quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Homilia do Pe. Fantico, CM - Missa de Nossa Senhora Aparecida

Homilia do Pe. Fantico Borges, CM  -  Missa de Nossa Senhora da Conceição Aparecida

Maria  mãe de Deus e nossa, senhora Aparecida
Maria mãe de Deus é modelo para toda a Igreja, ela é mãe dos redimidos, advogada dos aflitos, intercessora sempre atenta e mãe clementíssima. Por sua adesão pronta e incondicional à vontade de divina, que lhe foi anunciada pelo anjo Gagriel, tornou-se para nós Estrela da Evangelização. Como nos ensina o Venerado São Elredo, abade, que aproximando-nos de Maria, esposa do Senhor, aproximemo-nos também de sua ótima serva. O que faremos ao abeirarmos dela? “Que presente lhe ofereceremos? E se pudéssemos ao menos, dar-lhe de volta o que por justiça lhe devemos! Nós lhe devemos honra, nós devemos serviço, nós lhe devemos amor, nós lhe devemos louvor. Honra, porque é a mãe de nosso Senhor. Quem não honra a mãe, sem dúvida alguma, despreza o Filho” (Sermões de Santo Elredo, Abade 20,2). Já diz a escritura: honram teu pai e tua mãe (Dt 5,16).
É preciso nunca perder de vista que antes do sim de Maria estávamos nas trevas do pecado e da ignorância. Perdidos na escuridão de nosso faltas, sem alento em meio as dores. Com Cristo nasce nova vida; e como foi no seio de Maria que nasceu o Salvador podemos dizer que em Maria, na ordem da natureza, a igreja também nasce em seu seio virginal. Ensina Santo Elredo que “ela é nossa mãe, mãe de nossa vida, mãe de nossa incorruptibilidade, mãe da nossa luz” (Sermões de Santo Elredo, Abade 20,2).  Ora, sendo ela mãe de Cristo, ela é, portanto, mãe de nossa sabedoria, de nossa justiça, de nossa santificação, de nossa libertação. Assim é mais nossa mãe do que a mãe do nosso corpo. Dela provindo, é nobre o nosso nascimento; porque vem dela nossa santificação, nossa sabedoria, nossa justiça, santificação e libertação.
Já o Concílio Ecumênico Vaticano II, no seu oitava capitulo afirma: “ a maternidade de Maria, na economia da graça, perdura sem cessar, a partir do consentimento que prestou fielmente na Anunciação, que mante4ve sem vacilar ao pé da cruz, até à consumação final de todos os Eleitos. De fata, depois de elevado aos céus, não abandonou esta missão salvífica, mas, por sua múltipla intercessão, continua a obter-nos os dons da salvação eterna.  
   Dizia o Papa São João Paulo II em seu discurso na dedicação da Basílica de Aparecida que pelos méritos de seu Filho, é imaculada em sua conceição, concebida sem a mancha original, preservada do pecado e cheia de graça. Nela, a arca da Nova Aliança, vestida de sol, templo onde habita Deus, sinal e instrumento da Aliança de Deus com a humanidade. Afirma São João Paulo II que Maria não pronunciou um sim passivo, mas ativo. Ao confessar-se a serva do Senhor ela acolhe em seu coração e em seu seio o autor da vida, o Redentor nosso, Jesus Cristo. Assim, Maria não foi instrumento meramente ocasional nas mãos de Deus, mas cooperou na salvação dos homens com fé livre e inteira obediência. Sem nada tirar ou diminuir e nada acrescentar à ação daquele que é o único Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo, Maria aponta as vias da salvação, vias que convergem todas para Cristo e para sua obra redentora. É por isso que o povo de Deus, na sua teologia simples e natural afirma, que nada se faça para Jesus sem Maria!
Temos a firme certeza que Maria nos leva mais seguramente a Cristo, nossa esperança! Isso o Concílio Ecumênico Vaticano II já apontava a afirmar: “a função maternal de Maria em relação aos homens, de modo algum ofusca ou diminui esta única mediação de Cristo, antes, manifesta a sua eficácia”.  
No nosso continente cristão, eminentemente católico, a figura de Maria torna-se mais visível; não é por acaso as manifestações e agradecimentos que acompanham o ano litúrgico, quase que inteiramente: o mês de maio repletos de homenagens com as coroações de nossa Senhora; a festa do Círio de Nazaré, as comemorações Aparecida em todo Brasil, são apenas amostras da vivacidade de Maria na fé do nosso povo cristão.
A Igreja, como mestra e guardiã da fé tem sempre os olhos voltados a Maria, que permanecendo Virgem deu à luz o Salvador, por obra do Espírito Santo. Qual é a missão da Igreja senão a de fazer crescer Cristo no mundo, e gerar cada vez mais filhos de Deus que encontrem em Jesus sua única alegria. Assim, a missão da Igreja espelha-se na missão de Maria, que gera, cuida e promove as condições para crescer o Plano de Deus. Neste sentido, a devoção mariana é fonte de vida cristã e força na caminhada rumo a meta que é a salvação.
Permaneçamos na escola de Maria, fazendo tudo que Cristo disser; e como outrora, na Galileia, ela cuida para que não falte a alegria de viver. Rezemos com Maria a Mãe de Deus e nossa, sem pecado concebida, Santa Virgem Imaculada, a Senhora de Aparecida!
Pe. Fantico Nonato Silva Borges, CM    


sábado, 7 de outubro de 2017

Homilia do Pe. Fantico Borges, CM - XXVII domingo do tempo comum ano A

Homilia do Pe. Fantico Borges, CM  -  XXVII domingo do tempo comum ano A


Ai da alma na qual não habita o Cristo!

 A história de Israel, que se desenrolou como uma espécie de luta entre Deus e o povo eleito, é como que a parábola de toda história humana. Enquanto Deus se empenha em salvar a humanidade, esta insiste em caminhar para a condenação. Ele vai lhe apresentando os meios necessários para que se salve, mas o ser humano continua destruindo a obra divina. Deus confia na conversão do coração humano; este, no entanto, frustra, continuamente, a confiança divina.
Neste domingo a liturgia da palavra vem continuando a reflexão de Jesus acerca do juízo de Deus. Se queremos conhecer o juízo de Senhor e qual será a sentença ditada é mister vislumbrar esta parábola de hoje.  O senhor diz aos responsáveis pela religião oficial de Israel: um homem plantou uma vinha e arrendou-a; quando chegou a época da colheita o patrão enviou seus empregados para receber os frutos, mas eles maltrataram a uns e mataram a outros, enfim enviou seu filho e o tomaram e mataram a fim de herdar a herança. Jesus pergunta e que fazer com estes? Os chefes do povo afirmaram que devem ser retirados da vinha e colocados outros que deem frutos ao seu tempo. Eis ai, meus irmãos, o juízo. É assim que acontecerá com quem toma a fé cristã e não produz frutos para o Reino.    Ensina Santo Irineu de Lião que “Deus plantou a vinha na raça humana, primeiro ao plasmar a Adão, depois quando escolheu Jerusalém” (Tratado contra as heresias 4,6). Deus sempre quis cuidar de sua vinha através dos vinhateiros que é seu povo escolhido, mas exigirá os resultados da vinha.
O Profeta Isaías (Is 5, 1-7) mostra como Deus manifestou o seu amor, os seus cuidados pela vinha, por Israel, o povo eleito e a falta de correspondência a esse amor. Descreve Israel como uma plantação de Deus, tratada com todos os cuidados possíveis: “Vou cantar para o meu amado o cântico da vinha de um amigo meu: um amigo meu possuía uma vinha em fértil encosta. Cercou-a, limpou-a de pedras, plantou videiras escolhidas, edificou uma torre no meio e construiu um lagar: esperava que ela produzisse uvas boas, mas produziu uvas azedas. O que poderia eu ter feito a mais por minha vinha e não fiz?” (Is 5, 1-4) A Vinha é certamente Israel, que não correspondeu aos cuidados divinos; mas é também a Igreja, bem como cada um de nós: “Cristo é a verdadeira videira, que dá vida e fecundidade aos ramos, quer dizer, a nós que pela Igreja permanecemos nEle e sem Ele nada podemos fazer” (Jo 15, 1-5).  Como ficará uma vinha abandonada, sem cuidado, sem cerca; onde cresce os espinhos e a erva daninha? O que será duma alma sem a luz de Deus? Aí da alma na qual não habita Cristo! Ensina São Macário: “E da mesma forma que uma casa, se não habita nela seu dono, se cobre de trevas, de ignomínia e de afronta, e fica toda cheia de sujeira e imundície; assim também a alma, privada de seu Senhor e da presença alegre de seus anjos, fica repleta de trevas do pecado, da fealdade das paixões e de todo tipo de desonra” ( São Macário, o Grtande, Sermão 28).
Apesar de tudo que ser humano fez e faz, o Pai mostra-se sobremaneira paciente. O primeiro gesto de rebeldia do ser humano seria suficiente para merecer a punição. Afinal, ele é quem tem uma dívida de gratidão para com Deus. Criado com todo o carinho, fora-lhe dadas as condições para viver em comunhão com o Criador e com os demais seres humanos. Dele se esperava frutos de amor e de justiça. No entanto, seu coração perverteu-se, levando-a a se rebelar contra Deus. Até mesmo Jesus, que representa o gesto supremo da boa-vontade divina de salvar o ser humano, acabou sendo crucificado. Ao ressuscitar seu Filho, o Pai estabeleceu-o como sinal de seu amor pela humanidade. Sempre que o ser humano quiser voltar-se para Deus, pode contar com Jesus. Aquele que fora rejeitado pelo ser humano, o Pai constituiu-o como "pedra angular" da salvação.
Para produzirmos os frutos de vida que Deus espera diariamente de cada um de nós, temos em primeiro lugar cultivar uma aversão por tudo que ofende a Deus; as faltas – mesmo veniais- que prejudicam os resultados de conversão. Os descuidos na caridade, os juízos negativos sobre as pessoas, as impaciências, as mentiras, as injustiças e tantos outros maus comportamentos... prejudica a alma. É necessário que nos empenhemos continuamente em afastar tudo aquilo que não é grato ao Senhor. A alma que detesta o pecado venial deliberado, pouco a pouco vai crescendo em delicadeza e em finura no trato com o Mestre. São Paulo (Fl 4, 6-9) lembra que na nossa fraqueza é preciso que nos apoiemos na oração. Devemos pedir a graça da fidelidade para que possamos dar muitos frutos, guardando nossos corações e pensamentos, em Cristo Jesus.

Pe. Fantico Borges, CM






   

sábado, 30 de setembro de 2017

Homilia do Pe. Fantico Borges, CM – XXVI Domingo do Tempo Comum – Ano A

Homilia do Pe. Fantico Borges, CM – XXVI Domingo do Tempo Comum – Ano A

Arrepende-se é começar a vida nova!

A liturgia deste domingo traz presente a reflexão o arrependimento que faz gerar o perdão. No Evangelho (Mt 21,28-32) Jesus indaga ao seus ouvintes assim:         “Que vos parece?”... Ora, o objetivo de Jesus é usar os próprios argumentos dos ouvintes para exigir deles uma posição autêntica. A pergunta é muito simples: dois filhos são enviados pelo pai a trabalhar na vinha; o primeiro responde  “sim”, mas não  vai; o segundo diz “não” mas depois  arrepende-se e vai. “Qual dos dois fez a vontade do pai? Os sumos sacerdotes e anciãos do povo responderam: ‘O primeiro’” (Mt 21,29-31). É a sua condenação que Jesus proclama a seguir, bem claramente: “os cobradores de impostos e as prostitutas  vos precedem no Reino  de Deus”. O motivo é também simples: porque as prostitutas e cobradores de impostos arrependeram-se e eles não. Dirá São Clemente de Alexandria, que “aqueles que de todo coração se converte para Deus tem as portas abertas, e o Pai recebe com braços abertos ao filho realmente arrependido.” (S. Clemente, Livro sobre a Salvação dos rico, 39)
Assim, como nesta parábola dos dois filhos, Deus chamou primeiro os filhos de Israel; através dos fariseus, sumo sacerdotes, escribas e doutores da lei, mas estes não quiseram mudar de vida; por fim chamou os outros, que a principio eram rebeldes, mas depois se arrependeram e mudaram de vida; os pecadores convertidos. Diz Jesus que uns ouviram a pregação de João Batista, mas não lhes deram crédito porque julgavam-se excessivamente seguros da sua ciência e da não necessidade de aprender; excessivamente seguros da sua justiça e da não necessidade de conversão: “não vos arrependestes para crer nele” (Mt. 21,32 ); não aceitaram a palavra  de João Batista nem a de Jesus. Veem-se, pois, colocados para depois, nada mais e nada menos, que as pessoas de mau viver, cobradores de impostos e prostitutas; pois estes arrependeram-se, “afastaram-se do mal que praticaram, acreditaram e praticaram “a justiça” (Ez.18,27), e, por isso, foram recebidos  no Reino de Deus. Parece que os justos, diante da lei judaica, não precisavam de juiz, nem se sentiam impelidos a mudar os comportamentos internos, ao contrário deles os publicamente pecadores, não tinha ninguém para defende-los, e por isso, punham sua esperança no Deus misericordioso e cheio de amor, sempre inclinado a perdoar o pecador arrependido. Lembra-nos São Clemente, “que arrepender-se supõe lamentar-se das faltas cometidas, e pedir com insistência ao Pai que as lance definitivamente no esquecimento, ele que é o único capaz de, em sua misericórdia, dar por não feito o feito, e abolir com suavidade do Espírito os delitos da vida passada.” (S. Clemente, Livro sobre a Salvação dos rico, 40)
Jesus propõe uma nova mentalidade, onde assevera o sentimento de amor a perdão. A nova experiência do Reino de Deus é pura misericórdia ao pecador contrito. Na comunidade de Cristo todos que desejarem, sinceramente, e de coração, podem alcançar a salvação. Deus não olha para o passado, nem fica atrás de nossos delitos, ele quer saber é se estamos dispostos a começar, hoje, o caminho de santidade. Jesus não prega um Deus contabilista, calculador de pecados, ele é o Pai das misericórdias. O Pai deseja, como nos ensina Gregorio de Nissa, é que choremos nossos pecados, nos repelemos com nossos maus comportamentos, que não fiquemos inertes ao mau. Por isso, que a santidade é uma virtude dos fortes; porque santo não é quem não pecou, mas sim quem luta, todo dia, para não pecar mais. Ser santo é dizer todos os dias ao levantar: “só por hoje, não quero mais pecar..., Só por hoje, náo vou falar mau de ninguém, só por hoje, não vou mentir, só por hoje, não vou trair... PHN sempre ao pecado.
Comentando o Evangelho de Mateus São João Crisóstomo afirma: “Porque estes dois filhos manifestam o que aconteceu com os judeus e com os gentios.  Porque foi assim que os gentios, que não tinham prometido obedecer e nunca ouviram a lei, em suas obras mostraram sua obediência; e os judeus, que disseram: tudo quanto o Senhor disser o faremos e obedeceremos, mas em obras lhe desobedeceram. Justamente Porque não pensaram que a lei lhes serviriam para alguma coisa, ele lhes faz ver que ela seria motivo de maior condenação.” (São João Crisóstomo, Sermão sobre o Evangelho de Mateus, 67) Por orgulho, vaidade e arrogância muitos criam máximo obstáculo à salvação. Por isso, surge muito a propósito, a exortação de São Paulo à Virtude da humildade: “Tende entre vós o mesmo sentimento que existe em Cristo Jesus. Ele que era de condição divina… esvaziou-se a Si mesmo, assumindo  a  condição de escravo, tornando-se igual aos homens” ( Fl.2,5-7).Se o Filho de Deus Se humilhou ao ponto de carregar sobre Si os pecados  dos homens ,será pedir muito que estes sejam humildes no reconhecimento do seu orgulho e dos seus pecados?
Peçamos ao Senhor a graça da humildade, ensina São João Maria Vianês, o Cura D’Ars, “é a porta pela qual passam as graças que Deus nos outorga; é ela que amadurece todos os nossos atos, dando-lhes valor e fazendo com que sejam  agradáveis a Deus. Finalmente, constitui-nos donos do coração de Deus, até fazer Dele, por assim dizer nosso servidor, pois Deus nunca pode resistir  a um coração humilde”.  É uma virtude que não consiste essencialmente em reprimir os impulsos da soberba, da ambição, do egoísmo, da vaidade… Trata-se de uma virtude que consiste fundamentalmente em inclinar-se diante de Deus e diante de tudo o que há de Deus  nas criaturas, em reconhecer a nossa pequenez  e indigência em face da grandeza do Senhor. São Vicente dizia as Filhas da Caridade: “O espírito das Filhas da Caridade é a humildade e ela [uma irmã] está cheia de orgulho. Isso é ser semelhante ao diabo e pior que o diabo. Ai! Se fôssemos humildes, deveríamos nos julgar todos piores que o diabo! Não se trata de uma imaginação, mas de uma verdade: pois, se o diabo não se tivesse obstinado em seu pecado e tivesse recebido a mais pequena graça que nós recebemos, a haveria usado melhor que nós” ( COSTE, IX, 945) O que Deus quer de nós é a humildade nos comportamentos, a firmeza na fé, respeito à sua Palavra, gratidão nas ações, misericórdia nas obras, moderação nos costumes, e tolerância uns com os outros. 
       Que Deus nos fortaleça para o bom combate da fé, com a ajuda augustíssima de sua Mãe a virgem de Nazaré. Amém!

Pe. Fantico Borges, CM  

domingo, 24 de setembro de 2017

HOMILIA DO XXV DOMINGO DO TEMPO COMUM ANO A

HOMILIA DO XXV DOMINGO DO TEMPO COMUM ANO A

OS SALÁRIO DO OPERÁRIO FIEL É A VIDA ETERNA

Na meditação deste domingo, novamente, o Senhor, falando em parábolas, anuncia ao povo a salvação. O caminho salvador é uma graça que Deus abre a todas as pessoas, mesmo aquelas chamadas nas últimas horas. Essa referencia final, com muita certeza, faz-se aos convertidos que vinham das diásporas e fora da palestina, no qual podemos nos incluir. A mensagem de Jesus é um convite a todos os povos de todos os tempos. No reino de Deus ninguém fica de fora. Todos encontram um espaço. Urge estar a disposição do convite de Cristo. Pelo modo como o Senhor nos ama, o ser humano jamais poderá compreender as atitudes divinas, sem a predisposição em abrir-se àquele que chama.  
Torna-se um grande perigo querer reduzir Deus à medida de nossos pensamentos, ou mesmo, condicionar o comportamento do Altíssimo às nossas categorias de justiça e de bondade. Deus está muito acima do homem, muito mais do que está o céu acima da terra (Is 55,9); por isso, muitas vezes os projetos da sua providência são incompreensíveis à inteligência humana, que os deve aceitar com humildade, sem pretender julgá-los. Quantas vezes ficamos aquém das maravilhas que Deus nos preparou! Quantas vezes os nossos planos se revelam tão estreitos!
Com a parábola de hoje no Evangelho o Senhor não deseja dar-nos uma lição de moral salarial ou profissional, mas sublinhar que, no mundo da Graça, tudo é um puro dom, mesmo o que parece ser um direito que nos assiste pelas nossas boas obras. A salvação não é algo conquistado pelo tamanho do esforço, mas pela intensidade com que se lança ao trabalho de Deus. A murmuração, a cobrança e exigência da salvação pelos obras revelam um coração interesseiro e sem Deus, pois Deus ama quem dar com alegria e gratuitamente, porque foi assim que ele fez e quer que façamos. Por isso, que fomos chamados a diferentes horas para trabalhar na vinha do Senhor, só temos motivos de agradecimento. A chamada, em si mesma, já é uma honra. “Não há ninguém, afirma São Bernardo, que, por pouco que reflita, não encontre em si mesmo poderosos motivos que o obriguem a mostrar-se agradecido a Deus.
Seja qual for o tempo de nossa conversão Deus sempre nos acolhe. No Evangelho de Mateus estes homens encontrados pelo patrão (Deus Uno e Trino), já no final do dia, queriam trabalhar, mas ninguém o contratou. Eram ociosos por falta de Senhor que os contratassem. Jesus passou no mundo chamando a todos a ingressarem na vinha do Senhor. Instara-se o tempo kairótico da graça do Senhor; um convite escatológico ao reinado de Deus, que age por misericórdia. Segundo Santo Efrém, o Senhor “ensinou que, seja qual for o momento de sua conversão, todo homem é acolhido...” (Diatessaron, 15, 15-17). Fica evidente que Jesus desde o início do seu ministério pastoral sempre procurou convidar todos a seguir o caminho do Reino, ou seja, “ saiu de madrugada para contratar trabalhadores”; saiu também até na undécima  hora, a fim de ninguém ficar sem trabalho, nem usassem a desculpa  de que não foram chamados.   
É importante notarmos, neste momento, o apelo que faz o profeta Isaías ao Israel desviado: “Abandone o ímpio seu caminho, e o homem injusto, suas maquinações; volte para o Senhor, que terá piedade dele” (Is 55,7). Ora, desde primeiro instante da profecia de Israel o Senhor apresenta-se com misericordioso, sempre pronto a acolher. Esse convite de Deus, através do oráculo, manifesta a sede que Deus tem do ser humano. Quer chamar todos os seus filhos e reuni-los novamente: “quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha recolhe os seus pintinhos debaixo das suas asas, e não o quiseste!” (Mt 23, 37). A recusa de muitos é causa de dor no coração de Jesus, que veio para que todos tenham vida. O apelo de Deus se renova em cada eucaristia celebrada, pois, Ele passa chamando os operários ao Reino: Não fecheis teu coração, ouvi hoje a voz de Deus. Entente ó filhos que Deus não estipula um tempo para a conversão, mas sempre estar atento ao nosso movimento de procura divina. E quando nos encontra oferece-nos tudo de si.
Ao contrario das atitudes divinas são aquelas humanas atitudes desordenadas, que visão a satisfação pessoal, a retribuição meritória. Os operários das primeiras horas reclamam da bondade do patrão que os iguala aos que trabalharam menos. A queixa gira em torno do valor da graça alcançada. Dirá Santo Agostinho: “o que significa esse gesto de pagar a diária começando pelos últimos? Não lemos  em outra passagem do Evangelho que todos receberão simultaneamente a recompensa?” Ora, a moeda de prata aqui se chamaria na teologia a vida eterna. Se todos receberão o denario ao mesmo tempo, como entender o que aqui se diz sobre o primeiro receberão a diária, os contratados ao entardecer, e, por último, os do amanhecer? Santo Agostinho alude nestes termos: “ No que se refere a retribuição, todos seremos iguais: os últimos como os primeiros, e os primeiros como os últimos, pois aquele denario é a vida eterna, e na vida eterna todos são iguais.”  Tanto Abel, Abraão, Moises, os profetas, os Santos, como nós, receberemos o salário divino.  Mesmo que aja diversidade de méritos e brilhem diversamente os eleitos, mas no que se refere à vida todos serão iguais. É por isso que Deus fez entrar na vida eterna o ladrão que no suplicio da cruz se arrependeu. Não é o ladrão um operário da undécima hora? Claro que sim! Como eu, como você somos trabalhadores do entardecer.  
Como já citei acima não podemos nem devemos enquadrar Deus nos nossos planos humanos finitos e imperfeitos. Deus é mais; seus caminhos são infinitamente maiores e melhores que nos nossos. Sendo assim, tenhamos cuidado para não sentar Deus no banco dos réus e julgá-lo injustamente. O melhor que podemos fazer quando não entendermos os projetos de Deus é ser-lhe dóceis acreditando que ele sabe mais e faz melhor do que nós. Por mais evidente que seja, é preciso que nos lembremos disso para que, inconscientemente, não tomemos o lugar de Deus.
Cabe, portanto, pensar que todo nosso esforço ainda será pouco para comparar-se com a gradíssima graça dada por Deus a nós. Como afirma Efrém, “somos contratados para um trabalho proporcionado às nossas forças, porém nos propõe um salário muito acima do que o nosso trabalho merece...” aquilo que damos a Deus é muito pouco e inferior a sua dignidade. Por isso, não nos cabe reprovar a bondade de Deus que deseja salvar os últimos em primeiro. Deus se oferece livre e gratuitamente, e nisso mostra a sua paixão e compaixão por todos.

Pe. Fantico Borges, CM


domingo, 17 de setembro de 2017

Homilia do Pe. Fantico - XXIV domingo comum ano A

Homilia do Pe. Fantico - XXIV domingo comum ano A

O perdão caminho de mão dupla. 

Hoje a palavra de Deus nos leva a refletir sobre o PERDÃO. Nesta liturgia dominical o Senhor se coloca como modelo perfeito de perdão divino. Deus exige do pecador, apenas, um gesto de misericórdia para com o outro. Diz o Senhor no livro do Eclesiástico: “Quem se vingar  encontrará a vingança do Senhor, que pedirá severas contas dos seus pecados. Perdoa a injustiça cometida por teu próximo: assim quando orares, teus pecados serão perdoados. Se alguém guarda raiva contra o outro, como poderá pedir a Deus a cura para si? Senão tem compaixão do seu semelhante, como poderá pedir que Deus tenha misericórdia de seus pecados?” (Eclo 28, 1-4.) Quem deseja a misericórdia para si deve se reconciliar com seus irmãos. A proposta de Jesus pressupõe uma radicalidade infinita: perdoa não apenas sete vezes mais sim setenta vezes sete. Para o santo Padre o Papa Francisco a atitude do perdão está implícita no Pai-nosso: arrepender-se com sinceridade dos próprios pecados, sabendo que Deus perdoa sempre. O papa alude que tudo parte de nós. Quando nos apresentamos para pedir perdão temos consciências dos nossos atos e a necessária busca de reconciliação com Deus e os irmãos.
Há uma diferença grande entre o pecado e a desculpa. Perdão é algo que envolve todo ser de quem perdoa e é perdoado. “Pedir perdão é diferente de pedir desculpa. Eu errei? Mas me desculpe, errei… Pequei! Não tem nada a ver uma coisa com outra. O pecado não é um simples erro. O pecado é idolatria, é adorar o ídolo, o ídolo do orgulho, da vaidade, do dinheiro, do eu mesmo, do bem-estar… Tantos ídolos que nós temos. E, por isso, Azarias, no antigo testamento, não pede desculpas, pede perdão”.  O perdão deve ser pedido com sinceridade, com o coração, e de coração deve ser doado a quem cometeu um deslize. Como o patrão da parábola contada por Jesus, que perdoa um grande débito movido pela compaixão diante das súplicas de um dos seus servos. E não como aquele mesmo servo faz com outro servo, tratando-o sem piedade e mandando-o à cadeia, mesmo que a dívida fosse irrisória. A dinâmica do perdão – recordou o Papa – é aquela ensinada por Jesus no “Pai-Nosso”.

A pergunta de Pedro é a procura sobre a essência de Deus como perdão-misericórdia. Em outras palavras se pergunta até onde Deus pode dar o perdão. Pensando que o perdão é uma prerrogativa de Deus; e Pedro, vivia, num mundo, em que a concepção judaica limitava o perdão aos justos, essa questão gira sobre a proposta de salvação, na qual Jesus anunciava, ou seja, um Deus que não impõe limites ao perdão. Sempre é hora de perdoar.  Jesus revela um caminho de Reconciliação, onde todos estão incluídos: pobres, ricos, pecadores, publicados e justos.  
Jesus ao propor a resposta para Pedro alude o caminho da reconciliação: ter a mesma atitude de Deus para com o pecado alheio. Santo Agostinho, pensando no pecado de Judas, escreveu: “se ele tivesse orado em nome de Cristo teria pedido perdão, se tivesse pedido perdão teria esperança, se tivesse esperança teria esperado na misericórdia e não teria se enforcado desesperadamente”.  Pedro que também pecou acreditou no poder da esperança que salva e alcançou a graça da reconciliação. Não temos motivo para desesperar-nos.  O pensamento de São Máximo de Turim é irrefutável: “se o ladrão obteve a graça do paraíso, por que o cristão não há de obter o perdão?”. Sendo assim, confiemos sempre na misericórdia do Senhor, façamos um propósito de mudança de vida, confessemos os nossos pecados.
Santo Tomás de Aquino na suma teológica diz que a cegueira da mente não é pecado, mas a insensatez ou o embotamento da alma, de não querer mudar de vida, isso sim leva a morte. Comecemos novamente! Perdoando os nossos semelhantes, quantas vezes for preciso, estaremos imitando o próprio Deus e essa semelhança nas ações atrairá maiores graças para as nossas futuras decisões.
O perdão constrói as relações de amizade e todas as relações sociais. Quanto há compreensão e perdão entre amigos, essa amizade perdurará apesar dos pesares. Os nossos amigos são pessoas como nós, com virtudes e defeitos; se nós, porém, não compreendermos que eles nem sempre se comportarão virtuosamente é sinal de que ainda não somos bons amigos. Até Deus permite que nós erremos, deixa que pequemos, isto é, Deus respeita até o mau uso da nossa liberdade e… continua nos amando, nos perdoando. Nós não podemos sufocar as pessoas sendo intransigentes e insuportáveis; ao contrário, devemos compreender quem está no erro sem minimizar as exigências da doutrina e da moral cristã.
Por fim diz santo Agostinho: “Perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido; digamo-lo com um coração sincero e façamos o que dizemos. É um compromisso que fazemos com Deus, um pacto e um agrado. O Senhor teu Deus te diz: Perdoa e eu perdoo. Não perdoaste? Tu te voltas contra ti mesmo, não eu”. S.56,9,13


Pe. Fantico Borges,CM

sábado, 9 de setembro de 2017

Homilia do Pe. Fantico – XXIII domingo do tempo comum ano A

Homilia do Pe. Fantico – XXIII domingo do tempo comum ano A

Corrigir sim, mas com caridade!

A liturgia da Palavra deste domingo traz o tema da correção fraterna, muito importantes à vida cristã. Corrigir é o eixo no qual se sustenta a mensagem de Jesus sobre o Pai das misericórdias que sempre busca ajudar o ser humano a alcançar a perfeição. Cristo veio corrigir o que estava desordenado, recapitular o horizonte da esperança de Israel, que havia perdido o rumo de Deus: corrigir as distorções da relação entre Deus e ser humano e entre os irmãos uns com os outros. 
No cristianismo, a correção fraterna sempre foi o um bem admirado, ainda que, frequentemente, pouco compreendido e, talvez, praticado com escassez. Jesus propõe, com uma dinâmica judaica do seu tempo, o modo como corrigir partir do amor divino. À pessoa que é corrigida, o Senhor lhe dirige essas palavras:  “aquele que ama a correção ama a ciência, mas o que a detesta é um insensato” (Prov 12,1).   Quem ama a correção sempre encontra forma de crescer e nunca ficará vazio.
Às vezes me pergunto: queremos que os outros nos ajudem? Desejamos que os nossos irmãos nos corrijam? Temos essa sensatez de quem é consciente de que sozinho não podemos chegar à meta da santidade e de que, portanto, necessitamos da ajuda dos irmãos na fé? São Cirilo dizia que “a repreensão que melhora os humildes costuma ser intolerável aos soberbos”. Todo processo de mudança nasce do desejo de deixar-se corrigir pelos outros. Mas como fazer a correção ser fraterna?
Em Mt 18,15-20, Jesus fala aos seus discípulos sobre a liberdade espiritual necessária para restaurar a boa convivência e a amizade entre as pessoas. Jesus alude que não se trata simplesmente de um procedimento social ou de uma reconciliação da boca para fora, mas de uma atitude mística, nascida da comunhão com Deus. Corrigir é amar e deixar-se corrigir é fazer-se amor na esteia da santidade.
A partir do amor fraterno pode-se vislumbrar a paz como fruto do cristianismo real. A paz e a união devem prevalecer sempre; para tanto, a vigilância dos homens em relação a isso há de ser constante, e não menos incessante o desejo da correção fraterna: reorientar a partir do Agapé de Deus as relações humanas, eis uma chave para superar os conflitos hodiernos.
O modo como Jesus apresenta a correção fraterna aos discípulos – e podemos nos incluir entre eles – é bastante simples. Exige apenas um pouco de sensibilidade e delicadeza. Para alcançá-la, há três etapas possíveis. Na primeira, tentamos resolver a questão pessoalmente. É especial essa forma porque corrigir sem respeito é violentar o irmão. A correção sem caridade é agressão ao outro. Um segundo novel é contar com a ajuda de mediadores, que servirão de testemunhas da reconciliação. Neste caso, como na cultura judaica, apelava-se ao testemunho de outros para resolver a querela. Se ainda assim fracassem recorre-se aos representantes da Igreja. Neste caso, entra a função sacramental do sacerdote. Desta forma se recorre, antes, a todo tipo de tentativa para não se perder o irmão.
Temos a obrigação de repreender imediatamente nosso irmão para que, ao nos fazer o mal, ele não permaneça no pecado. Escreve São Jerônimo: “Não só temos o poder de perdoá-lo, mas somos obrigados a fazê-lo, pois nos foi ordenado perdoar os que nos ofenderam”. Aquele que pensa ser mais fácil esquecer a ofensa e deixar o pecador entregue ao seu próprio destino está bastante enganado. O que deve nos mover é o desejo de realizar em nosso irmão uma mudança de conduta que transforme sua vida. Recomenda Santo Agostinho: “Ainda que ele não seja considerado mais, pela Igreja, como um dos teus irmãos, nem por isso deixes de te preocupar com a sua salvação”.
      Como irmãos em Cristo, temos o dever de corrigir-nos e rezarmos uns pelos outros. Esta correção deverá ser feita sempre com amor, com discernimento, com caridade fraterna. São Bento, na sua Regra, dá uma recomendação singular, ao prescrever: “Socorrer na tribulação” (RB 4,18). Mas, a expressão latina usada por São Bento é “In tribulationem subvenire”. A palavra “subvenire” pode ser traduzida por “vir por baixo, vir de baixo”. Ou seja, socorrer sim, corrigir sim, mas com a humildade de quem vem por baixo para sustentar, amparar e ajudar, para salvar. Corrigir, sim, mas como Deus, que em Jesus, veio por baixo, na humildade de um presépio e na humilhação da cruz.



Pe. Fantico Borges, CM 

domingo, 3 de setembro de 2017

Homilia do Pe. Fantico – XXII domingo do Tempo comum ano A

Homilia do Pe. Fantico – XXII domingo do Tempo comum ano A

A Cruz de Jesus, caminho de salvação!

Neste, domingo da XXII semana do tempo comum, a palavra de Deus vem os mover o olhar para a Cruz de Jesus, como caminho a percorrer todos os que querem seguir os passos de Cristo. A vida hodierna com as técnicas modernas de busca do bem-estar social vem cada vez mais movendo os sentimentos hedonistas de fuga da dor e sofrimento, como formas de satisfação humana. A ousadia religiosa agora é alcançar a salvação sem passar pela experiência da kenosis, ou seja, deseja-se chegar a salvação de Jesus sem passar pela paixão e morte.
Quem busca um Cristo sem Cruz acaba, por fim, encontrando-se com uma cruz sem Cristo. Já nos ensinava no seu magistério o Papa São João Paulo II: “A Cruz é o livro vivo em que aprendemos definitivamente quem somos e como devemos atuar. Este livro está sempre aberto diante de nós”(Alocução, 01/04/1980). Neste sentido a fé permite-nos ver e experimentar que sem sacrifício não há amor, não há alegria verdadeira, a alma não se purifica, não encontramos a Deus. O caminho da santidade passa pela Cruz, e todo o apostolado fundamenta-se nela. A mortificação que é inerente a vida de Jesus de Nazaré incide sobremaneira na vida discipular dos seguidores do Caminho. Quem procura a Deus sem sacrifício, sem Cruz, não O encontrará. Para ressuscitar com Cristo, temos que acompanha-Lo no seu caminho para a Cruz: aceitando as contrariedades e tribulações com paz e serenidade; sendo generosos na mortificação voluntária, que nos faz entender o sentido transcendente da vida e reafirma o senhorio da alma sobre o corpo. Devemos ter em conta que a Cruz que anuncia Cristo é escândalo para uns e loucura e insensatez para outros (cf. 1 Cor 1,23).
A atitude do profeta Jeremias é aquela humana compreensão que a dor e o sofrimento são demais para suportar. Tantas vezes esquecemos que o sofrimento está condicionado à vida imerso na existência do ser que vive. Mas que existem dois modos de encarar o sofrimento: como condição natural do ser vivente, e como fruto dos atos. O sofrimento salvífico é aquele que voluntariamente aceitamos suportar, mesmo sem merecer, em amor a Cristo. O Papa São João Paulo escrevia: “O sofrimento deve servir à conversão, isto é, à reconciliação do bem no sujeito, que pode reconhecer a misericórdia divina este chamamento à penitência” (Salvifici doloris, 12). A partir do entendimento do sofrer por amor a Cristo, então, o amor divino torna-se fonte mais rica sobre o sentido do sofrimento, que sempre continua um mistério.
A atitude de Pedro reporta seu imenso carinho por Jesus, Simão procura afastá-Lo do caminho da Cruz, sem compreender ainda que ela será um grande bem para a humanidade e a suprema demonstração do amor de Deus por nós. Comenta São João Crisóstomo: ”Pedro raciocinava humanamente e concluía que tudo aquilo – a Paixão e a Morte – era indigno de Cristo e reprovável.” Aqui também podemos notar que nem os discípulos compreendiam qual o signo do Cruz para Jesus. A expectativa messiânica dos contemporâneos de Jesus rejeitavam todo e qualquer relação de fraqueza, por isso a atitude de Pedro em reprovar as palavras de Jesus. Pedro penava num rei dravídico que iria recuperar o esplendor de Israel. A resposta de Jesus é teológica, ou seja, remete ao entendimento de Deus: vai para longe satanás! Recordando as mesmas palavras ditas ao demônio na tentação do deserto. Ver-se clara a oposição entre o mundo e Deus; o céu e a terra; as coisas do alto e as debaixo. A incompatibilidade entre querer viver para esse mundo e querer buscar o Reino de Deus. Pedro, naquele momento, não chega a entender que, por vontade expressa de Deus, a Redenção se tem de fazer mediante a Cruz e que “não houve meio mais conveniente de salvar a nossa miséria” (Sto. Agostinho).
Tem pessoas que não conseguem sair deste mundo escravagista das coisas e necessidades; não conseguem avançar as águas profundas do seu ser, porque como galinhas vivem ciscando no terreiro da vida sem poder olhar ao azul celestial que consiste em  seu verdadeiro horizonte. Temos que lembrar a todos que não ponham o coração nas coisas da terra, que tudo é caduco, que envelhece e dura pouco. ”Todos envelhecerão como uma veste” (Hb 1,11).Somente a alma que luta por manter-se em Deus permanecerá numa juventude sempre maior até que chegue o encontro com o Senhor. Todas as outras coisas passam, e depressa.
Jesus recorda-nos hoje: ”Que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, se depois vier a perder a própria alma? O que poderá alguém dar em troca de sua vida?” (Mt 16,26). Antes, falou: ”Quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim vai encontrá-la.” Mas como entender esse dilema: somos do céu, buscamos ver Deus, chegar até ele, mas desejamos, e é humanamente cristão buscar cuidar-se para viver mais e melhor! Então o que pensar? Será que devemos realmente cair fora da corrente do mundo e renegar-nos como homens para sermos cristãos? Não, porque a renúncia que Jesus exige é, na realidade, a mais alta auto-realização, é a nossa verdadeira recuperação: porque perder a nós mesmos é o modo melhor para nos reencontrar: porque quem perde sua vida vai encontra-la. Aqui o Evangelho chama-nos ao retorno a casa paterna, ao coração de Deus. E somente estamos no coração de Deus quando toda nossa vida estiver nEle, com Ele e por Ele. somente quando nos oferecermos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, e assim não nos conformamos com o mundo mais transformamos nosso modo de ser e viver segundo a vontade de Deus.  

    Pe. Fantico Borges, CM

Homilia do XVIII Domingo do Tempo Comum (Ano C)

Homilia do XVIII Domingo do Tempo Comum (Ano C) Um homem vem a Jesus pedindo que diga ao irmão que reparta consigo a herança. Depois ...