.
Eu quero Te conhecer, desconhecido.
Tu, que me penetras a alma e,
qual turbilhão, invades a minha vida.

Tu, o incompreensível, mas meu semelhante,
quero Te conhecer, quero servir só a Ti.

Friedrich Nietzsche.

Homilia do dia de todos os Santos



Caros irmãos e irmãs a nossa celebração eucarística convida-nos a compartilhar o júbilo celeste dos santos, a saborear a sua alegria. Os santos não são uma exígua casta de eleitos, mas uma multidão inumerável, para a qual a liturgia de hoje nos exorta a levantar o olhar. Eles são uma multidão, não correspondem somente os santos oficialmente reconhecidos, mas os batizados de todas as épocas e nações, que procuraram cumprir com amor e fidelidade a vontade divina.
Nesta solenidade de hoje, a Igreja festeja a sua dignidade de "mãe dos santos, imagem “civita dei" (Agostinho), e manifesta a sua beleza de esposa imaculada de Cristo, nascente e modelo de toda a santidade (Lumem gentium, 48). Não falta santos na Igreja, não obstante existe diversos faltosos e rebeldes. Para Bento XVI “é nos santos que a Igreja reconhece os seus traços característicos, e precisamente neles saboreia a sua glória mais profunda”.
Nesse dia a Igreja militante (aquela que cainha neste mundo) honra a Igreja triunfante do Céu celebrando numa única solenidade todos os Santos. É como diz a oração da pós comunhão da Missa: para que nesta mesa de peregrinos, passemos ao banquete do vosso Reino”. Essa solenidade é para render homenagem aquela multidão de Santos que povoam o Reino dos céus que São João viu no Apocalipse: “Ouvi então o número dos assinalados: cento e quarenta e quatro mil assinalados, de toda tribo dos filhos de Israel… Depois disso, vi uma grande multidão que ninguém podia contar, de toda nação, tribo, povo e língua: conservavam-se em pé diante do trono e diante do Cordeiro, de vestes brancas e palmas na mão,”. Estes eram os sobreviventes da grande tribulação; lavaram as suas vestes e as alvejaram no sangue do Cordeiro.” (cf. Ap 7,4 - 14)
Esta imensa multidão de 144 mil, “que está diante do Cordeiro” compreende todos os servos de Deus, ao qual a Igreja canoniza através da decisão infalível do Papa, e todos aqueles, incontáveis, que conseguiram a salvação, e que desfrutam da visão beatífica de Deus. Este povo compreende os santos do Antigo Testamento, a partir do justo Abel e do fiel Patriarca Abraão, os do Novo Testamento, os numerosos mártires do início do cristianismo e também os beatos e os santos dos séculos seguintes, até as testemunhas de Cristo desta nossa época. Todos eles são irmanados pela vontade de encarnar o Evangelho na sua existência, sob o impulso do eterno animador do Povo de Deus, que é o Espírito Santo.
Mas "para que servem o nosso louvor aos santos, o nosso tributo de glória, esta nossa solenidade?". Com esta interrogação tem início uma famosa homilia de São Bernardo para o dia de Todos os Santos. Ele conclamava seus confrades a imitação dos santos no que corresponde ao desejo de ver a Deus e ficar com Ele. O santo dizia: Bem-aventurados os limpos de coração, e verdadeiramente bem-aventurados, porque eles verão aquela face divina, a qual os anjos sempre estão vendo e sempre estão desejando ver. A vós, Senhor, diz o meu coração: Nenhuma coisa desejo, senão ver-vos de face a face, porque nenhuma outra há para mim, nem na terra nem no mesmo céu. Desmaia o meu coração nas ânsias deste desejo, porque só o Deus do meu coração é o único e todo o bem que o pode satisfazer. E quando chegará aquela ditosa hora em que, com a vista de vosso rosto, fique satisfeito? Mas, ai de mim — diz Bernardo — que pela pouca limpeza de meu coração — quero-o dizer com as suas próprias palavras — ai de mim, que a impureza e imundícia de meu coração impede-me e faz indigno de ser admitido àquela bem-aventurada vista! Ora, Se isto dizia de si um coração tão puro, um coração tão santo, um coração tão elevado, tão estático, tão seráfico e tão abrasado no amor divino, se isto dizia no coração de Bernardo a humildade, que dirá noutros corações a verdade? Se o corpo estiver no claustro, e o coração no mundo? Se o coração, depois de se dar a Deus, estiver sacrificado ao ídolo? Se o coração, que devera estar cheio de caridade e amor de Deus, estiver ardendo em amor que não é caridade? Se as palavras, que saem do coração, e os pensamentos, que não saem, forem envoltos em impureza? Ai de tal coração e de quem o tem. Eis, portanto, o significado da solenidade hodierna: contemplando o exemplo luminoso dos santos, despertar em nós o grande desejo de ser como os santos: felizes por viver próximos de Deus, na sua luz, na grande família dos amigos de Deus. Ser santo significa: viver na intimidade com Deus, viver na sua família. Esta é a vocação de todos nós, reiterada com vigor pelo Concílio Vaticano II, no capítulo V da Lumen gentium.
A mesma “Lúmen gentium” do Vaticano II, lembra que: “Pelo fato de os habitantes do Céu estarem unidos mais intimamente com Cristo, consolidam com mais firmeza na santidade toda a Igreja. Eles não deixam de interceder por nós junto ao Pai, apresentando os méritos que alcançaram na terra pelo único mediador de Deus e dos homens, Cristo Jesus. Por seguinte, pela fraterna solicitude deles, a nossa fraqueza recebe o mais valioso auxílio” (LG 49). Com esta mesma convicção, na hora da morte, S. Domingos de Gusmão dizia a seus frades: “Não choreis! Ser-vos-ei mais útil após a minha morte e ajudar-vos-ei mais eficazmente do que durante a minha vida”. E Santa Teresinha confirmava este ensino dizendo: “Passarei meu céu fazendo bem na terra”.
Mas como alcançar esta tão sonhada santidade dos bem-aventurados? Para ser santo não é necessário realizar ações nem obras extraordinárias, nem possuir carismas excepcionais, nem ser adivinhos e videntes.para ser santo é preciso, sobretudo ouvir Jesus e depois segui-lo sem desanimar diante das dificuldades. "Se alguém me serve Ele admoesta-nos que me siga, e onde Eu estiver, ali estará também o meu servo. Se alguém me servir, o Pai há de honrá-lo" (Jo 12, 26). Quem nele confia e o ama com sinceridade, como o grão de trigo sepultado na terra, aceita morrer para si mesmo. Com efeito, Ele sabe que quem procura conservar a sua vida para si mesmo, perdê-la-á, e quem se entrega, se perde a si mesmo, precisamente assim encontra a própria vida (cf. Jo 12, 24-25).
A experiência da Igreja demonstra que cada forma de santidade, embora siga diferentes percursos, passa sempre pelo caminho da cruz, pelo caminho da renúncia a si mesmo. As biografias dos santos descrevem homens e mulheres que, dóceis aos desígnios divinos, enfrentaram por vezes provações e sofrimentos indescritíveis, perseguições e o martírio. Perseveraram no seu compromisso, "vêm da grande tribulação lê-se no Apocalipse lavaram as suas túnicas e branquearam-nas no sangue do Cordeiro" (Ap 7, 14). Os seus nomes estão inscritos no livro da Vida (cf. Ap 20, 12); a sua morada eterna é o Paraíso. O exemplo dos santos constitui para nós um encorajamento a seguir os mesmos passos, a experimentar a alegria daqueles que confiam em Deus, porque a única verdadeira causa de tristeza e de infelicidade para o homem é o fato de viver longe de Deus.
A santidade exige um esforço constante, mas é possível para todos porque, mais do que uma obra do homem, é sobretudo um dom de Deus, três vezes Santo (cf. Is 6, 3). Na segunda Leitura, o Apóstolo João observa: "Vede que amor tão grande o Pai nos concedeu, a ponto de nos podermos chamar filhos de Deus; e, realmente, o somos!" (1 Jo 3, 1). Portanto, é Deus que nos amou primeiro e, em Jesus, nos tornou seus filhos adotivos. Na nossa vida tudo é dom do seu amor: como permanecer indiferente diante de um mistério tão grande? Como deixar de responder ao amor do Pai celestial, com uma vida de filhos reconhecidos? Em Cristo, entregou-se inteiramente a nós e chama-nos a um profundo relacionamento pessoal com Ele. Portanto, quanto mais imitarmos Jesus e permanecermos unidos a Ele, tanto mais entraremos no mistério da santidade divina.
Assim, o caminho para tudo isso é buscar ardentemente ser um bem-aventurado. Jesus é o Santo principal, é através dele que toda santidade eclesial sustenta seu alicerce. Com efeito, Ele é o verdadeiro pobre de espírito, o aflito, o manso, aquele que tem fome e sede de justiça, o misericordioso, o puro de coração, o pacificador; Ele sofre perseguição por causa da justiça. As Bem-Aventuranças revelam-nos a fisionomia espiritual de Jesus e assim exprimem o seu mistério, o mistério da Morte e da Ressurreição, da Paixão e da alegria da Ressurreição. Este mistério, que é mistério da verdadeira bem-aventurança, convida-nos ao seguimento de Jesus e, deste modo, ao caminho que conduz a ela. Na medida em que aceitamos a sua proposta e nos colocamos no seu seguimento cada qual nas suas próprias circunstâncias também nós podemos participar das Bem-Aventuranças. Juntamente com Ele, o impossível torna-se possível e até um camelo pode passar pelo fundo de uma agulha (cf. Mc 10, 25); com a sua ajuda, somente com a sua ajuda podemos tornar-nos perfeitos como é perfeito o Pai celeste (cf. Mt 5, 48).


Pe. Fantico Nonato Silva Borges, CM

sábado, 24 de outubro de 2009

ECONOMIA E TRABALHO



I. Introdução
Nosso trabalho é uma tentativa de comentar sobre o binômio trabalho e economia. Para melhor compreender aquilo que se anela expor aqui acreditamos ser importante uma conceitualização dos dois principais termos deste referido estudo.
Com referência ao termo trabalho a palavra aqui quer significar toda atividade realizada pelo homem, tanto a manual como a intelectual. Isto quer dizer que se deve reconhecer como trabalho humano toda atividade que o homem é capaz, e está disposto a fazer por sua própria natureza. O trabalho identifica o ser humano, pois por meio dele o ser humana transforma seu ambiente natural.
Já o conceito economia é bem mais complexo, por que envolve um conjunto de relações. O que nesta pesquisa chamaremos de economia é a articulação entre a força de trabalho, os meios de produção e acumulação dos bens. A economia, portanto será vista como a administração destas forças numa relação harmoniosa e equilibrada. Ora, o que se pretende definir neste conceito é a estreita relação entre trabalho e produção numa que valorize e favoreça o equilíbrio humano da posse dos bens produzidos.
Esta conceituação já demonstra que a economia está vinculada (esta vinculação como subordinação ao humano) a atividade humana como conseqüência das múltiplas relações de indivíduos. Daí que se pode falar de economia de mercado, política, doméstica e etc.
Nosso intento nestas paginas será apontar alguns aforismas que ajudem a identificar os problemas atuais que envolvem o trabalho e a economia, gerando um conflito entre o ético e econômico. A tônica aqui desenvolvida será efetuada em três momentos. Primeiro vamos apontar os aspectos bíblico-teológicos do binômio, buscando perceber como estes aspectos aparecem nos textos sagrados; quais os princípios fundamentais e a natureza do trabalho. Depois no segundo momento vamos deter-nos mais naquilo que diz respeito aos aspectos antropológicos da relação trabalho e economia. Neste ponto queremos defender a tese que a economia somente é viável se colocar no centro de seus interesses o ser humano como fim e não como meio. Por fim abordaremos como o binômio se desenvolveu nos últimos tempos e quais dificuldades se deverão enfrentar para construir uma economia que sirva, de fato, para criar um mundo sociabilizado e humanamente possível. Daremos atenção neste ponto da pesquisa aos aspectos sócio-econômicos da relação sujeito e objeto do trabalho e da economia.

II. A NATUREZA DO TRABALHO: ASPECTOS TEOLÓGICOS.

A natureza do trabalho humano, segundo um víeis teológico, pode ser interpretado à luz das primeiras páginas do Livro do Gênesis (Gn 1, 28-30; 3, 19), onde o trabalho constitui uma dimensão fundamental da existência humana sobre a terra. “O trabalho humano procede imediatamente das pessoas criadas à imagem de Deus, e chamadas a prolongar, umas com as outras, a obra da criação dominando a terra.”[1] O trabalho visto desta forma é um prolongamento da ação criadora de Deus, onde o homem é “co-criador” com o Senhor. Visto assim, “o trabalho honra os dons do Criador e os talentos recebidos”.[2] É importante destacar que o texto sagrado expressa uma verdade fundamental: o trabalho não é somente fonte econômica, mas expressão da dignidade humana e sua co-participação na obra criadora. Portanto o trabalho possui uma dimensão mistérica e teologal.
O trabalho para o homem não é apenas uma atividade econômica, mas exprime uma exigência natural. O Papa João XXIII já lembrava disso quando afirmava que “no que diz respeito às atividades econômicas, é claro que, por exigência natural, cabe à pessoa não só a liberdade de iniciativa, senão também o direito ao trabalho”.[3]
O trabalho como parte da estrutura fundamental da vida humana tem o seu papel ontológico como exercício pessoal. Deus criando o ser humano à sua Imagem quis que homem e mulher participassem como colaboradores pelo trabalho no acabamento do mundo. A criatura imagem de Deus recebe o mandato de seu Criador de submeter e dominar a terra[4], tal ação é mediada pelo trabalho. No desempenho deste mandato, o ser humano, reflete a própria ação do Criador no mundo e na história. O trabalho entendido como uma atividade “transformadora”, quer dizer, uma atividade que recria ou constrói a partir da obra divina, iniciando-se no sujeito, direciona-se a um objeto exterior e não pode deixar de pressupor o sujeito da atividade. Desta forma já se aponta, aqui, que o trabalho não é para alienar, subtrair ou anular a pessoa, ao contrário, ele deve vislumbrar a específìca missão do ser humano. Neste sentido ler-se na Pacem in Terris: “a exigência de poder a pessoa trabalhar em tais condições que não se lhe minem as forças físicas nem se lese a sua integridade moral.”[5]
O Papa Paulo VI alude que desde o nascimento o ser humano é orientado ao desenvolvimento de sua vocação diante do mundo:
Nos desígnios de Deus, cada homem é chamado a desenvolver-se, porque toda a vida é vocação. É dado a todos, em germe, desde o nascimento, um conjunto de aptidões e de qualidades para as fazer render: desenvolvê-las será fruto da educação recebida do meio ambiente e do esforço pessoal, e permitirá a cada um orientar-se para o destino que lhe propõe o Criador. Dotado de inteligência e de liberdade, é cada um responsável tanto pelo seu crescimento como pela sua salvação. Ajudado, por vezes constrangido, por aqueles que o educam e rodeiam, cada um, sejam quais forem as influências que sobre ele se exerçam, permanece o artífice principal do seu êxito ou do seu fracasso: apenas com o esforço da inteligência e da vontade, pode cada homem crescer em humanidade, valer mais, ser mais.[6]
O trabalho carrega em si mesmo uma forte conotação comunitária, e o seu papel, como fator produtivo das riquezas espirituais e materiais, aparece para além do econômico, pois evidencia que o trabalho de um homem se cruza naturalmente com o de outros homens. Hoje mais do que nunca, trabalhar é um trabalhar com os outros e um trabalhar para os outros: torna-se cada vez mais um fazer coisa para alguém. O trabalho é tanto mais fecundo e produtivo, quanto mais o homem é capaz de conhecer as potencialidades criativas da terra e de ler profundamente as necessidades do outro homem, para o qual é feito o trabalho. [7]
O Papa João Paulo II afirma que o trabalho deve ser uma atividade que realize e aprofunde cada vez mais a dignidade do ser humano. O homem realizando as “diversas ações que fazem parte do processo do trabalho; estas, independentemente do seu conteúdo objetivo, devem servir todas para a realização da sua humanidade e para o cumprimento da vocação a ser pessoa, que lhe é própria em razão da sua mesma humanidade”.[8] E completa o papa:
O homem deve trabalhar, quer pelo fato de o Criador lhe ter ordenado, quer pelo fato da sua mesma humanidade, cuja subsistência e desenvolvimento exigem o trabalho. O homem deve trabalhar por um motivo de consideração pelo próximo, especialmente consideração pela própria família, mas também pela sociedade de que faz parte, pela nação de que é filho ou filha, e pela inteira família humana de que é membro, sendo como é herdeiro do trabalho de gerações e, ao mesmo tempo, co-artífice do futuro daqueles que virão depois dele no suceder-se da história. [9]
Portanto, à luz da Palavra de Deus, o trabalho é a atividade para todo ser humano, o dinamismo pelo qual ele se auto-realiza. Em vista disso o trabalho humano encontra o seu sentido e o seu fim quando, fecundado pela fraternidade de toda criatura, se converte de uma ação pessoal em vista da dignidade do sujeito, a uma elevação da dignidade de toda humanidade. Diante da racionalidade econômico-capitalista é preciso lembrar que a expropriação ou dominação do trabalho do outro fere o princípio da dignidade humana e torna o trabalho uma escravidão e uma degeneração da pessoa, que não mais se encontra como sujeito frente ao objeto.

III. A RELAÇÃO ENTRE ECONOMIA E TRABALHO EM SUAS MATRIZES ANTROPOLÓGICAS.

Neste ponto, analisaremos o binômio economia e trabalho, buscando evidenciar os seus aspectos antropológicos. Pensamos ser um ponto importante para se tratar, uma vez que, o ser humano é o sujeito desta relação. É salutar ter presente que o ser humano é o autor, o centro e o fim de toda vida econômico-social.[10] O que está em jogo é a inegável dignidade de pessoa humana como fundamento de toda economia justa. É difícil haver uma economia justa onde o humano é desrespeitado em seus direitos fundamentais. Para se ter uma ordem econômico-social equilibrada é preciso vislumbrar aquilo que diz a Pacem in Terris: “Em uma convivência humana bem constituída e eficiente é fundamental o princípio de que cada ser humano é pessoa; isto é, natureza dotada de inteligência e vontade livre. Por essa razão, possui em si mesmo direitos e deveres, que emanam direta e simultaneamente de sua própria natureza. Trata-se, por conseguinte, de direito e deveres universais, invioláveis e inalienáveis”.[11]
Com respeito ao trabalho, é imprescindível tomar consciência de seu primado sobre o lucro. “O trabalho é a chave essencial de toda questão social”[12], alerta o Papa João Paulo II. Ele ainda afirma que o ser humano não pode viver sem trabalho e que o homem é sujeito e não objeto na relação economia e trabalho, “...uma vez que o domínio do homem sobre a terra se realiza no trabalho e mediante o trabalho”[13] e por fim é “preciso acentuar e pôr em relevo o primado do homem no processo de produção, o primado do homem em relação às coisas”.[14]
O trabalho constitui, portanto esta atividade de capital importância no desenvolvimento da vida humana. Sendo por isso defendido o dever e o direito ao trabalho. O trabalho é meio de sustento, de realização e de sociabilidade, além de possuir uma dimensão religiosa de transcendência para Deus, como já apontamos no início deste artigo. Na Declaração Universal dos Direitos do Homem, reconhece-se o direito ao trabalho como algo fundamental para o desenvolvimento humana e a conquista de uma vida digna.

Todo homem tem direito ao trabalho, à livre escolha do emprego, a condições justas e favoráveis de trabalho e à proteção contra o desemprego. Todo homem, sem qualquer distinção, tem direito a igual remuneração por igual trabalho. Todo homem que trabalha tem direito a uma remuneração justa e satisfatória, que lhe assegure, assim como à sua família, uma existência compatível com a dignidade humana e a que se acrescentarão, se necessário, outros meios de proteção social.[15]
Para que essa atividade venha a ser realizada sem prejuízo, é preciso que sejam observadas e garantidas as condições humanas do trabalho. Por isso, é injusto um trabalho que destrói o homem ou o impede de realizar-se como sujeito de dignidade inalienável. Um sistema econômico, desenvolvido ou em desenvolvimento, que não favorece ao trabalhador as condições dignas cresce injustamente e é humanamente inaceitável. Se o trabalho ao qual o ser humano está submetido não o permite desenvolver seus talentos e dons inerentes ao seu status de criatura dotada de inteligência e criatividade, mas ao contrário o escraviza, esse trabalho fere no íntimo os direitos inalienáveis da pessoa e é eticamente questionável.
Enrique Dussel afirma que a vida humana tem dignidade sagrada porque é dom de Deus. E que o valor de uso do objeto produzido é vida humana objetivada.[16] Se observarmos nosso contexto sócio-econômico poderemos perceber que há na relação trabalho e economia uma perigosa inversão, onde o ser humano está na periferia e marginalizado e no centro predomina o capital. A vida, em certo sentido, tornou-se mercadoria em vista do lucro. Mas eticamente o valor do trabalho é seu produto e o trabalhador necessita de uma remuneração que seja equivalente ao tempo que ele alienou na elaboração do objeto.[17] O que assistimos atualmente é o contrário, a alienação do sujeito do trabalho diante do objeto de sua produção. Karl Marx já questionava tal situação quando apontava para perversidade que o capitalismo impunha ao trabalhador.[18]
Eticamente a autonomia dos poderes econômico-especulativos da produção capitalista não pode ser atingida mediante a supressão do ser humano, como também não pode feri-los em seus valores morais, culturais e etc. Contra o risco de esvaziar o papel e a figura da pessoa dentro da relação econômico- produtiva, lembra o Papa João Paulo II que quando se fala da antinomia entre trabalho e capital não se trata, como é evidente, apenas de conceitos abstratos e de ‘forças anônimas’ que agem na produção econômica. Por detrás de um e de outro conceito, há homens vivos e concretos.[19]
A atividade econômica é uma das tarefas humanas, e como tal, autoconsciente, livre e responsável. Assim a economia deve ser entendida como realidade importante não em si mesma e por si mesma, mas para o bem de todos os homens. Nisto a economia apresenta-se em dupla vertente como atividade e como ciência. Para Marciano Vidal, na atividade econômica há uma dimensão social pela qual, através de uma série de fatores, os bens econômicos são produzidos, repartidos, trocados e consumidos. [20]
Marciano Vidal enfatiza que “Tão importante é o papel da Economia na sua dupla vertente de atividade e de ciência, que constitui na sociedade atual o núcleo básico das relações humanas. (...) as justiças e as injustiças atuais se situam predominantemente nas relações econômico-tecnológicas.”[21] Sabemos que a Economia possui sua autonomia, mas isto não deve levá-la a fechar-se no seu mundo econômico-científico. Por isso urge um intercâmbio dos saberes que garanta a autonomia da ciência econômica e possibilite o desenvolvimento integral do ser humano.[22]
Passando por essa breve abordagem da intrínseca implicação entre trabalho e economia já podemos entrever que economia e antropologia se articulam num mesmo campo de ação, e que uma economia sem uma ética e uma a moral centrada na dignidade fundamental do ser humano pode gerar sérias dificuldades para a própria realização do ser humano como ser de abertura ao outro e ao transcendente.

IV. TRABALHO E ECONOMIA: ASPECTO SOCIOLÓGICO.

O que vamos expor nesta terceira parte são os aspectos sociológicos do binômio trabalho e economia, buscando luzes que possam colaborar na construção de uma ordem sócio-econômica equilibrada. Para analisar esta questão faz-se mister um remontar histórico, mesmo que superficial, das transformações ocorridas no sistema capitalista e seus impactos sobre o binômio em questão.
Os acontecimentos ocorridos ao longo das últimas décadas ocasionaram significativas mudanças tanto no campo econômico como social, que por sua vez, têm influências diretas na relação trabalho e economia. Entre essas diversas mudanças podemos destacar o advento da sociedade pós-indusrial, o conseqüente esgotamento da economia fordista, a globalização, o avanço das telecomunicações, o capital flexível e o florescimento do chamado terceiro setor (o setor serviços). [23]
As alterações e crises pelas quais a modernidade iluminista passou afetou também a relação entre trabalho e economia. O nascimento da sociedade pós-industrial que punha a criatividade e não a força de trabalho como centro motor do capital, contribuiu para o enfraquecimento do regime fordista, gerando uma crise profunda na oferta de vagas e tipos de trabalho. Nesta sociedade pós-industrial o trabalho perdeu seu lugar de sociabilidade e passou à marginalidade. Ele deixou de ser um fator constitutivo da relação do indivíduo no mundo e marca de sua dignidade natural para se tornar mercadoria.[24] Desta forma o trabalho perdeu seu lugar de vocação, missão e colaboração humana na obra de Deus, configurando-se apenas como meio de suprir as necessidades.
O Papa João Paulo II na Laborem Exercens já apontava para essa problemática quando falava do conflito que se desenvolveu no processo de industrialização no mundo e a dicotomia criada entre capital e trabalho no processo econômico.[25] Segundo a carta encíclica, o problema inicia-se quando os operários colocavam sua força de trabalho à disposição dos padrões, e estes, guiados pelo princípio do maior lucros, não garantiam as condições dignas aos trabalhadores.[26] O Papa João XXIII nesta mesma linha de pensamento já tinha afirmado que o direito ao trabalho comporta uma “exigência de poder a pessoa trabalhar em condições tais que não se minem as forças físicas nem se lese a sua integridade moral...” [27]
A relação entre trabalho e economia agrava-se mais ainda pelo surgimento da “globalização das relações econômicas” que pode ser entendida como a internacionalização das economias pela interconexão dos mercados financeiros. Essa globalização das economias criou um novo paradigma de produção industrial chamado automação flexível[28], possibilitou principalmente pela revolução tecnológica, a transformou da ciência em força de produção e agente de acumulação de capital. A ciência nesta nova conjuntura torna-se a primeira força produtiva e conseqüentemente provocou uma reestruturação do mercado de trabalho.
Esse novo paradigma de produção exige uma nova forma de organização da produção e do trabalho. Enquanto antes se possuía a produção centrada em determinados setores industriais, dominados por monopólios, que empregavam grande massa de mão-de-obra, e que de certa forma, eram controlados por meio de políticas ficais e sociais (fala-se aqui do regime fordista), hoje, o que encontramos é terceirização do trabalho, com o uso cada menor da mão de obra não-qualificada. Também em conseqüência desta conjuntura atual proliferam-se os trabalhos informais que não possui garantias trabalhistas ao empregado. Agora com essa nova conjuntura o processo produtivo concentra sua força não mais na massa de operários, e sim na técnica e na especialização do empregado.[29]
Os operários que possuem trabalho fixo ou de tempo integral estão cada vez mais escasso. Por outro lado, a exigência da tecnologia obriga o trabalhador a adquiri uma qualificação bem mais exigente do que aquela do sistema de produção anterior, onde cada operário fazia apenas um único serviço, sem necessitar de altas qualificações. O trabalhador atual para ingressar no mercado de trabalho precisa especializar-se e conhecer o processo tecnológico. Isso já cria um enorme problema, pois exige um nível escolar bem mais elevado, pondo à margem centenas de seres humanos fora do mundo do trabalho. O trabalhador de hoje tem que ser polivalente e qualificado; com um certo grau de autonomia e flexibilidade nas tarefas exercidas.[30]
Uma tendência deste tempo atual é diminuição do número de trabalhadores de tempo integral e o surgimento dos empregos temporários. Uma pesquisa feita pelo Jornal O Globo no dia 28 de maio de 2008, mostrou que o tempo que um trabalhador permanece no emprego no Brasil é inferior a cinco anos. Isso é reflexo da tensão e do desequilíbrio entre o trabalho e o modelo econômico capitalista atual.
Diante desse quadro exposto acima é possível criar um debate sobre a centralidade do ser humano em relação ao binômio trabalho e economia que contribua para construir um sistema econômico-social? Penso que sim.
As transformações recentes fizeram expandir a produção com uma exigência sempre menor da mão-de-obra e do tempo de trabalho. Daí que o emprego estável tornou-se privilégio de poucos. Hoje para muitas “populações ativamente produtivas” o trabalho define o lugar social. Em muitos países boa parte da população economicamente ativa vive à margem da civilização do trabalho. Numa sociedade de consumo, para boa parte dos trabalhadores perder o emprego significa perder a motivação que dá sentido a vida.
Ao que nos parece, o trabalho perdeu sua centralidade no campo econômico-social por falta de uma orientação ética dos meios de produção e acumulação. A concepção do trabalho, como direito e dever natural de todos, perdeu seu valor ético, tanto pela desvalorização das representações religiosas e seculares, como pelo descaso à vida e à natureza. O hedonismo e o desejo de consumo exagerado também são fatores que contribuíram na desvalorização do trabalho frente ao capital.[31]
Contudo, deve-se perguntar qual é mesmo a função do trabalho na vida do ser humano? O homem como um devir é um ser em processo, é um projeto infinito[32] e o trabalho é precisamente a atividade humana que o possibilita construir sua identidade na criatividade de recria o mundo pelo seu trabalho. O homem não é assim algo pronto e acabado, ele é o ser da “práxis”[33] e a partir da atividade de trabalhar no mundo ele transcende as coisas e eleva-se como ser “espiritual”. Quando o trabalho não mais realiza o homem como ser social, como pessoa aberta ao absoluto já não é mais ação humana. Assim o fim do trabalho não é o capital e o acúmulo, mas a felicidade e a transcendência do homem.
O objetivo de toda atividade humana é transparecer na ação de transformar o mundo a presença do criador. Isso significa dizer que a ação econômica é lícita quando estimula as potencialidades humanas tanto físicas como espirituais. Daí afirma o catecismo da Igreja Católica que “o trabalho pode ser um meio de santificação e uma animação das realidades terrestres no Espírito de Cristo.”[34]
Portanto, a economia não é a totalidade do homem, ele é também ser cultural, religioso, social, político e etc. O ser humano, na verdade, é um nó de relações voltado para todos os lados, voltado para os homens e para Deus.[35] Para Manfredo Araújo de Oliveira, não se pode estabelecer, portanto, um projeto econômico válido e, conseqüentemente, um projeto de sociedade, sem que se estabeleça com clareza, que a questão fundante é a configuração ética das relações sociais, de tal modo que se garanta a reprodução social da vida de todos os seres humanos numa perspectiva lógica da inclusão contra a lógica da exclusão.[36] Tal projeto econômico includente somente será possível quando os direitos elementares da pessoa e o respeito à natureza forem tratados com mais seriedade. Somente no reconhecimento dos princípios éticas em defesa da vida – que estão para além do econômico – se pode falar de uma relação justa do binômio economia e trabalho.


V. Conclusão

Nossa reflexão buscou tratar da relação entre “trabalho e economia” fazendo perceber que não pode haver uma separação entre o respeito a dignidade humana e processo de produção e acúmulo de bens. O trabalho produz a economia, e esta nada mais é do que o resultado (produto) das atividades humanas e do exercício do trabalho humano. Uma economia que não tenha o ser humano no centro de suas preocupações jamais responderá eficazmente aos grandes problemas da sociedade e dificilmente construirá um mundo de paz. A pessoa humana é a única protagonista, da vida econômica e social, os elementos da técnica, da ciência e outros são sempre meios e nunca fim. Como já tentamos demonstrar em todo o conteúdo explanado até aqui o homem é um ser pluridimensional e sendo assim, “trabalho e economia” dizem respeito a dimensões deste ser, mas nunca esgotam seu ser.
Numa justa compreensão do binômio trabalho e economia, em seus aspectos bíblico-teológicos, ficou evidente que à luz da Palavra de Deus, o trabalho possuem uma dimensão sacra, como dom de Deus, e que o econômico só se justifica à medida que oferece condições à realização do ser humana. No que tange aos aspectos antropológicos, buscou-se delinear a centralidade da pessoa e do trabalho como atividade humana, cujo primado encontra-se na dignidade fundamental da pessoa dotada de direito e deveres. Somente à luz deste primado o trabalho tem garantido seu papel na socialização do ser humano.

Bibliografia:

ANDRADE, Paulo Fernando Carneiro de, Algumas questões sobre globalização e modernidade, disponível em www.centrodeformaçãopoliticadomheldercamara.com.br
BOFF, L. Tempo de Transcendência: o ser humano como um projeto infinito, Sextante, RJ, 2000, p 35-39
BOFF L. A Águia e a Galinha: uma metáfora da condição humana, Vozes, Petrópolis, 1998, p 99-101
Catecismo da Igreja Católica
Constituição Brasileira de 1988
Declaração Universal dos Direitos do Homem, aprovada pela Assembléia Geral das Nações Unidas (ONU) em 10/12/1948
DUSSEL, Enrique. Ética Comunitária. Petrópolis, 1987
GAUDIUM ET SPES
João XXIII, Papa, Pacem in Terris
PAULO VI, Papa, Carta Encíclica Populorum Progressio
PAULO VI Laborem Exercens
PAULO VI Centesimus Annus
MARX, K. E ENGELS Manifesto do Partido Comunista, II parte – Burguesia e proletário, Coleção Os Pensadores, São Paulo,Nova Cultural, 1993.
OLIVEIRA, Manfredo Araújo de. Desafios Éticos da Globalização, São Paulo, Paulinas, 2001, pp. 215-216.
VIDAL, Marciano. Dicionário de Moral. São Paulo, Paulinas, (s.d.), pp.189-190

[1] Catecismo da Igreja Católica, n. 2427.
[2] Catecismo da Igreja Católica, n. 2427.
[3] João XXIII, Papa, Pacem in Terris, n. 18.
[4] A expressão “submeter a terra” deve ser lida no seu contexto bíblico e não econômica capitalista. O termo não é propriamente uma ação de apropriação da terra como propriedade privada em vista do acúmulo, mas “o submeter a terra” está ligado ao cuidado, pois o escopo é de ser co-criador, continuador na obra que foi criada em processo de acabamento. Assim, tais palavras postas logo no princípio da Bíblia, jamais querem revelar um domínio como ato de dissecar, expurgar, exaurir todos as riquezas, etc. Cf. BOFF, L. Saber cuidar;Cf. Laborem Exercens, n. 4; Cf. Gn 1, 27-28.

[5] João XXIII, Papa, Pacem in Terris, n. 19
[6] PAULO VI, Papa, Carta Encíclica Populorum Progressio, n. 15.
[7] Cf. Centesimus Annus, n. 31.
[8] PAULO II, Papa João, Laborem Exercens, n. 6.
[9] PAULO II, Papa João Laborem Exercens, n. 16.

[10] Cf. GAUDIUM ET SPES, n. 63.
[11] JOÃO XXIII, Papa, Pacem in Terris, n. 9.
[12] PAULO II, Papa JOÃO. Laborem Exercens, n. 3
[13] PAULO II, Op. cit, n. 5
[14] PAULO II, Op. cit, n. 12
[15] Declaração Universal dos Direitos do Homem, aprovada pela Assembléia Geral das Nações Unidas (ONU) em 10/12/1948, Art. 23; cf. também Constituição Brasileira de 1988 Art. 5º, XIII – “é livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, atendidas as qualificações profissionais que a lei estabelecer”.
[16] DUSSEL, Enrique. Ética Comunitária. Petrópolis, 1987. p 131
[17] Cf. DUSSEL, Enrique. Ética Comunitária. Petrópolis, Vozes, 1987. pp. 132-133
[18] Cf. MARX, K. E ENGELS Manifesto do Partido Comunista, II parte – Burguesia e proletário, Coleção Os Pensadores, São Paulo, Nova Cultural, 1993.
[19] Cf. PAULO II, Papa JOÃO. Laborem Exercens, n. 14
[20] Cf. VIDAL, Marciano. Dicionário de Moral. São Paulo, Paulinas, (s.d.), pp.189-190
[21] VIDAL, Marciano. Dicionário de Moral. Sao Paulo, Paulinas, (s.d.) p.189
[22] Cf. VIDAL, Op. cit 190.
[23] Cf. ANDRADE, Paulo Fernando Carneiro de, Algumas questões sobre globalização e modernidade, disponível em www.centrodeformaçãopoliticadomheldercamara.com.br
[24] Cf. JOÃO XXIII, Papa, Pacem in Terris, n. 20.
[25] PAULO II, Papa JOÃO. Laborem Exercens, n. 11.
[26] Ibidem
[27] JOÃO XXIII, Papa, Pacem in Terris, n. 19.
[28] A automação flexível é quando há possibilidade de mudar rapidamente o produto sem mudança de equipamentos, a fim de atender as novas exigências de mercado no sentido de responder às mudanças de hábito dos consumidores, que se torna possível graça a vinculação dos computadores às maquinas. Cf: OLIVEIRA, Manfredo Araújo de. Desafios Éticos da Globalização, São Paulo, Paulinas, 2001, pp. 215-216.
[29] Cf. ANDRADE, Paulo Fernando Carneiro de, Algumas questões sobre globalização e modernidade, www.centrodeformaçãopoliticadomheldercamara.com.br

[30] Cf: OLIVEIRA, Manfredo Araújo de. Desafios Éticos da Globalização, São Paulo, Paulinas, 2001, p. 219
[31] Idem. 240 (o trabalhador tem uma idade de uso para o capital, quanto mais velho menor é seu valor como mercadoria.)
[32] L. Boff. Tempo de Transcendência: o ser humano como um projeto infinito, Sextante, RJ, 2000, p 35-39
[33] Esta “práxis” é a experiência que o homem faz de ser um ser entregue a si mesmo. Ele é um ser que se descobre na ação criativa e decide sobre sua vida que constitui o objeto fundante de suas ações no mundo (Cf: Manfredo Araújo de Oliveira. Desafios Éticos da Globalização, Paulinas, p 242-243.)
[34] Catecismo da Igreja Católica, n. 2428
[35] L. Boff. A Águia e a Galinha: uma metáfora da condição humana, Vozes, Petrópolis, 1998, p 99-101
[36] Manfredo Araújo de Oliveira. Desafios Éticos da Globalização, Paulinas, p 249

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