segunda-feira, 26 de abril de 2010

O Amor, a Graça e a Misericórdia de Deus

Deus é Amor
Vejamos o primeiro ponto: Deus é amor. Isso está registrado em 1 João 4:16. Aqui não diz que Deus ama. Tampouco diz que Deus poderia amar ou que Deus pode amar ou que Deus amou ou amará. Pelo contrário, diz que Deus é amor. Que significa dizer que Deus é amor? Significa que o próprio Deus, Sua natureza e Seu ser, é amor. Se pudéssemos dizer que Deus tem uma substância, então a substância de Deus é amor.
A maior revelação da Bíblia é que Deus é amor. Essa é a revelação de que o homem mais necessita. O homem tem muitas suposições e teorias sobre Deus. Ponderamos todo o tempo sobre que tipo de Deus nosso Deus é, que tipo de coração nosso Deus tem, quais as Suas intenções com relação ao homem, a que Ele é semelhante. Você pode perguntar a alguém sobre a idéia dele a respeito de Deus, e ele lhe dará o seu conceito. Ele achará que Deus é desse ou daquele tipo de Deus. Todos os ídolos no mundo e todas as imagens feitas pelo homem são produto da imaginação do homem, que acha que Deus é um Deus aterrador ou um Deus severo. Ele concebe Deus desta ou daquela maneira. O homem está sempre tentando analisar e investigar a que Deus se assemelha. A fim de corrigir as diferentes suposições que o homem tem sobre Deus, Ele se manifesta na luz do evangelho e mostra ao homem que Ele não é um Deus inacessível ou inatingível.
Afinal, Deus é o quê? Deus é amor. Esta afirmação não estará clara para você a menos que eu dê uma ilustração. Suponha que exista aqui uma pessoa paciente. A paciência está ali, aconteça o que acontecer, não importando quão difíceis ou quão más sejam as condições. Não podemos dizer que tal pessoa tenha agido pacientemente; o advérbio pacientemente não pode ser usado para descrevê-la. Nem podemos dizer que ela seja paciente, usando um adjetivo. Devemos dizer que ela é a própria paciência. Talvez não nos refiramos a ela pelo seu nome. Em vez disso, às ocultas, poderíamos dizer que a Paciência chegou ou que a Paciência falou. Ao dizermos que Deus é amor, queremos dizer que amor é a natureza de Deus; Ele é amor de dentro para fora. Portanto, não diríamos que Deus é amoroso, usando um adjetivo ou que Deus ama, usando um verbo. Pelo contrário, diríamos que Deus é amor, aplicando o substantivo a Ele.
Em nosso amigo Paciência não conseguimos encontrar precipitação; ele é a própria paciência; não é apenas paciente. Ele é simplesmente um amontoado de paciência. Você acha que nessa pessoa poderia haver precipitação? Poderia ele perder a calma? Poderia ele trocar palavras ásperas com os outros? É impossível que ele tome tais atitudes, pois em sua natureza não existe o elemento para fazê-las. Não há algo como mau humor em sua natureza. Não há algo como precipitação em sua natureza. Ele é simplesmente a paciência.
O mesmo ocorre com Deus, que é amor. Deus como amor é a maior revelação na Bíblia. Para todo cristão, a maior coisa a saber na Bíblia é que Deus é amor. Para Deus é impossível odiar. Se Deus odiar, não apenas terá um conflito com quem quer que Ele odeie, mas também terá um conflito Consigo mesmo. Se Deus odiasse qualquer um de nós aqui hoje, Ele não teria problema só com essa pessoa; Ele teria problema Consigo mesmo. Deus teria de criar um problema Consigo mesmo antes que pudesse odiar ou fazer algo de maneira que não fosse em amor. Deus é amor. Embora essas três palavras sejam muito simples, elas nos dão a maior revelação. A natureza de Deus, a essência da vida de Deus, é simplesmente o amor. Ele não pode fazer nada de outra maneira. Ele ama e, ao mesmo tempo, Ele é amor.
Se você é um pecador, pode estar querendo saber o que deve fazer antes que Deus venha amá-lo. Muitas pessoas não conhecem o pensamento de Deus para com elas. Elas desconhecem o que Deus está pensando ou que intenções Ele tem. Muitos acham que deveriam fazer algo ou sofrer ou ser muito conscienciosos antes que pudessem agradar a Deus. Entretanto, somente os que estão em trevas e que não conhecem a Deus pensam dessa forma. Se não houvesse evangelho, você seria capaz de pensar assim. Mas, agora que o evangelho está aqui, você não pode mais pensar dessa maneira, pois o evangelho diz-nos que Deus é amor.
Nós, seres humanos, somos apenas ódio. É extremamente difícil amarmos. Para Deus é igualmente difícil odiar. Você pode achar que é difícil amar e que não sabe como amar os outros. Mas é impossível Deus odiar. Você não tem jeito para amar e Deus não tem jeito para odiar. Deus é amor, e odiar para Ele é agir contrariamente à Sua natureza, o que é impossível que Ele faça.

Deus Amou o Mundo de Tal Maneira
Isso não é tudo. O próprio Deus é amor, mas quando esse amor é aplicado a nós, descobrimos que “Deus amou ao mundo de tal maneira” (Jo 3:16). “Deus é amor” fala da Sua natureza, e “Deus amou ao mundo de tal maneira” fala da Sua ação. O próprio Deus é amor; portanto, aquilo que provém Dele deve ser amor. Onde há amor, deve também haver o objeto daquele amor. Após mostrar-nos que Ele é amor, Deus imediatamente nos mostra que Ele ama ao mundo. Deus não somente nos amou, mas também enviou Seu amor. Deus não podia deixar de enviar Seu amor. Ele não podia deixar de amar ao mundo. Aleluia!
O maior problema que o mundo tem é pensar que Deus sempre nutre más intenções contra o homem. O homem acha que Deus faz exigências severas, e que é rigoroso e mesquinho. Uma vez que o homem tem dúvidas quanto ao amor de Deus, ele também duvida que Deus amou ao mundo. Contudo, uma vez que Deus é amor, Ele ama ao mundo. Se a Sua natureza é amor, Ele não pode portar-se em relação ao homem de nenhum outro modo a não ser em amor. Ele sentir-se-ia desconfortável se não amasse. Aleluia! Isso é um fato! Deus é amor. Ele não pode fazer nada a não ser amar. Deus é amor, e o que se segue espontaneamente é que Deus amou ao mundo.
Podemos culpar-nos por nossos pecados, por sermos suscetíveis à tentação de Satanás, por sermos enredados pelo pecado. Mas não podemos duvidar do próprio Deus. Você pode responsabilizar-se por cometer um pecado, por ter falhado, por sucumbir à tentação. Contudo, se duvida do coração de Deus para você, não estará agindo como um cristão, pois duvidar do coração de Deus para você é contradizer a revelação do evangelho.
Não posso afirmar que você jamais fracassará novamente. Tampouco posso afirmar que não mais pecará. Talvez você fracasse e peque novamente. Mas, por favor, lembre-se de que você falhar ou pecar é uma coisa, mas o coração de Deus para você é outra. Você nunca deve duvidar do sentimento de Deus simplesmente porque falhou ou pecou. Embora possa pecar, falhar, Deus não muda Sua atitude com você, pois Deus é amor e Ele ama ao mundo. Isso é um fato imutável na Bíblia.
Do nosso lado mudamos e transformamo-nos. Mas pelo lado do amor de Deus, não há mudança. Muitas vezes o seu amor pode mudar ou tornar-se frio. Contudo, isso não significa que o amor de Deus é afetado. Se Deus é amor, não importa como você O teste, o que provém Dele é invariavelmente amor. Se houver um pedaço de madeira aqui, não importa como o golpeie, você sempre obterá o som de madeira. Se golpeá-lo com um livro, ele lhe dará o som de madeira. Se golpeá-lo com a palma da mão, ainda assim ele dará a você o som de madeira. Se golpeá-lo com outro pedaço de madeira, ele novamente lhe dará o som de madeira. Se Deus é amor, não importa como você O “golpeie” — rejeitando-O, negando-O ou deixando-O de lado — Ele ainda é amor. Uma coisa é certa: Deus não pode negar a Si mesmo; Ele não pode contradizer-se. Uma vez que somos o próprio ódio, é absolutamente natural que odiemos. E uma vez que Deus é amor, é absolutamente natural que Deus ame. Ele não pode mudar a própria natureza. E uma vez que a natureza de Deus não pode ser mudada, Sua atitude com você não pode ser mudada. Dessa forma vemos que Deus ama ao mundo.

A Expressão do Amor de Deus
O assunto todo termina com Deus amando ao mundo? “Deus é amor” fala da natureza de Deus; fala do próprio Deus. “Deus amou ao mundo de tal maneira” fala da ação de Deus. Mas o amor de Deus para conosco tem uma expressão. Que é essa expressão do Seu amor? Romanos 5:8 diz: “Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco, pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores”. O amor de Deus tem uma expressão. Se amo uma pessoa e simplesmente lhe digo que a amo, esse amor ainda não está completo. A menos que o amor seja expresso, ele não é completo. Não existe amor no mundo que não tenha uma expressão. Se há amor, ele deve ser expresso. Se um amor não é expresso, não pode ser considerado como amor. O amor é muitíssimo prático. Ele não é vão e tampouco um simples assunto verbal. O amor é expresso por meio de ações. Se você põe uma bola sobre uma superfície desnivelada, pode estar certo que algo irá ocorrer; ela terminará por rolar abaixo. O mesmo ocorre com o amor. Você pode estar certo de que terá uma expressão.
Já que Deus ama ao mundo, Ele tem de estar preocupado com a necessidade do homem. Portanto, Ele deve fazer algo pelo homem. Somos pecadores. Não temos outra escolha senão ir para o inferno, e não há nenhum outro lugar para estarmos senão no lugar de perdição. Mas Deus nos amou, e Ele não estará satisfeito até que nos tenha salvado. Quando Deus diz: “Eu amo você”, Seu amor se aproximará para carregar todos os nossos fardos e remover todos os nossos problemas. Já que Deus nos ama, Ele deve prover uma solução ao problema de pecados; Ele deve prover a salvação que nós pecadores precisamos. Por essa razão, a Bíblia mostrou-nos este grandioso fato: O amor de Deus é manifestado na morte de Cristo. Uma vez que somos pecadores e incapazes de salvar a nós mesmos, Cristo veio morrer de modo a solucionar o problema do pecado por nós. Seu amor cumpriu algo substancial, e isso é posto diante de nós. Agora podemos ver Seu amor de uma forma substancial. Seu amor já não é meramente um sentimento. Ele tornou-se um ato totalmente manifestado.
Nessa grande questão do amor de Deus, devemos atentar para três coisas: a natureza do amor de Deus, a ação do amor de Deus e a expressão do amor de Deus. Agradecemos e louvamos a Deus! Seu amor não é somente um sentimento em Seu interior; é também uma ação e até mesmo uma expressão e manifestação. Seu amor fê-Lo realizar o que não podemos por nós mesmos. Uma vez que Ele é amor e amou ao mundo, a salvação foi produzida. Uma vez que o homem tem pecado e uma vez que Deus é amor, muitas coisas acontecem. Se você não é pobre, não terá necessidade de mim. Por outro lado, se eu não o amo, mesmo que você seja extremamente pobre, eu não me preocuparei. A situação hoje é que o homem pecou e Deus amou; portanto, coisas começam a ocorrer. Aleluia! muita coisa está acontecendo porque o homem pecou e Deus amou. Quando você reúne as duas coisas, o evangelho vem à existência.

A Graça de Deus
Contudo, irmãos e irmãs, o amor de Deus não pára aqui. Uma vez que Deus é amor, a questão da graça surge. É verdade que o amor é precioso, mas o amor deve ter sua expressão. Quando o amor é expresso, torna-se graça. Graça é amor expresso. O amor é algo em Deus. Mas quando esse amor vem até você, torna-se graça. Se Deus for somente amor, Ele é muito abstrato. Mas agradecemos ao Senhor porque embora o amor seja algo abstrato, com Deus ele é imediatamente transformado em algo concreto. O amor interior é abstrato, mas a graça exterior deu-lhe substância.
Por exemplo, você pode ter pena de um indigente, pode amá-lo e ter simpatia por ele. Mas se não lhe der comida e roupa, o máximo que você poderia dizer é que o ama. Não poderia dizer que você é graça para ele. Quando poderá dizer que tem graça para com ele? Quando lhe der um prato de arroz ou uma peça de roupa ou algum dinheiro, e quando a comida, roupa ou dinheiro o alcançar, seu amor torna-se graça. A diferença entre amor e graça reside no fato de que o amor é interior e graça é exterior. Amor é principalmente um sentimento interno, enquanto graça é um ato externo. Quando o amor é transformado em ação, torna-se graça. Quando a graça volta a ser sentimento, ela é amor. Sem o amor, a graça não pode vir à existência. A graça existe porque o amor existe.
A definição de graça não é apenas um ato de amor. Devemos acrescentar algo mais a isso. Graça é um ato de amor para com o necessitado. Deus ama ao Seu Filho unigênito. Mas não existe o elemento graça nesse amor. Ninguém pode dizer que Deus trata Seu Filho com graça. Deus também ama os anjos, mas isso tampouco pode ser considerado como graça. Por que não é graça o amor do Pai para com o Filho e o amor de Deus para com os anjos? A razão é que não há perdas ou faltas envolvidas. Há somente amor; não existe a idéia de graça. Somente quando há perdas e faltas, quando não existe maneira para resolvermos nossos problemas por nós mesmos, é que o amor torna-se real como graça. Visto que somos pecadores, somos os que têm problemas, e não temos como solucioná-los. Mas Deus é amor e Seu amor é manifestado a nós como graça.
Portanto, quando o amor flui no mesmo nível, ele é simplesmente amor. Mas quando ele flui para baixo, é graça. Por isso, os que nunca estiveram em uma situação miserável jamais podem receber graça. O amor também pode fluir para um nível mais elevado. Mas quando isso ocorre, não é graça. O amor também pode fluir entre níveis iguais. Quando isso ocorre, também não é graça. Somente quando o amor flui em direção inferior é graça. Se quer estar acima de Deus ou quer ser igual a Deus, você nunca verá o dia da graça. Somente os que estão abaixo de Deus podem ver o dia da graça. Isso é o que a Bíblia nos mostra acerca da diferença entre amor e graça.
Embora a Bíblia mencione o amor do Senhor Jesus, ela dá maior atenção à graça do Senhor Jesus. A Bíblia também fala da graça de Deus, mas ela dá maior atenção ao amor de Deus. Não estou dizendo que não existe o amor do Senhor Jesus e a graça de Deus na Bíblia. Mas a ênfase na Bíblia está no amor de Deus e na graça do Senhor Jesus. Como foi que Paulo saudou a igreja em Corinto? “A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos vós” (2 Co 13:13). Você não pode mudar a sentença para ler: “A graça de Deus, e o amor do Senhor Jesus Cristo, e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos vós”. Você não pode fazer isso, porque a ênfase da Bíblia está no amor de Deus e na graça do Senhor Jesus. Por que é assim? Porque foi o Senhor Jesus quem cumpriu a salvação. Foi Ele quem concretizou o amor e efetuou a graça. O amor de Deus tornou-se graça por meio da obra do Senhor Jesus. Portanto, a Bíblia diz-nos que a lei foi dada por intermédio de Moisés, mas a graça veio por meio de Jesus Cristo (Jo 1:17).

A Misericórdia de Deus
Agradecemos ao Senhor porque no amor de Deus não há apenas a graça, há também outro grande item: a misericórdia de Deus. A Bíblia também dá muita ênfase à misericórdia. Mas temos de admitir que misericórdia é mais precisamente uma palavra do Antigo Testamento, da mesma forma que graça é do Novo Testamento. Isso não significa que você não encontrará misericórdia no Novo Testamento. Mas se tiver uma referência ou uma concordância bíblica, você encontrará misericórdia muito mais freqüentemente no Antigo Testamento. Misericórdia é algo do Antigo Testamento, assim como graça é algo do Novo Testamento.
O canal para o amor fluir é ou a graça ou a misericórdia. Misericórdia é para questões negativas, enquanto graça é para questões positivas. Misericórdia está relacionada com a condição presente, e graça está relacionada com a condição futura. Misericórdia fala da pobreza da nossa condição presente, e graça fala da condição radiante em que você será salvo no futuro. O sentimento que Deus tem para conosco quando somos pecadores é misericórdia. A obra que Deus realiza em nós para fazer-nos Seus filhos é graça. A misericórdia surge da nossa condição existente; graça surge da obra que iremos receber.
Não sei se você tem clareza disso. Suponha que haja uma pessoa necessitada aqui conosco. Você a ama e tem pena dela. Você se sente triste pela sua situação difícil. Se não a amasse, não sofreria nem se preocuparia com ela. Mas fazendo assim você está tendo misericórdia dela. Contudo, essa misericórdia é negativa. Sua misericórdia está na condolência pela condição atual dessa pessoa. Mas quando a graça é efetivada? Ela é efetivada na hora em que essa pessoa é resgatada da sua condição pobre para uma posição nova, para uma esfera nova e para um ambiente novo. Somente então seu amor por ela torna-se graça. É por isso que digo que misericórdia tem sentido negativo e é para hoje, enquanto graça tem sentido positivo e é para o futuro. O futuro de que estou falando é o futuro nesta era, e não o futuro na era vindoura. Não quero dizer que o Antigo Testamento fale somente sobre misericórdia. O Antigo Testamento também fala sobre graça. Não é verdade que não precisamos mais de misericórdia. Não, nós ainda precisamos da misericórdia. Deus foi misericordioso na época do Antigo Testamento, porque Sua obra ainda não estava completa naquela época. Portanto, o Antigo Testamento estava repleto de misericórdia. Deus mostrou misericórdia por quatro mil anos. Mas hoje, na era do Novo Testamento, temos graça porque o Senhor Jesus cumpriu Sua obra. Ele veio para carregar nossos pecados. Portanto, o que recebemos hoje não é misericórdia, mas graça. Aleluia! Hoje não é dia da misericórdia, mas da graça.
Se houvesse apenas misericórdia, poderíamos ter somente esperança. No Antigo Testamento, havia apenas esperança; portanto, o Antigo Testamento fala de misericórdia. Mas agradecemos ao Senhor, hoje obtivemos o que era esperado. Não há necessidade de esperarmos mais.
A misericórdia vem do amor e resulta em graça. Se a misericórdia não viesse do amor, ela não resultaria em graça. Uma vez que ela se origina no amor, ela chega à graça. Nos Evangelhos há o relato de um cego recebendo visão (Mc 10:46-52). Ao encontrar o Senhor, ele não disse: “Senhor, ama-me!” ou “Senhor, sê benévolo para comigo!” Pelo contrário, ele disse: “Filho de Davi, tem misericórdia de mim!” (v. 48). Ele pediu misericórdia por causa da sua situação presente, da sua dificuldade presente e da sua dor presente. Ele sabia que se o Senhor Jesus se compadecesse dele, Ele não se limitaria a mostrar-lhe misericórdia; Ele certamente faria algo.
No Novo Testamento, há também alguns lugares em que a misericórdia é mencionada. Na maioria dos casos, a misericórdia é mencionada em referência à situação no momento. Alguém poderia perguntar: “Visto que o amor de Deus é tão precioso, por que precisa existir misericórdia? O amor é muito bom como fonte, e a graça é também muito boa como resultado. Por que, então, é necessária a misericórdia?” Porque o homem é necessitado. Não temos coragem de ir a Deus e pedir por Seu amor. Somos da carne e não conhecemos Deus suficientemente. Embora Deus se tenha revelado a nós na luz, ainda não ousamos achegar-nos a Ele. Sentimos que é impossível ir a Deus e pedir amor. Ao mesmo tempo, não possuímos fé suficiente para ir a Ele e pedir graça, dizendo-Lhe que precisamos de tal e tal bênção. Não temos como pedir o amor de Deus e não temos fé suficiente para pedir a graça de Deus.
Mas agradecemos ao Senhor. Não temos apenas amor e graça; também temos misericórdia. O amor é manifestado nesta misericórdia. Por Deus ser misericordioso, se você ouve o evangelho e ainda é incapaz de crer, você pode clamar: “Filho de Davi, tem misericórdia de mim!” Você pode ter medo de pedir outras coisas, mas não precisa ter medo de pedir essa única coisa. Não ouso pedir ao Senhor que seja benévolo comigo. Não ouso pedir-Lhe que me ame. Mas posso pedir-Lhe que seja misericordioso para comigo. Por outras coisas não ousamos pedir. Mas podemos ser ousados para pedir misericórdia. Deus se alegra com isso. Deus colocou Seu amor entre nós para que tivéssemos o direito de vir a Ele. Contudo, se houvesse apenas amor, ainda nos sentiríamos atemorizados de vir a Deus. Uma vez que Deus também é misericordioso, somos capazes de vir a Ele. Não ouso pedir a Deus que me ame nem ouso pedir-Lhe que mostre graça. Mas posso pedir misericórdia a Deus. Posso ao menos pedir isso.
No ano passado conheci um homem que estava muito velho e sofria de séria enfermidade. Ao ver-me, chorou. Ele contou-me que não estava triste com Deus, mas sem dúvida estava com muita dor. Eu disse-lhe que deveria pedir a Deus para amá-lo e ser benévolo para com ele. Ele disse que não poderia fazer isso. Quando perguntei-lhe por que não, ele respondeu que por sessenta anos havia vivido para si mesmo e não para Deus. Agora que estava morrendo, ele se envergonharia de pedir que Deus o amasse e fosse bondoso para com ele. Se não tivesse estado tão distante de Deus, se tivesse se aproximado mais de Deus nas últimas poucas décadas, se tivesse desenvolvido certa afeição por Deus, teria sido mais fácil para ele pedir amor e graça. Mas por ter estado longe de Deus toda sua vida, como podia pedir a Deus que o amasse enquanto ele jazia em seu leito de morte? Não importando minha persuasão, ele não acreditaria em minhas palavras. Eu disse-lhe que Deus podia conceder-lhe graça, que Ele podia ser benévolo com ele e podia amá-lo. Mas ele simplesmente não conseguia crer nisso. Fui vê-lo muitas vezes, mas não pude convencê-lo. Então orei: “Ó Deus, eis aqui um homem que não crê em Ti, tampouco crê no Teu amor. Não tenho como ajudá-lo. Por favor, conceda-lhe um caminho na sua última hora”. Mais tarde senti que não deveria falar-lhe sobre graça nem sobre amor, mas somente sobre misericórdia. Com alegria fui até ele de novo e lhe disse: “Você deve esquecer-se de tudo agora. Esqueça-se do amor de Deus ou da graça de Deus. Você deve ir a Deus e dizer-Lhe: ‘Deus! estou sofrendo. Não tenho como prosseguir. Tem misericórdia de mim’”. Imediatamente ele concordou. E tão logo concordou, sua fé veio e ele orou: “Deus, agradeço-Te porque Tu és um Deus misericordioso. Estou fraco e sofrendo. Tem misericórdia de mim”. Aqui você vê uma pessoa sendo trazida à presença do Senhor. Ele percebeu sua situação carente e pediu misericórdia. Na sua presente condição, ele pediu a Deus que fosse misericordioso para com ele.
Agora vejamos alguns versículos. Efésios 2:4-5 diz: “Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossos delitos”. Paulo disse que Deus era rico em misericórdia por causa de algo. Esse algo é Seu grande amor com que nos amou. Sem amor não haveria misericórdia. Em que situação foi Ele misericordioso para conosco? Ele foi misericordioso para conosco quando estávamos mortos em nossos delitos. Aquilo teve a ver com nossa infeliz situação presente. Por estarmos mortos em pecados, Ele teve misericórdia de nós. Ele teve misericórdia de nós baseado em Seu amor por nós. Que acontece após a misericórdia? O versículo 8 prossegue dizendo-nos que Ele nos salvou pela graça. Portanto, a misericórdia foi-nos mostrada porque estávamos em uma situação de mortos em nossos delitos; então, a graça foi-nos dada para nossa salvação, indicando que recebemos uma nova posição e entramos numa nova esfera. Agradecemos a Deus porque não há somente amor e graça, mas também grandiosa misericórdia.
Em 1 Timóteo 1:13 Paulo diz: “A mim que noutro tempo era blasfemo e perseguidor e insolente. Mas obtive misericórdia, pois o fiz na ignorância, na incredulidade”. Paulo explica aqui como obteve misericórdia. O fato de obter misericórdia tinha muito a ver com a história de sua vida. Tinha a ver com o fato de ser ele um blasfemo, um perseguidor e uma pessoa insolente. Antes de ser salvo, ele estava na condição de blasfemo, perseguidor, insolente, ignorante e incrédulo. Enquanto estava em tal condição, Deus teve misericórdia dele. Assim, você pode ver que misericórdia tem a ver com as situações duras e difíceis do nosso passado. Graça, por outro lado, tem a ver com os aspectos positivos relacionados conosco. Os dois devem ser distintos e não devem ser considerados iguais.
Tito 3:5 diz: “Não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo sua misericórdia, ele nos salvou”. Não há justiça em nós. Enquanto estávamos sem justiça e numa situação de sofrimento e sem esperança, Deus teve misericórdia de nós. Graças ao Senhor que existe a misericórdia! Vimos anteriormente que a misericórdia origina-se no amor e termina na graça. Quando a misericórdia se estende, somos salvos. Ele teve misericórdia de nós na condição em que estávamos, e como resultado fomos salvos.
Romanos 11:32 diz: “Porque Deus a todos encerrou na desobediência, a fim de usar de misericórdia para com todos”. Por que Deus encerrou a todos na desobediência? Foi para que pudesse mostrar misericórdia a todos. Deus permitiu que todos se tornassem desobedientes e encerrou a todos na desobediência, não com o propósito de fazê-los desobedientes, mas a fim de mostrar misericórdia para com todos. Após ter mostrado misericórdia, Seu próximo passo foi salvá-los. Portanto, a misericórdia tem a ver com sua condição, não a condição após você ter-se tornado um cristão, mas com a sua condição antes de ser salvo. Porém, graças a Deus que Ele não parou na misericórdia; com Ele há também a graça.
Existe um lugar na Bíblia que nos mostra claramente que nossa regeneração é proveniente da misericórdia. A Primeira Epístola de Pedro 1:3 diz: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que, segundo a sua muita misericórdia, nos regenerou para uma viva esperança mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos”. Toda a obra de Deus na graça foi planejada de acordo com Sua misericórdia em amor. Sua graça é dirigida por Sua misericórdia, e Sua misericórdia é dirigida por Seu amor. É segundo a Sua grande misericórdia que Deus nos regenerou para uma viva esperança mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos. Assim sendo, tanto a regeneração como a viva esperança estão relacionadas com a misericórdia.
Por existir a misericórdia, existe a graça.
Judas 21 diz: “Guardai-vos no amor de Deus, esperando a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo, para a vida eterna”. Este versículo mostra-nos que hoje devemos manter-nos no amor de Deus. Até que o Senhor venha novamente, isto é, até que Ele apareça a nós, devemos aguardar a Sua misericórdia para a vida eterna. Antes de sermos arrebatados, devemos aguardar a Sua misericórdia. Hoje, enquanto vivemos nesta terra, recebemos não apenas misericórdia, mas também graça. Agradecemos ao Senhor que fomos salvos e pertencemos a Deus, contudo ainda há um problema. O nosso corpo ainda não está redimido. Embora não sejamos mais do mundo, ainda estamos no mundo. É bom não pertencermos ao mundo, mas isso não é suficiente. Cedo ou tarde, os israelitas tiveram de deixar o Egito. Cedo ou tarde, Noé teve de deixar a arca para entrar no novo período. Cedo ou tarde, Ló teve de deixar Sodoma. E virá o dia em que os cristãos terão de deixar o mundo. Enquanto estou sendo atacado neste mundo, espero a misericórdia do Senhor Jesus. Enquanto estou sendo enredado pelo pecado neste mundo, espero a misericórdia do Senhor Jesus. Enquanto estou sendo esbofeteado por Satanás neste mundo, aguardo a salvação do Senhor. Assim, enquanto estamos vivendo nesta terra e mantendo-nos no amor de Deus, esperamos o dia em que o Senhor mostrará misericórdia a nós. Portanto, é ainda necessário que a Sua misericórdia esteja sobre nós. Temos de aguardar a Sua misericórdia até o dia de sermos arrebatados.
A Bíblia mostra-nos algo mais sobre misericórdia e graça. Tanto no Antigo como no Novo Testamento, a palavra misericórdia é sempre precedida por mostrar ou por ter. Misericórdia é algo que é mostrado, e àqueles para os quais ela é mostrada diz-se que receberam misericórdia. Por que a Bíblia diz “mostrar misericórdia” em vez de “dar misericórdia”? Porque a misericórdia não requer o nosso fazer. Graça, por outro lado, requer algum feito. Quando obtemos graça, obtemos algo definido. Mas ao recebermos misericórdia, é somente um recebimento; tudo o que temos a fazer é receber.
Hebreus 4:16 exorta-nos a vir constantemente ao Senhor a fim de orar. Ao virmos orar diante do Senhor, recebemos misericórdia e achamos graça para socorro em ocasião oportuna. Algumas versões usam a expressão obter misericórdia. Mas na verdade, na linguagem original, a palavra não é obter. Obter é algo muito ativo. No grego, a palavra é mais passiva. Ela deveria ser traduzida para “receber”. Recebemos misericórdia e achamos graça. Que é receber? Receber significa que tudo está aqui; está sempre pronto para uso a qualquer tempo. Que é graça? Graça é algo que você tem de “achar”, pois é algo que Deus fará. Graça é algo positivo; é algo para ser elaborado. É por isso que se diz “receber” misericórdia e “achar” graça. Você pode ver que a Bíblia é muito clara acerca da misericórdia e da graça. Não há confusão entre ambas.

sábado, 10 de abril de 2010

Homilia do segundo domingo de Páscoa – ano c



Neste segundo domingo da Páscoa celebramos o domingo da Misericórdia Divina. Em 30 de abril de 2000, o Papa João Paulo II canonizou a irmã Faustina Kowalska, testemunha e mensageira do amor misericordioso do Senhor, motivo pelo qual se instituiu esta nova festa que, de modo bastante adequado, entra no ritmo litúrgico e responde às necessidades mais vivas dos homens do terceiro milênio. A elevação à honra dos altares desta humilde religiosa, filha da Polônia, representou um dom para toda a humanidade. A mensagem que ela anunciou é uma resposta adequada e decisiva, dada por Deus às perguntas e expectativas dos homens de nosso tempo, marcado por enormes tragédias. Irmã Faustina em seu diário afirma: "A humanidade não encontrará paz até que se dirija com confiança à Misericórdia Divina" (Diário, p. 132). A misericórdia divina! Este é o dom pascal que a Igreja recebe de Cristo ressuscitado e que oferece para a humanidade na aurora do terceiro milênio (cf. João Paulo II, Homilia do domingo da misericórdia, em 2001).
O salmo 117 (118) nos convida a um canto de gratidão a Deus pelo seu amor eterno, pela sua misericórdia eterna. A segunda leitura, tirada do livro do Apocalipse, ilustra por que o homem não deve temer: Cristo, alfa e ômega, triunfou sobre a morte e vive para sempre. No evangelho, Cristo aparece para os apóstolos e os convida à paz, à confiança, à segurança, porque a misericórdia divina foi derramada em Cristo, nosso Senhor. Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre.
O convite à confiança. "Não tenhas medo. Eu sou o Primeiro e o Último, aquele que vive. Estive morto, mas agora estou vivo para sempre" (Ap 1, 17-18). Na segunda leitura podemos ler estas consoladoras palavras, que nos convidam a olhar para Cristo, para experimentar a sua presença tranqüilizadora. Seja qual for a situação em que estamos, mesmo a mais complexa e dramática, o Ressuscitado repete a cada um de nós: "Não temas"; eu morri na cruz, mas agora "vivo pelo séculos dos séculos". "Eu sou o primeiro e o último, e aquele que vive". Aqui, notamos que Jesus é apresentado na óptica de João como atributos sacerdotais, a túnica longo é sinal da eleição, mas não somente isso, ele é também rei, por isso, o cinto de ouro, sinal da realeza que entrou o ressuscitado. Assim, aquele que morreu na cruz por fidelidade e amor tornou-se causa de santificação e dignidade para todo aquele que nele crer.
"O primeiro", ou seja, a fonte de todo ser e as primícias da nova criação; "o último", o fim definitivo da história; "o que vive", o manancial inesgotável da vida que derrotou a morte para sempre, tudo isso é Cristo Jesus. No Messias crucificado e ressuscitado, reconhecemos as características do Cordeiro imolado no Gólgota, que implora o perdão para os seus carrascos e abre as portas do céu para os pecadores arrependidos. Vislumbramos o rosto do Rei imortal, que já tem "a chave da morte e da região dos mortos" (Ap 1, 18) (cf. João Paulo II, Homilia do domingo da misericórdia, em 2001).
"Dai graças ao Senhor, porque Ele é bom! Eterna é a sua misericórdia!" (Sal 117, 1). Tomemos para nós a exclamação que repetimos no salmo responsorial: a misericórdia do Senhor é eterna. Para compreender a fundo a verdade destas palavras, deixemos que a liturgia nos guie até o coração dos acontecimentos salvíficos, que unem a morte e a ressurreição de Cristo com a nossa existência e a história do mundo. Este prodígio de misericórdia mudou radicalmente o destino da humanidade. É um prodígio em que se manifesta plenamente o amor do Pai, que, buscando a nossa redenção, não retrocede nem sequer diante do sacrifício de seu Filho unigênito.
Falando da misericórdia divina, São Bernardo de Claraval comenta com grande unção no seu sermão 1 na Epifania do Senhor (1-2 PL 133, 141-143): "Agora, a nossa paz não é prometida, mas enviada; não é diferida, mas concedida; não é profetizada, mas realizada: o Pai enviou para a terra uma grande carga de misericórdia; uma carga que será aberta na paixão, para que o preço do nosso resgate, contido nela, se derrame... sob o véu da humanidade (de Cristo), a misericórdia divina foi conhecida, pois quando a humanidade de Deus se revelou, a sua misericórdia já não pôde permanecer oculta. De que maneira Deus poderia manifestar melhor o seu amor do que assumindo a nossa própria carne?... Que o homem compreenda, portanto, até que ponto Deus cuida dele; que reflita sobre o que Deus pensa e sente por ele...”
A grande prova do amor misericordioso de Deus por nós, entre outras, é a cena da Cruz. Para o Papa João Paulo II “A cruz, inclusive depois da ressurreição do Filho de Deus, "fala e não cessa nunca de dizer que Deus Pai é absolutamente fiel ao seu eterno amor pelo homem (...) Crer nesse amor significa crer na misericórdia" (João Paulo II, Dives in misericordia). O amor gera kenose, que por sua vez, emerge a entrega como perdão. Segundo São Leão Magno, “ o aniquilamento pelo qual passou, o salvador, por causa da restauração humana foi dispensação de misericórdia e não privação de poder” ( segundo sermão sobre a ressurreição do Senhor, p. 166). A prova de misericórdia de Deus por nós é a entrega do seu filho para o perdão dos pecadores. Somente o dom misericordioso poder gerar o perdão. Como pelo pleno amor-perdão, o esvaziamento encontra nele a plenitude, pois o invisível tornou-se visível. Por misericórdia, o supratemporal fê-lo temporal, o impassível assumiu a passividade, o rico fez-se pobre, o forte fez-se fraco para que na sua fraqueza o homem se tornasse deus! e nisso reconhecemos o poder de Deus: pois, “a força, porém, não haveria de se consumir na fraqueza, mas a fraqueza se transformaria em poder incorruptível” ( S. Leão Magno, segundo sermão sobre a ressurreição do Senhor, p. 166).
Neste sentido, o evangelho de hoje nos ajuda a captar plenamente o sentido e o valor deste dom. O evangelista São João nos faz compartilhar a emoção que os apóstolos experimentaram durante o encontro com Cristo, depois da sua ressurreição. A nossa atenção se fixa num gesto do mestre, que transmite aos discípulos temerosos e atônitos a missão de serem ministros da misericórdia divina. Mostra-lhes as mãos e o lado com os sinais da paixão e diz: "Como o Pai me enviou, também eu vos envio" (Jo 20, 21). Depois dessas palavras, soprou sobre eles dizendo: "Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; a quem não os perdoardes, serão retidos" (Jo 20, 22-23). “Jesus lhes dá o dom de "perdoar os pecados", um dom que brota das chagas de suas mãos e de seus pés e, sobretudo, de seu lado perfurado. A partir daí, uma onda de misericórdia inunda toda a humanidade” (João Paulo II, homilia do domingo da misericórdia, em 2001). É por isso que dizia São Cipriano de Cartago, que a paz fruto do perdão é o maior dom do Cristianismo. Um cristianismo que não brota o perdão é por natura um anticristo, pois macula a raiz da experiência cristã, que constitui no perdão e na paz.
A novidade da história humana que transmite o cristianismo é essa mensagem de perdão e misericórdia que geram a paz. Essa novidade deve transparecer na comunidade dos renovados pelo batismo. Por isso, a renovação pascal não compreende apenas um revigoramento interior, nem apenas um retornar de algumas boas práticas. Temos de compor um peça nova, sendo uma nova estrutura que atinja o profundo do ser. Daí a mensagem de Jesus ao encontrar os discípulos: a paz esteja convosco! Ora, não há paz onde não existe perdão. Por isso, a missão de quem promove a paz é construir uma comunidade de perdão e misericórdia. Essa missão foi e é sempre atual. Páscoa é isso: misericórdia que promove a paz!!

Pe. Fantico Nonato Silva Borges

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Discípulos e Missionários de Jesus Cristo

Dom Benedito Beni dos Santos
Bispo Auxiliar de São Paulo

Introdução
Pretendo apresentar uma breve reflexão sobre o Documento de Participação à Quinta Assembléia do Episcopado da América Latina e do Caribe. Existe uma continuidade entre as cinco Assembléias. Todas elas tiveram, como objetivo, a evangelização. A próxima vai reforçar ainda mais esse objetivo, pois trata-se, em última análise, de promover uma grande missão em toda a América Latina e Caribe. As cinco Assembléias expressam, de certo modo, a tradição pastoral das Igrejas do nosso continente. Fonte próxima dessa tradição é o Concílio Ecumênico Vaticano. Na doutrina do Concílio, não só encontramos uma nova eclesiologia, mas, na realidade, um projeto eclesiológico.
Esse projeto eclesiológico foi assumido, pela primeira vez, e contextualizado, na América Latina, pela Assembléia de Medellín. Medellín procurou sublinhar a presença dos pobres na Igreja. Trata-se de uma presença que leva a Igreja a redefinir sua presença no mundo. Suas prioridades pastorais e, às vezes, até mesmo, o seu modo de organizar-se. Os pobres merecem uma atenção especial da Igreja, comunidade do seguimento de Jesus. A partir de Medellín, começou-se a falar da evangélica opção pelos pobres como uma das fontes inspiradora da missão evangelizadora da Igreja e de sua pastoral. A Igreja quer ser de todos, dizia João XXIII, mas, de modo especial, dos pobres.
O Vaticano II apresentou, como marca sua, a eclesiologia de comunhão. Nessa esteira, Medellín procurou acentuar a dimensão comunitária na organização da Igreja. A Igreja, organizada em forma de paróquia ou de pequenas comunidades, deve oferecer um espaço para o desenvolvimento de relações intersubjetivas: proximidade, conhecimento, amizade, fraternidade, luta em comum. Mais tarde, com essa mesma inspiração do Vaticano II, João Paulo II, vai dizer que a Igreja deve ser a escola da comunhão. Trata-se de uma escola que educa para a comunhão pela própria vivência, pelo modo de se organizar. Comunhão que é fruto não simplesmente de um esforço voluntarista, mas da ação da graça. Portanto, comunhão que implica vida de fé, vida sacramental e orante. Sobretudo, vida eucarística.
Medellín, seguindo ainda o projeto eclesiológico do Vaticano II, procurou sublinhar a face laical da Igreja no sentido teológico. A vocação e a missão do leigo se fundamentam no batismo e na confirmação e, de modo complementar, no sacramento do matrimônio. Os leigos não são apenas destinatários da missão da Igreja. São também sujeito eclesial. São também responsáveis pela vida eclesial. Mesmo onde não é possível a presença direta do bispo e do presbítero, deve haver uma vida eclesial, sobretudo orante e evangelizadora, coordenada pelos ministérios não ordenados.
Igreja evangelizadora é, ao mesmo tempo, militante e profética. Ela procura estar atenta à realidade, à organização da sociedade, para anunciar a Boa-Nova; denunciar o pecado e suas conseqüências no plano individual e social, em vista da conversão e da salvação.
Foi, por esse rumo, que Medellín procurou colocar em prática, na América Latina, o projeto eclesiológico do Vaticano II. Esse esforço de Medellín foi continuado e aprofundado pelas assembléias de Puebla e S. Domingo. E, agora, está sendo conscientemente assumido, alargado e aprofundado, pela quinta Assembléia, a ser realizada em Aparecida do Norte, em 2007. Trata-se de uma tradição pastoral que, cada vez mais, vai se consolidando e aprofundando.
Com ouvido colado no coração de Deus
Os textos do Magistério da Igreja, de natureza pastoral, têm procurado sempre apresentar uma visão da realidade. As práticas pastorais precisam ser respostas adequadas à realidade em que a Igreja está inserida. O Documento de Participação à Quinta Assembléia apresenta a visão da realidade latino-americana no capítulo quarto e não no início. Trata-se apenas de uma preferência metodológica. Creio, porém, que a visão da realidade, apresentada como ponto de partida, ajuda a compreender melhor não só as práticas pastorais propostas pelo texto, mas também o seu conteúdo antropológico, histórico, bíblico e teológico.
A perspectiva para a visão da realidade, adotada pelo DP, é bonita e significativa: “Devemos olhar a realidade com o ouvido colado no coração de Deus e a mão no pulso do tempo”(96). Só essa perspectiva nos permite, de fato, olhar a realidade não só pela superfície, como mero dado empírico, mas, para além do empírico, procurando descobrir o seu sentido. Em nosso caso, o seu sentido teológico, isto é, os sinais do tempo.
O Documento faz um elenco de fatos, que já foram levados em consideração pelas últimas Assembléias, mas que persistem até aos nossos dias. Por exemplo, a pobreza, a educação funcionalista, o narcotráfico e o uso de drogas; no campo político, o não cumprimento das promessas de campanha, a corrupção e o enfraquecimento do poder do Estado. Alguns desses males até se agravaram. No campo religioso, alguns males se tornaram mais agudos: secularismo, laicismo militante, que hoje se manifesta publicamente com um grau forte de agressividade com relação à Igreja. Laicismo autoritário que nega à Igreja o direito de manifestar publicamente suas convicções em questões morais e políticas. Esse laicismo se esquece de que a Igreja é uma instituição da sociedade civil e, por isso mesmo, tem o direito de manifestar suas convicções e lutar democraticamente para que elas sejam adotadas no plano jurídico.
Outros componentes da realidade são novos, pelo menos com relação à intensidade com que se manifestam. Recordemos, a título de exemplo, a investigação genética que, cada dia, surpreende a todos com novas descobertas. Essas investigações são promissoras no campo da saúde, mas, freqüentemente, envolvidas por problemas éticos graves. A consideração ética dessas pesquisas é necessária para evitar conseqüências desastrosas para dignidade do ser humano. O Documento cita ainda problemas referentes à ecologia natural e humana. No campo da ecologia natural, houve um progresso significativo no sentido não só de preservar a natureza e dela cuidar, mas, em alguns casos, de até mesmo salvá-la. No campo da ecologia humana, o progresso não foi tão significativo, pois acentuou-se o enfraquecimento da identidade do matrimônio e da família. Difunde-se cada vez mais os postulados de uma ética individualista, acompanhada do relativismo moral.
No plano especificamente religioso, o Documento de Participação se refere, diversas vezes, ao substrato católico de nossa cultura, resultado da presença evangelizadora da Igreja no continente, desde de seu início. Expressões desse substrato católico são, por exemplo, o sentido radical da existência presente na vida do povo; a religiosidade e piedade popular em suas modalidades características; o profundo sentido da importância e do valor da família.
Alguns problemas presentes no campo religioso são, de certo modo, novos e, por isso, não foram contemplados pelas Assembléias anteriores. O DP cita o enfraquecimento da observância religiosa do domingo; a diminuição, sobretudo no meio urbano, na recepção dos sacramentos do batismo e do matrimônio; a diminuição acelerada do número de católicos e o crescimento numérico das igrejas evangélicas e seitas. Como causa desse último fenômeno, podemos citar o pluralismo religioso, que leva as pessoas a reduzir todas as igrejas e religiões a um denominador comum, como se todas fossem iguais. Por isso mesmo, o pluralismo religioso vem sempre acompanhado de uma intensa mobilidade religiosa. Mas existem causas que se encontram no interior da Igreja. O êxodo dos católicos indica que a Igreja não está evangelizando e re-evangelizando suficientemente aqueles que batiza. Indica que ela não está sendo suficientemente missionária.
A leitura da realidade presente feita pelo DP visa, pois, descobrir, na própria realidade, os desafios pastorais para que possamos encontrar, à luz da Palavra de Deus e da experiência pastoral da Igreja, respostas adequadas. Visa encontrar, na própria realidade, os sinais dos tempos, as interpelações de Deus, o Senhor da história.
2. O ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus
A primeira consideração do DP é apresentar o fundamento antropológico da missão: os desejos de vida e felicidade que existem no mais profundo do nosso ser. Mas, ao mesmo tempo, o ser humano faz a experiência de que a vida e a felicidade em plenitude superam as possibilidades simplesmente humanas. Esse desejo de vida e felicidade plena expressa a sede de Deus que existe no coração humano. De fato, o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus. Existe, nele, algo de divino. Existe uma busca de comunhão com o Divino. O salmo 12 registra essa busca: “É a vossa face, Senhor, que eu procuro”.
Por causa do pecado, essa busca de felicidade plena trilha, às vezes, caminhos errados (cf.n.4). Isso já aconteceu quando o ser humano pecou pela primeira vez. Mas, a resposta de Deus, registrada pela Revelação, consistiu em colocar novamente o ser humano no caminho certo da felicidade plena. Logo após o pecado, observa o DP, Deus não abandona o ser humano. Como Pai e Pastor o procura e lhe promete o dom da salvação. Mais ainda: faz alianças com representantes da humanidade (Abel, Noé). Dessas alianças surgem verdadeiras experiências religiosas voltadas para a adoração de Deus e a busca da salvação.
Na aliança do Sinai, Deus escolhe Israel para ser um povo missionário. Revela-se a ele, para que Israel proclame o seu nome a todos os povos da terra. Dá-lhe os dez mandamentos, que indicam o caminho certo para encontrar a felicidade. Na encarnação de seu Filho, Deus de tal modo se aproxima do ser humano que Ele mesmo se torna um ser humano. Na expressão da Gaudium et Spes, o Filho de Deus se une a cada ser humano.Não só revela Deus ao homem, mas revela o homem ao próprio homem. Revela a ele a sua dignidade sagrada e a sua vocação divina, o chamado para a vida plena. Jesus, no sermão das bem-aventuranças, programa de vida seu e de seus discípulos, proclama o novo código da felicidade. Com as bem-aventuranças, Jesus convida seus discípulos não à resignação e à passividade. Convida-os a se colocarem de pé e a percorrer no mundo um novo caminho.
A Igreja é a comunidade dos discípulos de Jesus. E a finalidade do discipulado é a missão. A primeira coisa que Jesus faz, quando inicia o seu ministério na Galiléia, é reunir discípulos. O evangelho nos mostra Jesus sempre rodeado de discípulos. Ele não cumpre a sua missão sozinho. Jesus tem discípulos não para servi-lo, mas para prepará-los, teórica e praticamente, para a missão. Os evangelhos terminam, com Jesus enviando seus discípulos em missão. A Igreja, comunidade de seus discípulos, é a continuadora de sua missão na terra. O DP recorda, a propósito, a lei do discipulado: carregar a cruz. Expressão que, na Igreja primitiva, designa o martírio. Não só o martírio de derramar o próprio sangue como testemunho de Cristo e de seu evangelho, mas, também, o testemunho de gastar a própria vida no empenho de anunciar Cristo e o evangelho. O martírio, pois, em ambos os casos, é componente da missão. É um ato evangelizador.
Ao mostrar o fundamento antropológico da missão -o desejo de vida e felicidade plena como expressão da sede de Deus- o DP quer mostrar que a missão não é uma superestrutura, algo acrescentado à vida de um povo, à sua cultura. A missão é resposta a uma busca. Existe no coração humano, como lembrou João Paulo II, a busca misteriosa de Alguém que seja, de fato, o Caminho, a Verdade e a Vida. O pedido dos gregos, registrado no quarto evangelho, expressa esse anseio misterioso: “Queremos ver Jesus”.
3. A missão: uma corrente de amizade com Deus, de vida e promoção humana
A história da Igreja na América Latina é a história da missão, isto é, desenrolar da história da salvação, expressão do desígnio salvífico de Deus. Diz o DP: “Por um sábio e bondoso desígnio da Providência divina, chegou até as terras do Continente essa corrente de amizade com Deus, de vida nova e promoção humana, que Jesus Cristo iniciou em sua Encarnação e sua Páscoa, e que o Espírito Santo, com força pentecostal, impulsiona ao longo dos séculos” (n.21).
A missão não se inicia jamais a partir da estaca zero. O primeiro missionário é o Espírito Santo. Ele chega antes de qualquer missionário humano para preparar o terreno, nele espargindo as sementes do Verbo, a que se referem os Padres Apologetas. Semente do Verbo são aqueles valores evangélicos que o Espírito divino espalha na cultura e na vida dos povos: desejo de justiça, de paz, de fraternidade, sede de Deus, anseio misterioso de encontrar Alguém que seja, de fato, Caminho, Verdade e Vida. É neste terreno preparado pelo orvalho divino, derramado pelo Espírito, que o missionário lança a semente da Palavra de Deus. Sem essa ação preparatória do Espírito, a semente da Palavra cairia sobre o asfalto duro. Sem essa ação, a evangelização seria algo acidental na vida das pessoas. Quando o Evangelho chegou, pela primeira vez, ao nosso Continente, o Espírito Santo já havia preparado o terreno, espargindo, na vida dos povos do Continente, as sementes do Verbo. A isso faz referência o seguinte texto do DP: “Neles, as sementes do Verbo, que estavam presentes em um profundo senso religioso, esperavam o orvalho fecundo do Espírito. Eram muitos os valores que caracterizavam e que os predispunham a uma recepção mais pronta do Evangelho” (n.22).
A divina Providência, porém, usou de um outro meio, logo no início, “para abrir as portas do coração dos povos autóctones para Jesus Cristo, Boa Nova do Pai para a sua vida: a aparição da Virgem de Guadalupe” (n.23). No rosto de Maria, como afirmou João Paulo II no discurso de abertura da II Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, encarnavam-se os autênticos valores culturais indígenas.
A missão, enquanto ação humana, está envolvida não só por luzes, mas também por sombras. As vicissitudes históricas também atingem a ação missionária. O DP se refere a um verdadeiro holocausto dos indígenas realizado pela ocupação dos assim chamados colonizadores. Mas, por outro lado, houve também intrépidos lutadores pela justiça, evangelizadores da paz (cf.n.25).
A missão, conforme nos mostra o livro dos Atos, encontra sempre obstáculos. Vence-os, porém, na força do Espírito. Também, na América Latina, a ação missionária sempre encontrou obstáculos, até mesmo crises eclesiais. A fundação do CELAM, em 1955, e as diversas assembléias do episcopado por ele promovidas tem sido instrumentos para promover a missão e ajudá-la a vencer os obstáculos.
A missão evangelizadora da Igreja foi enriquecida ultimamente com diversos dons da bondade e sabedoria do Pai. O DP cita, de modo especial, a realização do Concílio Ecumênico Vaticano II que fez surgir, am toda América latina, paróquias missionárias, ministros da Palavra, renovação litúrgica, valorização da piedade popular, diáconos permanentes, pastoral presbiteral, diálogo ecumênico e inter-religioso, dinamização da pastoral da juventude e da pastoral vocacional. Dons da bondade e sabedoria do Pai, foram ainda, segundo o DP, a opção preferencial pelos pobres, a teologia da libertação e a nova evangelização, lançada pelo Papa João Paulo II. Seu pontificado foi também um grande dom da bondade e sabedoria do Pai (cf.n.33).
Em resumo, com sua ação missionária, a Igreja procurou, desde do início, dar uma resposta àqueles que buscavam, às apalpadelas, satisfazer à sede de busca de sentido, felicidade e transcendência (cf. n.32).
4. Discípulos e missionários
O cristianismo não é, antes de tudo, uma doutrina. Ele teve origem num acontecimento: a encarnação do Filho de Deus: “Quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho ao mundo, o qual nasceu de uma mulher”. Na encarnação de seu Filho, Deus de tal modo se aproximou do ser humano que Ele mesmo se tornou um ser humano. O cristianismo se iniciou nesse encontro. Esse encontro, como recorda o DP, é a razão da nossa fé. A Igreja vive desse encontro. Ele revela quem nós somos, de onde viemos e para onde vamos. A missão da Igreja é levar todos ao encontro com Jesus. Esse encontro, como mostra o episódio da Samaritana, de Zaqueu, leva a uma revisão de vida e à conversão. Esse encontro é a fonte do discipulado e da missão.
O evangelho mostra que ser discípulo de Jesus é fruto de uma vocação. É ele quem chama. A resposta só é possível através da ação da graça: “Ninguém pode vir a mim, se o Pai não o atrair”. A resposta é algo muito profundo: consiste em encontrar-se com Jesus e acolhê-lo em nossa vida. Isso muda o rumo da vida da pessoa. A acolhida de Jesus em nossa vida, implica também em viver de acordo com os seus ensinamentos. Jesus é também mestre.
Jesus reúne discípulos não para servi-lo, mas para prepará-los para a missão. A finalidade do discipulado é a missão. Por isso, a Igreja é uma comunidade de comunhão com Cristo em vista da missão. A dimensão comunitária e a dimensão missionária são as características principais da Igreja. A partir daí, podemos compreender a importância da Eucaristia. “Para que essa comunhão com ele fosse cada vez mais plena, Jesus Cristo se entregou a seus discípulos como o Pão da vida eterna e os convidou na Eucaristia a participar de sua páscoa” (n.52). É na Eucaristia que a Igreja expressa a sua identidade e nela cresce. Como mostra o episódio de Emaús, a missão tem a sua fonte principal no encontro com o Cristo vivo presente na Eucaristia. A Eucaristia alimenta a missão: “Eu estarei convosco todos os dias até o final dos tempos”. Jesus pronunciou essas palavras, ao enviar os apóstolos em missão. A Eucaristia é também o objetivo da missão: levar a todos ao encontro com o Cristo vivo para que se tornem seus discípulos e missionários.
5. Para que nele nossos povos tenham vida
Esse é o título do último capítulo do DP. Trata da atividade pastoral. É por meio da pastoral que a o anúncio da Boa Nova se torna boa realidade para os que procuram um sentido para vida; para os que tem fome de Deus; para os pobres e todos os que sofrem. O DP ensina que Igreja, Eucaristia e amor ao próximo são inseparáveis. O amor ao próximo prolonga a diaconia de Cristo.
À semelhança do livro dos Atos que ficou de certo modo inacabado para mostrar que a missão deve continuar, também o DP está um pouco inacabado. O último capítulo não está pronto. Ele deve ser escrito com a contribuição de todas as comunidades da América Latina e do Caribe. Trata-se, agora, de elaborar as práticas pastorais e missionárias para todo o Continente. O DP enumera apenas alguns núcleos para despertar a criatividade:
Formação de discípulos e missionários
Existe ainda muito descuido, sobretudo, na formação dos leigos para a missão. Esta é uma das causas da diminuição do número de católicos, do abandono da prática dos sacramentos: batismo, crisma e matrimônio. Nossas paróquias precisam ser não só comunidades de acolhida, mas também comunidades missionárias, comunidades que vão ao encontro. A vida das paróquias precisa girar não só em torno do eixo sacramental, mas, igualmente, do eixo da Palavra. Formação mais intensa de discípulos e missionários. Está aí um grande desafio.
Defesa e promoção da vida
Nunca a vida dos inocentes esteve tão ameaçada como em nossos dias. Muitos se esquecem de uma verdade simples e evidente: como a vida é um dom fundamental e sagrado, cada ser humano deve ser um servidor da vida, da vida sua e da vida de qualquer ser humano. Servidor da vida que apenas está se iniciando e também da vida em desenvolvimento. Servidor da vida que nasce plena e forte, mas também servidor da vida que nasce frágil e com defeito. Servidor da vida em seu início, mas também servidor da vida que está se aproximando de seu fim natural. Servidor e defensor da vida devem ser os agentes do Estado de direito, pois a essência da missão do Estado é a defesa e a promoção da vida.
A defesa da vida é um valor suprapartidário, no sentido que deve inspirar qualquer política que esteja a serviço da pessoa humana e da sociedade. É também um valor supra -religioso. A inviolabilidade da vida humana, desde seu início até o seu fim natural, é uma questão de direito natural. Os cristãos encontram em sua fé um motivo a mais para defender esse direito. Não se trata, pois, de impor à sociedade ou ao Estado laico uma convicção religiosa, mas levá-lo a respeitar um direito do ser humano. A Igreja, enquanto instituição da sociedade civil, não só pode, mas tem o dever de assim agir.Grande missão continental
Aqui se encontra, a meu ver, a grande intuição do DP. Através da Quinta Conferência, envolver toda a Igreja numa grande missão continental. Neste sentido, a Conferência de Aparecida, não só estará continuando a tradição das Assembléias precedentes, mas realizando um salto qualitativo, que mudará a face pastoral da Igreja e aprofundará a sua presença na sociedade. Para isso, é necessário um empenho de todos a começar desde agora, desde essa fase de preparação que está se iniciando.

Discípulos e Missionários de Jesus Cristo

Discípulos e Missionários de Jesus Cristo

Dom Benedito Beni dos Santos
Bispo Auxiliar de São Paulo

Introdução
Pretendo apresentar uma breve reflexão sobre o Documento de Participação à Quinta Assembléia do Episcopado da América Latina e do Caribe. Existe uma continuidade entre as cinco Assembléias. Todas elas tiveram, como objetivo, a evangelização. A próxima vai reforçar ainda mais esse objetivo, pois trata-se, em última análise, de promover uma grande missão em toda a América Latina e Caribe. As cinco Assembléias expressam, de certo modo, a tradição pastoral das Igrejas do nosso continente. Fonte próxima dessa tradição é o Concílio Ecumênico Vaticano. Na doutrina do Concílio, não só encontramos uma nova eclesiologia, mas, na realidade, um projeto eclesiológico.
Esse projeto eclesiológico foi assumido, pela primeira vez, e contextualizado, na América Latina, pela Assembléia de Medellín. Medellín procurou sublinhar a presença dos pobres na Igreja. Trata-se de uma presença que leva a Igreja a redefinir sua presença no mundo. Suas prioridades pastorais e, às vezes, até mesmo, o seu modo de organizar-se. Os pobres merecem uma atenção especial da Igreja, comunidade do seguimento de Jesus. A partir de Medellín, começou-se a falar da evangélica opção pelos pobres como uma das fontes inspiradora da missão evangelizadora da Igreja e de sua pastoral. A Igreja quer ser de todos, dizia João XXIII, mas, de modo especial, dos pobres.
O Vaticano II apresentou, como marca sua, a eclesiologia de comunhão. Nessa esteira, Medellín procurou acentuar a dimensão comunitária na organização da Igreja. A Igreja, organizada em forma de paróquia ou de pequenas comunidades, deve oferecer um espaço para o desenvolvimento de relações intersubjetivas: proximidade, conhecimento, amizade, fraternidade, luta em comum. Mais tarde, com essa mesma inspiração do Vaticano II, João Paulo II, vai dizer que a Igreja deve ser a escola da comunhão. Trata-se de uma escola que educa para a comunhão pela própria vivência, pelo modo de se organizar. Comunhão que é fruto não simplesmente de um esforço voluntarista, mas da ação da graça. Portanto, comunhão que implica vida de fé, vida sacramental e orante. Sobretudo, vida eucarística.
Medellín, seguindo ainda o projeto eclesiológico do Vaticano II, procurou sublinhar a face laical da Igreja no sentido teológico. A vocação e a missão do leigo se fundamentam no batismo e na confirmação e, de modo complementar, no sacramento do matrimônio. Os leigos não são apenas destinatários da missão da Igreja. São também sujeito eclesial. São também responsáveis pela vida eclesial. Mesmo onde não é possível a presença direta do bispo e do presbítero, deve haver uma vida eclesial, sobretudo orante e evangelizadora, coordenada pelos ministérios não ordenados.
Igreja evangelizadora é, ao mesmo tempo, militante e profética. Ela procura estar atenta à realidade, à organização da sociedade, para anunciar a Boa-Nova; denunciar o pecado e suas conseqüências no plano individual e social, em vista da conversão e da salvação.
Foi, por esse rumo, que Medellín procurou colocar em prática, na América Latina, o projeto eclesiológico do Vaticano II. Esse esforço de Medellín foi continuado e aprofundado pelas assembléias de Puebla e S. Domingo. E, agora, está sendo conscientemente assumido, alargado e aprofundado, pela quinta Assembléia, a ser realizada em Aparecida do Norte, em 2007. Trata-se de uma tradição pastoral que, cada vez mais, vai se consolidando e aprofundando.
1. Com ouvido colado no coração de Deus
Os textos do Magistério da Igreja, de natureza pastoral, têm procurado sempre apresentar uma visão da realidade. As práticas pastorais precisam ser respostas adequadas à realidade em que a Igreja está inserida. O Documento de Participação à Quinta Assembléia apresenta a visão da realidade latino-americana no capítulo quarto e não no início. Trata-se apenas de uma preferência metodológica. Creio, porém, que a visão da realidade, apresentada como ponto de partida, ajuda a compreender melhor não só as práticas pastorais propostas pelo texto, mas também o seu conteúdo antropológico, histórico, bíblico e teológico.
A perspectiva para a visão da realidade, adotada pelo DP, é bonita e significativa: “Devemos olhar a realidade com o ouvido colado no coração de Deus e a mão no pulso do tempo”(96). Só essa perspectiva nos permite, de fato, olhar a realidade não só pela superfície, como mero dado empírico, mas, para além do empírico, procurando descobrir o seu sentido. Em nosso caso, o seu sentido teológico, isto é, os sinais do tempo.
O Documento faz um elenco de fatos, que já foram levados em consideração pelas últimas Assembléias, mas que persistem até aos nossos dias. Por exemplo, a pobreza, a educação funcionalista, o narcotráfico e o uso de drogas; no campo político, o não cumprimento das promessas de campanha, a corrupção e o enfraquecimento do poder do Estado. Alguns desses males até se agravaram. No campo religioso, alguns males se tornaram mais agudos: secularismo, laicismo militante, que hoje se manifesta publicamente com um grau forte de agressividade com relação à Igreja. Laicismo autoritário que nega à Igreja o direito de manifestar publicamente suas convicções em questões morais e políticas. Esse laicismo se esquece de que a Igreja é uma instituição da sociedade civil e, por isso mesmo, tem o direito de manifestar suas convicções e lutar democraticamente para que elas sejam adotadas no plano jurídico.
Outros componentes da realidade são novos, pelo menos com relação à intensidade com que se manifestam. Recordemos, a título de exemplo, a investigação genética que, cada dia, surpreende a todos com novas descobertas. Essas investigações são promissoras no campo da saúde, mas, freqüentemente, envolvidas por problemas éticos graves. A consideração ética dessas pesquisas é necessária para evitar conseqüências desastrosas para dignidade do ser humano. O Documento cita ainda problemas referentes à ecologia natural e humana. No campo da ecologia natural, houve um progresso significativo no sentido não só de preservar a natureza e dela cuidar, mas, em alguns casos, de até mesmo salvá-la. No campo da ecologia humana, o progresso não foi tão significativo, pois acentuou-se o enfraquecimento da identidade do matrimônio e da família. Difunde-se cada vez mais os postulados de uma ética individualista, acompanhada do relativismo moral.
No plano especificamente religioso, o Documento de Participação se refere, diversas vezes, ao substrato católico de nossa cultura, resultado da presença evangelizadora da Igreja no continente, desde de seu início. Expressões desse substrato católico são, por exemplo, o sentido radical da existência presente na vida do povo; a religiosidade e piedade popular em suas modalidades características; o profundo sentido da importância e do valor da família.
Alguns problemas presentes no campo religioso são, de certo modo, novos e, por isso, não foram contemplados pelas Assembléias anteriores. O DP cita o enfraquecimento da observância religiosa do domingo; a diminuição, sobretudo no meio urbano, na recepção dos sacramentos do batismo e do matrimônio; a diminuição acelerada do número de católicos e o crescimento numérico das igrejas evangélicas e seitas. Como causa desse último fenômeno, podemos citar o pluralismo religioso, que leva as pessoas a reduzir todas as igrejas e religiões a um denominador comum, como se todas fossem iguais. Por isso mesmo, o pluralismo religioso vem sempre acompanhado de uma intensa mobilidade religiosa. Mas existem causas que se encontram no interior da Igreja. O êxodo dos católicos indica que a Igreja não está evangelizando e re-evangelizando suficientemente aqueles que batiza. Indica que ela não está sendo suficientemente missionária.
A leitura da realidade presente feita pelo DP visa, pois, descobrir, na própria realidade, os desafios pastorais para que possamos encontrar, à luz da Palavra de Deus e da experiência pastoral da Igreja, respostas adequadas. Visa encontrar, na própria realidade, os sinais dos tempos, as interpelações de Deus, o Senhor da história.
2. O ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus
A primeira consideração do DP é apresentar o fundamento antropológico da missão: os desejos de vida e felicidade que existem no mais profundo do nosso ser. Mas, ao mesmo tempo, o ser humano faz a experiência de que a vida e a felicidade em plenitude superam as possibilidades simplesmente humanas. Esse desejo de vida e felicidade plena expressa a sede de Deus que existe no coração humano. De fato, o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus. Existe, nele, algo de divino. Existe uma busca de comunhão com o Divino. O salmo 12 registra essa busca: “É a vossa face, Senhor, que eu procuro”.
Por causa do pecado, essa busca de felicidade plena trilha, às vezes, caminhos errados (cf.n.4). Isso já aconteceu quando o ser humano pecou pela primeira vez. Mas, a resposta de Deus, registrada pela Revelação, consistiu em colocar novamente o ser humano no caminho certo da felicidade plena. Logo após o pecado, observa o DP, Deus não abandona o ser humano. Como Pai e Pastor o procura e lhe promete o dom da salvação. Mais ainda: faz alianças com representantes da humanidade (Abel, Noé). Dessas alianças surgem verdadeiras experiências religiosas voltadas para a adoração de Deus e a busca da salvação.
Na aliança do Sinai, Deus escolhe Israel para ser um povo missionário. Revela-se a ele, para que Israel proclame o seu nome a todos os povos da terra. Dá-lhe os dez mandamentos, que indicam o caminho certo para encontrar a felicidade. Na encarnação de seu Filho, Deus de tal modo se aproxima do ser humano que Ele mesmo se torna um ser humano. Na expressão da Gaudium et Spes, o Filho de Deus se une a cada ser humano.Não só revela Deus ao homem, mas revela o homem ao próprio homem. Revela a ele a sua dignidade sagrada e a sua vocação divina, o chamado para a vida plena. Jesus, no sermão das bem-aventuranças, programa de vida seu e de seus discípulos, proclama o novo código da felicidade. Com as bem-aventuranças, Jesus convida seus discípulos não à resignação e à passividade. Convida-os a se colocarem de pé e a percorrer no mundo um novo caminho.
A Igreja é a comunidade dos discípulos de Jesus. E a finalidade do discipulado é a missão. A primeira coisa que Jesus faz, quando inicia o seu ministério na Galiléia, é reunir discípulos. O evangelho nos mostra Jesus sempre rodeado de discípulos. Ele não cumpre a sua missão sozinho. Jesus tem discípulos não para servi-lo, mas para prepará-los, teórica e praticamente, para a missão. Os evangelhos terminam, com Jesus enviando seus discípulos em missão. A Igreja, comunidade de seus discípulos, é a continuadora de sua missão na terra. O DP recorda, a propósito, a lei do discipulado: carregar a cruz. Expressão que, na Igreja primitiva, designa o martírio. Não só o martírio de derramar o próprio sangue como testemunho de Cristo e de seu evangelho, mas, também, o testemunho de gastar a própria vida no empenho de anunciar Cristo e o evangelho. O martírio, pois, em ambos os casos, é componente da missão. É um ato evangelizador.
Ao mostrar o fundamento antropológico da missão -o desejo de vida e felicidade plena como expressão da sede de Deus- o DP quer mostrar que a missão não é uma superestrutura, algo acrescentado à vida de um povo, à sua cultura. A missão é resposta a uma busca. Existe no coração humano, como lembrou João Paulo II, a busca misteriosa de Alguém que seja, de fato, o Caminho, a Verdade e a Vida. O pedido dos gregos, registrado no quarto evangelho, expressa esse anseio misterioso: “Queremos ver Jesus”.
3. A missão: uma corrente de amizade com Deus, de vida e promoção humana
A história da Igreja na América Latina é a história da missão, isto é, desenrolar da história da salvação, expressão do desígnio salvífico de Deus. Diz o DP: “Por um sábio e bondoso desígnio da Providência divina, chegou até as terras do Continente essa corrente de amizade com Deus, de vida nova e promoção humana, que Jesus Cristo iniciou em sua Encarnação e sua Páscoa, e que o Espírito Santo, com força pentecostal, impulsiona ao longo dos séculos” (n.21).
A missão não se inicia jamais a partir da estaca zero. O primeiro missionário é o Espírito Santo. Ele chega antes de qualquer missionário humano para preparar o terreno, nele espargindo as sementes do Verbo, a que se referem os Padres Apologetas. Semente do Verbo são aqueles valores evangélicos que o Espírito divino espalha na cultura e na vida dos povos: desejo de justiça, de paz, de fraternidade, sede de Deus, anseio misterioso de encontrar Alguém que seja, de fato, Caminho, Verdade e Vida. É neste terreno preparado pelo orvalho divino, derramado pelo Espírito, que o missionário lança a semente da Palavra de Deus. Sem essa ação preparatória do Espírito, a semente da Palavra cairia sobre o asfalto duro. Sem essa ação, a evangelização seria algo acidental na vida das pessoas. Quando o Evangelho chegou, pela primeira vez, ao nosso Continente, o Espírito Santo já havia preparado o terreno, espargindo, na vida dos povos do Continente, as sementes do Verbo. A isso faz referência o seguinte texto do DP: “Neles, as sementes do Verbo, que estavam presentes em um profundo senso religioso, esperavam o orvalho fecundo do Espírito. Eram muitos os valores que caracterizavam e que os predispunham a uma recepção mais pronta do Evangelho” (n.22).
A divina Providência, porém, usou de um outro meio, logo no início, “para abrir as portas do coração dos povos autóctones para Jesus Cristo, Boa Nova do Pai para a sua vida: a aparição da Virgem de Guadalupe” (n.23). No rosto de Maria, como afirmou João Paulo II no discurso de abertura da II Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, encarnavam-se os autênticos valores culturais indígenas.
A missão, enquanto ação humana, está envolvida não só por luzes, mas também por sombras. As vicissitudes históricas também atingem a ação missionária. O DP se refere a um verdadeiro holocausto dos indígenas realizado pela ocupação dos assim chamados colonizadores. Mas, por outro lado, houve também intrépidos lutadores pela justiça, evangelizadores da paz (cf.n.25).
A missão, conforme nos mostra o livro dos Atos, encontra sempre obstáculos. Vence-os, porém, na força do Espírito. Também, na América Latina, a ação missionária sempre encontrou obstáculos, até mesmo crises eclesiais. A fundação do CELAM, em 1955, e as diversas assembléias do episcopado por ele promovidas tem sido instrumentos para promover a missão e ajudá-la a vencer os obstáculos.
A missão evangelizadora da Igreja foi enriquecida ultimamente com diversos dons da bondade e sabedoria do Pai. O DP cita, de modo especial, a realização do Concílio Ecumênico Vaticano II que fez surgir, am toda América latina, paróquias missionárias, ministros da Palavra, renovação litúrgica, valorização da piedade popular, diáconos permanentes, pastoral presbiteral, diálogo ecumênico e inter-religioso, dinamização da pastoral da juventude e da pastoral vocacional. Dons da bondade e sabedoria do Pai, foram ainda, segundo o DP, a opção preferencial pelos pobres, a teologia da libertação e a nova evangelização, lançada pelo Papa João Paulo II. Seu pontificado foi também um grande dom da bondade e sabedoria do Pai (cf.n.33).
Em resumo, com sua ação missionária, a Igreja procurou, desde do início, dar uma resposta àqueles que buscavam, às apalpadelas, satisfazer à sede de busca de sentido, felicidade e transcendência (cf. n.32).
4. Discípulos e missionários
O cristianismo não é, antes de tudo, uma doutrina. Ele teve origem num acontecimento: a encarnação do Filho de Deus: “Quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho ao mundo, o qual nasceu de uma mulher”. Na encarnação de seu Filho, Deus de tal modo se aproximou do ser humano que Ele mesmo se tornou um ser humano. O cristianismo se iniciou nesse encontro. Esse encontro, como recorda o DP, é a razão da nossa fé. A Igreja vive desse encontro. Ele revela quem nós somos, de onde viemos e para onde vamos. A missão da Igreja é levar todos ao encontro com Jesus. Esse encontro, como mostra o episódio da Samaritana, de Zaqueu, leva a uma revisão de vida e à conversão. Esse encontro é a fonte do discipulado e da missão.
O evangelho mostra que ser discípulo de Jesus é fruto de uma vocação. É ele quem chama. A resposta só é possível através da ação da graça: “Ninguém pode vir a mim, se o Pai não o atrair”. A resposta é algo muito profundo: consiste em encontrar-se com Jesus e acolhê-lo em nossa vida. Isso muda o rumo da vida da pessoa. A acolhida de Jesus em nossa vida, implica também em viver de acordo com os seus ensinamentos. Jesus é também mestre.
Jesus reúne discípulos não para servi-lo, mas para prepará-los para a missão. A finalidade do discipulado é a missão. Por isso, a Igreja é uma comunidade de comunhão com Cristo em vista da missão. A dimensão comunitária e a dimensão missionária são as características principais da Igreja. A partir daí, podemos compreender a importância da Eucaristia. “Para que essa comunhão com ele fosse cada vez mais plena, Jesus Cristo se entregou a seus discípulos como o Pão da vida eterna e os convidou na Eucaristia a participar de sua páscoa” (n.52). É na Eucaristia que a Igreja expressa a sua identidade e nela cresce. Como mostra o episódio de Emaús, a missão tem a sua fonte principal no encontro com o Cristo vivo presente na Eucaristia. A Eucaristia alimenta a missão: “Eu estarei convosco todos os dias até o final dos tempos”. Jesus pronunciou essas palavras, ao enviar os apóstolos em missão. A Eucaristia é também o objetivo da missão: levar a todos ao encontro com o Cristo vivo para que se tornem seus discípulos e missionários.
5. Para que nele nossos povos tenham vida
Esse é o título do último capítulo do DP. Trata da atividade pastoral. É por meio da pastoral que a o anúncio da Boa Nova se torna boa realidade para os que procuram um sentido para vida; para os que tem fome de Deus; para os pobres e todos os que sofrem. O DP ensina que Igreja, Eucaristia e amor ao próximo são inseparáveis. O amor ao próximo prolonga a diaconia de Cristo.
À semelhança do livro dos Atos que ficou de certo modo inacabado para mostrar que a missão deve continuar, também o DP está um pouco inacabado. O último capítulo não está pronto. Ele deve ser escrito com a contribuição de todas as comunidades da América Latina e do Caribe. Trata-se, agora, de elaborar as práticas pastorais e missionárias para todo o Continente. O DP enumera apenas alguns núcleos para despertar a criatividade:
Formação de discípulos e missionários
Existe ainda muito descuido, sobretudo, na formação dos leigos para a missão. Esta é uma das causas da diminuição do número de católicos, do abandono da prática dos sacramentos: batismo, crisma e matrimônio. Nossas paróquias precisam ser não só comunidades de acolhida, mas também comunidades missionárias, comunidades que vão ao encontro. A vida das paróquias precisa girar não só em torno do eixo sacramental, mas, igualmente, do eixo da Palavra. Formação mais intensa de discípulos e missionários. Está aí um grande desafio.
Defesa e promoção da vida
Nunca a vida dos inocentes esteve tão ameaçada como em nossos dias. Muitos se esquecem de uma verdade simples e evidente: como a vida é um dom fundamental e sagrado, cada ser humano deve ser um servidor da vida, da vida sua e da vida de qualquer ser humano. Servidor da vida que apenas está se iniciando e também da vida em desenvolvimento. Servidor da vida que nasce plena e forte, mas também servidor da vida que nasce frágil e com defeito. Servidor da vida em seu início, mas também servidor da vida que está se aproximando de seu fim natural. Servidor e defensor da vida devem ser os agentes do Estado de direito, pois a essência da missão do Estado é a defesa e a promoção da vida.
A defesa da vida é um valor suprapartidário, no sentido que deve inspirar qualquer política que esteja a serviço da pessoa humana e da sociedade. É também um valor supra -religioso. A inviolabilidade da vida humana, desde seu início até o seu fim natural, é uma questão de direito natural. Os cristãos encontram em sua fé um motivo a mais para defender esse direito. Não se trata, pois, de impor à sociedade ou ao Estado laico uma convicção religiosa, mas levá-lo a respeitar um direito do ser humano. A Igreja, enquanto instituição da sociedade civil, não só pode, mas tem o dever de assim agir.Grande missão continental
Aqui se encontra, a meu ver, a grande intuição do DP. Através da Quinta Conferência, envolver toda a Igreja numa grande missão continental. Neste sentido, a Conferência de Aparecida, não só estará continuando a tradição das Assembléias precedentes, mas realizando um salto qualitativo, que mudará a face pastoral da Igreja e aprofundará a sua presença na sociedade. Para isso, é necessário um empenho de todos a começar desde agora, desde essa fase de preparação que está se iniciando.

Discípulos e Missionários de Jesus Cristo

Dom Benedito Beni dos Santos
Bispo Auxiliar de São Paulo

Introdução
Pretendo apresentar uma breve reflexão sobre o Documento de Participação à Quinta Assembléia do Episcopado da América Latina e do Caribe. Existe uma continuidade entre as cinco Assembléias. Todas elas tiveram, como objetivo, a evangelização. A próxima vai reforçar ainda mais esse objetivo, pois trata-se, em última análise, de promover uma grande missão em toda a América Latina e Caribe. As cinco Assembléias expressam, de certo modo, a tradição pastoral das Igrejas do nosso continente. Fonte próxima dessa tradição é o Concílio Ecumênico Vaticano. Na doutrina do Concílio, não só encontramos uma nova eclesiologia, mas, na realidade, um projeto eclesiológico.
Esse projeto eclesiológico foi assumido, pela primeira vez, e contextualizado, na América Latina, pela Assembléia de Medellín. Medellín procurou sublinhar a presença dos pobres na Igreja. Trata-se de uma presença que leva a Igreja a redefinir sua presença no mundo. Suas prioridades pastorais e, às vezes, até mesmo, o seu modo de organizar-se. Os pobres merecem uma atenção especial da Igreja, comunidade do seguimento de Jesus. A partir de Medellín, começou-se a falar da evangélica opção pelos pobres como uma das fontes inspiradora da missão evangelizadora da Igreja e de sua pastoral. A Igreja quer ser de todos, dizia João XXIII, mas, de modo especial, dos pobres.
O Vaticano II apresentou, como marca sua, a eclesiologia de comunhão. Nessa esteira, Medellín procurou acentuar a dimensão comunitária na organização da Igreja. A Igreja, organizada em forma de paróquia ou de pequenas comunidades, deve oferecer um espaço para o desenvolvimento de relações intersubjetivas: proximidade, conhecimento, amizade, fraternidade, luta em comum. Mais tarde, com essa mesma inspiração do Vaticano II, João Paulo II, vai dizer que a Igreja deve ser a escola da comunhão. Trata-se de uma escola que educa para a comunhão pela própria vivência, pelo modo de se organizar. Comunhão que é fruto não simplesmente de um esforço voluntarista, mas da ação da graça. Portanto, comunhão que implica vida de fé, vida sacramental e orante. Sobretudo, vida eucarística.
Medellín, seguindo ainda o projeto eclesiológico do Vaticano II, procurou sublinhar a face laical da Igreja no sentido teológico. A vocação e a missão do leigo se fundamentam no batismo e na confirmação e, de modo complementar, no sacramento do matrimônio. Os leigos não são apenas destinatários da missão da Igreja. São também sujeito eclesial. São também responsáveis pela vida eclesial. Mesmo onde não é possível a presença direta do bispo e do presbítero, deve haver uma vida eclesial, sobretudo orante e evangelizadora, coordenada pelos ministérios não ordenados.
Igreja evangelizadora é, ao mesmo tempo, militante e profética. Ela procura estar atenta à realidade, à organização da sociedade, para anunciar a Boa-Nova; denunciar o pecado e suas conseqüências no plano individual e social, em vista da conversão e da salvação.
Foi, por esse rumo, que Medellín procurou colocar em prática, na América Latina, o projeto eclesiológico do Vaticano II. Esse esforço de Medellín foi continuado e aprofundado pelas assembléias de Puebla e S. Domingo. E, agora, está sendo conscientemente assumido, alargado e aprofundado, pela quinta Assembléia, a ser realizada em Aparecida do Norte, em 2007. Trata-se de uma tradição pastoral que, cada vez mais, vai se consolidando e aprofundando.
Com ouvido colado no coração de Deus
Os textos do Magistério da Igreja, de natureza pastoral, têm procurado sempre apresentar uma visão da realidade. As práticas pastorais precisam ser respostas adequadas à realidade em que a Igreja está inserida. O Documento de Participação à Quinta Assembléia apresenta a visão da realidade latino-americana no capítulo quarto e não no início. Trata-se apenas de uma preferência metodológica. Creio, porém, que a visão da realidade, apresentada como ponto de partida, ajuda a compreender melhor não só as práticas pastorais propostas pelo texto, mas também o seu conteúdo antropológico, histórico, bíblico e teológico.
A perspectiva para a visão da realidade, adotada pelo DP, é bonita e significativa: “Devemos olhar a realidade com o ouvido colado no coração de Deus e a mão no pulso do tempo”(96). Só essa perspectiva nos permite, de fato, olhar a realidade não só pela superfície, como mero dado empírico, mas, para além do empírico, procurando descobrir o seu sentido. Em nosso caso, o seu sentido teológico, isto é, os sinais do tempo.
O Documento faz um elenco de fatos, que já foram levados em consideração pelas últimas Assembléias, mas que persistem até aos nossos dias. Por exemplo, a pobreza, a educação funcionalista, o narcotráfico e o uso de drogas; no campo político, o não cumprimento das promessas de campanha, a corrupção e o enfraquecimento do poder do Estado. Alguns desses males até se agravaram. No campo religioso, alguns males se tornaram mais agudos: secularismo, laicismo militante, que hoje se manifesta publicamente com um grau forte de agressividade com relação à Igreja. Laicismo autoritário que nega à Igreja o direito de manifestar publicamente suas convicções em questões morais e políticas. Esse laicismo se esquece de que a Igreja é uma instituição da sociedade civil e, por isso mesmo, tem o direito de manifestar suas convicções e lutar democraticamente para que elas sejam adotadas no plano jurídico.
Outros componentes da realidade são novos, pelo menos com relação à intensidade com que se manifestam. Recordemos, a título de exemplo, a investigação genética que, cada dia, surpreende a todos com novas descobertas. Essas investigações são promissoras no campo da saúde, mas, freqüentemente, envolvidas por problemas éticos graves. A consideração ética dessas pesquisas é necessária para evitar conseqüências desastrosas para dignidade do ser humano. O Documento cita ainda problemas referentes à ecologia natural e humana. No campo da ecologia natural, houve um progresso significativo no sentido não só de preservar a natureza e dela cuidar, mas, em alguns casos, de até mesmo salvá-la. No campo da ecologia humana, o progresso não foi tão significativo, pois acentuou-se o enfraquecimento da identidade do matrimônio e da família. Difunde-se cada vez mais os postulados de uma ética individualista, acompanhada do relativismo moral.
No plano especificamente religioso, o Documento de Participação se refere, diversas vezes, ao substrato católico de nossa cultura, resultado da presença evangelizadora da Igreja no continente, desde de seu início. Expressões desse substrato católico são, por exemplo, o sentido radical da existência presente na vida do povo; a religiosidade e piedade popular em suas modalidades características; o profundo sentido da importância e do valor da família.
Alguns problemas presentes no campo religioso são, de certo modo, novos e, por isso, não foram contemplados pelas Assembléias anteriores. O DP cita o enfraquecimento da observância religiosa do domingo; a diminuição, sobretudo no meio urbano, na recepção dos sacramentos do batismo e do matrimônio; a diminuição acelerada do número de católicos e o crescimento numérico das igrejas evangélicas e seitas. Como causa desse último fenômeno, podemos citar o pluralismo religioso, que leva as pessoas a reduzir todas as igrejas e religiões a um denominador comum, como se todas fossem iguais. Por isso mesmo, o pluralismo religioso vem sempre acompanhado de uma intensa mobilidade religiosa. Mas existem causas que se encontram no interior da Igreja. O êxodo dos católicos indica que a Igreja não está evangelizando e re-evangelizando suficientemente aqueles que batiza. Indica que ela não está sendo suficientemente missionária.
A leitura da realidade presente feita pelo DP visa, pois, descobrir, na própria realidade, os desafios pastorais para que possamos encontrar, à luz da Palavra de Deus e da experiência pastoral da Igreja, respostas adequadas. Visa encontrar, na própria realidade, os sinais dos tempos, as interpelações de Deus, o Senhor da história.
2. O ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus
A primeira consideração do DP é apresentar o fundamento antropológico da missão: os desejos de vida e felicidade que existem no mais profundo do nosso ser. Mas, ao mesmo tempo, o ser humano faz a experiência de que a vida e a felicidade em plenitude superam as possibilidades simplesmente humanas. Esse desejo de vida e felicidade plena expressa a sede de Deus que existe no coração humano. De fato, o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus. Existe, nele, algo de divino. Existe uma busca de comunhão com o Divino. O salmo 12 registra essa busca: “É a vossa face, Senhor, que eu procuro”.
Por causa do pecado, essa busca de felicidade plena trilha, às vezes, caminhos errados (cf.n.4). Isso já aconteceu quando o ser humano pecou pela primeira vez. Mas, a resposta de Deus, registrada pela Revelação, consistiu em colocar novamente o ser humano no caminho certo da felicidade plena. Logo após o pecado, observa o DP, Deus não abandona o ser humano. Como Pai e Pastor o procura e lhe promete o dom da salvação. Mais ainda: faz alianças com representantes da humanidade (Abel, Noé). Dessas alianças surgem verdadeiras experiências religiosas voltadas para a adoração de Deus e a busca da salvação.
Na aliança do Sinai, Deus escolhe Israel para ser um povo missionário. Revela-se a ele, para que Israel proclame o seu nome a todos os povos da terra. Dá-lhe os dez mandamentos, que indicam o caminho certo para encontrar a felicidade. Na encarnação de seu Filho, Deus de tal modo se aproxima do ser humano que Ele mesmo se torna um ser humano. Na expressão da Gaudium et Spes, o Filho de Deus se une a cada ser humano.Não só revela Deus ao homem, mas revela o homem ao próprio homem. Revela a ele a sua dignidade sagrada e a sua vocação divina, o chamado para a vida plena. Jesus, no sermão das bem-aventuranças, programa de vida seu e de seus discípulos, proclama o novo código da felicidade. Com as bem-aventuranças, Jesus convida seus discípulos não à resignação e à passividade. Convida-os a se colocarem de pé e a percorrer no mundo um novo caminho.
A Igreja é a comunidade dos discípulos de Jesus. E a finalidade do discipulado é a missão. A primeira coisa que Jesus faz, quando inicia o seu ministério na Galiléia, é reunir discípulos. O evangelho nos mostra Jesus sempre rodeado de discípulos. Ele não cumpre a sua missão sozinho. Jesus tem discípulos não para servi-lo, mas para prepará-los, teórica e praticamente, para a missão. Os evangelhos terminam, com Jesus enviando seus discípulos em missão. A Igreja, comunidade de seus discípulos, é a continuadora de sua missão na terra. O DP recorda, a propósito, a lei do discipulado: carregar a cruz. Expressão que, na Igreja primitiva, designa o martírio. Não só o martírio de derramar o próprio sangue como testemunho de Cristo e de seu evangelho, mas, também, o testemunho de gastar a própria vida no empenho de anunciar Cristo e o evangelho. O martírio, pois, em ambos os casos, é componente da missão. É um ato evangelizador.
Ao mostrar o fundamento antropológico da missão -o desejo de vida e felicidade plena como expressão da sede de Deus- o DP quer mostrar que a missão não é uma superestrutura, algo acrescentado à vida de um povo, à sua cultura. A missão é resposta a uma busca. Existe no coração humano, como lembrou João Paulo II, a busca misteriosa de Alguém que seja, de fato, o Caminho, a Verdade e a Vida. O pedido dos gregos, registrado no quarto evangelho, expressa esse anseio misterioso: “Queremos ver Jesus”.
3. A missão: uma corrente de amizade com Deus, de vida e promoção humana
A história da Igreja na América Latina é a história da missão, isto é, desenrolar da história da salvação, expressão do desígnio salvífico de Deus. Diz o DP: “Por um sábio e bondoso desígnio da Providência divina, chegou até as terras do Continente essa corrente de amizade com Deus, de vida nova e promoção humana, que Jesus Cristo iniciou em sua Encarnação e sua Páscoa, e que o Espírito Santo, com força pentecostal, impulsiona ao longo dos séculos” (n.21).
A missão não se inicia jamais a partir da estaca zero. O primeiro missionário é o Espírito Santo. Ele chega antes de qualquer missionário humano para preparar o terreno, nele espargindo as sementes do Verbo, a que se referem os Padres Apologetas. Semente do Verbo são aqueles valores evangélicos que o Espírito divino espalha na cultura e na vida dos povos: desejo de justiça, de paz, de fraternidade, sede de Deus, anseio misterioso de encontrar Alguém que seja, de fato, Caminho, Verdade e Vida. É neste terreno preparado pelo orvalho divino, derramado pelo Espírito, que o missionário lança a semente da Palavra de Deus. Sem essa ação preparatória do Espírito, a semente da Palavra cairia sobre o asfalto duro. Sem essa ação, a evangelização seria algo acidental na vida das pessoas. Quando o Evangelho chegou, pela primeira vez, ao nosso Continente, o Espírito Santo já havia preparado o terreno, espargindo, na vida dos povos do Continente, as sementes do Verbo. A isso faz referência o seguinte texto do DP: “Neles, as sementes do Verbo, que estavam presentes em um profundo senso religioso, esperavam o orvalho fecundo do Espírito. Eram muitos os valores que caracterizavam e que os predispunham a uma recepção mais pronta do Evangelho” (n.22).
A divina Providência, porém, usou de um outro meio, logo no início, “para abrir as portas do coração dos povos autóctones para Jesus Cristo, Boa Nova do Pai para a sua vida: a aparição da Virgem de Guadalupe” (n.23). No rosto de Maria, como afirmou João Paulo II no discurso de abertura da II Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, encarnavam-se os autênticos valores culturais indígenas.
A missão, enquanto ação humana, está envolvida não só por luzes, mas também por sombras. As vicissitudes históricas também atingem a ação missionária. O DP se refere a um verdadeiro holocausto dos indígenas realizado pela ocupação dos assim chamados colonizadores. Mas, por outro lado, houve também intrépidos lutadores pela justiça, evangelizadores da paz (cf.n.25).
A missão, conforme nos mostra o livro dos Atos, encontra sempre obstáculos. Vence-os, porém, na força do Espírito. Também, na América Latina, a ação missionária sempre encontrou obstáculos, até mesmo crises eclesiais. A fundação do CELAM, em 1955, e as diversas assembléias do episcopado por ele promovidas tem sido instrumentos para promover a missão e ajudá-la a vencer os obstáculos.
A missão evangelizadora da Igreja foi enriquecida ultimamente com diversos dons da bondade e sabedoria do Pai. O DP cita, de modo especial, a realização do Concílio Ecumênico Vaticano II que fez surgir, am toda América latina, paróquias missionárias, ministros da Palavra, renovação litúrgica, valorização da piedade popular, diáconos permanentes, pastoral presbiteral, diálogo ecumênico e inter-religioso, dinamização da pastoral da juventude e da pastoral vocacional. Dons da bondade e sabedoria do Pai, foram ainda, segundo o DP, a opção preferencial pelos pobres, a teologia da libertação e a nova evangelização, lançada pelo Papa João Paulo II. Seu pontificado foi também um grande dom da bondade e sabedoria do Pai (cf.n.33).
Em resumo, com sua ação missionária, a Igreja procurou, desde do início, dar uma resposta àqueles que buscavam, às apalpadelas, satisfazer à sede de busca de sentido, felicidade e transcendência (cf. n.32).
4. Discípulos e missionários
O cristianismo não é, antes de tudo, uma doutrina. Ele teve origem num acontecimento: a encarnação do Filho de Deus: “Quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho ao mundo, o qual nasceu de uma mulher”. Na encarnação de seu Filho, Deus de tal modo se aproximou do ser humano que Ele mesmo se tornou um ser humano. O cristianismo se iniciou nesse encontro. Esse encontro, como recorda o DP, é a razão da nossa fé. A Igreja vive desse encontro. Ele revela quem nós somos, de onde viemos e para onde vamos. A missão da Igreja é levar todos ao encontro com Jesus. Esse encontro, como mostra o episódio da Samaritana, de Zaqueu, leva a uma revisão de vida e à conversão. Esse encontro é a fonte do discipulado e da missão.
O evangelho mostra que ser discípulo de Jesus é fruto de uma vocação. É ele quem chama. A resposta só é possível através da ação da graça: “Ninguém pode vir a mim, se o Pai não o atrair”. A resposta é algo muito profundo: consiste em encontrar-se com Jesus e acolhê-lo em nossa vida. Isso muda o rumo da vida da pessoa. A acolhida de Jesus em nossa vida, implica também em viver de acordo com os seus ensinamentos. Jesus é também mestre.
Jesus reúne discípulos não para servi-lo, mas para prepará-los para a missão. A finalidade do discipulado é a missão. Por isso, a Igreja é uma comunidade de comunhão com Cristo em vista da missão. A dimensão comunitária e a dimensão missionária são as características principais da Igreja. A partir daí, podemos compreender a importância da Eucaristia. “Para que essa comunhão com ele fosse cada vez mais plena, Jesus Cristo se entregou a seus discípulos como o Pão da vida eterna e os convidou na Eucaristia a participar de sua páscoa” (n.52). É na Eucaristia que a Igreja expressa a sua identidade e nela cresce. Como mostra o episódio de Emaús, a missão tem a sua fonte principal no encontro com o Cristo vivo presente na Eucaristia. A Eucaristia alimenta a missão: “Eu estarei convosco todos os dias até o final dos tempos”. Jesus pronunciou essas palavras, ao enviar os apóstolos em missão. A Eucaristia é também o objetivo da missão: levar a todos ao encontro com o Cristo vivo para que se tornem seus discípulos e missionários.
5. Para que nele nossos povos tenham vida
Esse é o título do último capítulo do DP. Trata da atividade pastoral. É por meio da pastoral que a o anúncio da Boa Nova se torna boa realidade para os que procuram um sentido para vida; para os que tem fome de Deus; para os pobres e todos os que sofrem. O DP ensina que Igreja, Eucaristia e amor ao próximo são inseparáveis. O amor ao próximo prolonga a diaconia de Cristo.
À semelhança do livro dos Atos que ficou de certo modo inacabado para mostrar que a missão deve continuar, também o DP está um pouco inacabado. O último capítulo não está pronto. Ele deve ser escrito com a contribuição de todas as comunidades da América Latina e do Caribe. Trata-se, agora, de elaborar as práticas pastorais e missionárias para todo o Continente. O DP enumera apenas alguns núcleos para despertar a criatividade:
Formação de discípulos e missionários
Existe ainda muito descuido, sobretudo, na formação dos leigos para a missão. Esta é uma das causas da diminuição do número de católicos, do abandono da prática dos sacramentos: batismo, crisma e matrimônio. Nossas paróquias precisam ser não só comunidades de acolhida, mas também comunidades missionárias, comunidades que vão ao encontro. A vida das paróquias precisa girar não só em torno do eixo sacramental, mas, igualmente, do eixo da Palavra. Formação mais intensa de discípulos e missionários. Está aí um grande desafio.
Defesa e promoção da vida
Nunca a vida dos inocentes esteve tão ameaçada como em nossos dias. Muitos se esquecem de uma verdade simples e evidente: como a vida é um dom fundamental e sagrado, cada ser humano deve ser um servidor da vida, da vida sua e da vida de qualquer ser humano. Servidor da vida que apenas está se iniciando e também da vida em desenvolvimento. Servidor da vida que nasce plena e forte, mas também servidor da vida que nasce frágil e com defeito. Servidor da vida em seu início, mas também servidor da vida que está se aproximando de seu fim natural. Servidor e defensor da vida devem ser os agentes do Estado de direito, pois a essência da missão do Estado é a defesa e a promoção da vida.
A defesa da vida é um valor suprapartidário, no sentido que deve inspirar qualquer política que esteja a serviço da pessoa humana e da sociedade. É também um valor supra -religioso. A inviolabilidade da vida humana, desde seu início até o seu fim natural, é uma questão de direito natural. Os cristãos encontram em sua fé um motivo a mais para defender esse direito. Não se trata, pois, de impor à sociedade ou ao Estado laico uma convicção religiosa, mas levá-lo a respeitar um direito do ser humano. A Igreja, enquanto instituição da sociedade civil, não só pode, mas tem o dever de assim agir.Grande missão continental
Aqui se encontra, a meu ver, a grande intuição do DP. Através da Quinta Conferência, envolver toda a Igreja numa grande missão continental. Neste sentido, a Conferência de Aparecida, não só estará continuando a tradição das Assembléias precedentes, mas realizando um salto qualitativo, que mudará a face pastoral da Igreja e aprofundará a sua presença na sociedade. Para isso, é necessário um empenho de todos a começar desde agora, desde essa fase de preparação que está se iniciando.

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Homilia do XVIII Domingo do Tempo Comum (Ano C) Um homem vem a Jesus pedindo que diga ao irmão que reparta consigo a herança. Depois ...