segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

A relevância do VII capítulo da Lumen Gentium.

A relevância do VII capítulo da Lumen Gentium.


1.1 O itinerário da inclusão da Escatologia na Lumen gentium

O debate concilar sobre o VII capítulo deu-se no dia 11 de julho de 1964.
Ainda na segunda seção conciliar o tema da escatologia não havia entrado em pauta. O esquema da Lumen gentium até aquela seção conciliar constava de 81 páginas e onze capítulos, os quais nada falavam sobre a índole escatológica da Igreja. O primeiro esquema constava destes capítulos: De Ecclesiaemilitantis natura; De membrisEcclesiaemilitatiseiusdemquenecessitate ad salutem; De episcopatu ut supremo gradusacramentiOrdiniset de sacerdotio; De episcopisresidentialibus, De statibusevangelicaeacquirendaeperfectionis; De laicis; De Ecclesiaemagisterio; De auctoritate et oboedientia in Ecclesiam; De relationibusinterEcclesiae et Statum; De necessitateEcclesiaeannuntiandiEvangeliumomnibusgentibus et ubiqueterrarum; De oecumenismo[1]. Em todos eles não se encontram referencias explícitas sobre a escatologia da Igreja.
Esse primeiro esquema foi louvado por alguns e violentamente criticado por outros: “apresentava, diziam, uma Igreja excessivamente jurídica, institucional, externa, clerical e triunfalista, sem acentuar bastante o mistério da vida divina, do dinamismo sobrenatural e da união com Cristo”[2]. O texto foi acusado de ser bastante bíblico, cristocêntrico, pastoral, maternal, pouco missionário, e nada aberto às outras formas de vida e cultura. Também se dizia que era um texto pouco ecumênico e que não estava adaptado com a mentalidade moderna. Em resumo faltava o espírito da caridade cristã.[3]
Um novo esquema foi redigido entre a segunda e a terceira seção, no chamado período internacional. A modificação ocorreu na divisão e ordem dos capítulos. Assim os onze capítulos do esquema anterior deram lugar a oito, que se apresentam assim: 1. O mistério da Igreja; 2. O povo de Deus; 3. A constituição hierárquica da igreja; 4. Os leigos; 5. A vocação universal à santidade na Igreja; 6. Os religiosos; 7. A índole escatológica de nossa vocação e nossa íntima união com a Igreja celeste; 8. A Bem-aventurada Virgem Maria Mãe de Deus no mistério de Cristo e da Igreja. Este último esquema agradou a maioria, pois abrangia uma reflexão profunda sobre toda realidade da Igreja em suas estruturas internas. 
Mas o que levou, então, os padres conciliares a tomar uma posição diferente daquela contida na primeira estrutura da Lumen gentium? Há teólogos comentadores do Concílio (Candido Pozo, Boaventura Kloppenburg, entre outros), que defendem a introdução deste novo esquema a uma vontade expressa do Papa João XXIII, que foi bem defendida por seu sucessor, de que a Igreja deveria abrir-se ao mundo.
Já a inclusão do VII capítulo, foi um pedido expresso de João XXIII, que confiara ao Cardeal Larraona[4], auxiliado por uma comissão especial, o encargo de elaborar umtexto em que apontasse uma íntima relação entre a Igreja peregrina e o culto dos santos, como também a oração aos fiéis defuntos.
A morte de João XIII em 1962, não pôs fim a esse ideal. O Papa Paulo VI, que foi uma figura singular no desenvolvimento do Concílio, não excitou em aprovar prontamente a decisão, de seu predecessor e, por conseguinte, o texto da comissão.  Aasim durante a seção plenária de março de 1964 foi instituída uma subcomissão encarregada de rever o texto e enquadrá-lo no contexto e estilo da De Ecclesia.
O texto da subcomissão foi apresentado com quatro parágrafos para ser discutido na terceira seção do Concílio em 1964. O primeiro apresentava a índole escatológica da nossa vocação na Igreja: nele se exprimia a tendência da nossa vocação escatógica que começa aqui e culmina no céu. Já o segundo expressava a comunhão entre a Igreja celeste e a Igreja peregrinante: nele o texto salientava que a nossa morte não rompe a unidade entre as realidades eclesiais (Igreja peregrina e a Igreja celeste). O terceiro traz a relação da Igreja peregrina em união com os Santos: neste ponto a reflexão valoriza muito a intercessão poderosa dos santos e a oração pelos mortos. O quarto e último falava de algumas disposições pastorais: neste contexto o esquema aponta alguns perigos e exageros que seguem o culto aos santos.
O mencionado texto apresentado pela comissão para discussão na aula conciliarproduziu muito debate. O cardeal Ernesto Ruffini, Arceb. de Palermo, na Itália classificou o texto de piedosíssimo no tocante a exposição da doutrina sobre os novíssimos e disse que nele se omite, quase completamente, uma posição sobre o inferno[5].
O cardeal IgneceZiade, Acerb. Maronita de Beirut, no Líbano, faz uma intervenção valiosa ao colocar a necessidade de uma maior presença pneumatológica na Lumen gentium. Ele alega que não é possível falar de índole escatológica da nossa vocação sem referência a missão do Espírito Santo. Elesalientou que para os Orientais um capítulo de escatologia sem uma clara missão do Espírito é igual a uma liturgia sem epíclese ou anáforas, na qual se apresentaria a missão do Filho, tocaria um pouco no papel do Pai, mas  nada se falaria do Espírito Santo. Esse capítulo sem um autêntico aceno ao papel Espírito não poderia ser aceito pelas Igrejas Orientais[6].
Também é salutar a intervenção do bispo alfredAncel, auxiliar de Lião, na França, ao salientar que a índole escatológica de nossa vocação deve manifestar-se na nossa vida cotidiana, em todas as nossas obras, principalmente de duas maneiras: por meio das virtudes teologais: fé, esperança e caridade, que nos impinge a agir, buscando os valores eternos; depois por meio da consciência de que a índole escatológica de nossa existência faz-nos trabalhar sem nos tornarmos escravos das estruturas e ocupações.    
Após o fim de todos os debates e mais de 17 intervenções encerraram-se as reflexões acerca do VII capítulo da Lumen gentium que foi aprovado por quase todos os 2.204 padres conciliares presentes na octogésima primeira congregação geral do Concílio em 16 de setembro de 1964. 

1.2 POR QUE UM CAPÍTULO DE ESCATOLOGIA NA CONSTITUIÇÃO SOBRE A IGREJA.


Como ponto de partida, queremos salientar, no início desta pesquisa, a importância que teve a inclusão do tema sobre a escatologia para toda a Constituição Dogmática Lumen gentium. Não é nosso interesse tratar aqui da penetração do VII capítulo em toda Constituição, mas poderia deixar de registrar a relevância que teve a escatologia em todo o documento sobre a Igreja.  A escatologia, como veremos ao longo deste trabalho, não é apêndice ou uma reflexão justaposta dentro do horizonte conciliar, ela representa parte de um projeto maior que tem como finalidade unir, numa mesma reflexão, a Igreja como mistério e sacramento da Salvação com a realidade concreta da vida dos fiéis. A finalidade é demonstrar que a Igreja visível nas suas estruturas é sinal e instrumento que apontam à vida nova da comunidade cristã.
É importante salientar, neste itinerário histórico, que o VII Capítulo, sobre a índole escatológica da Igreja, não estava presente no primeiro esquema da De Ecclesia, apresentado pela comissão preparatória. A inclusão foi fruto de um amadurecimento do horizonte teológico conciliar. O teólogo RiundorIgnacio, assim como Boaventura Kloppenburg defendem a tese de que ainclusão do capítulo escatolágico, na Carta Magna De Ecclesia condiz com avontade do Papa João XXIII, que desejava que na reflexão sobre a Igreja se fizesse referências a temas como: o Culto dos Santos e a comunhão da Igreja peregrina com a Igreja celeste[7].
Assim a inserção do caráter escatológico da Igreja aponta parauma tomada de consciência dos Bispos em perceberem na natureza e na missão da Igreja uma tensão escatológica. Tal índole escatológica projeta a Igreja na história humana como instrumento de salvação; como sinal sacramental e visível da presença da graça na história atual. Por causa disso os bispos decidiram criar um capítulo inteiro sobre escatologia e colocá-lo dentro do esquema De Ecclesia.
Todavia, não foi fácil essa inclusão. A primeira discussão acerca do VII capítulo se deu em meio a esclarecimentos e propostas dos bispos presentes, na III seção ordinária de 1964,  onde se discutiu, entre outros, os detalhes sobre a conclusão da De Ecclesia. Para entendermos melhor isso, cabe-nos voltar um pouco para recordar a valiosa contribuição do Cardeal Suenens[8] na Congregação geral n°33 de 4 de dezembro de 1962. Seu pronunciamento marcou muito o itinerário do Concílio.Ele buscava organizar um plano harmônico (RatioipsiusConcilii) para todo o Concílio. Seu projeto consistia em apresentar a Igreja como luz das nações (ecclesiaLumen gentium), dividindo o tema sobre a Igreja em dupla vertente: como Igreja ad intrae como Igreja ad extra[9].
Segundo o esquema do Cardeal Suenens, a Igreja,ad intra, abordaria temas como: a natureza da Igreja, seuofício ou missão. A Igreja,ad extra, seria explicada em tríplece diálogo: com os fiéis, com irmãos separados e com o mundo moderno.  Essa proposta agradou muito a todos os bispos, chegando a influenciar diretamente a formulação das duas principais constituições: aLumen gentium e a GaudiumetSpes[10].
No esquema do Cardeal, que agradou muito aos Padres, a escatologia ainda não sefazia presente, mas, como veremos mais adiante, já aparecem elementos que tornam necessária uma abordagem escatológica na Lumen gentium, como  parte essencial da Constituição.
A própria localização do VII capítulo entre a vocação universal a santidade, a vida religiosa e a santíssima Virgem Maria, demonstram a centralidade da escatologia em todo o esquema da Constituição.
A proposito da importância do VII capítulo na estrutura da Lumen Gentium é relevante lembrar a contribuição do Cardeal Giovanni Urbani, patriarca de Veneza, na Itália, que afirma satisfação para com o texto apresentado, sobretudo por perceber nele um caráter eminentemente cristológico e eclesiológico, tão relevante à estruturação de todo o horizonte conciliar[11].
Desta forma fica evidente que com a incisão do tema escatológico na Lumengentiumos padres conciliares propõem uma visão escatológicaaberta ao mistério, unida a um contexto sacramental, sem distanciá-la e isolá-la do mundo real, como acontecia anteriormente nos tratados de escatologia. A escatologia dentro da eclesiologia não somente revitalizou a Igreja como faz justiça à sua missão e natureza escatológica. A escatologia unida à eclesiologia torna mais consciente a íntima união que se processa pelo batismo em cada fiel com Cristo.

1.3 A escatologia do VII capítulo: superação do esquema juridicista e apologética da Igreja.

Desde início do Concílio muitos temiam que ele se tornasse uma espécie de “Sínodo Romano”. Que valorizasse os velhos esquemas apologéticos pós-trento: ou seja, de defesa da fé e aplicação de anátema. Como podemos confirmar nos relatos de Boabentura Kloppenburg, o primeiro esquema apresentado da Lumen gentium, privilegiava tal posição[12]. Algum, como o bispo de Borogan, nas Filipinas, Vicente Reyes, defendia a ideia da Igreja triunfante e eram defensores do esquema juridicista da Igreja. 
Todavia, a maioria dos bispos tinha consciência de que os anátemas de Trento já não respondiam as inquietações da modernidade. Não adiantava falar em tom puramente apologético e autoritário. A mentalidadesociocultural exigia uma nova postura eclesial. Graças a Deus a mentalidade foi pouca a pouco clarificando e abrindo-se para aquilo que haveria de ser o Concílio Vaticano II: uma experiência de abertura a ação do Espirito Santo em unidade com a fé da Igreja, em diálogo com o mundo moderno.
Um fator muito positivo do Concílio foi o legado de ter superado uma mentalidade que se poderia chamar de antirreformista, identificada com a Igrejahierárquica, onde os leigos eram visto apenas como súditos obedientes. Isso pode ser constatado no item a seguir, onde exporemos os dois esquemas De Ecclesia, o primeiro com seus onze capítulos enquadra-se muito bem neste esquema de Igreja hierarquicamente perfeita e o final que foi aprovado na terceira seção, que se alinha com o pensamento de abertura e renovação muito presente, na maioria dos bispos.
A superação do esquema juridicista e apologético da Igreja devem-se muito ao desejo explícito de João XXIII, que sonhava em trazer a comunidade cristã para dentro dos problemas do mundo moderno, a fim de que a mensagem cristã encontrasse eco no coração humano. Neste sentido o esquema final trouxe mobilidade e novidade para toda reflexão eclesial. E a inclusão do VII capítulo responde a uma exigência de abertura e profundidade da reflexão eclesial num contexto nova: a escatologia presente no corpo da Lumen gentium, marca uma nova mentalidade da discussão teológica dentro do Concílio, posteriormente em todas as camadas teológica, visto que agora a Igreja é apresentada num contexto esperança que se lança para o fim, sem desvincular-se do real. Nisto se afirma o já e o ainda não da nossa vocação.     




[1]KLOPPENBURG, Frei Boaventura, OFM, Concílio Vaticano II, Vol. II Primeira sessão conciliar, Vozes, Petrópolis, 1972, p.234
[2]KLOPPENBURG, Frei Boaventura, op. Citp.p24
[3] Ibidem.
[4]Cf. Congregatio Generalis, 80, Schema Constitutionis de Ecclesia C7, relatio Gerenalis: ActsynConcVatSec Vol III, periodus tertio, pars I, p. 351; cf. POZO, Candido. Teologia del mas Allá, (Biblioteca de autores cristianos), Madrid Ed. Catolica, 1968, p. 544-545
[5] Cf. KLOPPENBURG, Frei Boaventura, OFM, Concílio Vaticano II, Vol. IV Terceira sessão conciliar, Vozes, Petrópolis, 1972, pp. 11-14.
[6] Ibidem
[7] Cf. RiudorIgnacio, S.I. IN Vaticano II: Documentos, enciclopédia conciliar, historia douctrina, Editorial Regina, 1971, 108-113; Cf. KLOPPENBURG, Frei Boaventura, OFM, Concílio Vaticano II, Vol. IV Terceira sessão conciliar, Vozes, Petrópolis, 1972, pp. 11-14.

[8] Cardeal Suenens é teólogo e Arcebispo de Malanes,na Belgica, defenso, como outros bispos, de uma Igreja mais aberta, sem, no entanto, perder asua razão última. A defesa de seu esquema da Igreja ad intra e ad extratruxe muita contribuição ao longo do Concílio. O chamado esquema treze, ou seja, a Gaudiumetspes é uma resposta a isso. Cf. KLOPPENBURG, Frei Boaventura, OFM, Concílio Vaticano II, Vol. IV Terceira sessão conciliar, Vozes, Petrópolis, 1972, pp. 11-17; PHILIPS, Mons., A Igreja e seu mistério no Concílio Vaticano II, Tomo I, Herder, São Paulo, 1968, pp. 50-70
[9] Cf. KLOPPENBURG, Frei Boaventura, OFM, Concílio Vaticano II, Vol. IV Terceira sessão conciliar, Vozes, Petrópolis, 1972, pp. 11-17
[10] Cf. KLOPPENBURG, Frei Boaventura, OFM, Concílio Vaticano II, Vol. IIPrimeira sessão conciliar, Vozes, Petrópolis, 1972, p.243
[11]Cf. KLOPPENBURG, Frei Boaventura, OFM, Concílio Vaticano II, Vol. IV Terceira sessão conciliar, Vozes, Petrópolis, 1972, p. 15
[12] Cf. KLOPPENBURG, Frei Boaventura, OFM, Concílio Vaticano II, Vol. IIPrimeira sessão conciliar, Vozes, Petrópolis, 1972, p.243

[13] Cf. KLOPPENBURG, Frei Boaventura, OFM, A Natureza e Missão da Igreja, In REB, Vol XXIX, Fasc. 4, Vozes, Petrópolis, 1969, pp. 801-802
[14] KÜNG, H., La Eglesia, Herder, Barcelona, 1968, p. 101
[15]Cf. SCHOONENBERG, P. Creio na Vida Eterna, in CONCILIUM: Revista Internacional de Teologia, n° 1 Dogma, jan./1969, pp. 86-94
[16] Cf. MEDARD, K.,A Igreja: Uma Eclesiologia Católica, Loyola, São Paulo, 1997, p.86
[17] Cf. KÜNG, H., La Eglesia, Herder, op. Cit 108-110


Homilia do VI Domingo do Tempo Comum – Ano B

Homilia do VI Domingo do Tempo Comum – Ano B

Jesus Cristo médico da Alma

O Evangelho (Mc 1, 40-45) narra a cena de um leproso que, ao encontrar-se com Jesus, ficou curado.
A Lei de Moisés prescrevia o seguinte: “O leproso deve ficar isolado e morar fora do acampamento” (Lv 13, 46). Um preceito duro que só se explica pela preocupação de evitar o contágio e pela idéia corrente entre os hebreus de que era um castigo de Deus aos pecadores. Conseqüentemente, o leproso era um foragido da comunidade e tido como “impuro”, ferido e amaldiçoado por Deus.
É impressionante a cena: um leproso, contrariando a Lei, aproxima-se de Jesus… e de joelhos implora: “Se queres, tens o pode de curar-me…”
Jesus “se compadece”, estende a mão e toca-o… e restitui-lhe a saúde: “Eu quero, fica curado…”.
Que fé maravilhosa! Aquele homem de Deus, abandonado pelos homens e tido como rejeitado por Deus, tem mais fé do que muitos seguidores de Cristo. A fé autêntica não se perde em raciocínios sutis; tem uma lógica muito simples: Deus pode fazer tudo; basta, pois, que o queira fazer. Ao pedido, que manifesta uma confiança ilimitada, Jesus responde com um gesto inaudito para um povo, a quem fora proibido qualquer contato com os leprosos: “estendeu a mão, tocou-o”. Deus é o Senhor da Lei e, por isso, pode infringi-la.
A cena do leproso que vai ao encontro de Jesus é tão marcante que a encontramos narrada em três Evangelistas que contam o episódio e transmitem-nos o gesto surpreendente do Senhor: “Estendeu a mão e o tocou”. Até àquele momento, todos os homens haviam fugido dele com medo e repugnância. Cristo, porém, que podia tê-lo curado à distância – como já o fizera em outras ocasiões -, não só não se afasta dele, como chega a tocar a sua lepra. Não é difícil imaginar a ternura de Cristo e a gratidão do doente quando viu o gesto do Senhor e ouviu as suas palavras: “Quero, sê limpo.”
Ensina-nos Santo Agostinho a confiar em Deus: "acaso não te curará aquele que te criou em tal condição que nunca terias adoecido se quisesses cumprir suas ordens? acaso não te curaria aquele que criou os anjos e que, depois de refazer-te, te igualasse a eles? Aquele que criou os céus e a terra não curaria aquele q  ue fez a sua imagem e semelhança? Ele te curará; só falta que te deixes curar. Não procures remédios fãs quando tens o verdadeiro remédio: Cristo. buscar a saúde e tê-Lo sempre aos olhos e buscá-Lo de todo coração. Oh Alma Cristã, levanta-te e olha o que vales, se reconcilia com teu Redentor.    
O Senhor sempre deseja curar-nos das nossas fraquezas e dos nossos pecados. E não temos necessidade de esperar meses nem mesmo dias para que passe perto da nossa cidade… No Sacrário mais próximo, na intimidade da alma em graça, no Sacramento da Penitência (Confissão), encontramos o mesmo Jesus de Nazaré que curou o leproso. Ele “é Médico, e cura o nosso egoísmo se deixarmos que a sua graça nos penetre até o fundo da alma. Jesus advertiu-nos que a pior doença é a hipocrisia, o orgulho que leva a dissimular os pecados próprios. Com o Médico, é imprescindível que tenhamos uma sinceridade absoluta, que lhe expliquemos toda a verdade e digamos: Senhor, se quiseres, – e Tu queres sempre -, podes curar-me. Tu conheces a minha debilidade; sinto estes sintomas e experimento estas outras fraquezas. E descobrimos com simplicidade as chagas; e o pus, se houver pus; todas as misérias da nossa vida” (São Josemaría Escrivá, É Cristo que Passa, nº 93).
Os Santos Padres viram na lepra a imagem do pecado. Porém, o pecado é incomparavelmente pior do que a lepra. Dizia o Cura d’Ars: “Se tivéssemos fé e víssemos uma alma em estado de pecado mortal, morreríamos de terror”. No entanto, uma realidade não podemos esquecer: Jesus é o único que nos pode curar. Só Ele!
O que Ele nos diz é que veio perdoar, redimir, veio livrar-nos dessa lepra da alma que é o pecado. E proclama o seu perdão como um sinal de onipotência, como sinal de um poder que só o próprio Deus pode exercer. Cada uma das nossas confissões é expressão do poder e da misericórdia de Deus. É o próprio Jesus quem, no Sacramento da Penitência, pronuncia a palavra autorizada e paterna: “Os teus pecados te são perdoados”.
Temos que aprender do leproso: Com toda a sua sinceridade, coloca-se diante do Senhor e, de joelhos, reconhece a sua doença e pede para ser curado.
Esta deve ser a nossa atitude no que diz respeito ao Sacramento da Confissão. Pois nela também nós ficamos livres das nossas enfermidades, por maiores que possam ser. E não só ficamos limpos do pecado, como adquirimos uma nova juventude, uma renovação da vida de Cristo em nós. Ficamos unidos ao Senhor de uma maneira diferente e particular!
O Caminho do leproso deve ser o caminho de todo discípulo: Vir a Jesus, aceitar a própria limitação humana; experimentar a misericórdia e o poder libertador do Senhor; e finalmente tonar-se testemunha das grandes obras de Deus.

Pe. Fantico Nonato Silva Borges, CM



OS MANDAMENTOS DA IGREJA CATÓLICA

OS MANDAMENTOS DA IGREJA CATÓLICA
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"Que alegria quando me disseram: vamos à Casa do Senhor! Por amor da Casa do Senhor, nosso Deus, pedirei para ti a felicidade!" (Salmos 121, 1.9)
1.     Os Mandamentos da Igreja são cinco (5) "Preceitos" ordenados pela Igreja Católica criada por Jesus Cristo, que tem como objetivo, instruir e admoestar os fiéis cristãos sobre os seus deveres para com a Igreja, relacionados ao plano espiritual e material (Missa, Confissão, Comunhão, Jejum e Dízimos).
2.     O termo "Igreja" pode ser entendido no sentido de "assembléia dos fiéis"; como o Corpo Místico de Cristo, onde Cristo é a Cabeça do Corpo; e ainda, como o Templo do Espírito Santo; é também a casa de Deus erguida em honra a Deus, onde os Pastores (Bispos, Sacerdotes/Padres) e Fiéis cristãos se reúnem em assembléia e em comunidade para prestar culto a Deus, adorá-Lo, louvá-Lo e glorificá-Lo; fazer suas orações e preces; assim como, para fazer suas ofertas e oferendas a Deus.
3.     A Casa do Senhor é a "morada de Deus" aqui na terra, do Deus-Conosco - o Emanuel, pois Ele se encontra presente no Tabernáculo (Sacrário) dia e noite em Corpo, Sangue, Alma e Divindade oferecendo-Se como fonte de vida divina e de salvação para toda a humanidade.
4.     A Igreja Católica Apostólica Romana é assim intitulada porque:
o    IGREJA - é o Povo de Deus, que é o Corpo Místico de Cristo, sendo Cristo a Cabeça do Corpo.
o    CATÓLICA - sua área de atuação é universal, seguindo a mesma Doutrina de Jesus Cristo, Princípios e Normas em todo o mundo.
o    APOSTÓLICA - foi fundada e organizada na "tradição e ensino" dos Apóstolos seguidores de Cristo.
o    ROMANA - sua Sede é em Roma (Itália), onde São Pedro foi martirizado e sepultado, ao qual, Jesus outorgou as "Chaves dos Céus", ou seja, o Poder e a Autoridade de Cristo. "Disse Jesus: 'Tu és Pedro (pedra), e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus'" (Mateus 16,18-19).
5.     A Igreja de Jesus Cristo teve sua origem e início de atuação no mundo com a "Vinda do Espírito Santo" no dia de Pentecostes no Cenáculo de Jerusalém, estando presentes reunidos em oração, os Apóstolos, Maria - Mãe de Jesus e da Igreja - e os Discípulos de Jesus. Nessa ocasião, o Espírito Santo se manifesta através de "labaredas de fogo" sobre a cabeça de cada um deles, transmitindo-lhes a força propulsora para saírem em ação por todo o mundo testemunhando e anunciando Jesus Cristo a todas as nações, povos, culturas e indivíduos, na "linguagem própria" do Espírito Santo. (Atos dos Apóstolos 2,1-4). "O Espírito Santo tem a tarefa de levar a Igreja ao seu maior esplendor, para que assim se torne toda bela, sem mancha e sem ruga, à imitação de vossa Mãe Celeste, e possa difundir a Luz de Cristo para todas as nações da terra" (MSM, 3.6.90).
6.     MARIA: Mãe da Igreja, predestinada como a Filha Predileta do Pai Celeste, assumiu por desígnio e privilégio de Deus, a condição da "Nova Eva" isenta de qualquer mancha do pecado, até mesmo da "culpa original", tornando-se por meio de Jesus Cristo - o "Novo Adão", a "Mãe Espiritual" de toda a humanidade. "Não se pode falar de Igreja sem que esteja presente Maria" - disse o Papa Paulo VI. A Igreja que tem Maria é Igreja de Jesus porque Ela acompanhou o nascimento da Igreja e o seu crescimento, com aquela solicitude que demonstrou nas bodas de Caná da Galiléia: "Fazei aquilo que Ele (Cristo) vos disser", e agora, na Glória do Céu, Maria Santíssima se interessa pela nossa salvação.
7.     A Igreja é depositária e transmissora do Evangelho do Reino, cuja missão é anunciar e construir o Reino de Deus pela força e ação silenciosa e fecunda do Espírito Santo nas Comunidades cristãs espalhadas pelo mundo inteiro. Através da Sua Igreja, Jesus Cristo apresenta aos homens (o gênero humano) todos os meios necessários para a sua salvação: os Sacramentos, a Palavra de Deus, os Mandamentos, a Lei do Amor.
8.     O Sacerdote ou Padre, que foi ungido e consagrado ao Serviço de Deus para a salvação dos homens, destaca-se como o Homem de Deus e do Povo no contexto da missão salvífica da Igreja, pelo seu bom exemplo, dedicação, amor e zelo nas atividades das Comunidades cristãs locais, sendo portanto "sinal" e "presença" de Cristo na Igreja. É ele quem celebra a Eucaristia (Santa Missa), realiza as Celebrações Litúrgicas da Igreja, ministra os Sacramentos, prega a Palavra de Deus, perdoa os pecados, orienta e coordena os colaboradores na "obra" da Igreja; e assume o lugar de Cristo em oferecimento de vítima expiatória, intercedendo pela remissão dos pecadores. "Tu és sacerdote eternamente, segundo a ordem de Melquisedeque"(Hebreus 7,17).
9.     Os Pastores da Igreja (Bispos e Sacerdotes), como são os continuadores da obra redentora e salvífica de Jesus Cristo, necessitam do apoio e cooperação de todo o Povo de Deus reunido em torno de um mesmo Altar, destacando-se também como provedores dos bens espirituais e materiaisdas das Comunidades cristãs mais pobres, carentes, isoladas, problemáticas ou distantes dos grandes centros urbanos. Contando portanto, com a ajuda pessoal e material de cada fiel cristão, o Homem de Deus e do Povo se engaja também na luta pela minimização ou solução dos problemas físicos e sociais dos mais necessitados e desprovidos dos bens materiais necessários à sua subsistência e sobrevivência. "Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia" (Mateus 5,7).
OS CINCO PRECEITOS IMPORTANTES DA IGREJA
  • 1º Mandamento: Participar da Santa Missa nos Domingos e Dias Santos.
A participação na Santa Missa do "Dia do Senhor" ou dos Dias-Santos de Guarda é um dever obrigatório para todo cristão batizado, porque Jesus Cristo ressuscitou no primeiro dia da semana, que é o Domingo. "Por que buscais entre os mortos Aquele que está vivo? Não está aqui, mas ressuscitou. Lembrai-vos de como Ele vos disse, quando ainda estava na Galiléia" (Lucas 24,5-6), disseram dois Anjos de vestes resplandescentes às santas discípulas que foram ver o Corpo de Jesus no sepulcro. A Santa Missa é o Santo Sacrifício de Cristo que foi consumado no Calvário, sendo renovado e celebrado do nascer ao pôr-do-sol em todo o mundo pela salvação da humanidade. Faltar à Missa aos Domingos e Dias santos sem nenhum motivo que impeça de assisti-la ou de ir até o Templo do Senhor é considerada falta grave pela Igreja, ficando portanto, o fiel cristão impedido de receber a Comunhão ou Eucaristia. Os Dias santos de Guarda são quatro:
    • 1º de Janeiro - Festa da Santa Mãe de Deus;
    • Festa do Corpo e Sangue de Jesus - Corpus Cristi (a data varia, de acordo com o Calendário Litúrgico da Igreja);
    • 8 de Dezembro - Festa da Imaculada Conceição de Maria;
    • 25 de Dezembro - Festa do Natal em que se celebra o Nascimento de Jesus Cristo na pobre gruta de Belém, ou seja, da vinda do Salvador ao mundo.
    • Inclui-se a essa lista as festas e solenidades  dos santos Apóstolos; e todas as festas do Senhor: Coração de Jesus, semana Santa, Batismo do Senhor, entre outras.  
  • 2º Mandamento: Confessar-se ao menos uma vez cada ano.
O segundo mandamento prescreve que o cristão batizado deve confessar-se ao menos uma vez por ano; mas como o gênero humano tem uma natureza, digamos, corrupta devido a herança do pecado original cometido pelos primeiros pais (Adão e Eva) no início da Criação, o espírito necessita de uma "limpeza espiritual" constante para não acumular muitas faltas ou pecados graves (mortais) que comprometem a salvação da alma. E é através do Sacramento da Reconciliação ou Confissão Sacramental que a Igreja de Cristo proporciona ao homem a reconciliação com Deus e com os irmãos, libertando dos males espirituais com o perdão dos pecados. "Se vossos pecados forem escarlates, tornar-se-ão brancos como a neve! Se forem vermelhos como a púrpura, ficarão brancos como a lã!" (Isaías 1, 18).
Ao falar pelo menos uma vez no ano quer dizer que é necessário sempre que se peque gravemente ou apenas levemente ao menos uma vez no ano. Quem falta a confissão estando em pecado não pode receber frutuosamente os santos sacramentos. Então, quando eu devo confessar? sempre que minha consciência me acusar.
  • 3º Mandamento: Comungar ao menos pela Páscoa.
Comungar ao menos pela Páscoa ou "fazer a Páscoa" como prescreve a Igreja, é cumprir um dever muito antigo que já fazia o Povo de Deus do Antigo Testamento. Celebrar a Páscoa recebendo a Comunhão ou Eucaristia significa o encontro e comunhão com Jesus Cristo que liberta de todo o mal, ou seja, é celebrar a libertação ou "passagem" de uma vida de escravidão no pecado para uma vida nova com Cristo.
Para fazer a páscoa é necessário uma confissão auricular. Por isso, é sempre bom ter uma confissão na páscoa e outra no natal. Quem está em estado de pecado mortal, faça um exame de consciência e, se possível, procure um confessor. Em casos de falta de contrição o pecado fica retido até o penitente adquirir a reta contrição; quem assim procede não pode fazer a páscoa plenamente.
  • 4º Mandamento: Jejuar e não comer carne quando manda a Santa Igreja.
A Santa Igreja prescreve no quarto mandamento que a Quarta-feira de Cinzas e a Sexta-feira da Paixão são dias de se fazer jejum do corpo ou de alimentos com abstinência de carnes nestes dias, em respeito à Morte de Jesus Cristo na Cruz e como meios de penitenciar o corpo e o espírito, a fim de que os "canais da graça" sejam liberados da mancha dos pecados do egoísmo e do orgulho.
Quem está obrigado a essa mandamentos são as pessoas em idade acima de  quatorze anos e abaixo de sessenta. Mas não se excluem que esta fora desta faixa e desejar jejuar.
  • 5º Mandamento: Pagar Dízimos, conforme o costume.
O quinto mandamento da Igreja prescreve e adverte que os fiéis cristãos batizados em Cristo também são responsáveis e provedores da construção do Reino de Deus aqui na terra, providenciando os meios materiais com as ofertas e dízimos, a fim de prover o sustento das estruturas da evangelização do Reino. É papel do dízimo manter, construir ou conservar o Templo erguido em honra a Deus; promover a caridade e assistência aos mais pobres; assim como, auxiliar a Instituição Religiosa através dos Seminários, na formação dos Sacerdotes para prestarem serviço a Deus e ao Seu Povo. "A messe é grande, mas os operários são poucos. Pedi, pois, ao Senhor da messe que envie operários para sua messe" (Mateus 9, 37-38).

"Conforme o costume": a Igreja, de certo modo, não estabelece uma quantia "exata" do que se deve pagar nas ofertas dos dízimos, mas deve ser cumprido com uma certa constância e freqüência, de preferência, mensalmente, se o nosso trabalho é remunerado mês a mês, de conformidade com os valores ou quantias recebidas individualmente de cada salário, economia ou produção, cumprindo o Preceito da Igreja com um certo grau de generosidade, bondade, alegria, espontaneidade (sem constrangimentos) e discrição, uma vez que o "Divino Mestre" disse que se deve fazer as boas obras em segredo, esperando a recompensa e o louvor somente de Deus, porque Ele é poderoso e fiel para cumular-nos de todas as bênçãos de que necessitamos. "Cumpri vossa tarefa antes que o tempo passe e, no devido tempo, Ele vos dará a recompensa" (Eclo 51, 38).

Pe. Fantico Nonato Silva Borges, CM 

sexta-feira, 9 de maio de 2014

As Virtudes Teológicas

As Virtudes

 Virtude é uma disposição habitual e firme para fazer o bem. (CIC)


Como afirma a Igreja, toda pessoa virtuosa vive segundo sua força sensível e espiritual na busca de praticar o bem, porque é praticando as obras boas que iremos nos assemelhar-nos a Deus. Pois assim declara a Escritura: “Deus disse: façamos o homem à nossa imagem, como nossa semelhança...”[1] Esse assemelhar-se é como dizia São Gregório de Nissa: “o objetivo da vida virtuosa” (ver CIC : 1803).  Todo virtuoso segundo os moldes filosóficos aristotélico busca o bem e foge dos vícios.[2]
As virtudes podem ser divididas em dois blocos: as virtudes humanas e as virtudes teologais. As humanas são também chamadas de virtudes cardeais. Para melhor compreensão da exposição falaremos de cada uma e suas características.
As virtudes humanas são, na verdade, atitudes firmes, disposições estáveis, perfeições habituais da inteligência e da vontade que regulam nossos atos.[3] Segundo os ensinamentos da Igreja, uma pessoa é virtuosa quando consegue praticar livremente o bem. Podemos, seguindo esse axioma, afirma que pessoa virtuosa é aquela que diante das opções entre o bem e mal, escolhe livremente aderir àquilo no qual resplandece o Belo, o Bem, o Perfeito.
As virtudes humanas morais são adquiridas humanamente. Elas constituem os frutos de atos moralmente bons. Elas ajudam o homem a comungar do amor divino. Quem é virtuoso age segundo o amor e a força de Deus.
As virtudes cardeais são quatro: a Prudência, a Justiça, a Fortaleza e a Temperança. Todas as outras virtudes humanas se agrupam em torno delas. A prudência, segundo o Catecismo da Igreja Católica, “é a virtude que dispõe a razão prática a discernir em qualquer circunstância nosso verdadeiro bem e a escolher os meios adequados a realizá-lo.”[4]  Escrevia Santo Tomás de Aquino que a prudência é  a regra certa da ação (cf  S. Th. IN CIC, 1806). É ela quem guia o juízo da consciência. A pessoa prudente age, move-se e orienta-se segundo esse juízo consciente.
A justiça “é a virtude moral que consiste na vontade constante e firme de dar a Deus e ao próximo o que lhes é devido.”[5] Essa  justiça para com Deus se chamará de virtude da religião. Para com os homens caracterizar-se-á pelo respeito para com o direito de cada um e a busca de estabelecer relações harmoniosas e fraternas na vivência do bem comum.
A fortaleza “é a virtude moral que dá segurança nas dificuldades, firmeza e Constância na procura do bem.”[6]  A fortaleza ajuda a vencer o medo e a suportar as provações. “No mundo tereis tribulações, mas tende coragem: eu venci o mundo.”[7] A fortaleza é a virtude de quem é justo, pois o justo para defender a justiça precisa ter fortaleza de espírito.
A temperança “é a virtude moral que modera a atração pelos prazeres e procura o equilíbrio no uso dos bens criados.”[8] A virtude da temperança serve como balança de nossa ação, uma ver que, assegura o domínio da vontade sobre os instintos e mantém os desejos dentro dos limites da honestidade. Em outras palavras podemos indagar a virtude da temperança como sendo aquilo que Aristóteles chamou de a “essência da virtude”, isto é, o equilíbrio.[9] A pessoa temperante é acima de tudo uma pessoa equilibrada que sabe orientar bem os seus apetites e vícios.
Essas virtudes humanas que elencamos são adquirida pela educação ou hábito, por meio de atos e práticas constante, mas, que por sua vez são purificados e elevados pela graça divina que atua em nós através do Espírito do Senhor.
As outras categorias de virtudes são denominadas de teologais. São elas: a Fé, a Esperança e a Caridade. As virtudes humanas fundam-se nas teologais, que adaptam as faculdades do homem para participar da natureza divina, uma ver que, as virtudes teologais remetem ao próprio Deus. Segundo o CIC, “as virtudes teologais fundamentam, animam e caracterizam o agir moral do cristão. Informam e vivificam todas as virtudes morais. São infundidas por Deus na alma dos fiéis para serem capazes de agir como seus filhos e merecer a vida eterna. ”[10]  
A fé “é a virtude teologal pela qual cremos em Deus e em tudo que nos disse e revelou, e que a Santa Igreja nos propõe crer, porque ele é a própria verdade.”[11] A fé é uma virtude que para ter sentido pleno precisa imbui-se de atitudes de caridade. Como nos alerta São Tiago: “a fé, se não tiver obras, está morta em seu isolamento”[12] Por isso a fé como virtude teologal é caminho de abertura para a maior das virtudes que é a caridade.
A esperança “é a virtude teologal pela qual desejamos como nossa felicidade o Reino dos céus e a vida eterna, colocando nossa confiança nas promessas de Cristo e apoiando-nos não em nossas forças próprias, mas no socorro da graça do Espírito Santo.”[13] A virtude da esperança aponta para a realização última, por isso ela é resposta às nossas aspirações de felicidade colocadas por Deus em nosso coração.  A esperança é a virtude que nos ajuda a suportar com amor e paciência as provações da vida. Ela é a “âncora da alma” e sustento na tribulação.
A caridade “é a virtude teologal pela qual amamos a Deus sobre todas as coisas, por si mesmo, e ao próximo como a nós mesmos, por amor de Deus.”[14] Essa virtude foi classificada por São Paulo como a maior das virtudes teologais. (cf. 1Cor 13, 13) Ora, o próprio Cristo resume seu mandamento nesta virtude: Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros (cf. Jo 13, 34). 
Segundo o CIC “o exercício de todas as virtudes é animado e inspirado pela caridade, que é o vínculo da perfeição.”[15] Com a caridade aperfeiçoarmos nossa prática de amar, pois como nos lembra o capitulo treze da Primeira Carta aos Coríntios: ainda que  distribuísse meus bens aos pobres, sem amor nada disso adiantaria (cf. 1Cor 13). Segundo São Basílio: “A finalidade de todas as nossas obras é o amor. Este é o fim; é para alcançá-lo que corremos, é para ele que corremos; uma vez chagados, é nele que repousamos.”[16]
Estas virtudes estão revestidas pela força do Espírito Santo. Nelas os dons do Espírito se derramam como bênção de Deus sobre os homens. Esses dons agem como disposições, que impulsionam os homens a permanecerem dóceis aos apelos do Espírito. Segundo o CIC, os tese dons “completam e levam à perfeição as virtudes daqueles que o recebem.”[17]   Os tese dons são: sabedoria, inteligência, conselho, fortaleza, ciência, piedade e temor de Deus, que em plenitude pertencem a Cristo.
Concluindo, como tentamos demonstrar há dois tipos de virtudes: uma humana que chamamos de cardeais, outras que denominamos de virtudes teologais. As primeiras brotam da educação, isto é, da prática humana. As virtudes morais são fruto dos nossos exercícios e hábitos. As quatro virtudes cardeais (prudência, justiça, fortaleza e temperança) são base para as demais virtudes. As virtudes cardeais alimentam-se das virtudes teologais, porque é Deus quem ordena tudo. As virtudes teologais têm Deus por origem, motivo e objeto, Deus conhecido pela fé, esperado e amado por causa de si mesmo. As virtudes teologais (fé, esperança e caridade) informam e vivificam todas as virtudes morais.     



[1] Gn. 1, 26
[2] cf Aristóteles, Ética Aniômaco livros I e II.
[3] CIC, 1804
[4] idem,  1806
[5] idem , 1807
[6] idem , 1808
[7] Jo 16, 33
[8] CIC, 1809
[9] cf Aristóteles, Ética Anicômaco, livros VI e VII
[10] CIC, 1813
[11] idem, 1814
[12] Tg 2, 26
[13] CIC, 1817
[14] idem, 1822
[15] idem, 1827
[16] São Basílio, IN CIC, 1829
[17] CIC, 1831




A teologia da Cruz Pelo Papa Bento XVI

A teologia da Cruz Pelo Papa Bento XVI

Queridos irmãos e irmãs
Na experiência pessoal de São Paulo há um dado incontestável: enquanto no início fora um perseguidor e recorrera à violência contra os cristãos, a partir do momento da sua conversão no caminho de Damasco passara do lado de Cristo crucificado, fazendo dele a sua razão de vida e o motivo da sua pregação. A sua existência foi inteiramente consumida pelas almas (cf. 2 Cor 12, 15), nada tranquila nem protegida contra ameaças e dificuldades. No encontro com Jesus, tornou-se-lhe claro o significado central da Cruz: compreendera que Jesus tinha morrido e ressuscitado por todos e por ele mesmo. Ambas as realidades eram importantes; a universalidade: Jesus morreu realmente por todos; e a subjectividade: Ele morreu também por mim. Portanto, na Cruz manifestou-se o amor gratuito e misericordioso de Deus. Paulo experimentou este amor em si mesmo (cf. Gl 2, 20) e, de pecador, tornou-se crente; de perseguidor, Apóstolo. Dia após dia, na sua nova vida, experimentava que a salvação era "graça", que tudo derivava da morte de Cristo, e não dos seus méritos, que de resto não existiam. Assim, o "Evangelho da graça" tornou-se para ele o único modo de compreender a Cruz, o critério não somente da sua nova existência, mas também a resposta aos seus interlocutores. Entre eles havia, em primeiro lugar, os judeus que depositavam a própria esperança nas obras e delas esperavam a salvação; depois, havia os gregos, que à cruz opunham a sua sabedoria humana; finalmente, havia aqueles grupos de hereges, que tinham formado uma sua ideia do cristianismo segundo o seu próprio modelo de vida.
Para São Paulo a Cruz tem um primado fundamental na história da humanidade; ela representa o ponto focal da sua teologia, porque dizer Cruz significa dizer salvação como graça concedida a cada criatura.
O tema da Cruz de Cristo torna-se um elemento essencial e primário da pregação do Apóstolo: o exemplo mais claro diz respeito à comunidade de Corinto. Diante de uma Igreja onde estavam presentes de modo preocupante desordens e escândalos, onde a comunhão era ameaçada por partidos e divisões internas que debelavam a unidade do Corpo de Cristo, Paulo apresenta-se não com sublimidade de palavras ou de sabedoria, mas com o anúncio de Cristo, de Cristo crucificado. A sua força não é a linguagem persuasiva mas, paradoxalmente, a debilidade e a trepidação de quem se confia ao "poder de Deus" (cf. 1 Cor 2, 1-4). Por tudo aquilo que representa e portanto também pela mensagem teológica que contém, a Cruz é escândalo e loucura. O Apóstolo afirma-o com uma força impressionante, que é bom ouvir das suas próprias expressões: "Porque a linguagem da Cruz é loucura para aqueles que se perdem, mas poder de Deus para os que se salvam, isto é, para nós... aprouve a Deus salvar os fiéis por meio da loucura da pregação. Enquanto os judeus pedem sinais e os gregos buscam a sabedoria, nós anunciamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos" (1 Cor 1, 18-23).
As primeiras comunidades cristãs, às quais São Paulo se dirige, sabem muito bem que Jesus já ressuscitou e está vivo; o Apóstolo quer recordar não apenas aos Coríntios ou aos Gálatas, mas a todos nós, que o Ressuscitado é sempre Aquele que foi crucificado. O "escândalo" e a "loucura" da Cruz encontram-se precisamente no facto de que onde parece existir somente falência, dor e derrota, exactamente ali está todo o poder do Amor ilimitado de Deus, porque a cruz é expressão de amor, e o amor é o verdadeiro poder que se revela precisamente nesta aparente debilidade. Para os judeus, a Cruz é skandalon, ou seja, armadilha ou pedra de tropeço: ela parece impedir a fé do israelita piedoso, que tem dificuldade de encontrar algo de semelhante nas Sagradas Escrituras. Aqui, com não pouca coragem, Paulo parece dizer que a aposta é extremamente elevada: para os judeus, a Cruz contradiz a própria essência de Deus, que se manifestou mediante sinais prodigiosos. Portanto, aceitar a Cruz de Cristo significa realizar uma profunda conversão no modo de se relacionar com Deus. Se para os judeus o motivo da rejeição da Cruz se encontra na Revelação, ou seja, a fidelidade ao Deus dos Pais, para os gregos, ou seja os pagãos, o critério de juízo para se opor à Cruz é a razão. Com efeito, para estes últimos a Cruz é morta, loucura, literalmente insipiência, isto é, um alimento sem sal; por conseguinte, mais que um erro, é um insulto ao bom senso.
Em várias ocasiões, o próprio Paulo fez a amarga experiência da rejeição do anúncio cristão julgado "insipiente", desprovido de relevância, nem sequer digno de ser considerado no plano da lógica racional. Para quem, como os gregos, via a perfeição no espírito, no pensamento puro, já era inaceitável que Deus pudesse tornar-se homem, imergindo-se em todos os limites do espaço e do tempo. Além disso, era decididamente inconcebível acreditar que um Deus pudesse acabar numa Cruz! E vemos como esta lógica grega é também a lógica comum do nosso tempo. O conceito de apátheia, indiferença, como ausência de paixões em Deus, como poderia compreender um Deus que se tornou homem e foi derrotado, e que depois chegaria mesmo a resgatar o seu corpo para viver como ressuscitado? "Ouvir-te-emos falar sobre isto mais uma vez" (Act 17, 32), disseram com desprezo os atenienses a Paulo, quando ouviram falar de ressurreição dos mortos. Julgavam uma perfeição o libertar-se do corpo, concebido como prisão; como não considerar uma aberração o resgate do próprio corpo? na cultura antiga não parecia existir espaço para a mensagem do Deus encarnado. Todo o acontecimento "Jesus de Nazaré" parecia ser caracterizado pela mais total insipiência e, sem dúvida, a Cruz era o seu ponto mais emblemático.
Mas por que fez São Paulo precisamente disto, da palavra da Cruz, o ponto fundamental da sua pregação? A resposta não é difícil: a Cruz revela "o poder de Deus" (cf. 1 Cor 1, 24), que é diferente do poder humano; com efeito, revela o seu amor: "O que é considerado como loucura de Deus é mais sábio que os homens, e o que é tido como debilidade de Deus é mais forte que os homens" (Ibid., v. 25). A séculos de distância de Paulo, nós vemos que na história venceu a Cruz e não a sabedoria que se opõe à Cruz. O Crucifixo é sabedoria, porque manifesta verdadeiramente quem é Deus, ou seja, poder de amor que chega até à Cruz para salvar o homem. Deus serve-se de modos e de instrumentos que para nós, à primeira vista, parecem debilidade. O Crucifixo releva, por um lado, a debilidade do homem e, por outro, o verdadeiro poder de Deus, ou seja, a gratuidade do amor: precisamente esta total gratuidade do amor é a verdadeira sabedoria. São Paulo fez esta experiência até na sua carne, e disto dá-nos testemunho em várias fases do seu percurso espiritual, que se tornaram pontos de referência específicos para cada discípulo de Jesus: "Ele disse-me: basta-te a minha graça, porque é na fraqueza que a minha força se revela plenamente" (2 Cor 12, 9); e ainda. "Deus escolheu o que é fraco, segundo o mundo, para confundir o que é forte" (1 Cor 1, 27). O Apóstolo identifica-se a tal ponto com Cristo que também ele, embora se encontre no meio de muitas provações, vive na fé do Filho de Deus que o amou e se entregou pelos pecados dele e de todos (cf. Gl 1, 4; 2, 20). Este dado autobiográfico do Apóstolo torna-se paradigmático para todos nós.
São Paulo ofereceu uma síntese admirável da teologia da Cruz na segunda Carta aos Coríntios (5, 14-21), onde tudo está contido em duas afirmações fundamentais: por um lado Cristo, que Deus tratou como pecado em nosso benefício (v. 21), morreu por todos (v. 14); por outro, Deus reconciliou-nos consigo, sem atribuir a nós as nossas culpas (cf. vv. 18-20). É deste "ministério da reconciliação" que toda a escravidão já foi resgatada (cf. 1 Cor 16, 20; 7, 23). Aqui aparece como tudo isto é relevante para a nossa vida. Também nós temos que entrar neste "ministério da reconciliação", que supõe sempre a renúncia à própria superioridade e à opção da loucura do amor. São Paulo renunciou á própria vida, entregando-se totalmente a si mesmo pelo ministério da reconciliação, da Cruz que é salvação para todos nós. E também nós devemos saber fazer isto. Podemos encontrar a nossa força precisamente na humildade do amor, e a nossa sabedoria na debilidade de renunciar para entrar assim na força de Deus. Todos nós devemos formar a nossa vida sobre esta verdadeira sabedoria: não viver para nós mesmos, mas viver na fé naquele Deus, de quem todos nós podemos dizer: "Amou-me e entregou-se por mim!".



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Homilia do XVIII Domingo do Tempo Comum (Ano C) Um homem vem a Jesus pedindo que diga ao irmão que reparta consigo a herança. Depois ...