segunda-feira, 9 de março de 2015

UMA INTRODUÇÃO AO TERMO EUTANÁSIA.

UMA INTRODUÇÃO AO TERMO EUTANÁSIA.

1. Seu significado a partir da etimologia da palavra.
A palavra eutanásia foi criada no século XVII, pelo filósofo inglês Francis Bacon. Todavia, o termo Eutanásia vem do grego, compondo-se de duas palavras: Eu - que significa (bem) boa - e thanatos que significa morte. A partir do significado das palavras que constituem o termo, podemos tomar consciência de sua primeira significação, ou seja, a de boa morte. O termo eutanásia significava, em sua origem, uma morte tranqüila, sem angústias e dores. Proporcionar uma boa morte, nesse sentido de "eutanásia", seria dar uma ajuda para morrer, não no sentido de uma abreviação da vida, mas de ajudar o moribundo a encarar o seu momento derradeiro da forma mais bela, tranqüila e livre de sofrimentos.
Hodiernamente, o termo eutanásia passou a designar a morte deliberadamente causada a uma pessoa que sofre de enfermidade incurável ou muito penosa, para suprimir a agonia demasiado longa e dolorosa, o chamado paciente terminal. Em termos bem moderno V. Marcozzi define a eutanásia como a eliminação indolor ou por piedade de quem sofre ou presume-se estar sofrendo e possa sofrer no futuro de modo interminável.[1] Esta definição coincide com aquela aplicada pela Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé apresentada em 1980, onde afirma: entende-se por eutanásia uma ação ou uma omissão que, por sua natureza, ou nas intenções, busca a morte, com o objetivo de eliminar toda dor.
A eutanásia leva à discussão sobre o direito de uma pessoa por fim à própria vida, valendo-se de outra pessoa. Podemos indagar se haveria apenas uma faculdade, ou um direito juridicamente tutelado, isto é, que possa ser coercitivamente exigido. No mundo jurídico, se alguém tem um direito, pode socorrer-se do processo, para fazê-lo valer. Para que uma pessoa que não consegue por seus próprios meios extinguir a própria vida possa ter concretizado o seu intento, outra precisa ter o dever de realizá-lo. Mas como veremos, no campo da ética e da moral, isso fere um outro direito maior, do qual é princípio primário e mantenedor de todos os outros, a saber, o princípio a vida e a sacralidade desta vida.[2] Qualquer outro direito e dever esta sob a tutela da vida. Por que não há liberdade humana sem que antes haja uma vida para reivindicar esse direito. 

2. A EUTANÁSIA NA SUAS RAIZES HISTÓRICAS.
O homem como ser simbólico, ou seja, ser que possui a tendência de atribuir significado a tudo aquilo com que se relaciona, tende a encher de significado os momentos marcantes de sua vida. A problemática desta característica propriamente humana é que ela não se dá de uma forma homogênea. A diversidade de significados atribuídos a cada momento do desenvolvimento humano - momento que nenhum ser, sendo ele humano, pode se ver dispensado - é tão grande quanto a diversidade de culturas existentes na face desse pequeno planeta.
A forma de um católico considerar a morte é diferente da forma de um indígena de cultura ainda pura. Ter-se-ia uma missão interminável com a proposta de se relatar historicamente toda a caminhada e evolução daquilo que se entendeu por eutanásia, como também aquilo que se praticou tendo como fim levar ao moribundo a uma boa morte, mesmo que não se tenha utilizado o termo que hoje se entende designar esta ação. Contudo é possível entrar nos corredores históricos da eutanásia para lá, colher alguns de seus momentos importantes, que auxiliarão no entendimento do que foi e do que é a eutanásia hoje.
A discussão a cerca dos valores sociais, culturais e religiosos envolvidos na questão da eutanásia apareceu, em primeiro plano, na Grécia antiga, de modo que encontramos em Platão, Epicuro e Plínio um abordagem do tema. Platão em sua República, expõe já conceitos de caráter solucionador patrocinando o homicídio dos anciões, dos débeis e dos enfermos. Igualmente, Sócrates defendia a idéia de que o sofrimento resultante de uma doença dolorosa justificava o suicídio. Aristóteles, Pitágoras e Epicuro, ao contrário, condenavam tal prática. Mas é Hipócrates, que de modo definitivo, se divorcia da postura do primeiros filósofos citados, pois em seu juramento declarou: "eu não darei qualquer droga fatal a uma pessoa, se me for solicitado, nem sugerirei o uso de qualquer uma deste tipo".
Se fizermos um retrospecto ao passado vemos que a antigüidade praticou a eutanásia, nas mais diversas formas e modalidades e os exemplos de sua aplicação se multiplicam ao longo da história.
Não se pode esquecer que os antigos praticavam a eutanásia contra as crianças raquíticas, velhas, enfermos incuráveis, aleijados etc. Esse tipo de eutanásia era praticada em larga escala, como confessa Platão: “Estabelecerá em nossa República uma medicina e uma jurisprudência que se limitem ao cuidado dos que receberam da natureza corpo sã e alma famosa; e pelo que toca aos que receberam corpo mal organizado, deixá-los morrer e que sejam castigados com pena de morte os de alma incorrigível”. 

UMA CULTURA SECULARIZADA.
            A mentalidade secularizada que invade a cultura ocidental é fortemente um dos mecanismos para a busca da legalização da eutanásia. Segundo Campanini, neste processo de justificação da eutanásia ela se une ao processo de secularização que permeia nossa sociedade e que se exprime, sobretudo, como forma suprema de reivindicação da independência do homem diante de Deus e como conseqüência a rejeição do simbolismo religioso da morte.[3] 
            A morte para o crente indica, neste sentido, a sua contingência e sua dependência de Deus. Ora, num mundo subjetivista e individualista a eutanásia é sinal para o homem moderno de independência absoluta de toda e qualquer estrutura e afirmação de si como senhor da vida e da morte. Por isso afirma Elio Sgreccia: A eutanásia, como fuga da dor e da agonia, acontece primeiro no espírito e depois na sociedade e no direito.[4]
            É interessante notar que a eutanásia ganhou mais aceitação nos países mais industrializados e tecnicamente mais desenvolvidos: EUA, Canadá, Holanda, França, Itália, entre outros. Fica claro que quanto mais a secularização e a banalização do aspecto religioso mais fácil se convive com a eutanásia.  

ALGUMAS POSTURAS MAGISTERIAIS A FAVOR DA VIDA.
O Papa Pio XII numa conferência dirigida aos médicos da Associação Médico-biológica São Lucas afirmou categoricamente que ninguém no mundo, nenhuma pessoa em particular, nenhum poder humano pode autorizar um médico a destruir a vida diretamente. Seu dever não é o de destruir a vida, mas de salvá-la. O mesmo pontífice, em 14 de setembro de 1952, num discurso que fez aos participantes do I Congresso de Histopatologia do sistema nervoso, declarou: O médico como pessoa privada não pode tomar medida alguma nem tentar intervenção alguma sem o consentimento do paciente. O médico não tem sobre o paciente senão os poderes e os direitos que lhe confere, quer explicita, quer implicitamente e de maneira tácita. De sua parte, o paciente não pode conferir ao médico mais direitos do que aquele que tem. Quanto ao paciente, ele não é senhor absoluto de si mesmo, do próprio corpo e do próprio espírito. Não pode, portanto, dispor deles livremente, a seu bel-prazer.
Paulo VI no seu pontificado também se pronunciou contra a eutanásia valendo-se do direito a vida e do respeito que essa vida exige. Para o Pontífice a vida humana independente da etapa tem seu dignidade inalienável quer seja embrião, feto, criança, adulto ou velho. Na mesma linha postulou a S. Congregação para a Doutrina da Fé, em 1974, com relação ao tema: O direito à vida continua íntegro num velho, ainda que muito debilitado; um doente incurável não o perde.
Também no Concílio Vaticano II, na constituição pastoral Gaudium et Spes encontramos uma solene declaração magisterial contra a eutanásia e a favor da vida: tudo quanto se opõe a vida em si, como todo tipo de homicídio, genocídio, aborto, eutanásia e o mesmo suicídio voluntário... todas essas coisas e outras semelhantes são certamente vergonhosas e, ao mesmo tempo que corrompem a civilização humana, desonram mais aqueles que assim procedem do que os que padecem injustamente, e ofendem gravemente a honra do Criador.(GS, 27)
 

 Tipos de Eutanásia:
Distinguem-se as diversas formas de eutanásia, considerando-se os motivos e os meios empregados na sua execução, bem como a pessoa que a realiza. Aglutinamos aqui os diversos tipos de eutanásia, segundo os diferentes critérios usados para classificá-la: (10)
a) eutanásia terapêutica - está relacionada com o emprego ou omissão de meios terapêuticos a fim de obter a morte do paciente, distinguindo-se em:
1) eutanásia ativa - consiste no ato deliberado de provocar a morte sem sofrimento do paciente, por fins misericordiosos;c) eutanásia passiva ou indireta - dá-se quando a morte do paciente ocorre, dentro de uma situação de terminalidade, ou porque não se inicia uma ação médica ou pela interrupção de uma medida extraordinária (p. ex.: não colocar ou retirar o paciente de um respirador); pode também ser chamada eutanásia por omissão, ortotanásia ou paraeutanásia;
2) eutanásia voluntária - ocorre quando a morte é provocada atendendo a uma vontade do paciente;
3) eutanásia involuntária - ocorre quando a morte é provocada contra a vontade do paciente;
4) eutanásia não voluntária - caracteriza-se pela inexistência de manifestação da posição do paciente em relação a ela;
5) eutanásia de duplo efeito - dá-se quando a morte é acelerada como uma conseqüência indireta das ações médicas, que são executadas visando o alívio do sofrimento de um paciente terminal;
b) eutanásia eugênica - é a eliminação indolor dos doentes indesejáveis, dos inválidos e velhos, no escopo de aliviar a sociedade do peso de pessoas economicamente inúteis;
c) eutanásia criminal - é a eliminação indolor de pessoas socialmente perigosas;
d) eutanásia experimental - é a ocisão indolor de determinados indivíduos, com o fim experimental para o progresso da ciência;
e) eutanásia solidarística - é a ocisão indolor de seres humanos no escopo de salvar a vida de outrem;
f) eutanásia teológica - ou morte em estado de graça;
g) eutanásia legal - é aquela regulamentada ou consentida pela leis;
h) eutanásia-suicídio assistido - é o auxílio ao suicídio de quem já não consegue realizar sozinho a sua intenção de morrer;
i) eutanásia homicídio - resulta da distinção entre aquela praticada por médico e aquela praticada por parente ao amigo.
Por fim, devemos mencionar a eutanásia animal, que tem se revestido cada vez mais de aspectos éticos. Neste caso a eutanásia é realizada quando não existem meios de manter um animal sem sofrimento; quando clinicamente não há como mantê-lo vivo ou na falta de condições locais para realizar tratamento clínico ou cirúrgico. Admite-se na hipótese de o proprietário não ter recursos financeiros para realizar o tratamento ou se não há interesse em gastar alta soma num animal de esporte que não dará retorno.







[1] V. Marcuzzi, IN Elio Sgreccia.  Manual de Bioética: Fundamentos e ética biomédica. Vol. I, 2a edição, Loyola, SP 1996, p. 604.
[2] A Congregação para a Doutrina da Fé, numa declaração de 5 de maio de 1980 afirma explicitamente a vida humana como o fundamento de todos os bens, a fonte e a condição necessária de toda atividade humana e de toda vivência social. Portanto qualquer ato contra a vida, ou seja, contra o fundamento da vida é racionalmente inaceitável e amoral. Cf. Declaração sobre a Eutanásia, da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, promungada em 5 de maio de 1980, no 1. 
[3] G. Campanini. IN Elio Sgreccia.  Manual de Bioética: Fundamentos e ética biomédica. Vol. I, 2a edição, Loyola, SP 1996, p. 607
[4] Sgreccia, Elio.  Manual de Bioética: Fundamentos e ética biomédica. Vol. I, 2a edição, Loyola, SP 1996, p. 607

“IGREJA MISTÉRIO” NA CONSTITUIÇÃO DOGMÁTICA “LUMEN GENTIUM

“IGREJA MISTÉRIO”
NA
CONSTITUIÇÃO DOGMÁTICA “LUMEN GENTIUM”

                                                                                   As nações caminharão à sua luz (Ap 21,24)

Fazendo memória do Concílio Vaticano II, após seus quarenta anos, o Conselho Nacional do Laicato do Brasil realizará um seminário cujo tema é a “Constituição Dogmática Lumen Gentium”. Criando esse espaço convoca o seu laicato para entender, aprofundar e retomar os ensinamentos conciliares sobre a Igreja, objetivando reacender a chama e o espírito de renovação do Concílio Vaticano II a fim de que os ajude a perceber que este Concílio não foi um acontecimento passado, mas o ponto de partida de toda ação eclesial, no presente e no futuro, conforme se expressou o Papa Paulo VI em carta de 21/ 09/1966, dirigida ao Congresso de Teologia pós-conciliar:

 “A tarefa do Concílio Ecumênico não está completamente terminada com a promulgação de seus documentos. Esses, como ensina a história dos Concílios, representam antes um ponto de partida que um alvo atingido. É preciso, ainda, que toda a vida da Igreja seja impregnada e renovada pelo vigor e pelo espírito do Concílio, é preciso que as sementes de vida lançadas pelo Concílio no campo que é a Igreja cheguem a plena maturidade”.[1]

Estas palavras ecoaram em grande parte da Igreja do Brasil e o CNLB atento a essa escuta acolhe esse vigor e esse espírito conciliar à luz também das novas exigências dos novos sinais dos tempos e recebe com entusiasmo a tarefa fontal do Concílio Vaticano II.
O lugar central das preocupações conciliares foi ocupado pela própria Igreja. Os dois temas basilares sobre os quais se construiu a eclesiologia[2] do Concílio foram: A Igreja como “Mistério” e a Igreja como “Povo de Deus”. Esta reflexão se concentrará no capítulo I da Constituição Dogmática “Lumen Gentium” que apresenta com riqueza o tema da Igreja “Mistério”.


1. O CONCÍLIO, A IGREJA E O MUNDO MODERNO
                                                                 “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz”(Mt 4,16)

O Concílio Vaticano II marcou a entrada da Igreja no mundo moderno: o encontro da Igreja com a humanidade,[3] que a fez reafirmar sua aliança com a vida humana[4]. Por paradoxal que pareça esse encontro foi decisivo para que ela se encontrasse consigo mesma. Até então a Igreja - desde os tempos da cristandade – exauria-se em crise de identidade. Pois, todo “estranhamento” com relação à história compromete o próprio sentido e a razão de ser da Igreja: na maneira de entender-se a si mesma, e na maneira de entender sua relação com a história[5]. Daí, o Concílio ser recebido como uma lufada de “ar” do Espírito Santo a ponto de ser denominado pelo Papa João XXIII como um “Novo Pentecostes” e pelo papa Paulo VI “uma passagem do Senhor”[6]. A Igreja ao assumir o desafio de “dialogar” com o pensamento moderno é levada a buscar uma nova maneira de estar no mundo e o pré-requisito básico é o seu “Aggiornamento” que o Concílio procurou realizar ao propor o diálogo da Igreja consigo mesma.  Fruto desta opção foram os dois documentos de fundamental importância: A Lumen Gentium e a Gaudium et Spes, que tiveram grande influência na orientação e conteúdo dos demais documentos conciliares[7].
A Igreja necessitava de aggiornamento para viver e anunciar o conteúdo da Revelação, perceber os sinais dos tempos, responder evangelicamente aos desafios, muitos e variados, de cada época histórica. Em homilia às vésperas do encerramento do Concílio, o Papa Paulo VI esclarece os dois grandes eixos norteadores das preocupações da Igreja conciliar: Como evangelizar o mundo atual e como o homem entende o Evangelho hoje.

“A Igreja interessa-se pelo mundo moderno e sente necessidade de conhecer, de aproximar, de compreender, de penetrar, de servir, de evangelizar a sociedade que a rodeia e, por assim dizer, de a seguir nas suas transformações rápidas e contínuas (...) A Igreja do Concílio ocupou-se muito do homem como ele se apresenta na nossa época(...) o homem tal como é, que pensa, que ri, que trabalha, que espera sempre alguma coisa  (...). Grandeza, beleza, mas também miséria, orgulho”. E finalizando, diz ainda o Papa: “... para conhecer a Deus é preciso conhecer o homem”.E mais: “Amar o homem (...) não como um simples meio, mas como um primeiro termo da subida para o termo supremo e transcendente, para o princípio e causa de todo o amor”[8].

O ponto de partida desta renovação, deste rejuvenescimento diz o Concílio é Cristo. Cristo é a Luz na qual a Igreja encontra sua autoconsciência, sua razão de ser. Espelhando-se em Cristo, a Igreja procurará atualizar-se, renovar-se, rejuvenescer: Ao Cristo vivo deve corresponder uma Igreja viva (PauloVI)[9]. Cristo é o Verbo de Deus; é por Ele, é Nele que Deus fala ao mundo, que faz história com os homens. É com Jesus, o Cristo, o Verbo Eterno que é Revelação do Pai e Revelação do homem que a Igreja aprende a dialogar.  
A renovação, propugnada pelo Concílio Ecumênico Vaticano II, é, sem dúvida, uma profunda renovação interior, da qual as reformas externas devem ser sinal. A novidade maior do Concílio adverte, o Papa Paulo VI dirigindo-se aos Bispos da Itália[10], “não são as mudanças exteriores, mas o modo de considerar a Igreja”. Ao dizer isto o Papa estava consciente que o Concílio, no fundo, estava removendo algo considerado intocável durante séculos: superar uma etapa de profunda desistorização da fé e da Igreja. E iniciar uma etapa histórica nova, sob o signo de uma consciência clara da historicidade da fé, da Igreja e de toda reflexão teológica e eclesiológica[11]. Por isso, não mais fuga do mundo, mas presença evangélica atuante no mundo.


2. O CONCÍLIO NASCE PASTORAL[12]
                                     “Eu vim para que todos tenham a vida e a tenham em abundância”(Jo 10,10)

Essa inserção nas realidades do mundo caracteriza a novidade do seu agir: Ela quer realizar aqui e agora, nesse dado momento histórico a sua missão salvífica em relação ao mundo e ao homem como serviço à vida, serviço à comunidade dos homens[13]. Acentuando, então, a sua dimensão pastoral explicita o caráter dinâmico e eficaz de sua presença preocupada e solícita com as realidades terrenas e deixando-se guiar pelas mãos de Deus que investiga o segredo das coisas concentra sua atenção no aspecto de Igreja-Mistério de Salvação.
Importa salientar que a perspectiva pastoral identificou o Concílio desde a sua abertura como se pode constatar no discurso inaugural do Papa João XXIII, no dia 11-10-1962:

“Uma é a substância da antiga doutrina do depositum fidei e outra é a formulação que a reveste: e é disto que se deve, – com paciência se necessário – ter grande conta, medindo tudo nas formas e proporções do magistério prevalentemente pastoral... Sempre a Igreja se opôs aos erros; muitas vezes até os condenou com a maior severidade. Nos nossos dias, porém, a Esposa de Cristo prefere usar mais o remédio da misericórdia que o da severidade: julga satisfazer melhor às necessidades de hoje mostrando a validez da sua doutrina que condenando erros... A Igreja Católica, levantando por meio deste Concílio o facho da verdade religiosa, deseja mostrar-se mãe amorosa de todos, benigna, paciente, cheia de misericórdia e bondade com os filhos dela separados”[14].

O impacto deste pronunciamento do Papa foi surpreendente: a mudança no modo de falar e de conceber a Igreja definiu o rumo do Concílio: de uma Igreja mestra, juíza, dona da verdade, para uma Igreja mãe amorosa, compreensiva, humilde, dialogante...[15] A pastoralidade deste Concílio está marcada por uma abertura inédita à criação, à história e às realidades terrestres.[16]É no meio desta história e desta criação que a Igreja recebe a missão de anunciar e estabelecer em todas as gentes o Reino de Cristo e de Deus (LG 5). Vinculada à realidade histórica incorpora-se no novo “Povo de Deus” reunido por Cristo: comunidade dos homens que testemunha na história a Revelação de um Deus que ama e chama o seu “povo” a fazer dessa história, uma História da Salvação. Pode-se afirmar que este discurso“é, do princípio ao fim, uma só e contínua reflexão sobre o condicionamento histórico do cristianismo e sobre a grande importância deste dado para o acontecimento conciliar”[17]. D.Aloísio assim interpreta a orientação pastoral do Concílio:

É na sua dimensão pastoral que a Igreja se abre às justas exigências do mundo de hoje (democracia, liberdade, responsabilidade. (...),diálogo(...) direitos fundamentais da pessoa humana ) para ajudá-lo num espírito de doação total que é o serviço dos pobres. É a pastoral que considera a maneira de pensar dos homens, a sua linguagem, o seu modo de vida para apresentar o Evangelho de Jesus Cristo como mensagem que liberta e plenifica o homem. É a presença crítica da fé no mundo de hoje, a releitura da Palavra de Deus dentro das mudadas condições de nossos tempos.[18]

Ao apresentar o novo modo de considerar a Igreja a partir de sua natureza e de sua missão (LG 1), o Concílio na sua Constituição Dogmática Lumen Gentium assume que a Revelação e a Igreja são realidades acontecidas e constituídas na história e através de acontecimentos históricos concretos. A exigência desse novo modo de sentir a Igreja orientou a perspectiva pastoral assumida prioritariamente pelo Concílio “que deseja ardentemente iluminar todos os homens com a claridade de Cristo que resplandece na face da Igreja”(LG 1). É Cristo, a luz das nações, o fundamento do “Mistério da Igreja”. Ao descentrar a Igreja de si mesma o Concílio deu um salto: pastoral, ecumênico.[19] Este salto, ou seja, a mudança histórica conciliar pressupõe um novo paradigma de compreensão: uma concepção, dinâmica, histórico-evolutiva da realidade do mundo e, dentro dele, uma compreensão lúcida do caráter histórico do cristianismo e da Igreja, e da historicidade constitutiva de toda eclesiologia[20]. As presentes condições do mundo tornam ainda mais urgente este dever da Igreja (LG 1).


            3. A IGREJA COMO “MISTÉRIO”
 “A Igreja, hoje mesmo está dando Jesus. Explica-mo, ensina-me a vê-lo, conserva para mim sua presença. Dizer isto é dizer tudo. Que poderia eu saber de Jesus, que vínculo haveria entre nós dois sem a Igreja?” (Henri de Lubac)

O Concílio propõe-se explicar com maior rigor, aos fiéis e a toda a gente, a natureza e a missão universal da Igreja (LG 1). A Natureza da Igreja é ser “sacramento” de Cristo. Cristo é o “Sacramento” do Pai, enquanto sinal: sensível, palpável e eficaz do plano divino (LG 1). A Igreja é “sacramento”, enquanto chamada a traduzir em visibilidade histórica o próprio desígnio de Deus, sacramentalizado na humanidade visível de Cristo. Cristo é o sacramento fundamental e a Igreja é o sacramento geral derivado de Cristo. A vocação profunda da Igreja é ser instrumento, da união íntima com Deus e da unidade de todo o gênero humano.
O Concílio ao entender a Igreja como “sacramento” inaugurou uma eclesiologia que supera a compreensão de uma Igreja em termos de razão refletida e comprovada - “sociedade perfeita”- , e passa a compreendê-la como “mistério” de unidade a serviço do mundo. Ao reconhecer a presença de Deus nela que chama os homens à comunhão entre si mediante a graça de Cristo - inter-relacionando ambas as dimensões a visível e a invisível -, o Concílio quis propor a concepção de Igreja em termos de experiência a partir da concepção de “mistério”. Essa mudança do modelo eclesial hegemônico anterior ao Concílio que se caracterizava por uma estrutura estática, na sua doutrina e disciplina, é, saudada por muitos eclesiólogos católicos como uma abertura para a Igreja encontrar o caminho de sua “sacramentalidade”. Assim Rufino Velasco:
“O concílio abre caminho de uma Igreja entendida como “instituição”, como meio de acesso dos homens a Deus, para uma Igreja entendida como “mistério”, isto é, “sacramento” que veicula o acesso de Deus aos homens. Neste sentido, Cristo é “Sacramento”, e a Igreja o é “em Cristo”.[21]

A Lumen Gentium ao definir a natureza sacramental da Igreja está assumindo o sentido patrístico de sacramento entendido como o “mysterion” do Novo Testamento, referido ao “mistério de Deus, que é Cristo” (Cl 2,2) e que foi traduzido pelos Padres da Igreja por “sacramentum”.[22]A Igreja é “sacramento” quando através dela transparecem historicamente as realidades invisíveis, evangélicas, que está chamada a veicular; ela é participante da História da Salvação. A Igreja brota do desígnio amoroso do Pai concretiza-se na Encarnação Redentora do Filho, completa-se na ação santificadora e rejuvenescedora do Espírito Santo. O Verbo feito Carne (Jo 1,14) é, pois, a fonte que acentua a noção fundamental da Igreja “Mistério”, uma realidade única e complexa na qual se fundem dois elementos, o humano e o divino (LG 1). A Igreja é mistério: lugar onde é revelado o projeto salvífico de Deus realizado em Jesus Cristo. A Igreja é acesso ao conhecimento e à participação neste mistério, espaço de participação nessa salvação.
A verdadeira realidade da Igreja só pode ser vislumbrada à luz da fé. A sua inteligibilidade não vem de sua condição de sociedade perfeita, mas de ícone da Trindade, em sua realidade de comunhão interpessoal, solidariedade mútua, inter-relação. O Pai envia Jesus para reunir o Povo de Deus disperso, o Espírito é o começo da nova criação. A Trindade congrega continuamente a Igreja à sua imagem nesta nova criação[23]. Vem da Trindade, vive da Trindade, caminha para a Trindade.[24]
Quando se fala do “mistério” da Igreja, costuma-se dizer, e o próprio Concílio disse (LG 8), que isto significa que a Igreja é uma “realidade complexa”, constituída por um elemento humano e outro divino, por uma dimensão visível e outra invisível. Duas dimensões que por sua própria razão de ser não podem ser separadas, mas cuja relação mútua não se costuma precisar[25]. Não é o mesmo que reduzir a concepção de mistério às verdades sobrenaturais que estão acima da razão, nem a uma realidade ‘inacessível’de Deus, à qual o homem procura se achegar por diversos caminhos. O Concílio na Lumen Gentium deslocou o sentido de mistério, encerrado na eclesiologia anterior numa categoria a-histórica para a vivência concreta do mistério da Encarnação. A aplicação à Igreja dessa concepção geral do mistério foi apresentada por Paulo VI em sua alocução inaugural da segunda sessão do Concílio:

“A Igreja declarou o Papa, é “ um mistério”. É uma realidade imbuída da presença oculta de Deus.Está, por conseguinte, na própria natureza da Igreja manter-se sempre aberta a uma nova e cada vez mais ampla exploração”.[26]

D. Aloísio Lorscheider assim explicita a concepção de mistério no capítulo primeiro da Lumen Gentium:

 “No mistério da Igreja devemos distinguir dois aspectos: divino, sobrenatural um; humano outro.
1.O aspecto divino, sobrenatural: É o mistério do Verbo Encarnado em toda sua profundidade: Deus e Homem; Eterno e temporal; infinito e limitado. Na base da Igreja está o Verbo Encarnado Redentor, o Filho Único, o bem amado, que está no seio do Pai (Jo 1,18). Permanecendo no seio do Pai, o Filho, o Verbo se fez carne e colocou a sua tenda entre nós (Jo 1,14). A partir deste seio, Ele, o Verbo, nos revela o Pai, a Si mesmo, e o Espírito Santo (Jo 3,11; Mt 11,27).
2.O aspecto humano: A Igreja continua o Verbo Encarnado Redentor. Encarna-se nas diferentes culturas, nos diferentes povos, nos diferentes ritos; peregrina com os homens na fé (não possui a visão, não conhece claramente a solução de todos os problemas, deve procurar, refletir, meditar, ouvir os outros, sempre atenta às sementes de verdade que Deus espalhou pelo mundo inteiro, também nas religiões do mundo; ela é posta à prova: a perda de Jesus no templo é muito elucidativa; a atitude de Maria que conservava todas estas coisas no seu coração e as meditava é um exemplo para a Igreja), na esperança (ela geme esperando ansiosamente a libertação: Rm 8,19-25), na caridade (que é serviço no sentido de Fl 2,6-8), sempre vigilante à espera do esposo para as bodas (Mt 25,1-13), em crescimento, o grão de mostarda (Mt 13,31s); o pequeno rebanho (Lc 12,32). Cresce visivelmente por virtude divina; em contínua tensão pensando nas coisas do alto (Cl 3,1s)”. [27]

A inspiração que enriqueceu a visão rica e profunda da Igreja como “mistério” é contribuição das tradições bíblicas, orientais e patrística. Chama atenção também o uso intenso e constante na Lumen Gentium de citações bíblicas o que manifesta a importância da Revelação para a vida da Igreja e a história dos homens. A Palavra de Deus na Bíblia volta a ser a “alma da teologia e da pregação”(DV 6) , o que caracterizou a chamada volta “às fontes da fé”.

4. O MISTÉRIO EM SUA SIMBOLOGIA
                                             “É grande este mistério: refiro-me à relação entre Cristo e a sua Igreja”(Ef 5,32)

  O capítulo I que trata do mistério da Igreja é construído em torno da Bíblia, notadamente do Novo Testamento. No ‘Corpus Paulinum’ o mistério por excelência não é tanto Deus na sua natureza essencial ou os conselhos da mente divina, mas, sobretudo, o plano divino da salvação quando vem a realizar-se concretamente na pessoa de Cristo[28]. É nas cartas de São Paulo –, quando esclarece a natureza da Igreja que ele apresenta quase que exclusivamente por imagens - que o termo “mistério” (1 Cor 15,51; Cl 1,26.27;2,2; 4,4 e Ef 1,9;3,3.4.9;5,32; 6,19) adquire para o Novo Testamento todo seu sentido.
Ao definir a Igreja como “mistério” o Concílio lançou mãos de categorias que manifestam a mais profunda realidade da Igreja – o mais importante constitutivo do seu ser – que é o divino dom de si mesmo. No citado discurso de abertura do Papa João XXIII ele já a descreve por imagens que funcionam como símbolos: ‘esposa de Cristo’, ‘mãe amorosa’... Isto equivale dizer que as imagens falam existencialmente ao homem, encontram eco nas profundezas do seu psiquismo e focalizam de um modo novo a sua experiência[29]. O mistério da comunhão do homem com Deus exclui a possibilidade de partir de conceitos claros e unívocos ou de definições na acepção da palavra. Entre os instrumentos positivos para iluminar os mistérios da fé, o Concílio considerou primeiramente as imagens.

“O resultado mais significativo do debate foi a persuasão profunda de que a Igreja, nos seus dois mil anos, foi descrita não tanto mediante definições verbais quanto à luz de imagens. A maioria das imagens é, por certo, bíblica.O valor teológico das imagens foi vigorosamente afirmado pelo Concílio. Da noção que se deve começar por uma definição Aristotélica, simplesmente não se tomou conhecimento.Em seu lugar foi proposta uma análise bíblica do significado das imagens[30].

Esse uso das metáforas bíblicas pelo Concílio está a serviço da compreensão da Igreja como “mistério” que, não só sugere que ela transcende incomensuravelmente todos os conceitos e formulações humanos, mas retoma uma eclesiologia  simbólica Bíblico-Patrística: A Igreja é o Povo de Deus, a Igreja é o Reino já presente em mistério,  a Igreja é o Corpo de Cristo, a Igreja é o rebanho, a Igreja é a vinha, a Igreja é o templo, a Igreja é a mãe, a Igreja é a esposa, que é muito sintomática de uma eclesiologia aberta e plural que a concepção de Igreja como “mistério” de salvação induz e favorece. Estas várias imagens, sem contradizer-se diretamente, realçam diferentes aspectos e funções, insinuando a diversidade de prioridades e metas.
O Concílio concentrando sua atenção mais no aspecto de Igreja-Mistério de Salvação na dimensão da história dos homens - sem rejeitar as outras formas de expressão – elegeu como a que melhor manifesta o dinamismo de sua natureza sempre em missão, sempre um projeto que deve buscar entre os homens a realização do Reino de Deus a imagem de Igreja “Povo de Deus”. Esta imagem contempla de forma especial, o seu novo modo de presença no mundo. O campo de ação da Igreja, sendo o mundo dos homens, inclui a todos e a sua missão será a missão de todos os batizados. Portanto, como mistério de comunhão e de unidade ela se propõe uma comunidade de batizados onde todos participam a seu modo do múnus sacerdotal, profético e real de Cristo – realizam na Igreja e no mundo, na parte que lhes compete, a missão de todo o povo Cristão (LG IV/31). Esta novidade restaura a igualdade fundamental proveniente do Batismo, a comum dignidade, a comum missão de todos os seus membros e recupera de modo surpreendente a condição eclesial dos cristãos “leigos”: O Apostolado dos leigos é participação na própria missão salvífica da Igreja. Por isso esforcem-se os leigos com diligência por conhecer mais profundamente a verdade revelada e peçam incessantemente a Deus o dom da sabedoria (LG IV/35).
A Lumen Gentium (LG 8) ao dizer que a Igreja de Cristo subsiste na Igreja Católica, reconhecendo, ao mesmo tempo que fora dela pode-se encontrar realmente vários elementos de santificação e de verdade que, como dons próprios da Igreja de Cristo, impulsionam para a unidade Católica  abre suas portas ao Ecumenismo. A concepção de Igreja, que se desenvolve depois do Concílio, valoriza sua face espiritual e misteriosa. Deixa-se de lado a insistência unilateral sobre o aspecto visível, jurídico, organizativo. Ela é percebida mais como sinal, um anúncio do projeto de salvação para toda a humanidade do que como aquele lugar necessário fora do qual as pessoas se condenam[31].
À dimensão pastoral assumida pelo Concílio se devem os méritos do retorno dessa metodologia eclesial, cuja riqueza do símbolo na ação evangelizadora, típica das primeiras comunidades cristãs, permite, quando atualizada e em sintonia com as diversas experiências de inculturação, o enraizamento nas diversas culturas do anúncio do Reino de Deus (LG 5) que foi a preocupação básica de Jesus e é a missão da Igreja.

“A estes quis Deus tornar conhecida qual é entre os povos a riqueza da glória deste mistério, que é Cristo em vós, a esperança da glória”(Cl 1,27).

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CONCLUSÃO

 A Igreja é o que de mais divino e mais humano opera eficazmente no mundo, como fermento, luz, sal, para a glória do Pai e a felicidade do gênero humano.(A.Lorscheider)

Com o que ficou dito poder-se-á compreender com que profundidade no capítulo I da Lumen Gentium se refletiu sobre o mistério da Igreja. Este novo modo de sentir a Igreja de uma maneira peculiar e inovadora traz consigo incalculáveis conseqüências.
·        Porque animada pelo Espírito do Ressuscitado, a Igreja é viva e dinâmica, é comunhão com os irmãos na fé, comunhão solidária com os pobres. Mistério que é o do Cristo pobre e sofredor: “Como Cristo realizou a obra da redenção na pobreza e na perseguição, assim também, para poder comunicar aos homens os frutos da salvação, a Igreja é chamada a seguir o mesmo caminho” (LG 8).
·        Outra é, de que não existe Igreja à margem da fé do povo de Deus: aos que acreditam em Cristo, o Pai quis convocá-los na santa Igreja (LG 2). “Assim aparece a Igreja inteira como povo congregado na unidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo” (LG 4). A imagem da Vinha expressa o mistério do Povo de Deus.
·         Também convém destacar a ternura da Igreja, sua face materna ao acolher a todos como Filhos “amados e eleitos do Pai” (1Ts 1,1), sem acepção de pessoas, a fim de que todos possam compreender a caridade de Deus e de Cristo para com os homens, amor que excede todo conhecimento (LG 6) a ponto de reunir em seu seio os pecadores. Por isso mesmo, ao mesmo tempo, que, é santa, precisa também de purificação, e sem descanso prossegue no seu esforço de penitência e renovação (LG 8). 
  Assim, toda a importância da Igreja deriva de sua ligação com Jesus Cristo, porque em seu ministério Galilaico-judeu se cumpriu o desígnio do Pai de manifestar o Reino prometido há séculos: “os tempos estão cumpridos e o Reino de Deus está iminente”(LG 5). Continuando a missão de Jesus de Nazaré, a Igreja continua também o seu peregrinar entre as perseguições do mundo e as consolações de Deus. Anunciando a cruz e a morte do Senhor até que ele venha, a Igreja encontra força no poder do Senhor ressuscitado para revelar ao mundo, com fidelidade, embora entre sombras, o mistério de Cristo, até que por fim se manifeste em luz total (LG 8).
Em síntese o “mistério” da Igreja é o mistério da Manjedoura de Belém, da Epifania, do Batismo no Jordão, da Proclamação do Reino, da Cruz, do Túmulo vazio, da Ressurreição, do Pentecostes, da Trindade, da Comunhão e da Unidade, isto é, é o “MISTÉRIO DE CRISTO”.
Este Concílio Vaticano II que nasceu de uma experiência espiritual e foi recebido como um “Novo Pentecostes” é uma inspiração para que o laicato do Brasil se repense como Igreja, repense a sua comunidade, e sua vida pessoal, em função do bem do mundo, e de toda a humanidade que aspira pela justiça e paz.[32]
Recordando o apelo do Papa Paulo VI para atualizar o vigor e o espírito do Concílio, citado no início deste artigo, podemos fazer nossas as palavras de Rufino Velasco:

 “Não se trata apenas de entender e aprofundar os documentos conciliares trata-se de continuar o Concílio, de fazê-lo avançar para a mudança histórica começada por ele. Não se pode ser fiel ao Concílio a não ser indo para além dele, em inovação e criatividade permanente. Decididamente, o Vaticano II foi um acontecimento do Espírito, desse Espírito que continua“criador” de sua Igreja, e que continua “fazendo novas todas as coisas”[33].

                                                                        Tânia Maria Couto Maia[34]





BIBLIOGRAFIA
- Compêndio do Vaticano II- Ed. Vozes, RJ- 1968
- Constituição Dogmática sobre a Igreja – Lúmen Gentium, 11ª edição, Ed. Paulinas, 1966
- Concilium / 208 – 1986/6 Ed. Vozes, RJ. 1985
- Dulles, A. A Igreja e seus modelos, Ed. Paulinas, SP 1978
- Gonçalves,P. e Bombonatto,V.: Concílio Vaticano II- Análise e Perspectivas Ed. Paulinas 2004
- Libânio, J.B. – Igreja Contemporânea: Encontro com a modernidade, Ed. Loyola, SP 2000
- Lorscheider,A.-Idéias Fundamentais do Concílio E. Vaticano II, Santo Ângelo, RS, 1968
- Lorscheider,A.- O Mistério da Igreja no Vaticano II – Teologia I, Santo Ângelo, RS 1965
- Velasco Rufino. – A Igreja de Jesus – Ed. Vozes, RJ- 1995

TEXTOS (mimeo)
Batista, Libânio: Concílio Vaticano II: Abordagem pastoral. ITEP, Semana Teológica - CE -2003
Ernando, Paulo: Reacendendo a chama do Concilio Vaticano II-ITEP, Semana Teológica, CE, 2003
Kosubeck, Miguel: A Igreja do Vaticano II- Semana Teológica do ITEP – Fortaleza, Ce 2003






[1] Papa Paulo VI in Kloppenburg, B.: Introdução Geral aos Documentos do Concílio Vat.II, p.7 - Ed. Vozes 1968 .
[2] Eclesiologia é a abordagem da dimensão eclesial da fé cristã
[3] Humanidade aqui tem o sentido de reconhecimento dos valores humanos = humanismo.
[4] Papa Paulo VI, Discurso final do Concílio em 7 de Dez. de 1965 in Kloppenburg, B.: op.cit , p.7
[5] Velasco, Rufino: A Igreja de Jesus – p.234 e 238 – Ed. Vozes, 1995
[6] Citado por Lorscheider, A. in Idéias Fundamentais do Concílio.Vat.II – Santo Ângelo, RS - 1968
[7] Velasco Rufino: A Igreja de Jesus – p.234 – Ed. Vozes, RJ, 1995
[8] Papa Paulo VI – Homilia em 7/12/1965 in artigo de Ernando Paulo N. Barbosa – ITEP – Fortaleza, 2003
[9] Lorscheider, A.; Idéias fundamentais do Concílio Vaticano II, Santo Ângelo, RS, 1968
[10] Papa Paulo VI, citado por Kloppenburg, in Introdução Geral aos Doc. do C. Vat.II, p.8 – Vozes, RJ, 1968
[11] Velasco, Rufino: op.cit. p. 234
[12] Libânio, JB in artigo: Vaticano II: Abordagem pastoral, p.1 – Semana Teológica do ITEP – Ceará, 2003
[13] Cf. Lorscheider, A. in Gonçalves, P. e Bombonatto, V.:Concílio Vaticano II – Análise e Perspectivas p. 7, Paulinas, 2004
[14] Papa João XXIII in Kloppenburg: Intr. Geral aos Doc. do C. Vaticano II , p.8 -Ed.Vozes 1968  (O grifo é nosso)
[15] Cf. Lorscheider, A. in op. cit. p.5
[16] Cf. Bingemer.M.C. in Gonçalves, P. e Bombonatto, V. – op. cit. p.192
[17] Joseph Ruggiori in Velasco, R. op. cit. p.236
[18] Lorscheider,A. in Grandes Linhas Eclesiológicas do Concílio Vaticano II: Novidades - in Revista Kairós, p.45 Dez.2004
[19] Cf. Libânio, JB op.cit, p8
[20] Velasco,R. op. cit, p.236
[21] Velasco,R. op. cit.,p 246
[22] Velasco,R. op.cit. p 244
[23] Cf. Igreja, Mistério de Koinonia,,p. 62-64 in artigo de Mikael Kosubeck – ITEP – Fortaleza, 2003
[24] Cf.Libânio, J.B. op.cit, p.8
[25] Velasco,R. op. cit., p. 245
[26] Citado por Dulles, A.. op cit p.15
[27] Lorscheider,A. in Curso sobre a Constituição Dogmática Lumen Gentium, Santo Ângelo, RS- 1965
[28] Dulles,A.: A igreja e seus modelos,p.14, Ed.Paulinas, 1978
[29] Ibidem, idem
[30] G. Wiegel, in Dulles.A: Op. cit. p.16
[31] Libânio,J.B. – Igreja Contemporânea: Encontro com a Modernidade, p.95 -Ed. Loyola,  SP 2000
[32] Cf. Catão, F. in Gonçalves, P. e Bombonatto V. in op. cit. p.106
[33] Velasco, R., op. cit. p 239
[34] Casada, mãe de cinco filhos já adultos, Téologa, professora de Bíblia desde 1984 do Instituto Teológico e Pastoral do Ceará, ITEP, da Escola de Pastoral Catequética, presta assessoria ao CEBI, faz parte da atual Comissão de Formação e é membro nato do CNLB.

sábado, 7 de março de 2015

Homilia do Pe. Fantico Borges, CM – III Domingo da Quaresma – Ano B

Homilia do Pe. Fantico Borges, CM – III Domingo da Quaresma – Ano B

Jesus quer purificar-nos
A quaresma é um tempo de purificação, onde Deus nos convida a mudar de vida. Para isso, os mandamentos, a vivência moral da ética cristã.  Ensina São Leão Magno que  “A Quaresma é tempo de limpar e enfeitar a casa por dentro. Convém que vivamos sempre de modo sábio e santo, dirigindo nossa vontade e nossas ações para aquilo que sabemos agradar a Deus.”  Como acontece verdadeira e autêntica renovação se não se passa por uma corajosa revisão da própria vida moral e da própria vida litúrgica; com palavras mais simples, dos próprios costumes e da própria oração pessoal?
A liturgia do terceiro domingo nos apresenta o Decálogo, a lei do Antigo Israel que regia toda a vida social e religiosa do povo. Não pronunciarás o nome do Senhor Teu Deus em vão; lembra-te de santificar o dia de sábado; honra teu pai e tua mãe; não matarás; não cometerás adultério; não furtarás; não levantarás falso testemunho; não cobiçarás as coisas do teu próximo; não desejarás a mulher do teu próximo. Estes dez mandamentos foram a base da vida moral, antes do povo hebreu e depois do povo cristão. Não contém toda a lei; sua forma negativa (“não fazer”) indica que se trata de alguns limites que delimitam um âmbito moral, antes que descrevê-lo positivamente; dentro devem ser colocados “toda a lei e os profetas” e de maneira especial o mandamento do amor que os resume a todos (Mt 22,40). É precisamente este caráter “negativo” que assegura aos dez mandamentos sua perene e imutável atualidade.
No início, eles não são percebidos nem mesmo como lei, mas como evento: o povo entra na aliança com Deus e os mandamentos são um sinal de sua pertença ao Senhor; são a proclamação de seu caráter de povo eleito, diferente de todos, isto é, santo.
O Decálogo é uma escolha de vida que Deus propõe ao homem: Olha que hoje ponho diante de ti a vida com o bem, e a morte com o mal; observes seus mandamentos, suas leis e seus preceitos [...] para que vivas e te multipliques [...] se não obedeceres e se te deixares seduzir eu te declaro neste dia: perecereis (Dt 30,15 ss). O Decálogo é para o homem, não contra ele; não quer amarrar ou limitar sua liberdade, mas antes soltá-la. Aquilo que proíbe não é, com efeito, algo arbitrário que desagrada a Deus não se sabe por que, mas é o que compromete antes de tudo o próprio homem e sua possibilidade de ter relações equilibradas com os outros, de ser, em outras palavras, autenticamente homem.
Obedecer a regras nunca é tão fácil; às vezes, nos deparamos com situações difíceis, onde somente uma mente reta, pode realizar a vontade de Deus. Jesus veio ao mundo para renovar a face da terra com seus amor e seu testemunho de obediência ao Pai. Seguir o caminho cristão significa estar disposto  a viver essa fé, mudar as atitudes autenticamente. São Leão Magno diz que devemos passar da vingança ao amor: "cessem as vinganças, as ofensas sejam perdoadas, transformai a severidade em doçura, a indignação em mansidão e a discórdia em paz" (4o sermão sobre a Quaresma)
Jesus deseja que tenhamos uma relação com Deus que ultrapasse a mera preceituação ritualistas e alcance o ápice da intimidade. Sua atitude no Evangelho de hoje mais que estimular a violência quer deixar claro que Deus não se agrada de cultos exteriores e sim que anela nossa adesão sincera. Segundo Santo Agostinho no Comentário aos salmos Jesus age por meio da santa ira, movido pelo zelo das almas que encontro no templo de pedra um sinal da presença constante de Deus. O templo de Israel era apenas sinal escatológico do Cristo Templo vivo de Deus. " Em nível de imagem, o Senhor expulsa do templo aos que no templo buscavam seu próprio interesse, ou seja, os que iam ao templo para comprar e vender. Agora, se aquele templo era uma imagem, é evidente que também no corpo de Cristo - que é o verdadeiro templo no qual o outro era uma imagem - existe uma miscelânea de compradores e vendedores, isto é, gente que busca seu interesse, e não o de Jesus Cristo. E visto que os homens são açoitados pelos seus próprios pecados, o Senhor fez um açoite de cordas e expulsou do templos a todos os que buscavam seus interesses, e não o de Jesus Cristo." Jesus com esse gesto conclama a pureza de espírito que deve ter quem se aproxima de Cristo.    
O gesto ousado de Cristo não é apenas zelo de purificação do templo. As ofertas para os sacrifícios faziam girar muito dinheiro e provocavam abusos e exploração. “Tirai isso daqui! Não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio!” (Jo 2, 16). As relações do homem com Deus, e também para com o próximo, têm que ser orientadas pela retidão, pela sinceridade; pode acontecer que, no culto divino ou na observância de determinado preceito do Decálogo (os Dez Mandamentos) se preste maior atenção ao aspecto externo legalista, do que ao interno e, assim, poderá chegar-se, pouco ou muito, à profanação do templo, da religião. São João afirma que Jesus purificou o templo, expulsando dele os vendedores com as suas mercadorias, quando já estava próxima a “Páscoa dos Judeus”.
A Igreja, durante a quaresma, caminhando para a Páscoa, parece repetir o gesto de Jesus, convidando os cristãos à purificação do templo do seu coração para que possam prestar a Deus um culto mais purificado. Jesus falou de outro templo, infinitamente digno, “o Templo do Seu Corpo” (Jo 2, 21), ao qual fazia alusão quando dizia: “Destruí este Templo, e em três dias Eu o levantarei” (Jo 2,19). Assim, o Senhor identifica o Templo de Jerusalém com Seu próprio Corpo, e deste modo refere-se a uma das verdades mais profundas sobre Si mesmo: a Encarnação. Depois da Ascensão do Senhor aos Céus essa presença real e especialíssima de Deus, no meio dos homens, continua no sacramento da Eucaristia.
Como todo ato de renovação e purificação é uma gesto de entrega, não se faz isso sem sacrifícios e dor.  Não é possível seguir o Senhor sem a Cruz. Carregar a cruz, aceitar a dor e as contrariedades que Deus permite para a nossa purificação, cumprir com esforço os deveres próprios, assumir voluntariamente a mortificação cristã é condição indispensável para seguir o Mestre. “Que seria de um Evangelho, de um cristianismo sem Cruz, sem dor, sem o sacrifício da dor?, perguntava-se o Papa Paulo VI. Seria um Evangelho, um cristianismo sem Redenção, sem Salvação, da qual temos necessidade absoluta. O Senhor salvou-nos por meio da Cruz; com sua morte, devolveu-nos a esperança, por meio da Cruz; com sua morte devolveu-nos a esperança o direito à Vida”. Diz São Leão Magno que seria um cristianismo desvirtuado que não serviria para alcançar o Céu, pois “o mundo não pode salvar-se senão por meio da Cruz de Cristo.”




Homilia do XVIII Domingo do Tempo Comum (Ano C)

Homilia do XVIII Domingo do Tempo Comum (Ano C) Um homem vem a Jesus pedindo que diga ao irmão que reparta consigo a herança. Depois ...